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domingo, 21 de janeiro de 2018

INVENCÍVEL (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unbroken
Realização: Angelina Jolie
Principais Actores: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Finn Wittrock, Miyavi, Garrett Hedlund, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, Alex Russell, C.J. Valleroy

Crítica:

O PRISIONEIRO RESILIENTE

 If you can take it, you can make it.

Invencível foi um dos melhores filmes de 2014. Angelina Jolie entrega-nos um trabalho de realização absolutamente seguro e surpreendente, capaz de desfazer qualquer dúvida sobre o seu talento artístico. Não deve ser fácil ser mulher num mundo de homens (refiro-me à indústria cinematográfica mas podia estender-me, facilmente, a outros horizontes), filha do actor Jon Voight, ainda para mais sendo considerada uma das mulheres mais bonitas - e por isso mais invejadas - do planeta, então casada com a igualmente super-estrela Brad Pitt, relação que alimentava os tablóides do social, diariamente, por todo o globo. Mas Invencível não é sobre Angelina Jolie, a celebridade. É preciso abraçar o filme livre de preconceitos. Quando muito será sobre a sua visão da história e sobre a forma como decidiu abordá-la, na mesma medida em que qualquer filme reflete a alma do seu criador, do seu autor. Invencível está mais próximo de David Lean ou de Steven Spielberg do que qualquer filme meramente competente e sem assinatura, realizado pelo capricho de uma actriz ególatra ou bacoca. E isto é dizer muito a respeito da qualidade de Invencível.

O biopic abre nos céus, sob o olhar poético de Roger Deakins: o take é aberto e de uma beleza paradisíaca e redentora. Todavia, Jolie não tardará a condenar os seus rapazes e o espectador à claustrofobia do B-24, quando as alturas se encherem de estrondos, de balas e de morte. A brilhante sonoplastia conferir-lhe-á uma ferocidade por demais realista. Eis, então, o mote: uma geração de bravos homens é entregue ao inferno, tão longe da pátria que juraram defender. Ali, no fim do mundo, a luta pela sobrevivência faz-se de improviso, ao sabor dos acontecimentos, à medida do que é possível. Os limites - físicos, psíquicos, espirituais - são postos à prova e a superação acontece. Homens comuns tornam-se maiores, capazes das atitudes mais nobres e inspiradoras, e também menores, capazes das maiores e mais desprezíveis atrocidades. Louie Zamperini (fabuloso Jack O'Connell) poderia ter sido simplesmente mais um ser humano, em nada extraordinário, porventura até entregue ao álcool e aos caminhos menos virtuosos, como apresenta o argumento dos irmãos Coen (e companhia, a partir do livro de Laura Hillenbrand) na primeira analepse. Encorajado pelo irmão Pete, o jovem ganha auto-confiança, torna-se um atleta e a destreza levá-lo-á às Olimpíadas de Berlim de 1936 e ao reconhecimento internacional. Longe estaria de imaginar que o seu verdadeiro desafio ainda estaria por chegar: escapar a tiroteios, enfrentar a morte dos companheiros mais próximos, sobreviver à queda do bombardeiro em pleno oceano, resistir, à deriva, a semanas e semanas de insolações, fome e sede em pleno Pacífico e depois, como se tudo isso já não bastasse, a meses e meses de torturas e trabalhos pesados nos campos de prisioneiros japoneses. Não gosto do título Invencível porque sugere uma natureza poética para a história de superação de Louie. Esta história é tudo menos poética. É absolutamente cruel. A resiliência do sobrevivente, somente alimentada de esperança (de voltar para casa e para os seus ou inclusive de fazer justiça pelas próprias mãos, caso a oportunidade surgisse), não é heróica, é simplesmente humana e esmagadoramente desarmante, por isso. A moment of pain is worth a lifetime of glory. You remember that. O conselho é do irmão, na despedida para a guerra, e certamente que terá ecoado na mente de Louie durante as mais terríveis adversidades.

A narrativa flui progressivamente tensa, apesar dos avanços e recuos. Miyavi, com o seu Pássaro, tem uma estreia impressionante. O seu general, para lá de sádico e abusivo, é monstruoso. O underacting do actor, naquele seu tom suave e olhar doentio, causa calafrios e revolta. O seu confronto com Louie, no terceiro e último acto do filme, revitaliza o drama  humano e eleva-o a uma dimensão excepcional, assustadoramente trágica. Tememos o pior, a cada murro ou chibatada. A cada olhar. É mais uma das pérolas do notável casting, no qual se incluem o egrégio Domhnall Gleeson e o carismático Garrett Hedlund.

Por tudo isto, é de esperar o melhor de Angeline Jolie enquanto cineasta, doravante.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

À PROCURA DA TERRA DO NUNCA (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Finding Neverland
Realização: Marc Forster

Principais Actores: Johnny Depp, Kate Winslet, Freddie Highmore, Radha Mitchell, Julie Christie, Dustin Hoffman, Joe Prospero, Kate Maberly, Kelly MacDonald, Paul Whitehorse, Toby Jones, Mackenzie Crook, Eileen Essell, Luke Spill


Crítica:

A MAGIA DE ACREDITAR
Just believe.

Em À Procura da Terra do Nunca encontramos aquilo que, entre a gíria da crítica facilmente apelidamos de o típico filme Miramax. A expressão, ainda que munida de alguma intenção depreciativa, tem o seu fundo de verdade. Às tantas na década de 90 e na década seguinte, a produtora dos irmãos Weinstein apoiou ou trouxe à ribalta variadíssimos títulos 
estrelados por nomes seguros e dirigidos por realizadores competentes, títulos redondos na forma e no tom, distantes de qualquer linha independente, tecnicamente bonitinhos, com todo o primor que o diminutivo adianta e com toda a previsibilidade com que as mais emblemáticas premiações do meio deliram. São os chamados filmes para Oscars, numa dinâmica repetidamente testada e geralmente bem sucedida; para não falar da provável e poderosa influência do estúdio entre os votantes, mas cessemos por aqui a conspiração. Entre filmes deste género encontramos os de Hallström, As Regras da Casa e Chocolate. Tão-pouco Chicago ou Dúvida arriscam por aí além. São todos bons filmes, mas nunca formalmente extraordinários. 

No outro extremo, a Miramax foi responsável por títulos arrojadíssimos (Gangs de Nova Iorque, O Aviador ou Haverá Sangue), outros mais arriscados (Pulp Fiction, Kill Bill, Gerry), outros dotados de uma sensibilidade artística incrível (como O Piano, As Horas ou Cold Mountain). O estúdio deu ainda suporte e grande visibilidade a produtos não americanos e inequivocamente geniais como Herói, Cidade de Deus ou O Fabuloso Destino de Amélie. Feitos o balanço e o saldo, dificilmente me encontraria entre aqueles que repudiam as propostas do estúdio só pelo nome. Apesar de inteiramente digno, À Procura da Terra do Nunca é, sim, um desses filmes bonitinhos e inofensivos, que apelam à lágrima.

Eis, pois, um biopic fabuloso e claramente bem escrito (Allan Knee, a partir da peça homónima) sobre o autor de Peter Pan e as circunstâncias que terão levado à criação do seu emblemático e inspirador universo. Criativo q.b. na abordagem - na forma plástica e primária como propõe o cenário imaginário, mostra-se fiel ao espírito e aos valores temáticos: a infância, a inocência, a brincadeira. A direcção artística e o guarda-roupa asseguram o requinte visual. A fotografia de Roberto Schaefer garante a sobriedade das cores e dos enquadramentos, nunca constituindo, propriamente, planos inesquecíveis ou passagens marcantes, mas o que faz, faz bem. Dificilmente um filme Miramax teria pontuação negativa em categorias destas. Marc Forster, no seu perfil tarefeiro e nunca especialmente inspirado ou magistral, conduz os destinos da proposta a porto seguro.

A composição musical de Jan A. P. Kaczmarek é em tudo maravilhosa (ganhou o Óscar!) e a variação do tema principal em piano, com que o filme encerra, é a mais perfeita prova disso. É pela música, também e tanto, que o filme aflora como uma delícia subtil e delicada sobre as forças de imaginar... e de acreditar. Pela surpreendente sinceridade interpretativa de Freddie Highmore e pelo desarmante underacting de Johnny Depp - igualmente inesperado dado que dele esperamos as maiores excentricidades - À Procura revela-se absolutamente comovedor. O elenco é todo ele intocável, desde a sempre brilhante Kate Winslet ao bem-humorado Dustin Hoffman, de Julie Christie a Radha Mitchell, do Peter Pan de Kelly MacDonald à voz fofinha do pequeno Michael (Luke Spill).

Hoje, passados alguns anos da estreia do filme, já poucos se lembram daquele que em 2004 obteve sete nomeações para os Óscares, tendo inclusive sido nomeado para melhor filme. Acontece. Mas que chegou à ribalta das estatuetas chegou. Por mérito próprio, por poder ou influência, é sempre difícil, nestes filmes Miramax, perceber ao certo e é difícil alhearmo-nos da questão. Tem uma crítica ao filme o direito de se deixar influenciar por esses factores externos ao objecto artístico em si? Mas onde começam os interesses artísticos e os da indústria, na manifestação que o filme representa e é? A questão acender-nos-ia a discussão por páginas e páginas. 

À Procura da Terra do Nunca aquece-nos o coração, mas não a mente. Julgo que não há nenhum mal nisso. A mensagem just believe serve, pelos vistos, para todos: para os senhores do dinheiro e para os artistas, para os sonhadores. Esteja sempre o dinheiro ao serviço dos sonhos.

quarta-feira, 22 de março de 2017

AMADEUS (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Amadeus
Realização: Milos Forman
Principais Actores: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersold, Jeffrey Jones, Lisabeth Bartlett, Kenny Baker, Charles Kay, Barbara Bryne

Versão do Realizador

Crítica:


A VOZ DE DEUS

I am a vulgar man! But I assure you, my music is not.

Jamais me lembraria de imaginar Mozart - Wolfgang Amadeus Mozart, o génio da música - a envergar uma desconcertante peruca cor-de-rosa, a rir-se que nem uma hiena e a peidar-se que nem uma criança, despudoradamente. Mais difícil seria imaginar-me, seguramente, a adorar uma efabulação biográfica que ousasse retratá-lo dessa forma, sem que a considerasse profundamente ridícula ou demérita. Pois bem, Amadeus executa-a insolitamente, para meu espanto. Para meu espanto e para espanto de meio mundo, a partir de peça original de Peter Shaffer (que também assegurou o argumento e a adaptação). E como adoro o devaneio! A proposta narrativa é de tal modo alucinada, carismática e triunfal que, hoje em dia, fica difícil pensar em Mozart sem ser transportado, imediatamente, para o imaginário criado pelo filme. I am a vulgar man! - admite o músico, a dada cena - But I assure you, my music is not. E, efectivamente, sempre que ouvimos as suas inspiradas e prodigiosas composições, ascendemos ao olimpo dos deuses. E rapidamente perdoamos o seu carácter mais frívolo ou obsceno. Chegamos, inclusive, a apaixonarmo-nos por este delirante Mozart.

O filme, assinado por Milos Forman - que anos antes realizara o inspirador Voando Sobre Um Ninho de Cucos - abre e fecha na ala de um hospício. Mas não tardará a tornar-se faustoso e por demais requintado, frequentando a corte e os seus palácios, os teatros nacionais e festivos bailes de máscaras. A maior parte dos exteriores - e dos interiores - é filmada em Praga, na aura ainda setecentista das suas ruas e dos seus edifícios. Na verdade, muito poucos foram os cenários construídos propositadamente para o filme (precisamente: o apartamento de Mozart e a escadaria adjacente, o teatro do vaudeville, a sala do asilo e não mais do que isso). O certo é que, em todos eles, a direcção artística (Patrizia von Brandenstein e Karel Cerný) mostra-se de um arrojo e de uma exuberância absolutamente invulgares, tão elevados. Desfilam, a todo o instante, grandiosos figurinos (Theodor Pistek), sempre aprimorados por múltiplos folhos e rendas, pelas perucas da moda (todas, claro, à excepção da de Mozart) e por muito pó-de-arroz. Iluminado a luz natural (Miroslav Ondrícek), a viagem no tempo concretiza-se com assaz verosimilhança, fora uma ou outra liberdade fora-de-tempo (como a já referida irreverência e excentricidade do compositor na arte de se apresentar em público), mas que ganha sentido na medida em que aqui se procura retratar que os génios vivem sempre à frente do seu tempo, destacados ou alienados dos demais.

No caso dos génios, aliás, é comum a arte fluir-lhes do espírito, com aparente facilidade, como se fossem possuídos por Deus, como se o talento tudo explicasse, ao contrário dos restantes artistas, que se esforçam por sobressair da mediania. Esta é, no fim de contas, a história de Amadeus: não tanto focada no génio, mas sobretudo na sombra de Salieri (espantoso desempenho de F. Murray Abraham, no papel de uma vida) e na forma como este lida com a frustração de não conseguir, nem por uma vez, ser um criador ao nível de Mozart. A Salieri - o paladino dos medíocres ou, como o próprio diz, their champion (...) their patron saint -, custa-lhe a crer como pode Deus servir os Homems de tão desigual modo. Ainda para mais quando é um homem certinho, politicamente correcto e profundamente religioso e quando Mozart (inesquecível Tom Hulce) não passa de um bon vivant, espalhafatoso e infantil, mulherengo, entregue aos prazeres da carne, aos vícios do álcool e do rapé e que adora divertir-se, sem olhar a gastos - aliás, a sua situação financeira, mesmo depois de casado, pai de filhos e senhor de uma casa, com a fama alcançada na corte e entre os seus pares, é tão desregrada que sucumbe facilmente aos excessos. A dor maior de Salieri é, precisamente, ter consciência da sua limitada qualidade e do simplismo das suas composições, sentindo-se esmagado pelas pautas do rival. Consumido de tal forma pela inveja, não admira que tão atormentada alma acabe no manicómio, até aos seus derradeiros dias. A sua confissão ao padre - e ao espectador - é, provavelmente, o último resquício da sua vitalidade e da sua saúde mental: o assumir, finalmente e em bom tom, para o mundo e para si próprio, a sua paixão pela obra de Mozart: This was a music I'd never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing, it had me trembling. It seemed to me that I was hearing the voice of God.

Cenas memoráveis são mais do que muitas: desde Mozart ainda menino-prodígio a fazer sucesso na corte a Salieri envelhecido (excepcional, o trabalho de caracterização de Dick Smith), amarrado a recordações. Da encenação d'As Bodas de Fígaro a Don Giovanni, d'A Flauta Mágica e da estridente e arrepiante cena da Rainha da Noite à devastadora composição do fúnebre requiem e a cena em que Mozart, já enfermo, febril e debilitado, dita de cabeça a sua música a Salieri... Momentos genuinamente artísticos, alicerçados numa dramaturgia sóbria e que tão bem equilibra a comédia e a tragédia.

A juntar-se a todas estas qualidades, já referidas, a música do génio, omnipresente, que se torna uma verdadeira personagem e cuja alma tudo assombra e transcende. Que forma auspiciosa de levar ao grande público a beleza, a pureza e a magnificência da melhor música clássica. Com o passar dos anos, Amadeus não envelhece numa cena que seja. Se há filmes intemporais, Amadeus é sem dúvida um deles. Da mais disparatada gargalhada à mais lírica ópera que podemos conceber, Amadeus tornou-se, pois, por mérito próprio e cheio de graça, um clássico instantâneo e essencial.

quinta-feira, 9 de março de 2017

INIMIGOS PÚBLICOS (2009)

 PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Public Enemies
Realização: Michael Mann
Principais Actores: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Stephen Graham, Giovanni Ribisi, Billy Crudup, Jason Clarke, Stephen Dorff, Channing Tatum, James Russo, David Wenham, Carey Mulligan

Crítica:

 O CAVALEIRO DO CRIME

You can be a dead hero or a live coward. Get it open.

Se há filmes que crescem a cada visualização, Inimigos Públicos, de Michael Mann, é sem dúvida um deles. À primeira vista tem o seu quê de impenetrável: a câmera ao ombro, sempre oscilante, raras vezes estabiliza, obcecada com a captação da realidade, desafiando a atenção do espectador a cada instante. Tudo é rápido e fugaz, os acontecimentos sucedem-se velozmente, à indigesta velocidade com que as sub-metralhadoras Thompson e Tommy Gun despejam balas cá para fora. Não há slow motion ou tempo para explicações. Às tantas, o filme parece espelhar as palavras de J. Edgar Hoover: the suspects are to be interrogated vigorously, grilled, no obsolete notions of sentimentality. O retrato de Mann, nunca propriamente emocionante ou empolgante, é de uma frieza implacável, 
não fazendo cedências ao seu formalismo até ao terceiro acto, onde finalmente conseguimos ver comoção no rosto dos actores. Esta essência tão cerebral dificulta a empatia e o envolvimento do espectador com o enredo e com os seus protagonistas, ficando a sensação de que estamos perante um filme sem alma. O estilo pelo estilo confere-lhe a aura da superficialidade.

Em seguintes visualizações, não mudamos de ideias: constatamos que Inimigos Públicos é, efectivamente, tudo isso. Não obstante, o estilo imperativo - nunca deixando de nos maravilhar - não mais nos ofusca e, é certo, quebram-se algumas barreiras à imersão e à percepção da história. Johnny Depp, num underacting brilhante, assume-se como o actor certo para tamanho papel: de sorriso malandro, destila charme, carisma e mistério. Talvez não tenha a malícia que o verdadeiro John Dillinger acarreta no olhar, nas inúmeras fotografias que nos ficaram. Mas o Dillinger de Depp é um assaltante leal aos seus companheiros e embeiçado pela deslumbrante Billie Frechette (Marion Cottillard). O que lhe interessa é assaltar bancos e ficar com a miúda, contornando com habilidade as emboscadas das autoridades policiais. Mas diria também alimentar o ego: Dillinger tornara-se, aos olhos da nação, uma celebridade e um símbolo. Roubar aos ricos e causar mossa num sistema tão proibitivo quanto o dos anos 30 - vigorava a Lei Seca e a Depressão multiplicava os pobres a cada dia - era como um grito de liberdade. E Dillinger sentia-se bem nesse papel de lenda viva. Os media cantavam-lhe os feitos e as suas fugas bem sucedidas, para vergonha da polícia. O filme retrata a génese do FBI, desde a ascensão de Hoover (Billy Crudup) à implementação d'a modern force of professional young men of the best sort, com novas e rigorosas técnicas de investigação (como escutas telefónicas, mais esperas e perseguições, interrogatórios no terreno e cruzamento de dados), mais armas, mais meios. O crime era organizado e a polícia teve que se organizar, para lhe fazer frente. O perseverante Melvin Purvis (Christian Bale), se bem que ainda impressionável com os tiros à queima-roupa e com os mortos de ainda sangue quente, encabeça a investigação, convicto na vitória da ordem sobre o caos, da lei sobre o crime.

Dillinger não partilha, de todo, o amadorismo de Bonnie e Clyde - clássico ao qual, aliás, Inimigos Públicos pisca o olho: I'm John Dillinger. I rob banks. é o eco claro de This here's Miss Bonnie Parker. I'm Clyde Barrow. We rob banks. Ou Not here for your money. Here for the bank's money reproduz Is that your money or the bank's? (...) All right, you keep it then. Na prática, é certo, todos eles faziam o mesmo: assaltavam bancos. Mas Dillinger era requintado, ostensivo, passeava-se por bons restaurantes, por bons hotéis, vestia boas roupas, era cinéfilo e assistia a corridas de cavalos. Era um ladrão com glamour, tinha sentido de humor e arte no traquejo. Foi esta sua natureza que conquistou Billie, a mulher que passava a vida a guardar os casacos do outros e que quando saía para jantar nada mais tinha para colocar senão um vestido de 3 dólares. É interessante como só quando se demora no romance é que a câmera de Mann estabiliza, como que seduzindo o espectador e como que dizendo: também o amor foi o escape e o estabilizador de Dillinger na correria e adrenalina constante que é ter a cabeça a prémio e ser perseguido. Percebe-se por isso porque Dillinger procura defender e proteger aquela mulher a todo o custo, arriscando-se para além da conta, muitas vezes. Por mais notas ou gozo que tire dos bancos, nada mais lhe afaga a solidão da alma como aquela mulher. O romance ganha dimensão e importância, mas ainda assim Mann filma-o com um certo distanciamento emocional, como se permear o sentimento na acção fosse um cliché que não tencionasse replicar. Como se nos estivesse a dizer: até Dillinger e Billie, em certa medida, se envolvem mas resistem ao sentimento ou à consciencialização do mesmo, com medo da perda. No último acto, pleno de encenação, Dillinger chora, Billie chora... a ligação entre eles é evidente e o sentimento exterioriza-se, finalmente, assim como Mann o exterioriza, também. Não obstante, é tarde para nos emocionar. Também, sabemos, não é essa a intenção. A dor das personagens surge representada no ecrã e é só - não transborda nem procura identificação no espectador. O Dillinger de Mann é um bandido e um herói, o cineasta humaniza-o e abstém-se de julgamentos morais. É como se o observasse e filmasse mas não lhe tocasse.

Por mais que o bandido primasse por não deixar rasto, a investigação cerrada dificilmente acabaria por não encontrar uma ponta solta. Ainda para mais, com companheiros e intermediários na mira ou com os cinemas a estimular a caça ao homem: they may be sitting amongst you. They may be in your row. Turn to your right. And turn to your left. If you see them, call the Bureau of Investigation or your local police. N
o incessante jogo da eliminação, há sequências de acção desenfreada (como o tiroteio na noite que desencadeia a morte de Baby Face Nelson), de montagem e concepção inusitadas (a calorosa receção mediática em Indiana, desde que Dillinger sai do avião até ao estabelecimento prisional) e engenhosas fugas da prisão (o escape de Indiana é por demais insólito e espantoso). E o que dizer da cena em que o gangster, descontraidamente e de óculos de sol, entra pela sede da investigação adentro, qual anónimo, analisando as fotos, os dados e os esquemas da sua própria captura? É o cúmulo da ousadia. Usando Billie como isco - sooner or later, she will go to him or he is gonna come for her - Purvis e os seus homens precipitam o descontrolo emocional do sempre tão frio criminoso. Violentamente interrogada, a lealdade da amante é posta à prova. 


Mas até lá e à fatídica sessão de Manhattan Melodrama - cá entre nós O Inimigo Público Número Um - o que temos é uma salva de cenas técnica e ferozmente irrepreensíveis, que revelam um domínio da câmera que poucos cineastas se podem gabar de alguma vez ter demonstrado. Num plano trémulo e em movimento, naquilo que enquadra em primeiro e segundo plano, é tanto o que foca, desfoca, gira e persegue... que ás da câmera, Michael Mann. Mérito também perfilhado pelo director de fotografia Dante Spinotti, seu habitual colaborador, aqui rendido às potencialidades das câmeras digitais de alta definição e de ultra-resolução (a beleza e iluminação dos quadros lembram muitas vezes os filmes de Fincher) que, aliadas ao estilo do realizador, se traduzem no realismo tão mais vívido e gritante da acção, pleno de detalhe; difícil de absorver, tal é o nível de informação por segundo. Esta temporária frustração tenderá a esbater-se com as seguintes visualizações da obra - o que não espelha necessariamente as suas falhas, antes as suas qualidades. Todas as grandes obras nos convocam para mais visualizações. E a cada visualização, Inimigos Públicos é ainda mais fascinante. 

Não deixa de parecer um contra-senso louvar um filme em que a forma é tão mais importante do que o conteúdo. Às vezes, a própria forma parece o conteúdo. É possível imaginar esta história com os mesmos actores, dando primazia às emoções, às personagens, filmada de forma mais convencional... e, nas mãos certas, provavelmente triunfaria. Seria um filme que nos chegaria mais ao coração. Se procurarmos alguma isenção, no entanto, entenderemos que essa é uma convenção de cinema como qualquer outra; à qual, porventura, estamos mais acostumados. A formulação de Mann não deixa de ser, no género ou sub-género que abraça - gangsters - inequivocamente sui generis e, na sua singularidade, bastante autoral - o que para um filme dos grandes estúdios de Hollywood, estrelado por grandes nomes, é um feito e tanto. O filme não foi um fracasso abismal, mas tão-pouco se tornou rentável. Os seus desígnios artísticos vingaram corajosamente sobre as imposições do dinheiro. Mas dizia... que n
ão deixa de parecer um contra-senso louvar um filme em que a forma é tão mais importante do que o conteúdo. Às vezes, a própria forma parece o conteúdo. Permitam-me acrescentar: em Inimigos Públicos, às vezes, a forma é o conteúdo e, assim sendo, o filme também reflecte sobre si mesmo - sobre a arte de filmar e de fazer cinema. Apreciar essa arte num filme como este é puro deleite. Note-se que o filme não se demora nem por um segundo a ostentar as tantas virtudes da direcção artística, que credibiliza a viagem no tempo, ou aquilo em que foi investida significativa parte do orçamento, que está lá e só aparece se for captado. Captar, captar, captar... esse é o lema de Mann e, no decurso, mostrar o seu instinto artístico. Essa é a sua história, mas também lá está uma história de gangsters.
Bye-bye, blackbird.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

BONNIE E CLYDE (1967)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★ 
Título Original: Bonnie and Clyde
Realização: Arthur Penn
Principais Actores: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons, Denver Pyle, Dub Taylor, Evans Evans, Gene Wilder 

Crítica:

This here's Miss Bonnie Parker. I'm Clyde Barrow. 

ESTRADA PARA PERDIÇÃO

We rob banks.

Quando Warren Beatty abordou François Truffaut, na tentativa de convencê-lo a realizar Bonnie e Clyde, consta que o francês terá sugerido que, ainda que a história estivesse contada ao estilo da nouvelle vague, por se tratar de uma história americana deveria ser contada por um realizador americano. Beatty reteve a ideia e apresentou o guião do filme aos mais conceituados nomes da altura, entre os quais George Stevens e William Wyler. Todos o recusaram, inclusivé Arthur Penn, que mais tarde viria a reconsiderar. E quando o mítico Roger Ebert assistiu ao filme pela primeira vez, trabalhava profissionalmente como crítico há coisa de seis meses. O Chicago Sun-Times publicou a sua crítica a 25 de Setembro de 1967. Bonnie e Clyde foi o primeiro filme ao qual atribuiu nota máxima. A respeito, apostou: years from now it is quite possible that Bonnie and Clyde will be seen as the definitive film of the 1960s. Cinquenta anos depois, vista a obra um par de vezes e admirando-a profundamente, compreendo o que ele quis dizer. Bonnie e Clyde constitui, para o cinema americano, um dos seus mais irreverentes, audazes e revolucionários pedaços. O filme que ninguém queria fazer tornou-se um clássico incontornável, pleno de modernidade. Se ainda não assistiu, salte a crítica e não perca mais tempo.

Entre no 4-Cyllinder Ford Coupe - perdão: no stolen 4-Cyllinder Ford Coupe -, bata a porta com força e pé a fundo no acelerador. Ouvem-se já guitarras e outras cordas, dedilhadas a alta velocidade, e não tardarão guinadas dos volantes, pneus gritantes e uma chuvada de tiros e vidros estilhaçados. É assim que nos sentimos cada vez que assistimos a esta enérgica, alucinante e divertida obra, estou certo? Pensar que chegaram a decliná-la por transformar em heróis dois marginais criminosos, ladrões e assassinos, que à partida nada teriam de simpáticos e que não seriam, muito provavelmente, capazes de criar empatia com os espectadores. Pois bem, Bonnie e Clyde foi um enorme êxito de bilheteira e ainda hoje conquista cinéfilos de todo o mundo. Porquê?

Diria, em primeiro lugar, que a dupla de protagonistas Warren Beatty (Clyde) e Faye Dunaway (Bonnie) tem uma relação com a câmera de puro magnetismo. São tão belos, charmosos e sensuais que nos apaixonamos imediatamente por eles. Até eu partia com eles a assaltar bancos, cativado por aquele olhar, por aquele sorriso. Desde o primeiro instante, é posto à prova o nosso moralismo e a nossa ética como espectadores e como seres humanos. Afinal, que pessoas somos nós que pagamos para ver um biopic - livre, mas que ainda assim trata de figuras reais da História recente - sobre foras-da-lei, que espalham a violência e o sangue por onde passam, e ainda assim engraçamos com eles, torcendo por eles? Somos como que enfeitiçados pelo seu carisma! Às tantas, quais protagonistas, não queremos saber de nada disso e deixamo-nos levar pelo entusiasmo do momento, pela excitação da acção proibida, pela adrenalina de pecar e de fugir, podendo ou não ser apanhado. Que juvenil loucura, irresponsabilidade e imaturidade. Que esquisita, excêntrica e egoísta forma de vida. Bonnie e Clyde não fazem senão ceder ao desejo, saborear o risco e desafiar a autoridade. É certo que, em plena Grande Depressão e em tempo da Lei Seca, o ataque ao sistema, o rombo na fortuna dos mais ricos e poderosos e a libertinagem das suas investidas foi confundido com coragem pela generalidade do povo - então condenado à miséria, numa altura em que o aparecimento dos novos pobres crescia exponencialmente - e entendido, quase, como um sinal de revolução. Este entendimento emocional e impulsivo justificou o mediatismo do casal, ainda para mais impulsionado pela romantização das suas figuras, unidas no crime contra tudo e contra todos. O casal alimentava a sua própria lenda viva, consciente da morte certa, arranjando forma de publicar as suas fotos e poemas (escritos pela própria Bonnie) na imprensa. E é claro, ver uma mulher a ganhar protagonismo, ainda para mais naquelas andanças, era muito à frente para a época.

Some day, they'll go down together
They'll bury them side by side
To a few, it'll be grief
To the law, a relief
But it's death for Bonnie and Clyde.

O fascínio por praticar o errado é perfeitamente retratado pelo bochechudo C. W. de Michael J. Pollard. Vejamos como reage à proposta dos bandidos no posto de gasolina onde trabalha: o rosto maroto desenha-se-lhe na hora, genuinamente, como se escapar à sua realidade fosse tudo o que mais quisesse e embarcar na aventura não fosse senão a mais irresistível das tentações. Agora trio, o bando cresce no estrelato à medida que os assaltos se sucedem. A fama cresce ainda, retrata Penn, pela comicidade das suas investidas: ao contrário de algumas redes de crime organizado da altura (como as de Al Capone, John Dillinger ou Baby Face Nelson, imortalizadas pelos filmes de gangsters que desde então proliferaram), o grupo de Bonnie e Clyde movia-se ao sabor do instinto e do improviso - diria mesmo com muito pouco profissionalismo - levando às situações mais perigosas mas sobremaneira bizarras ou insólitas. No filme, naturalmente, resultam em cenas muitíssimo divertidas - a cena do roubo do automóvel de Eugene é disso por demais icónica. São sequências vibrantes e maioritariamente plenas de ritmo, com uma montagem absolutamente fora-de-série (Dede Allen) e uma invulgar e surpreendente violência gráfica (a sua influência em filmes como A Quadrilha Selvagem ou O Padrinho é evidente e determinante). As proezas de câmera são diversificadas (os zooms, a alternância no foco, o slow motion, etc.), funcionando a obra, quase, como uma antologia de técnica e de estilo. Note-se o prodigioso trabalho de fotografia (Burnett Guffey) e a sua excelência visual: os diffusion filters usados na sequência do piquenique familiar (e a sua aura nostálgica, quase onírica) ou os enquadramentos que tão bem valorizam a cenografia ou extraem a cor e o esplendor natural do Texas (em paradoxo com a brutalidade das richas que se desenham na paisagem).

Mais do que a violência (nunca gratuita, pois o final condena severa e inequivocamente todo o comportamento rebelde manifestado ao longo do filme), Penn enfatiza a juventude e os seus ideais românticos, alienados da realidade e as consequências trágicas a que um caminho desses, uma vez percorrido, pode levar. O argumento e a realização não se coíbem, no entanto, de satirizar um sistema social hipócrita e tanto ou mais criminoso, na forma em que muitas vezes parece ludibriar as pessoas que deveria servir ou na forma como condena o crime mas simultaneamente o cultiva. A atitude desleal do pai de C.W. no acto final, por exemplo, é por demais reveladora. Tanto mais hipócrita se pensarmos, em contraste, na indestrutível lealdade entre os elementos do gangue ou na honestidade e verdade com que Bonnie e Clyde acreditam que estão no seu direito quando exigem o que não lhes pertence, como se praticassem o bem. A comparação entre Clyde e Jesse James é, neste prisma, totalmente plausível. Trata-se de uma dicotomia moralmente ambivalente e no fio da navalha, nos limites da ética. E o terrível desfecho da dupla, selado pela traição e pela morte chacina, é disso um símbolo maior, profundamente irónico.

You've heard the story of Jesse James
Of how he lived and died 
If you're still in need 
Of something to read 
Here's the story of Bonnie and Clyde.

O restante elenco compõe um todo de altíssimo talento e magníficas interpretações: Gene Hackman (Buck Barrow, irmão e parceiro ideal de Clyde) e Estelle Parsons (a irritante, ensurdecedora e hilariante mulher de Buck).

Apesar da intriga e da acção que tanto elogio, o que mais me toca é a história de amor entre Bonnie e Clyde. A poderosíssima química entre aquelas duas personagens, que desde a memorável cena de abertura evolui para uma relação tão interdependente, de respeito, de consideração e de admiração. As tantas afinidades e a forma como se completam e depois a frustração que enfrentam - dada a impotência sexual de Clyde - e a forma como a ultrapassam, amando-se, estando lá um para o outro. Quando a dado momento Bonnie se deixa invadir pela tristeza e saudade da mãe e abandona o grupo por entre douradas searas, Clyde encontra-a e, abismado pela ideia de perdê-la, abraça-a: please, honey, don't ever leave me without saying nothing. Tais palavras em tamanho momento têm uma carga tão forte. É por momentos destes que Bonnie e Clyde jamais se resume a um mero policial, comédia ou filme de gangsters. É tudo isso e tanto mais. Daí enamorar gerações desde a sua estreia. É por filmes como este que, definitivamente, nos apaixonamos pelo cinema.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

12 ANOS ESCRAVO (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: 12 Years a Slave
Realização: Steve McQueen
Principais Actores: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Alfre Woodard, Dwight Henry, Dickie Gravois, Bryan Batt, Ashley Dyke, Kelsey Scott, Scoot McNairy

Crítica:

NO TEMPO DA VERGONHA

I don't want to survive. I want to live.

12 Anos Escravo é daqueles filmes históricos, profundamente sérios e frontais, que, procurando retratar com verdade as atrocidades do passado, nos envergonham enquanto seres humanos e nos pesam numa consciência colectiva que jamais poderá cair no esquecimento. É a denominada história verídica, a transposição para o cinema da autobiografia de Solomon Northup, o cidadão negro letrado e livre na Nova Iorque de 1841, que se vê inadvertidamente enganado e raptado e tragicamente entregue à escravatura que ainda vigorava no sul do país, separado da mulher, dos filhos, da carreira de músico e de qualquer noção de liberdade. Mais tarde escreverá o livro que dará nome ao filme, relatando, de forma pormenorizada e sem floreados, o violento e absurdo desvio que a sua vida, às tantas, tomou, marcando-lhe para sempre o corpo e a alma. Até lá, 12 Anos Escravo é a história de um homem comercializado como gado, tratado que nem uma besta e humilhado simplesmente por ter uma cor dita amaldiçoada, de uma etnia igual mas monstruosamente inferiorizada desde o tempo das descobertas. Como se tivesse culpa de ter nascido. Tiram-lhe tudo, até o nome - passará a chamar-se Pratt. Tentará a todo o custo manter a lucidez e a esperteza, a fé e a esperança e aguardar pela hora certa para fugir, escapar ou escrever, na invisibilidade, a carta aos amigos que lhe poderão trazer a salvação - e a vida de volta.

I will not fall into despair! I will keep myself hardy until freedom is opportune!

A todo o instante, a fotografia de Sean Bobbitt extrai da natureza e da paisagem bucólica a maior beleza. Ainda que falte o sol, encoberto pelas nuvens. Sopra um ligeiro vento, mas nunca suficiente para abolir velhos costumes. A maravilha está no rio, nas árvores, nas folhas... até nas lagartas e na praga que, a dado momento, afecta a plantação de algodão. O cenário é idílico em contraste gritante com as chicotadas que silvam, vergam e dilaceram, com as cordas que soerguem, apertam e sufocam, com os gemidos que dos tormentos a medo se soltam, seja no silêncio da noite ou entre o ensurdecedor canto das cigarras, em pleno dia. Em cada estrada um caminhante traiçoeiro, em cada quinta um reles capataz ou um feroz senhor, sempre pronto a destilar o ódio e a desferir o golpe. Ford (Benedict Cumberbatch), apesar de dono de escravos, revela uma humanidade singular, mas Tibeats (Paul Dano), seu braço-direito, é de uma repulsa incompreensível para com Solomon e os restantes negros. Quando o violinista (visceral interpretação de Chiwetel Ejiofor) o enfrenta e, fora de si, o agride... espera-o a forca. A cena é, à semelhança de outras, um long take. Bem sabemos da predilecção de Steve McQueen pelas tomadas mais demoradas - lembramos a dureza de Fome. Dessa simplicidade e honestidade - não há truques de montagem, a câmera está parada e limita-se a observar - advém uma carga emocional brutal e uma sensação de realismo e autenticidade inegável. Essa cena é tanto ou mais perturbante quando notamos que os outros, à volta do castigado suspenso no nó, aparentam fazer a sua vida normalmente, pactuantes no medo e na necessidade impreterível de sobrevivência.

Survival is not about certain death, it is about keeping your head down. 

Salvo da forca mas não ileso e sem consequências, Solomon vê-se transferido para a herdade de Edwin Epps (assustadora, a entrega de Michael Fassbender). É recebido com palavras da Bíblia, mas é como se tivesse chegado ao Inferno. Epps é um alcoólatra tirano, em tudo incurável e doentio, um espírito fraco embora de uma força boçal, dominado pela ignorância, pela fragilidade e pelos ciúmes da mulher. É incompreensivelmente (para ele) obcecado pelos encantos carnais de Patsey (Lupita Nyong'o, num papel tão penoso quanto arrebatador), o que desencadeará nalguns dos instantes mais irascíveis, sofridos e chocantes de toda a obra. Para Solomon, o futuro desvanece-se então de dia para dia, como um sol que perde calor. Quando, assolado pela desilusão, destrói em pedaços o violino que o patrão Ford lhe dera em tempos, percebemos que a sua esperança está por um fio. A sua honra e a sua dignidade, há muito que as perdeu. Encontrará alguma luz ou benfeitor no seu poço sem fundo? Haverão lágrimas, ainda, capazes de lhe encher os olhos de felicidade? Tornará a sentir um beijo ou um abraço? Ficam as respostas para quem assiste ao filme e ao seu terno final.

McQueen, num exercício de proximidade tremendo - a câmera está a maior parte do tempo sobre os actores, em planos fechados e intimistas, alternando muitas vezes o focar e o desfocar - potencia as excepcionais performances do elenco, a que se juntam nomes como Brad Pitt (ele também produtor) e Paul Giamatti. Hans Zimmer assina a banda sonora minimalista, pontuando o filme com a sua envolvência, convocando à reflexão - esse mérito maior, todavia, provém sobretudo do trabalho dos actores, dos seus olhares brilhantes e plenos de verdade na história que contam, na História que representam. Que o presente e o futuro ponham fim à injustiça. Tantos anos após a abolição da escravatura, as feridas ainda se sentem na pele: na desigualdade, na descriminação, no racismo. Fica a vergonha e a arte - mas que fiquem, como alerta.

Laws change (...) Universal truths are constant. It is a fact, a plain and simple fact, that what is true and right is true and right for all. White and black alike.


sexta-feira, 7 de março de 2014

RELATÓRIO KINSEY (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Kinsey
Realização: Bill Condon
 
Principais Atores: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O`Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Dylan Baker 

Crítica:
 
A NATUREZA 
DA SEXUALIDADE HUMANA 

The gap between what we assume people do
 and what they actually do... is enormous. 

A publicação dos estudos de Alfred Kinsey sobre a sexualidade de homens e mulheres foram, para a sociedade norte-americana dos finais dos anos 40 e inícios dos anos 50 do século XX, como uma bomba atómica. Eu diria, uma bomba atómica para o mundo. Atentando contra a sociedade conservadora, de costumes profundamente religiosos e puritanos, eis a verdade sobre a prática sexual humana, sem eufemismos: sexo oral, anal, posições sexuais, masturbação, preliminares, homossexualidade, bissexualidade, heterosexualidade, frequência de orgasmos, de relações sexuais, etc. Falar abertamente de sexo e de prazer, rompendo pudores, desmistificando tabus e esclarecendo toda uma população na ignorância até perceber que everybody's sin is nobody's sin, and everybody's crime is no crime at all

As barreiras quebradas por Kinsey permitiram a sociedade que hoje conhecemos, com maior abertura para o sexo e para a sexualidade. É preciso ter bem presente que até então a masturbação era entendida como um pecado maior, capaz de levar à loucura, à cegueira ou à epilepsia, ou mesmo até à morte; tal era o medo e a culpa impostos pela cultura da época. A solução recomendada para o alívio, como alternativa à masturbação, era - no caso dos homens - mergulhar os testículos em água fria, ler o Sermão da Montanha ou - imagine-se - pensar na própria mãe. Se Relatório Kinsey, o biopic dramático de Bill Condon sobre Kinsey, ainda chocar, provocar ou de alguma forma causar desconforto no espetador, é sinal que ainda muita coisa está para mudar no que toca à abertura e naturalidade das pessoas para falar da sexualidade - aspeto determinante na formação da personalidade de qualquer indivíduo.

O apaixonante - para ele, Kinsey (memorável desempenho de Liam Neeson, num dos grandes papéis da sua carreira) - estudo da vespa-dos-galhos, da qual colecionou milhares e milhares de espécimes, levou-o a concluir que não há dois seres iguais, que a diversidade é irredutível, mas que, apesar de todos diferentes, há variações entre os indivíduos. Criado por um pai protestante e por demais castrador (John Lithgow, o qual entrevistará mais tarde, apercebendo-se dos seus traumas de infância), a sua investigação da sexualidade será uma luta metafórica contra o próprio pai, o qual sempre amou mas do qual nunca sentiu reconhecimento e uma continuação dessa sede de conhecimento, de respostas, iniciada com a vespa-dos-galhos. Afinal, tinha que ter provas científicas para argumentar com os pacientes que acreditam que a gravidez pode ter origem no sexo oral. Naturalmente, zoologia e biologia não são a mesma coisa, lidam com forças de opinião distintas na sociedade e desconstruir o mito da sexualidade trouxe-lhe muitos dissabores. Sex is a risky game, because if you're not careful, it will cut you wide open. Mas compensou.

Começou por destronar a ineficácia das aulas de higiene na Indiana University com o seu próprio curso. Let's start with the six stages of the coital sequence. Stimulation... lubrication, erection... increased sensitivity... orgasm and nervous release. Both sexes experience all six stages equally. Através de questionários pessoais, anónimos e confidenciais, iniciou as suas estatísticas e a descoberta foi por demais reveladora. Kinsey apercebeu-se de que a maioria da população é bissexual, embora essa maioria esconda os seus comportamentos desviantes (desviantes, considerando a cultura dominante que a heterossexualidade é a normalidade) por vergonha. As pessoas traem a sua própria natureza para serem aceites, para integrarem os grupos sociais. Assim sendo, compreendemos melhor os costumes da antiguidade clássica, por exemplo, ou mesmo os contrastantes e atuais. Kinsey refere-se ao assunto: Homosexuality happens to be... out of fashion in society now. That doesn't mean it won't change someday. A prática e a orientação sexual surge-nos não só predeterminada pelas necessidades biológicas mas inequivocamente influenciada pelos contextos sociais, ao fim e ao cabo também como uma questão de moda. Kinsey estabeleceu uma escala de 1 a 6 para classificar os indivíduos, sendo 1 exclusivamente homossexual e 6 exclusivamente heterossexual. Assistiu a encontros sexuais, filmou muitos deles, experimentou outros tantos. O amor pela mulher Clara McMillen (estupendo desempenho de Laura Linney) viu-se às tantas abalado pelas experiências extraconjugais, até que Clara também experimenta o amante do marido, Clyde Martin (Peter Sarsgaard). Acabam por redefenir o amor de ambos e entender-se perfeitamente até à velhice, salientando a necessidade e a importância de certas convenções para que as pessoas não se magoem mutuamente. 

Clyde Martin: Just one more question. You've just told me your entire history: childhood, family, career, every person you've ever had sex with. But there hasn't been a single mention of love. 
Alfred Kinsey: That's because it's impossible to measure love. And, as you know, without measurements there can be no science. But I have been thinking a lot about the problem lately (...)
When it comes to love, we're all in the dark.

A dado momento, Kinsey diz: Love is the answer, isn't it? But, sex raises a lot of very interesting questions... Há depoimentos insólitos, perturbantes, outros especialmente tocantes, outros até repugnantes como casos de incesto, de violações ou de pedofilia, obviamente condenáveis. O testemunho final, excecionalmente interpretado por Lynn Redgrave, a respeito da sua homossexualidade, é derradeiramente comovente e acaba por simbolizar o reconhecimento e o agradecimento de todos quantos viram as suas vidas melhorar graças ao trabalho e à coragem de Kinsey:

We'd been married for years, with three marvelous children. And as soon as my youngest left to go to college... I took a job in an arts foundation. I met a woman there - secretary in the grants office. We became fast friends, and... before long, I fell in love with her. Hmm. This came as quite a shock, as you might imagine. The more I tried to ignore it... the more... powerful it became. You have no idea... what it's like to have your own thoughts... turn against you like that. I couldn't talk to anyone about my situation... so I found other ways to cope. Uh, I took up drinking. Eventually, my husband left me. Even my children fell away. I came very close to... ending it all (...) Things have gotten much better (...) After I read your book, I realized... how many other women were in the same situation. I mustered the courage to talk to my friend... and she told me, to my great surprise... that the feelings were mutual. We've been together for three happy years now. You saved my life, sir.

Relatório Kinsey não é, com toda a certeza, o melhor dos filmes (como a maioria dos biopics, aliás), assim como Bill Condon não é o melhor dos realizadores. No entanto, não sejamos injustos: apesar de aqui e ali inequivocamente formatado, tem grandes interpretações, valores seguros de produção (montagem, direção artística, fotografia ou banda sonora) e um interessantíssimo argumento, muito bem humurado, que acaba por enfatizar a sua natureza ensaística e didática. O argumento deste filme é essencial para o filme mas também para o conhecimento público, sobretudo para todos quantos desconhecem a figura histórica e o seu legado para as gerações futuras. Para todos esses, o filme terá passado despercebido, mas é de visualização obrigatória. Para todos os outros, poderá sempre conduzir a alguma descoberta, quando muito não seja sobre eles próprios.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

AS HORAS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hours
Realização: Stephen Daldry

Principais Actores: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Stephen Dillane, John C. Reilly, Ed Harris, Miranda Richardson, Toni Collette, Claire Danes, Jeff Daniels, Allison Janney, Jack Rovello

Crítica: 

I choose death.

A ANGÚSTIA DO TEMPO

I chose life.

A morte assombra As Horas desde o primeiro instante: desde o trágico prólogo em que Virginia Woolf sai de casa, atravessa o jardim apressadamente e avança pelas águas do rio Ouse adentro, de pedregulho no bolso, decidida a terminar o seu longo tormento: existir. Desde esse primeiro instante, as prodigiosas notas de Philip Glass acompanham cada fôlego das personagens - a música emerge como a lúgubre alma do filme. Quando o quadro se desvanece a negro e os créditos finais encerram a obra, a fluidez, a repetição e o dramatismo existencial das notas do compositor já penetraram a memória do espetador e acompanhá-lo-ão na reflexão.

Someone has to die in order that the rest of us should value life more. It's contrast.  
Virginia Woolf

As Horas é um ensaio filosófico tremendo, sobre a tristeza e a profunda infelicidade que advém da prisão em que se pode tornar a nossa vida caso persistamos em ignorar a nossa voz interior e em sermos nós próprios. É sobre a busca da felicidade no tempo... quando esta não vive senão na inquietude do instantes presentes. A passagem do tempo, das horas, pode ser uma experiência extremamente dolorosa... A partir do romance original de Michael Cunningham, a bem sucedida adaptação de David Hare: uma construção narrativa a três tempos, exigente, ousada e magnífica, assim como as performances da tríade de atrizes principais - Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep - as quais o filme enaltece como lendas da representação que, verdadeiramente, são. Para alguns a morte pode ser uma libertação (é com toda a certeza um escape para a instável, depressiva e intensa Virginia Woolf, decorre a ação no Reino Unido entre 1923 e 1941; Kidman transfigura-se sublimemente na pele da escritora britânica e não só por mérito da excelente caracterização), para outros uma incógnita (é o caso de Laura Brown, para quem a vida doméstica e familiar se tornou numa experiência profundamente frustrante, surgindo o suicídio como uma possível solução, decorre o melodrama na Los Angeles de 1951; o olhar de Moore transcende-se a cada cena e compreendemo-la embora tenhamos dificuldade em perdoá-la), para outros um destino cruel a evitar a todo o custo (Clarissa Vaughan deixou de viver para ela própria e perpetua uma tristeza crescente enquanto trata do amigo Richard, vítima da sida e de um desejo de morte quase poético; estamos em Nova Iorque, 2001. Meryl Streep entrega-nos mais um fabuloso desempenho da sua carreira. Richard é interpretado por um tocante e comovente Ed Harris).

Virginia Woolf, nos anos 20, escrevendo o seu romance Mrs Dalloway
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself. 

Laura Brown, em 1951, lendo o livro de Woolf: 
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself. 

Clarissa Vaughan, 2001, vivendo, de alguma forma, a realidade ficcional: 
Sally, I think I'll buy the flowers myself.  

Stephen Daldry concretiza um filme, em todos os aspetos, magistral. É o triunfo da inspiração e da arte sobre quaisquer dificuldades de adaptação. É a captação e a conversão da essência e do espírito do livro à linguagem cinematográfica. No guião ou na palavra proferida pelos atores, no movimento de câmera ou na beleza dos enquadramentos (fotografia de Seamus McGarvey) ou na já referida banda sonora, há uma noção harmoniosa da sensibilidade e subtileza necessárias e extremas para potenciar cada cena, cada momento. Esse uníssono, neste filme em particular, foi determinante. Funcionam assim as três histórias em paralelo e estabelecem-se, pelos detalhes, os vários pontos de ligação, como se houvesse uma narrativa comum e que evolui ao longo do tempo, como que numa superação ou entendimento maior da morte. Daí que Virginia escolha a morte, que Laura a tente mas opte pela vida e que para Clarissa a morte não seja sequer uma possibilidade - o contacto que estebelece com a morte é pela morte do outro, do amigo Richard (que às tantas descobrimos ser o adorável filho de Laura, que conhecemos no trecho dos anos 50). A ligação das três mulheres ao romance Mrs Dalloway é fulcral à sucessão dos acontecimentos. Viriginia já escrevia o romance quando decidiu que a protagonista não se suicidaria. The poet will die. The visionary. Daí a viragem no trajeto de Laura, a leitora. Daí também a morte de Richard, na terceira história.
 

To look life in the face, always... to look life in the face, and to know it for what it is... at last, to love it for what it is, and then, to put it away.
Virginia Woolf

E assim temos um filme que, tal como o inspirador livro de Richard, é... de «leitura difícil», tão lírico e erudito. Uma obra fascinante sobre tudo aquilo que antecede a Morte... o Tempo... as Horas... e a angústia decorrente dessa consciência. Um dos melhores filmes da década.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM MÉTODO PERIGOSO (2011)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Português: Um Método Perigoso
Realização: David Cronenberg
Principais Actores: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Isabel Lucas

Crítica:

A CURA PELA PALAVRA

Do not pass by the oasis without stopping to drink.

Aqueles detratores que adoram comparações lembrar-se-ão naturalmente dos telefilmes da BBC, quando visualizarem esta nova obra de Cronenberg, Um Método Perigoso. O filme é um portento, tecnicamente falando, verosímil quanto baste na reconstituição histórica (dos cenários e decoração ao guarda-roupa e acessórios), irrepreensível na fotografia e na banda sonora (Peter Suschitzky e Howard Shore, respectivamente, em mais uma frutuosa parceria com o cineasta) e nos demais departamentos técnicos. A nível da história, contudo, fica-se pelo drama eficiente e nunca demasiadamente estimulante.

O mais interessante para quem já conhece, de antemão, o triângulo explorado (refiro-me às relações entre Sabrina Spielrein, Carl Jung e Sigmund Freud) está mesmo nas performances dos actores escolhidos para protagonistas; respetivamente: Keira Knightley, Michael Fassbender e Viggo Mortensen. A primeira, vem comprovar uma vez mais ser uma actriz capaz, de muito trabalho e entrega aos seus papéis. Sobretudo no overacting dos seus espasmos de abertura, Knightley é impressionante, em toda a sua expressão corporal. Brilhante desempenho. Fassbender é outro actor em ascensão, tem tido um percurso notável nos últimos anos que culmina ainda em 2011 com a sua segunda cooperação com Steve McQueen, no profundamente intimista Shame. Em Um Método Perigoso mantém-se ao mais alto nível; é um actor muito constante, à semelhança de Mortensen que tem liderado o elenco dos dois últimos filmes do realizador, que referirei abaixo. Saliente-se ainda a robusta prestação de Vincent Cassel, já no elenco secundário.

De resto, sejamos sinceros: de uma abordagem às origens da psicanálise (já nem me refiro ao facto de se tratar de um filme pelas mãos de Cronenberg) esperava-se uma experiência minimamente ousada, provocante e, se não tanto, pelo menos desconcertante. Não é nada disso que acontece: o argumento de Christopher Hampton adapta o livro A Most Dangerous Method, de John Kerr, e sobretudo a sua peça The Talking Cure. Corre o biopic, sucedem-se os episódios (uns mais relevantes do que outros) e aquilo que temos é mais um filme bem feito, a que se assiste com passividade e com pouco mais interesse do que se assiste a um documentário; pouco, diria, para um cineasta que já nos trouxe títulos como Uma História de Violência ou Promessas Perigosas; só para citar os mais recentes na sua filmografia. De todos estes filmes, o Método, apesar de Perigoso, é certamente o mais inofensivo. Assiste-se ao filme sem qualquer apelo maior ao inteleto ou às emoções (ainda assim, talvez mais às emoções do que ao inteleto). É Cronenberg sem sair da sua zona de conforto, jogando pelo seguro em todas as frentes. Enfim, se há crítica negativa que lhe posso apontar é esta, porque no seu todo o filme parece-me claramente imune a objeções maiores.

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Originalmente publicada na edição 28 da Revista Take.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

RESCUE DAWN - ESPÍRITO INDOMÁVEL (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Rescue Dawn
Realização: Werner Herzog
Principais Actores: Christian Bale, Jeremy Davies, Steve Zahn, Zach Grenier, Craig Gellis, Marshall Bell, François Chau, Pat Healydlund

Crítica:

SOBREVIVÊNCIA NA SELVA

The jungle is the prison.

Werner Herzog filma magistralmente a selva, sabemo-lo desde Aguirre, O Aventureiro, de 72. Os primeiros minutos de Rescue Dawn - Espírito Indomável nem auguram um filme excecional, mas é preciso que o avião de Bale se despenhe nos confins do Laos para que o drama (com contornos de aventura realista) se inicie e o filme revele os seus méritos artísticos, que os tem e são absolutamente notáveis.

Há que mencionar, antes de mais, que Herzog filma uma história verídica, que já havia documentado anteriormente em Little Dieter Needs to Fly; uma clássica e inspiradora história de sobrevivência com as potencialidades d'O Náufrago, de Zemeckis. Feito prisioneiro pelos guerrilheiros locais, a primeira parte da obra é sobre a sua luta pela liberdade; face à dureza e à impossibilidade das circunstâncias, Dieter conserva um otimismo obstinado e bem-humorado, absolutamente inesperado mas intrínseco ao seu carácter, que motivará os seus companheiros - do campo de guerra para onde é levado e no qual será torturado - para a esperança e para a ação, acabando por liderá-los para o escape. Plausíveis, intensos e fabulosos, os desempenhos de Christian Bale (mais um papel física e psicologicamente bastante duro e exigente, que o ator supera com uma coragem e uma entrega fora de série; estamos lembrados desse extremo que se atingiu em O Maquinista), Steve Zahn (tão verdadeiro na sua aparente apatia, como se de um fantasma deambulante se tratasse, consumido pelo medo; um ator que até então me passara completamente despercebido) ou Jeremy Davies (para mim um eterno e inesquecível secundário desse colossal filme de guerra que será sempre O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg). Os desempenhos são comoventes.

Quando se concretiza a planeada fuga, a selva torna-se a prisão já anteriormente anunciada pelo Gene de Davies, uma personagem muito mais impiedosa do que qualquer um dos capangas mal-encarados do Pathet Lao, um lugar onde os limites que se julgavam até então ultrapassados exceder-se-ão radicalmente, para lá da força humana, para lá do que alguma vez imaginaram possível. A luta pela liberdade dá então lugar à luta pela sobrevivência; a experiência será terrífica e profundamente marcante. Às tantas, Dieter e o distante Duane de Zahn vêem-se a partilhar o protagonismo do segundo acto com a selva. A contracena é por demais desigual. É por isso que o otimismo de Dieter acaba por ceder e se esvai na lama, como que abalroado pelo desmoronamento que as chuvas torrenciais, a dado instante e literalmente, provocam.

A fotografia naturalista de Peter Zeitlinger e os sons da natureza reproduzidos captam toda a exuberância e a humidade daquela paisagem verdejante, desconhecida e quase impenetrável, que envolve o aldeamento de palhotas de bambu e que nos envolve também a nós, espetadores, magnetizando-nos. O espirituoso trabalho de câmera quase que nos coloca naquele hipnotizante e ameaçador ambiente selvagem, quais personagens. Quase sentimos os cheiros e as temperaturas. Quase. Esta é uma indelével proeza: a autenticidade atinge tal nível que nos permite fazer parte da viagem emocional das personagens. A fluída banda sonora de Klaus Badelt conduz-nos e induz-nos para essa viagem.

A admiração que tenho pelo filme é clara; o que não me impede de salientar, todavia, que tinha potencial para atingir maior desenvoltura, formal ou dramática, assim tivesse uma abertura e um desfecho melhor trabalhados, enquadrados e filmados. Ainda assim, é um bom filme, com muito para se apreciar prazerosamente.

domingo, 26 de janeiro de 2014

MÁQUINA ZERO (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Jarhead
Realização: Sam Mendes

Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Laz Alonso, Brian Geraghty, Jamie Foxx, Skyler Stone, Wade Williams, Katherine Randolph, Chris Cooper, Lucas Black, Dennis Haysbert

Crítica:

NASCIDOS PARA... MATAR?

Welcome to The Suck.

Depois da magistral passagem pelo filme de gangsters com o virtuoso Caminho Para Perdição, eis que Sam Mendes se estreia no género guerra, regressando à sátira que tão bem trabalhou no aclamado e premiado Beleza Americana. William Broyles Jr. (o mesmo de O Náufrago) adapta a autobiografia do fuzileiro Anthony Swofford, sobre a sua frustrante experiência na guerra do Golfo, e o humor negro, por demais corrosivo, assume desde logo a ação, ridicularizando e criticando os excessos e os vazios da operação americana pelo abrasador deserto da Arábia Saudita, no início da década de 90. Pela eloquente narração de Jake Gyllenhaal - genuinamente intenso no seu papel - conhecemos a desconcertante perspetiva e apercebemo-nos do seu desencanto. Eis a auto-reflexão e o exame de consciência, a masturbação metafórica, que permitirá, quem sabe, a catarse.

O filme abre na recruta e em absoluta homenagem à primeira parte de Nascido Para Matar, de Kubrick. Muito antes de oferecer o corpo às balas, na linha da frente das estratégias do sistema político, integrar o serviço militar significa submeter-se à obediência cega dos superiores e à humilhação de superiores ou iguais, sem qualquer questionamento. Alheio a ideologias prévias ou a sensibilidades maiores, o processo de converter um jovem cidadão numa brutal máquina de guerra resulta de um certo estímulo da idiotice. Haverá outra forma de classificar a oratória e a linguagem, a praxe, os catigos e as punições, a autoridade excessiva, a privação da liberdade, a extinção da individualidade, da privacidade, da sexualidade, das relações sociais no meio original de cada um, onde petencem a alguém ou a algum lado? Onde constroem afetos e onde, sem refletirem sobre isso porque é um dado adquirido, têm identidade própria? As forças militares, pela necessidade que têm em desumanizar de alguma forma os seus filhos/produtos por forma a prepará-los para a defesa de um país, para o confronto e para a temível morte, podem condená-los a uma experiência, senão derradeira, profundamente traumática. Ser tropa é submeter-se a uma preparação tal que podemos chamar-lhe, ao processo, lavagem cerebral.

Chamam-lhes Jarhead, Cabeças de Jarro, por causa do penteado e porque têm que ter, realmente, a mente vazia como um jarro para suportarem o desconhecido que, nos piores casos, os espera... Swofford encheu-se de areia, descobrimos num pesadelo. Pobres coitados, aqueles cuja memória ainda invoca o conforto de outros tempos, e que se lamentam ou que choram por medo, por arrependimento ou por saudades. Só mortos não sentirão qualquer dor, naturalmente. Terão a dor de ficar doentes ou feridos ou enlouquecidos ou... como será aqui o caso, desesperadamente à espera de nada - bem que anseiam por disparar, mas esperam e esperam, os dias tornam-se semanas e meses e nada. Bem que imaginaram a refrega a rebentar ao som de Wagner, com negros e furiosos helicópteros a rasgar os céus com balas e destruição, como no genial Apocalypse Now de Coppola a que assistem com uma excitação tão infantil quanto animal antes de partirem para o deserto. Enfim, como se a guerra fosse cenário para heróis. Estavam tão longe de imaginar que o Golfo seria para eles um exercício de perfeita desilusão e inutilidade, de tédio elevado ao cubo, a que se poderia também chamar perda de tempo e de existência. Swofford certamente que lhe chamaria... masturbação. Sorte a deles, ou acabariam, se não pior, como aquele veterano que lhes entra pelo autocarro do regresso a casa.

O argumento - da narração aos diálogos e à sua construção - é dotado de assaz inteligência, perspicácia e irreverência. É brilhante, pois claro. Funciona como um murro no estômago, tal é a exploração do absurdo que o real mais parece, na maior parte do tempo, surreal. Edifica-se assim um filme que é de guerra sem o ser realmente - o que poderá desafiar a sua catalogação (não que isso seja importante) e ter defraudado as expetativas de muitos espetadores (que também não será o muito importante; cada filme é o que é). Como em qualquer grande filme de guerra, o elenco secundário confere autenticidade ao retrato, como é o caso especial de Jamie Fox e Peter Sarsgaard. A banda sonora - da original de Thomas Newman às canções sempre tão cool - ajudam à crítica ou à paródia, neste caso último como que gozando constantemente com tudo e todos. Os movimentos de câmera são sublimes na captação de toda a reportagem, preponderantes para a criação da tensão até ao limbo dos poços em chamas, e os enquadramentos da portentosa fotografia de Roger Deakins (assim como cada jogo de luzes e cores) atribuem à obra uma beleza e um esplendor para lá de arrebatadores. Raramente os quadros de um filme de guerra (ou passado no deserto) terão sido visualmente tão deslumbrantes e cheios de estilo como em Máquina Zero.

Um projeto arriscado, mas que por mérito artístico se consagra absolutamente vitorioso.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões