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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

BLADE RUNNER 2049 (2017)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Blade Runner 2049
Realização: Denis Villeneuve
Principais Actores: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, Carla Juri, Lennie James, Barkhad Abdi, Edward James Olmos, David Dastmalchian

Crítica:

O MILAGRE DO FUTURO

 Dying for the right cause.
It's the most human thing we can do.

Quem disse que uma sequela não pode ousar rivalizar com a obra original? Blade Runner 2049 fá-lo a cada frame, destruindo categoricamente esse preconceito; tais são os seus níveis de ambição e de imersão na criação e expansão de um universo distópico que, mais do que nunca, nos parece tão possível e... tão real. Tal como o prodigioso filme de Ridley Scott, 2049 é o fruto de uma produção artística magnânima, assustadoramente visionária e rica em detalhes, e de uma projecção filosófica que não só aprofunda as questões do capítulo anterior como as leva mais longe, desafiando os limites da ética e da nossa imaginação. Só um louco arriscaria o seu nome, pegando num clássico que sonhou, num golpe de asa e de profecia, muito do futuro que é hoje o nosso presente. Blade Runner revolucionou ainda a linguagem estética da ficção científica e tornou-se num dos mais influentes e canónicos filmes do género. Na sua aura mística, ganhou um estatuto de obra-prima intocável, à qual até o próprio Scott se privou de voltar, temendo o fracasso; o que, por si só, mesmo ignorando o seu percurso anterior, faz de Denis Villeneuve um sério nome a ter em conta. Ou louco, ou ultra-confiante ou um genial cineasta a considerar.

Creio que, mais do que em qualquer outro filme, os Blade Runner espelham um colossal trabalho de equipa e não só a visão artística do realizador. Não quero com este comentário, de todo, menosprezar o talento e o mérito de Villeneuve (que é absolutamente magistral em toda a encenação), mas julgo que aqui é por demais evidente. Em primeiro lugar, estamos perante um extraordinário trabalho de escrita, a partir da obra de Philip K. Dick. Regressa Hampton Fancher ao argumento e à frente daquele que é, também e tanto, o seu mundo criativo. Foram consultados cientistas e engenheiros de topo para o desenvolvimento das ideias e para a concepção dos mastodônticos cenários, carros voadores, armas e demais tecnologias e hologramas (produção artística de Dennis Gassner e Alessandra Querzola). O já lendário director de fotografia Roger Deakins juntou-se ao realizador, previamente, para meses e meses de estudo e preparação de cada frame - da iluminação ao extraordinário uso das cores e às indissociáveis repercussões na cenografia. 2049 é, pois e a todos os níveis, um portentoso assombro visual - é do magnético poder das suas imagens que provém muita da sua magia e encantamento. Por mais que 2049 se esforce e invista em construir cenários e artefactos reais, escapando tanto quanto possível ao ecrã verde e às infinitas possibilidades do digital - o que se traduz num realismo deveras apreciável - é claro que um filme como este vive e muito dos extraordinários e estonteantes efeitos visuais (John Nelson, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Richard R. Hoover). Blade Runner 2049 chega aos nossos olhos como um esmagador colosso. E cada dólar gasto é perfeitamente detectável, a cada instante.

Não obstante, não só os olhos saem maravilhados da tremenda experiência sensorial que é uma obra desta amplitude e envergadura. A qualidade sonora de 2049 é absolutamente estrondosa, em todos os seus efeitos e mistura. E até nos seus silêncios, assegurando uma viagem exótica e memorável, empolgante nas mais variadas sequências de acção e nas outras tantas, plenas de suspense e de surpreendentes revelações. Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer unem-se para recuperar a toada de Vangelis e, às tantas, partirem para uma sonoridade própria e estranha, que nos perturba e inquieta, que suscita em nós uma espécie de desconforto e que condiz com a demanda de K (Ryan Gosling, o novo caçador de replicantes, também ele um replicante) pela urbe poluída e sobrepovoada ou pela paisagem mais inóspita e deserta, condenada pela radioactividade.

Gosling é o homem perfeito para o papel: uma interpretação mais circunspecta, mais interior, uma rudeza de carácter aparente que se esbate num olhar profundo e sentido, tão humano. É a cabeça de cartaz de uma nova geração de personagens, assumidas por irrepreensíveis escolhas de casting. Ana de Armas como Joi, o holograma da mulher perfeita: sensual, amiga e companheira. É com ela que Gosling partilha aquelas que serão, provavelmente, das mais belas e românticas cenas dos últimos anos, entre as quais o beijo à chuva, na noite e no topo do edifício, e os preliminares daquela que se depreende ser uma prometedora noite de sexo (a dois ou a três, não sei bem como classificá-la). Temos Robin Wright à frente das forças policiais e de investigação, temos Sylvia Hoeks como vilã implacável, temos Jared Leto como o cego Wallace, senhor da indústria de andróides e senhor do mundo. De regresso, a curta aparição do Gaff de Edward James Olmos e de mais um dos seus origamis e claro... o saudoso Harrison Ford como Rick Deckard, a assegurar a ligação com o filme anterior e a sua honrosa continuação. As cenas em Las Vegas são lindíssimas, todas sem excepção, mas aquele tiroteio e duelo de pancadaria em pleno salão do casino, com direito a espetáculo de Elvis, Marilyn Monroe e bailarinas aparições entre um espectacular show de luzes é qualquer coisa de sublime.

Deckard: I like this song. We could keep at this or we could get a drink. 
K: I'll take the drink.

Enquanto Blade Runner se debruçava sobre os sonhos, 2049 debruça-se sobre as memórias. São as memórias aquilo que nos torna humanos? A partir de quando pode um andróide ou qualquer criação com inteligência artificial ser considerado natural? Ou ser considerado mais ou menos digno do que um ser humano? Se um replicante for capaz de criar ou procriar, isso faz dos humanos deuses? Que legitimidade tem o criador de se achar superior, em termos de direitos, à sua criação? Qual é o lugar de um ser criado à semelhança do Homem no mundo? Tem ele direito à liberdade? Porá em causa, essa liberdade, a sobrevivência do criador? A discussão não se esgota por aqui. São muitas as questões e tão poucas ou tão dúbias as respostas. Uma coisa é certa: a reflexão é em 2017 muito mais urgente e significativa do que em 1982. Os destinos do mundo parecem encaminhar-se, de uma maneira ou de outra, para a concretização da ficção científica. O que hoje é sonhado, amanhã poderá ser realidade. Há impossíveis? O primeiro Blade Runner ensinou-nos que não e este novo poderá aproximar-nos ainda mais do milagre.

O melhor filme de 2017, a par de Mãe!, de Darren Aronofsky.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

INTERSTELLAR (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Interstellar
Principais Actores: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Casey Affleck, John Lithgow, Wes Bentley, Matt Damon, Ellen Burstyn, David Gyasi, Topher Grace, Bill Irwin, Josh Stewart, William Devane, Leah Cairns, Mackenzie Foy, Timothee Chalamet, David Oyelowo, Collette Wolfe

Crítica:

PARA ALÉM DAS ESTRELAS

Mankind was born on Earth. It was never meant to die here. 

Um ano depois de Cuarón chegar ao espaço, eis chegada a vez de Nolan. Mas se Gravidade proporcionou uma experiência assaz vertiginosa e claustrofóbica assente num feroz realismo e num regrado rigor científico - poder-se-á mesmo dizer que nunca a ficção científica teve, até então, os pés tão assentes na terra - Interstellar está muito mais próximo do cânone do género (nota-se a influência, por exemplo, da incontornável obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço) desbravando a imensidão e o infinito ao sabor das hipóteses e das especulações: da ficção, portanto. Pode, é certo, partir de teorias reais e de conceitos mais ou menos generalizados e absolutamente queridos a incursões deste tipo: o esgotamento dos recursos naturais da Terra e o cenário apocalíptico, a lei de Murphy, a inteligência artificial, a teoria da relatividade de Einstein e as derivações de Kip Thorne (consultor privilegiado) - a distorção espaco-tempo, ondas gravitacionais, buracos negros, etc. Interstellar cose-os e articula-os numa manta interessantíssima, construindo o suspense e o enigma de forma não só intricada como ultra-estimulante e eficaz, amarrando irreversivelmente o espectador numa missão permanentemente desconhecida - como, aliás, é marca dos Nolan desde Memento, passando por O Terceiro Passo até A Origem. Os twists multiplicam-se pela narrativa, tornando a acção seguinte absolutamente imprevisível. Não obstante, a viagem desemboca de forma rebuscada, no plano da coincidência e num espectro derradeiramente romântico. Para os amantes da ficção científica, esse não é um problema. Talvez o seja para os fanáticos da ciência.

De um filme para o outro, d'A Origem para Interstellar (tendo a pôr de lado a trilogia do Batman, que pertence a um universo muito específico e particular e em tudo menos interessante na sua filmografia, quando comparada aos restantes títulos), Christopher Nolan passa do mais ínfimo microcosmos (o sonho dentro do sonho dentro do sonho, na mente de um indivíduo) para o mais incomensurável macrocosmos (no tudo e nada do espaço aberto), ainda que a aventura cósmica continue alicerçada na ambição e na grandiloquência do argumento e das propostas visuais, com recorrentes brincadeiras com o espaço e com o tempo - como Nolan gosta de esculpi-los, como se fosse um engenheiro divino, qual Chronos. Se antes desdobrava cidades e as elevava nas alturas, agora visita mundos inóspitos, insólitos e surpreendentes ao olho: planetas de água onde ondas gigantes varrem constantemente a superfície, planetas de nuvens congeladas, onde o céu replica o solo e as personagens parecem passear sobre espelhos, ou buracos negros esféricos ou massivos, com extraordinários poderes de atracção e distorção, que poderão levar os astronautas ao futuro num ápice, enquanto no tempo terrestre as personagens deixadas envelhecem, adoecem ou morrem. Uma das cenas mais emocionantes, a propósito, dá-se aquando do regresso de Cooper (fabuloso Matthew McConaughey) à nave, depois da perigosa experiência no planeta aquoso de Miller, onde cada hora equivalem a sete anos na embarcação. Passaram-se, ao todo e sem que desse conta, vinte e três anos. Cooper dirige-se ao monitor para assistir às gravações enviadas da Terra durante esse período e depara-se com o crescimento e evolução da sua família, nos momentos bons e nos momentos maus que, pela distância, jamais acompanhou. Depara-se com a dor da ausência, a dele e a dos seus entes queridos - e essa dor é por demais insuportável. Mas a sua heróica missão, já sabia, teria essas consequências. Só por meio dela poderia tentar salvar o futuro - dos filhos e da humanidade.

Once you're a parent, you're the ghost of your children's future. 

O foco na relação pai-filhos, muito particularmente na relação de pai-filha entre Cooper e Murph (incríveis Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn) e no amor incondicional e insondável nutrido entre ambos fazem de Interstellar, provavelmente, a obra mais emocionante do realizador, à data, capaz de medir forças com as pretensões intelectuais da narrativa. O último acto, como o de 2001, projecta-nos no futuro, numa quinta dimensão e numa complexa e duvidosa existência. Sentimo-nos como que suspensos num sonho ou num hiper-cubo interminável e pouco palpável, que nem o astronauta, derradeiramente perdidos, à procura de uma explicação apaziguadora, à procura da luz. Rage, rage against the dying of the light, já declamava, misteriosamente, o Professor Brand (Michael Caine, habitué de Nolan), o mesmo que dizia: I'm not afraid of death. I'm an old physicist - I'm afraid of time. É nesses instantes fulcrais, em que se resolvem as hipóteses sobrenaturais levantadas no primeiro acto, que TARS - o robot com fisionomia semelhante à do monólito de Kubrick - intervém sabe-se lá de onde ou quando e afirma ter reunido preciosa informação quântica, capaz de descortinar os segredos do universo. Que desfecho terá Interstellar?, perguntamo-nos. É provável que o final passe e que não compreendamos bem o que assistimos, depreendemos. Talvez o descortinemos melhor em futuras visualizações. Mas sentimo-lo. Sentimos aquele desenlace. As últimas cenas são desconcertantes, profundamente trágicas e, verdadeiramente, de partir o coração. Fica a certeza de que os instantes finais nos apresentam o amor como elemento essencial para a transcendência, como adianta a citação abaixo, às tantas proferida pela Drª Brand (Anne Hathaway). O amor como espinha dorsal das relações humanas, do sentido da vida e do filme. Esta resolução, apesar de romântica e aparentemente facilitista, transpira tudo menos sentimentalismo bacoco. Não deixa de ser curioso que a maior odisseia pelo espaço culmine numa descoberta interior, como que convocando a auto-reflexão do ser humano. Procuramos lá fora, encontramos cá dentro. A fé no amor faz, afinal, mais sentido do que a fé em tudo o resto. Em Interstellar, Deus nem faz parte da equação.

Love is the one thing we're capable of perceiving 
that transcends dimensions of time and space.

Fiel a si próprio, Nolan entrega-nos, uma vez mais, uma ambiciosa e desafiante combinação de entretenimento excitante e de matéria inteligente, mais ou menos explicativa, num produto capaz de suscitar múltiplas interpretações e o mais inesgotável debate filosófico. O arrojo é do pensamento e das ideias, mas também das interpretações do elenco renomado, dos efeitos digitais (que expandem o imaginário e as proporções da direcção artística, detalhista), da possante sonoplastia (que respeita os silêncios e os sussurros, mas também se impõe num crescendo ensurdecedor e ameaçador sempre que necessário) e da mística banda sonora de Hans Zimmer (que potencia a transcendência no culminar da sonoridade religiosa). Todos os elementos se aliam a bem do espectáculo e do clímax apoteótico.

Note-se, contudo, que o trabalho de câmera nunca é especialmente virtuoso - a maior parte dos planos são fixos e a sua composição é relativamente simples. A maioria dos malabarismos no espaço dá-se não pela acção da câmera (que prefere, como disse, ficar estática) mas pelas naves ou outros objectos que rodam ou se movimentam. A simplicidade é uma arte, menos é mais, mas também pode ser um defeito. E no caso de Nolan e de um filme como Interstellar é claro como o cineasta se apoia tão mais nos seus mais variados departamentos técnicos e artísticos, do que na arte de filmar propriamente dita. Creio que o filme poderia ascender ao patamar da excelência caso o realizador brilhasse mais. Assim brilha somente o autor, o autor visionário, o que também não é dizer pouco, ou não fosse Nolan o autor mais comercial do actual panorama cinematográfico norte-americano. Nolan sabe como alimentar uma legião febril de fãs, ávida do seu estilo e das suas histórias, tornando cada filme seu um retumbante êxito de bilheteiras. Quando as ideias dão dinheiro, um cineasta não tem como não estar nas graças dos grandes estúdios. E ter dinheiro para concretizar ideias audaciosas não é tão frequente quanto gostaríamos, pelo que se trata de um círculo vantajoso para todos os envolvidos. Dinheiro à parte, ganham o cinema e os espectadores.

Interstellar é, pois, puro magnetismo. Será certamente - arrisco e aposto dizer -, uma das mais fascinantes ficções científicas deste primeiro quarto de século. O tempo e só o tempo nos trará, ou não, a confirmação. Não obstante, há quem já a tenha - mas sabemos bem: o tempo...  o tempo é relativo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

DONNIE DARKO (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Donnie Darko
Realização: Richard Kelly
Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Mary McDonnell, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Holmes Osborne, Katharine Ross, Noah Wyle, James Duvall, Patience Cleveland, Beth Grant, Maggie Gyllenhaal

Versão do Realizador

Crítica
:

A VIAGEM NO TEMPO

The dreams in which I'm dying are the best I've ever had.

Não admira que num filme sobre viagens no tempo abundem os travellings - pairando sobre os espaços e sobre as personagens - e que a manipulação do tempo se exerça das mais variadas formas, nomeadamente através de time lapse e de recorrentes slow motion. É assim em Donnie Darko - um pequeno filme indie de baixo orçamento mas com um potencial de proporções cósmicas - provavelmente por isso e cinematograficamente falando, o maior fenómeno de culto da primeira década do século XXI. É, sob os mais variadíssimos prismas, um objecto absolutamente singular: é de 2001, mas a acção passa-se nos anos 80 e todo filme - à excepção dos avançados efeitos especiais que às tantas irrompem pelo ecrã - aparenta, efectivamente, ser um filme dos anos 80: tanto pela fotografia, como pelo guarda-roupa, pelos automóveis, pela cenografia ou pela decoração. Para o espectador, e logo à primeira vista, portanto, a viagem no tempo acontece - a nível visual. Mas também a nível sonoro, ou não avançasse a narrativa ao som das bandas da época (de Head Over Heels dos Tears for Fears a Notorious dos Duran Duran ou a Love Will Tear Us Apart dos Joy Division).

Donnie Darko é um filme sobre viagens no tempo, mas é sobretudo um filme sobre a adolescência - poderá não ter sido feito, exclusivamente, para adolescentes, mas reúne todos os temas que os seduzem e fascinam, permitindo a identificação imediata com o protagonista e marcando inevitavelmente a geração que cresceu com o filme - o que justifica, em grande parte, o facto de terem sido sobretudo os adolescentes a cultuar a obra, desde a sua estreia, elevando-a à notoriedade inegavelmente alcançada nos dias de hoje. Alheando-nos do fenómeno, descortinemos os méritos da obra.

Sobre a Adolescência

A adolescência é, por definição, a fase de transição da infância para a idade adulta, onde cada ser humano procura o seu lugar no mundo, indagando a existência. É um tempo de indefinição e insegurança, de reflexão e vivência interior, de comparação, de transformação, de revolta, desafio e choque de gerações e, por isso, de alguma alienação (que os próprios confundem, muitas vezes, com abandono e solidão). Donald Donnie Darko é, neste sentido, um puro adolescente. O facto de ser malcriado com os pais e de contestar a hipocrisia e fundamentalismo de alguns professores conservadores (como é o caso da púdica e irritante Kitty Farmer de Beth Grant, discípula do guru da moral e dos bons costumes Jim Cunningham, interpretado por Patrick Swayse, sempre a pregar ao mundo a sua filosofia de algibeira sobre o medo e o amor, alertando para os grandes perigos da adolescência: o álcool, as drogas e o sexo pré-marital e, afinal, um pedófilo encoberto) até que é enquadrável e identificável entre os comportamentos característicos da sua idade. Sofre de bullying como muitos dos seus pares, talvez domine a genealogia dos Estrunfes melhor do que eles.

As particularidades de Donnie Darko

Todavia, Donnie manifesta assustadoras particularidades: é sonâmbulo, tem problemas emocionais e sofre de surtos psicóticos que o levam à piromania, à delinquência e, inevitavelmente, à psicoterapia. Quando começa a alucinar com um demoníaco coelho gigante, de nome Frank, que o adverte do fim do mundo e que o leva a cometer os mais inesperados actos de vandalismo, o seu quadro clínico agrava-se, pintando-o como paranóico e próximo da esquizofrenia. A hipnose tentará decifrar o intricado quebra-cabeças que é a sua existência enquanto que nós, espectadores, completamente reféns da história e siderados pelo magnetismo das imagens, tentaremos seguir as pistas lançadas, conjugando-as na esperança de resolvermos, também nós, o puzzle. Não obstante, quanto mais informações somarmos, maior a nossa confusão, o nosso desnorte, e... o nosso fascínio. Em Jake Gyllenhaal reside a razão da nossa persistência e da nossa não-cedência à frustração de nos sentirmos, às tantas e afinal de contas, inteiramente perdidos. Não admira que Donnie Darko o tenha catapultado para o estrelato. Gyllenhaal é incrivelmente soberbo na sua interpretação, transbordando pelo olhar e pelo sorriso - e que olhar, e que sorriso - toda a complexidade interior da sua personagem: neles vemos o seu lado de menino, ternurento e inocente, e o seu lado malicioso, perturbado e terrível. Tão depressa nos colocamos na sua pele como na pele dos pais e dos que estão à sua volta - tão depressa somos o monstro como a vítima. Por isso, não desistimos de tentar entendê-lo: queremos acreditar na sua redenção... e, simultaneamente, sentindo o perigo que é e representa, prevemos-lhe o pior e mais trágico dos desfechos. O tempo urge e o apocalipse aproxima-se. Até lá, Donnie fará tudo o que é dito proibido, como que num ritual de afirmação: ingerirá bebidas alcoólicas, consumirá drogas e praticará sexo antes do casamento. A morte está perto e não vai morrer na ignorância.

I hope that when the world comes to an end, I can breathe a sigh of relief, because there will be so much to look forward to.

A família disfuncional

Muitas são as leituras plausíveis e possíveis, o que muito diz deste diamante artístico. A sátira às famílias da classe média americana dos anos 80 - cujo modelo ainda encontramos na actualidade e em demasia - é evidente: a família Darko é claramente uma família disfuncional, por mais que tendemos a encará-la como normalizada, se exceptuarmos o caso crasso de Donnie. O pai é um elemento passivo, que não manifesta a sua autoridade, que não impõe limites - antes se ri das asneiras dos filhos, sem os corrigir, sem os chamar à atenção, chegando muitas vezes a encorajá-los. O pai é como mais uma criança naquela casa. A mãe, sempre muito bem maquilhada e penteada, aparenta ter a família perfeita, mas é mais um ser passivo, que vê a vida passar-lhe à frente sem a agarrar: Donnie chama-a cabra e ela resigna-se. Amar um filho não é só sustentá-lo. É educá-lo. E educá-lo não é só ser permissivo. Isso é preguiça, irresponsabilidade e negligência. Amá-lo e educá-lo é ser activo na relação com ele, mimando-o mas também repreendendo-o - sempre que necessário. Saber dizer não, saber fazer cara feia, saber castigar. Só o equilíbrio destas duas forças resultará num indivíduo estruturado, mais seguro, mais forte e independente - não centrado em si próprio, mas aberto de si para o mundo. Pai e mãe não sabem o filho que têm, sabem o filho que imaginam. Essa ausência de essência na relação entre eles traduz-se numa carência afectiva que é, seguramente, a base da instabilidade emocional de Donnie. Lembro que Donnie e a irmã (Maggie Gyllenhaal, irmã real do protagonista) organizam uma rave de Halloween em casa, sem que os pais alguma vez sonhem! Donnie tem, nomeadamente, acesso à arma de fogo dos pais... Isto são tudo menos coisas de uma família funcional, dita normal. A frase da professora Karen de Drew Barrymore remata, a respeito e da melhor forma possível, este parágrafo: the children have to save themselves these days because the parents have no clue. 

O Anticristo e o Livre-Arbítrio

Frank, o coelho, representa a Morte e reflecte os abismais receios de Donnie, motivando o seu auto-questionamento. Quando Donnie lhe pergunta: Why are you wearing that stupid bunny suit?, a fantasia reposiciona-o: Why are you wearing that stupid man suit? Numa leitura mais gnóstica e esotérica, Frank - a voz que o leva pelo caminho do Mal - representa Satanás. Donnie Darko é o seu profeta e por isso se acha tão especial. É claro que a maioria dos adolescentes se acha especial, mas Donnie acha-se o Super-Homem, o Anticristo. A referência a Nietzsche é evidente. Não admira, ele tem visões que mais ninguém tem. Por isso, quando a enamorada Gretchen de Jena Malone lhe diz Donnie Darko. What the hell kind of name is that? It's like some sort of superhero or something, o rapaz responde-lhe, prontamente: What makes you think I'm not? 

Na aulas, lêem The Destructors de Graham Greene, onde se podem ler coisas como destruction is a form of creation. Tudo aquilo com que Donnie contacta tem sérias implicações e influências no seu imaginário e na sua psique e os livros são dos exemplos mais gritantes. Destruction is a form of creation é uma das frases chave. Se Deus foi o Criador e se a destruição também é um acto de criação, então Deus não é só um benfeitor, é também um agente de maldade. Destruir pode ser um acto divino. Vistas as coisas, perdem-se ou confundem-se as noções de Mal e Bem. E é esta interpretação que fundamenta e orienta a atitude de Donnie. Ele é como um Deus ou como o Diabo, não importa. Ele é especial. Inundar um balneário, espetar um machado numa estátua, grafitar o chão ou incendiar uma casa são actos divinos. Abalam a ordem, criam o caos... e do caos nasce qualquer coisa nova. Não admira que seja um ser desorientado, não tem referências: as que tem ou não se afirmam ou contradizem-se. Nas sessões com a terapeuta, o papel de Deus na existência é discutido. As conclusões são para além de agnósticas, tocando o ateísmo. Não deixa de ser simbólico, por isso, que Donnie vá ao cinema assistir a Evil Dead e que, na mesma sala, se exiba A Última Tentação de Cristo. O Cristo que se questiona.

Donnie serve Frank, a tentação do Mal, até determinado ponto: no seu incessante questionamento, luta por desvincular-se e por encontrar o seu lugar. Donnie Darko é, pois, a luta de um adolescente contra os seus demónios interiores - acedendo finalmente à sua cellardoor, mergulha no seu mais profundo inconsciente. O resultado é o triunfo do seu livre-arbítrio sobre quaisquer noções morais. No final, perante o mal praticado, perante as perdas e as consequências do seu caminho, das suas decisões e das suas acções, Donnie julga-se e toma consciência. Felizmente, pode voltar atrás. Se ser um Super-Homem o levou a matar e a destruir a sua família, a perder a sua namorada... numa segunda oportunidade, Donnie optará por evitar tudo isso, por ser simplesmente o miúdo que morreu com a insólita queda do motor do avião. Daí o acto estóico, corajoso e finalmente heróico. Pela sua própria morte salva o seu mundo - ou o mundo dos seus. Para percebermos melhor estes decisivos instantes finais do filme, leiam-se os parágrafos que se seguem.

O Universo Tangente

O filme abre e Donnie Darko acorda no cimo de um monte. Pode acordar para um pesadelo bizarro e a acção de Donnie Darko ser irreal, onírica; o que não estranharíamos, dado o surrealismo dos acontecimentos. Não obstante, várias perguntas ficariam sem resposta, várias peças ficariam por encaixar no puzzle. Para compreendermos a amplitude da proposta e aproximarmo-nos da sua plenitude, devemos entrar no espectro da ficção e da especulação científica, estando aberto para teorias que desafiam as leis da física, na sua lógica muito particular.

O único acontecimento inexplicável da obra é a queda da turbina do avião sobre o quarto de Donnie. Este acontecimento insólito é o causador de uma anomalia na quarta dimensão, o que leva à criação de um universo paralelo, também conhecido como universo tangente. O livro A Filosofia da Viagem no Tempo, da professora Roberta Sparrow (agora conhecida como a Avó Morte, a velhota enlouquecida e tão despenteada que nem o autor da Teoria da Relatividade, Albert Einstein, que passa a vida a abrir o marco do correio, na esperança de encontrar uma carta que nunca chega) faz referência a um objecto metálico como causador do evento. Denomina-o artefacto. Esse objecto é a réplica de um já existente no universo original - chamemo-lo primário. Dado que não é possível 2 objectos iguais coexistirem no mesmo universo, a realidade alternativa é desencadeada e terá uma duração limitada: neste caso, 28 days, 6 hours, 42 minutes, 12 seconds. That is when the world will end. 

Na realidade copiada (passível de distorção, como num sonho) e numa luta contra o tempo (antes que este segundo universo se fine), há uma pessoa que é escolhida para expelir o artefacto e, deste modo, evitar que no momento do fim do mundo tangente e do regresso às origens, se possa criar um eventual buraco negro, capaz de engolir e destruir, irreversivelmente, o universo primário. É o que diz A Filosofia da Viagem no Tempo. Quem escolhe o denominado transmissor vivo não se sabe - pode ser Deus ou uma entidade abstracta. Daí a importância da discussão religiosa no filme. O certo é que é Donnie Darko o escolhido, o transmissor vivo, a quem lhe são conferidos, efectivamente, super poderes: uma força sobrenatural (capaz de o fazer cravar um machado na impenetrabilidade de uma estátua de bronze), domínio de elementos primordiais como a água e o fogo (lembramos a inundação na escola, o incêndio da casa de Jim Cunningham e as visões daquela espécie de vermes de água que se extraem dos corpos e antecedem cada um dos movimentos das personagens) e a telecinésia (que o habilita a feitos extraordinários pelo poder da mente, nomeadamente viajar no tempo). 

Todas as pessoas que fazem parte do dia-a-dia do escolhido no universo primário farão parte do dia-a-dia do escolhido no universo tangente. Aquelas que não vierem a morrer no universo tangente, serão os denominados manipulados vivos, responsáveis por ajudar Donnie a concretizar a salvação. É o caso da inspiradora professora Karen ou da psicóloga, sobre todas as outras. As que vierem a morrer no universo tangente não morrerão no universo primário, mas serão agentes especiais na acção desta segunda realidade: serão os mortos manipulados, capazes de viajar na linha do tempo do universo tangente, ajudando igualmente o escolhido na sua missão. Os manipulados mortos poderão manifestar-se de forma mais ou menos sinistra, de acordo com o impacto desejado no transmissor. Os manipulados mortos são: a mãe e a irmã mais nova (ambas sucumbirão provavelmente à queda do avião), a namorada Gretchen e Frank, sendo que Frank é o único com aparência macabra, muito por conta da fantasia que traz vestida no momento da sua morte. Com esta leitura, a personagem Frank ganha toda uma nova dimensão: passa da representação da Morte e do Mal para um enviado especial e determinante cúmplice na salvação do mundo, jogando com a psique e com os medos de Donnie com vista a alcançar o seu objectivo. Por isso apareceu a Donnie antes da queda da turbina no universo paralelo, salvando-o da morte certa e levando-o pelo sonambulismo até ao campo de golfe. 

No final, Donnie, ciente da sua missão e enfim decidido ao auto-sacrifício, usa o poder da mente para expelir o artefacto. Chega a hora do Juízo Final. O regresso ao universo primário e ao tempo presente faz-se pela edição, que monta as cenas de trás para a frente: a acção no universo tangente aparece-nos como uma viagem ao passado; ainda que, como sabemos, alternativo. A narração que acompanha o momento é de Donnie: o jovem lê a carta que escreve a Roberta Sparrow. Por isso, depreendemos: a carta que a idosa sempre esperou no universo tangente foi a carta de Donnie, a quem um dia alertou: every creature on this Earth dies alone. É como se a velha, outrora freira, também um dia tivesse viajado no tempo e a um universo tangente e tivesse de lá regressado mais sábia e capaz de escrever um livro tão visionário quanto A Filosofia da Viagem no Tempo, sendo desde então considerada louca e tendo finalmente acabado por enlouquecer. Sim, isso faria todo o sentido. 

A coda do filme mostra-nos os despertares, ao som da icónica e para sempre ligada ao filme Mad World, de Gary Jules: os manipulados, vivos ou mortos, agora de volta ao universo original, sãos e salvos graças à acção de Donnie. Paira no ar o mistério da inexplicabilidade, quando interiormente estas personagens parecem ter resquícios de memória do que tão intensamente experienciaram no universo tangentePara todos eles, agora e porventura, a experiência - que também nós assistimos e vivenciámos - foi como um sonho extremamente lúcido, que não conseguem provar. Note-se Frank, que absortamente leva a mão ao olho. Note-se a troca de olhares e acenos entre Gretchen e a mãe de Donnie. Note-se o aceno final de uma criança vizinha, com que o filme desvanece, derradeiramente, a negro. Supostamente, a criança acena também à mãe de Donnie, como Gretchen, com quem partilha o plano. Mas Gretchen e o miúdo não olham para o mesmo ponto. O miúdo olha directamente para a câmera e o aceno é para nós. É como uma representação do próprio Richard Kelly, a piscar-nos o olho.

Estas respostas encontram-se fora de Donnie Darko e encontram-nas os espectadores mais curiosos e interessados; como será o caso de quem lê esta dissertação. O filme jamais se explica e, por tudo isto, é tão complexo, tão intrincado. Para alguns, a ausência de explicação é uma falha e um acto de deslealdade por parte do realizador-argumentista, o que desprestigia imediatamente o filme. Não para mim. Já mais diria tal coisa de um filme tão inteligente.

A Versão do Realizador

Na minha opinião, a Versão do Realizador - que o próprio assume mais como uma versão alongada - é, com os seus vinte minutos de cenas adicionais e complementares, uma versão claramente superior e que veio enriquecer as personagens, nomeadamente a professora Karen, a terapeuta Lilian de Katharine Ross e o pai Eddie de Holmes Osborne, e variadíssimos pontos da história, nomeadamente a questão do ateísmo/agnosticismo de Donnie e toda a problemática adjacente do papel de Deus na existência e na acção. Richard Kelly mexeu ainda na banda sonora, adicionou efeitos digitais e visuais e o projecto ficou mais sólido e consistente e ainda mais denso e atmosférico, ainda mais introspectivo. Ainda mais estranho.

Para muitos, Donnie Darko é um filme complicadíssimo, simplesmente por que não faz ou não tem qualquer sentido. Para outros, é um filme indecifrável; multiplicam-se as teorias e as leituras na busca do seu entendimento. Para alguns, desmascarada a lógica ou sentida a sua verdade, é um filme de génio. O certo é que, a cada visualização, abrem-se - sempre - novos portais para novos entendimentos. Donnie Darko revela-se, portanto, inesgotável. É possível que venha a transcender o próprio tempo... Não me admirava nada. Esperemos pelo futuro para confirmá-lo.

sexta-feira, 24 de março de 2017

MAD MAX - ESTRADA DA FÚRIA (2015)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Mad Max - Fury Road
Realização: George Miller
Principais Actores: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Zoe Kravitz, Rosie Huntington-Whiteley, Courtney Eaton, Riley Keough, Abbey Lee, Nathan Jones, Josh Helman, John Howard, Richard Carter, Iota, Angus Sampson, Megan Gale, Melissa Jaffer, Melita Jurisic, Gillian Jones, Jennifer Hagan

Crítica:

APOCALIPSE NO DESERTO

 Oh, what a day... what a lovely day!

Se vai assistir a Mad Max - Estrada da Fúria, sente-se confortavelmente e respire fundo. Se possível, beba um copo de água; esta não tardará a escassear. Vai ser o raio de uma viagem.

O sol, abrasador, doura o deserto escaldante. Rufam os tambores, anunciando o ritmo do que está por vir. Grita, em chamas, a guitarra de um fantasma vermelho, completamente louco, do alto de um electrizante camião, artilhado com poderosas e ensurdecedoras colunas de som. Uma caravana de sucata prepara-se para bater quilómetros de estrada. Os depósitos estão cheios, os motores fervilham, de tão quentes. Pressionada a ignição e pedais a fundo, there's no going back: explode a testosterona e a adrenalina numa das mais alucinantes e impressionantes aventuras cinematográficas de que há memória. Uma perseguição infernal e impiedosa, com acção non-stop, verdadeiramente de cortar a respiração, engenhosamente concebida pela encenação e pelas mentes criativas da equipa, onde, a todo o instante, brilham arriscadas coreografias de duplos pelos ares, chocam viaturas e roçam carroçarias que faíscam em ira e rebentam em fogo. A câmera leva-nos, sem medo ou hesitação, para o meio da acção - sustemos a respiração e não conseguimos desviar o olhar da tela, não vá voar um metálico e fatal volante, disparado à nossa cara. Chovem balas, lanças e arpões, portas e o que mais estiver à mão, numa desenfreada luta pela sobrevivência; corpo a corpo, sempre que necessário. Esmagado o acelerador, velocidade furiosa, máxima propulsão. Uma amálgama de ferro-velho modificado, com rodas de todos os tamanhos, rasga a paisagem de cólera e suor: das planícies de areia silenciosa aos desfiladeiros de motoqueiros saltitões, que ansiosamente esperam pela máquina de guerra com dez mil litros de guzolina.

George Miller desafia, decididamente, os limites da acção e o nosso fôlego. As sequências, ultra-violentas, acontecem rapidamente, impetuosamente, mas são-nos inteiramente perceptíveis. Os efeitos digitais, sofisticadíssimos, estão lá mas mal se notam, ao serviço da beleza, da narrativa e da visão pretendida, profundamente estilizada. É ver para crer. Mad Max - Estrada da Fúria é uma possante lição de cinema, para todos aqueles que tentam, nesta era de blockbusters ocos e simplistas, ser inovadores na imensa confusão visual que copiam, que tanto tentam disfarçar e a que chamam acção. Este Mad Max não é senão Miller, completamente revitalizado, de regresso ao universo e à trilogia que criou nos saudosos anos oitenta (Mel Gibson era o Max de então), altura em que desbravou terreno nos meandros da ficção pós-apocalíptica. Mas este Mad Max é também Miller, genialmente inspirado, ao volante da História do género acção. Haverá sempre um antes e um depois deste filme. Deixará mossa; perdão, deixará marca. E essa influência já se nota*.

Se pensávamos que Mad Max 2 - O Guerreiro da Estrada (1981) havia superado o primeiro tomo, cá entre nós conhecido com o subtítulo As Motos da Morte, o que dizer agora deste quarto pedaço? Mas que pedaço! Mad Max - Estrada da Fúria poderá funcionar, é certo, como um capítulo à parte. Miller teve essa inteligência, considerando as novas gerações que, por este ou aquele motivo, possam não conhecer ainda os capítulos anteriores. Deu-lhe, inclusive, um novo protagonista - o brilhante embora circunspecto Tom Hardy. No entanto, é interessante regressar à trilogia original e perspectivar a evolução da distopia e a transformação da paisagem australiana, ao longo do tempo. Na Estrada da Fúria, o horizonte é árido e despovoado. Outrora, lutara-se pela gasolina, o combustível dos veículos, carros ou motas - os cavalos de guerra. Agora, batalha-se pela água, o combustível essencial à vida humana. O último reduto da humanidade habita a Cidadela e vive na miséria. O tirano, assustador e corpulento embora cadavérico Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne) e as elites de Valhalla controlam a água e, por isso, controlam a humanidade. Sempre que abrem, com desdém, do alto dos penhascos e da sua superioridade, as enormes torneiras, é ver a multidão a correr para a cascata, de sorriso no rosto, recebendo, entre o desperdício, a dádiva de Deus. Do not, my friends, become addicted to water - adverte o veterano - It will take hold of you and you will resent its absence. Certo dia, Furiosa (carismático desempenho de Charlize Theron) rapta as deslumbrantes e parideiras mulheres de Immortan Joe e desvia-se deserto adentro, procurando a liberdade e a salvação. Sabe da existência do Lugar Verde, um oásis no meio da desolação, onde abunda a água, a vegetação e a esperança. É esse o seu destino. Mas os senhores da Cidadela não perdoarão tamanha traição e não tardarão a persegui-las. E de que forma! Aos fanáticos Kamikloucos, Rapazes da Guerra - dos quais se destaca o fulcral Nux (Nicholas Hoult) -, juntar-se-lhes-ão os furões da Cidade de Guzolina, liderados pelo gordo canibal de John Howard, e os soldados da Quinta das Balas, encabeçados pelo não-menos tresloucado major de Richard Carter. Todos grotescos, saídos aparentemente de um filme de terror ou de um concerto de heavy metal. Algures na proa metálica de um dos carros, acorrentado, o solitário Max, saco de sangue de Nux, atormentado por traumas, memórias e envolvido sem querer na mortal montanha-russa das tribos, que avança a todo o gás, imparável e sem sinais de abrandamento.

A obra tem 120 minutos que passam num instante, tal é o seu impulso e pujança, mas igualmente a sua extraordinária economia narrativa. Não tendo um argumento propriamente complexo, é claro que não se demora em informação inconsequente ou repetitiva, doseando-a com notável equilíbrio entre as sequências mais dinâmicas e enérgicas. Tanto para o avanço da história como para o triunfo da excitante acção é determinante o sentido de oportunidade da montagem, a cargo de Margaret Sixel. Mas também a música de Junkie XL e o vívido e impactante trabalho de sonoplastia. A cada frame, Estrada da Fúria revela-se, ainda ou sobretudo, de um primor artístico raro e por demais elevado. A saturação das cores e a alta definição e limpidez da imagem (fotografia de John Seale) são, em pleno dia, como colírio para os olhos e arrebatam-nos com o seu excelso esplendor. Na noite azul e monocromática, perante o céu estrelado ou perante o perigoso pântano, é como que invocado o expressionismo alemão. Que cena incrível e bem iluminada, essa, em que Max, Nux, Furiosa, as mulheres e a árvore morta se esforçam por tirar da lama o pesado camião. Só falta a cena ser silenciosa. Bem sabemos que Miller pretendia, inicialmente, lançar este seu filme a preto-e-branco. E chegou a concretizá-lo mais tarde, graças ao home cinema, e que belíssimo filme será, certamente - ainda não assisti a essa versão, mas não acredito que vá alguma vez preferi-la às incomensuráveis potencialidades alcançadas pela cor nesta inesquecível versão dos cinemas. Os figurinos, os penteados e a caracterização são sublimes, assim como todos os apetrechos e acessórios que completam a cenografia e que conferem, desse modo, robustez e dimensão à fantasia. As cenas memoráveis são incontáveis... a perseguição em plena tempestade - fustigada por relâmpagos e tornados de areia, vento e fogo - é, em tudo, monumental. Quando os fugitivos encontram as Vuvalini e a desilusão, a perseguição cessa... e, nesse momento, tudo o que mais queríamos era que voltassem para trás, enfrentassem novamente as hordas inimigas e regressássemos à ferocidade das cenas de acção. Felizmente, Miller imaginou o nosso desejo. E jamais substimou o poder das mulheres: o estrogénio combaterá os grunhidos e a buçalidade dos homens, com assaz astúcia e desenvoltura.

Considerá-lo um dos melhores filmes de 2015 é dizer pouco sobre Mad Max - Estrada da Fúria. Estranho, o pressentimento que nos assola, e uma determinada certeza, de que estamos perante um filme superior. A prudência segreda-me para não o afirmar como a obra-prima que o meu coração reclama. Mas o tempo o dirá. O tempo, seguramente, o dirá.

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(*) Refiro-me, por exemplo, à acção estilizada entre a saturação cromática de Kong: Ilha da Caveira (2017), de Jordan Vogt-Roberts. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

GRAVIDADE (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: Gravity
Realização: Alfonso Cuarón
Principais Actores: Sandra Bullock, George Clooney

Crítica:

SOZINHA NO ESPAÇO 

 It'll be one hell of a ride. 

Ainda o Homem não tinha pisado a lua e já o cinema explorava o espaço. Gerações de miúdos cresceram desde então, sonhando tornar-se astronautas. Depois de Gravidade, dificilmente acontecerá o mesmo.

Alfonso Cuarón concretiza uma experiência sem precedentes, bem mais agoniante do que a proporcionada por muitos filmes de terror. Uma vertiginosa e imparável montanha-russa - tanto para as personagens como para os espectadores. Abalroados por uma tempestade de destroços, somos brutalmente impelidos, sem termos onde nos agarrar. Rodamos incessantemente, ao sabor do impacto e do vento espacial, sem qualquer referência do que está em cima e do que está em baixo: no espaço, isso é indiferente. A câmera acompanha-nos em reviravoltas de 360º que não conseguimos controlar. Precipita-se, descompassada, a respiração no interior do capacete, queimando o oxigénio essencial. Na luta contra o tempo, apodera-se o desnorte, confundem-se a luz e a escuridão. Os takes demoram-se e, a cada respirar, as coisas tendem a agravar-se sempre, como se ainda fosse possível piorarem. Tudo isto, juntamente com a estranheza da sonoplastia, causa-nos náuseas. Imploramos por um alívio, mas poucos serão os instantes minimamente agradáveis ao longo dos noventa minutos de duração. Cuarón deixa-nos à deriva no espaço, lutando pela sobrevivência, desafiando os nossos sentidos e a nossa força. I hate space! desabafa ao vazio e ao grande silêncio, às tantas, a cosmonauta de Bullock, Ryan Stone. E como nos revemos nas suas palavras. In space no one can hear you scream, já dizia a tagline de Alien, e tinha toda a razão. No entanto e paradoxalmente, como sabe bem voltar ao filme, de quando em vez, e ao seu puro magnetismo. Ao filme, entenda-se - não ao espaço.

Mas o paradoxo continua: mergulhados na imensidão, sentimo-nos tão ínfimos e insignificantes como se estivéssemos prestes a ser devorados, num piscar de olhos. O batimento cardíaco acelera, aquece-nos o sangue, um pouco por todo o corpo. Cresce uma sensação fóbica que se nos apodera e nos conduz ao pânico. Ao mesmo tempo e perante o espaço aberto, sentimo-nos confinados, enclausurados, sufocados... Somos um estranho fora do nosso meio natural, como que abandonados nas profundezas do oceano mas na escala da infinitude. O 3D - e como sou céptico da sua utilidade - possibilita, neste caso, um nível de imersão absolutamente incrível e estonteante. Facto que seria impossível, é claro, sem a determinante credibilidade dos efeitos digitais, que são 80% do filme. A maior parte do tempo nem damos por eles, a não ser que pensemos na impossibilidade de rodar o filme, efectivamente, no espaço. De resto estamos no espaço, presos aos malabarismos da câmera, ao esplendor visual e ao intimismo da situação, tão fisica e exigentemente interpretada por Sandra Bullock. George Clooney está lá para a contracena, está bem, mas podia lá estar outro qualquer. Mas tornando ao triunfo tecnológico: a equipa de Tim Webber, ao fim e ao cabo, acaba por ser o pintor de serviço, preenchendo a maior parte dos quadros com apuro estético e científico, seja noite ou seja dia no planeta de fundo: o planeta Terra. A própria NASA foi consultora científica do filme. Aliado está o - tão difícil de imaginar - trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki, na preparação prévia dos enquadramentos e dos jogos de câmera e do pormenorizado tratamento da iluminação, que conjugada com os efeitos visuais tão decisivamente potenciou o realismo de toda a experiência. Foram quatro anos e meio de trabalho de equipa e de muita dedicação para atingir os resultados pretendidos.

O argumento relativamente simples de Gravidade é daqueles que, nas mãos de outro realizador, resultaria num filme de sobrevivência banalíssimo. A câmera, o olhar visionário, a permanente alternância entre o prisma mais panorâmico e a proximidade do close-up, a atenção dada à performance de Bullock, os simbolismos... todos estes ingredientes se mostram imprescindíveis para a singularidade da proposta, que tão poucas cedências aparenta fazer às condicionantes científicas e gravitacionais. Na órbita da Terra e com gravidade zero ou microgravidade, com mudanças drásticas de temperatura e com o perigo iminente de uma desacoplagem mal sucedida, de um incêncio fatal ou de um afastamento involuntário e irreversível... Gravidade é um feito e tanto. Se por acaso, em algum momento, viermos a respirar de alívio, até pensamos que é mentira, tal foi o pesadelo. Na história de Stone (provavelmente simbólico, o nome) fica exposta e representada toda a fragilidade humana e, simultaneamente, toda a misteriosa força e instinto de sobrevivência que nos leva a lutar na solidão quando já estamos, aparentemente, condenados - como se fosse possível o renascimento (metáfora à qual, aliás, Cuarón não resiste, desde a simulação da posição fetal ao acto da personagem, às tantas, reaprender a andar).

Por tudo isto, Gravidade tem lugar assegurado entre os maiores clássicos da ficção científica.

terça-feira, 14 de março de 2017

DEPOIS DA TERRA (2013)

PONTUAÇÃO: BOM
★★ 
Título Original: After Earth
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Will Smith, Jaden Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz, Glenn Morshower, David Denman, Lincoln Lewis, Jaden Martin, Jim Gunter, Monika Jolly, Kristofer Hivju

Crítica:

A URSA E O FANTASMA 

 Danger is very real, but fear is a choice. 

Os ódios de estimação conduzem, na generalidade dos casos, a uma cegueira triste. Plenos, tantas vezes, de inconsciência ou irreflectidos na urgente necessidade de pertença, condicionam visões próprias, silenciam vozes singulares e autónomas, entregando um julgamento fácil e por demais condenatório. M. Night Shyamalan tornou-se - ou tornaram-no -, por estes dias, um alvo fácil, um bode expiatório para uma legião de haters que, a cada filme, destila a sua frustração. Procuram, em cada obra sua, uma fórmula e um padrão, um twist que ditaram obrigatório, um traço autoral hegemónico. Compreendo, em certa medida, que o chamem vendido por abraçar a aventura fantástica de O Último Airbender. Compreendo e concordo, de igual forma, que um filme como O Acontecimento não tenha o fulgor e virtuosismo d'O Sexto Sentido ou d'A Vila. Mas negar as qualidades e méritos de tais obras, somente pela assinatura, é ridículo. O mesmo acontece, a meu ver, com Depois da Terra, um conto moral visualmente deslumbrante, disfarçado de blockbuster de ficção científica*.

No futuro, a Terra já não é a nossa casa. A acção e poluição humana levaram a alterações climáticas drásticas, que extinguiram todas as possibilidades de vida. Mais de mil anos após a última evacuação, a espécie habita e prospera em Nova Prime, uma colónia num outro planeta, assombrada agora pela existência das ursas - assustadores monstros alienígenas, predadores volumosos e de saliva corrosiva, uma mistura do xenomorfo de Alien e da Shelob d'O Senhor dos Anéis, cegos embora capazes de detectar as suas presas pelas feromonas do medo, presentes no ar. Quando a nave em que o general Cypher Raige (Will Smith), o filho Kitai (Jaden Smith) e a tripulação seguia se vê abalroada por uma tempestade de asteróides, arriscam um salto na dimensão cósmica e acabam por despenhar-se num planeta misterioso. Apenas pai e filho sobrevivem e, quem sabe, uma ursa que a nave transportava. Cypher está gravemente ferido e incapaz de andar, o emissor para pedir ajuda intergaláctica está irreversivelmente avariado e para chegar a outro emissor, provavelmente entre os destroços da nave espalhados pela selva, o jovem e cobarde Kitai terá que, sozinho, atravessar cerca de cem quilómetros de perigos e desconhecido: everything on this planet has evolved to kill humans - revela-lhe o pai - Do you know where we are? (...) This is Earth.

O sensível e emotivo rapaz - que sempre se esforçou para ser como o pai, quiçá procurando a sua aprovação e o seu amor - enfrentará uma dura e imprevisível prova de sobrevivência, lindando com uma atmosfera asfixiante e escassa em oxigénio, uma paisagem que congela em minutos com o cair da noite, uma selva densa, habitada por hienas e condores gigantes, ciosos das suas crias, macacos ferozes e vorazes tigres dentes-de-sabre, cobras planadoras e sanguessugas tóxicas e venenosas, capazes de o paralisar ou matar em instantes. Para alguém que, nos treinos militares, sempre foi melhor na teoria do que no terreno, o desafio avizinha-se hercúleo. Ainda para mais se pensarmos que é filho de um guerreiro estóico e lendário: Cypher consegue como que tornar-se invisível perante as ursas, alheando-se dos medos e atingindo um notável controlo e equilíbrio emocional: consegue, portanto, tornar-se um fantasma, capaz de desferir os mais fatais golpes na criatura atacante. A sombra do nome e da fama do pai é um fardo pesado. Mas mais. Um episódio trágico, revelado em flashbacks ao longo da narrativa, justificará o temor maior ao monstro, a fragilidade de Kitai, a frieza do pai e mesmo a desconexão emocional entre os dois.

Da criatividade e ousadia dos cenários futurísticos e dos artefactos humanos mostrados (notem-se as construções de Nova Prime ou o esquelético interior da nave espacial, qual raia num oceano de astros - feitos artísticos de Robert W. Joseph, Naaman Marshall, Dean Wolcott e Rosemary Brandenburg), passamos para o âmago da natureza, no seu verde imperioso. A fotografia de Peter Suschitzky maravilha-nos a cada plano, com paisagens de tirar o fôlego. Seguindo as orientações do pai, cuja voz e guarda está sempre presente por meio da mais avançada tecnologia, Kitai (que, em japonês, poderá significar esperança) avança na aventura e nós avançamos com ele, almejando que seja bem sucedido e que não desiluda o progenitor, salvando-os da morte. É claro que, às tantas, as coisas se complicam, a comunicação falha e Kitai fica por sua própria conta e risco. Não deixa de ser curioso que só então, livre da protecção do pai, consiga cumprir o seu potencial e fazer frente aos perigos, destemidamente. Finalmente, tem asas para voar.

Fear is not real. The only place that fear can exist is in our thoughts of the future. It is a product of our imagination, causing us to fear things that do not at present and may not ever exist. That is near insanity, Kitai. Do not misunderstand me, danger is very real, but fear is a choice.

Depois da Terra é, por tudo isto, uma história de superação, de superação dos medos: medos que são importantes como prevenção, mas que em demasia nos castram e nos incapacitam. É importante transformá-los numa arma, capaz de combater e vencer os obstáculos que se nos impõem. Mas o filme de Shyamalan é também uma história de amor: Kitai compreende, perante o sacrifício e profundo gesto de gratidão do condor, o poderosíssimo e incondicional amor de um progenitor pelas suas crias. O que o rapaz empreende, daí em diante, em resposta, não é senão um sacrifício de equiparáveis proporções. O duelo final com a ursa, entre a poeira e a lava daquele ameaçador vulcão, resulta num clímax de acção excitante e pura.

Que digam o que quiserem de Depois da Terra. Não é um filme perfeito - maior expressão e dimensão na interpretação de Will Smith só beneficiaria a obra e sabe quem anda por cá há algum tempo que alguns efeitos especiais não envelhecerão tão bem quanto se gostaria. Todavia, não é tão-pouco um filme que se perca na sua ambição desmedida. É simples, bonito e eficaz. E, no seu equilíbrio, não envergonha ninguém. Talvez alguns não vejam tudo isto e o considerem um fantasma. Que seja. As ursas, na sua cegueira, não vêm fantasmas. Mas eles existem e valem a pena.

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(*) Palavras de Matt Zoller Seitz na sua crítica ao filme. Cf. aqui

domingo, 12 de março de 2017

SNOWPIERCER - O EXPRESSO DO AMANHÃ (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: Snowpiercer
Realização: Joon-ho Bong
Principais Actores: Chris Evans, Kang-ho Song, Tilda Swinton, Ed Harris, John Hurt, Jamie Bell, Octavia Spencer, Ah-sung Ko, Alison Pill, Luke Pasqualino, Ewen Bremner, Kenny Doughty, Steve Park, Vlad Ivanov, Tómas Lemarquis, Adnan Haskovic, Clark Middleton, Paul Lazar

Crítica:

DISTOPIA DE CLASSES 

 When the foot seeks the place of the head, 
the sacred line is crossed.

A filosofia pode ser acessível e a alegoria de Snowpiercer - O Expresso do Amanhã é a prova disso. Se o comboio é o mundo, os passageiros são a Humanidade. Se a Humanidade e as suas sociedades se dividem e organizam por classes, o comboio é a soma das suas múltiplas carruagens. Cada carruagem representa uma classe. Da cabeça à cauda, da locomotiva aos últimos vagões, temos a classe alta, a média e os miseráveis. Cada uma no seu lugar, mantendo a ordem e o equilíbrio na viagem da vida: os mais ricos como mais fortes e os mais pobres como mais fracos. Os mais poderosos vivem às custas dos outros, instigando neles o sentimento de revolta e a urgência da rebelião. Em cada ano, o expresso dá a volta ao mundo. Há dezassete anos que é assim, desde que o químico CW-7, lançado na atmosfera para travar o aquecimento global, congelou e extinguiu toda a vida na Terra. Os únicos sobreviventes são aqueles passageiros, entregues à sorte de um amanhã improvável. Para Karl Marx - filósofo, sociólogo e revolucionário socialista do século XIX, um dos pais do pensamento moderno - o progresso das sociedades humanas concretizava-se pela luta de classes. Pois bem, Snowpiercer, no seu imaginário futurístico e distópico, metaforiza essa luta. A fagulha que acenderá o rastilho e alimentará o fogo da revolução não tardará a brilhar, derretendo o gelo e desencadeando, de forma imparável e irreversível, a acção que poderá - para sempre - mudar o destino da Humanidade.

Adaptando a novela gráfica francesa Le Transpercene, o sul-coreano Joon-ho Bong apostou desde logo na internacionalização do projecto, reunindo um elenco maioritariamente proveniente do mainstream de Hollywood (Chris Evans, Tilda Swinton, Ed Harris, John Hurt, Jamie Bell e Octavia Spencer) e, por conseguinte, adoptando a língua inglesa como idioma predominante. Mas entre os actores constam também Kang-ho Song e Ah-sung Ko, entre outros tantos rostos do mundo. Snowpiercer é, efectivamente, um filme à escala global. Nele acompanhamos o líder Curtis Everett (Evans) na insurreição da classe baixa contra as elites que, arrogantes e impunes, subjugam os pobres coitados por meio da mentira e do medo. O filme é, todo ele, um grito de revolta e uma reclamação de justiça. Só não é mais claustrofóbico porque, com a explosão do motim, o seu mundo se expande a cada descoberta, a cada porta que arrombam, a cada inimigo que ferem e vencem. As trevas, as sombras, a sujidade, os insectos, o ambiente fétido e lúgubre dão lugar a carruagens limpas, com janelas, cada vez mais prolíficas em cores, vida e diversidade. Deparar-se-ão com aquários, estufas de frutas e jardins, oficinas e centros de controlo, dentistas e alfaiates, cabeleireiros e restaurantes, piscinas e saunas, escolas, discotecas... O espelho e a memória, o modus operandi e o microcosmos dos costumes das sociedades do século XXI... num único comboio, qual Arca de Noé invertida: ou seja, que em vez de abarcar e salvar da intempérie os puros e inocentes de encontro a um novo começo, transporta o vírus e a doença, os últimos sobreviventes de uma espécie consumida pelo vício, condenada à auto-destruição, que já conseguiu erradicar a vida de um planeta inteiro e que persiste em não aprender com os próprios erros.

A narrativa linear avança sem grandes ousadias, cronologicamente e de carruagem em carruagem, assim como avançamos num jogo, de nível em nível. Por isso mesmo, o ritmo não estagna, antes se intensifica. Wilford, criador e proprietário do comboio, nunca foi visto. Qual estadista totalitário, é cultuado como um deus benfeitor. Os seus discípulos, entre os quais se destaca a burocrata - e caricata - Mason (assombroso desempenho de Swinton, transfigurada por tiques, expressões e próteses), propagam a doutrina e o imaginário, referindo-se a Wilford como o senhor da Locomotiva Sagrada, a quem todos devem a vida. Acontece que a classe baixa não vive, sobrevive. Alimenta-se só e apenas de gelatinosas barras proteicas, cuja origem desconhece, amontoa-se em beliches, são-lhe retiradas crianças sabe-se lá para que fins e levados familiares que jamais tornará a ver, é severamente castigada por isto e por aquilo, é escrava sem direito à palavra ou à indignação. Se, com razão, se revoltam os miseráveis, são logo fuzilados ou levados a enfiar os braços para fora do comboio, ficando imediatamente com os membros congelados, prontos a serem quebrados aos pedaços por impetuosas marteladas. As palavras de Mason são, a respeito, por demais esclarecedoras e intimidatórias:


Order is the barrier that holds back the flood of death. We must all of us on this train of life remain in our allotted station. We must each of us occupy our preordained particular position. Would you wear a shoe on your head? Of course you wouldn't wear a shoe on your head. A shoe doesn't belong on your head. A shoe belongs on your foot. A hat belongs on your head. I am a hat. You are a shoe. I belong on the head. You belong on the foot. (...) Eternal order is prescribed by the sacred engine: all things flow from the sacred engine, all things in their place, all passengers in their section, all water flowing. All heat rising, pays homage to the sacred engine, in its own particular preordained position. So it is. Now, as in the beginning, I belong to the front. You belong to the tail. (...) Know your place. Keep your place. Be a shoe. 

E pensar que o papel de Swinton era, originalmente, de um homem. Hoje, nem conseguiríamos imaginar o filme sem ela. Foi a própria actriz que convenceu o realizador a ficar com aquele que é, certamente, um dos melhores papéis da sua carreira. Na cauda, o misterioso ancião de John Hurt, Gilliam, defensor dos desprivilegiados. Na cabeça, o carismático e manipulador Wilford de Ed Harris. E pelo meio os notáveis desempenhos de Song e Ko como Minsoo e Yona, pai e filha, adictos do alucinogénico e inflamável kromole, cuja utilidade e importância jamais deverá ser substimada. São eles os conhecedores da segurança do comboio, os desbloqueadores das portas, que levam o confronto dos desfavorecidos adiante. Entre eles a cambaleante Tanya de Spencer, a quem o filho foi retirado, e o jovem e corajoso Edgar de Bell, que vê na liderança de Curtis a mais profunda inspiração. É por personagens tão bem conseguidas que nos prendemos imediatamente à história e aos acontecimentos e torcemos pelo sucesso da investida.

A acção, mais ou menos estilizada, é uma constante. A câmera de Bong, ainda que confinada à clausura das carruagens, serve-a prontamente e ao longo de toda a obra, agilizando-se sempre que necessário. Alguns planos, plenos de efeitos digitais, dão-nos conta da severidade do clima no exterior. Nesses instantes, a narrativa respira gelidamente, lembrando-nos o contexto apocalíptico e letal lá de fora. As cenas memoráveis são mais do que muitas: o ataque às escuras dos soldados de Wilford no túnel que se segue à ponte Yekaterina, o sorteio dos ovos de Ano Novo em plena sala de aula, o tiroteio entre Curtis e o mal-encarado Franco (Vlad Ivanov) comboio adentro, que termina na sangrenta e brutal cena da sauna... ou até mesmo o final, quando Curtis olha para trás e vislumbra o purgatório: Song enfrentando a ira das elites - outrora entregues ao ócio e à ruína, agora também elas tornadas revoltosas. Uma das melhores cenas, contudo, será sempre aquela passada instantes antes, em que Curtis, transtornado pela perda dos amigos e prestes a abrir a última porta, partilha com Song o seu passado trágico e cruel. É nesta emocionante cena que Evans se revela, sem sombra de dúvidas, à altura do papel, justificando a confiança nele depositada aquando do casting.

Num filme como Snowpiercer, a direcção artística revela-se fundamental e, por isso, há que salientar a notável concepção de Ondrej Nekvasil, Stefan Kovacik e Beatrice Brentnerova. Kyung-pyo Hong, na direcção de fotografia e seguro das potencialidades das cores e da iluminação, entrega um sóbrio trabalho imagético, extraindo do cenário e dos enquadramentos toda a beleza possível, ultrapassando facilmente o cinzentismo da fonte original, a novela gráfica em que tudo era preto ou branco. Marco Beltrami, que tantas vezes presta o seu talento a filmes menores, formula aqui pedaços de música convincentes, geralmente subtis, mas igualmente determinantes para o sucesso narrativo e para a compleição emocional da obra junto do espectador. Rodam as engrenagens, aquece o motor e irrompe a locomotiva adiante. O filme triunfa na sua visão, derrubando a controvérsia criada à volta da distribuição e os eventuais cortes na sala de montagem. Glorioso, chegou até nós na visão completa do cineasta e dirá o tempo se, mais do que um filme de culto, não se tornará um filme eterno.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS (2012)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Prometheus
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Idris Alba, Patrick Wilson, Robin Atkin Downes, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie, Ian Whyte 

Crítica:

A ORIGEM DE ALIEN

Big things have small beginnings.

Prometheus é a metáfora e a invocação do mito grego - significa: desafiar os deuses. É o nome dado à nave especial que, entre estrelas e galáxias, explora os mistérios do espaço cósmico, procurando respostas sobre a criação na Terra e sobre as origens da humanidade. E é também a promessa cumprida de Ridley Scott no regresso ao universo da ficção científica - género que, aliás, ajudou a cimentar -, tantos anos depois de Alien ou de Blade RunnerPrometheus é mesmo a prequela - nunca totalmente assumida - da saga Alien: tem um ponto de partida distinto, é certo, mas os desenvolvimentos da acção acabarão por justificar os acontecimentos decorridos na franquia e o nascimento do célebre monstro. Inclusivé, a nível narrativo, Prometheus e Alien partilham o mesmo ADN e alavancam toda uma mitologia própria.

Tanto mais do que em Alien, a carga filosófica é soberana em Prometheus: quem foi o nosso deus criador e porque nos abandonou? O filme avança a tese alienígena. Diferentes culturas da antiguidade, separadas pela distância, partilharam, misteriosamente, as mesmas referências, esculpidas na pedra. Os mesmos símbolos, a mesma indicação, o mesmo chamamento. Feitas as descobertas e identificado o seu significado, uma equipa de cientistas - convocada e financiada pela Weyland Corporation - parte para o infinito. Estamos no ano de 2093. David (brilhante desempenho de Michael Fassbender) é um replicante, enigmático mordomo da nave enquanto todos os outros tripulantes hibernam, há anos, mergulhados nas cápsulas de hipersono. O seu penteado replica, ao pormenor, o de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia - filme que assiste durante a viagem e que citará mais tarde, pelo que depreendemos que o admire e que o tenha visto mais vezes: there is nothing in the desert and no man needs nothing. Mas não só a filmes assiste o robot humanóide: encontramo-lo, curioso, a invadir os sonhos e a privacidade dos colegas, graças à tecnologia de que a nave dispõe. Assiste nomeadamente ao sonho de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), em que esta recebe do pai um colar com a cruz cristã. Quando a equipa é acordada, nas imediações do seu destino, passamos a conhecer a diretora da missão a bordo, a loira, deslumbrante embora absolutamente gélida Meredith Vickers (Charlize Theron), o bem-disposto capitão Janek (Idris Elba) e mais uma mão-cheia de camaradas que não tardarão a ser eliminados um a um, ao sabor do suspense e do aterrador desconhecido. Num holograma incrivelmente real é desfeita a confidencialidade da missão pelo próprio Peter Wayland (Guy Pearce, carregado de próteses e maquilagem como ancião fundador da empresa) e, finda a projecção, aterram finalmente no planeta sombrio, aparentemente estéril e irrespirável, onde se acredita que habitem os denominados Engenheiros, os nossos criadores.

Charlie (Logan Marshall-Green), namorado de Elizabeth: What we hoped to achieve was to meet our makers. To get answers. Why they even made us in the first place.
David: Why do you think your people made me?
Charlie: We made you because we could.
David: Can you imagine how disappointing it would be for you to hear the same thing from your creator?
Charlie: I guess it's good you can't be disappointed.

Entre ruínas e artefactos, acabarão por encontrar uma tripulação de cadáveres alienígenas, brutalmente extintos pelos seus próprios planos criativos e os indícios de que estes se preparavam para voltar à Terra, com fim a exterminar a sua criação. Quem disse que o nosso deus era bom e gostava de nós? Quem disse que se tratava de um mágico e não de um geneticista? Lá se vai o criacionismo conforme Elizabeth o entende, pensamos, ao que ela se apressa por contrapor: and who made them? A cruz que traz ao pescoço simboliza não só o criador do Homem como o seu próprio criador, dado que foi o próprio pai que lha deu. Não admira, por isso, que o colar lhe seja precioso, independentemente das revelações que se avizinhem no horizonte.

Podemos fazer por extrair mais teor filosófico do filme, mas, às tantas, na análise, deveremos focar-nos, parece-me, mais no que o filme efectivamente nos dá e não no que poderia dar-nos. É certo que o filme muito sugere e propõe, todavia jamais aprofunda por aí além as suas questões. Prometheus não é, definitivamente e apesar do seu interesse, um ensaio. A partir de dado momento, David continuará a desvendar segredos e a pôr o seu plano secreto em marcha, motivado sabe-se lá por que desígnios, e tenderemos a não confiar nele. Todavia, somos claramente reposicionados na narrativa - e o que mais importa agora é o silencioso despertar que a exploração humana provocou, inadvertidamente, na atmosfera das ruínas visitadas e a esguia, viscosa e emergente criatura que daí resultou e que, não tardará, começará a sufocar, sangrar e matar, ganhando alento, força e formas. É o acordar de um pesadelo adormecido. De set em set (magnífico design de produção do já lendário Arthur Max), alastra uma vertiginosa luta pela sobrevivência e contra o tempo, que dizimará, sem misericórdia, qualquer vertebrado arquejante. Como em Alien. Acelera-se o suspense e precipita-se a acção e a montagem de Pietro Scalia. A atmosfera densifica-se e agudiza-se radicalmente. A composição musical de Marc Streitenfeld, outrora épica e sonante que nem as criações de Vangelis, dá agora lugar a uma sonoridade obscura e arrepiante. Alia-se a fotografia e a iluminação de Dariusz Wolski, que primeiramente nos maravilhara e enchera de mistério, tanto na grande escala dos exteriores como na clausura dos interiores. Cada imagem espelha agora o medo e o pavor das personagens - e o dos espectadores. Até ao final, a sofisticação dos efeitos especiais será mais gritante do que nunca, conferindo credibilidade - e fascínio - à proposta. E até ao final, também, ficará a ambiguidade implícita relativamente à natureza andróide da personagem de Theron (dúvida não inédita e fórmula a que o cineasta, claramente, não resistiu. Não faz mal, nós gostamos destas coisas).

Alien: Covenant fará a ponte necessária entre Prometheus e a saga original. Duvido que sejam respondidas todas as questões - e que interesse teria se não ficasse uma réstia de mistério? É do mistério que estes filmes viveram, vivem e certamente viverão. Como na grande parte dos filmes de Scott, Prometheus resulta numa experiência prazerosa, visualmente impecável, e à qual não cansa voltar. Não concretiza, no entanto, todo o seu potencial - falta, no mínimo, mais espaço para os actores e para as suas personagens (que provavelmente a realização não permitiu) e cenas propriamente memoráveis, em que se alie o inspirado trabalho de câmera com a encenação; traduzir-se-ia isto numa maior maturação da narrativa e do objecto fílmico em si - equilíbrio em que Scott, infelizmente, falha mais vezes do que gostaria e do que os seus projectos certamente mereciam.

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Close Encounters of the Third Kind
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban, Cary Guffey 

Versão do Realizador

Crítica:

OS SINAIS E O CONTACTO 

Major Walsh, it is an event sociologique.
Claude Lacombe 

Encontros Imediatos do 3º Grau é, por variadíssimos motivos, um dos mais icónicos e extraordinários filmes de Spielberg. Desde cedo fascinado pela cultura popular dos OVNI's, a obra concretiza o abraço duvidoso dos grandes estúdios de Hollywood à temática, numa altura em que a Columbia Pictures encarava sérios problemas financeiros. O devaneio de Spielberg era considerado um risco, mesmo estreando-se na sequência do estrondoso sucesso de Tubarão, considerado o primeiro blockbuster de todos os tempos. Por isso mesmo se estreou em apenas 2 salas, a medo, antes do êxito se propagar pelo país e, depois, por todo o mundo. Alimentaria e ajudaria a expandir o fenómeno dos extraterrestres como poucos, na verdade e de forma incontornável, seguindo-se o acarinhado E.T. - O Extraterrestre em 1982 e só em 2005 o tão subvalorizado Guerra dos Mundos, numa altura em que a sua fé se rendera ao cepticismo - ou não tivessem os avistamentos tão misteriosamente abrandado, em inícios do século XXI, numa era tão marcadamente tecnológica e em que as câmeras de filmar proliferaram. 

A história é sobre pessoas banais (traço comum nas obras do cineasta) que, em circunstâncias extraordinárias, são alvo do extraordinário e concretizam o extraordinário. O Roy de Dreyfuss é exatamente uma dessas pessoas, que se vê alienado do seu dia-a-dia e da sua família por força de um chamamento superior, que o impele e desafia numa busca existencial, em busca de significado, de revelação, de respostas às suas muitas perguntas. O argumento mergulha o fascínio extraterrestre com um complô à escala internacional, que tenta esconder, no maior dos secretismos, os sinais e os contactos entre os humanos e as criaturas desconhecidas. A narrativa avança num impressionante crescendo de suspense, entre cenas em que discos luminosos e voadores rasgam os céus nocturnos, navios aparecem misteriosamente no meio de desertos ou adoráveis crianças são, na sua desarmante inocência, atraídas pelo desconhecido e sequestradas pelos invasores. Nem por um momento, no entanto, Spielberg deixa antever se os extraterrestres nos querem bem ou mal. O segredo adensa-se como o mais forte dos nevoeiros e nós, que presos ao filme nos encontramos, embrenhamo-nos sem resistência. 

Nota para a presença de François Truffaut como Claude Lacombe - Spielberg sempre pensou nele como ideal para o papel, por se tratar de uma criança grande ou de um adulto que vê o mundo com os olhos e a natureza de uma criança. Segundo Spielberg, Encontros é para adultos capazes de se entregarem ao desconhecido com a mesma fé - incondicional - de uma criança. Da mesma forma, espontânea, com que o pequeno Barry (brilhante Cary Guffey) abre a porta de sua casa ao mistério. Destaque ainda para o cuidado inspirado no fecho de determinadas cenas: são como demonstrações de amor à arte, numa arquitetura da cena ao mais ínfimo pormenor, do primeiro ao último instante.

Encontros estreou no mesmo ano de Guerra das Estrelas - o contributo de ambos os filmes para a ficção científica é evidente; não obstante Spielberg preferisse chamar-lhe, no seu caso, especulação científica. Contudo, o poder imagético daquele grandioso final não só ecoa na memória do espectador que adora o género como na própria História do Cinema. Spielberg arquitectou um fascinante espetáculo de luz e som no cume da Torre do Diabo (Wyoming) - para sempre associada ao filme - como se pela matemática da música enquanto linguagem universal fosse possível o contacto e a comunicação. O grande mistério culmina ali, na audaciosa orquestração de John Williams a partir das cinco notas, na extravagância visual da Direção Artística de Joe Alves e Daniel A. Lomino e no portento de fotografia de Vilmos Zsigmond - a experiência transcende-se num momento absolutamente mágico, belo e inebriante.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

DIA DA INDEPENDÊNCIA (1996)

 PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Independence Day
Realização: Roland Emmerich
Principais Atores: Will Smith, Jeff Goldblum, Bill Pullman, Randy Quaid, Judd Hirsch, Vivica A. Fox, Margaret Colin, James Duval, Mary McDonnell, Robert Loggia, Adam Baldwin, Harvey Fierstein

Crítica:

O ATAQUE ALIENÍGENA

 That's what I call a close encounter.

O cinema também anuciou, em meados dos anos 90 do século XX e de forma tão marcante, a globalização ao mundo. Dia da Independência, mega blockbuster de Hollywood, é disso um caso inequívoco: a ação é global. A invasão extraterrestre revela-se uma ameaça massiva, destrutiva, capaz de exterminar da face da Terra toda a Humanidade, alheia a culturas ou a civilizações.

É, Dia da Independência, um triunfo? É. $817,400,891, worldwide. Triunfa o espetáculo imagético, inesquecível - a imponente, negra e flutuante nave sobre as cidades ou sobre a Casa Branca sobressai de entre as memórias do filme. Há, por isso, shots memoráveis. As criações da direção artística são assombrosas e a fotografia deslumbra a espaços - os efeitos especiais, qual som, potenciam a beleza e a alucinante experiência. A ação é explosiva, plena de adrenalina. Ecoa Spielberg, Lucas. Ecoa John Williams na enérgica banda sonora de David Arnold. O entretenimento está, pois, assegurado. Emmerich pega nas naves dos filmes de série B e eleva-as ao mais espetacular e mainstream dos filmes.

Peca pela duração excessiva ou pela leveza com que aborda a tragédia, faltando-lhe, às tantas, uma maior maturação dos episódios. Sucedem-se os lugares comuns. Não há personagens modeladas (a melhor, ainda assim, é a do presidente Whitmore, de Bill Pullman). Will Smith e Jeff Goldblum partilham um protagonismo superficial, alternando o bom humor com o elenco secundário (Randy Quaid, Judd Hirsch).

Quando nos apercebemos, contudo, que os americanos é que sabem e que os americanos é que descobrem os melhores meios e técnicas para destruir os invasores, apercebemo-nos de que o filme vende por demais a bandeira e a liderança americana a todo o planeta. Cai por terra aquele ideal de globalização que o filme parece abraçar inicialmente, sobrepondo-se o ego americano, irresistível a tanto do seu cinema comercial. Mas enfim, esta é uma questão secundária, de abordagem. O filme não é sobre a globalização, é sobre o ataque alienígena. Nesses termos, o filme faz-nos voar no imaginário, no nosso e no da visão de Emmerich, o que é meritório. Agradou exponencialmente a milhares e milhares de espetadores, marcou um tempo. Por isso, missão cumprida; apesar dos - para mim, detetáveis - desequilíbrios.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões