terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O DESPERTAR DA MENTE (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Realização: Michel Gondry

Principais Actores: Jim Carrey, Kate Winslet, Gerry Robert Byrne, Elijah Wood, Thomas Jay Ryan, Mark Ruffalo, Jane Adams, David Cross, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson


Crítica:


Oh my darling, oh my darling,
Oh my darling, Clementine...

A FORÇA DO AMOR

Thou art lost and gone forever,
Dreadful sorry, Clementine.

Ele e ela são um autêntico par de inadaptados. Sentem-se atraídos, apesar das suas personalidades disfuncionais e aparentemente incompatíveis. Ele é um sentimentalista tímido e introvertido. Ela é, segundo a própria, a vindictive little bitch, uma temperamental e inconstante personagem, que quer viver tudo ao máximo. Ele é Joel Barish. Ela é Clementine Kruczynski.
Ele é Jim Carrey, ela é Kate Winslet: as performances são incríveis, inteiras, completamente inesquecíveis. Conheceram-se ambos num friorento e invernoso dia de praia, quebrando as suas solidões e apaixonando-se. Mas Clementine tem um feitio difícil, que varia consoante a sua excêntrica cor de cabelo. Rapidamente se cansa do carácter algo tranquilo e reservado de Joel e, secretamente, decide apagá-lo da memória, numa inovadora clínica da cidade, denominada - tão apropriadamente - Lacuna. Quando Joel se confronta com o facto, a dor e a revolta são tamanhas que se dirige à mesma clínica, decidido a eliminá-la também dos seus arquivos pessoais. Quis o destino, no entanto, que se voltassem a encontrar um dia. Montauk, ouve Joel no inconsciente. E reencontram-se. As afinidades são imediatas e envolvem-se novamente, como se fosse a primeira vez, sem nada saberem dos seus passados.

A forma como o genial Charlie Kaufman constrói e organiza o argumento é decisiva para o impacto que toda a história tem em nós, espectadores. O Despertar da Mente começa pelo fim. Joel acorda e dirige-se a Montauk. Encontra uma estranha:
Clementine Kruczynski, de nome. Quase ao minuto dezassete, a acção é interrompida e iniciam-se, para nossa surpresa, os créditos, com caracteres que se desfazem, quais memórias, ao som de Everybody's Got To Learn Sometimes. Que início magnífico. Quando a acção é retomada, voltamos atrás no tempo. Ser-nos-á contada a história que antecedeu a irreversível decisão de Joel e todo o processo de apagamento, tanto no exterior (insolitamente festivo) como no fantasioso interior da sua mente.

Memória a memória, a câmera trémula e delicada de Michel Gondry brilha em toda a sua virtuosidade. Confundem-se os espaços, as linhas temporais, a lógica. Distorce-se o som, dessincroniza-se, aliás, a relação entre o som e a imagem, acentua-se o jogo de perspectivas, e a filmagem cede, tantas vezes, à desfocagem do segundo plano, habilitada por um
meticuloso trabalho de iluminação (Ellen Kuras). Desintegra-se o real, caem carros, desaparecem elementos cenográficos por meio de subtis ou engenhosos efeitos especiais. O delírio criativo é total e verdadeiramente extraordinário, assim como a montagem de Valdís Óskarsdóttir, assim como a banda sonora de Jon Brion, colaborador habitual de P. T. Anderson (Embriagado de Amor, Magnolia) e assim como todas as canções que a completam.

Muitas são as cenas de uma concepção deslumbrante e imaculada, verdadeiramente memoráveis: Joel e Clementine no gelo, a contemplar constelações no frio, o banho no lava-loiça, uma cama na praia nevada, o nostálgico retorno à infância - nostálgico, aliás, como todo o filme. Não deixa de ser curioso, quiçá irónico, que uma comédia toda ela sobre o apagamento de memórias emane tamanho sentimento de nostalgia.

O Despertar da Mente alia perfeita e magistralmente a comédia e o drama. O final do processo de apagamento é, quanto a mim, profundamente trágico. Dá-se de trás para a frente, desde as memórias mais recentes às mais antigas... Porém, a certa altura, Joel apercebe-se do erro tremendo que é eliminar Clementine da sua memória. Joel ama-a. É por isso que empreende uma luta interior incomensurável para tentar inverter o processo: Joel e Clementine dão as mãos e tentam escapar por entre as recordações, eclipsando o sistema por várias vezes. Todavia, o processo é implacável e irreversível. Estão na casa da praia onde se conheceram e, perante o último adeus, a cruel despedida. O mar avança. Desfaz-se a casa em ruínas, poeticamente:


Clementine: Come back and make up a good-bye, at least. Let's pretend we had one... Bye Joel.
Joel: I love you...
Clementine: Meet me... in Montauk...

Há como que uma certa lucidez na profundidade do inconsciente, como se o amor e os sentimentos autênticos falassem mais alto. Será o método, afinal, falível? Ao longo do filme apercebemo-nos de que sim. Afinal, Mary (Kirsten Dunst) está apaixonada pelo Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) e já se havia submetido antes à criteriosa eliminação das lembranças.

Quando o puzzle se compõe na nossa cabeça, apercebemo-nos da tremenda e inevitável força do amor: Joel e Clementine voltaram a envolver-se. Estava escrito? Quem sabe.

De uma inteligência e sensibilidade extremas, O Despertar da Mente é, certamente, uma das melhores e mais originais comédias românticas de sempre, que jamais quererei apagar da memória. Um filme único!


Joel: What a loss to spend that much time with someone,
only to fixind out that she's a stranger.

23 comentários:

  1. Eis um filme do qual gostei bastante.
    A junção Winslet-Carrey era inimaginável para mim, mas ao vê-los juntos, constatei que formaram um belo casal.
    Bem merecida a indicação de Kate Winslet. Jim Carrey tem que melhorar um pouco para se equiparar à sua parceira de filme...
    O roteiro é interessante, as imagens são belas. Aprovei totalmente.
    Preciso revê-lo a fim de comentá-lo no LeC.

    Ah, o título brasileiro - felizmente uma tradução literal - é bem melhor do que "O Despertar da Mente".

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  2. LUÍS: Eu apreciei imenso a prestação de Jim Carrey. Para mim o actor esteve à altura do desafio e superou-o. Ele é um grande actor.
    Quanto ao título, tem razão e concordo absolutamente com você.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  3. Belo filme. Excelente argumento do Kaufman, realização genial do Gondryu... um dos meus filmes favoritos e uma das melhores obras do última década. Fico à espera da tua review!

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  4. Kaufman é um louco mesmo... Um ótimo filme.

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  5. Gosto muito desse filme ... além da relação de risos de Winslet e de tristeza de Jim Carrey, mas melhor atuação dele ainda continua sendo de The Truman Show que está soberbo ao infinito.

    Um grande abraço Roberto e tentarei ser mais presente por aqui. Um grande abraço!

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  6. Este filme é genial!
    Jim Carrey em grande mesmo e com uma prestaçãomemorável a somar aos "The Truman Show", "Man on the Moon" e "The Majestic". Até no "Number 23" ele fez um papelão jeitoso

    A construção narrativa e as soluções visuais fazem dele uma obra de culto absoluto. Tem sido merecidamente bem tratado pela critica ao contrário de Jim Carrey que merecia mais reconhecimento como actor.

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  7. Independentemente da grande interpretação de Carrey e do final magnífico, a faceta surrealista e algo confusa do filme impede-me de lhe atribuir uma nota acima de 4*.

    Abraço

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  8. Eu gostei de uma forma geral. Actuações convincentes, fotografia e cenários em sintonia, argumento inteligente que foge ao comum e realização capaz e à altura.

    Para ser sincero acho-o também um pouco confuso e dinâmico demais às vezes...de qualquer modo paradoxalmente também é isso que lhe dá o valor e a distinção hoje em dia. Acima de tudo um bom filme.

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  9. Surrealista??!!! Nunca viste filmes surrealistas pois não Brown?

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  10. AM,

    Não, nunca vi. Nem um sequer...
    Nada...

    Embora deva reconhecer o meu erro: aquelas conversas e situações por entre as memórias de Joe eram do mais realista possível...

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  11. Ótimo filme, com interpretações grandiosas de Jim Carrey e Kate Winslet.
    O título brasileiro é bem diferente, engraçado como esse título parece outro filme e não o Brilho eterno de uma mente sem lembrança.

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  12. Ótima atuação do jim carey, mostrando que sabe fazer algo além da comédia!

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  13. Vim aqui para comentar e percebi que eu já havia comentado.
    Só pra firmar minha opinião: creio que se trata de uma boa obra, com destaque especial para a atuação dos atores principais, que realmente estão entrosados. O roteiro me agradou e a direção eficiente de Michael Gondry merece elogios.
    =)

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  14. É um filme espantoso. Gondry apresenta-nos uma obra singular sobre o poder da mente cerebral, espantoso!

    Abraço
    Cinema as my World

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  15. Para mim, um filme muito sobrevalorizado. Acho que o argumento está engraçado, sim, mas não vejo o porquê de eleva-lo ao pedestal que elevam.

    Engraçado, simplesmente.

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  16. PEREIRA: Sim, subscrevo-te inteiramente. Um dos melhores filmes da década 2000. Lindo, lindo, lindo.

    MATEUS SOUZA: Louco ou não, muito bom filme - sem dúvida!

    DR JOHNNY STRANGELOVE: Hello ;) A de TRUMAN SHOW é muito boa, assim como a de HOMEM NA LUA, mas a minha preferida é mesmo esta!

    ARM PAULO FERREIRA: Estou de acordo! Grande filme.

    ÁLVARO MARTINS: Deves estar equivocado ;)

    JACKIE BROWN: Impede-te porquê?

    JORGE: Gosto bem mais do que tu. É um filme ufff... extraordinário. Um dos meus filmes preferidos.

    AM: Não sendo um filme surrealista, tem o seu quê de surrealista. Gondry recupera o imaginário dos sonhos.

    VITOR SILOS: De acordo ;) O vosso título é muito melhor, de facto.

    VOLVER UM FILME: Claro que sim. Carrey é muito mais do que um actor cómico. Mas isso já é um dado adquirido.

    LUES: Obrigado por mais um comentário. Estou de acordo, ainda que - aparentemente - mais entusiasmado.

    NEKAS: Espantoso é um óptimo adjectivo! ;) Grande filme!

    DIOGO F: Não concordo.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  17. Excepcional! Por que o Jim Carrey não abandona de vez a comédia (como fez o Tom Hanks) e parte pra mais projetos como esse. Simplesmente lúdico.

    Cultura? O lugar é aqui:
    http://culturaexmachina.blogspot.com

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  18. PSEUDO-AUTOR: Nunca me tinha ocorrido a comparação entre os dois actores; penso que se trata de casos diferentes, mas entendo a linha de raciocínio. Mais do que lúdico, não é. Excepcional? Inteiramente.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  19. Claro que não estou equivocado ;) Por muito original que possa ser o argumento do filme, não posso dar valor a um producto comercial lamechas e ridículo. E Jim Carrey é Man on the Moon, é Truman Show e pouco mais.

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  20. ÁLVARO MARTINS: Não estou de acordo. Nem comercial nem ridículo. E Jim Carrey tem uma actuação brilhante - a minha preferida dele.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  21. Esta "coisa" só me pode merecer a pontuação mais baixa, a afamada bola negra do "Mau" ou "Péssimo", segundo o teu próprio critério. Foi dos tais que não consegui chegar ao fim, não sou masoquista a esse ponto.
    E mais uma vez tenho de concordar com o Álvaro, quando ele diz que o Jim Carrey é "Man in the Moon", "Truman Show" e pouco mais. Ah, lembro-me agora, também gostei do "Majestic"

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  22. RATO: É a tua opinião, na qual não me revejo minimamente. Mal de mim desvalorizar tamanha obra.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - Há 2 Anos na Estrada do Cinema «

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões