terça-feira, 31 de agosto de 2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

METROPOLIS (1927)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Metropolis
Realização
: Fritz Lang

Principais Actores: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Erwin Biswanger, Heinrich George

Crítica:

A TORRE DE BABEL

Mittler zwischen Hirn und Haenden...
muss das Herz sein.

De Metropolis (Fritz Lang, 1927) houve, durante décadas, segmentos perdidos no tempo. Julgava-se que para sempre. Felizmente, em 2008 e na Argentina, foram encontrados os 30 minutos da bem-aventurada metragem, até então em falta, e que a restored version de 2010 já inclui, perfazendo agora um total de 145 minutos. Aquilo que o tempo nos legou é um tesouro absoluto. Uma extraordinária obra-prima.

Se a vida imita ou não a arte, para mim não há dúvidas. Apenas evidências. E se a arte se imita a si própria, continuamente, também não tenho dúvidas. É rara a obra de ficção científica, posterior a Metropolis, que não convoque directa ou indirectamente o seu prodigioso e criativo imaginário.

Visionário, Lang edifica, por entre cenários grandiosos e prodigiosos esboços futuristas, uma cidade verdadeiramente gloriosa, economicamente afortunada, repleta de arranha-céus (de design vanguardista) e de tráfego intenso (seja ele automóvel, ferroviário ou aéreo). A cidade é comandada por Joh Fredersen (Alfred Abel), um autocrata dominador, destituído de valores humanos e que concentra, na sua pessoa apenas, todo o poder económico e político da cidade. À superfície de um submundo de maquinaria esclavagista, escondido nas profundezas da terra, prosperam os ricos, entre luxos e tecnologias modernas, com uma vida idílica e plena de lazer. Têm auditórios, bibliotecas, teatros e estádios... Divertem-se, faustosamente trajados, por entre jardins magnificentes - die Ewigen Gärten -, onde cintilam cristalinas fontes, abunda a vegetação e desfilam majestosos pavões, graciosas garças. Aber... Tief unter der Erde lag die Stadt der Arbeiten. Escondido no subsolo, quebra-se o segredo de uma sociedade perfeita que, afinal, não existe. Enquanto os ricos vivem os prazeres e a felicidade, num futuro de sonho, todo um universo de operários oprimidos trabalha quantas horas um dia tem, no mais real dos pesadelos. Imersos em fumos e condenados à ditadura das máquinas, sincronizados e automatizados aos ritmos febris da tecnologia, são escravos de um sistema monstruoso. Metáfora melhor do capitalismo?

Freder (Gustav Frölich, numa interpretação magistral), filho de Joh Fredersen, é o legítimo herdeiro desse projecto quase divino. Vive na ilusão e na ingenuidade dessa Utopia, sem preocupações maiores, até ao dia em que Maria (Brigitte Helm, numa dupla prestação memorável) surge inadvertidamente nos Grandes Jardins, rodeada pelos filhos dos operários. A troca de olhares entre os dois, Freder e Maria, é não só intensa (há amor à primeira vista) como inquietante. Freder apercebe-se, de imediato, que aquela jovem e encantadora mulher e todas aquelas crianças não pertencem ao seu mundo... Há ali qualquer coisa que não faz sentido. Seht! - diz Maria às crianças. - Das sind Eure Brüder! Quando a jovem torna com os pequenos ao interior das enormes portadas, Freder sente-se tentado a desvendar aquele mistério e segue-a. É então que se confronta com a dura e inacreditável realidade das profundezas: as máquinas aparecem-lhe como faraónicas esfinges, devoradoras de homens e de humanidade. Toda uma classe é subjugada e sacrificada em prol de uma dita sociedade desenvolvida e civilizada, que vive às suas custas.

Desesperadamente, Freder procura o pai e as devidas explicações, no cimo de uma nova Torre de Babel, palácio maior do multimilionário. Alerta-o de que há homens a morrerem lá em baixo, na sequência de tremendos acidentes laborais... como se o Sr. Fredersen, seu pai, fosse um perfeito inocente em toda a história... Não há mais como esconder a verdade: antevendo que o filho se tornará um incómodo, o Sr. Fredersen coloca espiões no seu encalço. Entretanto, Grot (Heinrich George), guardião da máquina-coração de toda aquela indústria, entrega ao patrão enigmáticos e suspeitos mapas que encontrara na posse dos operários. Irado por todos os incidentes que se hão repentinamente sucedido, o Sr. Fredersen culpabiliza o conselheiro Josaphat e despede-o. Freder, sentindo-se culpado pelo despedimento do pobre homem e sabendo agora que um qualquer despedimento por parte do senhor seu pai significa uma vida de submissão total ao calor do trabalho, promete contratá-lo em seu nome. Primeiro, todavia, sente que tem de descer novamente aos infernos, encontrar lindíssima Maria e tentar compreender toda aquela existência de agonia e terror. Para isso, troca de vida com um magro e infeliz operário de um relógio mecânico e assim se enturma entre os miseráveis.

Numa casa velha da cidade, praticamente esquecida, o inventor C. A. Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) recebe a visita do Sr. Fredersen. O inventor acaba de lhe mostrar o Homem do Futuro, o Homem-Máquina que tão-genialmente concebera, como que numa tentativa de dar vida à mulher amada que falecera, quando o magnata lhe mostra os mapas e lhe ordena que os descodifique. Rotwang diz-lhe que os mapas dizem respeito às milenares catacumbas, que abaixo do nível das indústrias se encobrem, mesmo antes de o guiar até aos confins da terra. É lá que, de uma galeria superior, assistem a uma reunião secreta, liderada por Maria, que motiva os trabalhadores, entre os quais Freder, para a fé e para a esperança da liberdade; ideias bem perigosas e capazes de desencadear a revolta contra o sistema. Maria conta-lhes, nomeadamente, a lenda da Torre de Babel - Gross ist die Welt und ihr Schöpfer und gross ist der Mensch - onde as pessoas, apesar de falarem a mesma língua, não se entendiam e onde os senhores, ansiosos por atingir o céu, se serviam da força dos escravos, cruelmente. Há mesmo um filme dentro do filme, distintamente emoldurado, que recria a fábula. Aliás, o filme está, todo ele, povoado de referências bíblicas, sendo esta uma das principais e mais poderosas, até pelo jogo de espelhos e de metáforas evidente.

Freder depreende facilmente, a partir das palavras da oradora, que desempenhará um papel determinante na luta pela libertação dos escravos. Ele será o intermediário entre dois mundos, qual coração entre a cabeça e as mãos. Entre o pensador, seu pai, e a mão-de-obra, os trabalhadores. No fim da reunião, Freder e Maria ficam sós. Há amor entre eles, trocam beijos apaixonados. Combinam encontrar-se na catedral, à superfície. Mas a acção maléfica do Sr. Fredersen e do inventor jamais permitirá o encontro. Maria é capturada e clonada pelo cientista, por forma a dar vida ao robot - o Homem-Máquina; ou melhor, a Mulher-Máquina. A transformação concretiza-se visualmente impressionante, por meio de efeitos especiais espantosos. Através do robot, Rotwang incitará os operários à rebelião, contrariando as ordens do patrão de Metropolis, pondo em marcha o seu próprio plano, impondo a sua própria autoridade e revelando as suas mais doentias paixões. Afinal, manipulando a ciência e a tecnologia, ele sim, mais do que ninguém, tem o mundo nas mãos!

Freder cai em delírio e sonha uma Maria prostituta, dançante e provocadora de homens. A montagem revela-se genial, com a exposição múltipla a construir imagens oníricas belíssimas. Todo o trabalho de fotografia é verdadeiramente assombroso. A sobreposição de planos, por exemplo, possibilita alucinantes imagens surreais. A realidade, contudo, não era muito diferente do sonho. Quando acorda, Freder depara-se com uma nova Maria, uma outra Maria, a subverter a moral e os ideais dos homens, iniciando a insurreição: Tod den Maschinen! Os operários galgam as grades e todas as barreiras, liderados pela robot. Com a invasão da máquina principal, a central eléctrica explode em curto circuito. A cidade, outrora iluminada, apaga-se.

