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domingo, 18 de fevereiro de 2018

MÃE! (2017)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Mother!
Realização: Darren Aronofsky
Principais Actores: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig, Stephen McHattie

Crítica:

DO PARAÍSO AO INFERNO:
O ETERNO CONTO DA HUMANIDADE 

I gave you everything. You gave it all away.

Mãe! é, provavelmente e por variadíssimas razões, o mais audacioso, bizarro e desconcertante filme a ser produzido - em anos - por um grande estúdio de Hollywood. Primeiro que tudo, o trailer: Mãe! é-nos vendido como um típico filme de terror: estão lá a casa isolada, o sangue e os sons arrepiantes, os estranhos e os aparentes acontecimentos sobrenaturais. Estão lá actores de primeira linha, a chamar o público. Mas está lá também, ou sobretudo, o nome de um artista genial, a assinar aquela que é, porventura, mais uma das suas controversas obras-primas: Darren Aronofsky - o mesmo do poético e transcendente The Fountain, o mesmo do fantástico e incompreendido Noé. Estes três títulos, todos cabalísticos, estabelecem entre si um estimulante diálogo, mas nenhum deles é tão brutal e radical como Mãe!. Percebamos porquê.

Mãe! é, como se diz, um filme que divide opiniões, polariza posições e não é para menos. Assistir ao filme é uma experiência a que ninguém fica indiferente. Desde que abre, confunde o espectador. A sua forma - aquela que o trailer anunciou - está em constante mutação, as regras do realismo e da narrativa alteram-se a cada cena, como se mergulhássemos no mais perfeito pesadelo, imune à lógica, absolutamente imprevisível e permutável ao absurdo. Eis, pois, o primeiro choque: as quaisquer expectativas que tenhamos criado previamente em relação ao filme são-nos rapidamente goradas e desconstruídas.

Não há música, apenas sons, excepcionalmente explorados e imersivos, intensificando o suspense. Seguimos a protagonista de perto - uma bondosa e vulnerável Jennifer Lawrence - e simpatizamos com ela de imediato. Aquilo a que assistimos é essencialmente o seu ponto de vista, deambulante pela casa, múltipla em repartições (o design de produção esmerou-se na concepção de um construção incrível, palco de todos os travellings). A câmera acompanha-a sempre (os close-ups chegam a ser intimidatórios, de tão próximos) e encerra-nos numa claustrofobia asfixiante, que só tende a crescer. A soturna fotografia de Matthew Libatique esbarra-nos numa existência solitária, sensível a cada movimento, a cada marcação. A mulher é inteiramente dedicada à casa e ao marido - esquece-se de si própria e entrega-se de alma e coração. Sente a pulsação da construção como se fosse a sua, basta fechar os olhos e sentir (e pelas visões sabemos: a casa está a morrer). Ela e a casa são uma só, um ser vivo que inspira o marido, o qual se alimenta da sua graça e amor para a sua poesia. I wanna make a Paradise, diz ela, com a virginal inocência com que lança o pincel e a tinta às paredes, sonhando um futuro risonho. O marido (o enigmático Javier Bardem) ora está como não está fisicamente em cena, por casa, mas a mulher sente sempre a sua presença. Estaremos agora perante um melodrama?, pensamos, intimista e sobre a relação do casal? Não obstante, quando batem à porta, um estranho entra e depois outros, chegam sem serem convidados, instalam-se e pernoitam sem o consentimento da jovem, contra a sua vontade. O marido como que acolhe e protege os estranhos indiferente à opinião da mulher. E os convidados - ou melhor, os intrusos -, tanto se mostram amistosos como provocadores e abusadores, quais serpentes sibilantes sempre prontas a morder ao mais simples virar de costas. O filme torna-se cada vez mais confuso e uma questão nuclear, sobre tantas outras, assola-nos a consciência: mas que raio de filme estamos afinal a assistir? Não, Aronofsky não está minimamente preocupado em responder a isso. Sempre que a torneira se fecha e a acção abranda, a acalmia reconforta-nos e apazigua-nos mas não tardará a vir uma enxurrada de caos, capaz de invadir e destruir a casa, violentando a mulher e reduzindo-a a cinzas. Quando menos dermos por isso, o filme transforma-se num desaire apocalíptico: alucinante e imparável, impiedoso e infernal. Aí percebemos que o filme só acabará quando mais nada sobrar intacto.

Interpretando o filme à letra - para todos aqueles incapazes de reconhecer os símbolos, de seguir as pistas e de descodificar os significados ocultos - julgo que Mãe! se revelará um frustrante e insignificante pedaço de cinema. Identificar o duplo sentido da uma história e segui-la à luz da alegoria é um sinal de inteligência e não é para todos. Muitos espectadores não estão habilitados ou simplesmente não querem ser intervenientes activos na interpretação de uma história. Procuram tudo explicado, tudo tem que ser lógico ou fazer sentido imediato. São os mesmos que, muitas vezes, são incapazes de adorar uma fantasia. Ou um musical. Muitos espectadores assistirão a Mãe!, pois, e no final, se não tiverem desistido pelo meio, detestá-lo-ão categoricamente. Pela ignorância é fácil apelidá-lo de idiota, presunçoso ou pedante. Mãe! não é esse filme superficial. Qual iceberg, é nas camadas invisíveis que esconde a sua essência hermética. E a sua dualidade torna-o um objecto rico e simultaneamente enriquecedor, pois outros espectadores, perplexos com a complexidade e incomodados com o seu mistério esmagador, assistirão o filme uma e outra vez, procurarão respostas e explicações pela internet. Aí, quando se depararem com as descobertas, com o quebrar dos enigmas, dificilmente não o adorarão. Mãe! é um poço fundo e inesgotável de entendimentos. Ninguém sairá do filme absolutamente iluminado, antes intrigado e motivado para seu o estudo e para o seu culto.

Eis, pois, o retrato da decadência da Humanidade, da alegoria bíblica à mais gritante e urgente metáfora ecológica. Lawrence é a Criação e Bardem o Criador, Deus, que olha a casa do alto das escadas como quem vislumbra a Terra das alturas. É ele o poeta, o autor do Génesis e de todo o Antigo Testamento, as sagradas escrituras que os homens adoram. Por isso o idolatram. A casa simboliza, inicialmente, o Jardim do Éden, o paraíso onde reina a paz e a perfeição. Ed Harris é Adão (note-se a ferida nas costas, pela qual terá sido extraída a costela) e Michelle Pfeiffer é Eva (que se perde na limonada como quem prova o fruto proibido). Ambas as personagens conferem, às tantas, uma nova tonalidade, como se o filme abraçasse a comédia negra. Têm dois filhos e os irmãos Gleeson representam-nos: Caim e Abel, que lutam entre ciúmes mortais. Com a primeira morte provocada, abre-se uma ferida na casa, semelhante a uma vagina menstruada, que jamais se fechará, como que manchando para sempre o destino dos Homens. Os mais variados pecados se cumulam em cena. Lawrence assiste ao desenrolar dos acontecimentos, impotente e esperançada. O sapo anuncia a praga que virá e a vinda dos demónios. O dilúvio pode acontecer à escala de uma inundação, caso rebente um cano ou dois. Um dia, Lawrence engravida e o bebé, que será comido pelos ávidos e fundamentalistas seguidores da fé, é Jesus. Quando a criança nasce e chora e tudo se silencia, lembramos o milagre do distópico e magistral Os Filhos do Homem, de Alfonso Cuarón, num cenário não muito diferente. É o nascimento que inspira o poeta a novas escrituras; alusão ao Novo Testamento, que por sua vez desencadeia uma nova e fanática invasão, ainda mais forte; alusão ao cristianismo. É a partir daí que Lawrence se transfigura, física e emocionalmente, levando a sua revolta imperiosa e implacável a todos os que a ignoraram e magoaram, inclusive contra Deus, que acusa de se ter aproveitado do seu amor incondicional. O cristal de poderes regeneradores, de acordo com tradição gnóstica, simboliza o amor, deixado pela amante ao demiurgo na esperança de que um dia também ele aprenda a amar. Pela alegoria bíblica, é a devoção religiosa, cega, descontrolada e extremista, a causadora da destruição. A devoção dos Homens, egoístas e obcecados, feitos à imagem de Deus.

Pela alegoria ecológica, a causadora do fim é a negligência - igualmente cega, descontrolada e extremista. O despertar da mulher no eterno recomeço chama a atenção do espectador: acorda! para a mensagem que se segue. A mulher e a casa representam o planeta terra, o nosso lar. Imaculada, a mãe natureza põe todos os recursos ao nosso dispor. Ocupamo-la, consumimo-la, poluimo-la e devastamo-la. No caminho, destruimo-nos uns aos outros. Destruimo-nos a nós próprios. Que falta de consideração, que vergonha. Vejamos cada personagem, tão egoísta. A falta de respeito conduz ao ódio e à guerra. A todo o instante histórico, temos a opção de escolha: de mudar, de fazer diferente, de inverter a destruição massiva, de nos purificarmos e, sob um efeito catártico, de salvarmos o mundo e a Humanidade. No entanto, não nos unimos para inverter a maré. O inferno vem de fora para dentro, mas o paraíso vem de dentro para fora! Cada um de nós tem em potência, no seu interior, a possibilidade de mudar o mundo, de torná-lo um lugar melhor para nós e para os nossos filhos. Não podemos ignorar a nossa Mãe, infligindo-lhe tamanha dor, sendo tão assustadoramente irresponsáveis. Esta mensagem faz especial sentido num tempo em que vivemos sob a ameaça do aquecimento global e da guerra nuclear. O poderosíssimo final, tão surreal e premonitório, assombra-se-nos como algo horrivelmente possível e próximo. Neste sentido, Mãe! formula-se como a mais desencantada e alarmante tragédia, que poderá facilmente saltar da tela para a nossa realidade.

Por tudo isto, Mãe! é um filme muito pessoal, muito peculiar. Arriscadíssimo, pois as possibilidades de retorno financeiro para um projecto tão divisivo dificilmente seriam estrondosas. Mãe! é tão ou mais obsessivo do que qualquer uma das outras obras de Aronofsky, à data, mas possui uma irreverência e uma pulsão joviais que por vezes só explodem em obras em início de carreira, antes da maturidade. O impacto é comparável ao de um Clube de Combate. Não deixa de ser, por isso, insólito e inesperado que do artista brote tamanha efervescência numa altura em que a sua carreira se cimenta e consolida no firmamento dos maiores cineastas da actualidade. Que Aronofsky teremos daqui para a frente?

Facilmente, o melhor filme de 2017, a par de Blade Runner 2049, de Denis Velleneuve.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

INTERSTELLAR (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Interstellar
Principais Actores: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Casey Affleck, John Lithgow, Wes Bentley, Matt Damon, Ellen Burstyn, David Gyasi, Topher Grace, Bill Irwin, Josh Stewart, William Devane, Leah Cairns, Mackenzie Foy, Timothee Chalamet, David Oyelowo, Collette Wolfe

Crítica:

PARA ALÉM DAS ESTRELAS

Mankind was born on Earth. It was never meant to die here. 

Um ano depois de Cuarón chegar ao espaço, eis chegada a vez de Nolan. Mas se Gravidade proporcionou uma experiência assaz vertiginosa e claustrofóbica assente num feroz realismo e num regrado rigor científico - poder-se-á mesmo dizer que nunca a ficção científica teve, até então, os pés tão assentes na terra - Interstellar está muito mais próximo do cânone do género (nota-se a influência, por exemplo, da incontornável obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço) desbravando a imensidão e o infinito ao sabor das hipóteses e das especulações: da ficção, portanto. Pode, é certo, partir de teorias reais e de conceitos mais ou menos generalizados e absolutamente queridos a incursões deste tipo: o esgotamento dos recursos naturais da Terra e o cenário apocalíptico, a lei de Murphy, a inteligência artificial, a teoria da relatividade de Einstein e as derivações de Kip Thorne (consultor privilegiado) - a distorção espaco-tempo, ondas gravitacionais, buracos negros, etc. Interstellar cose-os e articula-os numa manta interessantíssima, construindo o suspense e o enigma de forma não só intricada como ultra-estimulante e eficaz, amarrando irreversivelmente o espectador numa missão permanentemente desconhecida - como, aliás, é marca dos Nolan desde Memento, passando por O Terceiro Passo até A Origem. Os twists multiplicam-se pela narrativa, tornando a acção seguinte absolutamente imprevisível. Não obstante, a viagem desemboca de forma rebuscada, no plano da coincidência e num espectro derradeiramente romântico. Para os amantes da ficção científica, esse não é um problema. Talvez o seja para os fanáticos da ciência.

De um filme para o outro, d'A Origem para Interstellar (tendo a pôr de lado a trilogia do Batman, que pertence a um universo muito específico e particular e em tudo menos interessante na sua filmografia, quando comparada aos restantes títulos), Christopher Nolan passa do mais ínfimo microcosmos (o sonho dentro do sonho dentro do sonho, na mente de um indivíduo) para o mais incomensurável macrocosmos (no tudo e nada do espaço aberto), ainda que a aventura cósmica continue alicerçada na ambição e na grandiloquência do argumento e das propostas visuais, com recorrentes brincadeiras com o espaço e com o tempo - como Nolan gosta de esculpi-los, como se fosse um engenheiro divino, qual Chronos. Se antes desdobrava cidades e as elevava nas alturas, agora visita mundos inóspitos, insólitos e surpreendentes ao olho: planetas de água onde ondas gigantes varrem constantemente a superfície, planetas de nuvens congeladas, onde o céu replica o solo e as personagens parecem passear sobre espelhos, ou buracos negros esféricos ou massivos, com extraordinários poderes de atracção e distorção, que poderão levar os astronautas ao futuro num ápice, enquanto no tempo terrestre as personagens deixadas envelhecem, adoecem ou morrem. Uma das cenas mais emocionantes, a propósito, dá-se aquando do regresso de Cooper (fabuloso Matthew McConaughey) à nave, depois da perigosa experiência no planeta aquoso de Miller, onde cada hora equivalem a sete anos na embarcação. Passaram-se, ao todo e sem que desse conta, vinte e três anos. Cooper dirige-se ao monitor para assistir às gravações enviadas da Terra durante esse período e depara-se com o crescimento e evolução da sua família, nos momentos bons e nos momentos maus que, pela distância, jamais acompanhou. Depara-se com a dor da ausência, a dele e a dos seus entes queridos - e essa dor é por demais insuportável. Mas a sua heróica missão, já sabia, teria essas consequências. Só por meio dela poderia tentar salvar o futuro - dos filhos e da humanidade.

Once you're a parent, you're the ghost of your children's future. 

O foco na relação pai-filhos, muito particularmente na relação de pai-filha entre Cooper e Murph (incríveis Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn) e no amor incondicional e insondável nutrido entre ambos fazem de Interstellar, provavelmente, a obra mais emocionante do realizador, à data, capaz de medir forças com as pretensões intelectuais da narrativa. O último acto, como o de 2001, projecta-nos no futuro, numa quinta dimensão e numa complexa e duvidosa existência. Sentimo-nos como que suspensos num sonho ou num hiper-cubo interminável e pouco palpável, que nem o astronauta, derradeiramente perdidos, à procura de uma explicação apaziguadora, à procura da luz. Rage, rage against the dying of the light, já declamava, misteriosamente, o Professor Brand (Michael Caine, habitué de Nolan), o mesmo que dizia: I'm not afraid of death. I'm an old physicist - I'm afraid of time. É nesses instantes fulcrais, em que se resolvem as hipóteses sobrenaturais levantadas no primeiro acto, que TARS - o robot com fisionomia semelhante à do monólito de Kubrick - intervém sabe-se lá de onde ou quando e afirma ter reunido preciosa informação quântica, capaz de descortinar os segredos do universo. Que desfecho terá Interstellar?, perguntamo-nos. É provável que o final passe e que não compreendamos bem o que assistimos, depreendemos. Talvez o descortinemos melhor em futuras visualizações. Mas sentimo-lo. Sentimos aquele desenlace. As últimas cenas são desconcertantes, profundamente trágicas e, verdadeiramente, de partir o coração. Fica a certeza de que os instantes finais nos apresentam o amor como elemento essencial para a transcendência, como adianta a citação abaixo, às tantas proferida pela Drª Brand (Anne Hathaway). O amor como espinha dorsal das relações humanas, do sentido da vida e do filme. Esta resolução, apesar de romântica e aparentemente facilitista, transpira tudo menos sentimentalismo bacoco. Não deixa de ser curioso que a maior odisseia pelo espaço culmine numa descoberta interior, como que convocando a auto-reflexão do ser humano. Procuramos lá fora, encontramos cá dentro. A fé no amor faz, afinal, mais sentido do que a fé em tudo o resto. Em Interstellar, Deus nem faz parte da equação.

Love is the one thing we're capable of perceiving 
that transcends dimensions of time and space.

Fiel a si próprio, Nolan entrega-nos, uma vez mais, uma ambiciosa e desafiante combinação de entretenimento excitante e de matéria inteligente, mais ou menos explicativa, num produto capaz de suscitar múltiplas interpretações e o mais inesgotável debate filosófico. O arrojo é do pensamento e das ideias, mas também das interpretações do elenco renomado, dos efeitos digitais (que expandem o imaginário e as proporções da direcção artística, detalhista), da possante sonoplastia (que respeita os silêncios e os sussurros, mas também se impõe num crescendo ensurdecedor e ameaçador sempre que necessário) e da mística banda sonora de Hans Zimmer (que potencia a transcendência no culminar da sonoridade religiosa). Todos os elementos se aliam a bem do espectáculo e do clímax apoteótico.

Note-se, contudo, que o trabalho de câmera nunca é especialmente virtuoso - a maior parte dos planos são fixos e a sua composição é relativamente simples. A maioria dos malabarismos no espaço dá-se não pela acção da câmera (que prefere, como disse, ficar estática) mas pelas naves ou outros objectos que rodam ou se movimentam. A simplicidade é uma arte, menos é mais, mas também pode ser um defeito. E no caso de Nolan e de um filme como Interstellar é claro como o cineasta se apoia tão mais nos seus mais variados departamentos técnicos e artísticos, do que na arte de filmar propriamente dita. Creio que o filme poderia ascender ao patamar da excelência caso o realizador brilhasse mais. Assim brilha somente o autor, o autor visionário, o que também não é dizer pouco, ou não fosse Nolan o autor mais comercial do actual panorama cinematográfico norte-americano. Nolan sabe como alimentar uma legião febril de fãs, ávida do seu estilo e das suas histórias, tornando cada filme seu um retumbante êxito de bilheteiras. Quando as ideias dão dinheiro, um cineasta não tem como não estar nas graças dos grandes estúdios. E ter dinheiro para concretizar ideias audaciosas não é tão frequente quanto gostaríamos, pelo que se trata de um círculo vantajoso para todos os envolvidos. Dinheiro à parte, ganham o cinema e os espectadores.

Interstellar é, pois, puro magnetismo. Será certamente - arrisco e aposto dizer -, uma das mais fascinantes ficções científicas deste primeiro quarto de século. O tempo e só o tempo nos trará, ou não, a confirmação. Não obstante, há quem já a tenha - mas sabemos bem: o tempo...  o tempo é relativo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DONNIE DARKO (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Donnie Darko
Realização: Richard Kelly
Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Mary McDonnell, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Holmes Osborne, Katharine Ross, Noah Wyle, James Duvall, Patience Cleveland, Beth Grant, Maggie Gyllenhaal

Versão do Realizador

Crítica
:

A VIAGEM NO TEMPO

The dreams in which I'm dying are the best I've ever had.

Não admira que num filme sobre viagens no tempo abundem os travellings - pairando sobre os espaços e sobre as personagens - e que a manipulação do tempo se exerça das mais variadas formas, nomeadamente através de time lapse e de recorrentes slow motion. É assim em Donnie Darko - um pequeno filme indie de baixo orçamento mas com um potencial de proporções cósmicas - provavelmente por isso e cinematograficamente falando, o maior fenómeno de culto da primeira década do século XXI. É, sob os mais variadíssimos prismas, um objecto absolutamente singular: é de 2001, mas a acção passa-se nos anos 80 e todo filme - à excepção dos avançados efeitos especiais que às tantas irrompem pelo ecrã - aparenta, efectivamente, ser um filme dos anos 80: tanto pela fotografia, como pelo guarda-roupa, pelos automóveis, pela cenografia ou pela decoração. Para o espectador, e logo à primeira vista, portanto, a viagem no tempo acontece - a nível visual. Mas também a nível sonoro, ou não avançasse a narrativa ao som das bandas da época (de Head Over Heels dos Tears for Fears a Notorious dos Duran Duran ou a Love Will Tear Us Apart dos Joy Division).

Donnie Darko é um filme sobre viagens no tempo, mas é sobretudo um filme sobre a adolescência - poderá não ter sido feito, exclusivamente, para adolescentes, mas reúne todos os temas que os seduzem e fascinam, permitindo a identificação imediata com o protagonista e marcando inevitavelmente a geração que cresceu com o filme - o que justifica, em grande parte, o facto de terem sido sobretudo os adolescentes a cultuar a obra, desde a sua estreia, elevando-a à notoriedade inegavelmente alcançada nos dias de hoje. Alheando-nos do fenómeno, descortinemos os méritos da obra.

Sobre a Adolescência

A adolescência é, por definição, a fase de transição da infância para a idade adulta, onde cada ser humano procura o seu lugar no mundo, indagando a existência. É um tempo de indefinição e insegurança, de reflexão e vivência interior, de comparação, de transformação, de revolta, desafio e choque de gerações e, por isso, de alguma alienação (que os próprios confundem, muitas vezes, com abandono e solidão). Donald Donnie Darko é, neste sentido, um puro adolescente. O facto de ser malcriado com os pais e de contestar a hipocrisia e fundamentalismo de alguns professores conservadores (como é o caso da púdica e irritante Kitty Farmer de Beth Grant, discípula do guru da moral e dos bons costumes Jim Cunningham, interpretado por Patrick Swayse, sempre a pregar ao mundo a sua filosofia de algibeira sobre o medo e o amor, alertando para os grandes perigos da adolescência: o álcool, as drogas e o sexo pré-marital e, afinal, um pedófilo encoberto) até que é enquadrável e identificável entre os comportamentos característicos da sua idade. Sofre de bullying como muitos dos seus pares, talvez domine a genealogia dos Estrunfes melhor do que eles.

As particularidades de Donnie Darko

Todavia, Donnie manifesta assustadoras particularidades: é sonâmbulo, tem problemas emocionais e sofre de surtos psicóticos que o levam à piromania, à delinquência e, inevitavelmente, à psicoterapia. Quando começa a alucinar com um demoníaco coelho gigante, de nome Frank, que o adverte do fim do mundo e que o leva a cometer os mais inesperados actos de vandalismo, o seu quadro clínico agrava-se, pintando-o como paranóico e próximo da esquizofrenia. A hipnose tentará decifrar o intricado quebra-cabeças que é a sua existência enquanto que nós, espectadores, completamente reféns da história e siderados pelo magnetismo das imagens, tentaremos seguir as pistas lançadas, conjugando-as na esperança de resolvermos, também nós, o puzzle. Não obstante, quanto mais informações somarmos, maior a nossa confusão, o nosso desnorte, e... o nosso fascínio. Em Jake Gyllenhaal reside a razão da nossa persistência e da nossa não-cedência à frustração de nos sentirmos, às tantas e afinal de contas, inteiramente perdidos. Não admira que Donnie Darko o tenha catapultado para o estrelato. Gyllenhaal é incrivelmente soberbo na sua interpretação, transbordando pelo olhar e pelo sorriso - e que olhar, e que sorriso - toda a complexidade interior da sua personagem: neles vemos o seu lado de menino, ternurento e inocente, e o seu lado malicioso, perturbado e terrível. Tão depressa nos colocamos na sua pele como na pele dos pais e dos que estão à sua volta - tão depressa somos o monstro como a vítima. Por isso, não desistimos de tentar entendê-lo: queremos acreditar na sua redenção... e, simultaneamente, sentindo o perigo que é e representa, prevemos-lhe o pior e mais trágico dos desfechos. O tempo urge e o apocalipse aproxima-se. Até lá, Donnie fará tudo o que é dito proibido, como que num ritual de afirmação: ingerirá bebidas alcoólicas, consumirá drogas e praticará sexo antes do casamento. A morte está perto e não vai morrer na ignorância.

I hope that when the world comes to an end, I can breathe a sigh of relief, because there will be so much to look forward to.

A família disfuncional

Muitas são as leituras plausíveis e possíveis, o que muito diz deste diamante artístico. A sátira às famílias da classe média americana dos anos 80 - cujo modelo ainda encontramos na actualidade e em demasia - é evidente: a família Darko é claramente uma família disfuncional, por mais que tendemos a encará-la como normalizada, se exceptuarmos o caso crasso de Donnie. O pai é um elemento passivo, que não manifesta a sua autoridade, que não impõe limites - antes se ri das asneiras dos filhos, sem os corrigir, sem os chamar à atenção, chegando muitas vezes a encorajá-los. O pai é como mais uma criança naquela casa. A mãe, sempre muito bem maquilhada e penteada, aparenta ter a família perfeita, mas é mais um ser passivo, que vê a vida passar-lhe à frente sem a agarrar: Donnie chama-a cabra e ela resigna-se. Amar um filho não é só sustentá-lo. É educá-lo. E educá-lo não é só ser permissivo. Isso é preguiça, irresponsabilidade e negligência. Amá-lo e educá-lo é ser activo na relação com ele, mimando-o mas também repreendendo-o - sempre que necessário. Saber dizer não, saber fazer cara feia, saber castigar. Só o equilíbrio destas duas forças resultará num indivíduo estruturado, mais seguro, mais forte e independente - não centrado em si próprio, mas aberto de si para o mundo. Pai e mãe não sabem o filho que têm, sabem o filho que imaginam. Essa ausência de essência na relação entre eles traduz-se numa carência afectiva que é, seguramente, a base da instabilidade emocional de Donnie. Lembro que Donnie e a irmã (Maggie Gyllenhaal, irmã real do protagonista) organizam uma rave de Halloween em casa, sem que os pais alguma vez sonhem! Donnie tem, nomeadamente, acesso à arma de fogo dos pais... Isto são tudo menos coisas de uma família funcional, dita normal. A frase da professora Karen de Drew Barrymore remata, a respeito e da melhor forma possível, este parágrafo: the children have to save themselves these days because the parents have no clue. 

O Anticristo e o Livre-Arbítrio

Frank, o coelho, representa a Morte e reflecte os abismais receios de Donnie, motivando o seu auto-questionamento. Quando Donnie lhe pergunta: Why are you wearing that stupid bunny suit?, a fantasia reposiciona-o: Why are you wearing that stupid man suit? Numa leitura mais gnóstica e esotérica, Frank - a voz que o leva pelo caminho do Mal - representa Satanás. Donnie Darko é o seu profeta e por isso se acha tão especial. É claro que a maioria dos adolescentes se acha especial, mas Donnie acha-se o Super-Homem, o Anticristo. A referência a Nietzsche é evidente. Não admira, ele tem visões que mais ninguém tem. Por isso, quando a enamorada Gretchen de Jena Malone lhe diz Donnie Darko. What the hell kind of name is that? It's like some sort of superhero or something, o rapaz responde-lhe, prontamente: What makes you think I'm not? 

Na aulas, lêem The Destructors de Graham Greene, onde se podem ler coisas como destruction is a form of creation. Tudo aquilo com que Donnie contacta tem sérias implicações e influências no seu imaginário e na sua psique e os livros são dos exemplos mais gritantes. Destruction is a form of creation é uma das frases chave. Se Deus foi o Criador e se a destruição também é um acto de criação, então Deus não é só um benfeitor, é também um agente de maldade. Destruir pode ser um acto divino. Vistas as coisas, perdem-se ou confundem-se as noções de Mal e Bem. E é esta interpretação que fundamenta e orienta a atitude de Donnie. Ele é como um Deus ou como o Diabo, não importa. Ele é especial. Inundar um balneário, espetar um machado numa estátua, grafitar o chão ou incendiar uma casa são actos divinos. Abalam a ordem, criam o caos... e do caos nasce qualquer coisa nova. Não admira que seja um ser desorientado, não tem referências: as que tem ou não se afirmam ou contradizem-se. Nas sessões com a terapeuta, o papel de Deus na existência é discutido. As conclusões são para além de agnósticas, tocando o ateísmo. Não deixa de ser simbólico, por isso, que Donnie vá ao cinema assistir a Evil Dead e que, na mesma sala, se exiba A Última Tentação de Cristo. O Cristo que se questiona.

Donnie serve Frank, a tentação do Mal, até determinado ponto: no seu incessante questionamento, luta por desvincular-se e por encontrar o seu lugar. Donnie Darko é, pois, a luta de um adolescente contra os seus demónios interiores - acedendo finalmente à sua cellardoor, mergulha no seu mais profundo inconsciente. O resultado é o triunfo do seu livre-arbítrio sobre quaisquer noções morais. No final, perante o mal praticado, perante as perdas e as consequências do seu caminho, das suas decisões e das suas acções, Donnie julga-se e toma consciência. Felizmente, pode voltar atrás. Se ser um Super-Homem o levou a matar e a destruir a sua família, a perder a sua namorada... numa segunda oportunidade, Donnie optará por evitar tudo isso, por ser simplesmente o miúdo que morreu com a insólita queda do motor do avião. Daí o acto estóico, corajoso e finalmente heróico. Pela sua própria morte salva o seu mundo - ou o mundo dos seus. Para percebermos melhor estes decisivos instantes finais do filme, leiam-se os parágrafos que se seguem.

O Universo Tangente

O filme abre e Donnie Darko acorda no cimo de um monte. Pode acordar para um pesadelo bizarro e a acção de Donnie Darko ser irreal, onírica; o que não estranharíamos, dado o surrealismo dos acontecimentos. Não obstante, várias perguntas ficariam sem resposta, várias peças ficariam por encaixar no puzzle. Para compreendermos a amplitude da proposta e aproximarmo-nos da sua plenitude, devemos entrar no espectro da ficção e da especulação científica, estando aberto para teorias que desafiam as leis da física, na sua lógica muito particular.

O único acontecimento inexplicável da obra é a queda da turbina do avião sobre o quarto de Donnie. Este acontecimento insólito é o causador de uma anomalia na quarta dimensão, o que leva à criação de um universo paralelo, também conhecido como universo tangente. O livro A Filosofia da Viagem no Tempo, da professora Roberta Sparrow (agora conhecida como a Avó Morte, a velhota enlouquecida e tão despenteada que nem o autor da Teoria da Relatividade, Albert Einstein, que passa a vida a abrir o marco do correio, na esperança de encontrar uma carta que nunca chega) faz referência a um objecto metálico como causador do evento. Denomina-o artefacto. Esse objecto é a réplica de um já existente no universo original - chamemo-lo primário. Dado que não é possível 2 objectos iguais coexistirem no mesmo universo, a realidade alternativa é desencadeada e terá uma duração limitada: neste caso, 28 days, 6 hours, 42 minutes, 12 seconds. That is when the world will end. 

Na realidade copiada (passível de distorção, como num sonho) e numa luta contra o tempo (antes que este segundo universo se fine), há uma pessoa que é escolhida para expelir o artefacto e, deste modo, evitar que no momento do fim do mundo tangente e do regresso às origens, se possa criar um eventual buraco negro, capaz de engolir e destruir, irreversivelmente, o universo primário. É o que diz A Filosofia da Viagem no Tempo. Quem escolhe o denominado transmissor vivo não se sabe - pode ser Deus ou uma entidade abstracta. Daí a importância da discussão religiosa no filme. O certo é que é Donnie Darko o escolhido, o transmissor vivo, a quem lhe são conferidos, efectivamente, super poderes: uma força sobrenatural (capaz de o fazer cravar um machado na impenetrabilidade de uma estátua de bronze), domínio de elementos primordiais como a água e o fogo (lembramos a inundação na escola, o incêndio da casa de Jim Cunningham e as visões daquela espécie de vermes de água que se extraem dos corpos e antecedem cada um dos movimentos das personagens) e a telecinésia (que o habilita a feitos extraordinários pelo poder da mente, nomeadamente viajar no tempo). 

Todas as pessoas que fazem parte do dia-a-dia do escolhido no universo primário farão parte do dia-a-dia do escolhido no universo tangente. Aquelas que não vierem a morrer no universo tangente, serão os denominados manipulados vivos, responsáveis por ajudar Donnie a concretizar a salvação. É o caso da inspiradora professora Karen ou da psicóloga, sobre todas as outras. As que vierem a morrer no universo tangente não morrerão no universo primário, mas serão agentes especiais na acção desta segunda realidade: serão os mortos manipulados, capazes de viajar na linha do tempo do universo tangente, ajudando igualmente o escolhido na sua missão. Os manipulados mortos poderão manifestar-se de forma mais ou menos sinistra, de acordo com o impacto desejado no transmissor. Os manipulados mortos são: a mãe e a irmã mais nova (ambas sucumbirão provavelmente à queda do avião), a namorada Gretchen e Frank, sendo que Frank é o único com aparência macabra, muito por conta da fantasia que traz vestida no momento da sua morte. Com esta leitura, a personagem Frank ganha toda uma nova dimensão: passa da representação da Morte e do Mal para um enviado especial e determinante cúmplice na salvação do mundo, jogando com a psique e com os medos de Donnie com vista a alcançar o seu objectivo. Por isso apareceu a Donnie antes da queda da turbina no universo paralelo, salvando-o da morte certa e levando-o pelo sonambulismo até ao campo de golfe. 

No final, Donnie, ciente da sua missão e enfim decidido ao auto-sacrifício, usa o poder da mente para expelir o artefacto. Chega a hora do Juízo Final. O regresso ao universo primário e ao tempo presente faz-se pela edição, que monta as cenas de trás para a frente: a acção no universo tangente aparece-nos como uma viagem ao passado; ainda que, como sabemos, alternativo. A narração que acompanha o momento é de Donnie: o jovem lê a carta que escreve a Roberta Sparrow. Por isso, depreendemos: a carta que a idosa sempre esperou no universo tangente foi a carta de Donnie, a quem um dia alertou: every creature on this Earth dies alone. É como se a velha, outrora freira, também um dia tivesse viajado no tempo e a um universo tangente e tivesse de lá regressado mais sábia e capaz de escrever um livro tão visionário quanto A Filosofia da Viagem no Tempo, sendo desde então considerada louca e tendo finalmente acabado por enlouquecer. Sim, isso faria todo o sentido. 

A coda do filme mostra-nos os despertares, ao som da icónica e para sempre ligada ao filme Mad World, de Gary Jules: os manipulados, vivos ou mortos, agora de volta ao universo original, sãos e salvos graças à acção de Donnie. Paira no ar o mistério da inexplicabilidade, quando interiormente estas personagens parecem ter resquícios de memória do que tão intensamente experienciaram no universo tangentePara todos eles, agora e porventura, a experiência - que também nós assistimos e vivenciámos - foi como um sonho extremamente lúcido, que não conseguem provar. Note-se Frank, que absortamente leva a mão ao olho. Note-se a troca de olhares e acenos entre Gretchen e a mãe de Donnie. Note-se o aceno final de uma criança vizinha, com que o filme desvanece, derradeiramente, a negro. Supostamente, a criança acena também à mãe de Donnie, como Gretchen, com quem partilha o plano. Mas Gretchen e o miúdo não olham para o mesmo ponto. O miúdo olha directamente para a câmera e o aceno é para nós. É como uma representação do próprio Richard Kelly, a piscar-nos o olho.

Estas respostas encontram-se fora de Donnie Darko e encontram-nas os espectadores mais curiosos e interessados; como será o caso de quem lê esta dissertação. O filme jamais se explica e, por tudo isto, é tão complexo, tão intrincado. Para alguns, a ausência de explicação é uma falha e um acto de deslealdade por parte do realizador-argumentista, o que desprestigia imediatamente o filme. Não para mim. Já mais diria tal coisa de um filme tão inteligente.

A Versão do Realizador

Na minha opinião, a Versão do Realizador - que o próprio assume mais como uma versão alongada - é, com os seus vinte minutos de cenas adicionais e complementares, uma versão claramente superior e que veio enriquecer as personagens, nomeadamente a professora Karen, a terapeuta Lilian de Katharine Ross e o pai Eddie de Holmes Osborne, e variadíssimos pontos da história, nomeadamente a questão do ateísmo/agnosticismo de Donnie e toda a problemática adjacente do papel de Deus na existência e na acção. Richard Kelly mexeu ainda na banda sonora, adicionou efeitos digitais e visuais e o projecto ficou mais sólido e consistente e ainda mais denso e atmosférico, ainda mais introspectivo. Ainda mais estranho.

Para muitos, Donnie Darko é um filme complicadíssimo, simplesmente por que não faz ou não tem qualquer sentido. Para outros, é um filme indecifrável; multiplicam-se as teorias e as leituras na busca do seu entendimento. Para alguns, desmascarada a lógica ou sentida a sua verdade, é um filme de génio. O certo é que, a cada visualização, abrem-se - sempre - novos portais para novos entendimentos. Donnie Darko revela-se, portanto, inesgotável. É possível que venha a transcender o próprio tempo... Não me admirava nada. Esperemos pelo futuro para confirmá-lo.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SINÉDOQUE, NOVA IORQUE (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: Synecdoche, New York
Realização: Charlie Kaufman
Principais Actores: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan, Emily Watson, Hope Davis, Dianne Wiest, Deirdre O'Connell

Crítica:

O GRANDE ENSAIO 

The end is built into the beginning.

À primeira tentativa, Sinédoque, Nova Iorque adormeceu-me. Não terei assistido a mais do que quinze, vinte minutos, na verdade, e depois esteve na prateleira, na companhia de outros tantos títulos, durante seis ou sete anos. Até que, finalmente, me voltou a chamar. Ensonou-me não porque se tratasse necessariamente de um filme mau - quantos não são os factores que nos levam a adormecer. Os filmes de Malick, que tanto adoro, por exemplo, embalaram-me já um par de vezes - inebriam-me, o que posso fazer, mexem com o meu subconsciente. E suspeito que, tendencialmente e com os anos, o sucedido me virá a acontecer ainda mais vezes. Ter-me-ia então, o filme, efetivamente aborrecido? Não seria de estranhar: Caden Cotard (brilhante interpretação de Philip Seymour Hoffman) é, provavelmente, a personagem mais aborrecida e deprimida de que há memória. Não, certamente que não: Caden Cotard é, para o espectador, uma criação por demais rica, enigmática e fascinante. Cessarei, por isso, de tentar culpar o filme, até porque o fait diver de ter adormecido não é mais do que isso, um fait diver - pessoal e sem qualquer importância. O que importa é que, atendendo ao chamamento, vi o filme. E fiquei maravilhado: é extraordinário. Não tardará a chamar-me mais vezes. Conto ficar acordado.

Quem é Caden Cotard e sobre o que fala o filme? Bem, Caden é um encenador de teatro, casado e com uma filha. Vive rodeado de gente, no entanto está mergulhado na solidão e à beira do abismo - e assim viverá toda a vida. Sem qualquer resquício de amor-próprio, é convictamente aborrecido, deprimido, falhado, frustrado, desesperançado, paranóico e hipocondríaco (corre todos os médicos e especialidades, tem todos os sintomas e mais alguns e urina ou defeca sangue com alguma regularidade - quando não o faz certamente que imagina que sim). É incapaz de exprimir sentimentos ou sensações genuínas, já quase que não saliva ou lacrimeja e tem que estimular o corpo nesse sentido, não vá secar-lhe a alma. É mau marido, mau pai, faz terapia de casal e individual, lê livros de auto-ajuda e jornais (nos quais apenas destaca as más notícias e os obituários) e é obsessivo com as limpezas e com o trabalho. Revê-se nos reclames da televisão e até nos desenhos animados, nas situações mais indesejadas. É o centro do mundo, os arredores e a totalidade. Pintado este quadro, não admira que não divirta nada nem ninguém, que todos se fartem dele e que venha a tentar o suicídio. É masoquista, não sabe ser de outra forma, gostaria de ser de outra forma, mas nada faz para isso. A sua melhor definição é capaz de ser a que Millicent Weems, personagem de Dianne Wiest, às tantas lança:

Caden Cotard is a man already dead, living in a half-world between stasis and antistasis. Time is concentrated and chronology confused for him. Up until recently he has strived valiantly to make sense of his situation, but now he has turned to stone. 

O seu nome não é ocasional ou não fosse o síndrome de Cotard o síndrome do cadáver ambulante.

Certo dia, empreende o impossível: replicar, num enorme armazém, a cidade e nela a sua vida, naquela que será, plena de verdade, a maior peça de teatro de todos os tempos. Como se pela representação do teatro vivesse a vida realmente. I won't settle for anything less than the brutal truth. Brutal. Esta peça - por baptizar - replicará, portanto, a trama de Sinédoque, Nova Iorque. Tremendo, o efeito de mise en abyme. Joga-se o microcosmos pelo macrocosmos, a parte pelo todo: a sinédoque do título, como resurso de estilo. Sammy fará de Caden. Claire (sua segunda mulher, interpretada por Michelle Williams) fará de Adele (sua primeira mulher, interpretada por Catherine Keener). Tammy (sua quarta mulher, interpretada por Emily Watson) fará de Hazel (sua terceira mulher, interpretada por Samantha Morton, de todas a que mais genuinamente o amou e a que mais genuinamente por ele foi amada: Hazel, you've been a part of me forever. Don't you know that? I breathe your name in every exhalation) e assim sucessivamente. À medida que cada personagem nova entra em cena no filme, uma nova personagem entra em cena na peça, tendo implicações directas no rumo da acção.

A épica aventura durará quase uma vida, pois o tempo voa, na montagem e na palavra. Caden casa-se, separa-se, desdobra-se em funerais. A acção de todo o filme contemplará, ao todo, cerca de cinquenta anos, tantos dos quais a trabalhar na peça. Com ela, apercebemo-nos do poder insolitamente magnetizante do protagonista. Afinal, apesar de constante e irremediavelmente abandonado (não as terá ele também abandonado a todas?) por uma e outra mulher (ou pelas filhas - a propósito, é especialmente tocante a cena da despedida da filha Olive, onde até aí a comunicação é dificultada), conseguirá sempre atrair os interesses de alguém - e é como se os atraísse para a morte, porque jamais serão felizes ou se realizarão a seu lado. É o caso do enigmático Sammy (Tom Noonan), que desde cedo o persegue e só mais tarde se revela: sabe tudo sobre ele e, qual alter ego, será capaz de confrontá-lo consigo próprio. Atrai sobretudo actores - o elenco da sua companhia resistirá estoicamente à passagem do tempo, ao seu perfeccionismo doentio, às suas mudanças de humor e às intermináveis alterações no guião. Um a um, todos com quem alguma vez interage ou contracena se findarão - e só ele, que para todos os efeitos está morto, não conhece a morte. O assunto da sua vida é, pois, o assunto do seu espetáculo:

I will be dying and so will you, and so will everyone here. That's what I want to explore. We're all hurtling towards death, yet here we are for the moment, alive. Each of us knowing we're going to die, each of us secretly believing we won't.
Caden Cotard

Jon Brion, compositor do redentor Magnólia de P. T. Anderson, assina a espirituosa banda sonora, que tão bem se coaduna com a soturna alma do filme e que tão bem conduz o espectador pela melancólica e sentimental viagem, repleta de imagens incríveis em tão poéticos momentos... a casa que arde e fumega, o enorme dirigível que irrompe pelos céus da falsa cidade ou a pétala que cai da flor tatuada... qual lágrima de um olhar molhado. A cada compasso, cada vez mais fantástico e desolador, filme e peça misturam-se magistralmente. O hiper-realismo converte-se numa metalinguística abstracta e quase indecifrável. A ficção e a realidade da ficção confundem-se, pois, e tornando-se indissociáveis. Qual delas a mais verdadeira? A mais real? Não é possível dizer... Rendidos à magia do que nos é apresentado, resta-nos concluir o mesmo que o protagonista: there are nearly thirteen million people in the world. None of those people is an extra. They're all the leads of their own stories. They have to be given their due. - e esperar que o mesmo ainda vá a tempo de se viver a si próprio, livre e despojado da tão infectada e mórbida consciência que tanto o assombrou e inutilizou, depois do grande ensaio. 

Charlie Kaufman. Só agora, neste ponto do texto, menciono o seu nome? Tudo o que falei para trás espelha o seu génio. Charlie Kaufman é um artista maior. Os seus argumentos, ousados e originais, ensaiam a condição humana e expõem-na da forma mais criativa nos seus peculiares diálogos, personagens, situações e universos. Queres ser John Malkovich? e Inadaptado, ambos realizados por Spike Jonze, surpreenderam o mundo e o virar do século por isso mesmo e, anos depois, o esplêndido e apaixonante O Despertar da Mente, de Michel Gondry, trouxe ainda mais reconhecimento à sua inconfundível identidade artística. Qual deus, Kaufman joga com o ser humano: constrói e desconstrói ficções e realidades, brinca e baralha o espectador, lança-o numa espécie de limbo interpretativo, não poucas vezes absurdo, confundindo drama e comédia, originando a dramédia. As suas personagens, alienadas, como que procuram o sentido da existência. E com Sinédoque, Nova Iorque - que diria que é, até ao momento, a sua mais arrojada e ambiciosa proposta - eis que se lança na realização como quem se atira de um arranha-céus. O aparente devaneio, que poderia desencadear a verdadeira tragédia, acaba por arrebatar-nos e arrancar-nos o mais sentido aplauso. Hiper-lúcido e consistente, de pulso firme, Kaufman concretiza um corajoso, denso e profundo pedaço de cinema. Diria mesmo que, na realização, atinge finalmente o expoente máximo da sua expressão autoral e o controlo absoluto da sua criação. O devaneio não só faz todo o sentido, no fim de contas, como era inevitável.

They say there is no fate, but there is: it's what you create. 

Sinédoque, Nova Iorque: um imprescindível filme de culto e um complexo e inesgotável objecto de estudo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

PROCUREM ABRIGO (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★ 
Título Original: Take Shelter
Realização: Jeff Nichols
Principais Atores: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet

Crítica:

O PRESSÁGIO DO APOCALIPSE

 There's a storm coming like nothing you've ever seen,
 and not a one of you is prepared for it.

Procurem Abrigo evoca o melhor suspense de Hitchcock a Shyamalan: até os pássaros trazem o pior augúrio e a dualidade entre o real e o imaginário ou entre o natural e o sobrenatural renova, a cada instante e até ao final, a dúvida no espetador. O medo impera - o drama cede, não raras vezes, ao thriller psicológico e ao terror. Há como que uma sensação de ameaça omnipresente e iminente, lançada pelo negrume daquelas nuvens carregadas; as mesmas que instalam, logo desde a abertura, o mistério e o pânico interior no assustado Curtis de Michael Shannon - naquela que é, seguramente e até agora, a sua mais notável e intensa performance.

Assolado por terríveis sonhos que lhe angustiam a existência depois de acordar, Curtis vê-se involuntaria e obsessivamente obrigado a mudar as suas atitudes, o seu dia-a-dia. Sonha que uma tempestade apocalítica se aproxima e começa a ampliar o abrigo subterrâneo do quintal, qual Arca de Noé, para a proteção da família quando a intempérie chegar. Retira o cão de casa e constrói um cercado na rua, não vá o animal morder-lhe como no pesadelo. Precipitam-se visões e o ouvir de trovoada quando ela, na realidade, não existe. A mãe está há anos internada num lar psiquiátrico e Curtis teme que a genética comece a falar mais alto. Esse passado, aliás, assombra-o mormente. Estranhamente, esconde toda a situação da mulher e da filha surda-muda, que tanto ama e que tanto o amam incondicionalmente, numa paisagem rural tão desoladora que parece acentuar as suas perturbadoras circunstâncias. As premonições não param e Curtis afasta-se de tudo e todos, pondo em causa as suas relações pessoais e o emprego, cujo seguro pagará a operação da filha.

A ação torna-se inquietante, de suster a respiração. Quase que penetramos a conturbada dimensão interior do protagonista e sufocamos nela. Sem artifícios maiores, a humanidade das personagens vem ao de cima, graças à inteligente construção do argumento (Jeff Nichols escreve e realiza) e à verdade das emoções, extraída da direção de atores fora-de-série. Destacam-se, naturalmente, Shannon e a Jessica Chastain - a graciosa Srª O'Brien de A Árvore da Vida, obra-prima de Terrence Malick, que em 2011 ascendeu ao estrelato de Hollywood como uma das suas mais promissoras atrizes. A cena em que Curtis revela à mulher o que lhe está realmente a acontecer é seguramente a melhor do filme (o drama familiar atinge aí o seu auge); pelo menos até então, porque o falso final no abrigo e o efetivo final na praia são tremendos: na encenação, na banda sonora (por David Wingo, uma das principais responsáveis pelo desconforto da experiência), inclusivé na fotografia (Adam Stone)... O escape à claustrofobia imposta pelo abrigo é tão libertador para as personagens como para nós, espetadores.

Procurem Abrigo consegue, pois, surpreender, transcender-nos em emoções e superar-se enquanto objeto fílmico, ascendendo claramente a um patamar superior. Desta obra em diante, Jeff Nichols não é senão um nome a ter em conta. Procurem Abrigo arrebatou-me. Foi uma conquista inesperada e arrepiante, daquelas que justificam e alimentam a nossa paixão pelo cinema. Que excecional pedaço de cinema. Absolutamente imperdível.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

CLOUD ATLAS (2012)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: Cloud Atlas
Realização: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Principais Actores: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, James D`Arcy, Susan Sarandon, Hugh Grant, Doona Bae, David Gyasi

Crítica:

A VIAGEM E A EVOLUÇÃO DA ALMA

I believe death is only a door. When it closes, another opens.

Há filmes destinados a existirem. O aclamado romance Cloud Atlas, de David Mitchel, dir-se-ia completamente intransponível à sétima arte, tal era a sua complexidade no papel. Seis histórias em seis tempos diferentes, contadas em simultâneo, cada uma delas com um género distinto, sendo que as personagens reencarnam de tempo para tempo, reclamando a evolução da alma e uma missão pela Verdade que se concretiza ao longo dos séculos, almejando aperfeiçoar a existência dos Homens. Mas como diria o intenso e eloquente Robert Frobisher de Ben Whishaw: all boundaries are conventions, waiting to be transcended. One may transcend any convention, if only one can first conceive of doing so. E o filme fez-se.

Em cada tempo narrativo, à parte as reencarnações assumidas fisicamente pelos mesmos atores, há um sinal de nascença. Os protagonistas marcados com o cometa herdam do passado um testemunho de fé e uma luta por um mundo mais livre, igual e pleno de amor. This world spins from the same unseen forces that twist our hearts. A herança é transmitida pelas forças do cosmos e materializada na palavra: o diário, as cartas, o livro, o guião, o filme, o vídeo, a oralidade - os fios narrativos interligam-se por um ritual de leitura, pela arte de contar a história (que nos remete para a lógica do prodigioso As Horas de 2002, de Stephen Daldry). Os protagonistas continuam a demanda no seu presente, pelas suas atitudes e ações, num aperfeiçoamento eterno. Para uma conquista, cada gesto ou palavra é, no seu espaço e no seu tempo, somente um gesto ou uma palavra, como uma gota na imensidão do oceano, mas... What is an ocean but a multitude of drops?, remata Adam Ewing, eficazmente. Descodificando o cometa, ainda que as interligações sejam mais do que muitas, atentemo-nos pois aos principais fios narrativos:

- Em 1849, o drama histórico. Um navio atravessa o Pacífico. É escrito um diário por Adam Ewing (Jim Sturgess), um advogado idealista que salva o negro Autua (David Gyasi) da escravatura e que mais tarde lutará pelo abolicionismo.
- Em 1936, o romance poético. Na mansão do mestre Arys, Inglaterra, um amante e aprendiz amador procura inspiração para compor a sua obra-prima musical. É a história do bissexual e insatisfeito Robert Frobisher, que lê o diário de Adam Ewing mas cuja leitura não termina. A half-finished book is, after all, a half-finished love affair. Termina The Cloud Atlas Sextet com a mesma determinação trágica com que termina a sua vida, com o suicídio. Suicide takes tremendous courage. A sua maravilhosa música ecoa por todo o filme (composta na verdade pelo próprio cineasta Tom Tykwer, em colaboração com Reinhold Heil e Johnny Klimek). O acto criativo como acto de amor, deixado por escrito em muitas da suas cartas ao seu amado Sixmith (James D'Arcy). I believe there is a another world waiting for us, Sixsmith. A better world. And I'll be waiting for you there.
- Em 1973, o thriller policial. Em São Francisco, a jornalista Luisa Rey (Halle Berry) tenta desmascarar a conspiração por detrás de um novo e perigoso reator de energia nuclear. Tem acesso às cartas de Frobisher - conhece o envelhecido Sixmith - e procura numa loja o disco do Cloud Atlas Sextet, que assume reconhecer embora não saiba muito bem de onde. Relata em livro a sua investigação.
- Em 2012, a comédia, a farsa. O sexagenário Timothy Cavendish (hilariante e brilhante performance de Jim Broadbent) lê o manuscrito de Luisa Rey. É, por intermédio do irmão, internado num hospício (localizado na antiga mansão de Arys), do qual tentará fugir a todo o custo. Acaba por escrever um guião para cinema com base na sua experiência.
- Em 2044, a ficção científica. Na Nova Seul de um futuro distópico - ecoa o imaginário visionário de Blade Runner - Sonmi-451 (Doona Bae) é uma ingénua e inocente fabricante, uma clone humana, concebida por engenharia genética de ponta, moda alheia a qualquer ética moral. É escrava num restaurante de fast food, alimentada a soap. Quando descobre a verdade sobre si mesma e inspirada no filme a que assiste baseado no argumento do velho Cavendish - I will not be subjected to criminal abuse -, a rebelião contra o sistema começa. No matter if we're born in a tank or a womb, we are all Pureblood. (...) We must all fight and, if necessary, die to teach people the truth. Somni-451 grava uma mensagem em vídeo.
- Em 2321, cento e seis invernos após a Queda, a ficção pós-apocalíptica. Nas denominadas Big Islands, a sociedade humana tornou à fórmula primitiva, assombrada pelo medo e pelo desconhecimento. Adoram uma divindade chamada Somni, temem os ataques canibais dos Kona e tanto mais as tentações diabólicas do Old Georgie. O poder tecnológico de outrora está na posse, apenas, dos prescientes, uma elite avançada mas igualmente condenada que não vive por ali. É neste contexto que Zachry (mais uma inesquecível interpretação de Tom Hanks) tenta ajudar a presciente Meronym a enviar um aviso para as colónias fora do planeta, através de um emissor escondido na ilha, para que os resgatem de uma doença que entre os Homens se alastra sem salvação. Zachry assiste ao vídeo de Somni.

Our lives are not our own. From womb to tomb, we are bound to others. Past and present. And by each crime and every kindness, we birth our future.
Sonmi-451

Quanto ao karma e às reencarnações, há almas que evoluem, outras que nem tanto. Como diria o general Maximus de Gladiador, tão a propósito: what we do in life echoes in eternity. Há almas como a das variadíssimas e memoráveis personagens de Hugo Weaving que oscilam entre o Mal e o Mal. De traficante de escravos a nazi, a assassino, a enfermeira cruel, a membro do sistema totalitário, a personaficação imaginada do diabo. As personagens de Hugh Grant também não devem muito ao Bem, ou não terminasse o ator como líder de uma tribo canibal. Depois temos personagens como as de Tom Hanks, cuja alma evolui claramente, ou como as almas femininas das personagens de Halle Berry ou Doona Bae, que evoluem no sentido da afirmação. A alma das personagens de Jim Sturgess, por exemplo, contribui decisivamente para a transformação da existência futura numa existência melhor.

Belief, like fear or love, is a force to be understood as we understand the Theory of Relativity and Principles of Uncertainty: phenomenon that determine the course of our lives. Yesterday, my life was headed in one direction. Today, it is headed in another. Yesterday I believed that I would never have done what I did today. These forces that often remake time and space, that can shape and alter who we imagine ourselves to be, begin long before we are born and continue after we perish. Our lives and our choices, like quantum trajectories, are understood moment to moment. At each point of intersection, each encounter suggests a new potential direction.
Isaac Sachs

É impossível prever o curso do futuro. David Mitchell diz:

Souls cross ages like clouds cross skies, an' tho' a cloud's shape nor hue nor size don't stay the same, it's still a cloud an' so is a soul. Who can say where the cloud's blowed from or who the soul'll be 'morrow? 

Não obstante, encontramos tamanha carga significante no mistério. No epílogo como no prólogo, Zachry conta aos espetadores e às gerações futuras as muitas histórias de Cloud Atlas (vislumbrou-as num sonho revelador): histórias que, na sua multiplicidade, assumem uma unidade tão inequívoca. Como se houvesse uma continuação, após a vida: o que estabelece naturalmente a ponte com a epígrafe deste texto, palavras proferidas por Somni 451.

Cloud Atlas transcende-se na ousadia e na ambição das suas ideias (é afinal um filme de grande orçamento, independente e arriscado), na beleza impressionante e hipnótica da sua fotografia, música e tremendos efeitos digitais. Tom Tykwer (o mesmo do notável Heaven - Por Amor e de Perfume - História de Um Assassino, realizador das sequências de 1936, 1973 e 2012) e os irmãos Wachowski (os mesmos de Matrix, responsáveis pelos tomos de 1849, 2044 e 2321) em boa hora se uniram para o triunfo da adaptação. Superam-se na condução das histórias, filmando-as de forma absolutamente apaixonada e magnetizante. Mas o que dizer do extraordinário elenco? Cloud Atlas assume-se, também na sua essência, como um soberbo e poderosíssimo filme de atores.

A complexidade narrativa de Cloud Atlas desafia, exige e merece, a cada segundo, um espetador por demais atento e ativo na sua interpretação, mas igualmente disposto a envolver-se emocionalmente na experiência que proporciona. É daqueles filmes-mosaico, estimulantes embora profundamente intrincados, com alguma pretensão à mistura, que nos coloca, abertamente e sem conceder todas as respostas, as questões existenciais suficientes para refletirmos durante horas e horas, ou dias e dias. Provavelmente, duas ou três visualizações da obra não serão suficientes para nos apercebermos de todos os seus detalhes e de toda a sua amplitude.

Cloud Atlas não é, pois, senão um daqueles raros, monumentais e incompreendidos filmes, de alguma forma tocados pela genialidade, aos quais só se fará justiça a seu tempo, no futuro. Tornar-se-á com toda a certeza um filme de culto.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MEIA-NOITE EM PARIS (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Midnight in Paris
Realização: Woody Allen
Principais Actores: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Corey Stoll, Kathy Bates, Léa Seydoux

Crítica:

A IDADE DE OURO

I wanted to escape my present just like you wanted to escape yours. 
To a golden age.

A noite, a rua semi-iluminada de Paris, as badaladas. Num instante, o sonho invade a realidade e um insólito convite abre as portas para a impossível viagem no tempo. Que delicioso escape surrealista, o de poder visitar outras épocas, de poder pisar os locais de antes, de sentir o cheio e a aura de outrora, de conviver com as pessoas e os ídolos de antigamente... com personalidades como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou a mulher Zelda, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Gertrude Stein ou Cole Porter que, no caso de Gil Pender (inesquecível personagem de Owen Wilson, alter-ego de Allen), povoam o imaginário mítico e adorado da Paris dos anos 20. Tornar o passado presente - Past is also present, diz o alucinado Dalí no filme, entre rinocerontes - é um desejo humano secular, mas tão mais um devaneio romântico, de artistas. Woody Allen concretiza essa visão onírica de forma absolutamente magistral, neste que é, por tantos motivos, um dos seus mais virtuosos filmes.

Nostalgia is denial - denial of the painful present... the name for this denial is golden age thinking - the erroneous notion that a different time period is better than the one ones living in - its a flaw in the romantic imagination of those people who find it difficult to cope with the present.  
Frase do pedante (Michael Sheen), que afirma conhecer o passado como se o tivesse vivido.

Há a sensação - comum a todas as gerações - de que a Idade de Ouro sempre foi, nunca será. Para Allen e Pender da atualidade, os boémios anos 20. Para Zelda dos anos 20, a Belle Epoque. Para Gauguin da Belle Epoque, La Renaissance. E assim sucessivamente. No passado é que era! Ó tempo, volta para trás! The present - Yes, the present always seems worse than the past but it can't be - to always think this generation is stupider and coarser than the last. Há sempre uma imensa sede de passado, pois the past is not dead. Actually, it’s not even past, já dizia Faulkner, como bem lembra Gil.

Tal como nós, espetadores, o protagonista ainda estranha o que lhe está a acontecer, inicialmente, mas depressa se rende ao fascínio e à fantasia:

I'm Gil Pender - I was with Hemingway and Picasso - Pablo Picasso - Ernest Hemingway - I'm Gil Pender from Pasadena - the Cub Scouts - I failed freshman English - I'm Gil Pender and my novel is with Gertrude Stein - I once worked at The House of Pies. I'm little Gil Pender. And that girl was so lovely. 

Que interessante seria, ficciona, delira, brinca. É tão engraçado assistir à conversa entre Gil e Buñuel, em que o americano lhe dá a ideia para fazer O Anjo Exterminador, subvertendo a lógica temporal das coisas. É tão engraçado ler, no presente, o diário de Adriana Dupree: I am in love with an American writer I just met named Gil Pender. É tão cómico que o detetive contratado para investigar os misteriosos passeios noturnos de Gil vá parar a uma luxuosa corte real, algures no passado histórico. É no passado que Gil se sente integrado, nunca no presente, incompreendido e mal-amado pela noiva Inez (Rachel McAdams). Na viagem, comparamos ainda cultura, arte e sociedade ao som de Porter, Offenbach, Parisi ou do para sempre associado Bistro Fada de Wrembel.

Não admira que, daqui a décadas, muitos sonhem com a Paris dos inícios do século XXI, cidade-luz que acolheu lendas do cinema como Woody Allen, notáveis atores como Owen Wilson ou Marion Cotillard, na rodagem de Meia-Noite em Paris; cidade que o cineasta tão bem retratou nos minutos iniciais da obra, como num postal ilustrado em movimento.

Que maravilhoso pedaço de cinema: ligeiro, despretensioso, embora pleno de criatividade e de vitalidade. Allen é primoroso na sua mise-en-scène, embora simples como sempre. Escasseiam as dúvidas de que se trata de mais um clássico instantâneo na sua filmografia. Nostálgica e absolutamente mágica, esta brilhante e bem-humurada ode à eterna Paris da arte e do amor.

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Nota especial para o belíssimo poster, que se funde com a arte de Van Gogh.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

NOVA IORQUE FORA DE HORAS (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: After Hours
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom, Tommy Chong, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Catherine O'Hara, Dick Miller, Will Patton, Robert Plunket, Bronson Pinchot, Rocco Sisto, Larry Block, Victor Argo, Murray Moston

Crítica:

UMA NOITE DE PESADELO

I want to live.

O Grito
de Munch volta a Scorsese e, com ele, a memória de Taxi Driver. Volta a cidade e a noite e a cidade na noite. Volta o purgatório, a alma perdida, condenada pela rotina do dia-a-dia, dramatizada e denunciada logo nos primeiros minutos pela ária de Bach.

Terminado mais um dia de trabalho, o desejado escape começa... o protagonista deixar-se-á viver livremente, ao sabor das circunstâncias... aos poucos, crescerão o suspense, a tensão e o mistério. O bizarria dos acontecimentos, cada vez mais insólita e desconcertante, far-nos-á desconfiar da veracidade da experiência. Como que num labirinto interminável de ruas soturnas ou semi-iluminadas, aprisionantes e asfixiantes, ora desertas ora repletas de perseguidores, montar-se-á o pesadelo. Um furo na lógica, dissimulado, marca a passagem do drama - sem jamais abandonar a sátira - à derradeira comédia; e como é brilhante, Scorsese, na comédia. Mestre da câmera, aliado à determinante fotografia de Michael Ballhaus e à elevada eficácia narrativa da montagem de Thelma Schoonmaker, flui um dos mais imprevisíveis e inesquecíveis argumentos com que nos podemos cruzar.

After Hours é absolutamente magnetizante.


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Nota especial para o poster, acima apresentado, ajustadíssimo e representativo quanto baste da essência do filme.

domingo, 18 de agosto de 2013

A VIDA É UM ROMANCE (1983)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: La Vie Est Un Roman
Realização: Alain Resnais
Principais Actores: Vittorio Gassman, Ruggero Raimondi, Geraldine Chaplin, Fanny Ardant, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Robert Manuel, Martine Kelly, Samson Fainsilber, Véronique Silver, André Dussollier, Guillaume Boisseau, Sabine Thomas, Bernard-Pierre Donnadieu, Rodolphe Schacher

Crítica:

O TEMPLO DA FELICIDADE

Ça, ce n'est pas de l'architecture, c'est de la pâtisserie.

Se há coisa que o cinema de Resnais é e representa é a liberdade. A Vida É Um Romance é, por isso, mais um devaneio criativo, em estado bruto, no seu percurso.

Uma ode à imaginação sem limites, que cruza os mais variados géneros e registos numa narrativa multifacetada e dificilmente acessível: um só espaço (o onírico castelo na floresta de Ardennes, o templo) e três tempos diegéticos: a viagem ao passado (em 1914 e depois na década de 20, quando o edifício é palco para a mais utópica e hedionda experiência de humanidade, o recomeço, o renascimento), o presente (década de 80, quando o castelo, feito colégio, é local para debater e filosofar a educação da sociedade) e ainda um tempo indeterminado mas aparentemente medieval - seguramente fantástico - onde o cenário é pontuado por ilustrações e sonhado por crianças. Reina, em cada um deles, a estranheza e a incompreensão no ensaio da vida. Da mistura dos três jamais poderia resultar, pois, um filme que não fosse alucinado quanto baste, mas aberto às mais variadas interpretações, tanto estéticas como temáticas. Sabine Azéma, Geraldine Chaplin e Vittorio Gassman destacam-se, pelas suas interpretações, deste excêntrico e desconcertante festival artístico.

Poderá a vida ser perfeita? O título lança a discussão e o filme em si alimenta o quebra-cabeças. É preciso ser adulto para querer compreender o filme, mas é essencial vê-lo com olhos de criança para poder entendê-lo ou, quando menos, para poder aceitá-lo. É por isso que assistir a A Vida É Um Romance, assim como a outros de Resnais, pode resultar numa experiência tão frustrante quanto fascinante. Se a felicidade é uma fantasia, então só as crianças entram no castelo; só elas detêm a chave da inocência. A fortaleza dos adultos está, irreversivelmente, arruinada. A utopia está no templo, que só é possível em maquetes. O regresso ao castelo é apenas possível pela imaginação. Neste sentido, a felicidade só é alcançável se vivermos a vida como se fosse um romance, como se fosse um pedaço de arte. De outro modo, a felicidade não existe e a vida não tem significado.

sábado, 17 de agosto de 2013

SHUTTER ISLAND (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora

Crítica:

A ILHA MISTERIOSA

You'll never leave this island.

Dissertar - em cinema - sobre a loucura, faz-me invocar, instantaneamente, aquele clássico magistral de 75, protagonizado pelo genial Jack Nicholson, Voando Sobre Um Ninho de Cucos. Naquele hospício imoral, delineava-se uma linha bastante ténue entre a saúde e a demência mentais. Ser louco poderia significar coisas distintas, consoante o juiz, e a facilidade com que se sentenciava a loucura de alguém apresentava-se-nos como algo de verdadeiramente assustador. Pois bem, este inquietante objecto fílmico de Martin Scorsese segue a mesma premissa; transportando-a, porém, para um ambiente kafkiano, muito mais tenebroso e sinistro, e servindo-se do suspense como principal condutor da narrativa.

O argumento de Laeta Kalogridis, a partir do romance homónimo de Dennis Lehane, equilibra-se, labriríntico e intrincado, sobre a ambiguidade: terá reais fundamentos a investigação do U.S. marshal Teddy Daniels, sobre a conspiração secreta que submete os pacientes do remoto hospital a inovadoras, dolorosas e desumanas experiências científicas, ou será ele próprio um louco paranóico, como tantos outros dos edifícios A, B e C, vivendo num mundo inventado à sua medida? O condão maior tanto do argumento como da realização é o de confundir habilmente o espectador, dificultando-lhe o acesso à verdade e colocando-o na pele do protagonista, dividido entre a sua razão e a razão dos outros.

Os sonantes acordes da banda sonora (Mahler, Ligeti, Ingram Marshall, Penderecki, entre tantos outros) potenciam, de imediato, a atmosfera de terror, assim como o esplendor enigmático da fotografia (Robert Richardson). Os flashbacks, sejam eles sonhos, alucinações ou recordações, alimentam o mistério, adensam a complexidade da história nas suas múltiplas possibilidades. Às tantas, todavia, só dois caminhos se nos restam possíveis e a imprevisibilidade desvanece-se. A conclusão do enredo não é a mais surpreendente e original, mas o filme revela-se sólida e arrojadamente construído e muito bem escrito.

A interpretação de Leonardo DiCaprio é absolutamente magnetizante. O extraordinário talento do actor envolve-nos do princípio ao fim, em perfeita sintonia com as portentosas prestações de Ben Kingsley, Patricia Clarckson, Jackie Earle Haley, Max von Sydow ou Michelle Williams. Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo garantem a qualidade irretocável da direcção artística, Sandy Powell assina o figurino e Thelma Schoonmaker trabalha a montagem do filme, conferindo-lhe uma fluidez assinalável.

Shutter Island afirma-se, pois, como um exercício tecnicamente sofisticado, ao qual se lhe alia uma arte de filmar virtuosa e que transpira maturidade. Um pedaço de cinema brilhante e, no fim de contas, extremamente prazeroso de se assistir.

Which would be worse, to live as a monster,
or to die as a good man?

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões