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domingo, 18 de fevereiro de 2018

MÃE! (2017)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Mother!
Realização: Darren Aronofsky
Principais Actores: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig, Stephen McHattie

Crítica:

DO PARAÍSO AO INFERNO:
O ETERNO CONTO DA HUMANIDADE 

I gave you everything. You gave it all away.

Mãe! é, provavelmente e por variadíssimas razões, o mais audacioso, bizarro e desconcertante filme a ser produzido - em anos - por um grande estúdio de Hollywood. Primeiro que tudo, o trailer: Mãe! é-nos vendido como um típico filme de terror: estão lá a casa isolada, o sangue e os sons arrepiantes, os estranhos e os aparentes acontecimentos sobrenaturais. Estão lá actores de primeira linha, a chamar o público. Mas está lá também, ou sobretudo, o nome de um artista genial, a assinar aquela que é, porventura, mais uma das suas controversas obras-primas: Darren Aronofsky - o mesmo do poético e transcendente The Fountain, o mesmo do fantástico e incompreendido Noé. Estes três títulos, todos cabalísticos, estabelecem entre si um estimulante diálogo, mas nenhum deles é tão brutal e radical como Mãe!. Percebamos porquê.

Mãe! é, como se diz, um filme que divide opiniões, polariza posições e não é para menos. Assistir ao filme é uma experiência a que ninguém fica indiferente. Desde que abre, confunde o espectador. A sua forma - aquela que o trailer anunciou - está em constante mutação, as regras do realismo e da narrativa alteram-se a cada cena, como se mergulhássemos no mais perfeito pesadelo, imune à lógica, absolutamente imprevisível e permutável ao absurdo. Eis, pois, o primeiro choque: as quaisquer expectativas que tenhamos criado previamente em relação ao filme são-nos rapidamente goradas e desconstruídas.

Não há música, apenas sons, excepcionalmente explorados e imersivos, intensificando o suspense. Seguimos a protagonista de perto - uma bondosa e vulnerável Jennifer Lawrence - e simpatizamos com ela de imediato. Aquilo a que assistimos é essencialmente o seu ponto de vista, deambulante pela casa, múltipla em repartições (o design de produção esmerou-se na concepção de um construção incrível, palco de todos os travellings). A câmera acompanha-a sempre (os close-ups chegam a ser intimidatórios, de tão próximos) e encerra-nos numa claustrofobia asfixiante, que só tende a crescer. A soturna fotografia de Matthew Libatique esbarra-nos numa existência solitária, sensível a cada movimento, a cada marcação. A mulher é inteiramente dedicada à casa e ao marido - esquece-se de si própria e entrega-se de alma e coração. Sente a pulsação da construção como se fosse a sua, basta fechar os olhos e sentir (e pelas visões sabemos: a casa está a morrer). Ela e a casa são uma só, um ser vivo que inspira o marido, o qual se alimenta da sua graça e amor para a sua poesia. I wanna make a Paradise, diz ela, com a virginal inocência com que lança o pincel e a tinta às paredes, sonhando um futuro risonho. O marido (o enigmático Javier Bardem) ora está como não está fisicamente em cena, por casa, mas a mulher sente sempre a sua presença. Estaremos agora perante um melodrama?, pensamos, intimista e sobre a relação do casal? Não obstante, quando batem à porta, um estranho entra e depois outros, chegam sem serem convidados, instalam-se e pernoitam sem o consentimento da jovem, contra a sua vontade. O marido como que acolhe e protege os estranhos indiferente à opinião da mulher. E os convidados - ou melhor, os intrusos -, tanto se mostram amistosos como provocadores e abusadores, quais serpentes sibilantes sempre prontas a morder ao mais simples virar de costas. O filme torna-se cada vez mais confuso e uma questão nuclear, sobre tantas outras, assola-nos a consciência: mas que raio de filme estamos afinal a assistir? Não, Aronofsky não está minimamente preocupado em responder a isso. Sempre que a torneira se fecha e a acção abranda, a acalmia reconforta-nos e apazigua-nos mas não tardará a vir uma enxurrada de caos, capaz de invadir e destruir a casa, violentando a mulher e reduzindo-a a cinzas. Quando menos dermos por isso, o filme transforma-se num desaire apocalíptico: alucinante e imparável, impiedoso e infernal. Aí percebemos que o filme só acabará quando mais nada sobrar intacto.

Interpretando o filme à letra - para todos aqueles incapazes de reconhecer os símbolos, de seguir as pistas e de descodificar os significados ocultos - julgo que Mãe! se revelará um frustrante e insignificante pedaço de cinema. Identificar o duplo sentido da uma história e segui-la à luz da alegoria é um sinal de inteligência e não é para todos. Muitos espectadores não estão habilitados ou simplesmente não querem ser intervenientes activos na interpretação de uma história. Procuram tudo explicado, tudo tem que ser lógico ou fazer sentido imediato. São os mesmos que, muitas vezes, são incapazes de adorar uma fantasia. Ou um musical. Muitos espectadores assistirão a Mãe!, pois, e no final, se não tiverem desistido pelo meio, detestá-lo-ão categoricamente. Pela ignorância é fácil apelidá-lo de idiota, presunçoso ou pedante. Mãe! não é esse filme superficial. Qual iceberg, é nas camadas invisíveis que esconde a sua essência hermética. E a sua dualidade torna-o um objecto rico e simultaneamente enriquecedor, pois outros espectadores, perplexos com a complexidade e incomodados com o seu mistério esmagador, assistirão o filme uma e outra vez, procurarão respostas e explicações pela internet. Aí, quando se depararem com as descobertas, com o quebrar dos enigmas, dificilmente não o adorarão. Mãe! é um poço fundo e inesgotável de entendimentos. Ninguém sairá do filme absolutamente iluminado, antes intrigado e motivado para seu o estudo e para o seu culto.

Eis, pois, o retrato da decadência da Humanidade, da alegoria bíblica à mais gritante e urgente metáfora ecológica. Lawrence é a Criação e Bardem o Criador, Deus, que olha a casa do alto das escadas como quem vislumbra a Terra das alturas. É ele o poeta, o autor do Génesis e de todo o Antigo Testamento, as sagradas escrituras que os homens adoram. Por isso o idolatram. A casa simboliza, inicialmente, o Jardim do Éden, o paraíso onde reina a paz e a perfeição. Ed Harris é Adão (note-se a ferida nas costas, pela qual terá sido extraída a costela) e Michelle Pfeiffer é Eva (que se perde na limonada como quem prova o fruto proibido). Ambas as personagens conferem, às tantas, uma nova tonalidade, como se o filme abraçasse a comédia negra. Têm dois filhos e os irmãos Gleeson representam-nos: Caim e Abel, que lutam entre ciúmes mortais. Com a primeira morte provocada, abre-se uma ferida na casa, semelhante a uma vagina menstruada, que jamais se fechará, como que manchando para sempre o destino dos Homens. Os mais variados pecados se cumulam em cena. Lawrence assiste ao desenrolar dos acontecimentos, impotente e esperançada. O sapo anuncia a praga que virá e a vinda dos demónios. O dilúvio pode acontecer à escala de uma inundação, caso rebente um cano ou dois. Um dia, Lawrence engravida e o bebé, que será comido pelos ávidos e fundamentalistas seguidores da fé, é Jesus. Quando a criança nasce e chora e tudo se silencia, lembramos o milagre do distópico e magistral Os Filhos do Homem, de Alfonso Cuarón, num cenário não muito diferente. É o nascimento que inspira o poeta a novas escrituras; alusão ao Novo Testamento, que por sua vez desencadeia uma nova e fanática invasão, ainda mais forte; alusão ao cristianismo. É a partir daí que Lawrence se transfigura, física e emocionalmente, levando a sua revolta imperiosa e implacável a todos os que a ignoraram e magoaram, inclusive contra Deus, que acusa de se ter aproveitado do seu amor incondicional. O cristal de poderes regeneradores, de acordo com tradição gnóstica, simboliza o amor, deixado pela amante ao demiurgo na esperança de que um dia também ele aprenda a amar. Pela alegoria bíblica, é a devoção religiosa, cega, descontrolada e extremista, a causadora da destruição. A devoção dos Homens, egoístas e obcecados, feitos à imagem de Deus.

Pela alegoria ecológica, a causadora do fim é a negligência - igualmente cega, descontrolada e extremista. O despertar da mulher no eterno recomeço chama a atenção do espectador: acorda! para a mensagem que se segue. A mulher e a casa representam o planeta terra, o nosso lar. Imaculada, a mãe natureza põe todos os recursos ao nosso dispor. Ocupamo-la, consumimo-la, poluimo-la e devastamo-la. No caminho, destruimo-nos uns aos outros. Destruimo-nos a nós próprios. Que falta de consideração, que vergonha. Vejamos cada personagem, tão egoísta. A falta de respeito conduz ao ódio e à guerra. A todo o instante histórico, temos a opção de escolha: de mudar, de fazer diferente, de inverter a destruição massiva, de nos purificarmos e, sob um efeito catártico, de salvarmos o mundo e a Humanidade. No entanto, não nos unimos para inverter a maré. O inferno vem de fora para dentro, mas o paraíso vem de dentro para fora! Cada um de nós tem em potência, no seu interior, a possibilidade de mudar o mundo, de torná-lo um lugar melhor para nós e para os nossos filhos. Não podemos ignorar a nossa Mãe, infligindo-lhe tamanha dor, sendo tão assustadoramente irresponsáveis. Esta mensagem faz especial sentido num tempo em que vivemos sob a ameaça do aquecimento global e da guerra nuclear. O poderosíssimo final, tão surreal e premonitório, assombra-se-nos como algo horrivelmente possível e próximo. Neste sentido, Mãe! formula-se como a mais desencantada e alarmante tragédia, que poderá facilmente saltar da tela para a nossa realidade.

Por tudo isto, Mãe! é um filme muito pessoal, muito peculiar. Arriscadíssimo, pois as possibilidades de retorno financeiro para um projecto tão divisivo dificilmente seriam estrondosas. Mãe! é tão ou mais obsessivo do que qualquer uma das outras obras de Aronofsky, à data, mas possui uma irreverência e uma pulsão joviais que por vezes só explodem em obras em início de carreira, antes da maturidade. O impacto é comparável ao de um Clube de Combate. Não deixa de ser, por isso, insólito e inesperado que do artista brote tamanha efervescência numa altura em que a sua carreira se cimenta e consolida no firmamento dos maiores cineastas da actualidade. Que Aronofsky teremos daqui para a frente?

Facilmente, o melhor filme de 2017, a par de Blade Runner 2049, de Denis Velleneuve.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Realização: Alejandro Gonzalez Iñárritu
Principais Actores: Michael Keaton, Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan, Jeremy Shamos, Natalie Gold, Merritt Wever 

Crítica:

O METEORITO E AS ALFORRECAS

A thing is a thing, not what is said of that thing.

Mas - permitam-me começar com a adversativa - como é que raio ou meteorito fizeram este inacreditável filme? Prodígio técnico absoluto - na câmera, na encenação e na representação -, assistir a Birdman será sempre um deslumbramento. O rigor e o formalismo jamais se esgotam em si mesmos, antes acentuam o realismo e a sensação de que assistimos a uma grande peça de teatro, com uma peça de teatro lá dentro. Sufoca-nos, a nós e às personagens, a claustrofobia daqueles corredores intermináveis, dos camarins minúsculos e da iluminação soturna e sempre artificial do backstage. Sufoca-nos, tão-mormente, aqueles geniais e engenhosos planos-sequência que se unem e fluem como um só. Não admira, pois, que quando a câmera acompanha as personagens ao topo do edifício ou numa saída à rua - alia-se geralmente a sinfonia - nós e o filme inspiremos e expiremos profundamente, numa prazerosa lufada de oxigénio. Nós e o filme, nós e as personagens - sempre: os travellings perseguitórios tornam-nos íntimos e cúmplices e, quais personagens, deambulamos pelo set, vivendo as suas angústias.

Michael Keaton, Naomi Watts e Edward Norton arrasam em atuações excepcionais. São actores a fazer de actores e o filme é, em parte, sobre o que significa ser actor. A busca, sempre crescente, do sucesso e do reconhecimento - ou da alimentação do ego. A procura da representação da verdade na ficção perante o risco de, sem perceber, se representar a vida, tornando-a uma trágica mentira. Note-se o caso de Mike (Norton) para quem o palco é o único sítio onde consegue ser autêntico e ter, com facilidade, uma erecção, sendo capaz de pôr toda a peça em risco em nome da verdade e das sensações genuínas. Note-se o caso de Lesley (Watts) que sempre sonhou ser actriz da Broadway e que, tornando-se finalmente quem sempre quis ser, se esbate com as inseguranças de menina. Note-se Riggan (Keaton, o protagonista) que investe tudo o que tem e o que é na derradeira tentativa de regresso aos êxitos e de não cair no esquecimento (relação metadiagética com a situação real do próprio actor), numa era em que se atropelam as sequelas de super-heróis (a sátira é clara) e a memória da trilogia Birdman, onde estrelou, se apaga a cada dia. Riggan é o meteorito com que a obra abre, a estrela-cadente que, plena de frustração e de incapacidade em superar-se e em renovar-se, conhecerá a morte no impacto que se aproxima. A imagem é belíssima. Conseguirá ele reerguer-se e tornar ao firmamento, ausente que está dos fenómenos virais da sua atualidade como o facebook, o youtube ou o twitter? Abismado que está pelas dúvidas existenciais, pela honra ferida e pela crítica feroz? Riggan está sozinho entre um elenco de egos. E ninguém parece disposto a dar-lhe a mão. This stage has belonged to a lot of great actors, but you are not one of them - diz-lhe Mike, a dado momento, confrontando-o - You nobody piece of shit! (...) My massive hard-on got 50,000 views on YouTube. A cat playing with a dildo gets more than that. O seu alter ego, com quem tantas vezes dialoga na solidão e que não é senão a voz do seu Birdman de outros tempos, tão depressa o endeusa como o desmoraliza: without me, all that's left is you... a sad, selfish, mediocre actor... grasping at the last vestiges of his career. A crítica Tabhita Dickson devasta-o: you're no actor, you're a celebrity. Let's be clear on that. E até a melancólica filha Sam (brilhante Emma Stone) o chama à razão: you're doing this because you're scared to death, like the rest of us, that you don't matter. And you know what? You're right. You don't. It's not important. You're not important. Get used to it. Quais alforrecas, todos se lhe colam e queimam o corpo e a alma. Não admira, portanto, que o desencanto triunfe e que o suicídio seja encarado como a única solução - e salvação. Terá um ego tão inflamado, mesmo na desilusão, coragem para tamanho feito?

Com Birdman, Alejandro G. Iñárritu lembra-nos por que é, afinal, um dos mais ambiciosos e mais estudados cineastas deste início de século - lembremos, a título de exemplo, Babelesse seu extraordinário filme-mosaico, cuja urgência é gritante e a excelência completamente irrevogável. E quando utilizo o adjectivo estudado (não me justificarei quanto ao ambicioso, porque acho que a obra fala por si), utilizo-o na sua dupla acepção: não apenas no sentido em que o estudam, mas sobretudo no sentido em que Iñárritu estudou e conhece o legado que a sua arte e os seus mestres lhe deixaram. Só se pode procurar ser original e inovador, num mundo onde já tudo foi inventado, se estudarmos o melhor possível a nossa arte, os clássicos e o que já foi feito. Até imitar não é para todos e saber imitar bem uma obra de arte. O mesmo é válido para qualquer cinéfilo ou crítico: a nossa apreciação de filmes como este só beneficiará se tivermos assistido ao A Corda de Hitchcock ou se soubermos mais sobre as experiências e as propostas que têm sido feitas com os planos-sequência ao longo dos tempos. O estudo é importante. Da mesma forma é estúpido criticar Iñárritu só porque é audaz ou reúne esta ou aquela influência. Chamam-lhe, alguns, arrogância. À leviandade desses alguns, chamaria, por cortesia, inesperada virtude da ignorância. Por mais que se rodeie de alforrecas, se há coisa que Iñárritu não é é seguramente um meteorito; excepto na força. O seu trajecto é claramente inverso e ascendente. O cineasta arquitecta e concretiza aqui mais um desafiante e brioso exercício de estilo, distante de clichés, matematicamente preciso e assaz meticuloso e sem grandes truques de montagem, que se transcende em criatividade e emoções, sempre atento às fragilidades da condição humana. Não tenhamos dúvidas: Birdman é o fascinante resultado de ensaios, ensaios e mais ensaios, muita dedicação, paixão e entrega à arte e, claro, de uma boa dose de loucura. O assustador trabalho de Emmanuel Lubezki revela-se, em tudo e por tudo, absolutamente épico.

Por isto, estamos perante um imperioso triunfo - um filme para a vida.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SINÉDOQUE, NOVA IORQUE (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: Synecdoche, New York
Realização: Charlie Kaufman
Principais Actores: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan, Emily Watson, Hope Davis, Dianne Wiest, Deirdre O'Connell

Crítica:

O GRANDE ENSAIO 

The end is built into the beginning.

À primeira tentativa, Sinédoque, Nova Iorque adormeceu-me. Não terei assistido a mais do que quinze, vinte minutos, na verdade, e depois esteve na prateleira, na companhia de outros tantos títulos, durante seis ou sete anos. Até que, finalmente, me voltou a chamar. Ensonou-me não porque se tratasse necessariamente de um filme mau - quantos não são os factores que nos levam a adormecer. Os filmes de Malick, que tanto adoro, por exemplo, embalaram-me já um par de vezes - inebriam-me, o que posso fazer, mexem com o meu subconsciente. E suspeito que, tendencialmente e com os anos, o sucedido me virá a acontecer ainda mais vezes. Ter-me-ia então, o filme, efetivamente aborrecido? Não seria de estranhar: Caden Cotard (brilhante interpretação de Philip Seymour Hoffman) é, provavelmente, a personagem mais aborrecida e deprimida de que há memória. Não, certamente que não: Caden Cotard é, para o espectador, uma criação por demais rica, enigmática e fascinante. Cessarei, por isso, de tentar culpar o filme, até porque o fait diver de ter adormecido não é mais do que isso, um fait diver - pessoal e sem qualquer importância. O que importa é que, atendendo ao chamamento, vi o filme. E fiquei maravilhado: é extraordinário. Não tardará a chamar-me mais vezes. Conto ficar acordado.

Quem é Caden Cotard e sobre o que fala o filme? Bem, Caden é um encenador de teatro, casado e com uma filha. Vive rodeado de gente, no entanto está mergulhado na solidão e à beira do abismo - e assim viverá toda a vida. Sem qualquer resquício de amor-próprio, é convictamente aborrecido, deprimido, falhado, frustrado, desesperançado, paranóico e hipocondríaco (corre todos os médicos e especialidades, tem todos os sintomas e mais alguns e urina ou defeca sangue com alguma regularidade - quando não o faz certamente que imagina que sim). É incapaz de exprimir sentimentos ou sensações genuínas, já quase que não saliva ou lacrimeja e tem que estimular o corpo nesse sentido, não vá secar-lhe a alma. É mau marido, mau pai, faz terapia de casal e individual, lê livros de auto-ajuda e jornais (nos quais apenas destaca as más notícias e os obituários) e é obsessivo com as limpezas e com o trabalho. Revê-se nos reclames da televisão e até nos desenhos animados, nas situações mais indesejadas. É o centro do mundo, os arredores e a totalidade. Pintado este quadro, não admira que não divirta nada nem ninguém, que todos se fartem dele e que venha a tentar o suicídio. É masoquista, não sabe ser de outra forma, gostaria de ser de outra forma, mas nada faz para isso. A sua melhor definição é capaz de ser a que Millicent Weems, personagem de Dianne Wiest, às tantas lança:

Caden Cotard is a man already dead, living in a half-world between stasis and antistasis. Time is concentrated and chronology confused for him. Up until recently he has strived valiantly to make sense of his situation, but now he has turned to stone. 

O seu nome não é ocasional ou não fosse o síndrome de Cotard o síndrome do cadáver ambulante.

Certo dia, empreende o impossível: replicar, num enorme armazém, a cidade e nela a sua vida, naquela que será, plena de verdade, a maior peça de teatro de todos os tempos. Como se pela representação do teatro vivesse a vida realmente. I won't settle for anything less than the brutal truth. Brutal. Esta peça - por baptizar - replicará, portanto, a trama de Sinédoque, Nova Iorque. Tremendo, o efeito de mise en abyme. Joga-se o microcosmos pelo macrocosmos, a parte pelo todo: a sinédoque do título, como resurso de estilo. Sammy fará de Caden. Claire (sua segunda mulher, interpretada por Michelle Williams) fará de Adele (sua primeira mulher, interpretada por Catherine Keener). Tammy (sua quarta mulher, interpretada por Emily Watson) fará de Hazel (sua terceira mulher, interpretada por Samantha Morton, de todas a que mais genuinamente o amou e a que mais genuinamente por ele foi amada: Hazel, you've been a part of me forever. Don't you know that? I breathe your name in every exhalation) e assim sucessivamente. À medida que cada personagem nova entra em cena no filme, uma nova personagem entra em cena na peça, tendo implicações directas no rumo da acção.

A épica aventura durará quase uma vida, pois o tempo voa, na montagem e na palavra. Caden casa-se, separa-se, desdobra-se em funerais. A acção de todo o filme contemplará, ao todo, cerca de cinquenta anos, tantos dos quais a trabalhar na peça. Com ela, apercebemo-nos do poder insolitamente magnetizante do protagonista. Afinal, apesar de constante e irremediavelmente abandonado (não as terá ele também abandonado a todas?) por uma e outra mulher (ou pelas filhas - a propósito, é especialmente tocante a cena da despedida da filha Olive, onde até aí a comunicação é dificultada), conseguirá sempre atrair os interesses de alguém - e é como se os atraísse para a morte, porque jamais serão felizes ou se realizarão a seu lado. É o caso do enigmático Sammy (Tom Noonan), que desde cedo o persegue e só mais tarde se revela: sabe tudo sobre ele e, qual alter ego, será capaz de confrontá-lo consigo próprio. Atrai sobretudo actores - o elenco da sua companhia resistirá estoicamente à passagem do tempo, ao seu perfeccionismo doentio, às suas mudanças de humor e às intermináveis alterações no guião. Um a um, todos com quem alguma vez interage ou contracena se findarão - e só ele, que para todos os efeitos está morto, não conhece a morte. O assunto da sua vida é, pois, o assunto do seu espetáculo:

I will be dying and so will you, and so will everyone here. That's what I want to explore. We're all hurtling towards death, yet here we are for the moment, alive. Each of us knowing we're going to die, each of us secretly believing we won't.
Caden Cotard

Jon Brion, compositor do redentor Magnólia de P. T. Anderson, assina a espirituosa banda sonora, que tão bem se coaduna com a soturna alma do filme e que tão bem conduz o espectador pela melancólica e sentimental viagem, repleta de imagens incríveis em tão poéticos momentos... a casa que arde e fumega, o enorme dirigível que irrompe pelos céus da falsa cidade ou a pétala que cai da flor tatuada... qual lágrima de um olhar molhado. A cada compasso, cada vez mais fantástico e desolador, filme e peça misturam-se magistralmente. O hiper-realismo converte-se numa metalinguística abstracta e quase indecifrável. A ficção e a realidade da ficção confundem-se, pois, e tornando-se indissociáveis. Qual delas a mais verdadeira? A mais real? Não é possível dizer... Rendidos à magia do que nos é apresentado, resta-nos concluir o mesmo que o protagonista: there are nearly thirteen million people in the world. None of those people is an extra. They're all the leads of their own stories. They have to be given their due. - e esperar que o mesmo ainda vá a tempo de se viver a si próprio, livre e despojado da tão infectada e mórbida consciência que tanto o assombrou e inutilizou, depois do grande ensaio. 

Charlie Kaufman. Só agora, neste ponto do texto, menciono o seu nome? Tudo o que falei para trás espelha o seu génio. Charlie Kaufman é um artista maior. Os seus argumentos, ousados e originais, ensaiam a condição humana e expõem-na da forma mais criativa nos seus peculiares diálogos, personagens, situações e universos. Queres ser John Malkovich? e Inadaptado, ambos realizados por Spike Jonze, surpreenderam o mundo e o virar do século por isso mesmo e, anos depois, o esplêndido e apaixonante O Despertar da Mente, de Michel Gondry, trouxe ainda mais reconhecimento à sua inconfundível identidade artística. Qual deus, Kaufman joga com o ser humano: constrói e desconstrói ficções e realidades, brinca e baralha o espectador, lança-o numa espécie de limbo interpretativo, não poucas vezes absurdo, confundindo drama e comédia, originando a dramédia. As suas personagens, alienadas, como que procuram o sentido da existência. E com Sinédoque, Nova Iorque - que diria que é, até ao momento, a sua mais arrojada e ambiciosa proposta - eis que se lança na realização como quem se atira de um arranha-céus. O aparente devaneio, que poderia desencadear a verdadeira tragédia, acaba por arrebatar-nos e arrancar-nos o mais sentido aplauso. Hiper-lúcido e consistente, de pulso firme, Kaufman concretiza um corajoso, denso e profundo pedaço de cinema. Diria mesmo que, na realização, atinge finalmente o expoente máximo da sua expressão autoral e o controlo absoluto da sua criação. O devaneio não só faz todo o sentido, no fim de contas, como era inevitável.

They say there is no fate, but there is: it's what you create. 

Sinédoque, Nova Iorque: um imprescindível filme de culto e um complexo e inesgotável objecto de estudo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ABRAÇO DA SERPENTE (2015)

 PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: El Abrazo de la Serpiente
Realização: Ciro Guerra

Principais Actores: Nilbio Torres, Jan Bijvoet, Antonio Bolivar, Brionne Davis, Yauenkü Migue, Nicolás Cancino, Luigi Sciamanna 

Crítica: 

NO CORAÇÃO DA AMAZÓNIA

Abandona tudo e imerge, sozinho, pela selva adentro, guiado apenas pelos seus sonhos.

Há filmes com espíritos lá dentro. Espíritos vivos, que nos chamam, possuem e que, sem pedir autorização, nos ficam cá dentro - dias, anos, num tempo sem tempo. Em nós se alimentam, crescem e criam raízes. Estabelecem, interiormente, um inesgotável diálogo de consciências, memórias e efabulações. Quando damos conta, são parte de nós, confundem-se connosco. Eu nunca estive realmente na Amazónia, pulmão do mundo. No entanto, como posso explicar a absurda mas igualmente real sensação de já lá ter estado, por meio da experiência - absolutamente transcendente - que O Abraço da Serpente tão inesperadamente me proporcionou, enquanto espectador? Nós não vemos o filme, nós vivemo-lo. Entramos nele e ele entra em nós. Sentimos os cheiros e as temperaturas... tocamos as árvores e as folhas... sentimos o medo... o vazio e a plenitude. Estamos, pois - em primeira ou derradeira instância - perante uma aventura espiritual profundamente contemplativa, meditativa, apaziguadora e totalizante. A arte enquanto experiência mística. Um imaculado e singular pedaço de cinema.

O Abraço da Serpente marca a primeira vez em trinta anos que, nos meandros da ficção, uma câmera desbravou a selva colombiana. Ciro Guerra assumiu ser intransponível para a tela aquele verde único, intenso, tão denso. Curiosamente ou talvez por isso, a opção estética de filmar todo o filme num cristalino e prateado preto e branco possa, à partida, surpreender. Mas aquilo que a fotografia de David Gallego faz pelo filme é milagroso. Nela está o espírito da Amazónia - nós sentimo-lo. As imagens são de um esplendor visual inebriante e hipnotizante, reclamando uma autenticidade voraz. É
 como se, por vezes, chegássemos mesmo a vislumbrar o verde. A imersão proporciona-se, ex aequo, graças à extraordinária profusão e riqueza dos efeitos sonoros utilizados: pássaros, insectos, ventos e toda aquela biodiversidade - nós estamos lá. Outras obras assinaláveis procuraram captar, ao longo dos anos, a essência da selva. Recordo, a título de exemplo, Aguirre, O Aventureiro ou Fitzcarraldo de Herzog, A Missão de Joffé, O Novo Mundo de Malick ou Apocalypto de Gibson. Todas elas o conseguiram, de forma exímia, mas nenhuma com a verdade e escapando a tantos clichés como O Abraço da Serpente, arriscaria dizer. Quando muito não seja por recusar a cor. Até a banda sonora de Nascuy Linares é sempre tão orgânica.

A história conta-se a dois tempos. A uni-los, o mesmo lugar, o mesmo rio - a serpente, que abraça a selva e leva a vida a todas as paragens. O mesmo homem - Karamakate, um xamã indígena, o último sobrevivente da sua tribo, que, com quarenta anos de diferença e algures 
nos primórdios do século XX, guia dois cientistas e exploradores europeus na mesma busca - a busca da yakruna, uma planta rara, lendária e sagrada, de elevados poderes curativos. Às tantas e intencionalmente, parece que toda a acção decorre no mesmo tempo. Como se a Amazónia não tivesse tempo. Baseada nos relatos escritos de Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes, a viagem ganha, entre tantos, interesse antropológico, sociológico e etnográfico - não é propriamente sobre o choque civilizacional, mas sobre as diferenças culturais, religiosas e os diferentes entendimentos do mundo, da natureza e da vida entre os indígenas autócnes e os orientais, cujo impacto devastador é alvo de crítica (a elevada exploração da borracha e dos recursos naturais, por exemplo) e sátira dissimulada, nunca pérfida (às nefastas missões religiosas, sobretudo). E a viagem faz-se num misto de emoções: por um lado, o prazer da descoberta, o deslumbramento, e, por outro, as tantas fobias inerentes - o medo da loucura e do isolamento nos confins da selva, o perigo dos animais ferozes e venenosos, a sombra do canibalismo, a brutalidade e violência dos inimigos e da catequização obscena, que impõe o evangelho e a sua verdade, dizimando tribos e tradições ancestrais. Eis, pois, a Amazónia como expressão máxima do paraíso e, simultaneamente, do inferno.

Quando menos esperamos, os símbolos e as metáforas ganham uma importância crescente, assumindo a narrativa e abraçando uma dimensão metafísica. Karamakate aceita guiar os brancos porque é essa a sua missão épica e derradeira, a de transmitir o seu saber, de partilhar a yakruna e os seus segredos. 
O conhecimento pertence a todosSem descendência e sem futuro, com quem mais poderia partilhar? É quando Theo morre (a visão do jaguar, que morde a serpente), doente e, aos olhos do índio, desrespeitoso para com a Mãe Natureza, que a sua missão é abruptamente interrompida e se torna um chullachaqui - um corpo vazio e sem alma, como uma fotografia, como um fantasma, suspenso no tempo e espaço. Limita-se a envelhecer e a sonhar. Os sonhos ainda recordam o lugar da yakruna, mas o seu ser acordado somente existe, somente paira. Ecoa Weerasethakul. Quando Evan aparece, décadas mais tarde, retomando a demanda do seu antecessor, Karamakate como que desperta e, pelo mistério, sente-se impulsionado a acompanhá-lo, para concluir finalmente a sua missão. A serpente segue o seu curso, a seu ritmo.

Karamakate é, provavelmente, das personagens mais puras que poderemos encontrar na história do cinema ficcional. Talvez por ser - não direi interpretado, direi - personificado por dois não-actores, Nilbio Torres (enquanto jovem) e Antonio Bolivar (enquanto velho), é de uma simplicidade e genuinidade desarmantes. É ele a alma do filme e a alma da Amazónia. Representa todos e cada um dos indígenas seus antepassados e contemporâneos. Respira verdade. E isto é um feito notável. Desconfia de tudo o que é do homem branco, vê inutilidade em cada livro, bússola ou fé cristã. Aliás, para ele como para qualquer índio, tudo é passível de troca à excepção do colar, intimamente ligado à alma. Talvez a única coisa que chega a admirar seja mesmo a música. A dado momento, Evan gira o disco de Haydn e ouve-se A Criação. Karamakate diz-lhe: nesta tua música está o caminho, escuta-a. É um sonho, deves guiar-te por ele. E de sonhos percebe Karamakate. O próprio filme é como um sonho, do qual não queremos acordar, c
omo se estivéssemos drogados e alucinados pelo fumo de um caapi. Um sonho ao qual voltaremos mais vezes, pois responderemos ao seu chamamento. Quando se finda e concretiza a missão, Karamakate deixa-lhe a sua canção, o colar e a alma. Evan regressa envolto em borboletas, renascido. Cumprem-se o simbolismo, a crença e o ritual. Cumpre-se a natureza das coisas.

Ciro Guerra mostra-se inspiradíssimo na captação das expressões de Torres e de Bolivar como prima, aliás, na realização e na finalização de toda a obra. O tempo encarregar-se-á de atribuir a'O Abraço da Serpente, estou certo, todo o valor e reconhecimento que tem e merece. É, seguramente, um dos mais deslumbrantes e fascinantes filmes deste início de século. A natureza não dorme. Prestemos atenção. Estamos perante arte em estado puro.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O CAVALO DE TURIM (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: A Torinói Ló
Realização: Béla Tarr, Ágnes Hranitzky
Principais Actores: Erika Bók, János Derzsi, Mihály Kormos, Mihály Ráday

Crítica:

À ESPERA DO FIM DO MUNDO


Está tudo perdido para sempre!

O Cavalo de Turim
é um dos mais lúgubres filmes de que há memória. É acessível a todos, excepto aos que se aborrecem facilmente; não só pela monotonia dos longos períodos em que praticamente nada acontece como pela repetição diária das tarefas mundanas - vestir ou despir o velho pai, ir ao poço buscar água, olhar pelo cavalo no estábulo, cozer as batatas para a refeição, esperar sem maior esperança - , que conferem à narrativa uma previsibilidade assustadora, embora significante.

O mundo acaba quando Nietzsche perde a razão? Não creio, acabou para Nietzsche quando abraçou o maldito cavalo, cedendo logo depois à loucura. Mas o que aconteceu ao cavalo? A história é simples. O filme de Tarr acompanha os derradeiros (acreditamos) dias do cavalo após esse célebre episódio, algures nos confins de uma ruralidade ameaçada. De ar misteriosamente sinistro e com pouco interesse pela vida, o animal parece amaldiçoado, capaz de desgraçar a existência da família que o cria, família constituída apenas por pai e filha. Sem diálogos maiores, os atores trabalham a sua expressão corporal e facial. Não sabemos como era antes: certamente que a miséria já habitava aquela decadente casa de pedra e que a falta de comunicação entre as personagens solitárias já vingava, tal é o seu profundo desencanto pela vida (a recorrente música de Mihâly Vig é, ela própria, o espelho desse desencanto). Certo é que nem Ohlsdorfer nem a filha jamais voltarão à cidade, as suas condições piorarão agora, de dia para dia, na presença do cavalo e sem abandonar o casebre. Até o poço há-de secar. Quem sabe se o equídeo não ficou doente após o toque do filósofo, que esse sabemo-lo maldito e que de devedor a Deus não tinha nada.

Trata-se do julgamento do Homem, do ajuizar das suas próprias ações, nas quais Deus, obviamente, participa ou (...) nas quais toma parte ativa. E aquilo em que ele toma parte... é a criação mais pavorosa que alguém pode imaginar. Porque o mundo foi destruído, entendes?

É este o anúncio de um vizinho, que marca contraste pela sua eloquência e que traz à mesa as notícias alarmantes e uma mão cheia de crítica social: o céu é deles, bem como todos os nossos sonhos. Deles é o momento, a natureza, o infinito silêncio. A própria imortalidade é deles, entendes? Tudo! O bem e o mal, as vitórias dos ricos e a derrotas dos pobres, repetidamente, ao longo dos séculos. O fim da vida no campo, no interior, e a expansão para o oeste. Note-se o assalto dos ciganos ao poço, como se estivesse abolida a propriedade e se tivesse instalado o caos, idealizando a América.

A câmera no interior da casa estabelece o plano: numa aparente calma e serenidade, contemplamos a impávida jovem, que por sua vez contempla o exterior. Lá fora, o temporal: o vento, o vento e o vento, a poeira e as folhas. O silêncio versus o som. O contraste é claro, novamente. Pai e filha chegam a fazer as malas, a carregar a carroça e a amarrar o cavalo, subindo o ermo - finalmente rompem a rotina e decidem-se a procurar uma vida melhor - , mas logo ei-los tornados, a descer o monte, de volta a casa, sem grande arrependimento. No dia seguinte, os mesmos afazeres, a mesma resignação e apatia. Estão mortos, mas ninguém lhes disse ainda. São fantasmas, vazios, não têm mais existência.

A fotografia é belíssima, em cada demorado plano-sequência. Béla Tarr, mestre da câmera, encena a a sua despedida e, por meio do conto, sentimos a tragédia, o negrume, o pessimismo e eles instalam-se-nos na memória. Sentimos presente algum Dreyer, algum Bergman, algum Tarkovsky. Não o vemos, mas sabemo-lo: o cineasta também está sentado à mesa, enquanto lá fora a paisagem, fustigada, muda.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A ÁRVORE DA VIDA (2011)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: The Tree of Life
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Dalip Singh, Joanna Going, Tye Sheridan

Crítica:

A ODISSEIA DA VIDA

Unless you love, your life will flash by.

Monumental obra-prima de Malick, A Árvore da Vida compreende, na sua inspiração pura, o espelho da criação divina: a totalidade do cosmos, a intemporalidade, a universalidade. Nasce como a música, livre, esvoaça como o sopro do vento. Flui como o rio, refletindo a nossa eterna busca de sentido, perante os mistérios insondáveis de Deus, qual sol omnipresente. É uma experiência poderosa, profundamente religiosa, enraizada nas nossas maiores inquietações interiores. É como... a banda sonora da vida, que se quer escutar ao morrer, numa prece ou sussurro, na experiência do derradeiro apaziguamento. O sublime passo que antecede a fragmentação das memórias... em átomos.

Pedaço do éter (muito mais do que de cinema), vive do permanente confronto de forças antagónicas, sobre as quais jaz um equilíbrio essencial. There were two ways through life - the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you'll follow. A natureza, mãe e abundante, porém impiedosa e atroz, e a graça, da sensibilidade e do amor, mas que contraria e nos instiga a percorrer um determinado caminho. A genial sequência da génese, com que se principia o universo e que eclode ao som arrepiante da Lacrimosa, transcende-nos em beleza e significado. É uma viagem no tempo, interpretação simultaneamente artística e científica da origem, por meio da qual se tenta expurgar a devastadora dor da perda - a morte supostamente contra-natura de um filho - que as personagens de Jessica Chastain e Brad Pitt sofrem nos minutos primeiros do filme, in media res. Quão intensos sãos os atores; no olhar, no toque, gritantemente humanos nas suas performances e tão perfeitos nas suas personagens. Perante o espetáculo arrebatador e incomensurável, o que significa ou representa uma morte humana? É esse o entendimento que o filme procura. Porque morremos? Que mal fizemos? Que Deus é Deus, que nos tira os nossos. Terão sido realmente nossos - seremos realmente nossos, afinal, ou não passaremos nós de matéria, parte da criação? És pó e em pó te tornarás (Génesis 3:19).  

Life goes on. People pass along. Nothing stays the same. Se há coisa que relembramos com a sequência da génese, é que o universo se encontra em constante mudança, em permanente transformação. Mesmo que sigamos o caminho da graça, a natureza há-de sempre lembrar-nos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. A vida consiste no caminho, e dar-lhe sentido não significa necessariamente decifrar todos os segredos. Porque só Deus é Deus. Look: the glory all around us, trees, birds. I dishonored it all and didn't notice the glory. A foolish man.

Em seguida, a elegia percorre o caminho da graça, esperançoso e pleno. A odisseia da vida continua, com magistral e portantosa arte de filmar; note-se a delicadeza do movimento de câmera ou o deslumbre constante que é a fotografia de Emmanuel Lubezki: a entrega dos corpos ao sentimento, a dádiva de ser pai... quão redentora se revela a imagem de um pé de um filho recém-nascido - tão frágil e terno - na mão de um pai feito homem, deslumbrado e orgulhoso da sua criação feito Deus. A criança cresce e a educação desenvolve-se entre o afeto e a ingenuidade da mãe, que os educa entre as fraquezas, a permissão e a liberdade, e a severidade e a tenacidade do pai, que as educa entre a força e as restrições, pelos limites. Apesar de opostas, ambas as forças se revelam, mais tarde, fundamentais para o equilíbrio do ser humano enquanto adulto, na sua relação consigo e com os outros. Sem reconhecer a autoridade e o não, não haveria dilema moral, a criança só faria o que quisesse, desprezando o respeito. Pelos erros se confrontará com a fatalidade e as consequências da irresponsabilidade. Pelo amor, lembrará sempre a fonte da união. Mother. Father. Always you wrestle inside me. Always you will. O crescimento, tantas vezes cruel para os próprios e para tantos quantos os rodeiam, matura-se com esta perceção e aceitação. A Árvore da Vida não esquece ainda o ramo da rivalidade entre iguais, entre irmãos, ou a rivalidade edipiana entre filho e pai, pelo amor da mãe. A rivalidade que é inerente à noção de família e que potencia a evolução.

Só a morte ou a enfermidade, essas certezas malditas e sacramentais, nos interrompem o caminho da graça e nos devolvem, portanto, à natureza. Podem tardar, mas vêm sempre. Por isso, sonhamos com o reencontro impossível com os nossos entes queridos do passado, que jamais se nos desvanecem no esquecimento. Daí o final felliniano, tão marcadamente simbólico, com que Malick fecha a sua demanda metafísica: um deambulante Sean Penn, saído da altivez da transparência citadina, dos mais limpos e vazios desertos, das suas recordações mais remotas - e no entanto tão incessantemente presentes -, agora entre os seus, na praia do adeus. Sonhamos, pois, que o que vem no fim é... a merecida absolvição. A visão onírica chega a tornar-se perturbadora, na sua estranheza e tom lúgubre; não obstante consegue a façanha de nos encher o coração de tranquilidade e confiança, simultaneamente. Por fim, estamos em paz, sentimos. É como se vislumbrássemos à luz do dia as maravilhas do mundo uma última vez e fechássemos os olhos, anoitecendo para o eterno descanso... Prontos para acordar novamente.

Se não o entender, contemple-o, oiça-o e sinta-o. Filmes como A Árvore da Vida não só são raríssimos como absolutamente admiráveis, capazes de nos assolar e significar a existência com uma força meteórica e encantatória.

O BOM REBELDE (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Good Will Hunting
Realização: Gus Van Sant

Principais Actores: Matt Damon, Robin Williams, Ben Affleck, Stellan Skarsgård, Minnie Driver, Casey Affleck, Cole Hauser, John Mighton, Rachel Majorowski, Colleen McCauley

Crítica: 

UMA MENTE BRILHANTE

Some people can never believe in themselves, 
until someone believes in them.

Nem sempre é fácil escrever sobre os filmes que nos são mais queridos. Essa é certamente a tarefa mais difícil e, sem sombra de dúvida, o caso especial deste O Bom Rebelde. A epígrafe, desta vez, não cita a frase marcante desta ou daquela personagem - dedicar-me-ei ao assunto mais abaixo, com notável paixão e honroso excesso -, antes recorda a tagline promocional do filme que, creio, sintetiza com assaz precisão aquela que é a maior mensagem da obra. Obra que, para alguns, aos quais terá escapado a profundidade dos diálogos, pouco mais é do que um filme para adolescentes, o desvio mais pobre e mainstream do autor Gus Van Sant. Gostos discutem-se, haja pluralidade. O meu apreço pelo filme distingue-se claramente do desprezo dos haters, por encontrar nele qualidades que, a meu ver, são de uma sublimidade inquestionável. Sobre todas as coisas, a história magistralmente bem contada, sobre os fascinantes meandros da psique humana.

O confronto entre o jovem genial porém marginal Will Hunting (surpreendente e carismático Matt Damon) e o assombrado e talentoso psicólogo Sean McGuire (extraordinária, a performance dramática de Robin Williams, tão vinculado aos horizontes da comédia) é uma aula de psicologia tremenda. Ambos, indívíduos marcados pelas cicatrizes da vida e dos bairros do Southie. Will resolve em segredo os teoremas mais intricados enquanto se multiplica em limpezas pelos corredores do MIT e em lutas de rua por tudo e por nada. Órfão desde que se lembra, a sua história esconde um traumatizante passado de abusos e carência de afetos, sucessivos lares de adoção, crimes vários dos quais aprendeu a auto-defender-se nos tribunais. Com vinte anos, é alguém que ataca - pela palavra ou pela força - como forma de defesa, de  fugir habilmente às inseguranças, é alguém que não se entrega a ninguém, com medo de ser abandonado e que simplesmente não consegue manter um emprego. A sua família são os poucos amigos que fez, que o protegem e os quais protege, com quem partilha desabafos e bebedeiras, mas nunca a sua quase inconsciente sede de conhecimento, fruto do seu dom. É a história, sociologica ou filosoficamente falando, de como o meio determina o indivíduo. 

Quando finalmente desvenda a identidade do matemático-mistério, o medelhado professor Gerald Lambeau (grande Stellan Skarsgård) resgata-o da prisão com duas condições: a primeira, a de estudar matemática com a sua equipa de investigação. A segunda, a de fazer acompanhamento psicológico por forma a ultrapassar a sua natureza rebelde, a que pronta e determinantemente se recusa. Passam-se cinco terapêutas, cada um mais manipulado e medíocre do que o outro, até que Gerald e o seu mais recente protegido batam à porta de Sean (antigo colega do professor, dos tempos da faculdade), que estará finalmente à altura do desafio, iniciando um longo e difícil ritual de descoberta, porém gratificante. Será também a história, portanto, de como o próprio indivíduo,  dotado de livre-arbítrio e de vontade própria, pode determinar-se a si próprio, mediante as suas escolhas, independentemente do meio. Cada sessão é, cinematograficamente, do mais elementar e eficaz possível: a câmera filma o ator, o ator sente e declama o texto, o texto é por demais brilhante.

Lembremos, pois, a inesquecível cena à beira-rio. O excerto é longo, mas permite quase cinco minutos de um dos melhores monólogos de que tenho memória, na história dos filmes:

Michelangelo? You know a lot about him. Life's work, political aspirations. Him and the pope. Sexual orientation. The whole works, right? I bet you can't tell me what it smells like in the Sistine Chapel. You never actually stood there and looked up at that beautiful ceiling.Seeing that. If I ask you about women, you'll probably give me a syllabus of your personal favorites. You may have even been laid a few times. But you can't tell me what it feels like to wake up next to a woman... and feel truly happy. You're a tough kid. I ask you about war, you'd probably throw Shakespeare at me, right? 'Once more into the breach, dear friends.' But you've never been near one. You've never held your best friend's head in your lap... and watch him gasp his last breath lookin' to you for help. If I asked you about love, you'd probably quote me a sonnet, but you've never looked at a woman and been totally vulnerable. Known someone that could level you with her eyes. Feelin' like God put an angel on Earth just for you, who could rescue you from the depths of hell. And you wouldn't know what it's like to be her angel, to have that love for her be there forever. Through anything.Through cancer. And you wouldn't know about sleepin' sittin' up in a hospital room... for two months, holding her hand, because the doctors could see in your eyes... that the terms 'visiting hours' don't apply to you. You don't know about real loss, 'cause that only occurs when you love something more than you love yourself. I doubt you've ever dared to love anybody that much. So if I asked you about art, you'd probably give me the skinny on every art book ever written. Michelangelo, you know a lot about him. Life's work, political aspirations, him and the pope, sexual orientations, the whole works, right? But I'll bet you can't tell me what it smells like in the Sistine Chapel. You've never actually stood there and looked up at that beautiful ceiling; seen that. If I ask you about women, you'd probably give me a syllabus about your personal favorites. You may have even been laid a few times. But you can't tell me what it feels like to wake up next to a woman and feel truly happy. You're a tough kid. And I'd ask you about war, you'd probably throw Shakespeare at me, right, "once more unto the breach dear friends." But you've never been near one. You've never held your best friend's head in your lap, watch him gasp his last breath looking to you for help. I'd ask you about love, you'd probably quote me a sonnet. But you've never looked at a woman and been totally vulnerable. Known someone that could level you with her eyes, feeling like God put an angel on earth just for you. Who could rescue you from the depths of hell. And you wouldn't know what it's like to be her angel, to have that love for her, be there forever, through anything, through cancer. And you wouldn't know about sleeping sitting up in the hospital room for two months, holding her hand, because the doctors could see in your eyes, that the terms "visiting hours" don't apply to you. You don't know about real loss, 'cause it only occurs when you've loved something more than you love yourself. And I doubt you've ever dared to love anybody that much. And look at you... I don't see an intelligent, confident man... I see a cocky, scared shitless kid. But you're a genius, Will. No one denies that. No one could possibly understand the depths of you. But you presume to know everything about me because you saw a painting of mine, and you ripped my fucking life apart. You're an orphan right? Do you think I know the first thing about how hard your life has been, how you feel, who you are, because I read Oliver Twist? Does that encapsulate you? Personally... I don't give a shit about all that, because you know what, I can't learn anything from you, I can't read in some fuckin' book. Unless you want to talk about you, who you are. Then I'm fascinated. I'm in. But you don't want to do that do you sport? You're terrified of what you might say. Your move, chief. 
Sean McGuire

E já que estou em demoradas homenagens, outra das cenas memoráveis, tão deliciosa na palavra e no acting como na encenação ou até na montagem (meticuloso e inspirado, a propósito, o trabalho de Pietro Scalia):

