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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

DUNKIRK (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dunkirk
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Harry Styles, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Tom Glynn-Carney, Barry Keoghan

Crítica:

A TENSÃO DO RESGATE

 Well done, lads. Well done.

Depois de explorar os limites do cosmos e da ficção científica com o fascinante e espectacular Interstellar, Christopher Nolan sentiu necessidade de reduzir a escala, de se centrar num episódio da história recente da sua pátria e de mergulhar no mais gritante realismo, como quem regressa a casa após a mais delirante das viagens, assentando os pés na terra e despindo-se de artifícios. Porém, a opção revelou-se-lhe tudo menos confortável, antes plenamente ambiciosa, absolutamente desafiante.

Como qualquer filme de Nolan, Dunkirk é sofisticado na fórmula que investe no espectador. Tripartindo o argumento e a acção, eis a evacuação de Dunquerque pela terra, pelo mar e pelo ar. Cada um dos três pontos de vista se entrelaça a um tempo diferente: respectivamente uma semana, um dia e uma hora. Na prática, a aparente complexidade desta decisão formal não resulta propriamente num quebra-cabeças, uma vez que cada linha diegética colide aqui e ali por meio de espaços, personagens ou meios de transporte (aviões ou barcos), dirimindo essa dificuldade e guiando o espectador por entre o labirinto. Recusando facilitismos do digital, Nolan exigiu uma produção à moda antiga, com uma épica coordenação de duplos, tiros e efeitos explosivos, potenciando a imersão do espectador pela imersão da equipa técnica nas águas. As dificuldades físicas para filmar as cenas foram as mais variadas. Nolan levou a cabo uma verosímil reconstituição dos reais acontecimentos no cenário real onde tudo aconteceu. Há poucas cenas de diálogos (às tantas mais parece que assistimos a um impiedoso filme mudo, embora repleto de poderosos e impactantes efeitos sonoros), o colectivo assume o papel protagonista (embora esteja por lá Tom Hardy, atrás da máscara, Kenneth Branagh e Mark Rylance) e Dunkirk revela-se essencialmente um filme de acção, deslumbrantemente coreografado e fotografado (belíssimo embora dificílimo trabalho de Hoyte Van Hoytema). É uma verdadeira lição de cinema, um brutal exercício de forma e de exibição técnica, quase na totalidade filmado com pesadas câmeras IMAX, a assegurar o mais espetacular enquadramento para o desaire e infortúnio de quatrocentos mil soldados, encostados pelo inimigo à mais inóspita praia da morte. E apesar da paisagem aberta, na maior parte dos casos, Nolan constrói um cada vez mais intenso e sufocante thriller de sobrevivência, assustadoramente claustrofóbico seja no interior de aviões que se afundam no canal, seja das embarcações que ascendem com a maré, seja no meio da multidão que se ajoelha e rebaixa do perigo em pleno pontão, sucumbindo à desolação e à tragédia. O contra-relógio da sobrevivência ouve-se a cada passo que se corre, a cada bater do coração, a cada bombardeamento: Hans Zimmer é exímio, fenomenal e implacável na escalada do suspense. A sua banda sonora é, em tudo, singular, e perfeitamente indissociável do ritmo da montagem (Lee Smith) e do próprio filme. Partilham, pois, o mesmo código genético e estão perfeitamente intrincados.

Dunkirk é uma experiência sensorial e profundamente cerebral - porventura, o mais cerebral de todos os filmes de Nolan, à data -, ainda que a emoção seja convocada pela frieza das circunstâncias e pelo gesto humano que, a jeito de milagre, resolve e decide, às tantas, o desenrolar da guerra e o destino do mundo. Ainda assim, Dunkirk gela-me o sangue. Nolan torna a surpreender, torna a afirmar-se. Ao mesmo tempo que desbrava novos caminhos, solidifica-se enquanto autor e cineasta. O que faz é indesmentivelmente estimulante e único. O cinema agradece e nós também.

domingo, 21 de janeiro de 2018

INVENCÍVEL (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unbroken
Realização: Angelina Jolie
Principais Actores: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Finn Wittrock, Miyavi, Garrett Hedlund, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, Alex Russell, C.J. Valleroy

Crítica:

O PRISIONEIRO RESILIENTE

 If you can take it, you can make it.

Invencível foi um dos melhores filmes de 2014. Angelina Jolie entrega-nos um trabalho de realização absolutamente seguro e surpreendente, capaz de desfazer qualquer dúvida sobre o seu talento artístico. Não deve ser fácil ser mulher num mundo de homens (refiro-me à indústria cinematográfica mas podia estender-me, facilmente, a outros horizontes), filha do actor Jon Voight, ainda para mais sendo considerada uma das mulheres mais bonitas - e por isso mais invejadas - do planeta, então casada com a igualmente super-estrela Brad Pitt, relação que alimentava os tablóides do social, diariamente, por todo o globo. Mas Invencível não é sobre Angelina Jolie, a celebridade. É preciso abraçar o filme livre de preconceitos. Quando muito será sobre a sua visão da história e sobre a forma como decidiu abordá-la, na mesma medida em que qualquer filme reflete a alma do seu criador, do seu autor. Invencível está mais próximo de David Lean ou de Steven Spielberg do que qualquer filme meramente competente e sem assinatura, realizado pelo capricho de uma actriz ególatra ou bacoca. E isto é dizer muito a respeito da qualidade de Invencível.

O biopic abre nos céus, sob o olhar poético de Roger Deakins: o take é aberto e de uma beleza paradisíaca e redentora. Todavia, Jolie não tardará a condenar os seus rapazes e o espectador à claustrofobia do B-24, quando as alturas se encherem de estrondos, de balas e de morte. A brilhante sonoplastia conferir-lhe-á uma ferocidade por demais realista. Eis, então, o mote: uma geração de bravos homens é entregue ao inferno, tão longe da pátria que juraram defender. Ali, no fim do mundo, a luta pela sobrevivência faz-se de improviso, ao sabor dos acontecimentos, à medida do que é possível. Os limites - físicos, psíquicos, espirituais - são postos à prova e a superação acontece. Homens comuns tornam-se maiores, capazes das atitudes mais nobres e inspiradoras, e também menores, capazes das maiores e mais desprezíveis atrocidades. Louie Zamperini (fabuloso Jack O'Connell) poderia ter sido simplesmente mais um ser humano, em nada extraordinário, porventura até entregue ao álcool e aos caminhos menos virtuosos, como apresenta o argumento dos irmãos Coen (e companhia, a partir do livro de Laura Hillenbrand) na primeira analepse. Encorajado pelo irmão Pete, o jovem ganha auto-confiança, torna-se um atleta e a destreza levá-lo-á às Olimpíadas de Berlim de 1936 e ao reconhecimento internacional. Longe estaria de imaginar que o seu verdadeiro desafio ainda estaria por chegar: escapar a tiroteios, enfrentar a morte dos companheiros mais próximos, sobreviver à queda do bombardeiro em pleno oceano, resistir, à deriva, a semanas e semanas de insolações, fome e sede em pleno Pacífico e depois, como se tudo isso já não bastasse, a meses e meses de torturas e trabalhos pesados nos campos de prisioneiros japoneses. Não gosto do título Invencível porque sugere uma natureza poética para a história de superação de Louie. Esta história é tudo menos poética. É absolutamente cruel. A resiliência do sobrevivente, somente alimentada de esperança (de voltar para casa e para os seus ou inclusive de fazer justiça pelas próprias mãos, caso a oportunidade surgisse), não é heróica, é simplesmente humana e esmagadoramente desarmante, por isso. A moment of pain is worth a lifetime of glory. You remember that. O conselho é do irmão, na despedida para a guerra, e certamente que terá ecoado na mente de Louie durante as mais terríveis adversidades.

A narrativa flui progressivamente tensa, apesar dos avanços e recuos. Miyavi, com o seu Pássaro, tem uma estreia impressionante. O seu general, para lá de sádico e abusivo, é monstruoso. O underacting do actor, naquele seu tom suave e olhar doentio, causa calafrios e revolta. O seu confronto com Louie, no terceiro e último acto do filme, revitaliza o drama  humano e eleva-o a uma dimensão excepcional, assustadoramente trágica. Tememos o pior, a cada murro ou chibatada. A cada olhar. É mais uma das pérolas do notável casting, no qual se incluem o egrégio Domhnall Gleeson e o carismático Garrett Hedlund.

Por tudo isto, é de esperar o melhor de Angeline Jolie enquanto cineasta, doravante.

sábado, 15 de abril de 2017

ALEMANHA, ANO ZERO (1948)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL

Título Original: Germania Anno Zero
Realização: Roberto Rossellini
Principais Actores: Edmund Moeschke, Ernst Pittschau, Ingetraud Hinze, Franz-Otto Krüger, Erich Gühne

Crítica:

NAS CINZAS DA GUERRA

Una serena constatazione di fatti.

O olhar de uma criança é um olhar privilegiado para retratar a guerra ou a devastação que a mesma pode causar ao coração humano: as crianças são, sobre todos, o símbolo maior da inocência e do futuro da civilização, ambos corrompidos ou ameaçados pelo sangrento confronto. Os neo-realistas italianos sabiam disso e exploraram isso. Se pensarmos nas demais características do movimento artístico, identificamo-las facilmente num filme com Alemanha, Ano Zero, último capítulo da trilogia da guerra de Roberto Rossellini. É interpretado por actores não profissionais, é filmado nos locais reais da acção.

Não sou fã de nenhum movimento em particular, penso que qualquer escola tem as suas virtudes e que, através delas, pode expressar mais ou menos a sua arte. Acontece que Alemanha, Ano Zero, preso em demasia aos pilares da sua doutrina, serve-se mais do pretexto artístico para um registo histórico e documental do que do pretexto histórico para se afirmar como objecto iminentemente artístico. Nem sempre muito bem filmado, a cidade degradada em constante background grita o seu realismo, mas depois os indivíduos que fazem de actores são, na grande parte das cenas, tão pouco credíveis que o poder da história tende a cair por terra. A fotografia é, por vezes, tão miserável quanto a atmosfera em que os acontecimentos têm lugar. O desmazelo artístico é, na minha opinião, claro e evidente. Se a tal evidência me responderem: pois, mas neo-realismo é mesmo assim. Eu respondo com o também neo-realista Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica e do mesmo ano. Atentem-se, nesse magistral filme, à fotografia, à condução do conflito moral e à direcção dos indivíduos que fazem de actores. Basta compararem o carisma e o talento do Bruno de Enzo Staiola com o do Edmund de Edmund Moeschke - aliás, basta pesquisarem quantos filmes fez Enzo depois do filme de Sica e quantos filmes fez Edmund depois deste Alemanha. Não terá sido certamente por acaso.

Ainda assim, o argumento salva o filme da total tragédia: no rescaldo da guerra e antes do eventual renascimento da fénix, a sobrevivência entre os escombros da moral. Na mais plena amoralidade, uma criança não é uma criança: é obrigada pelas circunstâncias a corromper-se, a jogar um jogo demasiado cruel e monstruoso para a sua idade, para a sua maturidade. O caminho não é só perigoso, é irreversível.

Por tudo isto, um filme com interesse sobretudo histórico. Arte... arte é outra coisa.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FÚRIA (2014)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Fury
Realização: David Ayer

Principais Actores: Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Brad William Henke, Kevin Vance, Xavier Samuel, Jason Isaacs 

Crítica: 

CAVALOS DE FERRO

Ideals are peaceful. History is violent.

Se há género que proliferou em Hollywood, nas últimas décadas, foi o filme de guerra, retratando e reflectindo, especialmente e na grande parte das vezes, a brutalidade, o horror e a desumanidade da 2ª Guerra Mundial, cuja sombra ainda esvanece, cujas feridas ainda saram, cuja memória ainda não esquece. Ainda há sobreviventes, marcas e arte. Fúria continua a tradição e esse cânone, na sombra da guerra e, claramente, na sombra d'O Resgate do Soldado Ryan. A angústia da influência, como lhe chamaria Harold Bloom, é por demais notória e a comparação, se não necessária, pelo menos irresistível. Édipo não mata o pai - Ayer não foi nem é um Spielberg - no entanto, diria que estamos perante um digno discípulo, um bom filme do género.

D'
O Resgate diria que herda, a olhos vistos, os tons. Os tons, mas não o grão. Falo de cores e da atmosfera que estas possibilitam. A fotografia de Roman Vasyanov é absolutamente deslumbrante e é capaz de pintar o mais atrativo dos quadros perante o pior dos cenários. O plano de abertura - cujo mérito é mais do diretor de fotografia do que realizador - é magnífico: uma luz centrada, gélida e bruxuleante ilumina a tela, azulando-a. Vem do horizonte longínquo e parece inebriar a terra com uma quase neblina: não se percebe se o que vemos são arvoredos ou campos, pois não temos noção das escalas ou proporções. À medida que a luz se vai e o ecrã escurece, dá lugar a um vulto cavalgante. Somos reposicionados. E só quando a câmera solenemente decide mover-se finda o mistério. São poucos mas não meros segundos. Belíssimos. Dá gosto saborear, que abertura.

Também pelos ouvidos ecoa o mestre; aquele, o de 1998. A experiência de um filme de guerra vive-se sobremaneira pelo espectáculo sonoro e, nesse aspecto, Fúria jamais poderia defraudar o espectador. É com a fúria do título com que tiros, ricochetes e explosões irrompem cena a cena, retumbantes, reclamando a atenção e uma qualidade fora de série. Tanto os efeitos como a sua montagem são de primeiríssima linha - a equipa responsável é vastíssima e mereceria, com toda a certeza, a nomeação individual. Fica a menção honrosa pela brilhante sonoplastia. A composição musical de Steven Price é, de forma geral, subtil e temperada, pontuando ou alavancando, de forma sábia, os momentos narrativos. Sempre com o volume certo, à hora certa.

Feitos os principais destaques, foquemo-nos no elenco - um colectivo com um potencial poderosíssimo; notem-se os principais nomes: Brad Pitt (mega-estrela, com um historial de personagens que fala por si), Logan Lerman (claramente em ascensão e a ter em conta) e o malogrado 
Shia LaBeouf (malogrado por sua própria conta e risco, porque de talento está muito bem servido - aqui num notável underacting). Temos em Fúria grandes interpretações, pelo menos à altura do argumento, que orienta um road dos tanques ao sabor dos ataques e das investidas do inimigo. Um road movie como o filme de Spielberg e tantos outros propõem, num tempo em que a verdadeira cavalaria ganha força nos ares mas que em terra não é assegurada senão pelos tanques blindados, essas claustrofóbicas e assustadoras máquinas de guerra, que tudo levam à frente, conduzindo a ambição - e a esperança - humanas de campo em aldeia e em cidade, esmagando pó, carne ou osso. Cavalo a cavalo, todos sucumbem ao fogo e à destruição. Temos até direito a um duelo, em que só a maior astúcia ou inteligência poderá ditar a vitória. Animais, monstros, todos se tornam monstros, todos se transformam. Até o cândido Norman de Lerman, pela força das circunstâncias, quando o impulso ganha domínio sobre qualquer reflexão. Na guerra, não há tempo para isso.

Tivesse David Ayer mais cuidado e inspiração na encenação e na construção das cenas e estaríamos, provavelmente, perante um filme superior, mas não procuro, de todo, cair na tantas vezes fácil lamentação e exigência cinéfilas. Estamos perante um filme tremendo. O momento mais tenso e melhor conseguido será, porventura, aquele central em que as personagens de Pitt e Lerman sobem ao apartamento das primas alemãs. As diferenças linguísticas impõem, desde logo, uma barreira que rapidamente se esbaterá no respeito ou desrespeito com que os soldados tratarão as duas mulheres. A contrabalançar as violentas e viscerais sequências de acção que se antecederam e que se sucederão, esta
 cena mais demorada ou este acto mais delicado; nunca menos brutal ou impactante, pois... o que dizer do emocionante final, em que a coragem é extremada e aqueles homens se superam na defesa do tanque como quem defende a sua própria casa, até ao último fôlego? Que chacina, que final.

Fúria é, por tudo isto, uma homenagem maior a todos esses heróis que manobraram os míticos veículos, armados até aos dentes, atemorizados até ao mais profundo e recôndito lugar das suas almas. Uma homenagem, um retrato embebido num realismo esfomeado, um convite à reflexão, mas um filme. O filme dos tanques. E um filme que vale seguramente a pena. Não leva as cinco estrelas por uma unha negra.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Saving Private Ryan
Realização: Steven Spielberg
Principais Atores: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Matt Damon, Paul Giamatti, Adam Goldberg, Barry Pepper, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno, Leland Orser


Crítica: 

O HORROR DA GUERRA

 This time the mission is the man.

Sangrento, visceral, impiedoso, cru. O Resgate do Soldado Ryan é o mais violento e impressionante filme de guerra a que já assisti. Aquela já mítica cena do desembarque dos Aliados na praia de Omaha, na Normandia, tem como não ser uma das melhores cenas jamais filmadas? Golpe de génio de Spielberg, no cúmulo da sua seriedade: a ação é ultra-rápida, feroz e avassaladora, qual confronto real (a trémula câmera ao ombro assegura o hiper-realismo, o sangue e a terra salpicam a tela ou o ecrã), o tiroteio é incessante e ensurdecedor (detalhista e brilhante sonoplastia de Gary Rydstrom, Gary Summers, Andy Nelson, Ron Judkins) sobre a desesperada paisagem, transfigurada pelo inferno (a imagética é poderosíssima, deveras impressionante, mérito da magistral direção de fotografia de Janusz Kaminski; as lentes são engenhosamente manipuladas, o frame é granulado e desfocado se necessário, os tons esverdeados e cinzentos são dessaturados). As balas perfuram capacetes, as metralhadoras dilaceram corpos, o mar enche-se de sangue. A carnificina choca-nos o olhar, nauseia-nos o estômago, estremece-nos por inteiro (mérito inegável da equipa de caracterização: Lois Burwell, Conor O'Sullivan, Daniel C. Striepeke). Spielberg, imperdoável, não nos poupa a nada. Um soldado procura o resto do seu braço pelo areal. Outros tantos instigam a invasão e o contra-ataque em diante, plenos de adrenalina. Multiplicam-se as explosões, a brutalidade e a morte. Mais tarde, até o simples cair da chuva sobre as folhas das árvores e outras plantas nos soará a troada. 


 If God's on our side, who the hell could be on theirs?

Apesar de bélico por excelência e de tremendo na sua ação, furiosamente espetacular, O Resgate do Soldado Ryan desfere a sua filosofia a cada investida; não creio na violência pela violência. Há breves intervalos para o diálogo, para as conversas de circunstância, raramente algo de muito profundo - afinal, o homem ao nosso lado, com quem estreitamos a mínima afeição, é fuzilado no instante seguinte. Não há tempo nem espaço para a amizade, somente para o companheirismo, que se demonstra mormente no fulgor da refrega, no suor do imprevisível campo de batalha. Não há heróis; o heroísmo faz-se pela tenacidade do coletivo. O elenco de notáveis secundários, aliás, resplandece sobre essa pluralidade; passo a nomear: Tom Sizemore, Jeremy Davies, Edward Burns, Giovanni Ribisi, Vin Diesel, Paul Giamatti, Adam Goldberg. São todos homens iguais e comuns, organizados pelas hierarquias militares às quais juraram obediência ou serventia, mas todos com o mesmo propósito: lutar pela pátria. O Soldado Ryan é, pois, um filme de posições patrióticas, inequivocamente assumidas naquela bandeira hasteada ao vento e que nos aparece de forma circular, a abrir e a fechar a obra. A estrutura circular impõe-se também por força do prólogo e do epílogo, nos quais um velho homem (Harrison Young) se passeia entre os túmulos de militares idos; a música de John Williams confere solenidade e sentimento às cenas. Desconhecemos quem é aquele velho homem, claramente emocionado; certamente que abismado por memórias traumáticas. Faz-se acompanhar pela família, parece estar ali para homenagear alguém, depreendemos que provavelmente os companheiros que lutaram a seu lado, no passado. Quando os recorda e o flashback - em que consiste a maior parte do filme - nos faz viajar até ao fatídico 6 de Junho de 1944, instala-se a incógnita: será ele o Ryan do título, pelo qual se fará o resgate, ou o capitão John Miller (soberbo Tom Hanks), que a película a partir daí acompanha? A confusão é propositada e aliás potenciada por Spielberg, pela sugestão dos close-ups à cara de ambos. Só no fim a sublime montagem de Michael Kahn (determinante para o sucesso das sequências de ação e justamente de todas as outras) desvenda o mistério e dissipa as dúvidas que nos acompanharam durante toda a missão. 

Cenas memoráveis, para além da do desembarque? Mais que muitas. O resgate impulsivo de uma chorosa menina aos pais consumidos pela perda e pelo medo, a libertação de um alemão que mais tarde disparará sobre Miller, o humor escapista dos soldados, acalorados pela melodramática e sonante voz de Edith Piaf ao gramofone ou o intenso assalto dos tanques alemães à ponte armadilhada, no final, até à chegada dos P-51's - angels on our shoulders; outra das tão prodigiosas sequências de combate, maravilhosamente filmadas por Spielberg. É à medida que caminhamos para este final estrondoso, tão trágico como qualquer instante da guerra, que nos apercebemos da extraordinária recriação histórica, somente possível dada a excelsa dedicação da direção artística (Thomas E. Sanders, Lisa Dean) - veja-se o cenário de absoluta destruição, os edifícios em ruínas ou os montes de escombros.

A dado momento da conversa com Miller, o cabo Timothy E. Upham (inesquecível Jeremy Davies, como pacifista cobarde e alter-ego do espetador) cita Emerson, tentando convencer-se: War educates the senses, calls into action the will, perfects the physical constitution, brings men into such swift and close collision in critical moments that man measures man. Partilhando a temida, arriscada e perigosa experiência com aquele batalhão desde o desembarque, quase sobrevivendo dos disparos da mais variada artilharia tanto como eles, tal é a nossa imersão no universo do filme, sabemos que as palavras de Emerson são completamente desajustadas e que não fazem sentido algum. A guerra é um acontecimento desmesuradamente hediondo e vergonhoso e nada edificante; pelo contrário. Daí que o pensamento do bravo sargento Horbath (Tom Sizemore), por oposição, faça todo o sentido: Someday we might look back on this and decide that saving Private Ryan was the one decent thing we were able to pull out of this whole godawful, shitty mess. E que a dívida de gratidão do soldado Ryan (Matt Damon, acabado de atingir o sucesso em O Bom Rebelde) seja eterna.

Do que é que podem acusar esta inolvidável obra-prima? De sentimentalismo exacerbado no prólogo, interlúdio e epílogo? A sério? Não reconhecer a magnificência e o cânone posterior de O Resgate do Soldado Ryan (afinal, redefiniu a estética do género, às portas do novo milénio) deve ser frustrante. É, senão o melhor, seguramente um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Directed by... Steven Spielberg, versátil e eclético; sinais de maturidade e de sabedoria. Mais um exemplo de que, às vezes, uma realização sublime pode suplantar, a existir, qualquer fraqueza de um guião (Robert Rodart) e re-potenciar toda uma história.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A VIDA É BELA (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: La Vita è Bella
Realização: Roberto Benigni
Principais Atores: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giustino Durano, Giorgio Cantarini, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo, Raffaella Lebboroni

Crítica:

UMA TRAGICOMÉDIA EM DOIS ACTOS

 Buongiorno, Principessa!

Vislumbramos a perfeição, às vezes, na genuína representação de humanidade... e isso não é fácil, na arte. Em A Vida é Bela encontramo-la - com aparente simplicidade - tanto na comédia como na tragédia e é isso que é comovente. Este encantatório filme de Roberto Benigni - que em 1997 polarizou as atenções do mundo, uma vez mais, para o cinema italiano - pode não ser um exercício do maior dos formalismos - tão-pouco almeja a irreverência do cinema independente - mas encontra na sua graciosidade, espontaneidade e despretensiosismo - diria mesmo, na sua pureza e desarmante infantilidade - a sua absoluta singularidade e a capacidade inequívoca de despertar no espetador as mais sentidas e verdadeiras emoções. Não é fácil, também e da mesma forma, por isso, encontrar alguém, com o mínimo de humanidade, que não goste de A Vida é Bela.

Guido Orefice (imortal e, em tantos aspetos, autobiográfico papel de Roberto Benigni) é um infantil, divertido e excêntrico homem comum; qual clown, exagerado nos trejeitos e na eloquência, larger than life itself. Apesar da sua existência enfática, é humilde, é um bom homem. E é judeu, como nos viremos a aperceber mais adiante, o que, na Itália fascista do final dos anos 30 do século XX, à beira da guerra, não lhe augurará um promissor destino, pelo contrário. Benigni começa pela comédia e pela sátira: de Chaplin a Fellini, a herança é clara. A espirituosa e aclamada composição musical de Nicola Piovani acompanha a ação desde o primeiro instante e potencia os cómicos de situação e de personagem. Guido atrai as situações mais caricatas, mas também manipula as circunstâncias por forma a alcançar o humor picaresco (por meio da hiper-lucidez, nomeadamente, tão característica dos humoristas). E é neste contexto que se inicia a história de amor. Numa viagem ao campo, Dora (Nicoletta Braschi, mulher de Benigni na vida real) salta de um pombal e cai-lhe nos braços, sobre a palha. Buongiorno, Principessa! Guido fantasia, cheio de graça, e, na sua inocência, encanta. Mais tarde, já na cidade e inesperadamente, cai da bicicleta em fuga para os braços de Dora... sinal do destino. Buongiorno, Principessa! Depois, os acasos acabam. Daí em diante, embora continue a fabricá-los aos olhos de Dora, o romântico encontrar-se-á com a professora, uma e outra vez, porque potencia esses encontros... e a magia acontece. Guido sequestra-a da ópera num automóvel que não tardará a ficar descapotável e pleno de chuva. Uma demorada passadeira vermelha desenrola-se escadaria abaixo para a sua bela princesa passar. Montado baile adentro num cavalo verde, salva-a do seu não-pretendido noivo e leva-a até casa do tio, onde poderão viver felizes para sempre. Ou poderiam, não fosse a elipse e a assombrada mudança de resgisto que se seguem. 

Cinco anos depois, saem para a rua, a câmera não se move. A fábula chegou ao fim (ou não) e a história tornou-se mais imprevisível do que nunca. Séria e profundamente trágica, apesar do humor, ou sobretudo pela sua resistência. Têm um filho, Josué (adorável Giorgio Cantarini, em todas as suas expressões faciais), que bate o pé para não tomar banho (ironicamente, tal atitude salvá-lo-á mais tarde das câmaras de gás). Os três passeiam pela cidade de bicicleta, são felizes. Têm a livraria com que Guido sempre sonhou. É dia de aniversário da criança, mas... por serem judeus, Guido, o tio e o filho são inesperadamente levados para o campo de concentração, pelos alemães. Dora convence os alemães a meterem-na no mesmo comboio, para o mesmo destino. O resto do filme, é a sobrevivência no campo de concentração. Para evitar que Josué descubra a cruel realidade para que foi levado, Guido fantasia que estão num jogo: quem atingir primeiro mil pontos ganha e recebe um tanque de guerra verdadeiro. Encobrir a verdade, embelezando-a, torna-se uma mentira necessária, determinante para salvar aquela inocente criança e livrá-la, tão cedo quanto possível, do inevitável e monstruoso trauma do holocausto nazi. Espera-os a fome, o trabalho forçado, o cheiro da morte. Alimentar a esperança a este nível é absolutamente desarmante, perante tão terríveis circunstâncias. Mas que pai, que coragem... 

A Vida é Bela é um filme de atores e que ascende a um patamar superior por força do seu arrojado argumento, contudo não há qualquer desmérito por parte da fotografia (Tonino Delli Colli), da montagem (Simona Paggi) ou da cenografia (Danilo Donati, Luigi Urbani); esta última, aliás, notável. Uma última nota para a personagem Dr. Lessing (Horst Buchholz), o médico que Guido servia no restaurante do tio ainda antes da guerra, com o qual ganhamos simpatia pelo seu amor às adivinhas e aparente bondade e que muitos afirmam ajudar Guido e o filho quando estes estão no campo de concentração. Se ajudar Guido e o filho é levá-los a jantar com o inimigo, não creio que tenha sido grande ajuda. No fim acaba por não ajudá-los em nada, ignora-os e dá prioridade às adivinhas: mostra-se egoísta, insensível e tão desprezível como todos os outros militares do hediondo lugar. Que podia ele fazer? Talvez nada, ou ainda se arriscava a ser fuzilado como traidor dos nazis, mas termina - quem sabe se por cobardia - por trair Guido. Quer é saber a resposta à adivinha. Torna-se, na minha opinião, a personagem mais detestável de todas, à altura do Mal quase invisível que dita a morte aos injustiçados.

A Vida é Bela chega-nos, pois, como um acontecimento assustadoramente revoltante e arrepiante, capaz de nos desfazer a nós, espetadores, em lágrimas. É um filme derradeiramente apaixonante e inesquecível, tal é a sua poderosa e arrebatadora lição de otimismo e, por meio dela, o seu inspirador hino à vida; o título não é em vão, não é apenas ironia. Há como acabarmos de assistir a um filme deste calibre e, indiferentes, não repensarmos, reavaliarmos ou relativizarmos toda a nossa existência? Há, naturalmente, mais realismo n'A Lista de Schindler ou n'O Pianista. São visões e conceitos artísticos distintos e complementam-se no entendimento deste período negro na História da Humanidade.

Um irresistível triunfo cinematográfico.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O PIANISTA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: The Pianist
Realização: Roman Polanski

Principais Actores: Adrien Brody, Thomas Kretchmann, Frank Finlay, Maureen Lipman, Emilia Fox, Ed Stoppard, Julia Rayner

Crítica:

If you prick us, do we not bleed?
If you tickle us, do we not laugh?

UMA HISTÓRIA DE SOBREVIVÊNCIA



If you poison us, do we not die?
And if you wrong us, shall we not revenge?

As frases com que me inicio são de Shakespeare, The Merchant of Venice (acto III, cena I). Sabe, quem conhece a comédia, que a eloquente passagem se refere às angústias do agiota judeu, a propósito da discriminação que sobre o seu povo recai, há séculos, injusta e desumanamente:

I am a Jew. Hath not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions; fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, healed by the same means, warmed and cooled by the same winter and summer as a Christian is?

Quem diria que o anti-semitismo viria ainda a contribuir para um dos mais negros capítulos da História da Humanidade.

As frases com que me iniciei são proferidas por Henryk (Ed Stoppard), num momento que antecede a dolorosa separação da família, quando Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) o interroga sobre o que está a ler. Estamos no ano de 1942. Terminada a declamação, Wladyslaw remata: very appropriate. Estão rodeados por uma multidão de judeus: sedentos, famintos, pálidos, de pele e osso, sujos, doentes e em tremendo estado de choque. Recentemente retirados dos ghettos que os humilharam e desumanizaram por completo, são agora supervisionados pelos soldados da Gestapo: anseiam por paz, mas espera-os o horror dos campos de concentração.

Wladyslaw Szpilman era, até meados de 1939, um reputado pianista. Tocava para a Rádio de Varsóvia e o seu talento era unanimamente reconhecido. You musicians don't make good conspirators. You're too... too musical. Mas as imposições nazis, que a partir de então se fizeram sentir, anularam por completo qualquer reputação, qualquer integridade. Os judeus foram proibidos de entrar em restaurantes, de frequentar os parques, de andar nos passeios... Foram obrigados a ostentar a Estrela de David no braço, foram caluniados, esbofeteados, espancados, roubados, escravizados... o cerco apertou-se até serem reduzidos à mais miserável condição, à mais miserável existência. Em Outubro de 1940, tiveram que abandonar as suas casas e partilhar as divisões do distrito judeu com centenas e centenas de famílias condenadas. Venderam todos os seus bens, esconderam cada nota e, ainda assim, alimentaram-se do ar, tal era a escassez de alimento.

I blame the Americans. (...) American Jews, and there's lots of them, what have they done for us? What do they think they're doing? People here are dying, haven't got a bite to eat. The Jewish bankers over there should be persuading America to declare war on Germany!

... diz o pai do pianista.

Os judeus, impotentes, limitaram-se à extrema situação. A revolta, por mais organizada que fosse, revelar-se-ia sempre ineficaz. A única eficácia talvez fosse apenas a morte com dignidade.

Germans never go into Jewish toilets. They're too clean for them.
Majorek

Roman Polanski, que também em criança testemunhou - na pele e na alma - os horrores do holocausto e das perseguições nazis na Polónia, filma este impressionante drama com uma frieza implacável, com uma tenacidade e com uma mestria incríveis. Há cenas verdadeiramente chocantes, tocantes e derradeiramente excepcionais: a morte do menino pelo buraco do muro, a dança do gozo e humilhação, o comer directamente do chão, o homicídio do paralítico a partir do terceiro andar, a partilha de um só caramelo de 20 zlotes entre todos, as sádicas chacinas em fila, etc. O filme vive muito dos planos estáticos e do poder da encenação, vive do poder destroçante das imagens. A mise en scène é cuidada e minuciosa, perfeitamente iluminada e fotografada (Pawel Edelman). Os valores artísticos por detrás da reconstituição histórica são elevadíssimos (Allan Starski, Nenad Pecur, Wieslawa Chojkowska e Gabriele Wolff). O notável guarda-roupa é da consagrada Anna Sheppard (estilista responsável, entre outros grandes trabalhos, pelo figurino do extraordinário parente A Lista de Schindler). O filme vive também dos silêncios ou das erudição das peças musicais: Beethoven, Bach, entre outros, mas sobretudo Chopin. A banda sonora original é de Wojciech Kilar. Aquele clarinete a solo é tão solitário e desolador quanto a aterradora experiência de Szpilman. A obra vive ainda e sobretudo dos desempenhos dos actores, em especial da assombrosa e transfiguradora performance de Adrien Brody.

Quando o conhecido e influente Yitzchak impede que Szpilman parta com a família no comboio, inicia-se um percurso a sós; que se revelará, porventura, as etapa mais difícil e agoniante de todas. Primeiramente, Szpilman ainda se sujeita ao trabalho na construção civil, sob as ríspidas e repressivas ordens dos soldados alemães.

Know why we beat you? Know why we beat you?
(...) To celebrate New Year's Eve!

... exclama um dos monstros, alcoolizado.

Mas a esperança de escapar nunca se esvaiu, nos momentos de maior lucidez. I want to get out of here, afirma um dia ao colega Majorek, que reencontra na empreitada. It's easy to get out - responde-lhe o recluso - it's how you survive on the other side that's hard. Num outro dia, por sorte, proporciona-se a fuga. Valem-lhe amigos antigos que, ainda que polacos e ameaçados pela propaganda de Hitler, se recusam a ignorá-lo, sem o ajudar. Dão-lhe tecto, alguma comida, algumas condições... esconderijos mais ou menos seguros onde deverá aguardar, no mais profundo isolamento, pelo fim do conflito. Tendo um piano em frente e sem poder tocá-lo, com medo de ser denunciado, imagina a concretização máxima da partitura, imagina Chopin, inspiradamente interpretado. Falta-lhe a música, falta-lhe o alento, falta-lhe a família, falta-lhe praticamente tudo. Passa tanto tempo sem falar que quando as explosões se fazem ouvir nos arredores, cada vez mais perto, apenas consegue balbuciar, assolado pelo pânico.

1944. Quando os tanques lhe invadem a rua, foge uma vez mais, ensurdecido pelas explosões. Aquele plano sobre a avenida em ruínas, depois do muro, é tão... silenciadora... Até ao final da obra, sucedem-se as elipses e os episódios. Szpilman não parece mais o mesmo: em trapos que nem um mendigo, cresceram-lhe o cabelo, a barba e o sentimento de perda. Encontra uma lata de conserva, mas não tem força nem física nem psíquica para pensar numa forma de abri-la. Inesperadamente, vê-se frente a frente com um Capitão do exército alemão (Thomas Krestschmann, portentoso no underacting). O momento é, verdadeiramente, de cortar a respiração.

Play.

Szpilman ainda hesita ao pedido, mas não resiste à possibilidade de finalmente voltar a tocar piano. E o piano ali está ao lado, no meio da sala abandonada, iluminado por um frio feixe de luz. O militar apoia-se no piano e observa-o. E Szpilman toca. Toca com toda a alma e coração, na concretização plena de um momento catártico. Condoídos pelos terríveis acontecimentos que o pianista viveu, e que tão sofregamente presenciámos, somos incapazes de interromper aquela música profundamente sentida... Não há espaço para maniqueísmos - o alemão ajuda-o: dá-lhe comida, um casaco, um abre-latas. Dá-lhe uma última e derradeira esperança. Talvez sobreviva a tempo da chegada dos russos, talvez sobreviva a tempo da libertação. Talvez sobreviva, afinal, para contar a história. Enfim, cenas memoráveis, no culminar de um clássico absoluto e obrigatório.

Grande, grande pedaço de cinema.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A BARREIRA INVISÍVEL (1998)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Red Thin Line
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Sean Penn, Adrien Brody, James Caviezel, Ben Chaplin, John Cusack, Woody Harrelson, Elias Koteas, Jared Leto, Nick Nolte, John C. Reilly, George Clooney, John Travolta, Thomas Jane, Miranda Otto

Crítica:

HORIZONTE SEM GLÓRIA

Maybe all men got one big soul everybody's a part of,
all faces are the same man.

Profundamente belo, poético e filosófico, A Barreira Invisível narra e medita, a partir do interior das suas personagens, um intenso retrato de guerra e de humanidade. Eis, absurda e derradeiramente cruel, a auto-destruição do Homem e da Natureza, não fosse a racionalidade que distingue a nossa espécie tão incompreensível quanto puramente natural. A solidão, o medo e o fim da identidade individual: na guerra, todas as vozes expressam a mesma consciência. Os monólogos interiores, aliados à natureza contemplativa da narrativa, reflectem a morte e a vida e o seu significado. O amor e a recordação, o passado e o futuro, perante um presente tão desprezível.

War don't ennoble men. It turns them into dogs... poisons the soul.

Suportada pela deslumbrante fotografia de John Toll e pela subtil e emocional banda sonora de Hans Zimmer, a realização de Terrence Malick deixa-se fluir com inspiração e tremenda perfeição, na arte de filmar. Junta-se-lhe a montagem, na solidificação da viagem introspectiva, a marca de estilo do cineasta.

This great evil. Where does it come from? How'd it steal into the world? What seed, what root did it grow from? Who's doin' this? Who's killin' us? Robbing us of life and light. Mockin' us with the sight of what we might've known. Does our ruin benefit the earth? Does it help the grass to grow, the sun to shine? Is this darkness in you, too? Have you passed to this night?

Destaque para os excelentes efeitos sonoros e visuais que conferem à obra um realismo impressionante, em sequências de acção espectaculares. O elenco está todo ele formidável, Jim Caviezel irradia serenidade e o verdadeiro espírito do filme. E é um grande «espírito», o que habita esta obra... um puro pedaço de arte onde a natureza é a maior protagonista e a derradeira vencedora de qualquer guerra.


Where is it that we were together? Who were you that I lived with? The brother. The friend. Darkness, light. Strife and love. Are they the workings of one mind? The features of the same face? Oh, my soul. Let me be in you now. Look out through my eyes. Look out at the things you made. All things shining.

Um filme raro, como cada um dos filmes de Terrence Malick.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SACANAS SEM LEI (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Inglourious Basterds
Realização
: Quentin Tarantino

Principais Actores: Brad Pitt, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Mélanie Laurent

Crítica:

A OBRA-PRIMA

I think this might just be my masterpiece.

Tentem imaginar uma mente genial e excêntrica que, no auge da sua arte de reinvenção, arrisca uma mistura explosiva. Pois bem, é assim que nasce Sacanas Sem Lei. E a criativa origem não poderia ter outro nome se não Quentin Tarantino... o seu cinema tem um cunho singular, tão irreverente quanto autêntico. E aqui, mais do que, num plano absolutamente ficcional, ousar reescrever a História (dando um final porventura merecido a uma das mais hediondas criaturas que habitou esta Europa), o seu cinema atinge a maturidade e concretiza a ambição da obra de arte completa, sendo que há uma perfeita coesão de estilos, registos e géneros que nunca se torna ridícula, apesar do non-sense.

A narrativa é estruturada em cinco capítulos. A efabulação é desde logo invocada pelo Once upon a time. Once upon a time in Nazi-occupied France onde judeus se escondem, quais ratazanas, aterrorizados pelo extermínio. A cena inicial é das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Em termos artísticos é, simplesmente, qualquer coisa de... transcendente. E de absoluto detalhe. A paisagem impõe-se e lembra-nos a ambiência do western: no alto de uma colina campestre, mais um dia de esperança. Uma casa, várias árvores. O gado vagueia pelo verde pasto. Um agricultor corta a lenha a machado, uma mulher estende a roupa ao vento. Poderíamos estar no oeste americano. Porém, detrás dos brancos lençóis não se descobrem cavaleiros empoeirados, justiceiros ou malfeitores. Vislumbra-se um carro e duas motas. Soldados alemães. Nazis. Mortinhos pela desratização.

O primeiro capítulo marca o extraordinário grau de qualidade que se perpetuará por toda a obra: cenas longas, diálogos inteligentes, irónicos e mordazes, interpretações de luxo (o sádico e engenhoso Coronel Hans Landa, magistralmente interpretado por Christoph Waltz, é uma criação memorável!), uma mise-en-scène criteriosa e um trabalho de fotografia deslumbrante (Robert Richardson), assim como uma montagem em tudo brilhante, a marcar o compasso e o ritmo da obra. Tarantino serve-se tanto do texto como da sua inspirada e sublime arte de filmar para construir momentos de alta tensão e de verdadeiro terror psicológico, aqui e ali atenuados por eficazes e hilariantes comic reliefs. Recordo, por exemplo, quando no auge da sua assustadora retórica, Hans Landa retira do bolso um cachimbo de um tamanho descomunal - creio que é impossível não libertar uma gargalhada, nesse preciso instante, descomprimindo assim do intenso acumular do suspense que até ali imperava.

Brad Pitt é o tenente Aldo Raine, caricatura do americano e líder dos Sacanas. A missão da sua tropa? We're gonna be doin' one thing and one thing only... killin' Nazis. O escalpe dessas bestas alemãs é o seu objectivo primeiro. Ainda que dados ao discurso, à sátira e ao ludo linguístico - ou não fossem eles personagens tarantinescas (e Tarantino, por sua vez, um dos grandes artistas da palavra) -, os Sacanas servem a retaliação a sangue frio, numa violência brutal e explícita; mas nunca gratuita, sempre estilizada. Alguma da encenação que antecede a corporal punição sobre os nazis tem mesmo direito a Morricone, convocando os bons velhos tempos de Leone e d'O Bom, O Mau e O Vilão. Tarantino aliás, e como sempre, conflui estéticas e invoca as mais variadas referências na elaboração do pastiche. O próprio filme de 2ª Guerra Mundial, enquanto género, é aqui desconstruído, reinterpretado e reconstruído. O resultado é algo completamente novo, genuíno e único.

Poder-se-á dizer que o tema de Sacanas Sem Lei é a vingança. Num nível metadiegético, é claro que a efabulação tarantinesca representa a vingança da Arte sobre a História. Dentro da diegese, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent, numa virtuosa performance) empreende um plano maquiavélico para acabar de uma vez com Hitler, Landa e os seus súbditos leais e assim vingar o raticídio que lhe dizimou a família e do qual escapou, por um triz. As cenas em Paris concentram um sem fim de mise en abymes de elevadíssimo potencial semântico. A começar pelo cinema que a judia terá herdado dos tios Mimieux. É no cinema que se desencadeia a vingança, estabelecendo um paralelo com os espectadores, que assistem ao filme: o ecrã em chamas é o ecrã dentro do ecrã. E a metragem Stolz der Nation é o filme (de 2ª Grande Guerra) dentro do filme (de 2ª Grande Guerra), ambos com Daniel Brühl como actor.

A imprevisibilidade da narrativa é uma das características mais notáveis do filme. Nunca sabemos bem o que pode acontecer. Ou melhor, o que vai acontecer. Porque sabemos que tudo pode acontecer. A cena do bar, em que uma conversa se arrasta por mais de vinte e tal minutos e depois, num ápice, se resolve numa chuva de tiros fatais é a prova disso. Há um momento, ainda antes disso, em que o ecrã se divide em dois e somos surpreendidos por um narrador desconhecido, que nos dá conta do quão inflamável pode ser uma película cinematográfica. Depois há metáforas incríveis e insólitas. Aquela massagem no pé só para rematar com looks like the shoe's on the other foot é qualquer coisa... Percebe-se, com tudo isto, que Sacanas Sem Lei é muito mais do que entretenimento sofisticado. É uma criação de amor, de puro amor à arte e a uma estética que dialoga consigo própria.

Um clássico instantâneo. A masterpiece, indeed.

domingo, 5 de dezembro de 2010

AUSTRÁLIA (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Australia
Realização: Baz Luhrmann
Principais Actores: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brandon Walters, David Gulpilil, David Wenham, Jack Thompson, Bruce Spence, Bryan Brown

Crítica:

DE VOLTA ÀS ORIGENS

There's no place like home...

Austrália é o regresso de Baz Luhrmann às suas origens e, sob o efeito de mise en abyme, o reencontro do presente histórico de um país com o seu passado original. A invasão dos estrangeiros europeus, que se verificou na Austrália sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, impôs uma cultura de racismo discriminatória e mortal. Do cruzamento de brancos e aborígenes, tantas vezes extraconjugal, nasceram milhares de crianças mulatas, condenadas à morte e à alienação. E à semelhança do que aconteceu noutros pontos do mundo, verificou-se um significativo decréscimo da população nativa australiana; o que acabou por transformar, de forma drástica, a identidade secular do país. Perdeu-se o misticismo, que Luhrmann recupera religiosamente:

Aboriginal and Torres Strait Islander viewers should exercise caution when watching this film as it may contain images and voices of deceased persons.

Assim adverte, ainda antes de se iniciarem os créditos. Não é por acaso, pois, que o argumento tem como narrador o pequeno Nullah (Brandon Walters, quão luminosa revelação).

My grandfather, King George, he tave me a walkabout. Teach me black fella way. Grandfather teach me most important lesson of all. Tell'em a story.

Mais do que uma vasta terra de cangurus e jacarés, barões de gado e chefes guerreiros, a Austrália de Luhrmann é um país de crianças mulatas cruelmente retiradas às famílias, como se não tivessem raízes ou como se não fossem gente. São as gerações roubadas, que só em 2008 receberam o formal pedido de desculpas por parte do governo (como o filme faz questão de frisar, no final).

See, i not black fella. I not white fella, either. Them white fellas call me mix blood. Half-caste. Creamy. I belong no one. (...) King George say them white fellas bad spirit. Must be taken from this land.

Com uma ambiciosa visão épica, Luhrmann concretiza um emocionante e arrebatador romance de aventuras, onde a comédia, o drama e a tragédia correm - sempre - lado a lado, num deslumbrante entretenimento familiar. Da história étnica e familiar de Nullah e do avô King George (David Gulpilil), à paixão primeiramente hilariante e desconcertante e depois vibrante e envolvente entre a aristocrata Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o vaqueiro Drover (magnífico desempenho de Hugh Jackman), da travessia das intermináveis manadas pela paisagem (piscar de olhos às travessias d'O Rio Vermelho, de Hawks) às explosões japonesas no eclodir da 2ª Grande Guerra em Darwin, Austrália revela-se um produto claramente competente e acima da média; para um espectador mais exigente, contudo, a enorme manta de retalhos que o argumento constitui, entre as mais variadas influências, referências e lugares comuns e como não poderia deixar de ser, acaba por resultar numa experiência decepcionante. Crikey! (...) Welcome to Australia!

Digo como não poderia deixar de ser porque Austrália tinha tudo para ser um clássico à altura de um E Tudo o Vento Levou, ou seja: um acontecimento deveras marcante e impressionante: em primeiro lugar, porque tinha grandes nomes da indústria à frente do projecto. Em seguida, um orçamento assaz generoso. O que é que falha, em Austrália? Não falharão, certamente, um sem número de qualidades técnicas: banda sonora (David Hirschfelder), som (vasta equipa de talentosos técnicos), guarda-roupa (Catherine Martin) ou direcção artística (novamente Catherine Martin, Ian Gracie, Karen Murphy, Beverley Dunn)... o filme revela-se exímio em todos eles. À primeira vista, o que falha é a fotografia, ainda que não na sua plenitude. Mandy Walker faz um trabalho de excelência; porém, a enorme carga de CGI com que foi tratada grande parte dos planos captados, descredibiliza a paisagem, corrompe a autenticidade do filme e reclama uma artificialidade à beleza daquilo que vemos absolutamente desnecessária e indesejável.

Depois, é evidente, o argumento tem as suas falhas. Aparte a falta de originalidade da história - quantas vezes já não a vimos - o filme tem os seus devaneios criativos, os seus excessos e outra coisa não seria de esperar; afinal, estamos perante um filme de Luhrmann e as suas marcas autorais mantêm-se, por mais pop que sejam. Porém, impõe-se uma questão: até que ponto é que esses excessos ficam bem e se enquadram no registo específico deste género de filme? Bem conheço e admiro o traço autoral do realizador, mas tenho de reconhecer que nestes contornos épicos (por mais multifacetados que eles sejam, no campo do western nomeadamente) o traço não cai bem, não assenta como desejado. Há uma mescla de registos que, na intenção de formular uma identidade autoral, cai no mais puro autismo, destruindo qualquer hipótese de identidade. É por isso que Austrália falha as suas intenções de reinvenção, fazendo-as soar a colagens ridículas e desinteressantes, que se sucedem umas às outras sem que haja um fio condutor forte, sólido e coerente. O traço assenta na perfeição no ritmo frenético e tresloucado de Moulin Rouge, mas não aqui. Por exemplo: o final, com o bombardeamento de Darwin, como que nos decalca Pearl Harbor da memória, por sua vez decalcado de Tora! Tora! Tora!, numa construção e montagem caóticas e despachadas. Qual era, pois, a necessidade de incorporar este ataque na história do filme? Entendo a sua inclusão numa lógica dramática, porém surge-nos aqui forçada, não desenhando propriamente uma nova linguagem, um novo terreno criativo, antes denunciando o clichê. A travessia do gado já tinha sido feita. A história podia acabar ali. Não precisávamos de assistir a um filme já visto.

Apenas o espírito de sonhar e de acreditar de O Feiticeiro de Oz, ciclicamente motivado pelo tema Somewhere Over the Rainbow, me parece triunfar verdadeiramente nesta panóplia de homenagens. Afinal, There's no place like home e é a casa que Nullah regressa, simbolica e literalmente. Dentro do elenco principal, só o durão Hugh Jackman (e, à sua medida, o jovem Brandon Walters) superaram o teste da construção das personagens, sem cairem no ridículo das caricaturas habituais de Luhrmann; note-se Kidman, note-se David Wenham. Não imagino, aliás, nenhum outro actor no papel de Drover - nem sequer Crowe, cujo talento tanto aprecio e que durante tanto tempo esteve ligado ao projecto.

Concluindo, gostei do filme, mas Austrália não é tão momumental como se esperava, como se propunha a ser e como poderia ter sido, efectivamente. É somente um bom filme, que assegura o entretenimento com assaz eficácia e que tão-pouco envergonha o realizador e todos quantos estiveram envolvidos no projecto. No seu candor especial, enaltece uma homenagem maior a todos os nativos, dando-lhes voz e perspectiva na grande tela mágica e marcando a justiça sobre a imoralidade dos homens: just because it is, doesn't mean it should be.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A LISTA DE SCHINDLER (1993)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Schindler's List
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgoscha Gebel, Shmulik Levy, Mark Ivanir, Béatrice Macola, Andrzej Seweryn, Friedrich von Thun

Crítica:
O INFERNO NA TERRA


Whoever saves one life, saves the world entire.

Em 1933, a subida ao poder de Adolf Hitler instalaria - na Alemanha e nos seus sonhos de império - uma verdadeira ditadura de terror. O egoísmo e o racismo, o ódio e a intolerância, amplamente potenciados por uma arbitrariedade fanática e doentia, extreminariam - sem dó nem piedade - gerações inteiras de vidas humanas, tantas delas inocentes e alheias ao conflito. O Holocausto Nazi protagonizou, tão-somente, um dos mais negros, monstruosos e vergonhosos capítulos da História, identificando, discriminando, separando, concentrando e por fim dizimando polacos, eslavos e soviéticos, deficientes, homossexuais e dissidentes políticos e, entre tantos outros, milhões de judeus.


Today is history. Today will be remembered. Years from now the young will ask with wonder about this day. Today is history and you are part of it. Six hundred years ago when elsewhere they were footing the blame for the Black Death, Casimir the Great - so called - told the Jews they could come to Krakow. They came. They trundled their belongings into the city. They settled. They took hold. They prospered in business, science, education, the arts. With nothing they came and with nothing they flourished. For six centuries there has been a Jewish Krakow. By this evening those six centuries will be a rumor. They never happened. Today is history.
Amon Goeth

A Lista de Schindler é uma homenagem primeira a todas essas vítimas. É um daqueles raros casos em que a arte se aproxima, com manifesta autenticidade, da captação da realidade, condenando o passado e perpetuando a memória e a esperança rumo ao futuro. Note-se a coda: as notas de Williams e a cor de Kaminski fazem a ponte entre os dois tempos, sobre a qual caminhará a salvação, grata e honrada pela sobrevivência dos pais e avós. Depois, é claro, é uma homenagem ao herói e empresário alemão, o homem que salvou 1200 trabalhadores judeus dos horrores das câmaras de gás, dos campos de trabalho e dos fuzilamentos imediatos.

Amon Goeth: You want these people?
Oskar Schindler: These people. My people. I want my people.
Amon Goeth: Who are you? Moses?

Contudo, é sobretudo uma obra de arte e uma representação da realidade, não um pedaço de História ou um
documentário, por mais que as técnicas de filmagem imprimam realismo, nos intervalos do mais imaculado e refulgente preto e branco; e isso jamais deverá ser esquecido. A Lista de Schindler é uma obra de arte.

Quem foi Oskar Schindler? O retrato, que Steven Spielberg tão inspiradamente concretiza, traça-lhe um perfil enigmático. O protagonista é apresentado entre o luxo e pompa de um jantar: flui
o tango, as bailarinas, os cantores e a sucessão de flashes, note-se o refinado brio da direcção artística (Allan Starski, Ewa Braun) ou a aprimorada mise en scène, não só notável como irrepreensível. Com uma elegância ímpar, um braço estende a nota ao garçon. O Oskar Schindler de Liam Neeson é em tudo brilhante. Cravado ao peito, pode ostentar um distintivo do Partido Nazi, mas a sua atitude transcenderá a sua própria aparência: o seu sorriso misterioso e o seu olhar sedutor encobrem um homem tremendamente lúcido do seu poder, da sua influência e da sua humanidade.

The unconditional surrender of Germany has just been announced. At midnight tonight, the war is over. Tomorrow you'll begin the process of looking for survivors of your families. In most cases... you won't find them. After six long years of murder, victims are being mourned throughout the world. We've survived. Many of you have come up to me and thanked me. Thank yourselves. Thank your fearless Stern, and others among you who worried about you and faced death at every moment. I am a member of the Nazi Party. I'm a munitions manufacturer. I'm a profiteer of slave labor. I am... a criminal. At midnight, you'll be free and I'll be hunted. I shall remain with you until five minutes after midnight, after which time - and I hope you'll forgive me - I have to flee.
(...)
I know you have received orders from our commandant, which he has received from his superiors, to dispose of the population of this camp. Now would be the time to do it. Here they are; they're all here. This is your opportunity. Or, you could leave, and return to your families as men instead of murderers.
(...)
In memory of the countless victims among your people, I ask us to observe three minutes of silence.
Oskar Schindler

Com a ajuda do arguto e perspicaz contabilista Itzhak Stern (Ben Kingsley, num admirável underacting), Schindler começará a recrutar para a sua fábrica de tachos e panelas toda uma lista de trabalhadores, que lhe ficará eternamente agradecida. My father was fond of saying you need three things in life - a good doctor, a forgiving priest, and a clever accountant. Só o hilariante e tão bem montado casting das secretárias ficará a cargo do próprio Herr Direktor.


Itzhak Stern: By law I have to tell you, sir, I'm a Jew.
Oskar Schindler: Well, I'm a German, so there we are.


Itzhak Stern: Let me understand. They put up all the money. I do all the work. What, if you don't mind my asking, would you do?
Oskar Schindler: I'd make sure it's known the company's in business. I'd see that it had a certain panache. That's what I'm good at. Not the work, not the work... the presentation.

Oskar Schindler: In every business I tried, I can see now, it wasn't me that failed. Something was missing. Even if I'd known what it was, there's nothing I could have done about it because you can't create this thing. And it makes all the difference in the world between success and failure.
Emilie Schindler: Luck?
Oskar Schindler: War.

Ainda que não o pudesse assumir, para não ser exposto, a sua arrogante ganância tinha uma natureza profundamente ambígua e irónica. E é esse o enigma que vamos descodificando ao longo do filme. Porque razão aceitaria Schindler, por exemplo, um deficiente de um braço só, seleccionado por Stern, como trabalhador da sua indústria? Não daria tal admissão demasiado nas vistas? Schindler defenderá sempre os seus trabalhadores, mesmo frente às maiores autoridades, desculpando-se com o argumento de que são uma fundamental e imprescindível fonte de rendimento.

This list... is an absolute good. The list is life.
All around its margins lies the gulf.
Itzhak Stern

A montagem de Michael Kahn, mítico na sua relação com Spielberg, faz a alternância entre Herr Direktor Schindler e Herr Kommandant das SS Amon Goeth (Ralph Finnes, numa assombrosa interpretação), durante o acto de barbear, e contrapõe duas personalidades muito sui generis. Dois modelos completamente diferentes de alemão. Ambos são figuras poderosas e ambos se diferenciam tão radicalmente nas suas atitudes e comportamentos, naquilo que tão bem ou tão mal fazem com o poder que detêm. O primeiro salva vidas. O segundo extermina-as.

Oskar Schindler: Power is when we have every justification to kill, and we don't.
Amon Goeth: You think that's power?
Oskar Schindler: That's what the Emperor said. A man steals something, he's brought in before the Emperor, he throws himself down on the ground. He begs for his life, he knows he's going to die. And the Emperor... pardons him. This worthless man, he lets him go.
Amon Goeth: I think you are drunk.
Oskar Schindler: That's power, Amon. That is power.

Um corte abrupto da acção contrapõe a vida extremamente prazerosa dos militantes alemães com a marcha viril de dezenas de soldados sobre as ruas da humilhação. Constantemente deportados, só com o Blauschein tinham a possibilidade de, por tempo indeterminado, trabalharem. Só pelo Blauschein se distinguiam os trabalhadores essenciais dos (considerados) inúteis. Os restantes estavam todos condenados:


Not essential? I think you misunderstand the meaning of the word. I teach history and literature, since when it's not essential?
Chaim Nowak


Aquando da extradição para o ghetto, desfilam os figurinos (excelente trabalho de Anna Sheppard). Uma criança alemã injuria, cruel: Goodbye jews! Goodbye jews! Deste modo, é-nos dado o verdadeiro e terrível contexto da história. Sempre que escapamos à diegese principal, somos chamados a conhecer a experiência traumática dos secundários e figurantes, a fome, as doenças, os sapatos, os óculos, as pratas e as fotografias, os relógios e os dentes... que se amontuam por entre suspiros apavorados e abafados.

Daqui em diante, A Lista de Schindler torna-se progressivamente mais revoltante e repugnante para qualquer espectador com coração. A tragédia e o drama precipitam-se para o terror e os nossos olhos assistem, incrédulos, no mais valioso e inconsciente conforto. Pactuando com as atrocidades, a banda sonora realça o carácter lúdico e simultaneamente mórbido daquela brincadeira de vísceras e sangue; não admira, pois, que o filme se torne, não só forte como indigesto. E a extraordinária carga simbólica daquela menina de vermelho, que às tantas floresce do cinzento e percorre as ruas sem alento, é simplesmente genial. De uma sublimidade inquestionável. Pela manipulação do sistema cromático se atingiu um dos momentos maiores da História do Cinema. Creio que em poucas ocasiões se foi capaz de dizer tanto com tão pouco.

Com a destruição do ghetto, a obra atinge níveis de violência arrepiantes. Não há clemência. E daí ao fumo negro dos campos, onde rastejam esqueléticos cadáveres arquejantes... O filme é frio, é negro, é real. E tamanha consciência de realidade parte-nos o coração e envergonha-nos. Mesmo que não sejamos responsáveis. O final, ao som da tocante partitura de John Williams, faz-nos ter orgulho nas centelhas de humanidade que, tão fragilmente, se acendem e apagam no Inferno. Só uma réstea bem acalorada pode fazer a diferença, se alimentar a chama de um mundo melhor. A redenção existe, mas não é para todos.

There will be generations because of what you did.
Itzhak Stern

Uma curiosidade: Schindler's Ark, o título do romance original de Thomas Keneally, no qual se baseou o magnífico argumento de Steven Zaillian, estabelecia um paralelismo directo com a imagem bíblica da Arca da Aliança, que assegurou o futuro para as mais variadas espécies terrestres, aquando do grande dilúvio.


Conclusões: A Lista de Schindler é muito mais do que três horas de longa duração, como muitos criticam. É uma obra-prima incontestável, de uma enorme maturidade e de uma perfeição arrebatadora. Magistral, na arte de filmar. Uma grande reflexão sobre a humanidade e sobre o Holocausto Nazi. Um monumento. A Lista de Schindler é, enfim, Spielberg no seu melhor. Spielberg, o génio.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões