domingo, 8 de agosto de 2010

EUROPA (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Europa
Realização: Lars Von Trier
Principais Actores: Max von Sydow, Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Jorgen Reenberg, Udo Kier, Eddie Constantine, Ernst-Hugo Jaregard, Lars von Trier

Crítica:

A HIPNOSE E A VISÃO

Viver é simples, durante o combate.
As complicações surgem depois.

Absolutamente arrojada, altamente estilizada e visualmente estimulante, Europa, de Lars von Trier, inicia-se com um longo plano, em andamento e a preto e branco, sobre uma linha de caminhos-de-ferro. A acompanhar a cena de abertura, a hipnótica voz de Max von Sydow:

You will now listen to my voice. My voice will help you and guide you still deeper into Europa. Every time you hear my voice, with every word and every number, you will enter into a still deeper layer, open, relaxed and receptive. I shall now count from one to ten. On the count of ten, you will be in Europa. I say: one. And as your focus and attention are entirely on my voice, you will slowly begin to relax. Two, your hands and your fingers are getting warmer and heavier. Three, the warmth is spreading through your arms, to your shoulders and your neck. Four, your feet and your legs get heavier. Five, the warmth is spreading to the whole of your body. On six, I want you to go deeper. I say: six. And the whole of your relaxed body is slowly beginning to sink. Seven, you go deeper and deeper and deeper. Eight, on every breath you take, you go deeper. Nine, you are floating. On the mental count of ten, you will be in Europa. Be there at ten. I say: ten.

A projecção interminável da viagem sob os carris, as repetidas notas musicais e as pausadas cadências da narração sugerem um verdadeiro estado de relaxamento e de hipnose. Von Trier prepara assim o espectador para uma profunda imersão na história e o efeito de tal proposta é absolutamente incrível e surreal. Surreal, aliás, como muitas das imagens construídas ao longo do filme, graças à sobreposição de planos. Esta panóplia de técnicas de sobreposição confere à obra um tom puramente clássico. Sugere-se mesmo o efeito de split screen, numa cena, não pela divisão assumida do ecrã, mas pela sobreposição de planos, que une uma só acção em tempo real, mas em espaços diferentes. Quando o suspense assume a diegese, vem-nos à mente o melhor de Hitchcock. Contudo, por vezes, ainda que o segundo plano se mantenha a preto e branco, o primeiro plano destaca-se a cores... Que audácia. A cena do suicídio na banheira ou a da separação em comboios distintos são dos momentos que mais beneficiam com esta confluência estética, com este jogo de cores. Louros de Henning Bendtsen, Edward Klosinski e de Jean-Paul Meurisse. A banda sonora de Joachim Holbek é verdadeiramente extraordinária. Europa Aria, o tema que encerra o filme (letra de von Trier e interpretações de Nina Hagen e de Philippe Huttenlocher) é também sensacional, ainda que totalmente esquisita e paradoxalmente fascinante. A arte de filmar é magistral: abundam virtuosos movimentos de câmera, do princípio ao fim. Europa é, pois, um autêntico e portentoso delírio artístico.

Para além destes valores criativos, a magnificência da obra atinge a plenitude no argumento, altamente alegórico. A hipnose potencia uma regressão ao passado, na qual tornamos à Alemanha de 1945, recentemente derrotada pelas forças aliadas. Leopold Kessler (Jean-Marc Barr) visita o país, na esperança de ser útil na sua reconstrução e reabilitação e de escapar, desse modo, ao serviço militar. Se eu quisesse andar armado, teria vindo para aqui mais cedo. O tio, oficial alemão, arranja-lhe o trabalho de revisor num comboio e a maior parte da acção passa-se entre carruagens. É lá que conhece a bonita e enigmática Katharina Hartmann (Barbara Sukowa), filha do dono da Zentropa Rail Line. Europa conflui, com êxito, os mais variados géneros como o noir, o drama e o romance, o filme de acção, o filme de espionagem ou o avant-garde. Tal como a Europa, O Velho Continente, aquele comboio segue sem rumo, ocultando estratagemas de ódio e mortais crimes de guerra, mascarando uma ainda incipiente revigoração. A visão: a Europa viaja naquele comboio, iludida em hipnose - e, com ela, a sátira, mascarada em arte.

In the morning, the sleeper has found rest on the bottom of the river. The force of the stream has opened the door and is leading you on. Above your body, people are still alive. Follow the river as days go by. Head for the ocean that mirrors the sky. You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But it is not possible.

O sonho chamado Europa ainda está longe de ser realidade. Que filme brilhante.

10 comentários:

  1. O que dizer de von Trier que ainda não tenha sido dito? O homem é excepcional.


    Não é o meu preferido dele (por muitas razões, eu adoro o Dogville e o Dancer in The Dark) mas todos os filmes dele são bastante bons.

    Abraço,
    Jorge Rodrigues
    http://dialpforpopcorn.blogspot.com

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  2. WALLY: Vale muito a pena! Grande cineasta, von Trier.

    FLÁVIO GONÇALVES: E adorei. Sublime.

    JORGE RODRIGUES: Deveras excepcional. Concordo inteiramente contigo.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  3. Sim é muito bom. Tenho de o rever pois já o vi há muitos anos.

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  4. Um dos meus filmes favoritos, pensando sobre isso talvez até o meu favorito do LvT. Quanto à trilogia, não gostei muito do Epidemic, mas o próprio The Element of Crime também está absolutamente magnífico.

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  5. ÁLVARO MARTINS: De acordo. Brilhante.

    DIOGO F: Não é o meu favorito, mas é sem dúvida um filme magnífico.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  6. Vou vê-lo por estes dias. É um filme que inspira respeito. Mas se eu não gostar, o que duvido muito, desisto do auto-intitulado "maior cineasta mundial".

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  7. ENALDO: É um filme tremendo, este. Não desista nunca.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  8. Lars Von Trier é demais! Sem palavras...

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