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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

DUNKIRK (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dunkirk
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Harry Styles, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Tom Glynn-Carney, Barry Keoghan

Crítica:

A TENSÃO DO RESGATE

 Well done, lads. Well done.

Depois de explorar os limites do cosmos e da ficção científica com o fascinante e espectacular Interstellar, Christopher Nolan sentiu necessidade de reduzir a escala, de se centrar num episódio da história recente da sua pátria e de mergulhar no mais gritante realismo, como quem regressa a casa após a mais delirante das viagens, assentando os pés na terra e despindo-se de artifícios. Porém, a opção revelou-se-lhe tudo menos confortável, antes plenamente ambiciosa, absolutamente desafiante.

Como qualquer filme de Nolan, Dunkirk é sofisticado na fórmula que investe no espectador. Tripartindo o argumento e a acção, eis a evacuação de Dunquerque pela terra, pelo mar e pelo ar. Cada um dos três pontos de vista se entrelaça a um tempo diferente: respectivamente uma semana, um dia e uma hora. Na prática, a aparente complexidade desta decisão formal não resulta propriamente num quebra-cabeças, uma vez que cada linha diegética colide aqui e ali por meio de espaços, personagens ou meios de transporte (aviões ou barcos), dirimindo essa dificuldade e guiando o espectador por entre o labirinto. Recusando facilitismos do digital, Nolan exigiu uma produção à moda antiga, com uma épica coordenação de duplos, tiros e efeitos explosivos, potenciando a imersão do espectador pela imersão da equipa técnica nas águas. As dificuldades físicas para filmar as cenas foram as mais variadas. Nolan levou a cabo uma verosímil reconstituição dos reais acontecimentos no cenário real onde tudo aconteceu. Há poucas cenas de diálogos (às tantas mais parece que assistimos a um impiedoso filme mudo, embora repleto de poderosos e impactantes efeitos sonoros), o colectivo assume o papel protagonista (embora esteja por lá Tom Hardy, atrás da máscara, Kenneth Branagh e Mark Rylance) e Dunkirk revela-se essencialmente um filme de acção, deslumbrantemente coreografado e fotografado (belíssimo embora dificílimo trabalho de Hoyte Van Hoytema). É uma verdadeira lição de cinema, um brutal exercício de forma e de exibição técnica, quase na totalidade filmado com pesadas câmeras IMAX, a assegurar o mais espetacular enquadramento para o desaire e infortúnio de quatrocentos mil soldados, encostados pelo inimigo à mais inóspita praia da morte. E apesar da paisagem aberta, na maior parte dos casos, Nolan constrói um cada vez mais intenso e sufocante thriller de sobrevivência, assustadoramente claustrofóbico seja no interior de aviões que se afundam no canal, seja das embarcações que ascendem com a maré, seja no meio da multidão que se ajoelha e rebaixa do perigo em pleno pontão, sucumbindo à desolação e à tragédia. O contra-relógio da sobrevivência ouve-se a cada passo que se corre, a cada bater do coração, a cada bombardeamento: Hans Zimmer é exímio, fenomenal e implacável na escalada do suspense. A sua banda sonora é, em tudo, singular, e perfeitamente indissociável do ritmo da montagem (Lee Smith) e do próprio filme. Partilham, pois, o mesmo código genético e estão perfeitamente intrincados.

Dunkirk é uma experiência sensorial e profundamente cerebral - porventura, o mais cerebral de todos os filmes de Nolan, à data -, ainda que a emoção seja convocada pela frieza das circunstâncias e pelo gesto humano que, a jeito de milagre, resolve e decide, às tantas, o desenrolar da guerra e o destino do mundo. Ainda assim, Dunkirk gela-me o sangue. Nolan torna a surpreender, torna a afirmar-se. Ao mesmo tempo que desbrava novos caminhos, solidifica-se enquanto autor e cineasta. O que faz é indesmentivelmente estimulante e único. O cinema agradece e nós também.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

INTERSTELLAR (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Interstellar
Principais Actores: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Casey Affleck, John Lithgow, Wes Bentley, Matt Damon, Ellen Burstyn, David Gyasi, Topher Grace, Bill Irwin, Josh Stewart, William Devane, Leah Cairns, Mackenzie Foy, Timothee Chalamet, David Oyelowo, Collette Wolfe

Crítica:

PARA ALÉM DAS ESTRELAS

Mankind was born on Earth. It was never meant to die here. 

