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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CHAMA-ME PELO TEU NOME (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Call Me By Your Name
Realização: Luca Guadagnino
Principais Actores: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, André Aciman, Peter Spears, Marco Sgrosso

Crítica:

O SABOR DO PÊSSEGO

 Nature has cunning ways of finding our weakest spot.

Provar o fruto do amor é, porventura, das melhores sensações de estar vivo e descobrir a sexualidade e os prazeres da carne uma das fases mais belas e vibrantes da vida de qualquer pessoa. Chama-me Pelo Teu Nome é sobre essa descoberta. Elio tem 17 anos. São as férias de 1983, algures pela pasmaceira rural do nordeste italiano onde tão pouco se faz, onde tão pouco acontece. Lê-se, toca-se piano ou guitarra, anda-se de bicicleta pelos campos verdejantes e cheios de vida, transpira-se ou mergulha-se na natureza. As árvores estão cheias de frutos e os sumos são o saboroso néctar dos deuses, prontos a beber a qualquer altura do dia. Luca Guadagnino, aliás, jamais se priva de mostrar esse Jardim do Éden, onde as personagens respiram e existem. A fertilidade do meio invade a narrativa e a natureza fala-nos através das imagens e dos sons, intoxicando-nos.

Elio é um privilegiado: é um estrangeiro numa casa de campo, a casa de férias na Europa, cheia de empregados locais. Vive com os pais, uma tradutora (Amira Casar) e um arqueólogo amante da antiguidade clássica (brilhante Michael Stuhlbarg), ambos presentes, atentos e cultos. Certo dia, chega à herdade o radioso e sete-anos-mais-velho Oliver, assistente contratado do pai para aquele verão e que passará a pernoitar no quarto do jovem, partilhando ambos a mesma casa de banho. Às vezes grosseiro mas sempre misterioso, Oliver começa por ter uma presença que, primeiramente, incomoda Elio e que depois o desconforta, irrita, magnetiza, desconcentra e por fim o atrai assolapadamente. A primeira metade do filme é lenta: sucede-se o dia-a-dia e quase nada acontece (o retrato do quotidiano é imperioso), a não ser que sejamos activos na interpretação dos mais pequenos e significantes sinais. A cada ausência, o pensamento, a dúvida, a inquietação. O escape do adolescente por meio da aventura heterossexual com uma amiga - a experimentação e mais uma descoberta. Às tantas, o desejo domina-o, atando-lhe os pés e as mãos, e a entrega é inevitável, felizmente correspondida, ainda que há luz do secretismo. O fruto proibido, a ser provado, somente nos mais recônditos recantos do Jardim, a quilómetros e quilómetros de distância da vila e de casa, num esconderijo só dos dois. Selam-se os lábios, inaugura-se o beijo, dá-se o toque e o pulsante tesão. Depois, a paixão cresce e extrapola. O quarto torna-se o leito do amor: apalpar-se-ão as texturas, saborear-se-ão os líquidos. E, logo à primeira união, a preocupação: não da descoberta - a pedofilia não é aqui assunto e, como disse, os pais de Elio são cultos. Têm mentes abertas e um coração cheio de amor para dar. Desejam o melhor para o filho e gostam inclusive de Oliver para genro. Se dúvidas houvesse, um dos diálogos finais entre pai e filho põe clara a sublime parentalidade do arqueólogo. Que urgente filme de família Chama-me se torna naquele momento:

We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything - what a waste!

O problema é... o fim do verão. Inicia-se uma relação que, à partida, está imediatamente condenada por um prazo. E essa dor pressentida transparece logo no olhar de Elio - brilhante Timothée Chalamet, tão verdadeiro na sua entrega. Julgo que este é um daqueles casos em que a excelente condução de actores extraiu o que de melhor há, em potência, de um tão jovem e promissor talento. Armie Hammer, como o confiante e ligeiramente arrogante Oliver, que finalmente se rende à mais doce vulnerabilidade, tem um papel surpreendente e de uma química indesmentível para com Chalamet. A história de ambos é representada, aliás, de forma tão intensa e genuína, que julgo ser essa uma das principais virtudes do filme; todo ele, já de si, tão despojado de lugares-comuns. 

O que mais gosto no filme? Sinceramente? É tudo o que não é dito, tudo o que não é mostrado. James Ivory é especialmente feliz na adaptação e Guadagnino concretiza-o magistralmente. Chama-me Pelo Teu Nome ascende, por isso, a um nível de pureza e beleza absolutamente notável. É tanto mais aquilo que depreendemos e que só mais tarde nos é confirmado ou não. Um olhar, um toque, um silêncio, uma ausência... simples coisas dizem tanto sobre as personagens, sobre o que aconteceu, acontece ou poderá vir a acontecer. Em Chama-me tudo floresce naturalmente, ao sabor do tempo. E o tempo tem o seu tempo, sem pressas. No campo, aliás, o tempo é mais tempo. Chama-me é um filme de uma simplicidade desarmante, sem artifícios maiores. Até a banda sonora, ora mais clássica ora na forma das mais oportunas e singelas canções, nos parece despir e nos fazer focar no essencial, sentindo-o. Como o amor é bonito e como é bonito sermos francos connosco próprios. Sermos o que somos. 

A cena do pêssego - a mais polémica e ridicularizada - é, no meu entender, das mais belas, íntimas e puras cenas do ano. É arriscadíssima, facilmente seria incompreendida ou menosprezada, mas é tão representativa de todo o filme. O pêssego é um símbolo da homossexualidade, tem a forma de um escroto ou das nádegas do homem. Perfurar o pêssego com os dedos ou com o membro é uma alusão à iniciação e à perda da virgindade. Provar o pêssego, pleno de fluídos, é, numa dimensão simbólica, a consumação máxima do amor e a materialização clara do pecado (no contexto bíblico). Ora, não há pecado onde há amor. E o amor é uma força da natureza, já dizia a tagline de Brokeback Mountain, e tinha toda a razão. O erotismo é contido e o sexo jamais se torna explícito ou dominante. A última cena prolonga-se pelos créditos finais adentro e assistimos à comoção de Chalamet sem nos levantarmos, expectantes que o telefone toque ou que alguma coisa ainda aconteça e o reconforte. Que final.

Por tudo isto, que delícia de filme. Tão raro e delicado, tão precioso quanto o amor verdadeiro.


sexta-feira, 7 de março de 2014

RELATÓRIO KINSEY (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Kinsey
Realização: Bill Condon
 
Principais Atores: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O`Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Dylan Baker 

Crítica:
 
A NATUREZA 
DA SEXUALIDADE HUMANA 

The gap between what we assume people do
 and what they actually do... is enormous. 

A publicação dos estudos de Alfred Kinsey sobre a sexualidade de homens e mulheres foram, para a sociedade norte-americana dos finais dos anos 40 e inícios dos anos 50 do século XX, como uma bomba atómica. Eu diria, uma bomba atómica para o mundo. Atentando contra a sociedade conservadora, de costumes profundamente religiosos e puritanos, eis a verdade sobre a prática sexual humana, sem eufemismos: sexo oral, anal, posições sexuais, masturbação, preliminares, homossexualidade, bissexualidade, heterosexualidade, frequência de orgasmos, de relações sexuais, etc. Falar abertamente de sexo e de prazer, rompendo pudores, desmistificando tabus e esclarecendo toda uma população na ignorância até perceber que everybody's sin is nobody's sin, and everybody's crime is no crime at all

As barreiras quebradas por Kinsey permitiram a sociedade que hoje conhecemos, com maior abertura para o sexo e para a sexualidade. É preciso ter bem presente que até então a masturbação era entendida como um pecado maior, capaz de levar à loucura, à cegueira ou à epilepsia, ou mesmo até à morte; tal era o medo e a culpa impostos pela cultura da época. A solução recomendada para o alívio, como alternativa à masturbação, era - no caso dos homens - mergulhar os testículos em água fria, ler o Sermão da Montanha ou - imagine-se - pensar na própria mãe. Se Relatório Kinsey, o biopic dramático de Bill Condon sobre Kinsey, ainda chocar, provocar ou de alguma forma causar desconforto no espetador, é sinal que ainda muita coisa está para mudar no que toca à abertura e naturalidade das pessoas para falar da sexualidade - aspeto determinante na formação da personalidade de qualquer indivíduo.

O apaixonante - para ele, Kinsey (memorável desempenho de Liam Neeson, num dos grandes papéis da sua carreira) - estudo da vespa-dos-galhos, da qual colecionou milhares e milhares de espécimes, levou-o a concluir que não há dois seres iguais, que a diversidade é irredutível, mas que, apesar de todos diferentes, há variações entre os indivíduos. Criado por um pai protestante e por demais castrador (John Lithgow, o qual entrevistará mais tarde, apercebendo-se dos seus traumas de infância), a sua investigação da sexualidade será uma luta metafórica contra o próprio pai, o qual sempre amou mas do qual nunca sentiu reconhecimento e uma continuação dessa sede de conhecimento, de respostas, iniciada com a vespa-dos-galhos. Afinal, tinha que ter provas científicas para argumentar com os pacientes que acreditam que a gravidez pode ter origem no sexo oral. Naturalmente, zoologia e biologia não são a mesma coisa, lidam com forças de opinião distintas na sociedade e desconstruir o mito da sexualidade trouxe-lhe muitos dissabores. Sex is a risky game, because if you're not careful, it will cut you wide open. Mas compensou.

Começou por destronar a ineficácia das aulas de higiene na Indiana University com o seu próprio curso. Let's start with the six stages of the coital sequence. Stimulation... lubrication, erection... increased sensitivity... orgasm and nervous release. Both sexes experience all six stages equally. Através de questionários pessoais, anónimos e confidenciais, iniciou as suas estatísticas e a descoberta foi por demais reveladora. Kinsey apercebeu-se de que a maioria da população é bissexual, embora essa maioria esconda os seus comportamentos desviantes (desviantes, considerando a cultura dominante que a heterossexualidade é a normalidade) por vergonha. As pessoas traem a sua própria natureza para serem aceites, para integrarem os grupos sociais. Assim sendo, compreendemos melhor os costumes da antiguidade clássica, por exemplo, ou mesmo os contrastantes e atuais. Kinsey refere-se ao assunto: Homosexuality happens to be... out of fashion in society now. That doesn't mean it won't change someday. A prática e a orientação sexual surge-nos não só predeterminada pelas necessidades biológicas mas inequivocamente influenciada pelos contextos sociais, ao fim e ao cabo também como uma questão de moda. Kinsey estabeleceu uma escala de 1 a 6 para classificar os indivíduos, sendo 1 exclusivamente homossexual e 6 exclusivamente heterossexual. Assistiu a encontros sexuais, filmou muitos deles, experimentou outros tantos. O amor pela mulher Clara McMillen (estupendo desempenho de Laura Linney) viu-se às tantas abalado pelas experiências extraconjugais, até que Clara também experimenta o amante do marido, Clyde Martin (Peter Sarsgaard). Acabam por redefenir o amor de ambos e entender-se perfeitamente até à velhice, salientando a necessidade e a importância de certas convenções para que as pessoas não se magoem mutuamente. 

Clyde Martin: Just one more question. You've just told me your entire history: childhood, family, career, every person you've ever had sex with. But there hasn't been a single mention of love. 
Alfred Kinsey: That's because it's impossible to measure love. And, as you know, without measurements there can be no science. But I have been thinking a lot about the problem lately (...)
When it comes to love, we're all in the dark.

A dado momento, Kinsey diz: Love is the answer, isn't it? But, sex raises a lot of very interesting questions... Há depoimentos insólitos, perturbantes, outros especialmente tocantes, outros até repugnantes como casos de incesto, de violações ou de pedofilia, obviamente condenáveis. O testemunho final, excecionalmente interpretado por Lynn Redgrave, a respeito da sua homossexualidade, é derradeiramente comovente e acaba por simbolizar o reconhecimento e o agradecimento de todos quantos viram as suas vidas melhorar graças ao trabalho e à coragem de Kinsey:

We'd been married for years, with three marvelous children. And as soon as my youngest left to go to college... I took a job in an arts foundation. I met a woman there - secretary in the grants office. We became fast friends, and... before long, I fell in love with her. Hmm. This came as quite a shock, as you might imagine. The more I tried to ignore it... the more... powerful it became. You have no idea... what it's like to have your own thoughts... turn against you like that. I couldn't talk to anyone about my situation... so I found other ways to cope. Uh, I took up drinking. Eventually, my husband left me. Even my children fell away. I came very close to... ending it all (...) Things have gotten much better (...) After I read your book, I realized... how many other women were in the same situation. I mustered the courage to talk to my friend... and she told me, to my great surprise... that the feelings were mutual. We've been together for three happy years now. You saved my life, sir.

Relatório Kinsey não é, com toda a certeza, o melhor dos filmes (como a maioria dos biopics, aliás), assim como Bill Condon não é o melhor dos realizadores. No entanto, não sejamos injustos: apesar de aqui e ali inequivocamente formatado, tem grandes interpretações, valores seguros de produção (montagem, direção artística, fotografia ou banda sonora) e um interessantíssimo argumento, muito bem humurado, que acaba por enfatizar a sua natureza ensaística e didática. O argumento deste filme é essencial para o filme mas também para o conhecimento público, sobretudo para todos quantos desconhecem a figura histórica e o seu legado para as gerações futuras. Para todos esses, o filme terá passado despercebido, mas é de visualização obrigatória. Para todos os outros, poderá sempre conduzir a alguma descoberta, quando muito não seja sobre eles próprios.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

BRUSCAMENTE NO VERÃO PASSADO (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Suddenly, Last Summer
Realização: Joseph L. Mankiewicz

Principais Actores: Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Montgomery Clift, Albert Dekker, Mercedes McCambridge, Gary Raymond

Crítica:

O SEGREDO

Truth is the bottom of a bottomless well.

Imcompreensível, que se fale tão pouco de um filme como Bruscamente no Verão Passado, na minha opinião um dos melhores de Joseph L. Mankiewicz. Um argumento verdadeiramente monumental, de um engenho literário inegável e impressionante, pelas mãos de Gore Vidal e do próprio Tenessee Williams, que escreveu a peça.

A elevar o argumento à perfeição, a eloquente declamação de Elizabeth Taylor, mas sobretudo a dessa grande - enorme - actriz que foi Katharine Hepburn. Por causa da censura, um argumento cheio de subtilezas, factor que no meu entender confere ainda mais mistério e poder à narrativa, sempre alicerçada no suspense. O preto e branco é imaculado. O movimento de câmera, sempre discreto mas expressivo, enquadra os actores no primor cénico da direcção artística, valorizando as suas performances.

Que filme magistral, que pedaço de storytelling tão fascinante.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CISNE NEGRO (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Black Swan
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Benjamin Millepied, Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Mark Margolis, Tina Sloan


Crítica:

I just want to be perfect.

O LAGO DOS CISNES

Perfection is not just about control.
It's also about letting go.

Esvoaça, arrepiante, o assombro da noite. Respiração, pirouette. Desferindo o luar com a graça das suas monstruosas e negras asas, invade o silêncio do vazio e a quietude das águas, num movimento voraz. É a fúria da natureza, o íntimo libertador. Do sangue e trevas do seu olhar, emana o terror. É o espectro da morte, consumido pela obsessão, invejando o amor. É o Cisne Negro, o lado oposto da criação, que triunfa sobre a pureza das coisas... O bailado, por força e impulso da magistral composição de Tchaikovsky, conduz a fábula ao clímax trágico e apoteótico. O passo final, delicado e sublime, toca a catarse e a trascendência, no interior ora angustiado ora aliviado do espectador. É essa a beleza da arte, o de mexer com as nossas emoções e Aronofsky - um dos mais ousados e geniais realizadores dos nossos dias - fá-lo extraordinariamente bem, doseando paixão e mestria num uníssono retumbante. Não admira, pois, que assistir a uma das suas obras se torne numa experiência avassaladora e absolutamente inesquecível.

Do sonho à concretização da perfeição, a vida real da bailarina Nina Sayers (brilhante Natalie Portman, num papel duro e devastador) transforma-se num pesadelo vertiginoso. As notas acentuadas de Clint Mansell insistem e persistem num ritmo pulsante, que penetra o nosso inconsciente (genial banda sonora, diga-se de passagem). A pressão é imensa: ao palco voltará o clássico O Lago dos Cisnes, numa nova produção que se pretende visceral, e o director artístico, Thomas Leroy (Vincent Cassel), procura a sua nova little princess, uma vez que a cobiçada diva Beth Macintyre (Wynonda Rider) - You all have had the chance and the privilege to be enchanted, transported, and even sometimes devastated by the performances of this true artist - se vê afastada pela fonte e crueldade da profissão: a juventude, da qual já não dispõe.

We all know the story. Virginal girl, pure and sweet, trapped in the body of a swan. She desires freedom but only true love can break the spell. Her wish is nearly granted in the form of a prince, but before he can declare his love her lustful twin, the black swan, tricks and seduces him. Devastated the white swan leaps of a cliff killing herself and, in death, finds freedom.
Thomas

Candidatas ao lugar não faltam ou não fosse esta a oportunidade de uma vida. Porém, haverá entre elas alguma capaz de personificar, simultaneamente, o Cisne Branco (a virgem inocência) e o Cisne Negro (a perversa e libidinosa malvadez)? A qualidade técnica de Nina é reconhecida, mas será ela capaz de desempenhar também o traiçoeiro Cisne Negro, ser absolutamente confiante, sensual e possuído pelo Mal?

Thomas: The truth is when I look at you all I see is the white swan. Yes you're beautiful, fearful, and fragile. Ideal casting. But the black swan? It's a hard fucking job to dance both.
Nina: I can dance the black swan, too.
Thomas: Really? In 4 years every time you dance I see you obsessed getting each and every move perfectly right but I never see you lose yourself. Ever! All that discipline for what? (...) Perfection is not just about control. It's also about letting go. Surprise yourself so you can surprise the audience. Transcendence! Very few have it in them.

Para Nina, o Cisne Negro torna-se uma obsessão, desde logo. Sempre foi determinada, incansável e tremendamente exigente consigo própria, mas aquilo que fará para conseguir o papel transgredirá todos os seus limites. À sua volta, as colegas. Numa competição feroz e implacável, revelam-se tudo menos amigas. Só poderá contar consigo mesma e a pressão tenderá a estrangulá-la: the only person standing in your way is you. Thomas provoca-a, intimida-a e destabiliza-a, deixando-a ainda mais insegura.

Thomas: You could be brilliant, but you're a coward.
Nina: I'm sorry.
Thomas: Now stop saying that! That's exactly what I'm talking about. Stop being so fucking weak!

Em casa, vê projectados sobre si os sonhos e as frustrações de uma mãe possessiva e opressiva (Barbara Hershey, como Erica Sayers), uma fracassada bailarina no passado. As subtilezas narrativas deixam perceber uma relação incestuosa que é escondida com vergonha. O quarto de Nina, aliás, é um quarto de menina. O cenário fala por si: Nina ainda não tem independência moral, as suas decisões reflectem os juízos da mãe. É por isso que é tão simbólico quando Nina agarra em todos os seus peluches e os atira ao lixo. É um corte com a infância e com a inocência do Cisne Branco, o que tenta fazer. O caminho é a incessante busca pela perfeição. A transformação é literal e começa no seu interior.

I got a little homework assignment for you.
Go home and touch yourself. Live a little.
Thomas

Os espelhos. Sempre os espelhos, de decór em decór. A mise-en-abyme começa: o Cisne Branco tem um gémeo, o Cisne Negro. O alter ego, a sombra que o lago reflecte perante a lua cheia. A dicotomia Bem e Mal, agente da criação. Nina tem igualmente que encontrar o seu reflexo, a face oculta da alma, para interpretar o papel na sua plenitude. Essa descoberta pessoal é essencial a qualquer artista, a qualquer performer que se entregue totalmente. A masturbação é, ela também, uma metáfora do espelho - touch yourself - a exploração da sexualidade connosco próprios. A sexualidade define, em certa medida, a nossa própria personalidade. A concretização das nossas fantasias e desejos reprimidos levar-nos-á - sempre - de encontro à nossa essência. Não será por acaso, porventura, que para os artistas a libertação sexual é tão importante e determinante para aquilo que eles fazem. Só um espírito verdadeiramente livre será capaz de exprimir o outro com verdade, sendo inteiro naquilo que desempenha. Por mais que Nina beije ou seduza Thomas, numa tentativa de libertação, não será a cunha que a conduzirá ao triunfo. E por mais que ele a deseje - That was me seducing you. It needs to be the other way around -, não serão esses impulsos que se sobreporão aos desígnios da arte.

The real work would be your metamorphosis into her evil twin.
I know I saw a flash of her yesterday, so get ready to give me more of that bite.

Thomas

Para riso e intriga da companhia, o papel é-lhe atribuído. O êxtase não poderia ser maior, nesse momento, mas como honrar a elevadíssima confiança e expectativa que nela depositaram? Como superar-se a si própria, silenciando todos os rumores e realizando-se pessoalmente? Espera-a o abismo, nos meandros da psicose.

What did you do to get this role? He always said you were such a frigid little girl. What did you do to change his mind? Did you suck his cock? (...) You fucking whore! You're a fucking little whore!
Beth

Às tantas, a obsessão transtorna-a ao ponto de as suas atitudes se tornarem irreconhecíveis. This role is destroying you, diz-lhe a mãe. Nina perde a noção do real, começa a sofrer alucinações que transformam o realismo trémulo da câmera ao ombro no surrealismo visual que as feridas e as visões fantasiosas fortalecem, progressivamente. Os golpes nas costas prenunciam a metamorfose. Os contornos do drama e do thriller psicológico dão então lugar ao susto e ao suspense, a traços marcadamente tenebrosos. A atmosfera depressiva torna-se assustadora e sufocante, para a qual a sofisticação dos efeitos sonoros se mostra decisiva. Os efeitos digitais são subtis e permitem, com eficácia, a materialização da metáfora. O arrojo técnico é, aliás, permanente e notável. A impressionante fotografia de Matthew Libatique, sempre sensível à luzes e às sombras, ao branco e ao preto, procura, no primor da mise-en-scène, os enquadramentos mais significantes (pelo constante jogo de espelhos, nomeadamente). O espectador - completamente aprisionado - sustém a respiração, perante o imprevisível. Nina aceita finalmente o convite da colega Lily (Mila Kunis), bailarina com o perfil ideal para desempenhar o Cisne Negro, e sai à noite, contrariando as regras maternais. Aventura-se com os homens, com o álcool e com as drogas, deixando-se levar. Depois, a horas tardias, torna a casa com Lily e fecham-se no quarto, envolvendo-se ambas para além do erotismo. It's called privacy, I'm not 12 anymore! Confluem, no limiar da emancipação, os medos e os desejos reprimidos.

Erica: What happened to my sweet girl?
Nina: She's gone!

Pontas, pó, figurino e plumas. Cisne Negro assume, no último acto, uma cadência alucinante, para a qual contribuiu, determinantemente, a montagem de Andrew Weisblum. Mais do que por rebeldia, Nina é assolada por uma violência incontrolável e desconhecida. Os reflexos no espelho ganham vida própria. Está possuída pela obsessão, qual Odette pelo feitiço de Rothbart. Tornou-se um monstro, consumida pela ambição. Mais do que tantas vezes contraproducente, como é destrutivo, o caminho para a perfeição. Natalie Portman atinge o zénite da sua transfiguradora performance. O espectador perde-se entre o real e o imaginário e rende-se à imponência do espectáculo que Aronofsky concretiza, poderosamente. A obsessão pelo perfeccionismo ecoa também na realização. Sobre o palco, a spotlight desce sobre Nina. Fecha-se a estrutura circular da obra. É o seu momento; conseguirá Nina superar-se? E, como em todas as danças ao longo do filme, a câmera de Aronofsky flui com uma leveza, destreza e eloquência exímias, como se puro ballet executasse. Que virtuosismo, na arte de filmar. Fossem todos os filmes assim. Sobre o colchão, por fim, abate-se a tragédia. O adeus, o último aplauso. Um clássico instantâneo.

I was perfect...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

CARAVAGGIO (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Caravaggio
Realização: Derek Jarman

Principais Actores: Nigel Terry, Noam Almaz, Dawn Archibald, Sean Bean, Jack Birkett, Sadie Corre, Una Brandon-Jones, Imogen Claire, Robbie Coltrane, Garry Cooper, Lol Coxhill, Nigel Davenport, Vernon Dobtcheff, Terry Downes

Crítica:


A PAIXÃO PELA ARTE

The process of painting is my knife!

No seu leito de morte, um genial artista espera o último suspiro. Como companhia, sempre prestável, o jovem e formoso Jerusaleme. Entre os devaneios da febre, as recordações de uma vida plena de prazeres, excessos e paixões. Depois, com uma eloquência melódica e poética, marcadamente irreverente e homoerótica, brota a narração do próprio - Michelangelo Merisi da Caravaggio - que acompanhará os mais variados flashbacks, por meio dos quais serão recriados alguns dos mais conhecidos e mitificados episódios da sua vida pessoal e artística.

A proposta biográfica de Derek Jarman é brilhante e desconcertantemente livre, ousada e criativa, nomeadamente pelo mérito legítimo das anacronias (uma máquina de escrever, um carro, uma calculadora, lâmpadas eléctricas coloridas, etc.) que vêm quebrar o efeito de mimesis e a verossimilhança do retrato histórico (de uma autenticidade em parte potenciada pela direcção artística de Christopher Hobbs e Michael Buchanan e pelo primoroso guarda-roupa de Sandy Powell), anunciando a experiência moderna da arte pela arte.

O fascinante exercício de estilo passa igualmente pela encenação de algumas das mais famosas obras do pintor, com actores de carne e osso. Jarman e o seu director de fotografia, Gabriel Beristain, transportam o tenebrismo ou o chiaroscuro directamente para a tela cinematográfica, recriando criteriosamente as luzes, as cores e a atmosfera dos feitos barrocos. Cativante e deslumbrante, o tremendo lirismo visual alcançado. Os modelos, quais estátuas perfeitamente esculpidas, ostentam as suas poses com elegância e sensualidade, concretizando impressionantes quadros vivos, semelhantes àqueles que terão inspirado o renascentista. A homenagem maior de Jarman ao seu herói, creio, reside nesta encenação dos quadros vivos. Se repararmos bem, até as telas que Nigel Terry (Caravaggio em adulto) pincela não têm, de todo, o traço de Caravaggio. Tudo é criatividade em estado puro, pelas mãos de Jarman e da sua equipa. Não poucas são as vezes em que a montagem de George Akers, por exemplo, determina e influencia os ritmos narrativos. É um trabalho deveras excepcional. A câmera, por sua vez, numa fluidez sempre precisa e apaixonada, eleva o conceito proposto ao máximo requinte.

Da infância e juventude à idade adulta, os saltos temporais dão conta da efeverscência do carácter do pintor e do talento que, desde tenra idade, se manifestou. Tendo eclesiásticos como patronos, finalmente, Caravaggio abandonou os temas da herança clássica (Pequeno Baco Doente, 1593-94) ou da natureza morta (Rapaz Levando Cesta de Frutas, 1593-94) e dedicou-se ao aspecto mundano da cena bíblica e sagrada; neste campo, inúmeros quadros foram interpretados, destaco três: A Madalena Arrependida, 1596-97, O Martírio de São Mateus, 1599-1600 e A Morte da Virgem, 1606. É durante a concepção destas três magistrais pinturas que a narrativa avança no ménage à trois, com a introdução do apolíneo Ranuccio (Sean Bean) e da prostituta Lena (Tilda Swinton). Caravaggio, é sabido, cedeu repetidamente aos seus apetites carnais, libidinosos e bissexuais com muitos destes seus modelos, gente devassa e de baixa estirpe social, que serviram de musas às figuras sagradas que, desde então, foram escandalosamente cultuadas pela Igreja. Ranuccio e Lena foram seus amantes, pagos a ouro. Entre eles, o desejo, o interesse e o ciúme que levou às mais trágicas consequências. Grandes papéis, os desempenhados pelo trio de actores.

Tão complexo quanto enigmático, Caravaggio revela-se, pois - mais do que um biopic original e arrojado - um prodigioso pedaço de arte.

O LIBERTINO (2004)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: The Libertine
Realização: Laurence Dunmore

Principais Actores: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Paul Ritter, Stanley Townsend, Francesca Annis, Rosamund Pike, Tom Hollander, Johnny Vegas, Jack Davenport, Trudi Jackson, Claire Higgins, Freddie Jones, Robert Wilfort


Crítica:

DECADENTE TENTAÇÃO

That would not be appropriate for a man of breeding.

De libertinagem, certamente os dez anos de luxúria que, até ao presente diegético, praticou pelos cantos e recantos da corte e do reino, e a que não assistimos. De libertinagem, agora, talvez somente a fama. O passeio de John Wilmot, excêntrico e escandaloso conde de Rochester, pelo parque numa manhã de nevoeiro convoca, aliás, a recordação de um passado de proveitosos prazeres da carne. Orgias, sodomia, violações, incesto. Perversão, depravação e nojo numa acentuada decadência moral. Um talentoso poeta, consumido pelo álcool e pelo desejo. I am nature.

A viagem no tempo faz-se por meio de uma reconstituição histórica tremendamente exigente, detalhada e autêntica. A direcção artística (Ben van Os, Patrick Rolfe e Robert Wischhusen-Hayes) é de um arrojo notável, assim como o guarda-roupa de Van Dien Straalen e a caracterização. A fotografia (Alexander Melman), tão saturada quanto sublime, conta com um trabalho de iluminação extremamente cuidado e primoroso. Graças, pois, à qualidade técnica de todos estes elementos o filme atinge um esplendor visual considerável, de um realismo soturno mas fascinante. O lendário Michael Nyman assina a composição musical e a montagem de Jill Bilcock cola engenhosamente as várias sequências do filme, com especial destreza na abertura; e que abertura, num monólogo olhos-nos-olhos com o espectador:

Allow me to be frank at the commencement. You will not like me. The gentlemen will be envious and the ladies will be repelled. You will not like me now and you will like me a good deal less as we go on. Ladies, an announcement: I am up for it, all the time. That is not a boast or an opinion, it is bone hard medical fact. I put it round you know. (...) Gentlemen. Do not despair, I am up for that as well. And the same warning applies. Still your cheesy erections till I have had my say. But later when you shag - and later you will shag, I shall expect it of you and I will know if you have let me down - I wish you to shag with my homuncular image rattling in your gonads. (...) That is it. That is my prologue, nothing in rhyme, no protestations of modesty, you were not expecting that I hope. I am John Wilmot, Second Earl of Rochester and I do not want you to like me.

Afinal de contas, concluimos, um prólogo enganoso. Conheceremos as últimas vivências do homem: as suas paixões (tanto pela actriz Elizabeth como pelo teatro), os seus diferendos pessoais e ideológicos com sua majestade o Rei Carlos II (John Malkovich) e a sua doença terminal.

I shall never forgive you for teaching me how to love life.

Nas representações, Johnny Depp, numa performance verdadeiramente assombrosa. Samantha Morton mostra-se magnífica e Rosamund Pike, uma acertada escolha de casting. O filme falha, contudo, no argumento; nem tanto na arte de filmar de Laurence Dunmore que, ainda que em projecto de estreia, não filma franca e propriamente de forma desinteressante e irresponsável. O filme falha, dizia, no argumento de Stephen Jeffreys (a partir da peça do próprio). A história pode não ser a mais extraordinária, mas, aparte os bons diálogos e o seu humor despudorado, é contada a despachar, progressivamente, o que acaba por desequilibrar a narrativa e por pôr em risco a legitimidade e a necessidade da obra. Como repudio, na concretização de um biopic, a mera sucessão de factos e episódios.

Concluindo: eis um filme cujo mérito seria facilmente duplicado, caso tivesse beneficiado de uma construção narrativa fluída e sustentada.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ENCONTRO (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Rendez-Vous
Realização: André Téchiné
Principais Actores: Lambert Wilson, Juliette Binoche, Wadeck Stanczak, Jean-Louis Trintignant, Dominique Lavanant, Anne Wiazemsky, Jean-Louis Vitrac, Philippe Landoulsi, Olimpia Carlisi

Crítica: [Brevemente]


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

VEJO TUDO NU (1969)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Vedo Nudo
Realização: Dino Risi
Principais Actores: Nino Manfredi, Sylva Koscina, Véronique Vendell, Umberto D'Orsi, Daniela Giordano, Nerina Montagnani, Bruno Boschetti, Marcello Prando, Guido Spadea, Enrico Maria Salerno, Luca Sportelli, Jimmy il Fenomeno

Crítica: [Brevemente]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A PIANISTA (2001)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: La Pianiste
Realização: Michael Haneke
Principais Actores: Isabelle Huppert, Benoit Magimel, Annie Girardot, Susanne Lothar

Crítica:


ENTRE O DESEJO E A LOUCURA

A Pianista é um filme sobre intimidade. E assistir a um filme como este é como invadir a privacidade de alguém. Nós próprios que somos capazes de julgar Erika pela sua promiscuidade, perversão e obscenidade, somos os primeiros a perceber
que, enquanto espectadores, não praticamos senão uma forma de voyeurismo. Ser espectador é, afinal, a faculdade de nos alienarmos da nossa realidade numa outra realidade, na realidade de outrém. Haneke recorre, uma vez mais, a este irresistível exercício de confrontação. Todavia, não é essa a questão central em A Pianista. Foquemo-nos na intimidade.

Erika (fenomenal interpretação de Isabelle Huppert) é-nos apresentada como uma personagem muito solitária. Apenas vive com a mãe (que vê nos mistérios da filha autênticas provocações e oportunidades perfeitas para controlá-la), o pai acabou num manicómio e não consta que tenha amigos. Apesar da sua idade, é tratada como uma criança, sempre incentivada pela mãe a fazer melhor pela sua arte; o que não funciona como estímulo, mas sim como pressão para atingir a perfeição. Essa austeridade tem reflexo na personalidade da própria Erika. É uma pessoa fria, aparentemente sem defeitos e sem sentimentos, até. É professora de piano no Consevatório de Viena e é sobre os alunos que descarrega todas as suas frustrações, mascaradas na forma de exigência e mau feitio. Porém, todos a idolatram. É um exemplo. Quantos de nós não exteriorizamos senão uma construção de nós próprios? O que acontece é que quantas mais mágoas do passado, mais defesas empenhamos e empreendemos. O risco, altíssimo, prende-se com a possibilidade de nos tornarmos inatingíveis, insensíveis aos outros e convictos de que ninguém toca a nossa Verdade interior. Até aqui, facilmente nos identificamos com Erika. Só que Haneke, a partir do romance de Elfriede Jelinek, propõe-nos a desconstrução da personagem: da imagem ao íntimo, às fantasias e aos pensamentos mais secretos. E as aparências, se não iludem, pelo menos escondem. E escondem muito.

Porque tenta destruir aquilo que nos podia aproximar? - questiona Walter. E a questão acaba por resumir toda a pertinência do argumento. Erika é, afinal, uma mulher frágil, tarada e sexualmente recalcada. Consome pornografia, desloca-se a parques de estacionamento com sede do sexo alheio e aproveitar-se-á de um aluno para concretizar as suas sádicas ficções. O erotismo da obra rapidamente se esgota em nojo e em sensações repugnantes. Às tantas, Erika revela-se assustadoramente indiferente às preocupações maternas e absolutamente perdida entre obsessões e maldades (o que faz a Anna, aluna com quem se identifica, é totalmente desprezível e denota todo o seu desiquilíbrio mental; quiçá genético).

Michael Haneke traz-nos A Pianista à luz de um realismo atroz, que se espelha especialmente em todos os enquadramentos simples, nos takes mais ou menos longos e na valorização da cenografia que daí resulta. É cinema sem artifícios maiores, denso e frontal, dotado de performances incríveis e que encerram em si próprias um inestimável poder.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

IRREVERSÍVEL (2002)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Irréversible
Realização: Gaspar Noé
Principais Actores: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Prestia, Philippe Nahon, Stéphane Drouot, Jean-Louis Costes, Michel Gondoin, Mourad Khima
Crítica:

O FIM E O COMEÇO

Le temps détruit tout.

Chocante e atordoante, incómodo e inconveniente, maculado e doentio, desiludido, sem esperança. Irreversível é assim: uma experiência ultra-sensorial que nos prende por inteiro e que nos transporta, sob uma cadência hipnótica, do mais inquietante dos pesadelos ao absoluto apaziguamento existencial.

Do fim para o princípio, a desconstrução da narrativa e das personagens não só surpreende como se revela um autêntico processo de reconstrução, por meio do qual nos apercebemos da forma implacável e aleatória de como o caos escreve os nossos destinos. Há duas sequências absolutamente brilhantes: a descida infernal, de atmosfera nevrótica, repugnante e violenta, ao antro da perversão homossexual (note-se o requinte intencional: a combinação perfeita de planos rodopiantes com a repetição obsessiva de sons baixos e graves, de frequência de 28 Hz, de modo a provocar o sentimento de náusea e tontura no próprio espectador) e a dolorosa, brutal e revoltante violação no túnel vermelho (plano estático, ângulo de irrepreensível enquadramento).

Inspiradamente iluminado, fotografado e montado e genialmente realizado (Gaspar Noé transforma uma simples história de vingança numa original, revigorante e marcante obra de arte, desconfortavelmente sublime), Irreversível conta ainda com fortíssimos desempenhos, imbuídos no poder soberano da narrativa: Vicent Cassel, Monica Bellucci e Albert Dupontel. O trio protagoniza, frontalmente e sem tabus, esta tão interessante quão curiosa abordagem sobre o amor e a sexualidade.

No final, perturbados pela crueldade do futuro e pela viagem que assumímos, somos levados para um salto no infinito, pela inspiração assumida de Kubrick e de Beethoven. A imagem cede ao turbilhão de emoções, desvanece no branco e perde-se na confluência de sons e de luzes estroboscópicas. A nossa consciência eleva-se, então, ao éter da arte. O tempo destrói tudo, inevitavelmente, irreversivelmente. Não valerá a pena, ainda assim, este nosso intervalo no curso eterno da transcendência?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A CAMINHO DE IDAHO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: My Own Private Idaho
Realização: Gus Van Sant
Principais Actores: River Phoenix, Keanu Reeves, William Richert, James Russo, Flea, Grace Zabriskie, Udo Kier, Rodney Harvey, Chiara Caselli, Michael Parker, Jessie Thomas, Sally Curtice

Crítica:

I'm a connoisseur of roads.
I've been tasting roads my whole life.

A ESTRADA
This road will never end.
It probably goes all around the world.

A Caminho de Idaho, visionária pérola de Gus Van Sant, situa-se algures entre a Perfeição e a Imperfeição. Tal como a vida de todos nós. Formalmente, é de difícil classificação: é um road movie (o seu tema é a estrada) com claras influências do western (a paisagem, a fogueira, as pistolas), é uma constante encenação de Shakespeare pelas ruas de Portland, embebida em melancolia, e, ao mesmo tempo, uma excepcional experiência avant-garde. A obra explora também a ambivalência sexual, mas o tratamento do amor universal é, porventura, um dos maiores feitos. Mike ama Scott e o que temos é um amor não correspondido entre duas pessoas, independentemente dos seus sexos. A dada altura, tanto Mike como Scott seguem o seu caminho, tomando as suas escolhas... e é interessante perceber como Gus Van Sant jamais se mostra tendencioso ou moralista; o sua arte fala por si só e de que maneira.

Viver passa por um inevitável ritual de auto-descoberta, por meio do qual encontramos o nosso lugar no mundo. À partida, esse caminho é mais fácil quando conhecemos e compreendemos o nosso passado, as nossas origens: esse factor dá-nos a estabilidade emocional essencial para a formação das nossas personalidade e identidade. Porém, os jovens de Gus Van Sant provêm de famílias disfuncionais, por algum motivo destruídas, e vêem-se sozinhos na estrada - sem saber ao certo de onde vêm e para onde vão. Estão desorientados, perdidos, alienados e... indefinidos. Mike, por exemplo, tenta reencontrar o amor da mãe (e reencontrar, desse modo, as suas origens) e encontrar o amor por alguém no seu dia-a-dia; quiçá por Scott, o seu melhor amigo:

Mike: We're good friends, and that's good to be, you know, good friends. That's a good thing. (...) That's okay. We're going to be friends.
Scott: I only have sex with a guy for money.
Mike: Yeah, I know, I mean...
Scott: And two guys can't love each other.
Mike: Yeah. Well, I-I don't know, I mean, I mean for me, I could love someone even if I, you know, wasn't paid for it. I love you, and... you don't pay me. (...) I really wanna kiss you, man. [pausa] Well goodnight man. [pausa] I love you, though. [pausa] You know that. I do love you.

As performances são absolutamente excepcionais. Os ritmos da narcolepsia de Mike marcam, tantas vezes, a própria cadência do filme... River Phoenix entrega-se de corpo e alma ao papel da sua (infelizmente curta) vida e mostra-se totalmente entrosado na personagem. Emana fascínio e inspiração... Brilhante! William Richert tem um desempenho formidável e Keanu Reeves, cujo talento raramente aprecio, revela-se assaz competente.

Tecnicamente, estamos perante um filme arrojado e irrepreensível. Os time-lapses marcam imediatamente o tom e o ambiente poético, assim como as muitas outras passagens líricas, sempre magnificamente fotografadas por John Campbell e Eric A. Edwards e extraordinariamente montadas por Curtiss Clayton. O orgasmo de Mike, por exemplo, é de nos deixar abismados e sem palavras; tal é a beleza, o simbolismo e a carga emocional daquele único e tão curto take. Então e a forma como Gus filma o sexo? Montagem rápida, planos estáticos mas em tempo real e com grande poder sugestivo. A confluência estética da obra não se fica por aqui: notem-se os diferentes tipos de filmagem, por exemplo, nas memórias de Mike. Ou a cena das capas de revista na loja de pornografia. Ou as entrevistas tipo-documentário a prostitutos reais, incorporadas no filme como se da diegese ficcional fizessem parte. A banda sonora é igualmente eclética e confunde-se perfeitamente com a natureza criativa da obra. Enfim, um todo completamente fascinante.

Sem dúvida: um dos melhores filmes dos anos 90 e um dos melhores filmes de Gus Van Sant. Uma sublime e obrigatória obra de arte.

Have a nice day.

sábado, 7 de agosto de 2010

A OUTRA MARGEM (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: A Outra Margem
Realização: Luís Filipe Rocha
Principais Actores: Filipe Duarte, Tomás Almeida, Maria D'Aires, Horácio Manuel, Sara Graça, Eduardo Silva, João Pedro Vaz

Crítica:

SER DIFERENTE

O fogo liberta os que partem
e aquece os que ficam.

Há mágoas e ressentimentos que só têm uma razão para existirem: o preconceito; esse juízo discriminatório que tantas vezes nos afasta, não reconhecendo - essencialmente - os nossos verdadeiros sentimentos, e tendo por base - sobretudo - aquilo que os outros não aceitam e se recusam a aceitar, como se tivessem que aceitar. O que é mais vergonhoso? Cair nas bocas dos outros e sofrer com isso, por uns tempos, ou renegarmo-nos a nós próprios e àqueles que mais amamos, quiçá para sempre? O tempo traz a resposta e a solidão. Do mesmo modo, dói muito não ser aceite por aquilo que somos, por aqueles que mais amamos. Vidas seguem cursos separados, com grande angústia e sofrimento, desnecessariamente. É incrível e paradoxal entender como um pai ou uma mãe pode reclamar a sua felicidade, cobrando a infelicidade de um filho. Afinal, que pais somos?

Nascer concretiza, muitas vezes, o primeiro estágio de aceitação. É certo que muitos bebés nascem com tudo no sítio, aparentemente saudáveis e ignorando o futuro de diferença que os espera. É o caso de Ricardo (magistral interpretação de Filipe Duarte), cujo assumir da sua identidade, leia-se homossexualidade, o condena para sempre ao afastamento da família, desmoronando assim um pilar fundamental para a sua edificação pessoal. Adeus, Pai. Adeus, Mãe. Porém, veja-se o caso do seu sobrinho Vasco (Tomás Almeida, radioso), que ao nascer com trissomia 21 acaba de vez com as expectativas dos pais. E não é aceite, por isso? É, pois. Pode levar um tempo, pode alterar a vida de uma família inteira, mas é aceite. A diferença é aceite e integrada. Com alguma dificuldade, mas na maior parte das vezes a dificuldade está apenas nas nossas cabeças. Agora a questão: vale a pena, um filho com síndrome de Down? Teria valido a pena, antes, abortá-lo? Veja-se Vasco: é feliz, tem esperança, acredita, é o coração pulsante de toda aquela família. Eu vou casar! É mais feliz do que qualquer outro. É o tesouro da mãe Maria (Maria D'Aires, sublime) e a alegria de José, o avô. Agora veja-se Ricardo, o menino que nasceu são: é feliz?...

De quem é a culpa? Das expectativas?...

Há destinos que ficarão irremediavelmente separados, cada um na sua margem do rio, enquanto não houver uma ponte para o perdão e para a aceitação. Note-se o regresso de Ricardo a Amarante, depois da tão traumática morte do namorado... O simbolismo daquela cena em que revisita o pai, enfrentando o passado e passados tantos anos, é fortíssimo... O filme pode ser lento e contido, mas as emoções transbordam, por vezes. E como transbordam! E o limiar para que isso aconteça é tão ténue. Veja-se como a alegria e o amor à vida de Vasco é contagiante, mesmo para o tio que tentou o suicídio, tal era a agonia, o sufoco e a dor da perda. Veja-se como os dois - ambos diferentes, cada um à sua maneira - se aceitam mutuamente, sem qualquer tipo de preconceito... veja-se como eles têm afinidades e realidades comuns. Veja-se a cena em que os dois saem à noite e vão dançar para a discoteca: os dois, o mongolóide e o paneleiro traveca. Veja-se como os dois se divertem, alheios ao olhar condenatório. Veja-se como o plano seguinte repete o carro, com o som pulsante da música, e o horror nos assola a mente com o receio imediato do preconceito; louros para Luís Filipe Rocha.

Enfim, A Outra Margem pode ser um objecto cinematográfico com algumas limitações, nomeadamente ao nível do argumento e ao nível da própria narrativa da filmagem. Porém, é um filme com méritos e vários. A começar pelos desempenhos. Depois, a iluminação e a fotografia: o trabalho de Edgar Moura é verdadeiramente determinante - tanto para a atmosfera dramática que percorre todo o filme como para a beleza que tão bem o caracteriza. A banda sonora original de Pedro Teixeira da Silva, d'Os Corvos, é tocante, envolvente... e tão bela, à altura da sensibilidade que o projecto exigia.

No culminar do meu juízo: agradável descoberta. Pela história, recomendadíssimo a todos, em especial aos pais. Não percam tempo.

sábado, 17 de julho de 2010

THE BROWN BUNNY (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Brown Bunny
Realização: Vincent Gallo
Principais Actores: Vincent Gallo, Chloë Sevigny, Cheryl Tiegs

Crítica:

A DOR E A VIAGEM


The Brown Bunny é um sensível, delicado e virtuosíssimo pedaço de cinema sobre o vazio, o silêncio e o sofrimento de um homem, acabado de presenciar um chocante e devastador acontecimento que lhe arruinou - para sempre - a memória de um grande amor e, por consequência, a vida.

O homem é Bud Clay. É corredor de motos, mas há corridas perdidas logo à partida. Daisy (Chloë Sevigny) abandonou-o e ninguém parece conhecer o seu paradeiro. As memórias de Bud recuperam-na, a todo o instante. Mas a sua dor existencial, perfeitamente transmitida tanto pela performance do actor como pela melancolia da arte de filmar (as perspectivas intensificam a solidão do protagonista para com o mundo, o focar e desfocar contrabalança o fluxo de mágoas e recordações, a proximidade física da câmera com o actor reflecte-lhe o estado de alma), leva-nos a crer que Bud não a quer encontrar. Bud é, portanto, um homem completamente dividido entre a vontade de encontrá-la e a vontade de nunca mais a encontrar. Entre o poder ou não aceitá-la novamente. Porque terá partido Daisy, afinal? Ninguém, excepto Bud, sabe ao certo. O mistério adensa-se, lentamente, ao longo de todo o filme, ao longo de toda a estrada, ao longo de toda a viagem. Bud procura-a noutras mulheres, mas nunca a encontra... Nunca encontra nada, nem sequer uma única esperança, nem sequer ele próprio. A paisagem é fria, nada acolhedora ou reconfortante. As cadências da montagem inebriam-nos, juntamente com as canções, o jogo de sons e com essa arte de filmar extremamente subtil. O final, fálica e sexualmente tão explícito, é absolutamente intenso, dilacerante e desolador... Deixou-me sem palavras.

Vincent Gallo é o actor, o realizador, o argumentista, o editor, o director de fotografia, o produtor... Vincent Gallo é o filme. É a prova de que tanto se pode fazer com tão pouco. Há quem mate um filme pelo preconceito... Quanto a mim, e sem sombra de qualquer dúvida, estamos perante um filme belíssimo e absolutamente magistral, pessoal e intimista, cujos principais recursos são o talento e a autenticidade.

sábado, 12 de junho de 2010

FALA COM ELA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Hable Con Ella
Realização: Pedro Almodóvar
Principais Actores: Javier Cámara, Dario Grandinetti, Rosario Flores, Leonor Watling, Geraldine Chaplin

Crítica:


O BAILADO


Da morte emerge a vida. Do masculino emerge o feminino. Do terreno emerge (...)
o etéreo. O impálpável. O fantasmagórico.

Fala com Ela é, provavelmente, a mais lírica das obras de Almodóvar: uma dança vibrante, imersa em sentimento, com sede de infinito. Na verdade, consiste num bailado: o primeiro passo é dado ao som de The Fairy Queen, de Purcell, pela consagrada Pina Baush. Os restantes passos ressoam em movimentos inesperados com os avanços imprevisíveis do argumento. Os pares são formados por Marco, Lydia, Benigno e Alicia. Não importa que os elementos femininos se percam no abismo do sono profundo: o estado de coma. Mesmo de corpo imóvel, a dança far-se-á. Afinal, o cérebro das mulheres é um mistério, ainda mais neste estado, garante o dedicado Benigno.

É tão curiosa como interessante a representação da mulher nesta obra do realizador. Em Fala com Ela, a mulher prescinde da sua imagem sensual e sexual: Lydia é toureira engravatada e enfrenta destemidamente a besta, que nem um homem. Alicia, embora pratique ballet, não passa de um corpo despido que aguarda, no desconhecido, o desconhecido. Aqui, as mulheres ou se encontram desesperadas ou corroídas pelo destino. Transfiguradas pela dança.

Já a imagem do homem, como habitual em Almodóvar, carece de todo e qualquer machismo. Benigno é introvertido na sua sexualidade (latentes estão as suas preferências sexuais) e vive assumida e intensamente apaixonado pela paciente. Marco é de lágrima fácil, revelando uma exacerbada sensibilidade. São homens de sentimentos e, tal como as mulheres para a sua convencional representação, rejeitam qualquer estereótipo da figura masculina - o que nos leva a destacar a ausência clara de diferenciadores sexuais: são puras figuras humanas que amam e querem ser amadas e que tentam evitar a solidão. São, afinal, bailarinos deste grande espectáculo que é a vida, e para o qual é imprescindível um par.

O par é, note-se, um tópico fundamental nesta obra. São sucessivas as referências, a jeito de legenda, aos pares: Marco y Lydia, Alicia y Benigno, Marco y Alicia. Os pares mudam consoante as reviravoltas da vida, proporcionadas pela dança existencial do caos. Só entre pares é possível o diálogo. Habla con ella, recomenda o enfermeiro.

Outro elemento importante na análise do argumento, magnífico em toda a sua densidade criativa, é o papel do tempo: há avanços consecutivos e por meio das elipses a narrativa avança. Outras vezes recua, por meio de analepses, para uma maior compreensão da história. Há espaço, ainda, para uma breve incursão pelo cinema mudo, magistralmente orquestrado por Alberto Iglesias, onde sobressai a fulgurante obsessão pelo corpo e o erotismo inerente. Quando Benigno possui Alicia e a desperta do coma, a ética humana é posta em causa e, ao mesmo tempo, o caos como agente positivo é tomado em forte consideração. Enfim, reflexões extremamente pertinentes. Dotado de uma palete reduzida, onde abundam o vermelho, o laranja e o azul, há que destacar ainda a simples mas eficiente mise-en-scène.

Hipnótico, comovedor e encantador, Fala Com Ela é cinema em grande, onde o profundamente íntimo ascende, por identificação, ao plano universal.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

FEBRE TROPICAL (2004)

PONTUAÇÃO: [a atribuir]
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Título Original: Sud pralad
Realização: Apichatpong Weerasethakul
Principais Actores: Banlop Lomnoi, Sakda Kaewbuadee, Huai Dessom, Sirivech Jareonchon, Udom Promma

Crítica: [Em espera]




terça-feira, 20 de abril de 2010

AS CANÇÕES DE AMOR (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Les Chansons d'Amour
Realização: Christophe Honoré
Principais Actores: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Chiara Mastroianni, Clotilde Hesme, Grégoire Leprince-Ringuet, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling, Alice Butaud, Yannick Renier

Crítica:
Aime moi moins,
mais aime moi longtemps.

Um sopro de melancolia percorre as ruas de Paris, ao som d'As sentimentais Canções de Amor, de Christophe Honoré.

Ismael e Julie, Alice: há tristeza perante o esvaziamento de uma relação, perante a impossibilidade do triângulo... haverá profunda dor perante a morte inadvertida de um vértice essencial, cuja sentida ausência possibilitará um novo recomeço: Erwann. O filme fala e canta este estado de espírito, por vezes com um lirismo notável e envolvente... Desabafa com o espectador um reflexo dele próprio, porventura. Por entre prazeres voluptuosos, é representada a naturalidade de toda uma nova geração em sentir, mais do que nunca, o amor com liberdade. Uma geração que estuda, trabalha e lê, a prova de que o futuro é diferente, mais aberto e sexualmente sincero e verdadeiro, mas que não está perdido.

Em poucas palavras, As Canções de Amor não é senão um filme de uma qualidade assinalável - bem escrito, bem realizado e bem interpretado (com especial destaque para Louis Garrel, claro). Podia ser mais interessante e ambicioso, artisticamente falando, mas é romântico e apaixonante quanto baste.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões