domingo, 1 de janeiro de 2012

AVATAR (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Avatar
Realização: James Cameron

Principais Actores: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Joel Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez

Crítica:

O UNIVERSO MÁGICO DE PANDORA:
ENTRE A FERTILIDADE E A ESTERILIDADE

Everything is backwards now,
like out there is the true world, and in here is the dream.

O fenómeno global Avatar é compreensível à luz da inovação e dos avanços tecnológicos que desde cedo estiveram anunciados a este regresso do visionário James Cameron, doze anos após o arrebatador Titanic. Compreensível, na medida em que as massas deliram por experiências espectaculares e alucinantes, que as transportem imediatamente para realidades alternativas, tantas vezes fantasiosas, como é o caso.

Neste sentido, importa tratar a relevância do 3D. De qualquer modo, importaria sempre que a tratássemos, uma vez que Avatar é sinónimo de 3D: é, desde a sua raiz, uma tentativa de deslumbramento contínuo. De certa forma, esse objectivo é atingido e o filme revela-se pioneiro. O efeito do 3D, por mais atordoante que seja (e, pelo que entendi, esta consequência secundária varia bastante, consoante a predisposição, hábito ou preconceito do espectador), mostra-se não só surpreendente como impressionante, na forma como se co-relaciona com os nossos sentidos e com a nossa percepção. Parece-me, contudo e francamente, que o deslumbramento se alheou da importância nuclear da narrativa, o que é lamentável. Assim sendo, aquilo que poderia funcionar como um elemento complementar para a qualidade da obra, resume-se a um acessório cujos resultados são sensorialmente estimulantes e aparatosos mas sem maior papel narrativo.

Depois, claramente, importa tratar o filme a dois níveis, absolutamente dissociáveis: a real filmmaking e a motion capture. Sublinho absolutamente dissociáveis uma vez que não julgo perfeitamente conseguida a combinação das duas formas de fazer cinema; sim, mais do que duas técnicas, são duas formas distintas de fazer cinema, com linguagens e implicações completamente diferentes.

Avatar
inicia a sua estrutura episódica, unificada por uma narração mais ou menos eficaz, com a real filmmaking. O digital interfere na fotografia, mas é um mero complemento. E, neste campo, Cameron jamais se revela especialmente inspirado no enquadramento e no movimento da câmera. Até penetrarmos na vegetação abundante de Pandora - onde a motion capture e os efeitos digitais assumem a totalidade da moldura - aquilo a que assistimos é banalíssimo: cenários, fotografia e mise-en-scène iguais aos de outros tantos blockbusters norte-americanos, onde personagens sem dimensão vagueiam pelo set enquanto a voz off se faz ouvir. Cá para mim, uma obra extraordinária e sublime faz-se do primeiro ao último shot, do primeiro ao último frame. Pois bem, a postura de Cameron em tudo aquilo que se confunde ou não com o marketing ligado ao produto, é a de quem se preparava para apresentar não só o filme mais caro de sempre como uma obra-prima única, onde cada dólar gasto valeu a pena. Basta ficarmo-nos pelos primeiros minutos de Avatar para constatarmos que não estamos perante uma obra-prima e os indícios de que se trata de uma obra desequilibrada não tardarão a fazer notar-se.

Onde Cameron brilha - incontestavelmente - é na projecção imaginada de todo aquele universo exótico e alienígena. A direcção artística é não só prodigiosa como verdadeiramente sumptuosa e minuciosa na criação de Pandora e dos Na'vi. A exuberância e a diversidade da vegetação e da fauna originam visões mágicas, plantas multiformes e animais incríveis! A paisagem é de cortar a respiração... as montanhas suspensas são de uma beleza inebriante... e, quando a noite cai, o esplendor da bioluminescência e a extrema sensibilidade de todo aquele meio ambiente concretizam uma fabulosa e colorida dimensão onírica; identificam-se, facilmente, as formas e as influências do universo submarino que Cameron tão bem conhece. Estupendos, os efeitos digitais. Que fertilidade abundou, durante todo este processo criativo. A acção das batalhas é pujante e Cameron revela total mestria na matéria.

Agora, sejamos frontais: quando postas lado a lado, ou em diálogo - falo da real filmmaking e do pacto entre a motion capture e a criação digital - sobressai um desfasamento evidente e que não parece natural, por mais mérito que o detalhe da recriação digital mereça. Quando colocadas lado a lado, em ponto de igualdade, o universo de Pandora apresenta-se-nos artificial. O universo de Pandora, por mais que tente ser foto-realístico, está condenado à fronteira entre o real e a animação. E cá para mim, pende claramente para a animação. Afinal, quando o digital impera sobre o real, só podemos pisar o campo da animação. Avatar tem, pois, uma natureza híbrida e recusa-se a assumi-la: às tantas, estamos a assistir a um filme de animação e Avatar recusa essa categorização, a meu ver óbvia e legítima. Quer fazer-nos crer que tudo aquilo é real - percebo e compreendo esse desejo - mas Pandora não é real nem parece tão real quanto se pretendia. Isso condena qualquer hipótese de verossimilhança, essencial para que um filme de fantasia funcione. Deste modo, Avatar representa um grande avanço técnico, mas não basta para se afirmar como um clássico do género.

Se há esterilidade em Avatar - e há muita, lamentavelmente - essa faz-se notar mais nitidamente nas performances dos actores e no argumento. Quanto aos actores - sempre que os temos - não há uma única personagem que seja digna de nota. Custa a crer, mas nem uma é modelada ou tem profundidade. Se não temos, desde logo, boas personagens, como poderia a história vingar? E chegamos ao argumento. De Danças com Lobos a Pocahontas, as referências ou paráfrases são mais do que conhecidas. Em boa verdade, a história de Avatar não é nada que já não tenhamos visto. Da história pedia-se muito mais, do argumento pedia-se muito mais também: entendo que a narrativa não respira, não há silêncios nem pausas, os episódios sucedem-se sem tempo para amadurecer as linhas de sentido e com tamanha previsibilidade. A forma como a história é contada dá ênfase ao deslumbramento visual e às sequências de acção, estendendo a duração do filme e não privilegiando propriamente a história. Não há, diga-se de passagem, um único diálogo memorável. Já piadas brejeiras, há inúmeras. Para além do mais, o planeta e a cultura Na'vi têm tanto potencial e tanto por onde explorar e, no entanto, fica-nos apenas uma amostra luminosa e pirotécnica inconfundível, sem grande substância... A única substância é a pertinente mensagem ecológica. Mas até que ponto é que o ritmo e as prioridades do filme não a abafam? Às tantas, mais parece que a mensagem ecológica lá está para limpar a natureza comercial da obra. A banda sonora de James Horner tem os seus momentos altos, mas quantas vezes não nos vêm à memória os temas de Titanic ou de Tróia. De As Quatro Penas Brancas há inclusivé reciclagem. Enfim... cessem as lamentações.

Continuo a pensar que Avatar é o esboço daquela que poderia ter sido uma obra extraordinária. Perdeu-se na ambição. Há quem diga que Avatar é um excelente produto de entretenimento. Entre algum aborrecimento constrangedor, poder-se-á dizer que assegura um entretenimento fora do comum. No fim de contas, entre a fertilidade e a esterilidade... penso que a esterilidade levou a melhor. Conquistou-me a sua fantástica proposta conceptual. Mas de James Cameron esperava mais.

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A crítica resulta, inclusivé, da visualização das versões alargadas do filme.
CINEROAD ©2017 de Roberto Simões