Um ano depois de Cuarón chegar ao espaço, eis chegada a vez de Nolan. Mas se Gravidade proporcionou uma experiência assaz vertiginosa e claustrofóbica assente num feroz realismo e num regrado rigor científico - poder-se-á mesmo dizer que nunca a ficção científica teve, até então, os pés tão assentes na terra - Interstellar está muito mais próximo do cânone do género (nota-se a influência, por exemplo, da incontornável obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço) desbravando a imensidão e o infinito ao sabor das hipóteses e das especulações: da ficção, portanto. Pode, é certo, partir de teorias reais e de conceitos mais ou menos generalizados e absolutamente queridos a incursões deste tipo: o esgotamento dos recursos naturais da Terra e o cenário apocalíptico, a lei de Murphy, a inteligência artificial, a teoria da relatividade de Einstein e as derivações de Kip Thorne (consultor privilegiado) - a distorção espaco-tempo, ondas gravitacionais, buracos negros, etc. Interstellar cose-os e articula-os numa manta interessantíssima, construindo o suspense e o enigma de forma não só intricada como ultra-estimulante e eficaz, amarrando irreversivelmente o espectador numa missão permanentemente desconhecida - como, aliás, é marca dos Nolan desde Memento, passando por O Terceiro Passo até A Origem. Os twists multiplicam-se pela narrativa, tornando a acção seguinte absolutamente imprevisível. Não obstante, a viagem desemboca de forma rebuscada, no plano da coincidência e num espectro derradeiramente romântico. Para os amantes da ficção científica, esse não é um problema. Talvez o seja para os fanáticos da ciência.

De um filme para o outro, d'A Origem para Interstellar (tendo a pôr de lado a trilogia do Batman, que pertence a um universo muito específico e particular e em tudo menos interessante na sua filmografia, quando comparada aos restantes títulos), Christopher Nolan passa do mais ínfimo microcosmos (o sonho dentro do sonho dentro do sonho, na mente de um indivíduo) para o mais incomensurável macrocosmos (no tudo e nada do espaço aberto), ainda que a aventura cósmica continue alicerçada na ambição e na grandiloquência do argumento e das propostas visuais, com recorrentes brincadeiras com o espaço e com o tempo - como Nolan gosta de esculpi-los, como se fosse um engenheiro divino, qual Chronos. Se antes desdobrava cidades e as elevava nas alturas, agora visita mundos inóspitos, insólitos e surpreendentes ao olho: planetas de água onde ondas gigantes varrem constantemente a superfície, planetas de nuvens congeladas, onde o céu replica o solo e as personagens parecem passear sobre espelhos, ou buracos negros esféricos ou massivos, com extraordinários poderes de atracção e distorção, que poderão levar os astronautas ao futuro num ápice, enquanto no tempo terrestre as personagens deixadas envelhecem, adoecem ou morrem. Uma das cenas mais emocionantes, a propósito, dá-se aquando do regresso de Cooper (fabuloso Matthew McConaughey) à nave, depois da perigosa experiência no planeta aquoso de Miller, onde cada hora equivalem a sete anos na embarcação. Passaram-se, ao todo e sem que desse conta, vinte e três anos. Cooper dirige-se ao monitor para assistir às gravações enviadas da Terra durante esse período e depara-se com o crescimento e evolução da sua família, nos momentos bons e nos momentos maus que, pela distância, jamais acompanhou. Depara-se com a dor da ausência, a dele e a dos seus entes queridos - e essa dor é por demais insuportável. Mas a sua heróica missão, já sabia, teria essas consequências. Só por meio dela poderia tentar salvar o futuro - dos filhos e da humanidade.

Once you're a parent, you're the ghost of your children's future. 

O foco na relação pai-filhos, muito particularmente na relação de pai-filha entre Cooper e Murph (incríveis Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn) e no amor incondicional e insondável nutrido entre ambos fazem de Interstellar, provavelmente, a obra mais emocionante do realizador, à data, capaz de medir forças com as pretensões intelectuais da narrativa. O último acto, como o de 2001, projecta-nos no futuro, numa quinta dimensão e numa complexa e duvidosa existência. Sentimo-nos como que suspensos num sonho ou num hiper-cubo interminável e pouco palpável, que nem o astronauta, derradeiramente perdidos, à procura de uma explicação apaziguadora, à procura da luz. Rage, rage against the dying of the light, já declamava, misteriosamente, o Professor Brand (Michael Caine, habitué de Nolan), o mesmo que dizia: I'm not afraid of death. I'm an old physicist - I'm afraid of time. É nesses instantes fulcrais, em que se resolvem as hipóteses sobrenaturais levantadas no primeiro acto, que TARS - o robot com fisionomia semelhante à do monólito de Kubrick - intervém sabe-se lá de onde ou quando e afirma ter reunido preciosa informação quântica, capaz de descortinar os segredos do universo. Que desfecho terá Interstellar?, perguntamo-nos. É provável que o final passe e que não compreendamos bem o que assistimos, depreendemos. Talvez o descortinemos melhor em futuras visualizações. Mas sentimo-lo. Sentimos aquele desenlace. As últimas cenas são desconcertantes, profundamente trágicas e, verdadeiramente, de partir o coração. Fica a certeza de que os instantes finais nos apresentam o amor como elemento essencial para a transcendência, como adianta a citação abaixo, às tantas proferida pela Drª Brand (Anne Hathaway). O amor como espinha dorsal das relações humanas, do sentido da vida e do filme. Esta resolução, apesar de romântica e aparentemente facilitista, transpira tudo menos sentimentalismo bacoco. Não deixa de ser curioso que a maior odisseia pelo espaço culmine numa descoberta interior, como que convocando a auto-reflexão do ser humano. Procuramos lá fora, encontramos cá dentro. A fé no amor faz, afinal, mais sentido do que a fé em tudo o resto. Em Interstellar, Deus nem faz parte da equação.

Love is the one thing we're capable of perceiving 
that transcends dimensions of time and space.

Fiel a si próprio, Nolan entrega-nos, uma vez mais, uma ambiciosa e desafiante combinação de entretenimento excitante e de matéria inteligente, mais ou menos explicativa, num produto capaz de suscitar múltiplas interpretações e o mais inesgotável debate filosófico. O arrojo é do pensamento e das ideias, mas também das interpretações do elenco renomado, dos efeitos digitais (que expandem o imaginário e as proporções da direcção artística, detalhista), da possante sonoplastia (que respeita os silêncios e os sussurros, mas também se impõe num crescendo ensurdecedor e ameaçador sempre que necessário) e da mística banda sonora de Hans Zimmer (que potencia a transcendência no culminar da sonoridade religiosa). Todos os elementos se aliam a bem do espectáculo e do clímax apoteótico.

Note-se, contudo, que o trabalho de câmera nunca é especialmente virtuoso - a maior parte dos planos são fixos e a sua composição é relativamente simples. A maioria dos malabarismos no espaço dá-se não pela acção da câmera (que prefere, como disse, ficar estática) mas pelas naves ou outros objectos que rodam ou se movimentam. A simplicidade é uma arte, menos é mais, mas também pode ser um defeito. E no caso de Nolan e de um filme como Interstellar é claro como o cineasta se apoia tão mais nos seus mais variados departamentos técnicos e artísticos, do que na arte de filmar propriamente dita. Creio que o filme poderia ascender ao patamar da excelência caso o realizador brilhasse mais. Assim brilha somente o autor, o autor visionário, o que também não é dizer pouco, ou não fosse Nolan o autor mais comercial do actual panorama cinematográfico norte-americano. Nolan sabe como alimentar uma legião febril de fãs, ávida do seu estilo e das suas histórias, tornando cada filme seu um retumbante êxito de bilheteiras. Quando as ideias dão dinheiro, um cineasta não tem como não estar nas graças dos grandes estúdios. E ter dinheiro para concretizar ideias audaciosas não é tão frequente quanto gostaríamos, pelo que se trata de um círculo vantajoso para todos os envolvidos. Dinheiro à parte, ganham o cinema e os espectadores.

Interstellar é, pois, puro magnetismo. Será certamente - arrisco e aposto dizer -, uma das mais fascinantes ficções científicas deste primeiro quarto de século. O tempo e só o tempo nos trará, ou não, a confirmação. Não obstante, há quem já a tenha - mas sabemos bem: o tempo...  o tempo é relativo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A ORIGEM (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Inception
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite

Crítica:

O SONHO E A REALIDADE

Our dreams, they feel real while we're in them (...)
Its only when we wake up then we realize that something was actually strange.

O argumento de A Origem (da autoria de Christopher Nolan) é tremendamente engenhoso e complexifica-se na tentativa de penetrar o espectador acordado no universo onírico que, não raras as noites, invade a sua in-/sub-/consciência, numa recriação - ilógica e sem limites - do mundo real. A experiência de sonhar dentro do sonho - num efeito de myse en abyme quase perpétuo - é amplamente explorada. É esta riquíssima dimensão de potencialidades que Nolan transporta para a forma de um empolgante thriller de acção e espionagem.

Leonardo DiCaprio - à frente de um elenco excepcional, mas sem tridimensionalidade de origem - tem uma prestação memorável como Dom Cobb - especialista em extrair, pelos sonhos, os segredos mais preciosos dos seus alvos. Agora, a missão quase impossível de implantar uma ideia, descendo os níveis do inconsciente rumo ao cofre mais profundo, confrontá-lo-á com as memórias mais dolorosas e perigosas da sua existência.

What is the most resilient parasite? Bacteria? A virus? An intestinal worm? An idea. Resilient... highly contagious. Once an idea has taken hold of the brain it's almost impossible to eradicate. An idea that is fully formed - fully understood - that sticks; right in there somewhere.

Tecnicamente, o requinte e a sofisticação da fotografia (Wally Pfister), da direcção artística (Guy Hendrix Dyas, Larry Dias, Douglas A. Mowat) e dos efeitos especiais (Chris Corbould, Andrew Lockley, Pete Bebb, Paul J. Franklin) expandem uma criação visionária e espectacular. A composição musical de Hans Zimmer, assim como a exímia montagem de Lee Smith, servem eficazmente os propósitos do ritmo e da condução das emoções, no decorrer dos avanços e recuos da narrativa, do exigente e vertiginoso labirinto. A interessante premissa é elevada a um magnífico pedaço de entretenimento. Memoráveis, a cena em que a cidade se dobra sobre si própria, ou aqueloutra da espantosa luta de Arthur the point man (Joseph Gordon-Levitt) pelo corredor do hotel, em gravidade zero. Brilhante.

O filme, em primeira ou última instância, assume-se como um reflexo do sonho: um estado de inspirada arquitectura e de prodigiosa imaginação, onde as coordenadas espacio-temporais são livremente distorcidas, transportando e absorvendo inteiramente o espectador para a sua plenitude trágica. Para este, afirmar ou distinguir com absoluta certeza o que é, narrativamente, sonho ou realidade constituirá eternamente o maior desafio do filme. Até a última pista aponta para a ambiguidade.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O TERCEIRO PASSO (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Prestige
Realização: Christopher Nolan

Principais Actores: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Andy Serkis, Piper Perabo, David Bowie

Crítica:

A GRANDE ILUSÃO

Are you watching closely?

É tudo uma questão de encenação e de manipulação, no ilusionismo.

Every great magic trick consists of three parts or acts. The first part is called The Pledge. The magician shows you something ordinary: a deck of cards, a bird or a man. He shows you this object. Perhaps he asks you to inspect it to see if it is indeed real, unaltered, normal. But of course... it probably isn't. The second act is called The Turn. The magician takes the ordinary something and makes it do something extraordinary. Now you're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. You don't really want to know. You want to be fooled. But you wouldn't clap yet. Because making something disappear isn't enough; you have to bring it back. That's why every magic trick has a third act, the hardest part, the part we call The Prestige.
Cutter

Com base nestas três fases do truque mágico, chega-nos esta magnífica e assombrosa construção: O Terceiro Passo. Dos mesmos autores de um dos maiores quebra-cabeças da História do Cinema - refiro-me, claro está, ao aclamado Memento -, surge-nos mais um sofisticado, engenhoso e intricado puzzle, uma experiência intensamente lúcida, fria e cerebral e, ao fim e ao cabo, um exercício mental tremendamente complexo, intrigante e imprevisível, capaz de rivalizar prontamente com o filme do virar do século. Christopher e Jonathan Nolan edificam uma narrativa criteriosamente fragmentada e elíptica, verdadeiramente exigente para com o espectador, onde tempo, espaço e verdade, as coordenadas essenciais da história, são, qual truque, hábil e criteriosamente baralhadas, diante dos nossos próprios olhos. Impõe-se o mistério, o enigma, o segredo. As pistas, no entanto, estão todas lá. Are you watching closely? Prepare-se, pois, para ser iludido.

I. THE PLEDGE

Londres, finais do século XIX. São-nos apresentados dois colegas e assistentes de um mágico, aspirantes à profissão. Hugh Jackman e Christian Bale - duas ilustres cabeças de cartaz, diga-se de passagem - assumem, respectivamente, os papéis de Robert Angier e de Alfred Borden. Após a morte da jovem esposa de Angier, partner no arriscadíssimo número do tanque, ficam as suspeitas da envolvência de Borden em tão trágico desfecho: afinal, com que nó terá ele atado a belíssima e radiosa female, antes desta ter entrado na água? Resta a dúvida e, perante a incerteza, nasce a mágoa, o ódio e a rivalidade. A sede de vingança e, em nome dela, o sacrifício. Com plateias distintas daí em diante, tantas vezes disputando o protagonismo nas duas faces da mesma rua, Angier e Borden tornam-se mestres da ilusão, sempre um passo à frente, um do outro. A ambição e a inveja dos dois não conhecerá limites.

You're familiar with the phrase man's reach exceeds his grasp?It's a lie: man's grasp exceeds his nerve.

Angier revela-se um prodigioso showman, conquista a multidão com a sua grandiloquente oratória e esforça-se por trazer ao palco o número mais original. Many of you may be familiar with this technique, but for those of you who aren't, do not be alarmed. What you're about to see is considered safe. Borden, por sua vez, tem pouco jeito para lidar com o público. As ovações sucedem-se; contudo, a sua audácia ecoa no perigo, em técnicas e métodos inovadores e em atracções nunca dantes vistas, de difícil descodificação e, por isso mesmo, de improvável imitação. Secrets are my life.

The secret impresses no one. The trick you use it for is everything. (...) Never show anyone. They'll beg you and they'll flatter you for the secret, but as soon as you give it up... you'll be nothing to them.

II. THE TURN

Como que por magia, o espectador fica refém da narrativa, totalmente imobilizado e aprisionado. A atmosfera continua, tensa e pesada, sinistra e macabra. De cortar a respiração e de fazer gelar os nervos, verdadeiramente. O realizador põe à prova a disposição da sua audiência; testa, pelo brilhante mind game, as fronteiras psicológicas da sua arte. Are you watching closely? Por um lado, os elevados valores de produção mostram-se determinantes para a criação dessa atmosfera. Tanto o primor estético da iluminação e da fotografia (por irrepreensível talento do já conceituado Wally Pfister), como o refinado e irretocável arrojo da direcção artística (Nathan Crowley, Kevin Kavanaugh, Julie Ochipinti) e do guarda-roupa (Joan Bergin) autentificam a viagem no tempo. Por outro lado, igualmente decisivas e absorventes, as exímias composições musicais de David Julyan; um trabalho inteiramente notável. Depois, é claro, a montagem. Haverá revelação mais extraordinária, em todo o filme, do que a da destreza inconfundível de Lee Smith? Em flashback ou em flash-foward, ou até mesmo no presente diegético... que acutilantes e extasiantes manobras narrativas, que corte! Espantoso. Tão trabalhosa quão deliciosa seria, certamente, a prática da découpage num filme como este. Não determina a montagem senão a cadência e o ritmo da obra, pactuando e tanto para esse sombrio mistério que se complexifica em todas as voltas e reviravoltas com as quais somos, inevitavel e surpreendentemente, confrontados.

Os actores e as personagens. Imediatamente e à primeira vista, diria que se há falha neste O Terceiro Passo é a ausência de personagens amplamente dimensionadas. Reflectindo, porém, sobre a matéria, concluo que essa crítica seria não só inapropriada como injusta. Se pensarmos bem, é precisamente naquilo que se esconde sobre as personagens e naquilo que as personagens escondem sobre si próprias que assenta o enigma. Revelar para além do mínimo indispensável, no que às personagens diz respeito, iria contra a natureza do próprio filme. Os actores estão muito bem nos seus papéis (tanto os principais, Jackman e Bale, como os secundários Michael Caine, Rebecca Hall, Andy Serkis e David Bowie; apenas Scarlett Johansson parece perdida no seu jogo duplo) e só uma reflexão posterior ao próprio filme (porventura, após várias visualizações) restituirá uma dimensão maior e legítima a cada uma das personagens.

Após uma sangrenta e cruel sucessão de sabotagens, eis que O Homem Transportado - a última, grandiosa e indecifrável ilusão de Borden - vem elevar as hostilidades entre os dois artistas a um patamar obsessivo e fatal. A real magician tries to invent something new, that other magicians are gonna scratch their heads over. Em que consiste o número? Borden atira uma bola ao chão, numa das extremidades do palco, e desaparece por uma porta, reaparecendo, em seguida, numa outra porta, precisamente na outra extremidade do palco e apanhando a bola numa delirante salva de palmas. Como se faz? Não se sabe. Cutter, a perspicaz personagem de Caine, diz que o truque reside no recurso a um duplo. It was the greatest magic trick I've ever seen. Angier arranja rapidamente um duplo e imita o inimigo, numa apresentação bem mais elaborada e aparatosa, contudo não se convence de que a solução seja assim tão simples: deste modo, terminaria sempre o espectáculo sob o palco e o duplo, ainda que a tresandar de bêbedo, é que saborearia, uma e outra vez, o reconhecimento do anfiteatro. No one cares about the man in the box, the man who disappears. Consistiria a magia de Borden, então, em verdadeira magia? Que conhecimentos adquiriu Borden, afinal, ao ponto de ter ultrapassado Angier, quiçá definitivamente?

Na ânsia de desvendar o segredo, Angier viaja até Colorado Springs, onde conhece o histórico cientista Nikola Tesla, rival de Thomas Edison e um dos pioneiros da energia eléctrica. É no laboratório do visionário que O Terceiro Passo desenvolve uma ideia mais rebuscada e principia um rumo inesperado no campo do fantástico, distanciando-se do registo até então cultuado mas jamais caindo no ridículo. Pelo contrário, o mistério adensa-se ainda mais e as hipóteses para quebrar o enigma, no jogo que se estabelece com o espectador, expandem-se para além daquilo que é humanamente possível. Aquilo que Tesla promete a Angier é a construção de uma máquina de teleportação, por meio da qual o ilusionismo tocaria o divino.

The truly extraordinary is not permitted in science and industry. Perhaps you'll find more luck in your field, where people are happy to be mystified. You will find what you are looking for in this box. Alley has written you a thorough set of instructions. I add only one suggestion on using the machine: destroy it. Drop it to the bottom of the deepest ocean. Such a thing will bring you only misery.
Nikola Tesla

III. THE PRESTIGE

As aparências iludem. Are you watching closely? Nada é como parece. Nada é como nos foi apresentado ou como nos foi dado a entender. You're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. As pistas estavam todas lá e é com os derradeiros twists que nos apercebemos da eficácia dos artifícios narrativos. Fomos enganados, iludidos. Cedemos ao truque. O cinema, como grande caixa de teleportação, é a verdadeira magia... e O Homem Transportado é cada um de nós, espectadores. Para além da história das rivalidades entre os dois excelentes mágicos, para além do puzzle que somos activamente convidados a montar, O Terceiro Passo é a metáfora do próprio cinema, a arte da ilusão, e, por meio dele, surge-nos este magistral ilusionista do cinema contemporâneo: Christopher Nolan.

You never understood, why we did this. The audience knows the truth: the world is simple. It's miserable, solid all the way through. But if you could fool them, even for a second, then you can make them wonder, and then you... then you got to see something really special... you really don't know?... it was... it was the look on their faces...

É tudo uma questão de encenação e de manipulação, no cinema.

Grande, grande filme. Um aplauso.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008)

 PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Dark Knight
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Christian Bale, Heath Ledger, Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal

Crítica: O Cavaleiro das Trevas é a prova irrefutável de que é possível fazer bons filmes de super-heróis. Com um argumento subtilmente munido de profundo material socio-filosófico, com uma soberba realização de Christopher Nolan, tecnicamente irrepreensível e abrilhantado ainda pela excepcional interpretação de Heath Ledger, meritória das mais gloriosas distinções, o filme revela-se um triunfo absoluto. Só na massacrante poluição sonora (tanto no som como na composição musical) o filme encontra, a meu ver, um defeito maior.

domingo, 7 de setembro de 2008

MEMENTO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Memento
Realização: Christopher Nolan

Principais Actores: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris

Crítica:

AMNÉSIA

O maior quebra-cabeças da história do cinema tem, a par de um trabalho de montagem de uma sublimidade inquestionável (por parte de Dody Dorn), um argumento seriamente bem escrito. A partir do (também genial) conto do irmão Jonathan, o realizador Christopher Nolan constrói um argumento de uma profundidade dramática imensa, que respira originalidade por todos os poros. Memento impõe-se e distingue-se através uma estética própria, reconstruindo-se sobre um argumento contado em cor às avessas e cronologicamente a preto-e-branco: um jogo que instala uma necessária e intencional confusão e dificuldade de leitura no espectador, fazendo-o experienciar a fugidia memória de Leonard (o protagonista, a frio desempenhado por Guy Pearce). Psicologia, filosofia, muitas são as abordagens interpretativas passíveis, possíveis e necessárias à obra de Nolan, um exercício derradeiramente estimulante. Um clássico absoluto.


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De referir a Versão Cronológica do Filme, disponível numa das versões em DVD, que se revela fulcral ou uma mais-valia para o entendimento do filme, mesmo para os seus amantes maiores.
CINEROAD ©2019 de Roberto Simões