quarta-feira, 19 de maio de 2010

REVOLUTIONARY ROAD (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Revolutionary Road
Realização: Sam Mendes
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon, David Harbour, Kathryn Hahn, Dylan Baker

Crítica
:

O DESESPERANTE VAZIO DA VIDA A DOIS

1º Acto | Sobre a expectativa e a felicidade

Quando solteiros, cada um de nós tem uma certa imagem de si próprio e, até certo ponto, uma imagem de si próprio projectada num futuro imaginado. Ao exercício, à efabulação, chamam-lhe: expectativas, expectativas de vida. Porém, o momento em que conhecemos a nossa cara-metade marcará um ponto de viragem no nosso percurso. A pessoa pela qual nos apaixonamos, a qual conheceremos, a qual amaremos e com a qual aceitaremos partilhar os nossos dias, é igualmente um indivíduo com a sua dose de expectativas. O ponto de viragem é o ponto em que as nossas individualidades cedem e se ajustam à construção de um projecto conjunto. E que não haja dúvida: uma relação é uma construção. Cada uma tem o seu tempo, a sua morosidade... Na verdade, e uma vez iniciada, a construção nunca acaba. Os ingredientes são sempre os mesmos e são todos tão necessários quanto possíveis; só variam as doses, de casal para casal: verdade, silêncio e diálogo, afecto, respeito, honestidade, fidelidade, compreensão e espaço próprio. Da reciprocidade e do equilíbrio da receita nascerá, entre os dois seres, um elo único, que se fortalecerá com o tempo e que se traduzirá em felicidade. Eis, pois, o segredo da felicidade.

2º Acto | Sobre a frustração e a infelicidade

O segundo e indesejado ponto de viragem na relação entre duas pessoas é quando cai o primeiro tijolo, antecipando a ruína e a destruição. Nem sempre as relações atingem este 2º acto; todavia, e como sabemos bem, a realidade das pessoas está repleta de relações mal-sucedidas que em vez de caminharem para a construção fazem o caminho inverso. Nesses casos, saem defraudadas do jogo de expectativas a dois, ficam frustradas, aborrecidas, cheias de dúvidas e caem na rotina e no vazio. Ofendem-se, traem-se, magoam-se e a relação acaba, na infelicidade. Ou mediram mal as doses ou nem usaram os ingredientes certos. Em si próprias encerram cacos da destruição.

April e Frank, brilhantes desempenhos de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, inscrevem-se neste 2º acto. Apesar de tanto tentarem o diálogo, a falta de verdade das suas palavras jamais fez juz àquilo que sentiam. Talvez o silêncio lhes tivesse sido a melhor forma de diálogo, porque ao menos o silêncio é verdadeiro.

Às tantas, o processo de destruição é irreversível a tal ponto que não há mais possibilidade para a catarse e a história dos dois precipita-se para a tragédia.

Último Acto

Revolutionary Road analiza esta complexidade do casamento e da vida a dois. Explora a fórmula do melodrama de forma intensa, visceral e perturbadora. The hopeless emptiness? Now, you've said it. Plenty of people are on to the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness...

Sam Mendes é magistral na arte de filmar, virtuoso na contenção e fluído na adaptação do romance de Richard Yates a partir do igualmente muito bem escrito argumento de Justin Haythe. Com um arrojado e minucioso trabalho de mise-en-scène, uma subtil banda sonora de Thomas Newman - que chega sempre no momento certo - e um absolutamente memorável trabalho de actores (notem-se também os secundários Michael Shannon e Kathy Bates), eis pois - e em suma - uma obra de elevada maturidade e inequívoca competência artística. Mais uma, sob o selo autoral do realizador.

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Nota especial para algumas das Cenas Cortadas, fenomenais, cuja exclusão era, a meu ver, perfeitamente prescindível.

15 comentários:

  1. Ah conseguiste! Não é excelente, mas é Muito Bom... tá bem! :)

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  2. Uma crítica extremamente virtuosa como o filme. Excelente divisão por actos, excelente explicação... sim, talvez seja essa a explicação para gostar tanto do filme. Identifico-me com ele, sim.

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  3. Então, eu acho que Revolutinary Road é um filme "bom" e não "muito bom". Mas eu devo fazer torrenciais elogios às atuações dos atores principais. Eu os vi muito dedicados, bastante empenhados em construir seus personagens. Acredito inclusive que ambos deveriam ter sido nominados na cerimônia do Oscar desse ano.
    Acho brilhante a maneira como o diretor soube captar od esgate do relacionamento. Soube, inclusive, como colocar eventos positivos - como as esperanças que eles tinham de mudar para Paris - e destruí-los comf rieza logo em seguida.
    Ainda assim, acho que falta alguma coisa no filme. Eu não me senti totalmente entregue à narrativa.
    Devo fazer meu último elogio à última cena de Kate Winslet: está linda, olhando pela janela, enquanto aquela música toca ao fundo, conseguindo nos arrastar para baixo tal como acontecera à personagem.

    =)

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  4. Gostei muito do filme, mas foi mais por causa das magnificas interpretaçoes da dupla protagonista! Grande DiCaprio e amusa Winslet!

    abraço

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  5. TIAGO RAMOS: Sim, para mim, a pontuação justa é o MUITO BOM. Obrigado pelo elogio à crítica ;) Ainda bem que gostaste. O filme é, de facto, magnífico.

    LUES: Estou de acordo no que diz do filme, excepto quando alude para a possibilidade de lhe faltar qualquer coisa. É certo que já se sabe que os gostos e as avaliações são muito subjectivas, mas é igualmente verdade que um filme como REVOLUTIONARY ROAD exige bastante maturidade por parte do espectador. A última cena de April é, de facto, sublime.

    JOÃO BASTOS: De facto, as interpretações de Winslet e DiCaprio são o grande "cartão de visita" do filme! Magistrais.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  6. Excelente crítica, completa avaliação do drama em causa. Eu li o livro e só depois vi o filme. Confesso que enquanto lia, houve momentos em que não entendi bem onde o autor queria chegar, dúvidas que a insterpretação de Sam Mendes me ajudou a completar. Por isso também concordo contigo quando dizes que é necessária certa maturidade para se perceber a história em causa.
    A obra foi tristemente esquecida no ano passado...

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  7. CLÁUDIA GAMEIRO: Obrigado pelo elogio ;) Pois foi esquecida... e não acredito que o futuro lhe traga um reconhecimento assaz exponencial, mas é um grande filme. Muito maduro, sim, sem dúvida.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  8. Já vi Revolutionary Road o ano passado, mas nunca decidi falar dele porque não o acho um filme muito bom. É um drama típico novelístico e sobretudo um filme muito à americana. E isso é que evita que o filme seja mau (além das interpretações). A cor, as sombras, o ambiente. É muito classicista mas é em contrapartida é sobretudo muito novelístico e muito banal na problemática duma relação como o matrimónio. Discordo completamente com a magistral arte de filmar de Sam Mendes porque quanto a mim é uma arte de filmar muito usual em Hollywood. Tem uma construcção narrativa e um desenvolvimento da história bastante banal.O filme é acima de tudo lamechas e por isso nunca passará da linha ténue entre o bom e o razoável.
    Minha opinião é claro.

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  9. ÁLVARO MARTINS: A tua posição ficou clara e, segundo creio, bem argumentada. É um filme que recupera a grande tradição melodramática de Hollywood e que não inova muito, em termos de história. Aliás, REVOLUTIONARY ROAD (como bem deves saber) é um romance dos anos 50 e marcou muito a literatura desse registo desde então, sendo uma referência. Digo isto porque li, não por conhecer a literatura em questão. A "lamechice" é uma marca do registo melodramático, goste-se ou não. Creio que o que mais motiva a minha valorização da obra é a forma como se processa a destruição de uma relação. REVOLUTIONARY ROAD é profundamente analítico e disseca com grande maturidade o assunto, acima de qualquer tom de novela, com uma tensão crescente e que culmina na tragédia de April. É o melodrama na sua melhor forma, suportado pelas brilhantes 'performances' de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. A arte de filmar de Sam Mendes não é abonada de qualquer genialidade, mas a contenção e o equilíbrio e a subtileza são qualidades que muito aprecio no realizador.
    REVOLUTIONARY ROAD não é nenhuma obra-prima. Mas o que faz, faz bem, faz muito bem e a história é bem contada (se tivesse outro argumento, talvez corresse o risco de cair na banalidade - o que para mim não aconteceu). Ou seja, trata-se de um filme bem feito, do qual gostei especialmente dada a qualidade que lhe reconheço, e isso para mim basta-me para lhe atribuir a nota que lhe atribuí.
    Temos, pois, opiniões distintas, apesar de compreender o que queres dizer.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  10. Sim, excelente crítica! Revolutionary Road é, de facto, um grande filme.

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  11. FLÁVIO GONÇALVES: Muito obrigado ;) Estou de acordo, é um filme muito bom.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  12. Muito taciturno, muito sentido. Revolutionary Road é um trunfo com todas as letras, que conta com uma Kate Wislet e um Sam Mendes excepcionais. Leonardo DiCarpio ainda não me convenceu.

    Abraço

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  13. JACKSON: Concordo com todas as letras ;) Excepto as envolvidas em "Leonardo DiCaprio" ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  14. Sim um filme deveras muito interessante, maduro tal como dizes, e que nos faz reflectir.
    Não sendo de todo dos meus géneros preferidos, este filme teve o dom de me agarrar ao ecrã com relativa facilidade, muito devido às interpretações de DiCaprio e Winslet que catapultam o filme para um patamar que a história por si só talvez não fosse capaz de atingir. É certo que este é dos tais filmes que os actores são imprescindíveis para o sucesso do mesmo, contudo me parece que aqui os actores transcenderam-se, de elogiar e muito.

    Argumento bom, banda sonora igualmente a destacar, caracterização de época em nada a assinalar...para mim de facto os personagens é que tornam esta história excelente, daqueles filmes que rimos, choramos, irritamo-nos, sorrimos, divertimo-nos, em suma uma peça de extrema qualidade que, assim sem pensarmos muito, nem percebemos bem porque é, dada a premissa.

    abraço

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  15. JORGE: Estamos então inteiramente de acordo ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
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