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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

MELANCOLIA (2011)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Melancholia
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Cameron Spurr, Charlotte Rampling, Jesper Christensen, John Hurt, Stellan Skarsgård, Udo Kier, Kiefer Sutherland

Crítica:

O FIM DO MUNDO

The earth is evil. We don't need to grieve for it.
(...) we're alone. Life is only on earth, and not for long.

Melancolia é um filme bastante sui generis, como bastante sui generis é o cineasta Lars von Trier, todos sabemos. E este é o comentário mais redutor que se poderá tecer a respeito deste intenso e estranho melodrama de fim do mundo. 

Depois de um prólogo visualmente impressionante e irrepreensível, pleno de força cinematográfica ao som de Tristão e Isolda de Wagner, em que o slow motion anima a simbologia em tons de pesadelo, duas partes de filme: na primeira, intitulada Justine, seguimos a deslumbrante noiva de Kirsten Dunst, alheada numa depressão profunda, absorta numa existência inconsciente, como se a sua palavra ou ação não tivesse mais significado. Seguimo-la de trémula câmera ao ombro, desde a sinuosa curva que atrasa a limousine dos recém-casados ao mais inesperado copo d'água de que há memória, numa mansão-quase-castelo repleta de familiares e amigos que não se adoram propriamente. Cai a máscara, progressivamente, caindo com ela todas as aparências de um casamento feliz. O sonho dá lugar à frustração, à desilusão. Ao alto, na imensidão do firmamento, Justine identifica um ponto mais luminoso do que as restantes estrelas da noite - o mesmo ponto crescente que, na segunda parte, a irmã da noiva (herdou-se a Charlotte Gainsbourg do genial e anterior Anticristo), cujo nome Claire dá nome ao capítulo, prefere abster-se de vislumbrar ao telescópio, como se pela privação acalmasse o seu penoso pressentimento de que o planeta - chamado Melancolia - está a dias de colidir com a Terra e de acabar com todas as coisas. As previsões matemáticas e científicas de que isso não acontecerá e das quais o marido está tão seguro teimam em inquietá-la ao invés de pacificá-la. Essa ameaça que vem desde o prólogo, que na primeira parte não passa de um mero apontamento, mas que na segunda parte acaba por se tornar o centro de toda a ação, de todo o filme, funciona como força magnética e gravitacional, como se atraísse as personagens para a melancolia do seu nome e para a desgraça e o abismo inevitável que a sua colisão representa e significa. A sua omnipresença assola, em crescendo e irredutivelmente, o destino das duas irmãs, aniquilando quaisquer possibilidades de família ou de futuro. Por isso mesmo o casamento - instituição associada à união dos seres, à construção da relação ou da família - não deixa de funcionar como ironia, pois quaisquer tentativas de criação estão, a priori, condenadas pela destruição vindoura.

A ópera termina em tragédia; o que não admira, tal é o desencanto da visão. O que talvez surpreenda é o intimismo alcançado - tão contrastante com a natureza espetatular e desenfreada da maioria dos filmes apocalíticos - capaz de causar algum mal-estar no espetador, porém infinitamente distante do tom repugnante e provocatório de outras obras com a assinatura do realizador. Aqui contemplamos a apatia, distante de viscerais sentimentos, resignados, como de mãos e pés atados mas sem força ou vontade de ficarmos livres, por nos darmos por vencidos ou derrotados pelas circunstâncias. Não há escape nem salvação possível. Melancolia não deixa, portanto, de ser Lars von Trier fiel a si próprio, tanto na estética como na essência temática: tornamos à mulher como cúmulo da dor humana, como caminho para a transcedência. Fica a sensação de uma expiação criativa, de alguma fragilidade estrutural, todavia de absoluta singularidade.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANTICRISTO (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: Antichrist
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg

Crítica:

A RAPOSA, O CORVO E O VEADO


Nature is Satan's church.


O momento em que a mestria ascende à mais pura genialidade: um prólogo imaculado, a preto e branco, apresenta-nos Ele, Ela e Nic, o filho de ambos, condenado pelos misteriosos desígnios do sobrenatural. Ouve-se Lascia ch'io pianga, de Händel. A perfeição da fotografia e da arte de filmar sublima a tragédia, enquanto o slow motion nos enebria e arrepia. Que abertura lírica e transcendente - e, ao mesmo tempo, estranhamente apaziguadora e reconfortante. Espera-nos, contudo, o choque, o nojo e a provocação... Capítulos de Luto, Dor e Desespero e um profundo e repugnante mergulho na essência e nas origens do Mal, muito para além das fronteiras do terror psicológico. Magnífico trabalho de Lars von Trier.

I. Luto.
A morte do filho assume-se como algo absolutamente traumatizante. A queda fatal, enquanto fornicavam, assombra e consome-Lhes o pensamento, os sonhos e a existência. O sentimento de culpa existe e provém das raízes da alma. Especialmente a Ela que, após desmaiar no funeral da criança e acordar um mês depois numa cama de hospital, encontra uma assustadora e abominável depressão, cujas possibilidades de catarse são mínimas.

Ele é psiquiatra e decide, contra a ética, tratar o luto da mulher e do casal. What the mind can conceive and believe it can achieve. Primeiro, há que tentar tranquilizar-Lhe a tão intensa ansiedade: A main part of anxiety is physical: dizzy spells, dry mouth, distorted hearing, trembling, heavy breathing, fast pulse, nausea... (...) Do the breathing. Hold... Exhale. A sensibilidade na captação das imagens torna-se extrema e a câmera, bruxuleante. Intensificam-se a subtileza da montagem (Anders Refn, Åsa Mossberg), a virtuosa arte entre o focar e o desfocar e o esplendor sombrio e enigmático da fotografia (Anthony Dod Mantle). Depois, o processo terapêutico avança para o desbravar dos medos:

Ela: Do you love me?
Ele: Yes, I do.
Ela: Then help me.
Ele: It's what I'm doing. Exposure - that's the only thing that really works. Everything else is... just talk. You have to have the courage to stay in the situation that frightens you. And then you'll learn that fear isn't dangerous. Let's make a list of things you're afraid of. At the top, you put the situation you fear the most. (...) Maybe it would be easier for you to tell me where you're afraid? Where would you feel most exposed? What would be the worst place? An apartment? The street? A store? The park? Visiting someone, maybe. The woods. The woods?
Ela: The woods, yes.
Ele: It's funny because you were the one that always wanted to go to the woods. What scares you about the woods? What frightens you... there?
Ela: Everything.
Ele: Tell me what you think is supposed to happen in the woods. Eh? Is it any woods in particular?
Ela: Eden.

Fecham-se os olhos, cai-se em hipnose. Insinua-se um slow-motion cândido e tremendo. I'm at the bridge. It's evening. Almost no birds can be heard. The water is running without a sound. Darkness comes out anytime here. I walk into it. A atmosfera adensa-se. Um calafrio atravessa-nos a espinha. Lie down on the green - sugere-lhe o marido. - Lie down on the grass. (...) Lie down on the plants. (...) I want you... to melt into the green. Don't fight it. Just - turn - green.

No sono, Ela confunde-se com o arredor da cabana, a cabana do Éden onde passara o Verão com o filho, supostamente a preparar a Sua tese. Ela estudara a bruxaria e a misoginia que ao longo dos séculos irradicara da face da Terra milhares e milhares de mulheres, nomeadamente após a publicação do Malleus maleficarum.

Por mais que se tenha afastado da mulher e do filho, em tempos idos, Ele não consegue compreender o porquê de tanto medo em relação à Natureza daquele bosque negro... E isso instiga-o a continuar a expiação. Deslocam-se, pois, ao Éden.

II. Dor.
Reina o caos. Não prolifera mais o cosmos, no Jardim do Éden. Crescem o suspense, a agonia daquela mulher e os seus descontrolados impulsos sexuais. As mais improváveis situações começam a acontecer na hostilidade daquele meio. As bolotas, por exemplo, começam a cair sobre o telhado, que nem uma forte e amaldiçoada chuvada:

Oak trees grow to be hundreds of years old - conta-lhe Ela. - They only have to produce one single tree every hundred years in order to propagate. May sound benign to you, but it was a big thing for me to realize that when I was out here with Nic. The acorns fell on the roof then, too... kept falling, and falling, and dying, and dying. And I understood that... everything that used to be beautiful about Eden, was perhaps hideous. Now I could hear what I couldn't hear before. The cry of all the things that are to die.

Mais tarde, Ele encontra as fotografias do Verão passado, partilhado a sós entre mãe e filho, abre a carta da autópsia que Ela desconhece existir e... as dúvidas insurgem-se. O luto, a dor e o mistério envolvente intensificam a ruína do casamento e da relação dos dois.

III. Desespero.
Ele encontra, no sótão, o material de pesquisa da tese da mulher e apercebe-se do subtexto sobrenatural dos acontecimentos... da ligação histórica e profana entre Satanás e as mulheres... das manifestações sexuais... Começa a ter sonhos estranhos. Fala-Lhe, à mulher, desses devaneios oníricos, mas Ela apela-Lhe, ironicamente, à lucidez e ao cepticismo deontológico que nunca partilhou: dreams are of no interest to modern psychology. Freud is dead.


Ele: I am nature, all the things you call nature - tenta.
Ela: If human nature is evil, then that goes as well... for the nature of... Of the women? Female nature? The nature of all the sisters.

Ela tenta a fornicação, mas Ele resiste. Ela está possuída pelo Mal: foge da cabana, embrenha-se na neblina e na escuridão da floresta e, tendo as raízes de uma árvore antiga como altar, pressiona os genitais na mais compulsiva masturbação. Ele encontra-A e possui-A. A força do feminino reclama o Gynocide e os maquiavélicos planos de Satanás. O fotograma que a fantasia proporciona, no seguimento do acto sexual, não é senão um dos mais memoráveis e deslumbrantes de toda a obra. Viscerais e assombrosos desempenhos de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg, no abismo e fascínio do enredo.

Regressados à cabana, Ela encontra o resultado da autópsia. Nic falecera com uma deformação nos pés e Ele confronta-A com o facto. As fotografias que encontrara, nomeadamente, ostentavam os pés do miúdo com os sapatos trocados. Relembrando o prólogo, encontraremos na memória a imagem dos sapatos do menino, premeditadamente trocados. Face à Verdade, a mulher é tomada pela violência e desfere-a sobre o marido: uma violência atroz, sádica e masoquista, plena de uma essência narcísica, despudoradamente explícita, fria e cruel. Completamente possuída, a mulher jamais dará oportunidade ao remorso.

IV. Os Três Pedintes.


Ele: Did you want to kill me?
Ela: Not yet. The three beggars aren't here yet. (...) When the three beggars arrive, someone must die.

Terá sido provocada, a morte do pequeno Nic, por mera negligência? Ilumina-se o complexo argumento e as dúvidas dissipam-se. Um revelador flashback dá-nos a resposta; a nós e a Ela. Há muito que o Mal germinara no coração daquela mulher, afinal. Com a auto-mutilação, é desencadeado o insuportável e doloroso clímax. Os gritos pungentes servem o chamamento d'Os Três Pedintes. There is no such constellation, profere Ele, mas o cepticismo é tardio. Resolvem-se as simbologias e a morte chega, implacável.

Fique o Éden livre de todo o Mal. E, com ele, todas as almas para sempre perdidas.

Epílogo: preto e branco, Lascia ch'io pianga, fecho circular.

Anticristo é, por tudo isto, uma das mais inquietantes, perturbantes e destroçantes experiências cinematográficas deste virar de década. Uma absoluta obra-prima.

domingo, 8 de agosto de 2010

EUROPA (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Europa
Realização: Lars Von Trier
Principais Actores: Max von Sydow, Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Jorgen Reenberg, Udo Kier, Eddie Constantine, Ernst-Hugo Jaregard, Lars von Trier

Crítica:

A HIPNOSE E A VISÃO

Viver é simples, durante o combate.
As complicações surgem depois.

Absolutamente arrojada, altamente estilizada e visualmente estimulante, Europa, de Lars von Trier, inicia-se com um longo plano, em andamento e a preto e branco, sobre uma linha de caminhos-de-ferro. A acompanhar a cena de abertura, a hipnótica voz de Max von Sydow:

You will now listen to my voice. My voice will help you and guide you still deeper into Europa. Every time you hear my voice, with every word and every number, you will enter into a still deeper layer, open, relaxed and receptive. I shall now count from one to ten. On the count of ten, you will be in Europa. I say: one. And as your focus and attention are entirely on my voice, you will slowly begin to relax. Two, your hands and your fingers are getting warmer and heavier. Three, the warmth is spreading through your arms, to your shoulders and your neck. Four, your feet and your legs get heavier. Five, the warmth is spreading to the whole of your body. On six, I want you to go deeper. I say: six. And the whole of your relaxed body is slowly beginning to sink. Seven, you go deeper and deeper and deeper. Eight, on every breath you take, you go deeper. Nine, you are floating. On the mental count of ten, you will be in Europa. Be there at ten. I say: ten.

A projecção interminável da viagem sob os carris, as repetidas notas musicais e as pausadas cadências da narração sugerem um verdadeiro estado de relaxamento e de hipnose. Von Trier prepara assim o espectador para uma profunda imersão na história e o efeito de tal proposta é absolutamente incrível e surreal. Surreal, aliás, como muitas das imagens construídas ao longo do filme, graças à sobreposição de planos. Esta panóplia de técnicas de sobreposição confere à obra um tom puramente clássico. Sugere-se mesmo o efeito de split screen, numa cena, não pela divisão assumida do ecrã, mas pela sobreposição de planos, que une uma só acção em tempo real, mas em espaços diferentes. Quando o suspense assume a diegese, vem-nos à mente o melhor de Hitchcock. Contudo, por vezes, ainda que o segundo plano se mantenha a preto e branco, o primeiro plano destaca-se a cores... Que audácia. A cena do suicídio na banheira ou a da separação em comboios distintos são dos momentos que mais beneficiam com esta confluência estética, com este jogo de cores. Louros de Henning Bendtsen, Edward Klosinski e de Jean-Paul Meurisse. A banda sonora de Joachim Holbek é verdadeiramente extraordinária. Europa Aria, o tema que encerra o filme (letra de von Trier e interpretações de Nina Hagen e de Philippe Huttenlocher) é também sensacional, ainda que totalmente esquisita e paradoxalmente fascinante. A arte de filmar é magistral: abundam virtuosos movimentos de câmera, do princípio ao fim. Europa é, pois, um autêntico e portentoso delírio artístico.

Para além destes valores criativos, a magnificência da obra atinge a plenitude no argumento, altamente alegórico. A hipnose potencia uma regressão ao passado, na qual tornamos à Alemanha de 1945, recentemente derrotada pelas forças aliadas. Leopold Kessler (Jean-Marc Barr) visita o país, na esperança de ser útil na sua reconstrução e reabilitação e de escapar, desse modo, ao serviço militar. Se eu quisesse andar armado, teria vindo para aqui mais cedo. O tio, oficial alemão, arranja-lhe o trabalho de revisor num comboio e a maior parte da acção passa-se entre carruagens. É lá que conhece a bonita e enigmática Katharina Hartmann (Barbara Sukowa), filha do dono da Zentropa Rail Line. Europa conflui, com êxito, os mais variados géneros como o noir, o drama e o romance, o filme de acção, o filme de espionagem ou o avant-garde. Tal como a Europa, O Velho Continente, aquele comboio segue sem rumo, ocultando estratagemas de ódio e mortais crimes de guerra, mascarando uma ainda incipiente revigoração. A visão: a Europa viaja naquele comboio, iludida em hipnose - e, com ela, a sátira, mascarada em arte.

In the morning, the sleeper has found rest on the bottom of the river. The force of the stream has opened the door and is leading you on. Above your body, people are still alive. Follow the river as days go by. Head for the ocean that mirrors the sky. You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But it is not possible.

O sonho chamado Europa ainda está longe de ser realidade. Que filme brilhante.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

DOGVILLE (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dogville
Realização: Lars Von Trier
Principais Actores: Nicole Kidman, Stellan Skarsgård, Siobhan Fallon, Chloë Sevigny, Patricia Clarkson, Harriet Andersson, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Paul Bettany, Lauren Bacall, James Caan, Jean-Marc Barr, Katrin Cartlidge, Ben Gazzara, Udo Kier, John Hurt

Crítica:

NATUREZA ANIMAL

Algures entre o ensaio filosófico e as mais frágeis fronteiras do cinema, com a acção localizada numa aldeia norte-americana, numa outra qualquer aldeia ou em nenhuma aldeia em concreto, Dogville é uma experiência corajosamente original, que desafia muitos limites conceptuais e um outro, indubitavelmente: o da imaginação.

Os cenários do filme de Lars von Trier resumem-se ao mais puro minimalismo, assemelhando-se, às tantas, a um palco, iluminado consoante a fase do dia ou a importância da cena. Esta opção tem um efeito determinante: acaba por enfatizar o poder da encenação, da representação e, por sua vez, do teatro. Por sua vez, do texto, da literatura (o que é aliás aprofundado pela extraordinária narração de John Hurt). O certo é que a intenção do realizador era mesmo unir numa só obra de arte as três dimensões: cinema, teatro e literatura. O desfecho do aparente devaneio é brilhante. Dogville é um triunfo absoluto.

Excelentes desempenhos de Nicole Kidman, Paul Bettany, Patricia Clarkson, Ben Gazzara ou Stellan Skarsgärd, à frente de um elenco por demais talentoso. O retrato ao lado negro da humanidade (o oportunismo, o egoísmo, a exploração ou a vingança) é frio e cruel e tem um efeito redentor e inesperado perante os créditos finais - quando soa, desconcertante e carregada de simbolismo, a canção de David Bowie: Young Americans.

Eis, muito provavelmente e para além de todas as intenções estéticas, a mais simples e genuína essência do cinema.

The Big Man: Rapists and murders may be the victims according to you, but I, I call them dogs. And if they're lapping up their own vomit, the only way to stop them is with a lash.
Grace: But dogs only obey their own nature, so why shouldn't we forgive them?
The Big Man: Dogs can be taught many useful things, but not if we forgive them every time they obey their own nature.

terça-feira, 26 de maio de 2009

DANCER IN THE DARK (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dancer in the Dark
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Björk, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare, Joel Grey, Jean-Marc Barr

Crítica:

DE OLHOS BEM FECHADOS

In a musical, nothing dreadful ever happens.

Dancer in the Dark poderá ficar recordado como uma das mais intensas e genuínas experiências do cinema universal e, em particular, da singular mestria de Lars von Trier.

O filme inicia-se leve, simples e frágil; quase nem parece ter começado, assemelha-se a um documentário de bastidores. Mas uma coisa é certa e garantida: parece real. E esse sentido de realidade vai-nos envolvendo e aprisionando, cada vez mais, na tocante história de Selma, a jovem imigrante checa, mãe e mulher de uma inocência e dedicação extremas. Aos poucos, o drama adensa-se e precipita-se para a tragédia... e assola-nos por inteiro. A dada altura, ou engolimos em seco, petrificados, ou... cedemos às lágrimas, tremulamente agoniados. Porque o filme trespassará largamente a fronteira da comoção; angustiar-nos-á, de tanta crueldade, de tanta injustiça, de tanta revolta... Dancer in the Dark revela-se-nos como uma obra tremenda e derradeiramente forte. Estamos perante o final e queremos que o filme acabe antes do fim, que nem Selma com os musicais que tanto admira. Porque não aguentamos o sacrifício profundo e desconcertante daquela mulher inocente... tanta tortura interior, com a qual tão facilmente nos identificamos em muito graças ao poderoso efeito de real. Face a tão dolorosa realidade, não admira que Selma prefira o canto espontâneo e as danças coreografadas dos musicais, um mundo colorido onde tudo é feliz, a solução escapista capaz de a recompensar com um sorriso. Eis um filme tão perturbador quanto belíssimo, verdadeiramente belo... onde Björk, puramente brilhante, compõe (com pouca margem para equívoco) uma das maiores - senão a maior - interpretação feminina da história do cinema.

Para lá do abismo, o ermo da entrega... na escuridão da Morte. Silêncio...
Para além dela, a redentora e merecida absolvição.
Música!


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões