sexta-feira, 21 de maio de 2010

KING KONG (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: King Kong
Realização: Peter Jackson

Principais Actores: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler, Bill Johnson, Mark Hadlow, Geraldine Brophy, David Denis

Crítica: 

A BELA E O MONSTRO

And lo, the beast looked upon the face of beauty, and beauty stayed his 
hand... and from that day forward, he was as one dead.

King Kong é uma obra de grande amor. Afinal, a admiração de Peter Jackson pelo original de 1933 fê-lo apaixonar-se pela Sétima Arte e inspirou-o a realizar filmes. Por isso mesmo e antes de tudo mais,
este seu novo King Kong será sempre uma homenagem. Creio que isso é notório e notável, cena após cena. Mas este remake é muito mais do que isso. É uma aventura verdadeiramente espantosa e espectacular, onde os efeitos digitais fazem história e constituem um autêntico triunfo sob a nova égide de fazer cinema. É, em primeira ou última instância, na sua artificialidade, uma emocionante e intemporal lição de humanidade.

Carl Denham (Jack Black) é um fracassado realizador de cinema que,
de forma a conseguir financiar os seus projectos, ludibria os produtores dos estúdios com o maior dos despudores. I'm real good at crapping the crappers, assume. No encalço da polícia e na posse de um mapa enigmático, faz-se ao mar e à aventura antes que seja tarde de mais. I've come into possession of a map. The sole surviving record of an uncharted island... thought to exist only in myth! Until now... Na companhia da sua equipa técnica, do argumentista Jack Driscoll (Adrien Brody), da deslumbrante e recém-contratada actriz Ann Darrow (Naomi Watts), do galã Bruce Baxter (Kyle Chandler), do capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), de Jimmy, Hayes e Choy (Jamie Bell, Evan Parke e Lobo Chan, respectivamente) e de Lumpy, o cozinheiro (Andy Serkis) parte para as filmagens nos exteriores, sem prever, minimamente, a sucessão de perigos que viriam a enfrentar. Grande elenco, grandes escolhas de casting.

A viagem que acompanheremos é tremenda. De uma esplendorosa Nova Iorque de contrastes, em plena Grande Depressão e literalmente renascida das cinzas, à crepuscular viagem de navio pelo mistério dos oceanos, do mais conturbado desembarque na Ilha da Caveira às mais exuberantes e exóticas fauna e flora que possamos imaginar, absolutamente perdidas no tempo e onde o verde camufla desde insectos esfomeados a colossais dinossauros, desde civilizações condenadas ao mais só e fascinante dos seres: Kong, o gorila gigante, o rei do desconhecido, deus dos nativos e o último da sua espécie.

Peter Jackson filma sequências verdadeiramente geniais e prodigiosas, com uma acção de cortar a respiração. Aquele confronto entre Kong e o T-Rex é deveras impressionante. Kong pode ser a 8ª Maravilha do Mundo mas os efeitos es
peciais são mesmo as maravilhas maiores deste filme sensacional, tanto nas criações a grande escala como nos mais ínfimos pormenores (Joe Letteri, Brian Van't Hul, Christian Rivers e Richard Taylor). Mas há muitas outras cenas inesquecíveis: todo aquele suspense que antecede o primeiro vulto de Kong, nas Muralhas em Chamas, o malabarismo de Ann, a avalanche de carne réptil, o entardecer no cimo da montanha, o vale dos insectos, a captura de Kong e todo aquele acto final na cidade, do anfiteatro ao pandemónio nas ruas, da romântica pista de gelo ao desfecho trágico e aterrador no Empire State Building, rasgando os céus num poderosíssimo clímax emocional. Eis, empolgante e assaz excitante, entretenimento da melhor qualidade.King Kong é a humanização da besta, do gorila, que face aos irresistíveis encantos da jovem Ann cede ao amor - ao amor como força maior da natureza. É o amor que lhe ditará a tragédia. It wasn't the airplanes. It was Beauty killed the Beast. King Kong, que agora Fran Walsh, Philippa Boyens e o próprio realizador re-adaptam, é também uma sátira acesa à avareza do Homem, cujos interesses prevalecem sobre valores essenciais, desrespeitando e ameaçando a natureza.

O trabalho fotográfico de Andrew Lesnie, assim como a pintura digital do frame, revelam-se fundamentais e imprescindíveis para a aura de beleza que emana do filme - do princípio ao fim. Tanto a direcção artística (
Grant Major, Dan Hennah e Simon Bright) como a montagem (Jamie Selkirk) são inteiramente excepcionais e a banda sonora de James Newton Howard soa íntima e magnífica, de acordo com os propósitos dramatúrgicos; pessoalmente, no entanto, creio que o filme beneficiaria bastante com uma banda sonora mais sonante e melódica, com temas que mais facilmente entrassem no ouvido. O som e os efeitos sonoros (Mike Hopkins, Ethan Van der Ryn, Christopher Boyes, Michael Semanick, Michael Hedges e Hammond Peek) são todos eles estrondosos, à altura da sofisticação e da imponência do projecto.

Há aspectos, contudo, mais criticáveis. Não me refiro nem a eventuais excessos do digital, nem, tão-pouco, à abundante publicidade que compõe os planos filmados (desde referências à Pepsodent e à Nestlé a luminosos letreiros da Universal, da Coca-Cola e da Chevrolet). São todos, parecem-me, pontos mais ou menos discutíveis, mais ou menos aceitáveis. Agora o que me parece grave é que King Kong nos apresente pela primeira vez os olhinhos cintilantes do seu macaco raivoso ao fim de uma hora e sete minutos. Repito, uma hora e sete minutos. É suspense a mais, parece-me. A narrativa demora-se em sequências de puro exibicionismo, pouco relevantes para a diegese e depois o filme fica exageradamente longo. Aquela viagem de navio para a ilha, para além de repetitiva, é por demais maçadora. Aquela elipse que corta imediata
mente para a cidade, essa sim, foi uma grande decisão, bastante necessária para a desenvoltura narrativa. Não fosse essa lentidão narrativa e estou certo de que este King Kong, de Peter Jackson, se revelaria uma experiência completamente extraordinária - atribuir-lhe-ia, nesse caso e sem hesitar, as cinco estrelas.

Ainda assim é um belíssimo filme.


21 comentários:

  1. Tenho que concordar. É um filme lindíssimo, mas que apesar de tudo o que possui nos sabe inevitavelmente a pouco.

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  2. Acho-o mt bom, mas nao conseguindo superar o 1º - para mim o melhor dos tres que foram feitos.
    Mas este e sem duvida um filme muito bom e muito bem feito.
    Bjs

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  3. CLÁUDIA GAMEIRO: Então estamos de acordo ;)

    GEMA: Não vi a versão original, mas acredito que não a tenha superado, apesar de ser um bom filme de entretenimento; sofisticadíssimo de um ponto de vista técnico.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. O original é muito mas muito melhor, é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, um classico absoluto responsavél por influenciar completamente os meus gostos cinematograficos :)

    Vê-o, porque ele já é bem velhinho :)

    Quanto a versão do Jackson é um pouco demorada a arrancar..... e no final continua a não gostar nada de ver o "abate" do Kong... vai-se lá saber porquẽ.. :)

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  5. NASP: Fico então com a recomendação ;) Não será para breve. Mas hei-de vê-lo quando tiver oportunidade, certamente. Obrigado!

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  6. É um bom filme, sem dúvida.

    O problema é que Jackson volta a cair no erro do terceiro Senhor dos Anéis: exagera na duração. Menos 45 min a este King Kong não ficavam mal.

    O elenco está muito bem, Jack Black supreendeu-me.

    Abraço

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  7. Bom filme, sem dúvida, que peca somente por ser talvez grande demais para o argumento que tem. Excelente fotografia e efeitos especiais, faltando um pouco mais de ritmo e banda sonora!
    A comparação com o Senhor dos Anéis, percebo-a, na medida em que são filmes muito longos, para mim no entanto se o Sda tivesse cinco horas eu iria sempre idolatrá-lo...lá está uma questão pessoal, de identidade perante a história!

    abraço

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  8. Epa, este é dos grandes filmes do seculo XXI... Supera o original... Tem cenas lindissimas, como aquela do gelo... Tem cenas cheias de suspense, como na falésia.... Opa... 5 estrelas

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  9. Eu sou uma pessoa que se mantém a favor que este filme foi um bom remake, um dos melhores do século XXI.
    É verdade que falha um pouco em relação ao original, mas é espectacular e arrojado a nível técnico. Serviu para mostrar que Peter Jackson não só fez de bom Senhor dos Anéis!

    Abraço
    Cinema as my World

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  10. JACKIE BROWN: Concordo com tudo o que dizes, inclusivé no que se refere a Jack Black, mas excepto na comparação com O SENHOR DOS ANÉIS.

    JORGE: "grande demais para o argumento que tem" - com essa frase é que dizes tudo. Subscrevo.

    JOÃO BASTOS: Estou genericamente de acordo contigo. Não sei se será dos "grandes do século XXI", dependerá muito do ponto de vista, certamente. Fico-me pelas 4 estrelas.

    NEKAS: Ah, sim, isso sem dúvida! Foi um grande remake! Mostrou, de facto, que Peter Jackson é muito bom naquilo que faz.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  11. Oi Roberto!

    Depois de um tempinho afastada to de volta. Assim que desejar faça uma visita la no cinecabeça.

    Hj com calma, passei aqui no seu blog para me atualizar e ver o que tens escrito de bom. Bem, não deu para ler todos, mas, li com atenção os que me chamaram a atenção e gostei muito de 3.

    O primeiro "King Kong", dirigido por Peter Jackson vi no cinema e gostei bastante da adaptação que ele fez, foi a melhor até agora. No entanto, não chega ao pés da primeira versão que tive o prazer de ver pela primeira vez no final do ano passado. O original da década de 30 para mim é magnífico. Apesar da falta de recursos, pois se não me engano o filme é de 1933 a idéia muito original e a forma como eles filmaram e construíram o macaco, foi extremamente bem feita. Claro, que olhando pelos olhos de hj vemos claramente os defeitos. No entanto, isto não tira a beleza e o encanto de um belo filme.

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  12. CINTIA CARVALHO: Antes de mais, muito obrigado pelos elogios e pela simpatia, e seja bem-vinda de volta ;) Desejo-lhe um regresso auspicioso.
    Quanto ao KING KONG de Peter Jackson estamos genericamente de acordo.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  13. Uff...as tuas fotos são uma coisa! :P Grandes cenas mesmo.

    Quando penso neste filme, não me consigo alhear do facto de ter sido um falhanço. O filme é bom, muito bom, na minha opinião, mas poderia ter sido uma obra-prima colossal e intemporal. Faltou a excelência, a ponderação e alguma contenção. Mas é um grande contributo para a carreira de Peter Jackson, não tenho dúvidas.

    abraço

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  14. Ora cá está mais uma prova de que o neozelandês Jackson se deveria ter dedicado a outra profissão qualquer. Mesmo na área dos filmes há lugar (e temo que cada vez mais) para este tipo de artífice. Este King Kong consegue ainda ser pior do que a remake feita em 1976. Pelo menos aí havia uma bela e sensual Jessica Lange. E,claro, nesse tempo ainda não tinhamos de levar com toda a pirotecnia dos efeitos digitais em cima.
    Deixem-me anotar o nome do senhor Jackson em sítio bem visível, para me proteger devidamente de futuras investidas.
    P.S.: Escusado será dizer que o único e "verdadeiro" King Kong do Cinema é o de 1933

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  15. JORGE: Referes-te às imagens da rubrica complementar Grandes Cenas. Obrigado ;) Concordo com o que dizes do filme, aliás já tinha concordado com o teu primeiro comentário.

    RATO: Obrigado pelo comentário bem humorado ;) Compreendo o que dizes, ainda que não concorde totalmente.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  16. Mais uma vez estou de acordo com o Rato, este King Kong é mesmo o pior de todos!
    Curiosa é a "desculpa" que os novos realizadores avançam para a feitura destas remakes - o serem "fans" dos filmes originais. Foi o que disse o Tim Burton quando realizou o (execrável) "Planeta dos Macacos", e este Peter Jackson quando resolvei ressuscitar outro macaco, o gigante. Mas depois fazem asneira, e da grossa, ao mancharem os filmes que dizem venerar. Há aqui uma grande contradição e por isso mais valia estarem quietos e deixarem os originais em paz e sossego.
    Até porque esta coisa das remakes é extremamente ingrata, sobretudo quando a obra copiada é um clássico absoluto. Que me lembre, apenas Hitchcock conseguiu fazer uma remake que suplantou largamente o original. Falo de "O Homem Que Sabia Demais" e, neste caso, foi ele o autor de ambos os filmes.

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  17. NOWHEREMAN: Vamos lá ser razoáveis. Vais-me dizer que já não vês o KING KONG de 33 da mesma forma? Que agora o desvalorizas, só porque foi feito um remake? Esse argumento é completamente absurdo, o de dizer que os remakes "mancham" os filmes originais. Por favor, os filmes originais serão sempre os filmes originais. Valem o que valem. Não é um remake, exterior ao original, que o vai manchar! Esse argumento vejo-o tantas vezes e é perfeitamente absurdo. A única hipótese de esse argumento fazer sentido é na tua cabeça, parece-me. Em que é que uma obra de 2005 pode ser ingrata para um clássico absoluto? Não é "absoluto", afinal, como tu bem dizes? Devia ser lindo um remake de GONE WITH THE WIND feito hoje manchar o original ou um O SÉTIMO SELO de hoje manchar o original.
    Posto isto, este KING KONG pode, de facto, ser o pior de todos. Podias esclarecer-nos melhor os teus pontos de vista, a respeito?

    Cumps.
    Roberto Simões
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  18. ROBERTO: Entendeste o meu comentário anterior totalmente ao contrário! Quando digo que as remakes "mancham" os originais o defeito ou a "mancha" está na remake, não no original. E é claro e felizmente que continuo a ver os originais do mesmo modo que sempre vi. Ou ainda melhor, depois de ver as asneiras que se fazem hoje em dia.

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  19. NOWHEREMAN: Desculpa, mas eu entendi precisamente aquilo que disseste. Relembro: "ao mancharem os filmes que dizem venerar." Pela minha análise sintática, "mancharem" refere-se claramente aos "filmes que dizem venerar" ;) O lapso foi porventura teu. Mas pronto.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  20. ROBERTO: Bastava perceber o teor do meu comentário para ver qua a tua interpretação não fazia qualquer sentido.
    Mas deixa lá. a "língua portuguesa é muito traiçoeira" e o que interessa é agora não haver qualquer dúvida quanto àquilo que eu penso: SIM AOS ORIGINAIS, NÃO ÀS REMAKES!
    Já antecipo da tua parte um qualquer epíteto de "afirmação redutora", mas os exemplos vão-se avolumando ao longo dos tempos. Quando as ideias escasseiam deitam mãos às remakes, mas quase sempre com maus resultados. O mesmo princípio se aplica às sequelas, com algumas excepções a confirmarem também a regra - a 2ª parte do "Padrinho", por exemplo.

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  21. NOWHEREMAN: Vais desculpar-me, com todo o respeito, mas eu não posso ler uma coisa e interpretar outra, que por acaso (ou não) é aquilo que tu pensas. "a língua portuguesa é muito traiçoeira", mas nem foi esse o caso. Perante as circunstâncias, não precisas ficar indignado por não te ter interpretado correctamente. A humildade em assumir que concretizaste mal a frase também não te ficava mal, mas enfim: foi um mal entendido, está o assunto arrumado. Vamos falar de cinema.
    E falando de cinema, não estou propriamente em desacordo contigo. Quantos não são os remakes ou sequelas desnecessárias. Há outras que recriam. Eu não posso argumentar muito mais agora quanto ao KING KONG, porque ainda não vi o original de 33. Contudo, não preciso vê-lo para me aperceber de muitos dos seus méritos. Aí, sim, estamos em desacordo. Eu considero o KING KONG de Peter Jackson um bom filme (apesar dos seus defeitos) e tu não.

    Cumps.
    Roberto Simões
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CINEROAD ©2017 de Roberto Simões