quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CHAMA-ME PELO TEU NOME (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Call Me By Your Name
Realização: Luca Guadagnino
Principais Actores: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, André Aciman, Peter Spears, Marco Sgrosso

Crítica:

O SABOR DO PÊSSEGO

 Nature has cunning ways of finding our weakest spot.

Provar o fruto do amor é, porventura, das melhores sensações de estar vivo e descobrir a sexualidade e os prazeres da carne uma das fases mais belas e vibrantes da vida de qualquer pessoa. Chama-me Pelo Teu Nome é sobre essa descoberta. Elio tem 17 anos. São as férias de 1983, algures pela pasmaceira rural do nordeste italiano onde tão pouco se faz, onde tão pouco acontece. Lê-se, toca-se piano ou guitarra, anda-se de bicicleta pelos campos verdejantes e cheios de vida, transpira-se ou mergulha-se na natureza. As árvores estão cheias de frutos e os sumos são o saboroso néctar dos deuses, prontos a beber a qualquer altura do dia. Luca Guadagnino, aliás, jamais se priva de mostrar esse Jardim do Éden, onde as personagens respiram e existem. A fertilidade do meio invade a narrativa e a natureza fala-nos através das imagens e dos sons, intoxicando-nos.

Elio é um privilegiado: é um estrangeiro numa casa de campo, a casa de férias na Europa, cheia de empregados locais. Vive com os pais, uma tradutora (Amira Casar) e um arqueólogo amante da antiguidade clássica (brilhante Michael Stuhlbarg), ambos presentes, atentos e cultos. Certo dia, chega à herdade o radioso e sete-anos-mais-velho Oliver, assistente contratado do pai para aquele verão e que passará a pernoitar no quarto do jovem, partilhando ambos a mesma casa de banho. Às vezes grosseiro mas sempre misterioso, Oliver começa por ter uma presença que, primeiramente, incomoda Elio e que depois o desconforta, irrita, magnetiza, desconcentra e por fim o atrai assolapadamente. A primeira metade do filme é lenta: sucede-se o dia-a-dia e quase nada acontece (o retrato do quotidiano é imperioso), a não ser que sejamos activos na interpretação dos mais pequenos e significantes sinais. A cada ausência, o pensamento, a dúvida, a inquietação. O escape do adolescente por meio da aventura heterossexual com uma amiga - a experimentação e mais uma descoberta. Às tantas, o desejo domina-o, atando-lhe os pés e as mãos, e a entrega é inevitável, felizmente correspondida, ainda que há luz do secretismo. O fruto proibido, a ser provado, somente nos mais recônditos recantos do Jardim, a quilómetros e quilómetros de distância da vila e de casa, num esconderijo só dos dois. Selam-se os lábios, inaugura-se o beijo, dá-se o toque e o pulsante tesão. Depois, a paixão cresce e extrapola. O quarto torna-se o leito do amor: apalpar-se-ão as texturas, saborear-se-ão os líquidos. E, logo à primeira união, a preocupação: não da descoberta - a pedofilia não é aqui assunto e, como disse, os pais de Elio são cultos. Têm mentes abertas e um coração cheio de amor para dar. Desejam o melhor para o filho e gostam inclusive de Oliver para genro. Se dúvidas houvesse, um dos diálogos finais entre pai e filho põe clara a sublime parentalidade do arqueólogo. Que urgente filme de família Chama-me se torna naquele momento:

We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything - what a waste!

O problema é... o fim do verão. Inicia-se uma relação que, à partida, está imediatamente condenada por um prazo. E essa dor pressentida transparece logo no olhar de Elio - brilhante Timothée Chalamet, tão verdadeiro na sua entrega. Julgo que este é um daqueles casos em que a excelente condução de actores extraiu o que de melhor há, em potência, de um tão jovem e promissor talento. Armie Hammer, como o confiante e ligeiramente arrogante Oliver, que finalmente se rende à mais doce vulnerabilidade, tem um papel surpreendente e de uma química indesmentível para com Chalamet. A história de ambos é representada, aliás, de forma tão intensa e genuína, que julgo ser essa uma das principais virtudes do filme; todo ele, já de si, tão despojado de lugares-comuns. 

O que mais gosto no filme? Sinceramente? É tudo o que não é dito, tudo o que não é mostrado. James Ivory é especialmente feliz na adaptação e Guadagnino concretiza-o magistralmente. Chama-me Pelo Teu Nome ascende, por isso, a um nível de pureza e beleza absolutamente notável. É tanto mais aquilo que depreendemos e que só mais tarde nos é confirmado ou não. Um olhar, um toque, um silêncio, uma ausência... simples coisas dizem tanto sobre as personagens, sobre o que aconteceu, acontece ou poderá vir a acontecer. Em Chama-me tudo floresce naturalmente, ao sabor do tempo. E o tempo tem o seu tempo, sem pressas. No campo, aliás, o tempo é mais tempo. Chama-me é um filme de uma simplicidade desarmante, sem artifícios maiores. Até a banda sonora, ora mais clássica ora na forma das mais oportunas e singelas canções, nos parece despir e nos fazer focar no essencial, sentindo-o. Como o amor é bonito e como é bonito sermos francos connosco próprios. Sermos o que somos. 

A cena do pêssego - a mais polémica e ridicularizada - é, no meu entender, das mais belas, íntimas e puras cenas do ano. É arriscadíssima, facilmente seria incompreendida ou menosprezada, mas é tão representativa de todo o filme. O pêssego é um símbolo da homossexualidade, tem a forma de um escroto ou das nádegas do homem. Perfurar o pêssego com os dedos ou com o membro é uma alusão à iniciação e à perda da virgindade. Provar o pêssego, pleno de fluídos, é, numa dimensão simbólica, a consumação máxima do amor e a materialização clara do pecado (no contexto bíblico). Ora, não há pecado onde há amor. E o amor é uma força da natureza, já dizia a tagline de Brokeback Mountain, e tinha toda a razão. O erotismo é contido e o sexo jamais se torna explícito ou dominante. A última cena prolonga-se pelos créditos finais adentro e assistimos à comoção de Chalamet sem nos levantarmos, expectantes que o telefone toque ou que alguma coisa ainda aconteça e o reconforte. Que final.

Por tudo isto, que delícia de filme. Tão raro e delicado, tão precioso quanto o amor verdadeiro.


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