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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

OLIVER! (1968)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM

Título Original: Oliver!
Realização: Carol Reed
Principais Actores: Ron Moody, Shani Wallis, Oliver Reed, Harry Secombe, Mark Lester, Jack Wild, Hugh Griffith, Joseph O'Conor, Peggy Mount, Leonard Rossiter, Hylda Baker, Kenneth Cranham, Megs Jenkins 

Crítica:

A FANFARRA DAS RUAS 

The living proof that crime can pay!

Oliver Twist, o clássico literário de Charles Dickens, teve e continuará a ter adaptações cinematográficas para todos os gostos, sejam elas anteriores ou posteriores a este magnífico Oliver!, de Carol Reed. Não só as versões se multiplicam como as influências e referências nos mais variados filmes e séries e até na cultura mundial, em geral. Cingindo-me ao cinema mais recente e só para citar alguns exemplos, Polanski teve a sua versão em 2005, Scorsese foi lá beber inspiração em 2012 para o seu excelso Hugo e Joe Wright em 2015 para o seu bem-intencionado Pan. 1968 foi, sem dúvida, um ano de grandes filmes - foi o ano de Aconteceu no Oeste, de Planeta dos Macacos e de, sobre todos, 2001: Odisseia no Espaço. Este Oliver!, de 68, rapidamente atingiu a graça popular e o sucesso da crítica. É a minha versão preferida e a que me ocorre, sempre que se fala em Oliver Twist. E não é por acaso.

A denominada era de ouro dos musicais terá atingido o seu auge com o genial Serenata à Chuva, de Gene Kelly, em 1952 - na minha opinião, o musical por excelência e uma das maiores obras-primas da História do Cinema. Ainda assim, julgo que cada década dá o seu precioso contributo para o género e os anos sessenta do século XX não foram excepção. Tiveram West Side Story, tiveram Os Guarda-Chuvas de Cherburgo, na nouvelle vague. E tiveram outros musicais incríveis e por demais  espirituosos, plenos de magia ou sentimentalismo - como Mary Poppins de 64 e Música no Coração de 65. Oliver! pertence, inequivocamente, à família destes últimos, daqueles que reconfortam o coração e apaixonam gerações, da mais tenra idade aos mais velhos. Por mais detractores de musicais que possam existir, jamais poderão rivalizar com a qualidade retumbante de uma produção tão sólida como a deste filme de Reed.

Oliver! parte com a ligeireza de uma fanfarra pelas ruas de Londres, entre rufos e tambores, à qual depressa se juntam talhantes, lavadeiras, peixeiras e moços de frete, floristas e limpa-chaminés. Às tantas, gira o carousel e instala-se uma autêntica feira popular, cheia de dança, vida e cor. O retrato de um tempo por entre um desfile esmerado, excepcionalmente bem coreografado (Onna White), de vestes variadas e acessórios enriquecedores (Phyllis Dalton), por entre ruelas impecavelmente construídas (extraordinária produção artística de John Box, Terence Marsh, Vernon Dixon e Ken Muggleston): a populaça, entre o comércio efervescente, os miseráveis e os finórios e as maravilhas da Revolução Industrial. A cena maior desta fervorosa criação é, claro, a crescente arruaça ao som da alegre, sonante e por demais contagiante Consider Yourself. A música, como a imundície, brota a cada instante, desde os corais mais enérgicos como Who Will Buy? ou Oom-Pah Pah aos solos mais tocantes e introspectivos como Where is Love ou As Long As He Needs Me. Os temas de Lionel Bart (aqui sob a condução de Johnny Green), como o filme, impõem-se eternos. Assim como a assombrosa interpretação de Ron Moody como o caricato Fagin, à frente de números e canções absolutamente memoráveis como You've Got to Pick a Pocket Or Two ou Reviewing the Situation. A cena final de Fagin e do Trapaceiro Astuto (talentosíssimo Jack Wild) é, provavelmente, uma das mais belas cenas de saída de personagens de que há memória.

Há tempo e espaço para o humor, para a maravilha e para a lágrima. Oliver! romanceia mas também é franco quando tem que ser, sem pudores de super-proteger o seu público infantil. Não esconde a violência, a dureza e a crueldade das situações e das pessoas. Há os maus e os bons, os maus que são mesmo maus (como o Bill Sikes de Oliver Reed ou o Sr. Bumble de Harry Secombe), os maus que agem mal mas que se revelam bons (como o bull terrier de Sikes), os maus que são bons sem nunca deixarem de ser maus, como Fagin, e os bons que agem mal mas que se revelam sobretudo bons (como a Nancy de Shani Wallis). Mark Lester é bonito, querido e cumpre bem o seu papel do órfão mais conhecido do mundo. Mas o seu Oliver não é mais protagonista do que este fabuloso colectivo de personagens.

Oliver! é, pois, um musical de grandes personagens e de grandes interpretações. Uma história de poderosíssimas emoções, com poderosíssimos temas musicais. Brilha a encenação e sobriedade na arte de filmar. A fotografia é, no cúmulo, um portento visual. Não há como não estarmos perante um grande, grande filme. Não sei como não o vi mais cedo. Este vai ser para fazer bis, uma e outra vez.

Oom-pah-pah! Oom-pah-pah!
That's how it goes...
Oom-pah-pah! Oom-pah-pah! 
Ev'ryone knows!

sábado, 5 de agosto de 2017

MAMMA MIA! (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Mamma Mia!
Realização: Phyllida Lloyd
Principais Actores: Meryl Streep, Amanda Seyfried, Stellan Skarsgård, Pierce Brosnan, Colin Firth, Julie Walters, Christine Baranski, Dominic Cooper, Myra McFadyen, Niall Buggy

Crítica:


You can dance, you can jive, having the time of your life...

A ILHA DE AFRODITE 

See that girl, watch that scene, diggin' the dancing queen!

Leve, descontraído, descomplexado, despretensioso e, por isso mesmo, absolutamente irresistível. Assim é Mamma Mia! A cada cena, uma explosão de frescura, de jovialidade. As eternas canções dos ABBA, numa musicalidade orelhuda, nostálgica e contagiante, envolvem-nos e levam-nos, transportam-nos, alheam-nos da nossa realidade. Viajamos para o azul do mar, para a verdejante e solarenga costa grega. Batemos o pé, entregamo-nos ao riso e queremos lá saber do resto. Estamos a divertir-nos, a divertir-nos genuinamente, como poucas vezes a ver um filme. Às tantas, damos por nós a cantar e a cantar - já conhecemos os temas, fazem parte da nossa vida. Se ainda não fazem, será uma questão de instantes. Camaleónica, a deusa Meryl Streep surpreende como nunca, depois de tantos papéis inesquecíveis, de tantas personagens arrebatadoras. Sem preconceitos, assim se vê o calibre do qual são feitas, tão-somente, as actrizes maiores. Ela canta, dança, salta, chora, emociona, vibra como uma adolescente, demonstrando que a idade é, verdadeiramente, uma questão de espírito. Gravou The Winner Takes It All, na sua cena mais intensa e comovedora, de uma só vez. Benny Andersson, membro dos mítico grupo sueco, chamou-lhe, por isso, um milagre. Não admira.

O elenco é soberbo. Para além da ímpar protagonista, a hilariante Julie Walters (e quando digo hilariante, é hilariante mesmo; é ver para crer) e a mais lírica mas igualmente estouvada Christine Baranski, formam as Donna and The Dynamos!, as amigas cinquentonas e solteironas. Depois, o trio de hipotéticos pais: Pierce Brosnan, Colin Firth e Stellan Skarsgård, outrora risíveis hippies; quem diria. Não se estreando propriamente, é com Mamma Mia! que Amanda Seyfried é catapultada para as luzes da ribalta, com a sua voz de anjo e os seus tão expressivos olhos. O mesmo para Dominic Cooper, que assim alcançou maior reconhecimento. Todos cantam os seus próprios versos, havendo temas para todos brilharem, para todos terem o seu momento. E isso é imprescindível para a solidez narrativa e para a sua dimensionalidade. Até os figurantes cantam, qual coro, arrancando - não raras vezes - as mais incontidas gargalhadas. A cena mais emocionante, para mim, é aquela (ainda no primeiro acto) em que Donna conquista - à rotina mundana - dezenas de seguidoras (mães e mulheres) pela villa fora até ao cais, lembrando que ainda são capazes, que ainda são jovens, que ainda podem ser felizes. É, para o espectador, um misto de sorriso, arrepio e lágrima sentida. É o próprio exemplo, meta-diegético, de Streep. É, pois, inspiracional.

You are the dancing queen!
Young and sweet
Only seventeen!


Guarda-roupa, cenografia e fotografia aliam-se numa paleta de cores quentes, privilegiando os azúis e os púrpuras ao sol e as mais variadas luzes ao luar. Até o visual é festivo, alegre, contribuindo para a good vibe do filme, ou não se tratasse este do denominado feel good movie. Phyllida Lloyd, adaptando o sucesso da Broadway e despojada de purismos desnecessários, entrega a sua acalorada e tão empática visão cinematográfica com as desejadas simplicidade e eficácia; o tremendo êxito comercial do filme, aliás, fala por si. Fez muito money, money money, pois é puro honey, honey. Mamma Mia! tem o condão de encantar espectadores de todas as gerações e de agradar a toda a família. Sempre enérgico, sempre pulsante. Julgo que só um ser profundamente aborrecido possa odiar, verdadeiramente, este filme. Até os créditos finais são de acompanhar até ao fim. Oh, eu assisti este no cinema. E foi tão bom.

You're a teaser, you turn 'em on
Leave 'em burning and then you're gone
Looking out…


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS MISERÁVEIS (2012)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Misérables
Realização: Tom Hooper
Principais Actores: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone

Crítica:

Do you hear the people sing?
Singing a song of angry men?
 
A REVOLUÇÃO DO POVO

It is the music of a people
Who will not be slaves again!


Um musical monumental, absolutamente majestoso - puro e duro na sua essência - como há muito tempo não se via. Assim é Os Miseráveis, de Tom Hooper, a partir do sucesso homónimo dos palcos, por sua vez a partir do célebre romance de Victor Hugo. Não é de espantar que a gente com menos tradição ou cultura do musical o menospreze, subvalorize ou injustice, nomeadamente entre a crítica cinematográfica. Basta aliás consultar o histórico de alguns críticos ou bloggers para, simplesmente, nos esbatermos com a ausência da opinião ou apreciação sobre musicais... Nenhum género é menor e ridicularizar a priori um filme porque os atores cantam em vez de falarem é, mais do que uma questão de gosto, uma questão de falta de cultura. Ponto assente, haverá naturalmente os bons e os maus musicais, como os há - os bons e os maus - em tudo.

Dos tons e cores de Eugéne Delacroix - vem-nos imediatamente à memória o simbólico e imortal La Liberté Guidant Le Peuple - a obra prima pelo arrojo visual. Os verdadeiros quadros vivos pintam-se e deslumbram-nos frame by frame. Proeza irretocável do extraordinário diretor de fotografia Danny Cohen, herança da anterior colaboração com Hooper no igualmente magistral O Discurso do Rei. Sobressaem a matemática ou liberdade de cada enquadramento, como que num ato de júbilo, a plena consonância da palete cromática entre o esmerado guarda-roupa e a pomposa e detalhada (re)criação artística dos cenários (há sets impressionantes!) e, até, entre os demais efeitos digitais, na maior parte das vezes invisíveis ou camuflados. A imagem é tratada, requintada, estilizada ao mais ínfimo detalhe, na expressão máxima da beleza - o que constitui quase uma regra poética, comum a tantos musicais.


Falemos dos atores, desse fabuloso elenco de luxo que, com a intensidade das suas performances, confere ao filme uma profundidade dramática tremenda, à altura da exigência narrativa. Comecemos pelo notável Jean Valjean de Hugh Jackman, já que o filme acompanha o seu sofrido percurso, desde escravo da lei ou prisioneiro 24601 - por ter roubado pão para alimentar a sua sobrinha numa Paris assolada pela miséria - a criminoso procurado e perseguido pelas autoridades, em especial e numa demanda pessoal pelo inspetor Javert, interpretado por Russell Crowe. A busca pelo homem intensifica-se durante todo o filme (por Javert, numa servidão moral inquestionável que se deixará consumir pela dúvida) e a procura pela absolvição aos olhos de Deus também (por Valjean, que esconde a sua identidade para tentar um recomeço, mas que não consegue escapar ao passado). Jackman - já perceberamos que era capaz de grandes interpretações desde o genial The Fountain, de Aronofsky - transfigura-se pelo olhar e pela voz; é evidente a sua expressividade física e vocal, como se arrancasse às entranhas toda a sua força e vitalidade. Já o olhar de Crowe é misterioso e dissimulado e o seu corpo é como que escravo e contradição da sua vontade. É como se a carne desejasse tombar das alturas enquanto a alma, atormentada, reclamasse a imensidão da estrelas. Na cena que encerra o primeiro ato e em que canta Stars, sobre o crepúsculo do dia e os edifícios de Paris, essa ameaça é declarada, cumprindo-se mais tarde. A sua voz não tem o lirismo de outras, mas é cerebral e controlada, bem projetada e afinada, o que o salva da crítica maldosa. Temos depois a singela e desgraçada Fantine de Anne Hathaway, que após vender os dentes, o cabelo e o ventre, no porto da repugnância, arrebata um aplauso unânime com a interpretação sentida e por demais intimista de I Dreamed a Dream. É um close-up estático e sem cortes, de minutos sôfregos e dolorosos, em que sentimos cada respiração, cada lágrima. É uma cena puramente arrepiante. Temos depois a dupla cómica do também miserável mas igualmente sublime Sweeney Todd de Tim Burton, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, aqui um hilariante casal de vigaristas, perfeitos nos seus papéis. Temos ainda as jovens Amanda Seyfried e Samantha Barks, seguras dos seus tons e dinâmicas, a segunda com maior expressividade física que a primeira, e o também jovem Eddie Redmayne, no topo do triângulo amoroso e dono de um timbre belíssimo, com uma entrega incrível... Não é por acaso que Empty Chairs at Empty Tables resulta numa cena completamente comovente, desoladora e memorável. O cast, até nos papéis menores ou figurantes, é portentoso e por demais extenso, destaquemos por fim o idealista de Aaron Tveit ou o genuíno e bem humorado savoir-faire do pequeno Daniel Huttlestone, como corajoso Gavroche.

Tom Hooper, dotado de inspirada gradiloquência épica (da mesma que se perpetua na assombrosa banda sonora), mostra-se mestre das mais variadas formas de filmar para extrair o melhor de cada ator, de cada cenário, em cada plano. Que era excelente diretor de atores, isso já sabiamos desde o seu filme anterior. Cada personagem tem o seu momento, tornando o filme um exemplo de abrangente pluralidade. Não há como não salientar a opção de gravar as performances musicais no exato momento em que as cenas são gravadas, evitando o perfecionismo das habituais dobragens da pós-produção e entregando o musical a um maior realismo e a um maior poder interpretativo, mesmo se com algumas imperfeições. Ou sobretudo por elas.

Da decadência social das ruas às barricadas e à rebelião do povo, não deixando esmorecer a memória da Revolução Francesa, a obra cresce da sátira para a imortalidade ao som do hino Do You Hear the People Sing? Os Miseráveis conquistou a generalidade do público e da crítica e impõe-se como um triunfo da ousadia, ou não fosse um musical operático - puro e duro como comecei por referir - com 158 minutos de duração, de ação imparável, a grande ritmo. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores musicais de que há memória.

domingo, 18 de agosto de 2013

A VIDA É UM ROMANCE (1983)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: La Vie Est Un Roman
Realização: Alain Resnais
Principais Actores: Vittorio Gassman, Ruggero Raimondi, Geraldine Chaplin, Fanny Ardant, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Robert Manuel, Martine Kelly, Samson Fainsilber, Véronique Silver, André Dussollier, Guillaume Boisseau, Sabine Thomas, Bernard-Pierre Donnadieu, Rodolphe Schacher

Crítica:

O TEMPLO DA FELICIDADE

Ça, ce n'est pas de l'architecture, c'est de la pâtisserie.

Se há coisa que o cinema de Resnais é e representa é a liberdade. A Vida É Um Romance é, por isso, mais um devaneio criativo, em estado bruto, no seu percurso.

Uma ode à imaginação sem limites, que cruza os mais variados géneros e registos numa narrativa multifacetada e dificilmente acessível: um só espaço (o onírico castelo na floresta de Ardennes, o templo) e três tempos diegéticos: a viagem ao passado (em 1914 e depois na década de 20, quando o edifício é palco para a mais utópica e hedionda experiência de humanidade, o recomeço, o renascimento), o presente (década de 80, quando o castelo, feito colégio, é local para debater e filosofar a educação da sociedade) e ainda um tempo indeterminado mas aparentemente medieval - seguramente fantástico - onde o cenário é pontuado por ilustrações e sonhado por crianças. Reina, em cada um deles, a estranheza e a incompreensão no ensaio da vida. Da mistura dos três jamais poderia resultar, pois, um filme que não fosse alucinado quanto baste, mas aberto às mais variadas interpretações, tanto estéticas como temáticas. Sabine Azéma, Geraldine Chaplin e Vittorio Gassman destacam-se, pelas suas interpretações, deste excêntrico e desconcertante festival artístico.

Poderá a vida ser perfeita? O título lança a discussão e o filme em si alimenta o quebra-cabeças. É preciso ser adulto para querer compreender o filme, mas é essencial vê-lo com olhos de criança para poder entendê-lo ou, quando menos, para poder aceitá-lo. É por isso que assistir a A Vida É Um Romance, assim como a outros de Resnais, pode resultar numa experiência tão frustrante quanto fascinante. Se a felicidade é uma fantasia, então só as crianças entram no castelo; só elas detêm a chave da inocência. A fortaleza dos adultos está, irreversivelmente, arruinada. A utopia está no templo, que só é possível em maquetes. O regresso ao castelo é apenas possível pela imaginação. Neste sentido, a felicidade só é alcançável se vivermos a vida como se fosse um romance, como se fosse um pedaço de arte. De outro modo, a felicidade não existe e a vida não tem significado.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

UM VIOLINO NO TELHADO (1971)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Fiddler on the Roof
Realização: Norman Jewison
Principais Actores: Topol, Norma Crane, Leonard Frey, Molly Picon, Paul Mann, Rosalind Harris, Michele Marsh, Neva Small, Paul Michael Glaser

Crítica:

UM JUDEU NO TELHADO

I know, I know. We are Your chosen people.
But, once in a while, can't You choose someone else?

Cantam os primeiros pássaros da manhã e o esplendor da aurora abraça os campos da Rússia czarista, no principiar do século XX. Fiddler on the Roof trata de desmontar a metáfora do seu título, assim que o sol nasce. A imagem é por demais poética e servirá na perfeição os intuitos do musical, mas o tema nuclear é a tradição e o quão difícil é, por vezes, equilibrar a vida perante as adversidades, mediando o conservadorismo e os velhos valores com as ideias e os costumes dos novos tempos, sem perder a identidade do povo do qual se faz parte.

Here, in our little village of Anatevka, you might say every one of us is a fiddler on the roof trying to scratch out a pleasant, simple tune without breaking his neck. It isn't easy. You may ask 'Why do we stay up there if it's so dangerous?' Well, we stay because Anatevka is our home. And how do we keep our balance? That I can tell you in one word: tradition! (...) Traditions, traditions. Without our traditions, our lives would be as shaky as... as... as a fiddler on the roof! 
Tevye

Tevye (entrega absoluta e genuína, empática e memorável de Topol, no papel de uma vida) é um leiteiro pobre - judeu como todos quantos habitam a pequena e pacata comunidade local. Tem ao seu lado uma mulher de fibra, que mais parece ser o homem da casa, e cinco filhas solteiras, três delas em idade de casar. Após a contextualização - o hino e a glorificação da tradição, cultura e religião judaica em que consistem as primeiras e contagiantes canções (temas de Jerry Bock e letras de Sheldon Harnick, adaptadas pelo mestre John Williams) e onde nos são apresentados os papéis sociais do papa (que trabalha e alimenta a família), da mama (dona de casa e mãe exemplar), dos filhos (formação religiosa), filhas (formação doméstica) e de personagens-tipo como a casamenteira, o pedinte ou o amado rabino, a acção centrar-se-á nos três pedidos de noivado às filhas mais velhas. 

A primeira filha escapa ao casamento arranjado com o velho e endinheirado carniceiro e casa-se por amor, com o franzino e desgraçado alfaiate, amigo de infância. A segunda, ainda antes de qualquer arranjo, perde-se de amores pelo marxista universitário recém-chegado à cidade, cujos ideais fazem tremer a sabedoria secular. E a terceira, igualmente em nome do amor, foge para casar com um gracioso e charmoso goy - um não-judeu. Pedido a pedido, Tevye, enquanto pai e patriarca, é confrontado com dilemas morais, que o levam a equacionar os prós e os contras de abençoar e permitir tais casamentos. É curiosa a forma como essas cenas são encenadas - Jewison distancia, magicamente, o protagonista do casal em questão e coloca-o a avaliar a situação em conversa aberta com Deus (conversas essas regulares ao longo de toda a obra, seja com Deus ou connosco, espectadores - Tevye é também o nosso guia pela história). Na balança, sempre a tradição, a família e aquilo que é ou não aceitável; no fim de contas, o bom-senso à luz dos tempos, o que é bastante revelador do carácter de Tevye. Na sua meia-idade, não é um fanático intolerante, antes é um homem bondoso e justo, que quer o melhor para os seus. No primeiro caso, even a poor tailor is entitled to some happiness! acaba por ressoar na sua consciência e por levar a melhor. É hilariante, a propósito, a forma que o leiteiro encontra para convencer a mulher de que o alfaiate e não o talhante é o melhor partido para a filha. No segundo caso, também a nova lei do amor acaba por vencer: 

He loves her. Love, it's a new style... On the other hand, our old ways were once new, weren't they?... On the other hand, they decided without parents, without a matchmaker!... On the other hand, did Adam and Eve have a matchmaker?... Well, yes, they did. And it seems these two have the same Matchmaker! 
Tevye

Seria de esperar, portanto, que perante o terceiro pedido de noivado a deliberação fosse favorável. Afinal, Tevye cede uma e outra vez. Mas o inesperado acontece - o pai jamais poderá aceitar o casamento da filha com um não-judeu. Isso iria contra tudo aquilo em que acredita, poria em causa a sua dignidade, a sua fé e toda a sua tradição. Chava insiste e casa com o enamorado, às escondidas, o que significa a tragédia e a ruína interior de Tevye e da sua família - a não-aceitação acarreta uma dor imensa e um afastamento definitivo da filha, que para ele é como se tivesse morrido. Nem sempre a felicidade está sobre a tradição, concluimos. 

How did this tradition get started? I'll tell you!
I don't know. But it's a tradition... and because of our traditions... 
Every one of us knows who he is and what God expects him to do. 
Tevye

No final, fugindo ao anti-semitismo, deixam-se os lares e parte-se novamente de encontro à Terra Prometida, seja ela onde for. We've been waiting all our lives for the Messiah. Wouldn't now be a good time for Him to come? Eis o destino de um povo, profundamente fiel às suas crenças e tradições.

Roger Ebert disse, a respeito: it's become so polished, so packaged (...) that it's become just another pleasant product of American entertainment industrialism*. Não deixo de concordar. Não obstante, é deslumbrante em cada enquadramento (inspirada fotografia de Oswald Morris), a câmera de Jewison passeia pela vila com a maior graciosidade, a banda sonora é magnífica, recheada de grandes canções, Topol magnetiza todas as atenções e apaixona-nos. Os cenários e decoração sustêm a verosimilhança do retrato e envolvemo-nos inteiramente na história, gozando do tão bem-humurado entretenimento das sequências musicais. Fiddler on the Roof é, pois, um caloroso clássico, não só no palco como no cinema, que merece ser apreciado geração após geração.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

NEW YORK, NEW YORK (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: New York, New York
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Place, Georgie Auld, George Memmoli, Dick Miller, Murray Moston, Lenny Gaines, Clarence Clemons, Kathi McGinnis

Crítica:


If I can make it there
I'll make it anywhere
...


AMAR EM NOVA IORQUE

It's up to you
New York, New York!

Entre a vida e o artifício, New York, New York, de Martin Scorsese, é puro espectáculo, puro requinte. É um elogio ao amor sobre a guerra, à cidade que nunca dorme e uma homenagem maior aos musicais de estúdio que, outrora, consagraram Hollywood. Essa aura especial é, aliás, perfeitamente recriada. A obra concretiza - através da tempestuosa relação de Jimmy e Francine Evans - uma autêntica e contínua antologia de inspiradíssimos diálogos e cenas, tantos deles improvisados, absolutamente memoráveis. Scorsese, sempre dotado de elevada sensibilidade estética, conduz a trama com apreço pelos fait-divers e perde-se neles; perde-se no sentido demora-se, maravilhado e encantado. E nós perdemo-nos com ele.
 
O filme é tanto mais do que eles, mas é igualmente compreensível dizer que Roberto DeNiro e Liza Minelli são o filme. Transbordando talento e dedicação, a química entre os dois transcende facilmente a tão pouca convencionalidade do romance.
Jimmy, um saxofonista egoísta e possessivo, machista e conflituoso quanto baste. Francine, uma graciosa cantora, que se deixar seduzir pela lata do fanfarrão. Têm em comum a ambição e a música. Amam-se, mas são incompatíveis - isso percebe-se logo desde o início. A espaços, lembramos Minnie and Moskowitz, de Cassavetes, e a sua improvável e atribulada relação. No final, a sós, cada um encontra o sucesso profissional e os sonhos de ambos tornam-se realidade. É incrível como apenas separados, à distância, conseguem triunfar. Os opostos atraem-se, mas destroem-se mutuamente. Nem um filho os consegue unir.


O tema New York, New York - que o filme (e mais tarde Frank Sinatra) eternizou - cresce ao ritmo da sua relação, dos créditos iniciais ao grande desfecho. Minneli interpreta vorazmente outros tantos temas poderosos ou essencialmente espirituosos: There Goes the Ball Game, The Man I Love, mas sobretudo But the World Goes 'Round. A excelência da música é comum aos mais variados departamentos técnicos: László Kovács, à frente da direcção de fotografia, capta a atmosfera da noite nova-iorquina e dos bares onde flui o jazz e o blues, fundindo habilmente as cores, os brilhos e as luzes. A direcção de figurinos (Theadora Van Runkle) e a artística (Boris Leven, Harry Kemm, Robert De Veste e Ruby R. Levitt) esmeram-se claramente no mesmo sentido, em cada decór, dos interiores aos exteriores fabricados e aos esplendorosos palcos da Broadway; gloriosa, a recuperada sequência Happy Endings, onde Minneli e figurantes cintilam vermelhos no mais excêntrico guarda-roupa.


Um filme em tudo magistral, negligenciado pelo público e pela crítica aquando da estreia, mas merecidamente distinguido entre os melhores, à medida que o tempo lhe faz justiça.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

O REI LEÃO (1994)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Lion King
Realização: Roger Allers e Rob Minkoff
Filme de Animação


Crítica:

HAKUNA MATATA
E O CICLO DA VIDA

Nants ingonyama bagithi baba... Sithi uhhmm ingonyama. Um reino de vida abre, na glória do amanhecer, uma das mais poderosas e emocionantes histórias da Disney e de toda a história do cinema de animação: girafas, elefantes, zebras, macacos, rinocerontes, chitas, antílopes e aves exóticas, a diversidade da savana, da fauna e da flora, cascatas deslumbrantes, montes nevados, extensas pradarias, a magnificência do sol e dos céus, a majestade da Natureza, o fulgor pulsante de África. Todos se encaminham para o rochedo real: no cimo do trono imponente, Mufasa, o Rei da Selva. Rafiki, o místico babuíno, eleva o primogénito ao infinito e anuncia: Simba, o próximo Rei Leão: A king's time as ruler rises and falls like the sun. One day, Simba, the sun will set on my time here, and will rise with you as the new king.

Anos passados, aliciado por Scar (o tio invejoso, cruel e traidor) e escapando à supervisão de Zazu (o mordomo abelhudo, ou o Sr. Bico de Bananas, como gosta de lhe chamar) Simba distancia-se do reino, para lá do planalto e na fronteira a norte, entrando no assustador, arrepiante e proibido Cemitério dos Elefantes. Faz-se acompanhar por Nala, achando-se a vedeta maior, I Just Can't Wait to Be King, I laugh in the face of danger, mas a aventura dá mesmo lugar ao perigo, rapidamente: as hienas, fedorentas, estúpidas e sarnentas, encurralam-nos aos dois, perpetuando os seus risos intermináveis pela imensidão do ermo. Tremenda irresponsabilidade, desobedecer ao pai e comprometer, assim, a sua vida e a da amiga. Ainda que Musafa apareça e solucione os sarilhos das crias, virá o dia em que a tragédia se abaterá sobre a família, irremediavelmente. Scar preparará uma cilada fatal, de modo a aniquilar o irmão e o sobrinho e a assumir finalmente o trono.

A eloquência do argumento (Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton) conflui perfeitamente a comédia, o drama, a tragédia, conferindo à narrativa uma graça refrescante, um sentimento forte e redentor e uma sumptuosidade bíblica e shakesperiana; afinal, a história de Simba encontrou inspiração em Hamlet e Moisés e nos seus arquétipos icónicos, mitológicos e de tradição. A morte de Musafa, pai de Simba - profundamente marcante - está para as mais recentes gerações como a perda da mãe de Bambi para as gerações que, desde 1942, descobrem o esplendor eterno desse outro clássico. O Rei Leão impõe-se, pois, como uma obra de valores intemporais, como o amor, a responsabilidade, a morte, a adaptação e a família e ainda como uma importante ode à Natureza e ao equilíbrio fundamental de todas as coisas:

Mufasa: Everything you see exists together in a delicate balance. As king, you need to understand that balance and respect all the creatures, from the crawling ant to the leaping antelope.
Simba: But, Dad, don't we eat the antelope?
Mufasa: Yes, Simba, but let me explain. When we die, our bodies become the grass, and the antelope eat the grass. And so we are all connnected in the great Circle of Life.

Magistralmente realizado, O Rei Leão presenteia-nos, para além de tudo o mais, com uma das duplas mais hilariantes e memoráveis de sempre: Timon e Pumba, o primeiro um suricata fala-barato, o segundo um javali bem ventoso - absolutamente descomprometidos, vivem a vida segundo o lema hakuna matata, a frase da língua suaíli que significa sem problemas. Serão ambos os melhores amigos de Simba (aquando do seu exílio no desconhecido) e os mentores de um sensato leão adulto, consciente do equilíbrio pelo qual deverá zelar, da fugacidade da vida, (digna de ser aproveitada a cada momento com um sorriso) e do destino que deverá enfrentar e honrar.

Irradiando uma beleza transcendente e inconfundível (a excelência do traço e da pintura constitui, por si só, um trabalho monumental) e dotado de uma composição musical verdadeiramente assombrosa e poderosa, igualmente plena em ritmos quentes e divertidos (banda sonora de Hans Zimmer, temas de Elton John e letras de Tim Rice), O Rei Leão figurará, na sublimidade que lhe é de direito, entre os melhores Clássicos Disney de que há e haverá memória.

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O FANTASMA DA ÓPERA (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Phantom of the Opera
Realização: Joel Schumacher

Principais Actores: Gerard Butler, Emmy Rossum, Patrick Wilson, Alan Cumming, Minnie Driver, Miranda Richardson, Ciaran Hinds, Simon Callow, James Fleet, Victor McGuire, Jennifer Ellison

Crítica:

A BELA E O MONSTRO

Masquerade! Every face a different shade.
Masquerade! Look around, there's another mask behind you!

O Fantasma da Ópera, a versão cinematográfica do musical mais aplaudido de sempre, genialmente recriado por Andrew Lloyd Webber a partir do pequeno conto de Gaston Leroux, é uma obra de requintada beleza, de majestosos e imponentes cenários. Toda a direcção artística é exímia na exaltação da excelência (Anthony Pratt, Celia Bobak). É um desfile faustoso e luxuoso, de ricos, elegantes e opulentos figurinos (Alexandra Byrne). É como um postal ilustrado, esplendorosamente vivo a preto e branco ou a cores, magnificamente fotografado e iluminado pelo mestre John Mathieson. Os eruditos temas musicais, originais do compositor, emanam amor, ódio e tragédia, assim como dão conta, tão poeticamente, as melódicas letras de Charles Hart. No meio de tantas e tão graciosas qualidades e virtudes, pouco faltou para eternizar este O Fantasma da Ópera, de um candor mágico e profundamente romântico, como um verdadeiro e triunfal clássico absoluto.

Night-time sharpens, heightens each sensation...
Darkness stirs and wakes imagination...
Silently the senses abandon thier defences...

Slowly, gently night unfurls its splendour...
Grasp it, sense it - tremulous and tender...
Turn your face away from the garish light of day,
turn your thoughts away from cold, unfeeling light
and listen to the music of the night...

Close your eyes and surrender to your darkest dreams!
Purge your thoughts of the life you knew before!
Close your eyes, let your spirit start to soar!
And you'll live as you've never lived before...

Toca o macaquinho de corda a sua música triste e lembramos, imediatamente, a solidão daquela alma abandonada às atracções do circo, à humilhação da troça e do riso. O Filho do Diabo, vendiam-no. Condenado a uma existência fantasmagórica, o rapaz refugiou-se nos labirínticos e misteriosos calabouços do teatro parisiense, entre ratos, teias e esgotos. Cresceu um génio: um compositor, um arquitecto, um ilusionista, um louco. Anos mais tarde, o Fantasma (Gerard Butler) foi o mestre de Christine (Emmy Rossum), desde os tempos em que pequena ficou órfã e entregue à trupe residente de artistas. Ao escutar-lhe a voz paternal, Christine sempre o imaginou como um guia ou como a alma do pai, que jamais a teria abandonado.

Your/My spirit and my/your voice in one combined
The Phantom of the Opera is there...
Inside my/your mind...

A escuridão do Inferno alimentou um homem autoritário e caprichoso, possessivo e obsessivo nas suas ilusões de amor. A sua paixão por Christine não é igualmente correspondida e quando surge o novo patron da Opera, o jovem e atraente Vicomte Raoul de Chagny (Patrick Wilson), formula-se um triângulo amoroso que poderá conduzir o destino do teatro às mais trágicas consequências.

Past the point of no return
No going back now.

Pouco faltou para eternizar este O Fantasma da Ópera, de um candor mágico e profundamente romântico, como um verdadeiro e triunfal clássico absoluto, dizia inicialmente. Nem me refiro tanto à realização (é claro que um Scorsese na realização, por exemplo, faria toda a diferença). Penso que Joel Schumacher, intimamente aliado à visão de Lloyd Webber, esteve à altura do seu papel. Há sequências extremamente bem filmadas e conseguidas, como aquela primeira transição do preto e branco para a cor, em que o grandioso lustre retorna ao etéreo tecto do teatro e voltamos à fascinante Opera Populaire de 1870, ou aquela sonante e emocionante Music of the Night sobre o nevado telhado do edifício, antecedendo o primeiro beijo, ou aquele extraordinário e dourado Baile de Máscaras, que enche o olho e o ecrã de exuberância e espectáculo, ou mesmo aquele lirismo gótico da cena no cemitério.

Refiro-me, claro está, às escolhas do elenco. Para um musical funcionar em pleno, no apogeu da sua graça, não basta saber cantar lindamente. É preciso saber representar, por forma a conferir força, emotividade e, quando muito, autenticidade à narrativa. Neste O Fantasma da Ópera acontece que temos, numa mão, um elenco secundário extremamente convincente e apaixonante (Miranda Richardson, eterna conhecedora dos segredos do fantasma, Ciarán Hinds e Simon Callow, como a nova dupla de proprietários do teatro, Kevin McNally como técnico alcoolizado e sobretudo a inesquecível Minnie Driver como a hilariante e tempestiva prima dona La Carlotta; curiosamente, a única que não cantou verdadeiramente no filme) e, noutra, um elenco principal impensável: Patrick Wilson não está brilhante, mas ainda assim representa, agora Gerard Butler e Emmy Rossum... Emmy Rossum, quando canta, esquece-se de representar, simplesmente. Pedia-se mais do que uma voz e de que um rosto angelicais. E Butler pouco mais ou menos, rasgando as melodias com agressividade, perturbando a sublime harmonia das composições de Webber. Que escolhas lamentáveis, que pena. Tivesse o casting encontrado o casal ideal e que extraordinário filme teria sido este O Fantasma da Ópera. Ainda assim, que musical deslumbrante.

Masquerade... paper faces on parade. Masquerade...

hide your face, so the world will never find you...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ALL THAT JAZZ - O ESPECTÁCULO VAI COMEÇAR (1979)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: All That Jazz
Realização
: Bob Fosse

Principais Actores: Roy Scheider, Jessica Lange, Leland Palmer, Ann Reinking, Cliff Gorman, Ben Vereen, Erzsebet Foldi, Michael Tolan, Max Wright, William LeMassena, Irene Kane, Deborah Geffner, Kathryn Doby, Anthony Holland, Robert Hitt, David Margulies, Sue Paul, Keith Gordon, Frankie Man, Alan Heim, John Lithgow

Crítica:

O ÚLTIMO ENSAIO
It's show time, folks!

Antes da morte, o adeus. O adeus sob a forma de vida. All That Jazz - O Espectáculo Vai Começar não é senão o 8 1/2 de Bob Fosse. Entre a comédia e a tragédia, flui a audácia e a extravagância, a complexidade na leitura e a concretização de uma narrativa nada convencional. As sequências musicais intensificam-se, entre o cinema e o teatro, entre o palco e o hospital, entre o sonho e a realidade e a auto-consciência ficcional da obra. A extraordinária montagem de Alan Heim coreografa e determina as próprias cadências do filme, conferindo-lhe um ritmo contagiante. As repetições, nomeadamente, marcam as transições entre os actos, ao som do Concerto em Sol Maior de Vivaldi. E Lange, como lightspot da beleza feminina, está para Fosse como Cardinale para Fellini. Joe Gideon, por sua vez, surge-nos como o Guido do show business americano.

Gideon (Roy Scheider, numa performance brilhante) é um homem de vícios e de paixões fortes: as mulheres, as anfetaminas, os cigarros e o trabalho. A música e a dança - o suor, os corpos e o movimento -, o delírio da entrega. Os excessos de uma vivência levada ao limite. Genial na profissão, obcecado por sexo e tão instável no percurso pessoal, Joe Gideon, o perfeito alter-ego do próprio Bob Fosse, que aqui assina a realização e as coreografias, e que com o argumento, claro está, desenvolve uma inspirada e ousada semi-autobiografia. Take Off With Us (Air-otica, que erotismo!) e Bye Bye, Life apresentam-se como as sequências mais retumbantes e memoráveis do filme, assim como as alucinações durante a cirurgia do protagonista: After You've Gone, There'll Be Some Changes Made, Who's Sorry Now e Some of these Days. A esmerada direcção artística (Philip Rosenberg, Gary J. Brink e Edward Stewart), aliada à criteriosa iluminação, formulam um requinte visual que ressoa eficazmente no trabalho fotográfico de Giuseppe Rotunno.

No final, não o circo como no clássico italiano de 1963... mas o mais estrondoso espectáculo de que há memória. A despedida, o adeus para sempre...

Eis, pois, efeverscente e refrescante, um inimitável pedaço de cinema. Espectacularmente bem filmado.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MOULIN ROUGE! (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Moulin Rouge!
Realização: Baz Luhrmann

Principais Actores: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Garry McDonald, Jacek Koman, Matthew Whittet, Kerry Walker, Caroline O'Connor, Christine Anu, David Wenham, Kylie Minogue, Ozzy Osbourne, Deobia Oparei

Crítica:

AMOR EM VERMELHO

Come what may, I will love you until my dying day.

O burburinho da plateia. O maestro. As enormes e imponentes cortinas vermelhas, debruadas a ouro. O sinal, o primeiro som - o pano sobe.

Paris, 1900. Surge o postal ilustrado, a preto e branco ou criteriosamente tratado a cores, num esplendor absoluto (Donald McAlpine, num trabalho deslumbrante). Nele, uma cidade boémia, repleta de bêbedos e de prostitutas, de vagabundos e de libertinos, de pintores e de escritores e de... idealistas. The Children of Revolution. A bandeira: Liberdade, Beleza, Verdade e, sobre todas as coisas, o Amor. Love is a many splendored thing. Love lifts us up where we belong. All you need is love! O Amor... a avassaladora paixão que é capaz de enfrentar tudo e todos. Uma certeza - não é fácil fazer mais um filme sobre o Amor. Milhares de filmes trataram o sentimento, banalizando-o completamente. Moulin Rouge!, um filme sobre o Amor? Lamechas, acusá-lo-ão sempre, todos aqueles que não toleram a insaciável fonte dos românticos. Always this ridiculous obsession with love!, gritarão ferozmente, que nem o pai de Christian. A obra de Baz Luhrmann tem a resposta para todos eles: não importa que se conte mais uma história de Amor, ainda para mais bigger than life, como é o caso. O que importa é cantar o Amor e cantá-lo para sempre, uma e outra e outra vez. The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return. O Amor é o grande ideal, eternamente inspirador. And that's a fact.

Vamos à história. There was a boy, a very strange enchanted boy... Christian. Recém-chegado a Paris, não é senão um jovem inocente e cheio de sonhos. Sonha tornar-se um escritor conhecido e apaixonar-se, sonha viver a vida ao máximo. E o destino fá-lo encontrar o Amor, o maior Amor de todos.

Never knew I could feel like this.
Like I've never seen the sky before.
Want to vanish inside your kiss,
every day I'm loving you more and more.

Listen to my heart, can you hear it sing?
Come back to me - and forgive everything!
Seasons may change, winter to spring...
I love you... 'til the end of time.

Porém, quis o destino que o poeta se apaixonasse por uma cortesã, no centro da vida boémia de Paris, no mítico Moulin Rouge. Never fall in love with a woman who sells herself. It always ends bad. (...) We are creatures of the underworld. We can't afford to love. Quis o destino, o mesmo que o elevou da terra ao céu, que a sua história de amor sofresse um desfecho profundamente trágico; desfecho esse, aliás, que nos é desde logo revelado, dolorosamente dactilografado na máquina de escrever:

The Moulin Rouge. A night club, a dance hall and a bordello. Ruled over by Harold Zidler. A kingdom of night time pleasures. Where the rich and powerful came to play with the young and beautiful creatures of the underworld. The most beautiful of these was the one I loved. Satine. A courtesan. She sold her love to men. They called her the "Sparkling Diamond", and she was the star... of the Moulin rouge. The woman I loved is... dead.

A tuberculose, que ainda durante o século XX ceifava vidas como o diabo, a grande responsável pela morte de Satine.

Uma das mais notáveis qualidades de Moulin Rouge! creio ser a multiplicidade de registos que o argumento assume e a facilidade com que transita de uns para os outros, com uma intensidade rasgada em todos eles. Temos momentos de uma tragédia desoladora e, noutro extremo, instantes da mais hilariante comédia. Para assegurar o riso, uma panóplia de personagens secundárias absolutamente memorável: um anão tagarela com um nome que, escrito em altura, sem dúvida rivalizaria com a Torre Eiffel: Henri Marie Raymond Toulouse-Lautrec Montfa. Um argentino de voz grossa, tarado sexual nos tempos livres e narcoléptico a tempo - quase - inteiro e ainda mais uns tantos viciados em absinto que, numa ronda de álcool e cantoria, acabarão sempre por alucinar com a mais sexy das fadinhas verdes: Kylie Minogue, numa participação especial.

Depois das hélices do moinho, o anfitrião é Harold Zidler (Jim Broadbent, numa interpretação genuinamente sublime e brilhante). Dentro da sua afamada sala de negócio, como o próprio diria: we can cancan. Yes we can cancan! O pop irrompe pela multidão, o cenário arrojado (Catherine Martin, Annie Beauchamp, Ian Gracie e Brigitte Broch) acolhe um cast de bailarinos e figurantes completamente frenético e louco. O ritmo é mais do que acelerado, é vertiginoso, é estonteante. A prodigiosa montagem de Jill Bilcock marca o compasso, com uma cadência e execução perfeitas. Desfila o guarda-roupa (Catherine Martin e Angus Strathie), riquíssimo em detalhe. Saias de mil cores, folhos, roupa interior. Lábios, pernas, apalpões. Sensualidade, provocação. Audácia e delírio. As coreografias sucedem-se, as músicas também. Rewind. Revisitamos uma época, mas flui uma excitante sonoridade contemporânea. Lady Marmelade. Quando a música pára, um rasto cintilante se anuncia das alturas. Baz Lhurmann faz de Nicole Kidman uma autêntica diva. A estrela desce solenemente do firmamento, num baloiço iluminado com encanto:

The French are glad to die for love.
They delight in fighting duels.
But I prefer a man who lives...
and gives expensive... jewels.

(...) A kiss on the hand may be, quite continental,but diamonds are a girls best friend!
A kiss may be grand but it,

won't pay the rental on your humble flat,

or help you feed your mmhm pussycat!


Men grow cold as girls grow old,

and we all loose our charms in the end...

But square-cut or pear-shaped,

these rocks don't loose their shape;
Diamonds are a girl's best friend!

As piscadelas de olho às grandes referências do cinema musical são inúmeras. De Música no Coração, Serenata à Chuva e Mary Poppins a Os Homens Preferem as Loiras, A Roda da Fortuna, Gigi, Um Americano Em Paris ou até mesmo a Cabaret. Mas as alusões, mais ou menos directas, a outros clássicos não-musicais são também frequentes: recordo, com especial apreço, Le Voyage dans la Lune e Nosferatu, O Vampiro. A torre do Duque (Richard Roxburgh) - onde acontece uma das mais cómicas e burlescas sequências musicais da obra, ao som da inesperada versão de Like a Virgin, de Madonna - tem toda ela uma atmosfera gótica e draculeana; passe o neologismo. Para além de Madonna, muitos outros artistas do século XX viram os seus maiores sucessos incluídos entre as faixas desta sensacional banda sonora, entre eles Christina Aguilera, Lil' Kim, Mia, Pink, Beck, Fatboy Slim, Valeria, Nirvana, Elton John e o admirável David Bowie. A tocante composição original, essa, é da autoria de Craig Armstrong.

Com a tão-pouco-musical personagem de Roxburgh - quem viu o filme sabe perfeitamente a que me refiro - a história de Amor entre o poeta e a sua musa torna-se proibida e o triângulo amoroso ganha forma. O malvado ricaço afiançar-se-á às escrituras do bordel e de tudo fará para disfrutar da esplendorosa Satine. She is mine:

Why should the courtesan chose the penniless sitar player over the maharajah who is offering her a lifetime of security? That's real love. Once the sitar player has satisfied his lust he will leave her with nothing. I suggest that the courtesan chose the maharajah.

Sobre o imponente Elefante do Amor, duas das mais fascinantes e mágicas sequências do filme - a paixão entre Christian e Satine floresce nas alturas, entoando surpreendentes e inspirados medleys: All You Need Is Love, One More Night, Pride (In The Name Of Love), etc., que é como quem diz... The Beatles, Phil Collins e U2... Algures no entreacto, entre a costura, The Show Must Go On, verdadeiramente arrepiante e, mais perto do final, o poderosíssimo e extasiante Tango de Roxanne, com a fantástica e rouca voz de Jacek Koman. Magnífico. Enfim, tantas cenas emblemáticas e eternas num só filme...

Às tantas, Zidler profere: Outside things may be tragic, but in here we feel its magic. E esta poder ser, perfeitamente, uma das grandes máximas do musical - assistir a um tem efectivamente a ver com magia, com fantasia, com todo um universo alternativo onde o real e o inverosímil se cruzam e confluem, segundo a natureza e o cânone próprios do género. As leis do musical são conhecidas à partida. No musical, o que importa é a emoção e o profundo sentido de espectáculo, de entretenimento. Nesse sentido, pois, aquilo que Baz Luhrmann faz com Moulin Rouge! é não só genial e visionário como inteiramente revolucionário: a magnificent, opulent, tremendous, stupendous, gargantuan, bedazzlement, a sensual ravishment, como o próprio Zidler diria. Uma operática e alucinante apoteose de sensações, uma excêntrica e exuberante produção artística, um acontecimento histórico do mais elevado requinte, spectacular, spectacular. Uma irreverente, electrizante e arrebatadora experiência cinematográfica, capaz de redefinir o género, aproximando-o do grande público e das mais novas gerações que o menosprezavam. Uma obra-prima.

Days turned into weeks, weeks turned into months. And then, one not-so-very special day, I went to my typewriter, I sat down, and I wrote our story. A story about a time, a story about a place, a story about the people. But above all things, a story about love. A love that will live forever.

O pano cai. Ouve-se o aplauso. The End.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A BELA E O MONSTRO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Beauty and the Beast
Realização:
Gary Trousdale e Kirk Wise

Filme de Animação


Crítica:

O CASTELO ENCANTADO

Quando a última pétala cair, sem que o amor triunfe, a maldição tornar-se-á perpétua. É este o mote para mais uma fabulosa e adorável história de encantar da Disney. Desde Era Uma Vez... a E Viveram Felizes para Sempre... o estúdio cristalizou o imaginário infantil de gerações inteiras, ao longo de décadas. A Bela e o Monstro é, porventura, dos maiores hinos à beleza interior.

Once upon a time, in a faraway land... A young prince lived in a shining castle. Although he had everything his heart desired, the prince was spoiled, selfish, and unkind. But then, one winter's night, an old beggar woman came to the castle and offered him a single rose in return for shelter from the bitter cold. Repulsed by her haggard appearance, the prince sneered at the gift and turned the old woman away. But she warned him not to be deceived by appearances, for beauty is found within. And when he dismissed her again, the old woman's ugliness melted away to reveal a beautiful enchantress. The prince tried to apologize, but it was too late, for she had seen that there was no love in his heart. And as punishment, she transformed him into a hideous beast and placed a powerful spell on the castle and all who lived there.

Da radiosa aldeia, ao negrume da floresta e a todo o goticismo do castelo, a obra conta com um extraordinário leque de personagens. Bela não é Branca de Neve ou Aurora. Não corresponde à heroína de outrora, ingénua e submissa. Bela é corajosa e destemida, forte e inteligente, independente. Ela sabe perfeitamente o que quer e é uma jovem lutadora. O Monstro é arrogante e intempestivo, incapaz de mostrar bondade e aquilo que a paixão entre os dois despoleta é, antes de tudo, a transformação interior do Monstro em Príncipe. A terrível e horrorosa criatura tornar-se-á brando e afável, dedicado e disponível, capaz de pôr a sua vida em risco e de sacrificá-la, inclusivé, pela amada. E é essa a mudança, a vitória maior que o amor simbolizará, quebrando o feitiço e restituindo à fera a sua aparência e forma original. Gaston, o musculado bruta-montes, concretiza o triângulo amoroso; é um narcisista convencido e a prova de que se pode ser muito bonito por fora e completamente estúpido e vazio por dentro. O pai, desastrado inventor, é francamente hilariante e, depois, o rasto de magia espalha-se sobre móveis e artefactos, objectos e utensílios. Os inanimados ganham vida e revelam-se personagens inesquecíveis, verdadeiras estrelas do espectáculo nos intervalos do romance central: Lumière, o candelabro de sotaque francês, Cogsworth, charmoso relógio de parede, o bule Mrs. Pott e o filhote Chip, a vassoura, o guarda-fatos, entre tantos outros.

Ashamed of his monstrous form, the beast concealed himself inside his castle, with a magic mirror as his only window to the outside world. The rose she had offered was truly an enchanted rose, which would bloom until his 21st year. If he could learn to love another, and earn her love in return by the time the last petal fell, then the spell would be broken. If not, he would be doomed to remain a beast for all time. As the years passed, he fell into despair and lost all hope. For who could ever learn to love a beast?

A qualidade do desenho e da pintura, mesmo no casamento subtil e eficaz entre a animação tradicional e aqueloutra por computador, é singular. O filme é visualmente arrebatador, do riso às lágrimas. Para isso muito contou a realização de Gary Trousdale e Kirk Wise, que tornam toda a adaptação do conto uma experiência tremendamente excitante e emocionante. Depois, creio que se há triunfo assinalável e absolutamente decisivo para elevar o calibre das produções da Disney nos anos 90 do século passado foi sem sombra de dúvida o potencial gigantesco das bandas sonoras de Alan Menken. As suas canções, para além de modernas e plenas de emoção, revitalizaram a animação do estúdio, conferindo-lhe uma extraordinária natureza musical. As canções Be Our Guest, Belle, Something There, The Mob Song, Gaston, Human Again ou mesmo Beauty and the Beast, com letras de Howard Ashman, aliadas a uma prodigiosa coreografia visual, eternizam algumas das mais memoráveis e melodiosas sequências do filme. Piscadelas de olhos a clássicos absolutos são inúmeras; a mais facilmente identificável talvez seja aquela em que Bela canta pelos campos, graciosa e rodopiante, que nem a Maria de Julie Andrews, em Música no Coração.

Por tudo isto e tanto mais, A Bela e o Monstro atinge um equilíbrio notável entre o clássico e o moderno, a solidificação do passo (ou mergulho) audaz que foi dado com A Pequena Sereia e que se veio a confirmar com os êxitos seguintes. Enfim, tornou-se um clássico instantâneo. A ver e rever.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões