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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MEMÓRIAS DE MARNIE (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Omoide no Mânî
Realização: Hiromasa Yonebayashi
Vozes: Sara Takatsuki, Kasumi Arimura, Nanako Matsushima, Susumu Terajima, Toshie Negishi, Hana Sugisaki, Hitomi Kuroki, Ken Yasuda, Yûko Kaida, Shigeyuki Totsugi, Kazuko Yoshiyuki, Ryôko Moriyama

Crítica:

A CASA DO PÂNTANO 

Falou-se, por altura da estreia, que Memórias de Marnie arrastava consigo o saudosismo dos Estúdios Ghibli, por se tratar do adeus definitivo da marca. Até poderia ser, no entanto julgo o comentário bastante facilitista e redutor, como que a tentar apagar a inspirada e fértil natureza artística de Hiromasa Yonebayashi e da demais equipa na concretização de tão fabuloso e meritório projecto, a partir do romance de Joan G. Robinson. O anúncio do fim dos Ghibli faz sempre lembrar o fundador, o lendário e genial cineasta Miyazaki, que, a cada obra que lança, também anuncia sempre a sua retirada, a sua despedida. Que proveitoso passe de marketing, por mais verdadeira que seja a sua intenção. Não, não, Memórias de Marnie não se esvazia num mero exercício de estilo, numa bela mas infecunda aguarela, sem conteúdo, alma ou coração. Pelo contrário. No fim de contas, este não foi o último filme Ghibli e mesmo que um dia haja um último, filmes como este conquistarão a eternidade e o esplendor dos estúdios jamais se extinguirá.

Memórias de Marnie começa e atravessa-nos um repentino sopro melancólico, que nos esfria e gela, como o vento que surge e nos anuncia o fim do verão. Uma brisa que nos chama, em profundo sofrimento, como que gritando por socorro. Desde a primeira imagem, Anna, o mundo e o espelho da mais desoladora solidão. A jovem vive numa abismal existência interior, comunicando muito pouco, exteriorizando-se tão pouco. Não tem amigos, acha-se feia, detestável e irremediavelmente inadaptada. Sabe que é adoptada e é, sem querer, tão injusta para com a mãe adoptiva, a quem chama simplesmente tia. Desconhece o seu passado e sente-se mal-amada, abandonada pelos pais originais. Por isso, não os perdoa. E enquanto não os perdoar, jamais poderá sair do assustador estado depressivo em que se encontra mergulhada - sobretudo assustador se pensarmos que se trata de uma quase menina, de doze anos apenas e tão ciente da sua dor.

Eis, pois, um conto, de um belíssimo conto, narrativamente tão poderoso e enternecedor. E tão pouco infantil. Yonebayashi é contido no movimento de câmera e deixa a narrativa fluir ao sabor dos misteriosos acontecimentos e das apaixonantes personagens, numa cadência pausada, plena de silêncios, mas também de música. E, musicalmente, Memórias é uma obra tão emocional e sentimental. Takatsugu Muramatsu e o seu prodigioso piano guiam-nos da cidade ao campo (sempre verdejante e cheio de vida) e daquela praia de suaves marés à Casa do Pântano, tão perfeitamente integrada na paisagem, no quadro e nos mais recônditos lugares da memória. A sensibilidade de cada nota e melodia envolvem-nos e abraçam-nos, como naquela dança ao luar entre Marnie e Anna.

O filme balança-nos entre o real e um universo invisível, que não percebemos se é imaginário ou sobrenatural, e jamais cessa de nos maravilhar. Atrai-nos, seduz-nos, confunde-nos. Às tantas, já não queremos saber. Entregamo-nos, qual Anna, à verdade das sensações e à magia dos acontecimentos. No final, porém, a narrativa equilibra-se e equilibra-nos, sobre o fio da lógica: o inverosímil torna-se verosímil, o invisível torna-se visível. E quão espantoso pode ser tudo isso.

Memórias propõe, na sua dimensão encantatória, onírica e quase fantasmagórica, a viagem catártica, transformadora e, por fim, reveladora. Um caminho de auto-descoberta, de auto-aceitação, de confrontação de medos, angústias e do passado mal resolvido, cujos resquícios assombram a protagonista, sem saber, povoando a sua imaginação. A amizade surge como substituta real desses demónios a exorcizar. Marnie é tudo o que Anna não é e sonha ser: linda, risonha, de cabelos compridos e sempre com vestidos, destemida e... com uma família. É em Marnie que Anna encontrará ou descobrirá, finalmente, o amor. Curioso que, com o convívio, Anna absorva todas as características da amiga, esvaziando-lhe os encantos. Trata-se de um processo expiatório e curativo, capaz de absolvê-la de culpas que não tem e de livrá-la de um eventual suicídio... A  relação das entre Anna e Marnie não é senão um ritual de crescimento e amadurecimento e Marnie uma ponte para o futuro: um futuro de desejados bem-estar e felicidade.

É impossível terminar de assistir ao filme e não sentir um rombo no coração. É provável, inclusive, que a lágrima escorra. Afinal, as últimas revelações são absolutamente arrebatadoras e estamos perante uma obra que se alicerça em sentimentos genuínos, que se nos abre de coração cheio e que nos convoca um equiparável nível de entrega. Memórias de Marnie é, por tudo isto, magistral pedaço de cinema, com os traços e a aura Ghibli mas com identidade própria. Uma pérola visualmente deslumbrante, desenhada e pintada com excelência, cujas cores vívidas e marcantes dificilmente se apagarão da memória do espectador.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PORCO ROSSO - O PORQUINHO VOADOR (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Kurenai no buta
Realização: Hayao Miyazaki
Vozes: Shûichirô Moriyama, Tokiko Katô, Bunshi Katsura Vi, Tsunehiko Kamijô, Akemi Okamura, Akio Ôtsuka, Hiroko Seki, Reizô Nomoto, Osamu Saka, Yu Shimaka

Crítica:

OS PIRATAS DOS CÉUS 

Porco Rosso é tanto mais do que um prodígio visual da tradicional animação de Miyazaki e dos estúdios Ghibli.

É uma divertidíssima comédia, onde se multiplicam as situações mais caricatas e onde brotam as personagens mais espontâneas e inesperadas (recordo, por exemplo, as quinze pequenas meninas raptadas pelos piratas dos céus, logo na abertura, de coragem e inocência desarmantes). É um filme de acção, no qual se superam as perseguições da maquinaria e as manobras mais alucinantes, rasgando as nuvens e as alturas. É uma história de aventuras, com bons e maus a partilharem acontecimentos extraordinários e que fazem tréguas somente no bar da Gina, para beber uns copos, fumar uns cigarros e desfrutar dos prazeres da vida. É um romance adiado, entre a famosa cantora da ilha e o aviador enfeitiçado: há uma eternidade que a charmosa mulher o espera nos seus jardins, mas o porco tem vergonha da sua aparência e não se acha digno dos seus encantos e atenções. Surge também Fio, a jovem engenheira, que depressa se torna o motor da história, capaz de alavancar as mais resistentes engrenagens. Porco Rosso assume-se, não raras as vezes, aliás, como uma ode ao feminino, desempenhando as mulheres os papéis mais maduros e destemidos, face às agruras das circunstâncias e à infantilidade dos homens, que se entretêm entre competições e lutas absurdas. A possibilidade do amor é inebriada pela sombra da tragédia - o passado tem um peso decisivo no desenrolar dos acontecimentos presentes e, por isso, os flashbacks revelam-se essenciais para o aprofundamento da história e das personagens. Num desses flashbacks, absolutamente fantástico e belo, transgridem-se as fronteiras da metafísica e a obra abre portas a um entendimento mais filosófico.

A história original de Miyazaki, ao passar-se num espaço e tempo específicos - o Mediterrâneo dos anos 30, no intervalo entre guerras - inscreve-se ainda no retrato histórico.  Porco sabe-se um desertor desonrado, sente-se um mercenário hediondo e não o bravo herói que todos reconhecem nele. O outrora Marco sabe perfeitamente: a guerra transforma os homens em porcos. E a sua aparência mágica não é senão a materialização de um castigo superior. A aparência original e, com ela, a redenção, julga-as de todo impossíveis. As boas acções podem quebrar o feitiço. E o amor genuíno e o beijo, qual Princesa e o Sapo. A inspiração da fábula está lá, mas Porco Rosso não chega a sê-lo propriamente. O filme enche-se de liberdades artísticas, típicas da animação, porém jamais se distancia por aí além do real. Da fábula tem apenas apontamentos e, por fim, a solução.

- Qual é a diferença entre lutar numa guerra e ser um mercenário?
- Só os desonestos ganham dinheiro com uma guerra. Mas só os idiotas não ganham dinheiro como mercenários.

A cada género ou sub-género que o filme sobrevoa, destila-se uma paixão fervorosa pela aviação, que a eclética banda sonora de Joe Hisaishi acompanha com todo o carinho e entrega. Aliás, as proporções tanto dramáticas quanto oníricas que Porco Rosso atinge devem-se essencialmente à mágica relação das pinturas em movimento, sempre deslumbrantes, com as envolventes músicas do compositor. As notas do seu piano são um autêntico milagre.

Porco Rosso tanto é um adorável filme para crianças como salta para um doloroso filme de adultos, cheio de conotações, leituras e lições históricas, políticas e sociais. É sobretudo, diria, um filme profundamente humano. E, talvez por isso, um dos meus preferidos do mestre Miyazaki.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O MÁGICO (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: L'Illusionniste
Realização: Sylvain Chomet

Filme de Animação

Crítica:

ADEUS, ILUSIONISTA

Decorre o ano de 1959, o tempo dos ilusionistas acabou. Os mágicos não existem, acaba o velho por revelar no final do filme, expondo o segredo que alimentou o fascínio, o imaginário e naturalmente a ingenuidade da graciosa Alice, a pobre jovem que
apadrinhou e conquistou (conquistou sem qualquer conotação amorosa; O Mágico não é filme para conotações desse tipo) numa das suas crepusculares viagens pela província escocesa.

Alice é mais uma solitária, como que abandonada no mundo, como o artista do espectáculo Tatischeff, ou o palhaço ou o ventríloquo, seus colegas de palco. Contudo, são solidões diferentes. A solidão de Tati - chamemo-lo Tati, pois não é se não Tati a ganhar vida novamente, magistralmente em todos os seus maneirismos de outrora, agora na forma de desenho animado -, a solidão de Tati não é tão-somente a solidão da velhice, é a solidão que adveio da chegada da modernidade - tema aliás central na filmografia de Tati. Chegaram os artistas pop que enchem os teatros e as salas de espetáculo, chegou a televisão e os automóveis onde tudo é automático. O fascínio do público pelos truques de magia, que se repetiram vezes sem conta de artista em artista, desapareceu com o vento, a chuva e o tempo. Note-se que o mágico só arrebata um caloroso aplauso num pub da província, a mesma onde conhece a jovem Alice. O palhaço tenta o suicídio, com a corda ao pescoço, e entrega-se ao álcool qual ventríloquo, que vende o seu boneco - companheiro de uma vida - e acaba na miséria. Chega inclusivé o tempo de Tati abandonar o seu coelho branco, gordo e malvado mas também companheiro, que antes temeu provar num prato de sopa quente, à natureza. O idade de ouro destes artistas, o tempo dos aplausos, está no passado, agora somente na memória ou na falta dela. A situação é cómica, por isso, quando Tati entra num teatro chamado Cameo e assiste a uma breve sequência do brilhante O Meu Tio, do próprio Jacques Tati, que satiriza, como sabemos, a chegada da modernidade e troça do automatismos quanto baste (aquela fonte em forma de peixe, no jardim, é por demais icónica).
Mise en abyme.

Sylvain Chomet volta à técnica e ao esplendor da animação do seu aclamado Belleville Rendez-Vous e concretiza o argumento original que o próprio Tati escreveu e nunca chegou a filmar. Enquanto espectadores, sentimo-nos muitas vezes a assistir a um filme do autor de Playtime - Vida Moderna: pelo protagonista e pela sua pantomima, pela ausência de diálogos simplesmente porque não são necessários, pela simplicidade das cenas e da mensagem. A visão de Chomet é enternecedora e, se não for trágica, transporta no seu olhar ondas de pura tristeza. A música do próprio perpetua essa melancolia, ao mesmo compasso com que a encenação nos encanta, com que cada luz se acende ou se apaga.