Escapando ao aprisionamento do inventor, a verdadeira Maria corre para as indústrias e depara-se com a catástrofe: uma avassaladora inundação, provocada pelos estragos da explosão, põe em perigo as crianças. Maria ajuda a resgatá-las, salvando-as da morte, mas no subsolo os pais dos pequenos desesperam com a possibilidade da tragédia. Grot confronta-os: afinal, enfeitiçados pelos planos maquiavélicos da bruxa, a robot, destruiram as máquinas sabendo que a cidade não resistiria sem elas, pondo em perigo não só as suas vidas como as vidas dos seus próprios filhos. Apercebendo-se do seu erro fatal, a multidão insurge-se em direcção à superfície, ansiosa por vingar-se da bruxa. Mas ao chegar à superfície, quem encontram é a verdadeira Maria. Não sabendo do engodo, perseguem-na, e Maria foge, tentando sobreviver ao ódio dos desgraçados. Felizmente, a perseguição cruza-se com o boémio desfile da Mulher-Máquina e a terrível invenção arde na fogueira (curiosa a inclusão de evocações medievais na visão futurista da obra). Freder depara-se com o cenário e nem quer acreditar, desgostoso, que perdeu o seu amor. Maria, contudo, encontrada por Rotwang à porta da catedral, desaparece pelo interior do edifício, subindo até às alturas. Suspensa no pêndulo do grande sino, atrai a atenção da turba. Freder vê-a então, viva mas em perigo, a correr por entre as gárgulas do telhado, e corre para salvá-la.

O Sr. Fredersen chega ao local e nem quer acreditar que tem a vida do filho por um fio. Os rebentos dos trabalhadores estão a salvo, mas o seu ainda não - ainda luta, sem cessar, contra o cientista louco. Para o Sr. Fredersen, o feitiço virou-se, por fim... e, agora, poderá pagar um preço demasiado alto pela ambição cega do seu projecto chamado Metropolis. A Torre desmorona-se. Faltou-lhe coração, desde sempre. Sem coração não há progresso, verdadeiro progresso.

Mittler zwischen Hirn und Haenden... muss das Herz sein.

Eis, imponente e monumental, uma derradeiras maravilhas do expressionismo alemão, uma das maiores obras-primas da História do Cinema. Um marco fundamental e completamente obrigatório.


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Nota especial para a composição musical que acompanha a obra. O restauro de 2002 da Fundação Murnau - a versão a que primeiramente assisti - recria a banda sonora original, composta por Gottfried Huppertz para a lendária estreia de 1927. É interpretada pela Rundsfunksinfonieorchester Saabrücken. Magnífica.

O LADO SELVAGEM (2007)

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ALEXANDRE, O GRANDE de Oliver Stone, segundo Rui Francisco Pereira

Agradecimento Especial:
Rui Francisco Pereira, Cinemajb

Alexandre… o Grande? Não. Alexandre, o frágil ou, se quisermos ser um pouco mais explícitos, Alexandre, o Chorão ou até mesmo Alexandre, o Homossexual. É este o Alexandre que Oliver Stone nos mostra. Stone que se fica, apenas e só, pelas nobres, muito nobres intenções. Alexandre, o Grande é um filme repleto de simbolismos, mensagens codificadas com várias camadas de complexidade. Stone teve a nobre intenção de querer retratar este homem nada vulgar, fazendo-o de forma igualmente invulgar mas também incorrecta.

O argumento preferiu focar-se nos dramas emocionais de Alexandre e nas intrigas políticas, não sendo capaz de sintetizar os eventos mais importantes a aprofundar o que merecia, presumivelmente, mais protagonismo. Oliver Stone prefere explicitar (e de que maneira) as cenas de cariz homossexual, ao invés de clarificar mortes, conspirações e sobretudo correlações entre factos. Uma série de escolhas mal feitas e uma evidente debilidade no estabelecimento de prioridades, por parte do realizador de “Um Domingo Qualquer”, ditam a sentença deste Alexandre, o Grande que, mesmo na sua exaustiva versão Revisited: The Final Cut (mais de 3 horas e meia de duração), diz tão pouco em determinados momentos e, por sua vez, mostra tanto noutros. É evidente que Stone nos proporciona alguns momentos magníficos, como é o caso da Batalha da Índia, que se trata de uma das melhores batalhas alguma vez filmadas em Cinema. A inversão de cores, na sua recta final, é especialmente bem conseguida. Momentos parcos em quantidade, mas abundantes em qualidade.

Ainda assim, a maior desilusão de Alexandre, o Grande é mesmo o elenco, com um Colin Farrell sem estofo a ser suportado por um leque de actores sem chama. Val Kilmer e Jared Leto constituem as excepções. A banda-sonora de Vangelis, também ela oscilante, encerra um filme grande demais… mas, ao mesmo tempo, tão, tão pequeno.

A CAMINHO DE IDAHO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: My Own Private Idaho
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: River Phoenix, Keanu Reeves, William Richert, James Russo, Flea, Grace Zabriskie, Udo Kier, Rodney Harvey, Chiara Caselli, Michael Parker, Jessie Thomas, Sally Curtice

Crítica:

I'm a connoisseur of roads.
I've been tasting roads my whole life.

A ESTRADA
This road will never end.
It probably goes all around the world.

A Caminho de Idaho, visionária pérola de Gus Van Sant, situa-se algures entre a Perfeição e a Imperfeição. Tal como a vida de todos nós. Formalmente, é de difícil classificação: é um road movie (o seu tema é a estrada) com claras influências do western (a paisagem, a fogueira, as pistolas), é uma constante encenação de Shakespeare pelas ruas de Portland, embebida em melancolia, e, ao mesmo tempo, uma excepcional experiência avant-garde. A obra explora também a ambivalência sexual, mas o tratamento do amor universal é, porventura, um dos maiores feitos. Mike ama Scott e o que temos é um amor não correspondido entre duas pessoas, independentemente dos seus sexos. A dada altura, tanto Mike como Scott seguem o seu caminho, tomando as suas escolhas... e é interessante perceber como Gus Van Sant jamais se mostra tendencioso ou moralista; o sua arte fala por si só e de que maneira.

Viver passa por um inevitável ritual de auto-descoberta, por meio do qual encontramos o nosso lugar no mundo. À partida, esse caminho é mais fácil quando conhecemos e compreendemos o nosso passado, as nossas origens: esse factor dá-nos a estabilidade emocional essencial para a formação das nossas personalidade e identidade. Porém, os jovens de Gus Van Sant provêm de famílias disfuncionais, por algum motivo destruídas, e vêem-se sozinhos na estrada - sem saber ao certo de onde vêm e para onde vão. Estão desorientados, perdidos, alienados e... indefinidos. Mike, por exemplo, tenta reencontrar o amor da mãe (e reencontrar, desse modo, as suas origens) e encontrar o amor por alguém no seu dia-a-dia; quiçá por Scott, o seu melhor amigo:

Mike: We're good friends, and that's good to be, you know, good friends. That's a good thing. (...) That's okay. We're going to be friends.
Scott: I only have sex with a guy for money.
Mike: Yeah, I know, I mean...
Scott: And two guys can't love each other.
Mike: Yeah. Well, I-I don't know, I mean, I mean for me, I could love someone even if I, you know, wasn't paid for it. I love you, and... you don't pay me. (...) I really wanna kiss you, man. [pausa] Well goodnight man. [pausa] I love you, though. [pausa] You know that. I do love you.

As performances são absolutamente excepcionais. Os ritmos da narcolepsia de Mike marcam, tantas vezes, a própria cadência do filme... River Phoenix entrega-se de corpo e alma ao papel da sua (infelizmente curta) vida e mostra-se totalmente entrosado na personagem. Emana fascínio e inspiração... Brilhante! William Richert tem um desempenho formidável e Keanu Reeves, cujo talento raramente aprecio, revela-se assaz competente.

Tecnicamente, estamos perante um filme arrojado e irrepreensível. Os time-lapses marcam imediatamente o tom e o ambiente poético, assim como as muitas outras passagens líricas, sempre magnificamente fotografadas por John Campbell e Eric A. Edwards e extraordinariamente montadas por Curtiss Clayton. O orgasmo de Mike, por exemplo, é de nos deixar abismados e sem palavras; tal é a beleza, o simbolismo e a carga emocional daquele único e tão curto take. Então e a forma como Gus filma o sexo? Montagem rápida, planos estáticos mas em tempo real e com grande poder sugestivo. A confluência estética da obra não se fica por aqui: notem-se os diferentes tipos de filmagem, por exemplo, nas memórias de Mike. Ou a cena das capas de revista na loja de pornografia. Ou as entrevistas tipo-documentário a prostitutos reais, incorporadas no filme como se da diegese ficcional fizessem parte. A banda sonora é igualmente eclética e confunde-se perfeitamente com a natureza criativa da obra. Enfim, um todo completamente fascinante.

Sem dúvida: um dos melhores filmes dos anos 90 e um dos melhores filmes de Gus Van Sant. Uma sublime e obrigatória obra de arte.

Have a nice day.

domingo, 29 de agosto de 2010

A DESAPARECIDA (1956)

Comente o filme A Desaparecida, aqui!

SETE PECADOS MORTAIS (1995)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Se7en
Realização: David Fincher

Principais Actores: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, John C. McGinley, Richard Roundtree, Kevin Spacey

Crítica:

GULA.
LUXÚRIA. GANÂNCIA.
PREGUIÇA. VAIDADE. INVEJA. IRA.

Long is the way, and hard,
that out of
hell leads up to light.

Sete Pecados Mortais
é, todo ele, um filme sobre a cidade, a cidade como inferno, e sobre a apatia que dela emana e que afecta, de forma corrosiva e silenciosa, as sociedades modernas ocidentais. E depois, é claro, sobre uma das consequências dessa apatia levada ao extremo: a psicopatia de
um John Doe, que se sente inspirado por Deus e que faz dos crimes calculados a sua obra-prima, como se por meio deles purificasse a humanidade e inspirasse o mundo.

Não é por acaso, note-se, que a maior banda sonora do filme é a banda sonora das cidades: um ruído ensurdecedor que invade cada cena, criando uma atmosfera tensa, agonizante e inevitavelmente poluída. A fotografia vive de um trabalho de iluminação portentoso, que se vê realçado pelo ambiente nocturno, negro e sombrio do meio urbano. As próprias personagens não se sentem bem na cidade, perdem-se na sua violência e infelicidade, caos e indefinição e procuram um escape, uma fuga possível. O detective William Somerset (Morgan Freeman, numa interpretação impecável), anseia por retirar-se do activo, procurando uma paz fora da cidade. Diz ele:
I just don't think I can continue to live in a place that embraces and nurtures apathy as if it was virtue. (...) it's easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It's easier to steal what you want than it is to earn it. It's easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.

Quando entra num táxi, aliás, e lhe é perguntado para onde vai, rapidamente responde: far away from here. E quando Tracy Mills (Gwyneth Paltrow),
também ela desgostosa com a mudança para a cidade, lhe pergunta how long have you lived here?, naquele amontoado de prédios e de almas perdidas, a resposta é imediata: too long. Quando à noite se deita, para finalmente descansar, põe o metrónomo no seu tic-tac, como se fosse possível marcar o ritmo da confusão. Como se fosse possível converter o tumulto infindável numa apaziguante ária de Bach. A desordem está, todavia, instalada.

John Doe marca, afinal, o novo crime: metódico e estudado, paciente e implacável. Os seus crimes são sermões e a sua resolução policial ganha contornos de quebra-cabeças.

We see a deadly sin on every street corner, in every home, and we tolerate it. We tolerate it because it's common, it's trivial. We tolerate it morning, noon, and night. Well, not anymore. I'm setting the example.
John Doe

E o crime baterá à porta de David Mills (Brad Pitt), inesperado, cruel e devastador, como poderá bater às portas de qualquer um de nós. E é esse factor que é tão assustador. Porque nos é, cada vez mais, tão próximo.

O argumento é subtil e detém passagens verdadeiramente memoráveis. Os desempenhos revelam genuína solidez, em especial o de Kevin Spacey como John Doe, que é perturbador e perfeitamente conseguido. Magnificamente realizado por David Fincher, o filme é um exercício de grande equilíbrio, subtileza e contenção. O final, então, é soberbo. Profundo. Magistral.

Sete Pecados Mortais é, pois, um marco incontornável do cinema policial, onde o suspense... ascende a um estado puramente sublime.

Ernest Hemingway once wrote: the world is a fine place and worth fighting for. I agree with the second part.
William Somerset

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

AS FÉRIAS DO SR. HULOT (1953)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Vacances de Monsieur Hulot
Realização
: Jacques Tati

Principais Actores: Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Micheline Rolla, Valentine Camax, Louis Perrault, André Dubois, Lucien Frégis, Raymond Carl, René Lacourt, Marguerite Gérard

Crítica:

FÉRIAS ATRIBULADAS

Quando o barulhento carro do Sr. Hulot chega à praia, que nem uma sucata móvel num belíssimo dia de verão, esvaem-se, por completo, as esperanças de umas férias pacíficas para as dezenas de hóspedes do Hôtel de la Plage. Rara será a noite, aliás, em que as luzes dos quartos não se iluminarão, a meio da noite, sobressaltadas com as insólitas aventuras e desventuras da personagem, pela paradisíaca paisagem da estância balnear.

Tati explora o cómico de situação como ninguém, potenciando o hilariante a partir da pantomima e do mínimo de diálogos possível. O leque de personagens é também ele caricato. A cada dia, a magistral fotografia da obra (Jacques Mercanton e Jean Mousselle) enquadra cenas memoráveis, da desastrada chegada ao hotel à desastrada noite da pirotecnia. Tal como os diálogos, também os sons são escassos, aproximando o filme do cinema mudo. Os poucos sons surgem apenas quando necessários. O tema musical (Alain Romans) é ciclicamente motivado, convocando a rotina do dia-a-dia, chegando mesmo a jogar com o som do rebentar das ondas do mar, inicialmente, durante o genérico de abertura. A sátira às tecnologias também marca presença: é rara a inovação que não complique, sejam os altifalantes que anunciam a chegada do comboio, sejam os automóveis, sejam as telefonias.

Enfim, mais um daqueles pedaços de cinema verdadeiramente brilhantes, essenciais e imperdíveis. Clássico absoluto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A VIDA NÃO É UM SONHO (2000)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Requiem for a Dream
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Christopher McDonald, Louise Lasser, Marcia Jean Kurtz, Janet Sarno, Suzanne Shepherd, Joanne Gordon, Charlotte Aronofsky, Mark Margolis

Crítica:

AS TRÊS ESTAÇÕES
DE UM CAMINHO PARA A PERDIÇÃO

In the end it's all nice.

Absolutamente hipnótico, contagiante e electrizante, A Vida Não É Um Sonho é o reflexo perfeito de uma alma genial, um universo de transfiguração do real, alucinante e psicadélico, que se concretiza triunfalmente. Darren Aronofsky é o prodigioso e visionário realizador que, num trabalho de tão impressionante quanto rara confluência estética, arrisca um mergulho vertiginoso no lado negro da condição humana e sai glorioso naquela que é, sem sombra de dúvida, uma das mais estimulantes e perturbadoras obras-primas da sétima arte.

Os primeiros destaques vão desde logo para a intensa e poderosíssima banda sonora de Clint Mansell (em parceria com o Kronos Quartet) e para a fotografia de Matthew Libatique. Depois, é claro, para a frenética realização: orquestração magistral do split screen (vertical ou horizontal), de planos rodopiantes, de ângulos extremos e de lentes que distorcem que nem um olhar consumido pela agonia, de fast e slow motion ou de planos únicos mas a duas velocidades, de zooms e de uma espécie de steadicam (mas fixa nas personagens, acompanhando os seus percursos), da manipulação de som não-diegético em jogo permanente com a extraordinária montagem hip-hop de Jay Rabinowitz e da repetição sucessiva e angustiante, em ritmo crescente, de trechos musicais, sons e imagens. A imaginação, antecipada à acção, dá-nos a conhecer o pensamento interior das personagens. Enfim, um misto de combinações originais e de ritmos explosivos.

O argumento, a partir da obra de Hubert Selby Jr., revela-se um exercício de autêntico fascínio criativo e de ferveroso poder crítico: acompanha a destruição física e psicológica de quatro personagens, cuja crise de valores e de afectos fez sucumbir na solidão, desespero e fracasso existencial. Ellen Burstyn é Sara Goldfarb: está velha e sem qualquer auto-estima, e representa toda uma geração abandonada pela família e irremediavelmente entregue à televisão. Por isso mesmo, a oportunidade de ir parar à caixa mágica (ilusão de felicidade) fá-la entrar numa luta desenfreada para caber num vestido vermelho que não via a luz do dia há muitos anos. Purple in the morning, blue in the afternoon, orange in the evening.

I'm somebody now, Harry. Everybody likes me. Soon, millions of people will see me and they'll all like me. I'll tell them about you, and your father, how good he was to us. Remember? It's a reason to get up in the morning. It's a reason to lose weight, to fit in the red dress. It's a reason to smile. It makes tomorrow all right. What have I got Harry, hm? Why should I even make the bed, or wash the dishes? I do them, but why should I? I'm alone. Your father's gone, you're gone. I got no one to care for. What have I got, Harry? I'm lonely. I'm old.
Sara Goldfarb

A dieta rapidamente se transforma num caminho sem apatente retorno, uma tortura de alucinações que a desgastarão até à exaustão. A performance de Ellen Burstyn é, em palavras que bastam, assombrosa e transfiguradora. A relação ingénua que mantém com o filho Harry (Jared Leto, soberbo) também não resistirá às malhas fatais da droga. É crucial aquela cena em que o filho volta a casa e, sem se conseguir espelhar na mãe, a repreende por causa do consumo excessivo de comprimidos. Os percursos de Harry, o amigo (Marlon Wayans) e a namorada (Jennifer Connelly) - todos com sólidas prestações - estarão igualmente destinados à perdição (prostituição da alma, perda de honra e de identidade), à medida que as estações avançam (Verão, Outono e Inverno) e com elas se adensa a escuridão. Na estação mais rigorosa, o sofrimento será implacável.

A magnífica construção do filme, em cada uma das categorias, leva-nos, inteiramente rendidos, até um final orgíaco - de quase crucifixação - tão massacrante para nós, espectadores, como para cada um dos protagonistas. Um desfecho verdadeiramente epifânico e no qual não parece haver espaço para qualquer Primavera. Se eventualmente há esperança para uma reconversão, isso é-nos totalmente deixado em aberto: no sonho do abismo ou no regresso à posição fetal, como que a jeito de prenúncio de um hipotético renascimento... ou... quiçá... no som do mar, do vento e das gaivotas que enaltecem e elevam os créditos finais a um autêntico processo de pacificação. Enfim, arte pura!

FOME (2008)

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANTES DO ANOITECER (2004)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Before Sunset

Realização: Richard Linklater

Principais Actores: Ethan Hawke, Julie Delpy, Vernon Dobtcheff, Louise Lemoine Torres, Rodolphe Pauly

Breves considerações:
Nove anos depois, uma tarde em Paris. Reencontram-se, Jesse e Celine. E nós acompanhamos esse reencontro - os olhares, os gestos e as palavras: as longas e deliciosas conversas que presenciamos como se estivessemos na mesa do lado, algures no mesmo barco ou algures na mesma rua. As máscaras, os desejos, os desabafos, a recordação de uma noite tão romântica... que os marcou para sempre. Antes do Anoitecer jamais poderá ser recordado, quanto a mim, pelos feitos extraordinários da realização: vive - e como vive! - das representações de Delpy e de Hawke (tão autênticas) e do excepcional, excepcional argumento. Um filme de culto absolutamente compreensível (e irresistível?).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CORALINE E A PORTA SECRETA (2009)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Coraline

Realização: Henry Selick


Filme de Animação

Breves considerações:
Animação de alto nível, prodigiosa na criatividade e sem limites de imaginação.
Talentosa realização de Henry Selick, nesta fábula negra, assustadora na perversão do universo infantil, com uma moral forte e bem explorada pelo argumento.
Mais uma pérola do stop motion, visualmente arrebatadora.

EM BRUGES (2008)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: In Bruges

Realização: Martin McDonagh

Principais Actores: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier

Breves considerações:
Thriller. Comédia. Comédia negra. O filme conflui diferentes géneros e registos de uma forma brilhante, não caindo nos muitos lugares comuns em que podia, facilmente, cair. Louros para quem dirigiu e escreveu o projecto, Martin McDonagh, e para toda a equipa.
Grande interpretação de Colin Farrell. Mais uma também de Brendan Gleeson.
Para o espectador, uma experiência de bom entretenimento à qual só fica falta o bilhete gratuito, directo para Bruges.

MATRIX RELOADED (2003)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Matrix Reloaded

Realização: Andy e Larry Wachowski

Principais Actores: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Matt McColm, Jada Pinkett Smith, Monica Bellucci, Lambert Wilson

Breves considerações:
Com este capítulo dois, Matrix continua visualmente impressionante, com efeitos especiais topo de gama decididos a desbravar uma nova linguagem cinematográfica. Inspirado sobretudo nas sequências de acção, a maior preocupação com o entretenimento parece-me evidente: a perseguição na auto-estrada ou a multiplicação do agente Smith são exemplos disso mesmo; mas há tantos outros momentos memoráveis: o da colher que se torce, nomeadamente.
Com a narrativa a pairar sobre a atmosfera pós-apocalíptica de Zion, a obra aprofunda a sua pertinência sociológica. Uma coisa, contudo, parece-me certa: o fascínio perde-se um pouco, à medida que se quebra o enigma do que é do que representa o Matrix. A trilogia caminha em busca de respostas quando o primeiro filme nos colocava as perguntas... E isso era tão mais interessante.
Ainda assim, um bom filme.

O PECADO MORA AO LADO (1955)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: The Seven Year Itch

Realização: Billy Wilder

Principais Actores: Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelyn Keyes, Sonny Tufts, Robert Strauss, Oskar Homolka, Marguerite Chapman, Victor Moore, Dolores Rosedale, Donald MacBride, Carolyn Jones

Breves considerações:
Uma sensualíssima Marilyn Monroe. Eu diria mais, uma provocante e picante Marilyn Monroe. E depois, todas as fantasias de um homem casado. Gostei da realização, da montagem, do bom humor da história. Não é nada de extraordinário, mas julgo que o filme em si nunca quis ser mais do que aquilo que realmente é.

A PONTE DO RIO KWAI (1957)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: The Bridge on the River Kwai

Realização: David Lean

Principais Actores: William Holden, Jack Hawkins, Alec Guinness, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Percy Herbert, Harold Goodwin, Ann Sears, Heihachiro Okawa, Keiichiro Katsumoto, M.R.B. Chakrabandhu, Vilaiwan Seeboonreaung, Ngamta Suphaphongs, Javanart Punynchoti, Kannikar Dowklee

Breves considerações:
Uma bom filme de entretenimento, mas ainda assim bastante sobrevalorizado.
Grande fotografia (o filme aliás é todo ele muito visual), grande banda sonora e mais uma formidável prestação de Alec Guiness. Como Spielberg veio beber a Lean...

domingo, 22 de agosto de 2010

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