quarta-feira, 30 de junho de 2010

A CRIANÇA (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: L'Enfant
Realização: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Principais Actores: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet, Stéphane Bissot, Mireille Bailly

Crítica:

À MARGEM, À DERIVA

Poucas palavras para um grande filme. O realismo como estética. A tentativa de representação da realidade tal como ela é, dura e crua, sem artifícios. A Bélgica contemporânea e uma questão social séria e preocupante: uma geração imatura e irresponsável, sem objectivos e sem rumo, entregue a si prória... que se vê a braços, inesperadamente, com a gravidez precoce e não-planeada.

Bruno e Sonia são o espelho dessa realidade. Descomprometidos com o futuro, apáticos do mundo. Não trabalham, não têm laços familiares, ele vive para as drogas e para a delinquência, ela limita-se à paixão e ao sustento desonesto por parte dele. Têm um filho, mas as crianças maiores são eles. Fumam, discutem enquanto conduzem, distraem-se uma e outra vez, ignorando a fatalidade da vida. A câmera dos Dardenne observa-os de perto, segue-os de perto, obsessivamente. E o bebé naquele meio, em risco permanente, sem amor. Apenas nasceu. Na primeira vez que Bruno cuida do filho, imagine-se, vende-o para adopção. Ganha um bom maço de notas. Mais do que negligente ou irresponsável, o seu comportamento e a sua atitude são plenamente amorais.

O filme não é moralista, mas a moral recai sobre o espectador. Condenamos aqueles seres infantis, mas temos dificuldade em apontar o dedo e a culpa. Quem são os responsáveis? Que esperança há para aquela criança, não sabemos bem. Mas se pensarmos se há ou não esperança para aquele casal, para Bruno, sobretudo... temos novamente dificuldade em pensar sobre isso. Aperceber-se-á ele, alguma vez, do sentido da vida? Haverá tempo, ainda, para interiorizar valores essenciais? Até quando dura a infância? Que adultos estamos nós, sociedade, a formar?

O realismo está de boa saúde, nas mãos dos Dardenne.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A CELA (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Cell
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Jennifer Lopez, Vince Vaughn, Vincent D'Onofrio, Jake Weber, Marianne-Jean Baptiste, Dylan Baker

Crítica:

O LABIRINTO DOS MEDOS

Mais do que um mergulho vertiginoso na mente de um psicopata assassino, A Cela é um tenebroso e bizarro policial sci-fi, capaz de desafiar todas as fronteiras entre o real e o imaginário e de sonhar os mais recônditos mistérios da psique humana, onde confluem memórias e medos. O visionário e genial Tarsem Singh, realizador da obra-prima Um Sonho Encantado, assina aqui o seu primeiro banquete visual, colossal e estonteante, de uma exuberância poética e espectacular. Um exótico, magnetizante e prodigioso pedaço de arte.

Howard Shore compôs também - e não será por acaso - a banda sonora de O Silêncio dos Inocentes e de Sete Pecados Mortais. O filme de Fincher foi beber inegável inspiração ao de Demme. E A Cela foi bebê-la aos dois. Quem gostou de qualquer um desses clássicos dos anos 90, gostará certamente muito deste também. Aqui não temos um canibal, qual Hannibal Lecter, nem um ferveroso da religião, qual John Doe. Temos, sim, um assustador esquizofrénico, de fortes e pervertidas taras sexuais, mas igualmente assassino em série, perturbado pelos traumas do passado e intensamente procurado pelas autoridades. Esse demente é Carl Stargher; Vincent D'Onofrio, num desempenho intenso e assustador.

A acção do filme não é datada, mas decorre num tempo onde foi desenvolvido um processo de psicoterapia inovador e revolucionário, por meio do qual uma profissional como Catherine Deane (Jennifer Lopez, sensual e cativante) pode entrar na mente dos pacientes.

Do you believe there is a part of yourself, deep inside in your mind, with things you don't want other people to see? During a session when I'm inside, I get to see those things.
Catherine Deane

O universo onírico, ao qual temos acesso priveligiado, é uma dimensão absolutamente surreal e impressionante, de uma beleza indescritível e assombrosa. Nesse mundo, o guarda-roupa é faustoso (Eiko Ishioka e April Napier), os cenários extraordinários e cheios de cor (Tom Foden, Geoff Hubbard e Michael Manson), ainda que mórbidos na combinação, e a caracterização (Michèle Burke e Edouard F. Henriques) é deveras exigente, de um detalhe e pormenor notáveis.

Quando Stargher é localizado e capturado, há uma vítima cujo cadáver ainda não foi encontrado. Pode, por isso, ainda estar vida. Todavia, o demente caíra em coma profundo e, segundo o diagnóstico dos médicos, jamais acordaria... Peter Novak (Vince Vaughn) é quem lidera as operações e jamais se perdoará se não tentar tudo por tudo para encontrar a jovem. É na tentativa de descobrir o seu paradeiro que decide submeter o monstro ao método terapêutico, desbravando o seu inconsciente e seguindo todas as pistas: Catherine, contudo, envolve-se muito mais no caso do que o esperado. O risco dá lugar a uma experiência verdadeiramente perigosa e abismal e a terapêuta acaba perdida e aprisionada em território desconhecido, em plena mente do crimonoso e sob o seu total controlo. Enfrentará os seus piores medos, na tentativa de matar a besta e de salvar a essência corrompida daquele ser hediondo. O pesadelo... torna-se real.

Imerso em psicanálise, repleto de suspense e abrilhantado por um trabalho fotográfico assaz arrojado, criativo e hipnotizante (Paul Laufer), A Cela impõe-se com um triunfo ímpar, justificando assim toda a aura de culto que, com o tempo, floresceu - merecidamente - à sua volta. Imperdível.

sábado, 26 de junho de 2010

3 Grandes Interpretações Femininas

Vivien Leigh em E Tudo o Vento Levou

Nicole Kidman em As Horas

Björk em Dancer in the Dark

Estas são três das minhas grandes favoritas de todos os tempos.
E quais são as suas?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

PSICO (1960)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Psycho
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam, Simon Oakland

Crítica:

IDENTIDADE MISTERIOSA

Psico é puro suspense. Mesclam-se nele, indistintamente, mistério, tensão e arrepio; os quais se fazem suster de personagem em personagem, de plano em plano e de acorde em acorde... aguçando ao extremo a vontade de saber o que vem a seguir. Desse prisma, o argumento de Joseph Stefano (adaptando a obra de Robert Bloch) mostra-se não só implacável como absolutamente inteligente e assaz escrupuloso no jogo de expectativas que estabelece com o espectador.

Igualmente fulcral para a criação da atmosfera aterrorizante que cresce ao longo de toda a obra é a frenética banda sonora de Bernard Herrmann - para mim, uma das melhores de sempre. Mas também, claro, a poderosíssima e perturbante imagística: resultado da excelência fotográfica, da cadência engenhosa da montagem, da meticulosa encenação e da fruição artística do mestre. O protagonismo, esse, alterna constantemente entre as personagens, deixando a história em aberto e nas mãos da imprevisibilidade. Janet Leigh como Marion Crane? Magnífica, imortalizada por tão carismática interpretação - que vai muito para além da memorável cena do duche. Anthony Perkins como Norman Bates? Verdadeiramente assombroso. Aquele seu olhar final directamente para a câmera, para os nossos olhos, magnetiza-nos para o seu universo de demência, loucura e personalidade múltipla... e é como se nos invadisse o inconsciente até ao mais gélido e frágil recôndito da psique e nos marcasse para sempre.
Psico? Fonte de génio e de inspiração. Cinema em grande.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

10 Breves Perguntas (17)

Eis o antepenúltimo questionário.
Desta vez... Hugo Quilici, autor do blogue Cinema - Filmes e Seriados, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
Cidade de Deus | The Dark Knight

2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Pulp Fiction
3. Um Amor de Infância:
7 Faces of Dr. Lao
4. Um Filme de Animação:
Toy Story
5. Uma Comédia: It's a Mad, Mad, Mad, Mad World
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
Kill Bill (Vol. 1 e 2)
7. Tantos detestam. Eu adoro:
The Wedding Singer
8. Um elenco:
Pulp Fiction

9. A Melhor Fotografia que conheço:
The Thin Red Line

10. Já mudei de ideias sobre este filme:
Do the Right Thing

Um muito obrigado, Hugo Quilici.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

terça-feira, 22 de junho de 2010

O SÉTIMO SELO (1957)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Det sjunde inseglet
Realização
: Ingmar Bergman

Principais Actores: Max von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson, Åke Fridell, Maud Hansson, Gunnel Lindblom

Crítica:

Quem és tu?

O JOGO DE XADREZ



Sou a Morte.

Passada uma década de sangrentas e distantes cruzadas, o cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow) torna a casa. Na viagem de regresso, encontra um país assolado pela peste e pelo medo, pela superstição e pela repressão da Igreja. O cenário é o dos Dias do Fim. O Apocalipse, anunciado na Bíblia, parece ter chegado. Na praia, enquanto medita a existência, cruza-se um dia com a imponente e altiva figura de negro: a própria Morte acabara de aparecer, tencionando levá-lo para sempre. O cavaleiro propõe-lhe, contudo, uma partida de Xadrez. A condição é continuar a viver se a derrotar, pois gostaria de descobrir, antes de partir, o real sentido da vida. A Morte, segura de si, aceita o desafio e permite-lhe um adiamento.

Quero confessar-me, mas tenho o coração vazio - confessa o cruzado. - Vazio, como um espelho virado para a minha própria cara. Vejo a minha imagem e sinto nojo e medo. Pela minha indiferença para com os meus semelhantes, fui marginalizado quanto ao companheirismo. Agora vivo num mundo assombrado, prisioneiro dos meus sonhos e fantasias.
Quero obter o Conhecimento. (...) É tão inconcebível chegar a Deus apenas pelos sentidos. Porque é que ele se esconde numa atmosfera de promessas vagas e de milagres invisíveis? Como podemos ter fé nos fiéis, se não a temos em nós próprios? Que acontecerá àqueles que não podem ter fé ou àqueles que não a querem ter? Porque não posso eu destruir o Deus que há em mim? Porque é que Ele vive em mim, penosa e humilhantemente, ainda que O maldiga e O queira arrancar do coração? Porque é que, apesar de tudo, Ele é uma realidade para mim? (...) Não quero fé, nem presunção, mas Conhecimento. Quero que Deus me estenda a mão, se mostra e me fale.

Antonius adopta, pois, um forte e determinado posicionamento crítico, questionando os alicerces e as fundações da fé. Denota, por isso, uma tremenda angústia existencial. Creio que é compreensível: durante anos batalhou em nome da cruz e da religião dos Homens, mas nunca teve provas do divino. Que evidências sustentarão a sua atitude e justificarão os actos que praticou? Que absolvição terá? Afinal, muitas foram as vezes em que chamou por Deus na escuridão. O infindável e misterioso Silêncio foi a única resposta que sempre obteve.

Há que criar uma imagem do nosso medo e chamar-lhe Deus. (...) A minha vida tem sido de perseguição, caça e movimento, de conversas sem significado ou sentido. Tem sido um nada.
(...) Não se pode viver enfrentando a Morte, sem possuir qualquer conhecimento.

Mal sabia o cavaleiro que o ouvinte do outro lado era traiçoeiro e desonesto. A Morte perseguia-o e procurava escutar a sua estratégia de jogo. Quantas vezes mais não teria a sua esperteza que superar a da Morte para conseguir vencer a partida? Ou melhor, seria possível alguma vez levar a melhor sobre a Morte? Qual Dom Quixote, também a sua viagem será de perguntas e respostas, de profundas indagações teológicas e filosóficas. E qual personagem quixotesca, também o contraponto deste plano etéreo se fará, a jeito de comic relief, com um terreno e pragmático Sancho Pança, cheio de graça e de bom humor:

Sou o escudeiro Jons. Escarneço da Morte, rio-me de nosso Senhor e de mim próprio e sorrio para as raparigas! (...) As cruzadas são um disparate, só um tolo ou um idealista as poderia ter inventado.

A obra-prima de Ingmar Bergman equilibra-se magistralmente sobre estas duas dimensões: de um lado o erudito, o filosófico, o existencial, de outro o mundano e as trevas da ignorância, de quem quer simplesmente viver - há quem se divirta entre o álcool e as mulheres das estalagens, quem cante e dance até cair de cansaço, quem ceda ao pranto e às lamúrias, quem roube os mortos e quem queime as bruxas e quantos dormem com o diabo, como se pelo fogo purificassem o espírito dos profanos. Morreremos todos com a Peste Negra: é esse o castigo de Deus e é esse o augúrio dos monges profetas, que se aproveitam das gentes espalhando o medo e o terror. Os populares interiorizam-no sem cepticismos, deleitando-se no pecado e nos prazeres da vida. As suas sepulturas abrir-se-ão, com o tempo. E tanto para Antonius Block como para as outras personagens, os encontros com a Morte suceder-se-ão, muitas vezes definitivos.

Von Sydow, Bengt Ekerot e cada elemento do elenco secundário é absolutamente excepcional. Grandes performances, grande história. Notas especiais para o subtil trabalho de montagem (Lennart Wallén), para a imprescindível banda sonora (Erik Nordgren), para a extraordinária concepção cénica (P.A. Lundgren) e para o incrível preto e branco (Gunnar Fischer).

O Conhecimento em vida far-se-á apenas pela máxima horaciana carpe diem; é esse o único conhecimento do qual o cavaleiro se apercebe: regido por tamanho princípio, cada momento da sua vida valerá muito mais e saberá muito melhor, que nem morangos silvestres no alto de uma colina, ao entardecer. Nada irrita mais a Morte do que um sorriso sincero ou a ideia de um dia bem passado. O fim de todas as coisas, esse, é inevitável e tudo o resto jamais será atingido. A Ceifeira ou o ser metafórico, como é chamado uma vez por uma das personagens, espera-nos a todos, mais tarde ou mais cedo - e, sabemo-lo, os peões são mesmo os mais susceptíveis ao adeus da partida. Seguem-se-lhes as torres, os cavalos e os bispos, a rainha e o rei. À eternidade somente ascendem os artistas, como preconiza o magnífico final, pleno de simbolismo. Para esses, o jogo far-se-á no Tempo que há-de vir. Talvez por isso não constem artistas no jogo de Xadrez.

O Sétimo Selo transcende, igualmente, qualquer partida do Tempo e da Morte. É eterno e uma das obras máximas do cinema mundial. De uma sublimidade inquestionável. Xeque-mate.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (3)

Continua a nova rubrica.
3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| David Martins, CINE 31Equilibrium (2002), de Kurt Wimmer
Coisa Ruim (2006), de Tiago Guedes e Frederico Serra
Superman Returns (2006), de Bryan Singer

| Álvaro Martins, Preto e BrancoLos Muertos (2004), de Lisandro Alonso
Trilogia: To livadi pou dakryzei (2004), de Theodoros Angelopoulos
Juventude em Marcha (2006), de Pedro Costa

| Weiner, A Grande ArteBilly Elliot (2000), de Stephen Daldry
Requiem for a Dream (2000), de Darren Aronofsky
Artificial Intelligence: A.I. (2001), de Steven Spielberg

A INFÂNCIA DE IVAN (1962)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Иваново детство / Ivanovo Detstvo
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Nikolai Burlyayev, Valentin Zubkov, Yevgeni Zharikov, Stepan, Krylov, Nikolai Grinko, Dmitri Milyutenko, Valentina Malayavina

Crítica:

AS RUÍNAS DA INOCÊNCIA

Imaculado. Puro. Belíssimo. Assim é o cinema de Andrei Tarkovsky e assim é A Infância de Ivan. Os toques poéticos do autor, extremamente sensíveis e virtuosos, reflectem-se em toda e cada uma das cenas e imagens da obra: nas árvores brancas e nos riachos cintilantes de uma natureza condenada pela guerra dos homens... nas chamas cadentes e na infância perdida de um tempo corrompido e cruel onde secou a esperança e onde só há espaço para a tragédia e para o desgosto... no sonho, refúgio de memórias, onde um sorriso abraça e reconforta o coração de uma criança inocente, escapando às agruras do real e aos horrores da loucura humana.

Emocionalmente arrebatadora e - eu diria mesmo - desoladora, a primeira longa-metragem do génio e visionário russo conta-nos a história de Ivan, um corajoso e destemido loirinho magricelas de pele e osso, um menino feito órfão pelas atrocidades da 2ª Guerra Mundial e apadrinhado pelo exército da União como espião, e que vive cada instante como se fosse um adulto, como se fosse um soldado da frente soviética e um elemento não só útil como preponderante na estratégia bélica. A morte da mãe e da família abandonou-o à mais completa solidão e é esse o factor que motiva a sua atitude beligerante e a sua tenacidade em resistir com empenho às dificuldades do momento. Ivan, de doze anos, parece ser o único a acreditar que todo aquele pesadelo de sangue e morte vai acabar. Veja-se a metáfora do velho do quadro, que afirma que nada vale a pena. Ivan continuará a sua missão até ao fim, sem cessar: só descansa em tempo de guerra quem não presta, riposta imediatamente, quando um dos soldados lhe diz que deveria descansar e estudar.

Ao mesmo tempo que reproduz com assaz e profundo realismo o drama e as penosas consequências do confronto (e em especial o impacto psicológico do poder destrutivo da guerra para uma criança), A Infância de Ivan aventura-se, com uma destreza e criatividade incríveis, pelo surrealismo, pelo maravilhoso e pelo fantástico do universo onírico. A transição entre as duas dimensões supera-se eximiamente e na façanha reside uma das qualidades mais admiráveis da obra: aquela cena em que o pequeno Ivan (atravessado o pântano, o frio, a fome e as balas) adormece sobre os cuidados do tenente Galtsev (Yevgeni Zharikov) e liricamente se ascende (tanto pelo som como pela arte de filmar) pelo poço de recordações ao reconforto de um passado precioso... é absolutamente extraordinária. Uma outra cena reside entre as mais memoráveis da obra: as trincheiras rasgam a terra e as oportunidades para encontrar o amor escasseiam. Aquele beijo inesperado em que o capitão Kholin (Valentin Zubkov) envolve a enfermeira Masha (Valentina Malyavina), deixando-a em suspenso sobre a valeta, é de uma beleza indiscritível e de uma carga simbólica notável.

O preto e branco de Vadim Yusov, no máximo da perfeição, eleva e sublima as potencialidades da fotografia, permitindo-nos a nós, espectadores, respirar a paisagem. A banda sonora de Vyacheslav Ovchinnikov enebria-nos com a sua emoção e subtileza, a montagem de Lyudmila Feiginova flui cuidada e irrepreensível. No seu todo, A Infância de Ivan apresenta-se como um todo brilhante, capaz de nos confrontar com as mais pertinentes reflexões filosóficas.

Um clássico obrigatório é dizer pouco: obra-prima absoluta!

domingo, 20 de junho de 2010

A DOCE VIDA (1960)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: La Dolce Vita
Realização: Federico Fellini
Principais Actores: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Yvonne Furneaux, Magali Noël, Alain Cuny, Annibale Ninchi, Walter Santesso, Valeria Ciangottini, Riccardo Garrone, Ida Galli, Audrey McDonald

Crítica:

OS INÚTEIS


A Doce Vida poderia intitular-se A Boa Vida, perfeitamente... Até Cristo anda de helicóptero. E com essa provocadora imagem é iniciada toda uma dissertação sobre a decadência existencial.

Com Marcello Rubini (personagem de Marcello Mastroianni, acertado e tão natural no seu papel) somos levados a conhecer a elite da perdição. Há dinheiro, há fama, há prestígio... mas não há muito mais naquelas vidas vazias. A não ser, claro, as três grandes evasões: fumar, beber e ir para a cama. Muito fumo, muito álcool e muito sexo jamais poderão faltar. Marcello vagueia de cena em cena que nem o argumento, de episódio em episódio, com mais ou menos coerência. O trabalho de cenografia e de guarda-roupa são magníficos. Anita Ekberg imortaliza uma das mais icónicas femmes fatales da História do Cinema, sendo que pelo filme deambulam também muitas outras. O universo feminino de Fellini é sempre - diga-se - rico em mulheres de carácter forte, vincado e irresistível. A ponte deste mundo de loucos com a realidade é feita tanto por Maddalena, a namorada de Marcello, como pelas sanguessugas (os paparazzi, que se alimentam destes bons vivants até ao tutano, sem quaisquer preocupações éticas) ou pela encantadora rapariga do bar da praia.

No seu todo, todavia, não creio que A Doce Vida prime pela coesão narrativa. Os episódios sucedem-se, uns mais necessários do que outros, o tempo arrasta-se e o próprio filme se arrasta, parecendo nunca mais acabar. Penso, também, que há muito mais inspiração noutros títulos de Fellini. É uma obra bem fotografada, com uma ou outra cena memorável, mas que apesar disso não encerra em si nenhum feito extraordinário. Lá que o vazio daquelas vidas assombra o filme, lá isso é indiscutível. Mas enquanto assistia ao filme jamais deixei de pensar em como a minha vida seria mais útil se - realmente - estivesse a fazer outra coisa...

DR. ESTRANHO AMOR (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, James Earl Jones

Crítica:


A IRONIA DA GUERRA


One of our base commanders, he had a sort of... well, he went a little funny in the head... you know... just a little... funny.

Dr. Estranho Amor
é ambíguo no título e no subtítulo (Ou: Como Aprender A Deixar De Me Preocupar E A Amar A Bomba) e é ambíguo no retrato que faz da condição humana. Explora, por um lado, o absurdo e ridículo da guerra, da política e da diplomacia inócuas e as consequências inesperadas mas sempre possíveis da loucura, da paranóia e do medo de um mundo à beira do desastre e por demais perdido no caos da ameaça nuclear. Por outro lado, o filme metaforiza - e é nesse estilo que ganha contornos globais e intemporais.

A obra exemplifica como a guerra pode servir e alimentar os propósitos individuais dos poderosos. Aqueles políticos da Grande Sala são os estrategas dos destinos do mundo, ocupados com o jogo da Guerra, como se este não passasse de uma competitiva corrida de testosterona, onde a "bomba no alvo" é algo bem explícito e desprovido de metáforas; como se a Guerra fosse um mal pelo qual se acaba por desenvolver um autêntico Estranho Amor, do qual se extrai múltiplas vantagens pessoais. Note-se a personagem de George C. Scott (aqui num desempenho de overacting formidável) que tanto se empenha em evitar o conflito e que, por fim, se sente seduzido pela bomba e pelos seus hipotéticos proveitos sexuais. A personagem Dr. Estranho Amor é, das três versáteis e extraordinárias interpretações do genial Peter Sellers, a que simboliza melhor, muito provavelmente, toda a ambiguidade do filme: faz parte do conselho de guerra, aparentemente inofensivo, e, no entanto, trata-se de um lunático e reprimido nazi, sinistro e maquiavélico, mestre de bombas, com as ideias mais avassaladoras, monstruosas e perigosas, ainda que fisicamente impotente e aprisionado numa cadeira de rodas.

De um humor negro e corrosivo, Dr. Estranho Amor impõe-se politicamente satírico e provocador e implicitamente tão sexual: desde os unusuais créditos iniciais até ao seu desfecho apocalíptico. E se pelo título e subtítulo já é sugestivo que baste, por meio do seu perpicaz, audacioso e muito bem escrito argumento (já para não falar da genialidade do art concept dos cenários ou da sublime e paradoxal utilização da banda sonora), Stanley Kubrick concebe aquela que é, para mim e indiscutivelmente, uma das melhores comédias de sempre.

BANDO À PARTE (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Bande à part
Realização: Jean-Luc Godard

Principais Actores: Anna Karina, Danièle Girard, Louisa Colpeyn, Chantal Darget, Sami Frey, Claude Brasseur, Georges Staquet, Ernest Menzer, Jean-Claude Rémoleux

Crítica:

OS REBELDES

Pour les spectateurs qui rentrent en ce moment dans la salle tout ce qu'on peut dire ce sont quelques mots pris au hasard: il y a trois semaines, pas mal d'argent, un cours d'anglais, une maison près de la rivière, une jeune fille romantique.
Narrador

É simples, mas virtuoso como poucos. É espontâneo, intimista, carismático. Tem uma narrativa linear, plena de homenagens ao cinema de Hollywood (ao western, ao musical e sobretudo ao cinema policial: Je vais faire de Bande à part un petit film de série Z comme certains films américains que j'aime bien. Jean-Luc Godard), mas nem por isso deixa de quebrar convenções: o narrador/autor conduz a história com várias interrupções, manipulando-a quando bem pretende: Ici on pourrait ouvrir une parenthèse et parler des sentiments d'Odile, de Franz et d'Arthur, mais, après tout, tout est déjà assez clair, mieux vaut donc laisser parler les images et fermer la parenthèse. É, por isso mesmo, moderno, ainda que, segundo Elliot, tout ce qui est nouveau est de ce fait automatiquement traditionnel.

Há sensibilidade na arte de filmar - extrema sensibilidade, extrema delicadeza. O preto e branco é belíssimo e luminoso. O talento do director de fotografia Raoul Coutard e do realizador Jean-Luc Godard aliam-se magistralmente - penso que isso é claro - numa experiência descomprometida e artisticamente prazerosa. A forma como são filmados os actores, por exemplo, emana uma graciosidade extraordinária.
Cenas memoráveis são inúmeras. O final então é surpreendente. Mas destaco especialmente três: une vraie minute de silence peut durer une éternité (a verdade é assumida em absoluto, para além do plano ficcional e quebrando a construção da mimesis), a dança do trio no bar (mais um momento inesperado e de uma inspiração tremenda) e a icónica corrida pelo Louvre:


Arthur déclara qu'il fallait attendre la nuit pour faire le coup et respecter ainsi a tradition des mauvais policiers de série B. Que faire alors pour tuer le temps qui s'éternise demanda Odile Frantz avait lu dans France-Soir qu'un américain avait mis 9 minutes 45 secondes pour visiter le musée du Louvre, ils décidèrent de faire mieux...
En 9 minutes 43 secondes Arthur, Odile et Frantz avaient battu le record établi par Jimmy Johnson de San Francisco.


Eis, pois, um feito singular e pessoal. Irreverente e jovial, de tamanho bom gosto e assumidamente consciente de si próprio. Grande filme.

Mon histoire finit là, comme dans un roman bon marché, à cet instant superbe de l'existence où rien ne décline, rien ne dégrade, rien ne déçois. Et c'est dans un prochain film que l'on vous racontera, en CinémaScope et Technicolor cette fois les aventures d'Odile et de Frantz dans les pays chauds.
Narrador

quinta-feira, 17 de junho de 2010

LADRÕES DE BICICLETAS (1948)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Ladri di Biciclette
Realização: Vittorio de Sica


Principais Actores: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Vittorio Antonucci, Gino Saltamerenda, Giulio Chiari, Elena Altieri, Carlo Jachino, Michele Sakara

Crítica:

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO

Profundamente tocante e humano, Ladrões de Bicicletas é a prova irrefutável de como se podem criar obras de arte genuinamente brilhantes e inspiradoras a partir de escassos recursos. O neo-realismo italiano, aliás, foi o responsável por vários desses casos.

Magnificamente fotografado (Carlo Montuori) e musicalmente orquestrado (Alessandro Cicognini), é com a maior compaixão que seguimos o difícil percurso de Antonio Ricci (de corpo e alma interpretado por Lamberto Maggiorani), que faz de tudo para superar a miséria: em busca de sustento, estabilidade e felicidade para uma humilde e modesta vida em família. Porém, o roubo fatídico da sua bicicleta porá todas essas aspirações em causa. É com o intuito de reaver a bibicleta que encabeça uma perseguição desesperada pelas ruas de uma Roma assolada pela guerra. A bicicleta significa tudo. E essas mesmas ruas enchem-se de bicicletas a cada plano... que nem chuva num Domingo... mas não estão ao alcance de todos. Por isso, o retrato social intensifica-se, fiel a uma realidade por demais dura e implacável, injusta e desigual. A demanda pela bicicleta dá-nos também a conhecer o evoluir da relação entre pai e filho, sujeita a uma educação muito franca e cuidada. Mais próximos do final, todavia, deparamo-nos, tal como o próprio Antonio, com a expansão do conflito moral a uma maior dimensão: no plano humano, aquilo que nos faz muitas vezes optar um caminho em detrimento de um outro é algo de muito ténue. E, no entanto, basta para marcar a diferença e definir quem somos. E é tão-pouco aquilo que separa ladrões e roubados. Quando Antonio confronta o ladrão, dá-se um twist significativo na sua ordem de valores; provavelmente precipitado, mas absolutamente compreensível, à luz das circunstâncias. O acontecimento levá-lo-á ao dilema. E o dilema à inversão da sua identidade e imagem social; algo danoso para o exemplo deixado a Bruno.

De forma simples, mas absolutamente poderoso e essencial na sua mensagem, Ladrões de Bicicletas assume-se facilmente como um conto intemporal e um filme de valor inestimável, um inesquecível e incontornável marco na História do Cinema.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (2)

Continua a nova rubrica.
3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| João Palhares, Cine ResortCigarette Burns (2005), de John Carpenter
Sílení (2005), de Jan Svankmajer
Ne Touchez pas la Hache (2007), de Jacques Rivette

| Jorge Teixeira, ComentadorPearl Harbor (2001), de Michael Bay
Lady in the Water (2006), de M. Night Shyamalan
Cinderella Man (2005), de Ron Howard

| Rui Francisco Pereira, CinemajbKingdom of Heaven Director's Cut (2005), de Ridley Scott
The Village (2004), de M. Night Shyamalan
The Butterfly Effect (2004), de Eric Bress e J. Mackye Gruber

terça-feira, 15 de junho de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (8)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Ricardo Vieira, autor do blogue 35mm, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

David Fincher
M. Night Shyamalan
Steven Spielberg
Darren Aronofsky
Hayao Miyazaki
Quentin Tarantino
Mel Gibson
Clint Eastwood
Christopher Nolan
Charles Chaplin

Um muito obrigado, Ricardo Vieira!

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

CHICAGO (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Chicago
Realização: Rob Marshall

Principais Actores: Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, John C. Reilly, Queen Latifah, Chita Rivera, Taye Diggs, Lucy Liu

Crítica:

ALL THAT JAZZ !

Five, six, seven, eight! Crime, fama, espectáculo. Luz, som, acção! Ladies and gentlemen... the Onyx Club is proud to present... um autêntico e prodigioso êxtase de charme: um musical contagiante e vibrante, pleno de sensualidade, brilho e delírio, um pedaço de entretenimento faustoso, exuberante e extremamente divertido: Chicago! Da Broadway para o cinema, flui o jazz, o tango e uma sensacional miscelânea de estilos e ritmos, coreografados com toda a emoção e a lembrar o melhor de Bob Fosse, naquele que já se tornou um dos mais recentes clássicos do musical hollywoodiano.

Rob Marshall é o artista maior por detrás desta adaptação: o universo feminino de ambição, inveja, corrupção e farsa, partilhado por Roxie Hart, Velma Kelly e pelas criminosas do estabelecimento prisional de Chicago, sobe à ribalta, de novo e com todo o vigor. O protagonismo recai sobre Roxie (Renée Zellweger, num grande desempenho), a loira sem escrúpulos que sonhava tornar-se uma estrela. Para consegui-lo, vai para a cama com o influente Fred Casely. Os fins justificavam os meios. Contudo, quando se apercebe de que Fred a usava apenas para efeitos sexuais - You're a two-bit talent with skinny legs -, mata-o por impulso e sem pensar duas vezes: It was a murder, but not a crime! Coitado, coitado só mesmo o marido: humilde, bondoso e, acima de tudo, ingénuo, Amos Hart ainda mente à polícia, manipulado por ela e com fim a protegê-la. Interpretado por John C. Reilly, Amos virá ainda a progonizar mais tarde - na perfeição e absolutamente arrebatador - um dos mais intensos e dramáticos números musicais de toda a obra - pessoalmente, o meu preferido: Mr. Cellophane:

Cellophane, Mister Cellophane
Should have been my name
Mister Cellophane
Cause you can look right through me

Walk right by me
And never know I'm there.

Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones, numa entrega total ao papel) não é senão o ídolo de muitas rapariguinhas - Roxie Hart incluída, pois claro. Porém, Velma Kelly é uma estrela decadente. A traição e a sede de protagonismo levaram-na a matar a irmã, pondo fim à dupla de sucesso The Kelly Sisters. Quis o destino que se encontrassem, ela e Roxie, na prisão... sob o olhar da matrona Mama Morton - uma espécie de arranja-tudo capaz de subverter as leis do internato ao sabor do lucro próprio. Queen Latifah assume o papel dessa poderosíssima e engraçadíssima mulher, abonada pelo luxo e pela excelência do guarda-roupa de Colleen Atwood na sua intervenção musical:

There's a lot of favors
I'm prepared to do
You do one for Mama
She'll do one for you

(...) So what's the one conclusion
I can bring this number to?
When you're good to Mama...
Mama's good to you!

Pop! As gotas. Six! Os passos. Squish! O soar dos dedos. Uh-uh... o fósforo... Cicero! A música... Lipschitz! Os sons começam - quase sem que os notemos - e passam a repetir-se, a intensificar-se... a imaginação desperta e o musical começa. O encanto e sedução de uma cena como Cell Block Tango, ou O Tango das Assassinas, como gosto de chamar-lhe, são completamente inesgotáveis: Pop! Six! Squish! Uh-uh... Cicero! Lipschitz! A sequência, circular na sua estrutura, é um confessionário aberto, derradeiramente criativo. E se há coisa que não falta até ao fim da obra é criatividade: a apresentação do advogado Billy Flynn (corrupto, egoísta e sorridente, que nunca perdeu um caso e que não aceita nenhum caso por menos de 5000 dólares), por Richard Gere, a cena das marionetas, o enforcamento da inocente de leste ou o número final no show de estreia da mais recente e mediática dupla de artistas em Chicago.

Antes do sucesso e da concretização dos sonhos, o argumento de Bill Condon desemboca na barra dos tribunais - Flynn joga com a mentira e com os media a favor da absolvição das culpadas. As sessões do julgamento são hilariantes. As interpretações ficam ao rubro. Só a convencionalidade da história condiciona, a meu ver, a potencialidade do projecto para atingir a sublimidade.

Apesar disso, tudo o resto resulta triunfalmente. O arrojo de toda a produção, então, é surpreendente: os destaques vão para a direcção artística (John
Myhre e Gordon Sim) e para a fotografia (Dion Beebe). O trabalho de iluminação é absolutamente espantoso e notável, assim como a enérgica e imparável montagem de Martin Walsh ou a encenação teatral retumbante.

Dá gosto ver musicais assim. Espectacular!

Oh, I love my life...
And all... that... Jazz!

domingo, 13 de junho de 2010

PROMESSAS PERIGOSAS (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Eastern Promises
Realização: David Cronenberg

Principais Actores: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinead Cusack


Crítica:

OS SENHORES DO CRIME

Será a violência justificada? Valerá a pena sucumbir à subversão dos valores morais? Quão longe está a fronteira dessa transgressão, perante a ameaça da morte?

Promessas Perigosas é como uma descida - visceral, mas a sangue frio - aos mais negros, violentos e ambíguos recônditos da natureza humana. David Cronenberg é exímio na sensibilidade com que retrata as feridas da alma e a importância da família e da tradição, numa era atormentada pela crise de valores. E derradeiramente subtil na crueza com que, paradoxalmente e sob o fio da navalha, expõe a brutalidade do corpo e o perigoso submundo da máfia russa numa Londres assombrada pelo crime, perversão e medo. O próprio Semyon, patriarca da família Vory v Zakone e ancestral do crime, aponta a cidade como a culpada para a perdição do filho: it never snows in this city. It’s never hot. London is a city of whores and queers. I think London is to blame for what he is.Com uma extraordinária direcção de actores, Promessas Perigosas arrecada interpretações verdadeiramente arrebatadoras: Viggo Mortensen, no melhor desempenho da sua carreira. Armin Mueller-Stahl, num papel memorável e assaz genuíno. Vincent Cassel, simplesmente magnífico. O argumento de Steven Knight, já por si extremamente bem concebido, desenvolve uma intriga crescente e ansiosa por catarse e atinge toda a sua plenitude com as prestações dos actores. O trabalho de encenação, esse, é igualmente sublime: a cena da sauna, para não falar de tantas outras, é magistralmente filmada e manifestamente... perfeita. E o resto da atmosfera cronenberguiana, tão psicologicamente estimulante, emerge gritante... nos dedos, nos pescoços, nas tatuagens... sob os ritmos da leitura do diário e da descoberta, da revelação... da reflexão...

Grande filme? Absolutamente. Sem sombra de toda e qualquer dúvida.

O SENHOR DOS ANÉIS - O REGRESSO DO REI (2003)

sábado, 12 de junho de 2010

FALA COM ELA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Hable Con Ella
Realização: Pedro Almodóvar
Principais Actores: Javier Cámara, Dario Grandinetti, Rosario Flores, Leonor Watling, Geraldine Chaplin

Crítica:


O BAILADO


Da morte emerge a vida. Do masculino emerge o feminino. Do terreno emerge (...)
o etéreo. O impálpável. O fantasmagórico.

Fala com Ela é, provavelmente, a mais lírica das obras de Almodóvar: uma dança vibrante, imersa em sentimento, com sede de infinito. Na verdade, consiste num bailado: o primeiro passo é dado ao som de The Fairy Queen, de Purcell, pela consagrada Pina Baush. Os restantes passos ressoam em movimentos inesperados com os avanços imprevisíveis do argumento. Os pares são formados por Marco, Lydia, Benigno e Alicia. Não importa que os elementos femininos se percam no abismo do sono profundo: o estado de coma. Mesmo de corpo imóvel, a dança far-se-á. Afinal, o cérebro das mulheres é um mistério, ainda mais neste estado, garante o dedicado Benigno.

É tão curiosa como interessante a representação da mulher nesta obra do realizador. Em Fala com Ela, a mulher prescinde da sua imagem sensual e sexual: Lydia é toureira engravatada e enfrenta destemidamente a besta, que nem um homem. Alicia, embora pratique ballet, não passa de um corpo despido que aguarda, no desconhecido, o desconhecido. Aqui, as mulheres ou se encontram desesperadas ou corroídas pelo destino. Transfiguradas pela dança.

Já a imagem do homem, como habitual em Almodóvar, carece de todo e qualquer machismo. Benigno é introvertido na sua sexualidade (latentes estão as suas preferências sexuais) e vive assumida e intensamente apaixonado pela paciente. Marco é de lágrima fácil, revelando uma exacerbada sensibilidade. São homens de sentimentos e, tal como as mulheres para a sua convencional representação, rejeitam qualquer estereótipo da figura masculina - o que nos leva a destacar a ausência clara de diferenciadores sexuais: são puras figuras humanas que amam e querem ser amadas e que tentam evitar a solidão. São, afinal, bailarinos deste grande espectáculo que é a vida, e para o qual é imprescindível um par.

O par é, note-se, um tópico fundamental nesta obra. São sucessivas as referências, a jeito de legenda, aos pares: Marco y Lydia, Alicia y Benigno, Marco y Alicia. Os pares mudam consoante as reviravoltas da vida, proporcionadas pela dança existencial do caos. Só entre pares é possível o diálogo. Habla con ella, recomenda o enfermeiro.

Outro elemento importante na análise do argumento, magnífico em toda a sua densidade criativa, é o papel do tempo: há avanços consecutivos e por meio das elipses a narrativa avança. Outras vezes recua, por meio de analepses, para uma maior compreensão da história. Há espaço, ainda, para uma breve incursão pelo cinema mudo, magistralmente orquestrado por Alberto Iglesias, onde sobressai a fulgurante obsessão pelo corpo e o erotismo inerente. Quando Benigno possui Alicia e a desperta do coma, a ética humana é posta em causa e, ao mesmo tempo, o caos como agente positivo é tomado em forte consideração. Enfim, reflexões extremamente pertinentes. Dotado de uma palete reduzida, onde abundam o vermelho, o laranja e o azul, há que destacar ainda a simples mas eficiente mise-en-scène.

Hipnótico, comovedor e encantador, Fala Com Ela é cinema em grande, onde o profundamente íntimo ascende, por identificação, ao plano universal.

AUSTRÁLIA (2008)

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