Alice é solitária porque desconhecemos se tem família, mas também porque é uma eterna descontente com a sua condição. Primeiro sonha com uns sapatos vermelhos, depois com um sobretudo chique e um vestido da moda. Por ser jovem, tem tempo para se adaptar à geração do consumo, só não tem dinheiro. Tati desenvolve especial afeição para com a rapariga, uma espécie de paternalismo, talvez como resposta ao maravilhamento da miúda perante cada ilusão. Ela acredita na magia, ao ponto do velho lhe oferecer os sapatos, juntar dinheiro para o sobretudo ou fazer um biscate para lhe pagar o vestido azul ou uns novos sapatos de salto alto. Por pura bondade. Ela, na sua ingenuidade, acredita que os presentes lhe aparecem por magia, mas desconhece o esforço do velho para lhe satisfazer os desejos. A magia do dinheiro é truque que o homem, na sua honestidade, não conhece. Ficando na moda, Alice sente-se integrada, arranja um namorado que a beija na esquina de uma Edimburgo belíssima e põe fim à solidão. Sem magia, perceberá que os sonhos se conseguem pelo trabalho e pela dedicação.

Com uma aura de outros tempos, O Mágico é um filme absolutamente encantador que encontra, na sua singularidade, uma saudosa e cinéfila homenagem, que as presentes gerações deverão sempre prezar e admirar. Sendo um filme de animação, é ainda curiosa a facilidade com que nos esquecemos disso, até que ponto interiorizamos a sua sentida representação da realidade. Há uma qualquer verdade que emana das suas imagens, compreendidas entre o paradoxo que se estabelece entre o título e a desilusão que a história, efetivamente, trata.

domingo, 1 de janeiro de 2012

AVATAR (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Avatar
Realização: James Cameron

Principais Actores: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Joel Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez

Crítica:

O UNIVERSO MÁGICO DE PANDORA:
ENTRE A FERTILIDADE E A ESTERILIDADE

Everything is backwards now,
like out there is the true world, and in here is the dream.

O fenómeno global Avatar é compreensível à luz da inovação e dos avanços tecnológicos que desde cedo estiveram anunciados a este regresso do visionário James Cameron, doze anos após o arrebatador Titanic. Compreensível, na medida em que as massas deliram por experiências espectaculares e alucinantes, que as transportem imediatamente para realidades alternativas, tantas vezes fantasiosas, como é o caso.

Neste sentido, importa tratar a relevância do 3D. De qualquer modo, importaria sempre que a tratássemos, uma vez que Avatar é sinónimo de 3D: é, desde a sua raiz, uma tentativa de deslumbramento contínuo. De certa forma, esse objectivo é atingido e o filme revela-se pioneiro. O efeito do 3D, por mais atordoante que seja (e, pelo que entendi, esta consequência secundária varia bastante, consoante a predisposição, hábito ou preconceito do espectador), mostra-se não só surpreendente como impressionante, na forma como se co-relaciona com os nossos sentidos e com a nossa percepção. Parece-me, contudo e francamente, que o deslumbramento se alheou da importância nuclear da narrativa, o que é lamentável. Assim sendo, aquilo que poderia funcionar como um elemento complementar para a qualidade da obra, resume-se a um acessório cujos resultados são sensorialmente estimulantes e aparatosos mas sem maior papel narrativo.

Depois, claramente, importa tratar o filme a dois níveis, absolutamente dissociáveis: a real filmmaking e a motion capture. Sublinho absolutamente dissociáveis uma vez que não julgo perfeitamente conseguida a combinação das duas formas de fazer cinema; sim, mais do que duas técnicas, são duas formas distintas de fazer cinema, com linguagens e implicações completamente diferentes.

Avatar
inicia a sua estrutura episódica, unificada por uma narração mais ou menos eficaz, com a real filmmaking. O digital interfere na fotografia, mas é um mero complemento. E, neste campo, Cameron jamais se revela especialmente inspirado no enquadramento e no movimento da câmera. Até penetrarmos na vegetação abundante de Pandora - onde a motion capture e os efeitos digitais assumem a totalidade da moldura - aquilo a que assistimos é banalíssimo: cenários, fotografia e mise-en-scène iguais aos de outros tantos blockbusters norte-americanos, onde personagens sem dimensão vagueiam pelo set enquanto a voz off se faz ouvir. Cá para mim, uma obra extraordinária e sublime faz-se do primeiro ao último shot, do primeiro ao último frame. Pois bem, a postura de Cameron em tudo aquilo que se confunde ou não com o marketing ligado ao produto, é a de quem se preparava para apresentar não só o filme mais caro de sempre como uma obra-prima única, onde cada dólar gasto valeu a pena. Basta ficarmo-nos pelos primeiros minutos de Avatar para constatarmos que não estamos perante uma obra-prima e os indícios de que se trata de uma obra desequilibrada não tardarão a fazer notar-se.

Onde Cameron brilha - incontestavelmente - é na projecção imaginada de todo aquele universo exótico e alienígena. A direcção artística é não só prodigiosa como verdadeiramente sumptuosa e minuciosa na criação de Pandora e dos Na'vi. A exuberância e a diversidade da vegetação e da fauna originam visões mágicas, plantas multiformes e animais incríveis! A paisagem é de cortar a respiração... as montanhas suspensas são de uma beleza inebriante... e, quando a noite cai, o esplendor da bioluminescência e a extrema sensibilidade de todo aquele meio ambiente concretizam uma fabulosa e colorida dimensão onírica; identificam-se, facilmente, as formas e as influências do universo submarino que Cameron tão bem conhece. Estupendos, os efeitos digitais. Que fertilidade abundou, durante todo este processo criativo. A acção das batalhas é pujante e Cameron revela total mestria na matéria.

Agora, sejamos frontais: quando postas lado a lado, ou em diálogo - falo da real filmmaking e do pacto entre a motion capture e a criação digital - sobressai um desfasamento evidente e que não parece natural, por mais mérito que o detalhe da recriação digital mereça. Quando colocadas lado a lado, em ponto de igualdade, o universo de Pandora apresenta-se-nos artificial. O universo de Pandora, por mais que tente ser foto-realístico, está condenado à fronteira entre o real e a animação. E cá para mim, pende claramente para a animação. Afinal, quando o digital impera sobre o real, só podemos pisar o campo da animação. Avatar tem, pois, uma natureza híbrida e recusa-se a assumi-la: às tantas, estamos a assistir a um filme de animação e Avatar recusa essa categorização, a meu ver óbvia e legítima. Quer fazer-nos crer que tudo aquilo é real - percebo e compreendo esse desejo - mas Pandora não é real nem parece tão real quanto se pretendia. Isso condena qualquer hipótese de verossimilhança, essencial para que um filme de fantasia funcione. Deste modo, Avatar representa um grande avanço técnico, mas não basta para se afirmar como um clássico do género.

Se há esterilidade em Avatar - e há muita, lamentavelmente - essa faz-se notar mais nitidamente nas performances dos actores e no argumento. Quanto aos actores - sempre que os temos - não há uma única personagem que seja digna de nota. Custa a crer, mas nem uma é modelada ou tem profundidade. Se não temos, desde logo, boas personagens, como poderia a história vingar? E chegamos ao argumento. De Danças com Lobos a Pocahontas, as referências ou paráfrases são mais do que conhecidas. Em boa verdade, a história de Avatar não é nada que já não tenhamos visto. Da história pedia-se muito mais, do argumento pedia-se muito mais também: entendo que a narrativa não respira, não há silêncios nem pausas, os episódios sucedem-se sem tempo para amadurecer as linhas de sentido e com tamanha previsibilidade. A forma como a história é contada dá ênfase ao deslumbramento visual e às sequências de acção, estendendo a duração do filme e não privilegiando propriamente a história. Não há, diga-se de passagem, um único diálogo memorável. Já piadas brejeiras, há inúmeras. Para além do mais, o planeta e a cultura Na'vi têm tanto potencial e tanto por onde explorar e, no entanto, fica-nos apenas uma amostra luminosa e pirotécnica inconfundível, sem grande substância... A única substância é a pertinente mensagem ecológica. Mas até que ponto é que o ritmo e as prioridades do filme não a abafam? Às tantas, mais parece que a mensagem ecológica lá está para limpar a natureza comercial da obra. A banda sonora de James Horner tem os seus momentos altos, mas quantas vezes não nos vêm à memória os temas de Titanic ou de Tróia. De As Quatro Penas Brancas há inclusivé reciclagem. Enfim... cessem as lamentações.

Continuo a pensar que Avatar é o esboço daquela que poderia ter sido uma obra extraordinária. Perdeu-se na ambição. Há quem diga que Avatar é um excelente produto de entretenimento. Entre algum aborrecimento constrangedor, poder-se-á dizer que assegura um entretenimento fora do comum. No fim de contas, entre a fertilidade e a esterilidade... penso que a esterilidade levou a melhor. Conquistou-me a sua fantástica proposta conceptual. Mas de James Cameron esperava mais.

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A crítica resulta, inclusivé, da visualização das versões alargadas do filme.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O FANTÁSTICO SENHOR RAPOSO (2009)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Fantastic Mr. Fox
Realização: Wes Anderson

Filme de Animação

Crítica:

UMA FAMÍLIA À BEIRA
DE UM ATAQUE DE NERVOS

Why a fox? Why not a horse, or a beetle, or a bald eagle? I'm saying this more as, like, existentialism, you know? Who am I? And how can a fox ever be happy without, you'll forgive the expression, a chicken in its teeth?

O Fantástico Senhor Raposo é daqueles filmes dos quais gosto mais hoje do que ontem e dos quais, muito provavelmente, gostarei ainda mais amanhã do que hoje. Todo o cinema de Wes Anderson acaba por ter este efeito curioso em mim, de certa forma. Penso que seja porque tem muito mais substracto do que aparenta, porque mascara na sua comédia nonsense o lado mais trágico da humanidade, mesmo quando envereda pela mais grotesca e inesperada animação, trabalhando a técnica stop motion de forma brilhante, como é o caso.

A narrativa é episódica, cada capítulo tem um título próprio e no centro da história está a família, como não poderia deixar de ser. Disfuncional, quais Tenenbaums ou aqueloutros em viagem a Darjeeling. E se não bastasse o cómico de personagem, brota o cómico a cada situação caricata ou a cada diálogo rápido, descarado, frontal ou profundamente filosófico. Marido, mulher, pai, mãe, filho, primos, amigos, comunidade... todos os papéis sociais são convocados, numa sátira hilariante sobre as relações entre os indivíduos ou sobre os problemas inerentes a qualquer relação. Não deixam de ser notáveis a complexidade e a eficácia com que Wes Anderson concretiza esta moral, recorrendo à fábula, tendo raposas e outros castiços animais como protagonistas da acção, a partir do conto infantil de Roald Dahl. Para isso, o elenco de vozes é, acredito, preponderante: George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray, Willem Dafoe, Owen Wilson, entre outros, emprestam as suas vozes aos bonecos e os mesmos ganham alma e dimensão. Todas as aventuras e desventuras caminham para a redenção, para a aceitação uns dos outros, como se apenas pela união a existência individual e a de conjunto ganhasse sentido e utilidade.

Criar ou formular uma realidade estilizada, ainda para mais 100% animada, e depois apercebermo-nos da arte de a filmar, que apesar de tudo não descura uma só vez as suas potencialidades (narrativas, semânticas, etc.) diz muito sobre o cuidado e a sensibilidade artística deste projecto. O filme maravilha-nos com movimentos metódicos e precisos; todo o cinema de Wes Anderson é bastante geométrico, desde as configurações da mise-en-scène a este olhar iminentemente artístico, que enquadra, ritma e constrói imagens num código e numa linguagem característica (esse método e geometria ecoa também, por exemplo, nos diálogos, escritos a quatro mãos entre o realizador e o habitual parceiro Noah Baumbach).

Nunca demasiadamente infantil, às vezes sagaz, outras vezes ternurento, mas sempre inteligente e sobretudo divertido, O Fantástico Senhor Raposo assegura, pois, hora e meia de grande entretenimento, com uma apropriadíssima banda sonora de Alexandre Desplat. Animação irresistível, que explora a sua técnica nos mais variados registos de forma irrepreensível.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O REI LEÃO (1994)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Lion King
Realização: Roger Allers e Rob Minkoff
Filme de Animação


Crítica:

HAKUNA MATATA
E O CICLO DA VIDA

Nants ingonyama bagithi baba... Sithi uhhmm ingonyama. Um reino de vida abre, na glória do amanhecer, uma das mais poderosas e emocionantes histórias da Disney e de toda a história do cinema de animação: girafas, elefantes, zebras, macacos, rinocerontes, chitas, antílopes e aves exóticas, a diversidade da savana, da fauna e da flora, cascatas deslumbrantes, montes nevados, extensas pradarias, a magnificência do sol e dos céus, a majestade da Natureza, o fulgor pulsante de África. Todos se encaminham para o rochedo real: no cimo do trono imponente, Mufasa, o Rei da Selva. Rafiki, o místico babuíno, eleva o primogénito ao infinito e anuncia: Simba, o próximo Rei Leão: A king's time as ruler rises and falls like the sun. One day, Simba, the sun will set on my time here, and will rise with you as the new king.

Anos passados, aliciado por Scar (o tio invejoso, cruel e traidor) e escapando à supervisão de Zazu (o mordomo abelhudo, ou o Sr. Bico de Bananas, como gosta de lhe chamar) Simba distancia-se do reino, para lá do planalto e na fronteira a norte, entrando no assustador, arrepiante e proibido Cemitério dos Elefantes. Faz-se acompanhar por Nala, achando-se a vedeta maior, I Just Can't Wait to Be King, I laugh in the face of danger, mas a aventura dá mesmo lugar ao perigo, rapidamente: as hienas, fedorentas, estúpidas e sarnentas, encurralam-nos aos dois, perpetuando os seus risos intermináveis pela imensidão do ermo. Tremenda irresponsabilidade, desobedecer ao pai e comprometer, assim, a sua vida e a da amiga. Ainda que Musafa apareça e solucione os sarilhos das crias, virá o dia em que a tragédia se abaterá sobre a família, irremediavelmente. Scar preparará uma cilada fatal, de modo a aniquilar o irmão e o sobrinho e a assumir finalmente o trono.

A eloquência do argumento (Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton) conflui perfeitamente a comédia, o drama, a tragédia, conferindo à narrativa uma graça refrescante, um sentimento forte e redentor e uma sumptuosidade bíblica e shakesperiana; afinal, a história de Simba encontrou inspiração em Hamlet e Moisés e nos seus arquétipos icónicos, mitológicos e de tradição. A morte de Musafa, pai de Simba - profundamente marcante - está para as mais recentes gerações como a perda da mãe de Bambi para as gerações que, desde 1942, descobrem o esplendor eterno desse outro clássico. O Rei Leão impõe-se, pois, como uma obra de valores intemporais, como o amor, a responsabilidade, a morte, a adaptação e a família e ainda como uma importante ode à Natureza e ao equilíbrio fundamental de todas as coisas:

Mufasa: Everything you see exists together in a delicate balance. As king, you need to understand that balance and respect all the creatures, from the crawling ant to the leaping antelope.
Simba: But, Dad, don't we eat the antelope?
Mufasa: Yes, Simba, but let me explain. When we die, our bodies become the grass, and the antelope eat the grass. And so we are all connnected in the great Circle of Life.

Magistralmente realizado, O Rei Leão presenteia-nos, para além de tudo o mais, com uma das duplas mais hilariantes e memoráveis de sempre: Timon e Pumba, o primeiro um suricata fala-barato, o segundo um javali bem ventoso - absolutamente descomprometidos, vivem a vida segundo o lema hakuna matata, a frase da língua suaíli que significa sem problemas. Serão ambos os melhores amigos de Simba (aquando do seu exílio no desconhecido) e os mentores de um sensato leão adulto, consciente do equilíbrio pelo qual deverá zelar, da fugacidade da vida, (digna de ser aproveitada a cada momento com um sorriso) e do destino que deverá enfrentar e honrar.

Irradiando uma beleza transcendente e inconfundível (a excelência do traço e da pintura constitui, por si só, um trabalho monumental) e dotado de uma composição musical verdadeiramente assombrosa e poderosa, igualmente plena em ritmos quentes e divertidos (banda sonora de Hans Zimmer, temas de Elton John e letras de Tim Rice), O Rei Leão figurará, na sublimidade que lhe é de direito, entre os melhores Clássicos Disney de que há e haverá memória.

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

quarta-feira, 9 de março de 2011

MARY POPPINS (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mary Poppins
Realização: Robert Stevenson

Principais Actores: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester, Ed Wynn, Reta Shaw, Jane Darwell
Crítica:

AS MARAVILHAS
DE MARY POPPINS


Never judge things by their appearance...
...even carpetbags.

Um pedaço de cinema extremamente criativo, colorido e divertido, capaz de seduzir e encantar completamente o verdadeiro amante de musicais ou qualquer cinéfilo mais passional. Mary Poppins é delicioso como uma fatia de bolo, afinal. Contudo, é ousado e arrojado o suficiente, esteticamente falando, para conquistar o sentido crítico de qualquer espectador mais exigente.

Na verdade, a fantasia permite a um filme como Mary Poppins toda uma liberdade criativa sem limites. A mágica combinação entre a real motion e a animação atinge e concretiza quase na perfeição essa visão outrora impossível. No fim de contas, entrar para dentro de um quadro e passear pelo parque desenhado, como que entrando num encantado mundo dos clássicos animados da Disney seria, outrora, qualquer coisa de inimaginável.

Assim que a ama Mary Poppins (Julie Andrews - bela, radiosa e brilhante) desce das nuvens de Londres e entra pela mansão dos Banks adentro, o dia-a-dia dos travessos Jane e Michael vira um corrupio de surpresas. Até que o canhão do vizinho almirante ressoe novamente, anunciando novos ventos, as mais mirabolantes peripécias não terão fim. Desde cantar com o cordeiro, com o cavalo, com a vaca, com o porco e com os patinhos da quinta a passar pela Árvore do Chás, onde pinguins-garçons fazem sapateado... Desde entrar num carrossel e saltar montado nos corcéis pelo prado fora, até integrar uma corrida no hipódromo... O que os artistas por de trás do filme conseguiram foi uma interacção harmoniosa e quase perfeita entre estas duas formas de fazer cinema. O efeito é maravilhoso, é supercalifragilisticexpialidocious! Depois, a contagiante risota sob o tecto do tio Albert, as extraordinárias coreografias sobre os telhados, entre os limpa-chaminés... O filme está recheado de cenas marcantes e inesquecíveis, assim como de canções lindíssimas, que o tempo eternizou: The Life I Lead, The Perfect Nanny, A Spoonful of Sugar ou a já referida Supercalifragilisticexpialidocious, entre tantas outras. O guarda-roupa e a caracterização são igualmente dignos de nota. Por sua vez, a direcção artística (Carroll Clark, William H. Tuntke, Hal Gausman, Emile Kuri) é de um arrojo irretocável, assim como a fabulosa fotografia de Edward Colman, que aliada aos efeitos especiais faz desta obra um autêntico prodígio visual.

Hino maior à prática da bondade e da diversão, eis pois um clássico absoluto e intemporal. Magistralmente bem feito e adorável sob todos os pontos de vista. Será certamente especial para as crianças, mas completamente irresistível para os adultos. Tenho dito.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O MEU VIZINHO TOTORO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tonari no Totoro
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MAGIA DE SER CRIANÇA


Se há obra sobre a infância e durante a qual me vejo a regressar nostalgicamente ao passado, essa obra é O Meu Vizinho Totoro, realizada por Hayao Miyazaki. Creio, francamente, que o aclamado mestre da animação japonesa concebeu, ao longo da sua carreira, obras tecnicamente superiores a esta; veja-se, por exemplo, O Castelo no Céu, Princesa Mononoke ou A Viagem de Chihiro; cada título mais belo do que o outro. No entanto, acredito que a virtude maior de Totoro é o seu âmago narrativo, deveras especial, pelo qual se distingue dos demais. Aqui não há vilões, não há maldade, não há intriga ou trama propriamente dita ou uma história com princípio, meio e fim, no sentido convencional da expressão. A aquarela, de um esplendor visual arrebatador e absolutamente fascinante, floresce, a um ritmo tão calmo, a partir das situações do dia-a-dia, da espontaneidade das circunstâncias, até que ganha riqueza e complexidade semântica e interpretativa com a fertilidade do imaginário infantil.

A história de
O Meu Vizinho Totoro inicia-se com a mudança da família Kusakabe para o campo, entre prados verdejantes, águas cristalinas e uma floresta misteriosa, por causa da recente hospitalização da mãe na proximidade. As irmãs Mei (a mais nova) e Satsuki (a mais velha) viajam com o pai, muito animadas, até que chegam a uma casa aparentemente assombrada e a sua criativa imaginação desperta. Fantasmas, acreditam. A exploração da casa e dos arredores torna-se facilmente uma aventura, onde a magia despontará até das bolinhas pretas da fuligem: espíritos da floresta, místicos rituais, um gato-autocarro, e um trio de animais tão fofinhos quanto monstruosos, que facilmente poderia comparar a bonecas russas, caso estas mudassem de forma. Entre eles, o gigante e caricato Totoro. Só as crianças podem ver estas incríveis maravilhas - as crianças são, afinal, seres privilegiados. A possível morte da mãe e necessidade de assumir responsabilidades (inerentes ao crescimento) são os únicos factores que põem à prova a alegria e a união da família; a família que, ela própria, nos é apresentada como um elemento fundamental na vida e no equilíbrio dos homens. Notável, aquela simples cena em que pai e filhas tomam banho nus com a maior naturalidade do mundo. Quem se lembraria de inventar uma cena destas para um filme tão marcadamente infantil? Lá está, que pureza. E que delicadeza, aquela que Miyazaki aplica no manejar das emoções entre as personagens. Que sensibilidade.

O deslumbramento do espectador faz-se frame a frame e cada frame é, com o devido primor e requinte, pintado à mão. A banda sonora de Joe Hisaishi é qualquer coisa de extraordinário: há melodias divertidas, outras emocionantes e envolventes, umas emanam saudade... todas emanam vitalidade. Magistrais composições.

No seu todo, O Meu Vizinho Totoro não é senão o regresso à pureza original, onde há bondade e segurança ao virar das esquina, e à verdadeira idade da inocência, onde abunda a felicidade plena. Um milagre de filme. Fabuloso.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

AS AVENTURAS DE PETER PAN (1953)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Peter Pan
Realização: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske

Filme de Animação


Crítica: Uma das mais divertidas e hilariantes aventuras da Disney. Peter Pan adapta a deslumbrante peça de J. M. Barrie sobre a importância de ser criança, em toda a sua inocência, pureza e capacidade de sonhar e acreditar. Repleto de acção, fantasia e de muito bom humor, a magia das histórias de encantar ganha um ritmo contagiante. Personagens como o Capitão Gancho ou o Barriga (os maus como agentes da comédia), o crocodilo ou a cadelinha Naná (empenhada no papel de ama), o Chefe Índio ou os Meninos Perdidos, as sereias ou a fada Sininho (temperamental e nervozinha), Wendy e os irmãos ou o próprio Peter Pan (destemido e impulsivo, o rapaz que nunca cresce), são verdadeiramente marcantes e inesquecíveis. Peter Pan é claro, também, nos papéis que atribui ao Feminino e ao Masculino: os rapazes são os eternos brincalhões e as raparigas são as mulheres ciumentas e fúteis (como a fada ou as sereias) ou as mães (simbolizadas na figura da jovem Wendy), amparo eterno dos rapazes. Uma vez crescidos, nunca mais poderão voltar à Terra do Nunca, a eterna dimensão da infância, onde tudo pode acontecer. Criativo no desenho e vibrante na banda sonora, eis, pois, um filme em grande. Sombra imperdível na nossa memória.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A BELA E O MONSTRO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Beauty and the Beast
Realização:
Gary Trousdale e Kirk Wise

Filme de Animação


Crítica:

O CASTELO ENCANTADO

Quando a última pétala cair, sem que o amor triunfe, a maldição tornar-se-á perpétua. É este o mote para mais uma fabulosa e adorável história de encantar da Disney. Desde Era Uma Vez... a E Viveram Felizes para Sempre... o estúdio cristalizou o imaginário infantil de gerações inteiras, ao longo de décadas. A Bela e o Monstro é, porventura, dos maiores hinos à beleza interior.

Once upon a time, in a faraway land... A young prince lived in a shining castle. Although he had everything his heart desired, the prince was spoiled, selfish, and unkind. But then, one winter's night, an old beggar woman came to the castle and offered him a single rose in return for shelter from the bitter cold. Repulsed by her haggard appearance, the prince sneered at the gift and turned the old woman away. But she warned him not to be deceived by appearances, for beauty is found within. And when he dismissed her again, the old woman's ugliness melted away to reveal a beautiful enchantress. The prince tried to apologize, but it was too late, for she had seen that there was no love in his heart. And as punishment, she transformed him into a hideous beast and placed a powerful spell on the castle and all who lived there.

Da radiosa aldeia, ao negrume da floresta e a todo o goticismo do castelo, a obra conta com um extraordinário leque de personagens. Bela não é Branca de Neve ou Aurora. Não corresponde à heroína de outrora, ingénua e submissa. Bela é corajosa e destemida, forte e inteligente, independente. Ela sabe perfeitamente o que quer e é uma jovem lutadora. O Monstro é arrogante e intempestivo, incapaz de mostrar bondade e aquilo que a paixão entre os dois despoleta é, antes de tudo, a transformação interior do Monstro em Príncipe. A terrível e horrorosa criatura tornar-se-á brando e afável, dedicado e disponível, capaz de pôr a sua vida em risco e de sacrificá-la, inclusivé, pela amada. E é essa a mudança, a vitória maior que o amor simbolizará, quebrando o feitiço e restituindo à fera a sua aparência e forma original. Gaston, o musculado bruta-montes, concretiza o triângulo amoroso; é um narcisista convencido e a prova de que se pode ser muito bonito por fora e completamente estúpido e vazio por dentro. O pai, desastrado inventor, é francamente hilariante e, depois, o rasto de magia espalha-se sobre móveis e artefactos, objectos e utensílios. Os inanimados ganham vida e revelam-se personagens inesquecíveis, verdadeiras estrelas do espectáculo nos intervalos do romance central: Lumière, o candelabro de sotaque francês, Cogsworth, charmoso relógio de parede, o bule Mrs. Pott e o filhote Chip, a vassoura, o guarda-fatos, entre tantos outros.

Ashamed of his monstrous form, the beast concealed himself inside his castle, with a magic mirror as his only window to the outside world. The rose she had offered was truly an enchanted rose, which would bloom until his 21st year. If he could learn to love another, and earn her love in return by the time the last petal fell, then the spell would be broken. If not, he would be doomed to remain a beast for all time. As the years passed, he fell into despair and lost all hope. For who could ever learn to love a beast?

A qualidade do desenho e da pintura, mesmo no casamento subtil e eficaz entre a animação tradicional e aqueloutra por computador, é singular. O filme é visualmente arrebatador, do riso às lágrimas. Para isso muito contou a realização de Gary Trousdale e Kirk Wise, que tornam toda a adaptação do conto uma experiência tremendamente excitante e emocionante. Depois, creio que se há triunfo assinalável e absolutamente decisivo para elevar o calibre das produções da Disney nos anos 90 do século passado foi sem sombra de dúvida o potencial gigantesco das bandas sonoras de Alan Menken. As suas canções, para além de modernas e plenas de emoção, revitalizaram a animação do estúdio, conferindo-lhe uma extraordinária natureza musical. As canções Be Our Guest, Belle, Something There, The Mob Song, Gaston, Human Again ou mesmo Beauty and the Beast, com letras de Howard Ashman, aliadas a uma prodigiosa coreografia visual, eternizam algumas das mais memoráveis e melodiosas sequências do filme. Piscadelas de olhos a clássicos absolutos são inúmeras; a mais facilmente identificável talvez seja aquela em que Bela canta pelos campos, graciosa e rodopiante, que nem a Maria de Julie Andrews, em Música no Coração.

Por tudo isto e tanto mais, A Bela e o Monstro atinge um equilíbrio notável entre o clássico e o moderno, a solidificação do passo (ou mergulho) audaz que foi dado com A Pequena Sereia e que se veio a confirmar com os êxitos seguintes. Enfim, tornou-se um clássico instantâneo. A ver e rever.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O CASTELO NO CÉU (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tenkû no shiro Rapyuta
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A CIDADE FLUTUANTE


O mundo antigo, o paraíso perdido, o sonho e a fantasia de voar. A lenda, o mito e a mais bela história de encantar, de quando os Homens abandonaram os céus e povoaram a terra. A cidade e o campo, a indústria e a natureza, o choque e os perigos da evolução civilizacional. A importância de estabelecer um equilíbrio, onde o progresso seja guardião da essência natural das coisas. A importância do amor, dos sentimentos e dos valores, numa realidade de ódio, rancor e intolerância. A necessidade de escape e de evasão dos problemas mundanos para um universo fantástico. A experiência e a descoberta da vida, num ritual fundamental de crescimento e amadurecimento. A busca da identidade e a humanização do espírito.

Máquinas voadoras, hélices, rodas e engrenagens, barulho e fumos e, por outro lado, extensos prados verdejantes e floridos, águas cintilantes e cristalinas, ventos mansos e silêncios. Tudo isto povoa o imaginário de O Castelo no Céu. Pazu é um menino feito homem: órfão, vive da ajuda dos amigos e do trabalho árduo nas minas. Não é um escravo do trabalho. É, antes, um engenhoso rapaz que
cedo provou as dificuldades da vida e da miséria e que conhece perfeitamente o peso e a recompensa das responsabilidades. Um dia, cai-lhe do céu uma menina flutuante, iluminada por poderoso e iluminado cristal azulado. A menina dorme, aparentemente em paz, mas o prólogo que antecedeu os créditos iniciais bem que nos deu conta do contexto conflituoso que lhe provocou a queda.

A pequena, de seu nome Sheeta,
é - sem saber - a princesa Lusheeta Toel Ul Laputa, herdeira do fabuloso rochedo. Detém uma raríssima Pedra da Levitação, preciosidade de um mineral ancestral chamado Etério, que a avó lhe dera antes de abandonar o mundo dos vivos e que é a única pista para descobrir o paradeiro da misteriosa ilha, suspensa na imensidão dos céus (a intertextualidade com a obra de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver é obvia. Outras fontes de inspiração são assumidas, como Júlio Verne ou a Bíblia). Por isso é perseguida pelos piratas de Dola e pelos oficiais de Muska, que a todo o custo querem saquear os tesouros da fortaleza errante. Pazu, por sua vez, carrega os sonhos do pai, aviador, que afirmara ter avistado um dia Laputa, sem que ninguém tivesse acreditado nele.

A emocionante e envolvente música de Joe Hisaishi seduz-nos e inebria-nos numa viagem sem igual, numa mágica e extraordinária aventura. Sem limites. A exuberância visual da animação tradicional de Miyazaki deslumbra-nos
. A história faz de nós, espectadores, verdadeiros reféns, vibrando ao sabor da acção desenfreada ou rindo, genuinamente, com as hilariantes personagens que compõem a riqueza plural da narrativa. No final, toda a ambição do Homem conduz à destruição. Robots e gigantes objectos voadores engolem os seus destinos. Quando as ruínas de uma imponente e esplendorosa arquitectura vacilam, a árvore persiste e resiste. A imagem detém uma carga simbólica imensa, que fala por si só.

O Castelo no Céu não é, pois, senão um dos mais maravilhosos e imprescindíveis filmes de Hayao Miyazaki. De um candor etéreo e puro e de uma beleza desarmante, que - certamente - fascinará miúdos e graúdos, gerações após gerações. A mim, conquistou-me por completo e atrevo-me a dizer que é um dos melhores filmes de animação de todos os tempos.

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Louvável, a recente Colecção Estúdio Ghibli que a LNK empreendeu.
Lamentável, no entanto, que a legendagem se faça a partir da dobragem em inglês, que nem sempre coincide com o idioma original japonês que vigora no DVD. Ou seja, são frequentes as legendas que aparecem magicamente no ecrã, sem correspondência sonora.

PRINCESA MONONOKE (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mononoke-hime
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A NATUREZA, O HOMEM E A MÍSTICA HARMONIA


Sítios mágicos, criaturas falantes, espíritos inquietos, histórias incríveis. Princesa Mononoke não é senão uma dessas extraordinárias criações do mestre Hayao Miyazaki, concebida com assaz sensibilidade e passada nesse rico e fascinante universo de fantasia. Visualmente deslumbrante e encantatória, a história da rapariga que vive entre os lobos e que defende a floresta da destrutiva ambição dos humanos da Cidade do Ferro é também uma aventura épica, de contornos violentos e manchados de sangue. Uma narrativa complexa, metafórica e imersa em símbolos que vem provar que a animação é muito mais do que mero entretenimento para crianças. É a arte do belo, ao nível das mais conceituadas expressões cinematográficas.

Quando o jovem Ashitaka, defendendo o seu povo, é amaldiçoado de morte por um demónio estrangeiro, vê-se no dever de seguir os desígnios da vidente da aldeia e abandonar os Emishi para sempre, procurando a cura nos confins do desconhecido, num Japão onde confluem mitos e referências medievais. Os destinos do rapaz conduzem-no até Tataraba, a Cidade do Ferro, governada por Eboshi - uma mulher tão aplicada na defesa dos seus protegidos (leprosos e refugiadas de bordéis, nomeadamente) como na exploração dos recursos da floresta, para impulsionar a indústria da cidade. Uma mulher, aliás, como qualquer uma das personagens da obra: de natureza ambígua, de natureza humana, longe de maniqueísmos redutores. Ninguém é, portanto, totalmente bom ou totalmente mau. Quando Ashitaka conhece San, a princesa Mononoke, desenvolve para com ela uma enorme cumplicidade: afinal, ela representa a coexistência ideal entre o Homem e a Natureza. Sem nunca tomar uma das posições contrárias, antes lutando pelas duas naquilo que elas têm de melhor, Ashitaka ver-se-á no meio de uma guerra de interesses entre as gentes de Tataraba, os samurais do imperador e os deuses do bosque (sejam eles javalis, lobos ou espíritos mágicos).

A mensagem ecológica subjacente é importantíssima. A alegoria traça o esboço de uma espécie capaz de dizimar os seus recursos naturais, os habitats de inúmeras espécies (vegetais e animais) e que acabará por sofrer a derradeira vingança da Natureza. Desse prisma, Princesa Mononoke é uma viagem espiritual. Um profundo e emocionante reencontro com os nossos valores primordiais, de paz e respeito para com o ambiente circundante - pulmão e coração da Terra e essência da nossa vida.

Detentora de banda sonora magnífica (Joe Hisaishi), de uma fotografia sublime (Atsushi Okui) e de uma montagem notável (Hayao Miyazaki e Takeshi Seyama), Princesa Mononoke irradia esplendor na perfeição do seu desenho e no detalhe da sua pintura. Um clássico instantâneo, magistralmente filmado, emocionalmente poderoso.

PONYO À BEIRA-MAR (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Gake no ue no Ponyo
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MENINA DO MAR

A vida é misteriosa e maravilhosa
- diz Lisa, a mãe de Sosuke - e assim é a animação de Hayao Miyazaki.
Ponyo à Beira-Mar é um autêntico delírio visual - mais um, cheio de cores e magia, misturando com extraordinária imaginação e criatividade universos tão distintos como o real e o imaginário. Num tom mais infantil, o japonês revisita valores clássicos como a beleza, a pureza, a inocência, a bondade e o amor num filme absolutamente refrescante na sua filmografia.

A obra abre, ainda antes dos créditos iniciais, com uma sequência de slumbrante e quase inebriante nas profundezas do oceano. Depois, até ao final, somos envolvidos num mundo fabuloso e irresistível, imerso em mitologias e superstições, à deriva em sonhos, mas a salvo em humanidade. Não devemos julgar os outros pelo aspecto. A minha cena favorita é aquela em que o Sosuke e a mãe comunicam com o pai em alto mar, por meio da luz cintilante. É tão bonita, tão tocante... E é claro, outras tantas inesquecíveis como aquela em que a jovem se transforma em humana e corre as águas e os peixes, ou aqueloutra em que a Deusa do Mar aparece entre o luar e brilhos dourados, na surreal agitação das ondas.

A narrativa é linear e mais simples do que noutros títulos do autor, é certo, mas n ão é por isso que abandona, por completo, o carácter metafórico e ambíguo que é habitual. O filme conta com uma grande componente auto-biográfica (Sosuke representa, por exemplo, o filho do próprio realizador e a velha rezingona Toki a sua mãe), com alegorias e significados muito pessoais, e ainda com a crítica à poluição dos mares e à caça abusiva: por outras palavras, os excessos do Homem e as suas destrutivas consequências para a Natureza - Os seres humanos são nojentos! - tópico aliás recorrente, note-se a obra Princesa Mononoke. Implícita está ainda a capacidade de a Natureza, ela própria, se vingar pelas catástrofes e procurar, desse modo, o equilíbrio primordial.

Quando as cheias devastam a cidade portuária e Sosuke e Ponyo partem à proc ura da mãe do rapaz naquele barco enfeitiçado, há um confronto com a morte, atenuado pela poesia da animação. Aquela bolha no fundo do mar, que acolheu a gente do lar de idosos, não é senão uma metáfora do Paraíso. Quando, fugindo à maldição de Fujimoto, Sosuke cai nos braços da velhota da cadeira de rodas, dá-se o encontro simbólico entre o filho e a mãe de Miyazaki, entre o ser-se velho e ser-se criança: o estado priveligiado do próprio Miyazaki, capaz de abraçar a morte, na poesia do adeus, e de atingir, pela arte, a imortalidade.

Naquela bolha marítima, há milagres e magia e tudo é possível... É possivel transcender a morte, ultrapassar os desígnios naturais que uma intempérie daquelas causaria. É possível regressar à superfície, onde o amor triunfará. Na arte tudo é possível. Não há limites. E assim é o cinema de Miyazaki. Enquanto crianças, poderemos ficar-nos sempre pela simplicidade de uma primeira leitura. E, da mesma forma, perder-nos-emos na fantasia... e na infinitude dos sonhos.

Irrepreensível no desenho e na pintura e dotado ainda de uma magnífica e cristalina banda sonora (Joe Hisaishi), eis, pois, um filme totalmente delicioso.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões