terça-feira, 30 de novembro de 2010

A BELA E O MONSTRO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Beauty and the Beast
Realização:
Gary Trousdale e Kirk Wise

Filme de Animação


Crítica:

O CASTELO ENCANTADO

Quando a última pétala cair, sem que o amor triunfe, a maldição tornar-se-á perpétua. É este o mote para mais uma fabulosa e adorável história de encantar da Disney. Desde Era Uma Vez... a E Viveram Felizes para Sempre... o estúdio cristalizou o imaginário infantil de gerações inteiras, ao longo de décadas. A Bela e o Monstro é, porventura, dos maiores hinos à beleza interior.

Once upon a time, in a faraway land... A young prince lived in a shining castle. Although he had everything his heart desired, the prince was spoiled, selfish, and unkind. But then, one winter's night, an old beggar woman came to the castle and offered him a single rose in return for shelter from the bitter cold. Repulsed by her haggard appearance, the prince sneered at the gift and turned the old woman away. But she warned him not to be deceived by appearances, for beauty is found within. And when he dismissed her again, the old woman's ugliness melted away to reveal a beautiful enchantress. The prince tried to apologize, but it was too late, for she had seen that there was no love in his heart. And as punishment, she transformed him into a hideous beast and placed a powerful spell on the castle and all who lived there.

Da radiosa aldeia, ao negrume da floresta e a todo o goticismo do castelo, a obra conta com um extraordinário leque de personagens. Bela não é Branca de Neve ou Aurora. Não corresponde à heroína de outrora, ingénua e submissa. Bela é corajosa e destemida, forte e inteligente, independente. Ela sabe perfeitamente o que quer e é uma jovem lutadora. O Monstro é arrogante e intempestivo, incapaz de mostrar bondade e aquilo que a paixão entre os dois despoleta é, antes de tudo, a transformação interior do Monstro em Príncipe. A terrível e horrorosa criatura tornar-se-á brando e afável, dedicado e disponível, capaz de pôr a sua vida em risco e de sacrificá-la, inclusivé, pela amada. E é essa a mudança, a vitória maior que o amor simbolizará, quebrando o feitiço e restituindo à fera a sua aparência e forma original. Gaston, o musculado bruta-montes, concretiza o triângulo amoroso; é um narcisista convencido e a prova de que se pode ser muito bonito por fora e completamente estúpido e vazio por dentro. O pai, desastrado inventor, é francamente hilariante e, depois, o rasto de magia espalha-se sobre móveis e artefactos, objectos e utensílios. Os inanimados ganham vida e revelam-se personagens inesquecíveis, verdadeiras estrelas do espectáculo nos intervalos do romance central: Lumière, o candelabro de sotaque francês, Cogsworth, charmoso relógio de parede, o bule Mrs. Pott e o filhote Chip, a vassoura, o guarda-fatos, entre tantos outros.

Ashamed of his monstrous form, the beast concealed himself inside his castle, with a magic mirror as his only window to the outside world. The rose she had offered was truly an enchanted rose, which would bloom until his 21st year. If he could learn to love another, and earn her love in return by the time the last petal fell, then the spell would be broken. If not, he would be doomed to remain a beast for all time. As the years passed, he fell into despair and lost all hope. For who could ever learn to love a beast?

A qualidade do desenho e da pintura, mesmo no casamento subtil e eficaz entre a animação tradicional e aqueloutra por computador, é singular. O filme é visualmente arrebatador, do riso às lágrimas. Para isso muito contou a realização de Gary Trousdale e Kirk Wise, que tornam toda a adaptação do conto uma experiência tremendamente excitante e emocionante. Depois, creio que se há triunfo assinalável e absolutamente decisivo para elevar o calibre das produções da Disney nos anos 90 do século passado foi sem sombra de dúvida o potencial gigantesco das bandas sonoras de Alan Menken. As suas canções, para além de modernas e plenas de emoção, revitalizaram a animação do estúdio, conferindo-lhe uma extraordinária natureza musical. As canções Be Our Guest, Belle, Something There, The Mob Song, Gaston, Human Again ou mesmo Beauty and the Beast, com letras de Howard Ashman, aliadas a uma prodigiosa coreografia visual, eternizam algumas das mais memoráveis e melodiosas sequências do filme. Piscadelas de olhos a clássicos absolutos são inúmeras; a mais facilmente identificável talvez seja aquela em que Bela canta pelos campos, graciosa e rodopiante, que nem a Maria de Julie Andrews, em Música no Coração.

Por tudo isto e tanto mais, A Bela e o Monstro atinge um equilíbrio notável entre o clássico e o moderno, a solidificação do passo (ou mergulho) audaz que foi dado com A Pequena Sereia e que se veio a confirmar com os êxitos seguintes. Enfim, tornou-se um clássico instantâneo. A ver e rever.

domingo, 28 de novembro de 2010

O TIGRE E O DRAGÃO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Wo hu cang long
Realização: Ang Lee

Principais Actores: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Zhang ZiYi, Chang Chen, Pei-Pei Cheng, Sihung Lung, Fa Zeng Li, De Ming Wang, Yan Hai, Xian Gao


Crítica:

A DANÇA DAS ESPADAS VOADORAS

Uma espada, por si própria, não governa nada.
Só ganha vida em mãos hábeis.


O milénio terminou auspiciosamente: O Tigre e o Dragão é o grande bailado da espada e do espírito. Mergulhado no mais puro romantismo e genuinamente arquitectado pela inspiração do mestre, serve-se da subtileza e da mais refinada elegância para filmar um irretocável misto de beleza, poesia e fascínio.

O deslumbre e a sedução do espetador são crescentes, de episódio em episódio, sobretudo pelo triunfo da narrativa - a viagem revela-se tão alucinante quanto magnetizante - e pelos memoráveis desempenhos do elenco, mas também pelo uníssono quase espiritual estabelecido com todos os departamentos artísticos. Oiça-se a imaculada banda sonora de Tan Dun (que culmina com uma canção belíssima) ou vislumbremos a magnífica fotografia de Peter Pau, sempre aliada aos cuidados da cenografia. Os quase indetetáveis efeitos especiais ou as coreografias de Woo-ping Yuen, ambiciosa e surpreendentemente ritmadas, içam a destreza dos guerreiros pelos ares: as sequências de lutas e vôos sobre telhados, lagos ou árvores atingem um nível nem sempre brutal e violento, todavia transcendente e apaziguador, tal é a sua leveza mágica e mística. O argumento fomenta o espetáculo de emoções, refletindo com assaz sensibilidade o papel da mulher numa sociedade de tradições seculares e toda uma panóplia de valores tais como amor-paixão e amor-platónico, vingança e traição, justiça e igualdade, tragédia e liberdade. O ardente e intenso enamoramento de Jen Yu e de Luo Xiao Hu é, certamente, das analepses mais apaixonantes alguma vez filmadas. E o final de Li Mu Bai, por exemplo, dá-se com uma passagem tão tocante quanto inesquecível: Virei para perto de ti todos os dias como fantasma, só para estar contigo. Mesmo que fosse banido para o lugar mais escuro, o meu amor... impedir-me-ia de ser um espírito solitário. A propósito, grandes atuações de Chow Yun-Fat, Zhang Ziyi, Michelle Yeoh ou Pei-Pei Cheng.

O Tigre e o Dragão não é senão Ang Lee em toda a sua melhor forma e a prova inequívoca de que é um brilhante cineasta em qualquer género. Ambicionava conceber o melhor filme de artes marciais de sempre e não esteve longe disso, com toda a certeza. O Tigre e o Dragão é uma daquelas raras, desafiantes e arrebatadoras obras onde a magia não só é possível como acontece. Com a maior credibilidade. Filme magistral, cujo sucesso abriu, ao mundo, as portas do cinema chinês e, por consequência, do cinema oriental em geral. Um bom augúrio, sendo o ano 2000 para os chineses o ano do Dragão.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

QUEM QUER SER BILIONÁRIO? (2008)

LONGE DO PARAÍSO (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Far From Heaven
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Patricia Clarkson, Viola Davis, James Rebhorn, Bette Henritze, Michael Gaston, Ryan Ward, Lindsay Andretta, Jordan Puryear

Crítica:

FOLHAS CAÍDAS

Longe do Paraíso é uma virtuosa homenagem ao melodrama americano dos anos 50, nomeadamente aos clássicos de Douglas Sirk: em constante diálogo com All That Heaven Allows, assegura, na sua cadência hipnótica e envolvente, o que de melhor tem a tradição e o cânone do subgénero. Todd Haynes - filmando com mestria, pureza e apaixonante delicadeza e mantendo a moralidade e a aura artística da época - mostra ser perfeitamente possível fazer em 2002 um melodrama tão genuíno e poderoso, pertinente e actual, como aqueloutros que, em meados de 50, tocavam o íntimo dos seus espectadores. Na sua imensidão de encantos, Longe do Paraíso emana, por isso, tanto de nostalgia como de absoluta vitalidade.

Cathy e Frank são o casal perfeito: vários anos de casamento, dois filhos, uma mansão de sonho numa rua de sonho. Ele é um empresário de sucesso, ela a dona de casa ideal, dedicada e prestável, socialmente solidária e exemplar. Tem, por assim dizer, a vida que qualquer uma das suas amigas gostaria de ter. Não creio cair em exagero: Julianne Moore é como um astro luminoso - se para o realizador é uma musa, em cena assume a presença de uma deusa - que irradia talento e que absorve a plenitude da representação e a complexa essência da sua personagem. O seu desempenho enquanto Cathy Whitaker é magnífico!

A questão é que tamanha perfeição não passa de uma construção vistosa e aparente. Por outros termos: a relação de Cathy e Frank é, na privacidade do lar, uma relação distante, cada vez mais disfuncional, sem relações sexuais e sem diálogos maiores. Frank (Dennis Quaid) leva uma vida dupla, motivada por desejos homossexuais reprimidos e com os quais dificilmente sabe lidar: I know it's wrong because it makes me feel despicable. Em meados do século XX, a homossexualidade era ainda considerada uma doença, de tratamentos violentos e radicais. A mentira entra em crise com o choque, quando Cathy dá de caras com o marido, no escritório da empresa, aos beijos com um outro homem. É o princípio do fim da ilusão. E a tragédia abate-se sobre ela.

That was the day I stopped believing in the wild ardor of things. Perhaps in love, as well. That kind of love. The love in books and films. The love that tells us to abandon our lives and plans, all for one brief touch of Venus. So often we fail at that kind of love. The world just seems too fragile a place for it. And of every other kind, life remains full. Perhaps it's just we who are too fragile.
Cathy Whitaker

Por outro lado, temos Raymond Deagan, o jardineiro lá de casa, negro, que se aproxima de Cathy neste momento particularmente adverso e que se revela um bom ouvinte e confidente, um verdadeiro amigo. Cathy deixa-se levar e nasce uma amizade que, aos olhos dos outros, é simplesmente mal-vista. Afinal, ele é negro, ela é branca, casada e mãe de filhos. A relação evolui e o falatório também. Os boatos começam a circular e o escândalo iminente ameaça a estabilidade e a reputação dos Withaker. Até que ponto não serão as forças da sociedade, do racismo e da discriminação, imperativas nas nossas decisões pessoais? Até que ponto não dominam a hipocrisia e as feridas do passado o amanhã dos nossos destinos? I've learned my lesson about mixing in other worlds. I've seen the sparks fly. All kinds. Às vezes, as estações da vida mostram-se demasiado rigorosas. Às vezes, é preciso assistir ao adeus das folhas velhas, secas e douradas pelo tempo, e esperar que novas nasçam verdes e cheias de esperança...

Todd Haynes é, para além de realizador, o autor do argumento. E o seu trabalho é extraordinário, de grande contenção, intensidade e profundidade dramática. A banda sonora de Elmer Bernstein é, ao jeito das composições de há décadas atrás, verdadeiramente prodigiosa. Assim como a fotografia de Edward Lachman, excelente e repleta de tonalidades quentes: vermelho, verde, azul. Nota especial para os créditos (iniciais ou finais), que completam a homenagem ao cinema de outrora.

No seu todo, eis pois uma obra sublime, com a graciosidade dos trejeitos classicistas, mas com o fascínio daquela deslumbrante e perfumada arte que dura para sempre. Grande, grande filme.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Once Upon a Time in America
Realização
: Sergio Leone

Principais Actores: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Treat Williams, Tuesday Weld, Joe Pesci, Danny Aiello, William Forsythe, Jennifer Connelly

Crítica:

YESTERDAY
OU UMA ILUSÃO DE ÓPIO

America was born in the streets. A tagline é do filme Gangs de Nova Iorque, de Martin Scorsese, mas assenta perfeitamente nesta obra: Era Uma Vez na América conta uma das mais memoráveis histórias de crime, paixão e amizade que o cinema já conheceu. Parafraseando o trailer, trata-se da história de um grupo de amigos que, enquanto rapazes, fez o pacto de partilhar as suas riquezas, os seus amores e as suas vidas... os mesmos rapazes que, feitos homens, partilharam o sonho de ascender da pobreza ao poder... os mesmos homens que, protagonizando uma geração que se traiu a si mesma, forjou um império baseado na violência e na ganância, desfazendo o seu sonho num mistério que se recusa a morrer. Eis a sinédoque da América, proposta por Leone e por um argumento de múltiplas assinaturas. Uma América que não só nasceu como cresceu nas ruas e por meio delas definiu o seu rumo. I like the stink of the streets. It makes me feel good. And I like the smell of it, it opens up my lungs. And it gives me a hard-on.

Era Uma Vez na América é como aquelas composições magistrais, gradiloquentes e imersas em sentimento, capazes de resgatar as memórias da infância e do primeiro amor e habilitadas a ressuscitar, com uma força descomunal e inesperada, a nostalgia daqueles tempos em que a inocência deu lugar - para sempre - a um caminho sem retorno. Robert DeNiro tem aqui uma das suas melhores interpretações. A partir do momento em que a sua personagem se aventura no ópio, nos bastidores de um teatro chinês, e o telefone toca, toca e toca incessantemente, a narrativa entra numa viagem ao passado e assume uma estrutura de contínuo s flashbacks e flashfowards. As transições entre os vários tempos diegéticos são conseguidas na aura de uma genialidade tremenda.

As cenas passadas na infância, sobretudo, são de uma beleza indescritível, nomeadamente aquela em que o pequeno Noodles espreita a jovem bailarina pelo buraco da WC do restaurante, aqueloutra em que um irresistível bolo serve como moeda de troca para favores sexuais, a cena do passeio com a imponente ponte em segundo plano ou a sequência do tiroteio entre gangues rivais, que provoca a inadvertida morte de Dominic e desencadeia o tal ponto de viragem na maturidade dos ambiciosos e rebeldes jovens. Há uma outra cena que invoca imediatamente uma das obras-primas de Kubrick, Laranja Mecânica, tanto pelo registo controverso e provocador que assume como pela reutilização paradoxal da composição musical de R ossini (La Gazza Ladra): o episódio da troca dos bebés. Uma das minhas favoritas, contudo, é aquela sequência do romântico e majestoso jantar que Noodles prepara a Deborah, seguida da brutal violação no automóvel. O contraste é tão acentuado e radical, a ambiguidade humana ali representada é tão intensa que a cena há-de perdurar-me na memória até ao dia em que eu deixar de ver filmes.

Dotado de grande arrojo técnico (fotografia de Tonino Delli Colli, guarda-roupa de Carla Pescucci, direcção artística de Carlo Simi), de um brilhante trabalho de montagem (Nino Baragli e Zach Staenberg) e de uma banda sonora verdadeiramente extraordinária (Ennio Morricone), Era Uma Vez na América dá continuação a um percurso cinematográfico inconfundível: Sergio Leone serve-se uma vez mais dos seus magníficos close-ups, travellings e outros movimentos, cenas longas e repletas de silêncios reveladores, essenciais para a construção do suspense e para a estilização singular da sua forma narrativa. O argumento é de uma escrita fluente e arriscada, quando muito não seja pela sua longa duração. Se há defeito que posso apontar, é o arrastamento do último acto. No entanto, a dramaturgia é, fora esse ou outro desiquilíbrio, de uma qualidade evidente e assinalável - não são esses inconvenientes suficientes para atentar contra a excelência da obra que, em última instância, se revela apaixonante.

O sorriso irónico com que Noodles encerra a obra, todavia, vem abrir uma ambiguidade de todo inesperada e, apesar de tudo, absolutamente plausível. Porque há-de Leone, afinal, iniciar e terminar a sua fita nos anos 30 e não nos anos 60, quando conhecemos a personagem de De Niro na sua idade mais tardia? Não é o filme senão um compêndio de memórias, narrativamente analépticas? Se voltarmos atrás e recordarmos como começa toda a acção do filme, talvez venhamos a encontrar respostas. Lembraremos por certo aquele telefone que tocava, tocava e tocava repetidamente. Pois bem, não terão sido estas incursões temporais não viagens pelas recordações do passado mas sim mera alucinação despertada pela droga? Lembremos a primeira imagem do flashback: uma luz oscilante, que nem um pêndulo de hipnose, que aos poucos e poucos é focada e se revela um candeeiro. Poderemos, afinal, estar perante um filme tão surreal quanto isto? A minha resposta é: why not? A leitura, a interpretação, faz todo o sentido e ficará para sempre sugerida. Sergio Leone sempre foi um mestre na arte de brincar com o cinema. Quero acreditar que, apesar de assinar aqui a sua obra mais sentimental e nostálgica, nos brindou por fim com a ironia da ficção que nega a sua ficção, uma brincadeira esteticamente ambiciosa e, por si só, de uma genialidade que jamais apagará a sua chama.

Suddenly,
I'm not half the man I used to be,
There's a shadow hanging over me,
Oh, yesterday came suddenly.

BOOGIE NIGHTS - JOGOS DE PRAZER (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Boogie Nights
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, John C. Reilly, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, Luis Guzmán, Philip Seymour Hoffman, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Baker Hall, Robert Ridgely

Crítica:

SEXO, DROGAS E ROCK'N ROLL

I'm gonna be a great big bright, shining star.

You don't know what I can do! You don't know what I can do, what I'm gonna do, or what I'm gonna be! I'm good! I have good things and you don't know about! I'm gonna be something! I am! And don't fucking tell me I'm not!

É desta forma, impulsiva e revoltada, que o jovem Eddie Adams (Mark Wahlberg) se dirige à mãe, no culminar de uma discussão intensa e descontrolada. Eddie deixou os estudos, curte com uma miúda de má fama e trabalha num clube nocturno, do qual regressa cada vez mais tarde, dia após dia. No clube brilham letreiros luminosos, a música alta faz-se soar numa explosão de cores e de ritmos. Desfila um exuberante figurino, uma moda completamente excêntrica. Enfim, resquícios dos (também eles) loucos Anos 70. Mais concretamente 1977. Eddie é um mero lava-pratos-fã-de-karaté, mas por cinco dólares apenas mostra a sua giant cock a quem se dispuser a pagar. Um dia, cruza-se no seu caminho o famosíssimo Jack Horner (Burt Reynolds), realizador de filmes pornográficos, e a sua vida muda para sempre.

I got a feeling that behind those jeans is something wonderful just waiting to get out.

Abandonando a casa dos pais e destemido a vencer na vida, Eddie torna-se Dirk Diggler, um garanhão possante à frente das câmeras, capaz de distrair qualquer técnico da equipa de produção com a sua performance e com o seu... enorme talento.

O elenco, todo ele com excelentes interpretações, é absolutamente monumental: Julianne Moore é Amber Waves, uma mãe marcada pela perda da custódia do filho, e que, no meio daquela indústria, espalha o seu amor maternal pelos mais jovens. Philip Seymour Hoffman é Scotty J., um assistente homossexual frustradíssimo, que desde cedo se rende aos encantos do atraente Dick Diggler. Heather Graham é a rollergirl, a eterna patinadora, uma estudante fracassada que também se torna uma estrela porno. Don Cheadle é Buck Swope, também actor de acção mas cujo sonho é abrir uma loja para a comercialização de Hi-Fi. William H. Macy é Little Bill, um marido igualmente frustrado, que passa os dias a cruzar-se com a mulher a fornicar pelos quartos, pelos ruas... em todo o lado, com qualquer um. John C. Reilly rapidamente se torna o melhor amigo de Dick, é também actor e com ele formará uma dupla de sucesso, mas os seus hobbies passam inevitavelmente pelo ilusionismo. Robert Ridgely é o Coronel James, o produtor dos milhões, mas não passa de um pedófilo pervertido. Philip Baker Hall é Floyd Gondolli, um investidor ambicioso, ansioso por lucrar com as videotapes - as mais recentes novidades tecnológicas do meio cinematográfico. Mas Jack Horner, o realizador, é mais conservador:

You come into my house, my party, to tell me about the future? That the future is tape, videotape, and not film? That it's amateurs and not professionals? I'm a filmmaker, which is why I will never make a movie on tape.

Todas as personagens são distintas, mas todas elas têm muito em comum. É por isso que a passagem de ano de 79 para 80 marca muito mais do que a passagem de ano ou do que a viragem de década. Marca a reviravolta na acção de todas essas vidas. Little Bill cansa-se do despudor da mulher e mata-a. Em seguida, dispara sobre si mesmo e põe fim à vida. E aquela que era, até agora, uma imparável ascenção para o estrelato sem limites, torna-se numa assustadora e vertiginosa viagem de decadência e de perdição. Dick Digler, à semelhança de todos os seus colegas de profissão, torna-se um viciado em drogas, a impotência sexual manifesta-se, a arrogância sobe-lhe à cabeça e é despedido. Por mais que, no exterior daquela elite, as pessoas consumam pornografia, o preconceito e a hipocrisia denigre a actividade. Quando Dick sai à rua, é brutalmente espancado. A Buck Swope, é-lhe negado um empréstimo, pelo mesmo motivo. Com a agravante do consumo de drogas, o tribunal jamais permitirá que o filho de Amber cresça perto da mãe. E a patinadora, por fim, é amplamente humilhada pelos fantasmas do passado, que jamais lhe dignificarão o corpo ou a alma.

Boogie Nights começa a brilhar de imediato, quando Paul Thomas Anderson rompe com a tão-pouco estimulante música dos créditos iniciais e marca o contraste com um tema completamente enérgico, ao melhor estilo dos 70's. A discoteca, a dança, os travellings... inicia-se uma arte de filmar sobejamente audaz, magistral, incrivelmente sublime. P. T. Anderson aborda o argumento como um Altman, concebe a encenação como um Tarantino, filma inspirada, metódica ou freneticamente que nem um Scorsese de Tudo Bons Rapazes ou de Touro Enraivecido (a cena final do espelho é uma clara homenagem). Ainda assim e apesar de tão notórias e prestigiadas influências, P. T. Anderson emana autenticidade, rasgos de uma genialidade muito própria e única. Afinal, ninguém filma as personagens como ele, com tamanha noção de colectivo, com tamanho respeito por cada uma das individualidades que, no todo e no final, formam um painel tão multifacetado e tão rico. Em Boogie Nights (como mais tarde em Magnolia) todas as personagens partilham momentos de protagonismo, todos têm uma existência e personalidade própria. São tremendamente bem modeladas, inclusivé as mais secundárias. Podem ser tanto heróis como desgraçados. Há um não-sei-quê de trágico e de profundamente humano nos seus trajectos, que é progressivamente potenciado e elevado a um poderoso clímax, como se de uma ópera se tratasse, como se de um épico se tratasse, tanto pela câmera, como pela extasiante combinação de canções, como pela montagem (Dylan Tichenor, incrivelmente excepcional). Na escrita, na direcção de actores ou na realização... isto é Paul Thomas Anderson: complexo, sagaz e provocador.

Boogie Nights? Clássico absoluto, pelo incomensurável talento de um dos melhores e mais estimulantes cineastas da actualidade.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CONTROL (2007)

Comente o filme Control, aqui!

domingo, 21 de novembro de 2010

«As Escolhas dos 20» - O Último Escolhido

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #20 - Ricardo Vieira,
autor do blogue 35mm

O filme que define os últimos 3 anos de cinema:Sacanas Sem Lei (2009), de Quentin Tarantino

O melhor filme de Ficção-Científica de sempre:Metropolis (1927), de Fritz Lang

O expoente máximo do Cinema Oriental:Herói (2002), de Zhang Yimou

O Biopic por excelência:Braveheart - O Desafio do Guerreiro (1995), de Mel Gibson

O Drama que define o género:The Fountain - O Último Capítulo (2006), de Darren Aronofsky

Agradecimentos especiais: Ricardo Vieira.

sábado, 20 de novembro de 2010

«As Escolhas dos 20» - Penúltimo

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #19 - Jorge Teixeira,
Leitor | Facebook

O Western dos westerns:Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone

O Drama que define o género:A Vida É Bela (1997), de Roberto Benigni

O melhor filme de Terror de sempre:Shining (1980), de Stanley Kubrick

O filme de Guerra por excelência:Nascido Para Matar (1987), de Stanley Kubrick

O filme que define os últimos 3 anos de cinema:A Origem (2010), de Christopher Nolan

Agradecimentos especiais: Jorge Teixeira.

A 1ª série da iniciativa chega ao final:
Quem será o Escolhido #20 e quais serão as suas Escolhas?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

«As Escolhas dos 20» - Antepenúltimo

20 Escolhidos revelam 5 escolhas que definem a 7ª Arte.

Escolhido #18 - Flávio Gonçalves,
autor do blogue O Sétimo Continente

O Biopic dos biopics:Andrei Rubliov (1966), de Andrei Tarkovsky

O Drama que define o género:Irreversível (2002), de Gaspar Noé

O melhor filme de Ficção-Científica de sempre:2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick

O filme de Animação por excelência:O Rei Leão (1994), de Roger Allers e Rob Minkoff

O filme que define os últimos 3 anos de cinema:Shirin (2008), de Abbas Kiarostami

Agradecimentos especiais: Flávio Gonçalves.

A 1ª série da iniciativa aproxima-se do final.
Quem será o Escolhido #19 e quais serão as suas Escolhas?

IRREVERSÍVEL (2002)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Irréversible
Realização: Gaspar Noé
Principais Actores: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Prestia, Philippe Nahon, Stéphane Drouot, Jean-Louis Costes, Michel Gondoin, Mourad Khima
Crítica:

O FIM E O COMEÇO

Le temps détruit tout.

Chocante e atordoante, incómodo e inconveniente, maculado e doentio, desiludido, sem esperança. Irreversível é assim: uma experiência ultra-sensorial que nos prende por inteiro e que nos transporta, sob uma cadência hipnótica, do mais inquietante dos pesadelos ao absoluto apaziguamento existencial.

Do fim para o princípio, a desconstrução da narrativa e das personagens não só surpreende como se revela um autêntico processo de reconstrução, por meio do qual nos apercebemos da forma implacável e aleatória de como o caos escreve os nossos destinos. Há duas sequências absolutamente brilhantes: a descida infernal, de atmosfera nevrótica, repugnante e violenta, ao antro da perversão homossexual (note-se o requinte intencional: a combinação perfeita de planos rodopiantes com a repetição obsessiva de sons baixos e graves, de frequência de 28 Hz, de modo a provocar o sentimento de náusea e tontura no próprio espectador) e a dolorosa, brutal e revoltante violação no túnel vermelho (plano estático, ângulo de irrepreensível enquadramento).

Inspiradamente iluminado, fotografado e montado e genialmente realizado (Gaspar Noé transforma uma simples história de vingança numa original, revigorante e marcante obra de arte, desconfortavelmente sublime), Irreversível conta ainda com fortíssimos desempenhos, imbuídos no poder soberano da narrativa: Vicent Cassel, Monica Bellucci e Albert Dupontel. O trio protagoniza, frontalmente e sem tabus, esta tão interessante quão curiosa abordagem sobre o amor e a sexualidade.

No final, perturbados pela crueldade do futuro e pela viagem que assumímos, somos levados para um salto no infinito, pela inspiração assumida de Kubrick e de Beethoven. A imagem cede ao turbilhão de emoções, desvanece no branco e perde-se na confluência de sons e de luzes estroboscópicas. A nossa consciência eleva-se, então, ao éter da arte. O tempo destrói tudo, inevitavelmente, irreversivelmente. Não valerá a pena, ainda assim, este nosso intervalo no curso eterno da transcendência?

OS CONDENADOS DE SHAWSHANK (1994)

CINEROAD ©2017 de Roberto Simões