Will: So, when did you know, like, that she was the one for you?
Sean: October 21st, 1975.
Will: Jesus Christ. You know the fuckin' date?
Sean: Oh yeah. 'Cause it was Game 6 of the World Series. Biggest game in Red Sox history.
Will: Yeah, sure.
Sean: My friends and I had, you know, slept out on the sidewalk all night to get tickets.
Will: You got tickets?
Sean: Yep. Day of the game. I was sittin' in a bar, waitin' for the game to start, and in walks this girl. Oh, it was an amazing game, though. You know, bottom of the eighth, Carbo ties it up at 6-6. It went to twelve. Bottom of the twelfth, in stepped Carlton Fisk. Old Pudge. Steps up to the plate, you know, and he's got that weird stance.
Will: Yeah, yeah.
Sean: And BAM! He clocks it. High fly ball down the left field line! Thirty-five thousand people, on their feet, yellin' at the ball, but that's not because of Fisk. He's wavin' at the ball like a madman.
Will: Yeah, I've seen...
Sean: He's going, "Get over! Get over! Get OVER!" And then it HITS the foul pole. OH, he goes apeshit, and 35,000 fans, you know, they charge the field, you know?
Will: Yeah, and he's fuckin' bowlin' police out of the way!
Sean: Goin', "God! Get out of the way! Get 'em away!" Banging people...
Will: I can't fuckin' believe you had tickets to that fuckin' game!
Sean: Yeah!
Will: Did you rush the field?
Sean: [surpreendido com a questão] No, I didn't rush the fuckin' field; I wasn't there.
Will: What?
Sean: No - I was in a bar havin' a drink with my future wife.
Will: You missed Pudge Fisk's home run?
Sean: Oh, yeah.
Will: To have a fuckin' drink with some lady you never met?
Sean: Yeah, but you shoulda seen her; she was a stunner.
Will: I don't care if Helen of Troy walks in the room, that's Game 6!
Sean: Oh, Helen of Troy...
Will: Oh my God; and who are these fuckin' friends of yours, they let you get away with that?
Sean: Oh... they had to.
Will: W-w-w-what'd you say to them?
Sean: I just slid my ticket across the table, and I said: Sorry, guys; I gotta see about a girl.
Will: I gotta go see about a girl?
Sean: Yeah.
Will: That's what you said? And they let you get away with that?
Sean: Oh, yeah. They saw in my eyes that I meant it.
Will: You're kiddin' me.
Sean: No, I'm not kiddin' you, Will. That's why I'm not talkin' right now about some girl I saw at a bar twenty years ago and how I always regretted not going over and talking to her. I don't regret the 18 years I was married to Nancy. I don't regret the six years I had to give up counseling when she got sick. And I don't regret the last years when she got really sick. And I sure as hell don't regret missin' the damn game. That's regret.
Will: Wow... Woulda been nice to catch that game, though.
Sean: I didn't know Pudge was gonna hit a homer. 

O leitor poderá ter saltado o diálogo à frente; não perderá nada se já o conhece. É inegável o pedaço de boa escrita, que se perpetuará do início até ao fim - quase nem preciso referi-lo, o texto fala por si, no fim de contas. E o filme até começa como o mais comum dos filmes, mas a viragem dá-se logo cedo, na cena do bar de Harvard, quando Will se interpõe entre o amigo Chuckie (Ben Affleck, que patilha com Damon a autoria do argumento) e aquela imitação pedante de Michael Bolton. A sua perspicácia de raciocínio, a ousadia da atitude, o efetivo conhecimento, o poder da eloquência... Depois desse momento inspirador, aguardamos por um filme não só emocionante, mas capaz de nos marcar e essa expetativa, viremos a corroborá-la. Aquilo que Sean fará, ao mesmo tempo que se sujeita às provocações de Will, é não desistir dele, assim como, de certa forma, também o faz o professor Gerald - é curioso como, de repente, Sean e Gerald parecem assumir as figuras/referências paternais que sempre faltaram ao rapaz. Discutem inclusivé pelo rapaz, deixando subir à tona o seu passado. Mas é claro que a relação mais importante - até porque o conduzirá à catarse emocional, é a que se estabelece com o psicólogo. It's not your fault. It's not your fault. Will terá que aprender a confiar mais em si e nos outros, para a superação da cobardia e da sua disfunção de relacionamento. Tem o exemplo de Sean e a oportunidade com Skylar (confirmação de Minnie Driver). Essa é a estrada que o levará a encontrar o seu lugar no mundo.

Um clássico de mestre que, ensinando a necessidade da auto-descoberta, só pode inspirar gerações.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

THE FOUNTAIN - O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fountain
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee

Crítica:

A FONTE DA VIDA


Together we will live forever.

A demanda pela vida desafia o próprio tempo. No passado, no presente ou no futuro... viveremos sempre - a vida é a nossa certeza mais preciosa. Contudo, não é a única: a morte é igualmente certa. O nascimento principia, a morte termina e o ciclo fecha-se. A vida é uma passagem, mas na passagem reside todo o sentido, enquanto aguardamos pelo desconhecido - temendo por ele, tantas vezes. Receamos a despedida, a perda e o vazio. Nos três tempos que sempre determinarão a nossa existência, sonharemos com a vida eterna. Procuraremos, incessantemente, a Fonte da Juventude, a Árvore da Vida e a Cura. Indagaremos o mito na busca ancestral da Verdade, escutaremos o divino para a resolução do Mistério, faremos evoluir, pela técnica, o próprio conhecimento, na esperança da Salvação. Porém, o nosso destino escreve-se nas entrelinhas dos acasos e encerra na soberania da Natureza. Porque morremos?


O Passado e a Religião

Therefore, the Lord God banished Adam and Eve from the garden of Eden and placed a flaming sword to protect the tree of life.
Génesis 3:24

O Conquistador, 1500. Em prol da sua missão, um Homem arrisca a própria vida pela sua promessa, pela sua missão, pela Árvore da Vida:



Rainha Isabel: Will you deliver Spain from bondage?
Tomas: Upon my honor and my life.
Rainha Isabel: Then you shall take this ring to remind you of your promise. You shall wear it when you find Eden, and when you return, I shall be your Eve.


Ao proferi-lo, a rainha - então ameaçada pela Europa oprimida e pela Igreja inquisitória (Your queen seeks immortality on Earth - a false paradise. This is heresy) - passa ao cavaleiro ajoelhado um anel, como símbolo da Aliança e do Amor partilhados entre ambos. O salão onde se encontram, do negrume iluminado por centenas de candelabros suspensos, assemelha-se a um manto nocturno, no qual cintilam milhares de estrelas douradas. O arrojo e a minúcia da iluminação e da direcção artística são absolutamente notáveis. Destaque-se, também, a geométrica simbologia da obra, de uma riqueza assinalável.

A special tree grows hidden, the tree of life,
they say who ever drinks of its sap will live forever.

Alcançar a seiva bíblica significa atingir um poder incomensurável: por meio dela, o conquistador libertará a rainha e o reino da tirania católica e conquistará o coração da amada. Para além do mais, obterá a vida eterna, vencendo a morte através dos tempos.

Our bodies are prisons for our souls. Our skin and blood, the iron bars of confinement. But fear not. All flesh decays. Death turns all to ash. And thus, death frees every soul.

Tomas faz-se acompanhar pela armada de espanhóis cristãos, mas estes sucumbem à armadilha dos maias pagãos. There's no hope for us here, there is only death. Encurralado pelas circunstâncias, ascende só às alturas, degrau após degrau. Let us finish it. Escala a pirâmide, deixando a escuridão do abismo e aproximando-se do Senhor de Xibalba, no topo. O confronto é inevitável e dele depende o sucesso da incumbência real.

Death is the road to awe.

A espada do místico, em chamas, desfere o grito da aflição. Sustêm-se, o mistério e a respiração, na imensidão do universo. Reina o silêncio. Não estamos mais no passado.

I'm sorry father, for you there is only death. But our destiny is life!


O Presente e a Ciência

Death is a disease, it's like any other.
And there's a cure. A cure - and I will find it.



O Cientista, 2000. Reencontramos os mesmos corpos, a mesma demanda. Reincarnação? Quem sabe, se pela decomposição da matéria sobrevivem os átomos da alma. Izzi está doente. Tem um cancro, que lhe apressará a efémera passagem pelo plano terrestre - esta irreversível dimensão física na qual nos relacionamos e conhecemos. Tom ama-a, perdidamente. E o Amor dos dois é sentido mutuamente. Izzi perdeu, recentemente, a sensibilidade ao frio e ao calor. Sente que a morte está próxima. Perante tamanha e tão perturbadora consciência, dedica a sua solidão à descodificação do enigma. Lê, pesquisa e indaga os céus da noite na busca de paz:


It's actually a nebula wrapped around a dying star. That's what makes it look gold. (...) The Mayans called it Xibalba. It was their underworld. The place the dead souls go to be reborn.

Tom, por sua vez, não se conforma, não aceita, não se rende, afinal, às evidências da morte. Cientista de profissão, passa os dias no laboratório, testando e experimentando obcecadamente as mais variadas fórmulas e hipóteses para encontrar a Cura. Ele quer desesperadamente salvar a mulher que ama. Restos de uma antiga árvore da América Central parecem começar a sortir efeito no macaco Donavan, a cobaia, estancando o efeito avassalador do tumor. Mas os efeitos não serão perpétuos.

Tom: There's been progress at work...
Izzi: My conquistador! Always conquering...

The Fountain, floresce a mise en abyme, é o nome do livro ao qual Izzi entrega os seus últimos dias. Através dele, a personagem procura o significado existencial. A arte aparece-nos, pois, como fruto da necessidade de justificar e compreender a morte. A acção do livro de Izzi recua ao tempo dos conquistadores espanhóis e acção coincide com a acção do filme, decorrida anteriormente no passado. Quero acreditar que esse passado que inicialmente conhecemos, pela inspiração visionária de Aronofsky, é muito mais do que a representação da história de Izzi, tão-somente. A The Fountain falta-lhe o capítulo doze, o último capítulo... A missão derradeira é incubida nas mãos do amado:

It's all done except the last chapter.
I want you to help me. Finish it...


Aquando da visita ao museu, na qual Izzi acaba irremediavelmente por desmaiar, a jovem tenta tranquilizá-lo, convencendo-o de que nada há a temer na morte:

Look. It explains their creation myth. You see, that's First Father. He's the very first human. (...) He sacrificed himself to make the world. The Tree of Life's bursting out of his belly. Listen. His body became the tree's roots. They spread and formed the Earth. His soul became the branches, rising up, forming the sky. All that remained was First Father's head. His children hung it in the heavens, creating Xibalba. (...) Death as an act of creation.

Na cama da clínica, cada vez mais debilitada, distante e serena, Izzi desvenda o segredo:

Remember Moses Morales? (...) He told me about his father, who had died. Well Moses wouldn't believe it. (...) He said that if they dug his father's body up, it would be gone. They planted a seed over his grave. The seed became a tree. Moses said his father became a part of that tree. He grew into the wood, into the bloom. And when a sparrow ate the tree's fruit, his father flew with the birds. He said... death was his father's road to awe. That's what he called it. The road to awe. Now, I've been trying to write the last chapter and I haven't been able to get that out of my head! (...) I'm not afraid anymore, Tommy.
Pensar a morte não é um passatempo frequente entre os vivos. O medo impede-nos. Mas haverá razões para ter medo? Não faremos nós parte de um ritual da Natureza que se repete até ao fim dos tempos? Aceitá-la, creio que jamais o faremos.

És pó e em pó te tornarás.

Génesis 3:19

Mais importante do que pensarmos na morte, é pensarmos na vida, vivendo-a intensamente. O que Izzi sempre quis transmitir a Tom é que eles se hão-de encontrar para além da morte. Together we will live forever. Até lá e aceite que se vai partir, o mais importante é partilhar a existência - os últimos toques, beijos e suspiros - com quem mais amamos.


O Futuro e a Transcendência

O Último Homem, 2500. Uma bolha flutua para além do infinito, numa ascenção permanente. Os corpos celestes abrilhantam o cosmos, os astros cadentes completam a visão surreal e onírica. Percorre-se o caminho da Luz, da iluminação. Dentro do último reduto, a árvore, a morrer, a secar... um homem e as suas memórias, uma última missão por cumprir. Haverá sempre um capítulo inacabado nas nossas vidas ao qual só uma dimensão imaterial e transcendente porá fim. É como que uma incapacidade orgânica, inerente à nossa condição. Finish it.

All these years, all these memories, there was you.
You pull me through time.

O espaço é local de meditação e de reflexão. Contam-se os intervalos, tatuando a pele, como que no prolongamento da eterna Aliança - elemento mágico e simbólico, comum aos três tempos diegéticos. Imerge-se na metafísica. E o esplendor visual deste universo é não só impressionante como totalmente arrebatador. É de uma beleza extrema, lírica, quase indefinível. Há silêncios, murmúrios, ânsia pela plenitude, pelo apaziguamento final. Podemos dizer que a originalidade gráfica e conceptual dos efeitos especiais (Jeremy Dawson, Dan Schrecker, Mark G. Soper, Peter Parks) conseguiu uma relíquia autêntica e única, desbravando um lugar singular na História da Ficção-Científica. A obra de Aronofsky assume-se, pois, estilisticamente prodigiosa. A fotografia de Matthew Libatique, por sua vez, aproxima-se da perfeição.

Through that last dark cloud is a dying star. And soon enough, Xibalba will die. And when it explodes, it will be reborn. You will bloom... and I will live.

É precisamente neste terceiro tempo que eclode a arrepiante explosão orgásmica que marcou, decididamente, a maior experiência da minha vida numa sala de cinema. A genial e avassaladora composição musical de Clint Mansell cresce e intensifica-se numa poderosíssima apoteose dos sentidos. Aquele corpo humano levita, transfigura-se e consome-se pela Luz etérea. O círculo fecha-se. Fade-out, na imaculada brancura e vastidão do nada.


Tom: I've finished it.
Izzi: Is everything alright?
Tom: Yes... everything's alright!



Os desempenhos da dupla principal de actores, Hugh Jackman e Rachel Weisz, mas especialmente de Hugh Jackman, são de uma tremenda profundidade emocional. Ainda para mais, a versatilidade do actor é nitidamente posta à prova. A complexidade e as exigências do argumento são engenhosa e criativamente ultrapassadas por meio da repetição de motivos, conferindo à narrativa uma fluidez extraordinária. A realização de Aronofsky é sublime, em toda a sua arte de filmar. A montagem (decisivos, o talento e a competência de Jay Rabinowitz) revela-se igualmente imprescindível para o sucesso da narrativa.

Destaco três sequências onde os vários fios se unem com notável mestria:

- O movimento de chariot recua subtilmente de um monumento maia, após a transição de cena, e ouvem-se os sons da natureza. O momento parece-nos falso, à primeira vista, mas os sons e um pássaro amarelo, verdadeiro, que atravessa a imagem num vôo inesperado, reclamam e sugerem a autenticidade do ambiente. Porém, o súbito silenciamento dos sons, a mudança radical na iluminação e o afastamento da câmera para lá do enquadramento inicial mostram-nos um quadro na parede e concluimos a ilusão da qual fomos alvos. Tom surge finalmente no enquadramento, chama por Izzi e recolhe, num outro take, o pássaro amarelo que pousara sobre a mesa.

- No futuro, a mão de Tom passa pelo tronco da árvore e a montagem desvanece a imagem numa outra, já no tempo presente, sem se notar sequer a transição. A mesma mão termina o take passando suave e delicadamente pelo corpo da amada, que entre a espuma toma um banho quente, principiando uma das mais intimistas e tocantes cenas do filme.

- No presente, Tom desloca-se para a cidade, num automóvel acelerado e afligido. A câmera, sobre a estrada e inicialmente virada do avesso, dá meia-volta sobre si mesma e acompanha o veículo que rasga a rua de encontro ao destino. No passado, a câmera repete exactamente o mesmo movimento, nas mesmas circunstâncias. Troque-se a estrada pela clareira do campo, o automóvel pelo cavalo e o aspecto contemporâneo da cidade ocidental pela aparência de uma cidade dos finais do século XV.

Enfim, que experiência assombrosa, poética e deslumbrante. Uma espiritual e imortal ode à vida e à morte e sobretudo ao Amor, à Aliança entre dois seres que é não só intemporal como eterna. Sim, o verdadeiro Amor é eterno. Sobrevive a qualquer tempo e até à morte, pois repetir-se-á nos ciclos para além do renascimento. O Amor é o principal sentido da vida, é a Fonte. Acredito nisto, piamente. Veredicto? Obra-prima absoluta e um dos meus filmes de eleição. Para mim, um dos melhores de todos os tempos.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões