sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ALEXANDRE, O GRANDE (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Alexander
Realização: Oliver Stone
Principais Actores: Colin Farrell, Val Kilmer, Anthony Hopkins, Jared Leto, Rosario Dawson, Angelina Jolie, Jonathan Rhys-Meyers, Rory McCann, Elliot Cowan, Joseph Morgan

Crítica:

O HOMEM E O MITO


We are most alone when we are with the myths.

All men reach and fall... reach and fall... - disserta o velho Ptolomeu (Anthony Hopkins), ao narrar a história de Alexandre ao escriba Cadmos, na Grande Biblioteca de Alexandria, Egipto, quarenta anos após a morte do lendário rei. Ptolomeu acompanhou, desde cedo, as campanhas de Alexandre pelo norte de África, pela Ásia... até à Índia. Viveu de perto aquele mito vivo: I've known many great men in my life, but only one colossus. (...) He was a god, Cadmos, or as close as anything I've ever seen.

Na verdade, a infância de Alexandre foi profundamente marcada pelos clássicos de Homero e pela mitologia grega. A cena da Gruta dos Mitos, com o seu pai Filipe (Val Kilmer, excepcional), rei da Macedónia e de um só olho, é toda ela um autêntico compêndio mitológico que estabelece um paralelo muito próximo com a própria existência de Alexandre. Primeiro, Filipe eleva a tocha na escuridão e ilumina a gravura de Aquiles. He could've had a long life, but there would be no glory. Alexandre já conhecia, desde o berço, a história do bravo herói do assalto a Tróia: He's my favorite. (...) He loved Patroclus, and avenged his death. (...) He lived without fear. Afinal, Olímpia, sua mãe, acreditava descender do sangue real de Aquiles. Desde que o seu querido filho nascera que o tratava por: my little Achilles. Depois, seguiu-se Prometeu, titã filho de Jápeto, aquele que roubou o segredo do fogo e o deu ao Homem. Zeus ficou tão zangado que o amarrou a uma pedra, no Grande Cáucaso. Todos os dias a águia divina lhe debicava o fígado, mas todos os dias o órgão se regenerava para ser debicado no dia seguinte. A tocha aclareou, de imediato, a imagem de Édipo, que furou os olhos ao descobrir que matou o pai e que desposou a mãe. Em seguida, Medeia, que matou os dois filhos por vingança quando Jasão a trocou por uma mulher mais nova. Alexandre jamais admitiria que a mãe fosse capaz de tamanha monstruosidade. Porém, Filipe adverte-o: It's never easy to escape our mothers, Alexander. All your life beware of women. They're far more dangerous than men. Por fim, Héracles, que mesmo após ter completado os doze trabalhos, se viu punido pela loucura e dizimou a descendência. Aquiles, Prometeu, Édipo, Medeia, Héracles. As cinco figuras mitológicas apresentadas nesta cena metaforizam a história de Alexandre, nas suas mais variadas relações com os seus próximos, e traçam-lhe um autêntico roteiro psicanalítico. Nesta cena, é o pai quem o aconselha e prepara para o futuro:

A king isn't born, Alexander, he is made. By steel and by suffering. A king must know how to hurt those he loves. It's lonely. Ask anyone. Ask Heracles. Ask any of them. Fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. They laugh when you rise too high. And they crush everything you've built with a whim. What glory they give in the end, they take away. They make of us slaves.

Contudo, é a mãe Olímpia, fiel devota do deus grego Dioniso, a pessoa mais próxima de todas, a pessoa em quem ele mais confia. E ela e Filipe odeiam-se. Alexandre sabe-o perfeitamente. Aliás, vive neste ambiente de rivalidade entre pai e mãe desde que se lembra. Numa das primeiras cenas do filme, Alexandre assiste a uma fortíssima discussão entre o pai bêbedo e irado e a mãe, sempre rodeada de serpentes e sedenta de vingança: In my womb I carried my avenger! Também ela o aconselha, seduzindo-o para os seus planos:

Why won't you ever believe me? Philip did not want you! You had a condition of the breathing and he wanted to leave you in the mountains for the birds to peck out your eyes!
You are everything Phillip was not. He was coarse, you are refined. He was a general, you are a king. He could not rule himself. And you shall rule the world.

Beware most of all of those closest to you. They are like snakes, and can be turned. (...) in you, the son of Zeus, lies the light of the world. Your companions will be shadows in the underworld when you are a name living forever in history as the most glorious, shining light of youth. Forever young, forever inspiring. Never will there be an Alexander like you, Alexander the Great.


O equilíbrio, Alexandre encontra-o na educação que os seus perceptores lhe dão, tanto nas lutas corpo a corpo como no cultivo da mente. Aristóteles foi seu mentor. Ensinou-lhe geografia, história, lendas e mitos, ensinou-lhe sabedoria, moderação e sensatez. Mas desde novo que ansiava por se equiparar os heróis lendários, quiçá ultrapassá-los. Expandir o reino e criar um império até à Índia, por onde viajaram Héracles e Dioniso, Teseu, Jasão e Aquiles, todos eles vitoriosos, unindo todos os povos. The East has a way of swallowing men and their dreams, but still to think it's these myths that lead us toward the greatest glory... (...) Beware of what you dream - for the gods have a way of punishing such pride - alerta-o o grande mestre. Aristóteles fala-lhe também do verdadeiro potencial do amor entre os homens:

When men lie in lust it is a surrender to the passions and it does nothing to the excellence in us. (...) But when men lie together and knowledge and virtue are passed between them, that is pure and excellent. When they compete to bring out the good, best in each other, this is the love between men that can build a city state and lift us from our frog pond.

Qual Aquiles e Pátroclo, também o amor entre Alexandre e Hefaísto será determinante para os sucessos do futuro imperador. It was said later that Alexander was never defeated in his lifetime, except by Hephaistion's thighs - remata Ptolomeu, na narração, com saudável humor. De louvar a bravura de Oliver Stone no retrato despudorado da pansexualidade de Alexandre.

Com o assassinato de Filipe (Oliver Stone deixa no ar a possibilidade de ter sido Olímpia a arquitectar a fatal conspiração, receosa de que os bastardos viessem um dia a assumir o trono), Alexandre é proclamado rei da Macedónia. The king lives! Alexander, son of Phillip! May the gods bless Alexander! Alexander is king! Os seus ideiais têm finalmente oportunidade para se expandirem; Édipo. Alexandre reúne então um exército de quarenta mil soldados treinados e avança para a invasão da Pérsia, planeada desde o tempo de seu pai. Marcha até ao Egipto, sempre vencedor, onde é proclamado faraó. Com apenas vinte e um anos, o Oráculo de Siwa aclama-o declara-o o verdadeiro filho de Zeus. Alexandre esteve para Zeus como Jesus para Deus. Não dá que pensar na incomensurável importância da sua figura na altura?

Em Gaugamela, o exército de Alexandre defrontou duzentos e cinquenta mil bárbaros, liderados pelo Dário III da Pérsia. Digo-vos, muito sinceramente: está ainda para nascer, na História do Cinema, uma cena de batalha simultaneamente tão complexa, tão massiva e impressionante como aquela que tão genialmente Oliver Stone criou. Conquer your fear, and I promise you, you will conquer death! Da grandiloquência de Alexandre, avançamos, praticamente sem diálogos, para o fulgor da guerra. Setas, lanças, espadas, escudos, cavalos, camelos, carros. Força, pujança, espectáculo. A câmera, como ninguém, lidera a narrativa, plena de ousadia, avançando e esvoaçando sobre a refrega. Tomar o ponto de vista da águia, que desde os primeiros tempos anuncia a glória de Alexandre, é qualquer coisa de extraordinário. Há planos aéreos milagrosos, em muito graças às infinitas possibilidades dos efeitos digitais. Há slow motion, há ritmo frenético e avassalador, em toda a encenação. As estratégias das cargas desenham-se em imagens belíssimas, magnificamente fotografadas por Rodrigo Prieto e com uma paleta de cores notável. A batalha é dourada, empoeirada pelas areias do deserto, enobrecida pelo vermelho do sangue e de algum figurino. Todo o trabalho de montagem (Yann Hervé, Gladys Joujou, Alex Marquez e Thomas J. Nordberg) e de orquestração dos efeitos sonoros é verdadeiramente incrível. E a banda sonora de Vangelis, por Zeus!, é uma das maravilhas maiores do Cinema! Genial, genial, genial. Que triunfo monumental. Por fim, a chacina revela-se vantajosa. Fortune favours the bold. Alexandre opta por ajudar o flanco de Parménio e deixa Dário escapar, mas antes disso profere aos céus: You can run till the ends of the earth, you coward! But you'll never run far enough!


Após o confronto, Alexandre chora entre os feridos. All greatness comes from loss. A águia alimenta-se das vísceras dos cadáveres. Um flashback lembra a gravura de Prometeu, na Gruta dos Mitos.

A entrada na exótica e deslumbrante cidade da Babilónia é inteiramente gloriosa. Alexandre é recebido por milhares e milhares e sente-se amado por todos. Introdu-lo na exuberância e beleza transcendentais daquele autêntico paraíso um onírico e celestial tema de Vangelis. Abundam os jardins, os haréns, os animais raros, o luxo e as cores vivas. O guarda-roupa (Jenny Beavan) assume-se prodigiosamente faustoso. A direcção artística, audaz, concebe um trabalho megalómano, da elegância do design arquitectónico (Jan Roelfs) aos mais ínfimos pormenores da decoração (Jim Erickson). Alexandre jamais se impõe. Antes, coexiste, rendendo-se às maravilhas do mundo novo e ambicionando uma cultura global. Tamanho visionário, tão à frente do seu tempo.

Alexandre: Look at those we've conquered. They leave their dead unburied, they smash their enemies skulls and drink them as dust, they mate in public! How can they think, or sing, or write when none can read? But as Alexander's army they could go where they never thought possible. They can soldier, or work in the cities. From the Alexandrias, from Egypt to the outer ocean. We could connect these lands, Hephaistion. And the people.
Hefaísto: Some say these Alexandrias have become extensions of Alexander himself. They draw people into the cities so as to make slaves.
Alexandre
: But we've freed them, Hephaistion, from the Persias, where everyone lived as slaves! To free the people of the world!

No terraço do Grande Palácio, contemplando a noite sobre as luzes da cidade em festa, Alexandre e Hefaísto trocam juras de amor:

Alexandre: All I know is I trust only you in this world. I've missed you. I need you. It is you I love, Hephaistion. No other.
Hefaísto: You still hold you head cocked like that.
Alexandre: [rindo-se] I have to stop that.
Hefaísto: No, like a dear listening in the wind you strike me still, Alexander. You have eyes like no other. I sound as stupid as a school boy, but you're everything I care for. And by the sweet breath of Aphrodite I'm so jealous of losing you to this world you want so badly.
Alexandre: You'll never lose me, Hephaistion. I'll be with you always. 'Til the end.

Nas cartas que recebe, Olímpia planta o seu veneno ou a sua preocupação de mãe. Frase atrás de frase, previne-o dos invejosos conspiradores e dos possíveis traidores. Alerta-o para a necessidade de voltar ao seu reino. Mas Alexandre segue o seu sonho. Durante três anos, a campanha avança para nordeste. Dário é encontrado morto, envenenado. Numa das suas muitas paragens, conhece uma sensual e perigosa dançarina, sem relevância política: Roxana (Rosario Dawson). If only you were not a pale reflection of my mother's heart. Um comandante bactriano adverte-o: those who love too much lose everything. Those who love with irony... last. E, na verdade, esta é uma frase nuclear para perceber a decisão futura de Alexandre: a de desposar a asiática, arreliando os patriotas macedónios. O seu amor verdadeiro era para com Hefaísto, sabemo-lo, mas só um amor mascarado com a estrangeira poderia garantir-lhe um herdeiro, a união das tribos e a consolidação do império. E o casamento acontece. Como símbolo do grande amor sentido entre os dois, Hefaísto dá-lhe o anel que Alexandre ternamente usará até ao seu leito de morte. I'll be with you always. 'Til the end.

Aos poucos, porém, a divisão entre as tropas começa a fazer-se sentir. Roxana não dá à luz nenhum herdeiro, os principais cabecilhas e conselheiros do rei revelam outros interesses. Uma conspiração partilhada entre Parménio e o filho Filotas quase que envenena sua majestade. Alexandre manda executá-los. Depois de não resistir à tentação da carne com Bagoas, o dançarino enfeminado, a viagem continua. Chegam a Hindu Kush, o Cáucaso das Índias. E prosseguem em frente, descendo os declives nevados e penetrando, por fim, nas densas florestas da Índia, onde macaquinhos povoam as árvores e intensas chuvadas regam a terra durante sessenta dias e sessenta noites.


Numa estadia merecida, banhada em música, dança e álcool, o ambiente é marcadamente tenso. Exaustos e desejosos por voltar aos lares, às mulheres, filhos e netos que nunca conheceram, a discordância à flor da pele assume-se em palavras quentes e ofensivas:

Cleitus: How can you, so young, compare yourself to Heracles?
Alexandre: Why not? I've achieved more in my years. Traveled as far. Probably farther.
Cleitus: Heracles did it by himself! Did you conquer Asia by yourself, Alexander? I mean, who planned the Asian invasion when you were still being spanked on your bottom by my sister? Was it not your father? Or is his blood no longer good enough?
Alexandre: You insult me, Cleitus. You mock my family, be careful.
Cleitus: Never would your father take barbarians as friends or ask us to fight with them as equals in war. Are we not good enough any longer? I remember a time when we could talk as men, strait to the eye, none of this scraping and groveling. I remember a time when we hunted, when we wrestled on the gymnasium floor. And now you kiss them? Take a barbarian, childless wife, and dare call her Queen?
Alexandre: [profundamente insultado] Go quickly, Cleitus, before you ruin your life.
Cleitus: Doesn't your great pride fear the gods any longer? This army's your blood, boy! Without it you're nothing!
Alexandre: You no longer serve the purpose of this march! Get him from my sight! (...) Arrest him for treason! Who's with him? I call father Zeus to witness! I call you to trial before him! And we'll see how deep this conspiracy cuts!
(...)
Cleitus: Now look at you! Great Alexander! Hiding behind his guards! Are you too great to remember whose life was saved by me? I am more man than you'll ever be! (...) What a tyrant you are! Evil tyrant you've become, Alexander. You speak about plots against you? What about poor Parmenion? He served you well! Look how you repaid him! Have you no shame?
Alexandre: You ungrateful wretch! No one, not my finest enemy has spoken like you to me!

Hefaísto bem que tenta acalmar o amado, mas já é tarde demais. Alexandre crava uma lança no ventre de Cleitus, com as suas próprias mãos, e precipita-se, num ímpeto de ira, a tragédia. Depois desse episódio, Alexandre fica doente durante dias. Só Hefaísto o consola:

Hefaísto: You know better than any great deeds are donned by men who took, and never regretted. You're Alexander! Pity and grief will only destroy you.
Alexandre: Have I become so arrogant that I am blind?
Hefaísto: Sometimes to expect the best from everyone is arrogance.
Alexandre: Then it's true. I have become a tyrant!
Hefaísto: No! But perhaps a stranger. We've come too far. They don't understand you anymore.

The world is yours. Take it! A cena do discurso - quando os exércitos, completamente desmoralizados e indignados, ameaçam o motim, é arrebatadora. Aquela retórica e aquela devoção total ao sonho e à causa... Que visceral desempenho de Colin Farrell. Que líder, Alexandre foi. Oliver Stone filma a cena magistralmente. Dá-se a revolta, mas Alexandre, de pulso firme, dizima os adversários. Men of Macedon, we're going home. Mas primeiro, a conquista da Índia.


A sangrenta batalha final, entre as florestas da Índia, é absolutamente colossal e arrepiante. A última carga sobre os elefantes, tão genialmente filmada - plena de coragem, loucura e ferocidade - e sua dimensão operática, convocada pela assombrosa composição de Vangelis, concretizam uma derradeira apoteose. O frente-a-frente entre Bucéfalo e o elefante, sem efeitos especiais, e no qual o cavalo avança vários passos - sem medo - é... de nos deixar sem palavras. E para terminar a sequência, mais um golpe de génio: os tons de vermelho-carmim assumem a acção e o esplendor da imagem, numa passagem poética, simbólica e sublime.

Seis anos passados no Oriente, Alexandre e as suas tropas regressam à Babilónia. Todavia, fate is cruel. No man or woman can be too powerful or too beautiful without disaster befalling. Hefaísto é envenenado e sucumbe. A sua despedida é a mais dolorosa de todas. Sem amor, Alexandre é tomado pela loucura, consumido pela agonia e entrega-se à morte, bebendo o cálice amaldiçoado. Hoje, sabemo-lo, também conquistou a eternidade.

The truth is never simple and yet it is. The truth is we did kill him. By silence we consented... because we couldn't go on. (...) I never believe in his dream. None of us did. That's the truth of his life. The dreamers exhaust us. They must die before they kill us with their blasted dreams.
Ptolomeu

O grande defeito do filme prende-se tão-somente com o argumento que, apesar de tão bem escrito, tem uma estruturação... bizarra. São lamentáveis, todos aqueles avanços e recuos na narrativa, até Gaugamela, ou a inclusão forçada do episódio do regicídio na Índia, após a morte de Cleitus. Não fossem essas opções incompreensíveis e estaríamos perante um clássico absoluto, ao qual não hesitaria em atribuir a pontuação máxima.

Ainda assim, Alexandre, O Grande é um dos épicos mais poderosos e imponentes a que já assisti. Deveras apaixonante.

In the end, when it's over, all that matters is what you've done.

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Leitura complementar: Breves notas sobre ALEXANDER REVISITED

26 comentários:

  1. Sou fã de cinema e de história e o pouco que conheço entendo que a história é apenas uma versão do ocorrido, é impossível recriar fielmente algo que aconteceu há 200, 300 anos.
    Neste filme com certeza a questão da bissexualidade ajudou a aumentar as críticas, fiquei com a impressão que o tema foi usado no filme apenas para criar polêmica.
    No geral o filme é um pouco arrastado e muito longo, e acabou sendo pior em comparação com outros longas do gênero feitos na época, como "Tróia" e "Cruzada".
    Na minha opinião o filme vale uma note 7, um resultado mediano.

    Abraço

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  2. Hugo,

    É impossível recriar fielmente o que se passou há instantes. História é uma coisa. Cinema é outra. Cinema é mais uma forma de representação quando a História chegada até nós não passa de Historiografia. Ou seja, outra forma de representação.

    Depois, nunca foi intenção de Oliver Stone fazer um documentário. Mas sim um filme ficcional, em que a história se conta por meio de mitos e símbolos, e referências historiográficas.

    Pensa que o tema da bissexualidade foi usado apenas para criar polémica? Não acredita então na possível bissexualidade de Alexandre? Gostaria que desenvolvesse mais esse tópico aqui no debate :)

    Não concordo que seja muito longo. Para o argumento que tem, se o filme se torna cansativo não é pela duração, talvez pela estrutura do argumento.

    Obrigado pela participação no debate! Boa continuação, Hugo!

    Cumps.

    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

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  3. Olá Roberto.
    Este debate tem muito que se lhe diga.
    E eu sou suspeita para falar sobre isso, porque sou de História e uma apaixonada por Cinema. O rigor Histórico é sempre difícil de atingir na plenitude, porque muitas vezes, não existem fontes históricas fidedignas.
    Aqui estamos a falar de cinema… é claro que muitas adaptações históricas ao cinema, vêm o rigor histórico ser substituído pelo mundo da fantasia. É inevitável, pois os filmes são feitos para agradar a muitos e não a historiadores ou investigadores.
    Gastar tanto dinheiro com produções cinematográficas é sempre uma questão delicada. Alguns recuperam parte de dinheiro, outros nem por isso.
    Pontos fortes do filme: A mestria de Oliver Stone, que se atreveu a mostrar um grande homem, líder e estratega militar que foi Alexandre, mas mostrou-o também enquanto homem, com as suas dúvidas e fraquezas.
    Pontos fracos: Pouca importância à personagem de Ptolomeu. Angelina Jolie, poderia ter sido uma Olímpia mais bem concebida.
    Quanto ao preconceito é totalmente descabido. Na época as relações homossexuais, bissexuais e até mesmo a pedofilia, eram “normais” e “usuais”. O conceito de relações amorosas e sexuais era muito diferente das que temos hoje. Quem sente preconceito em relação a isto, denota um desconhecimento histórico grande.
    Uma nota pessoal: gosto do Colin Farrell, não é UM GRANDE, GRANDE actor, mas é razoável. Penso no entanto que poderia ter feito muito melhor.
    Penso no entanto, que Alexander foi melhor que o Troy.

    Atentamente
    Sofia

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  4. Sofia,

    É impossível alcançar «na plenitude» o rigor histórico. Mesmo quando é esse o objectivo.

    Muitas vezes o carácter ficcional dos filmes e o desvio aos factos históricos não se prende apenas com os interesses de agradar ao público, mas sim com a intenção dos autores do filme (que umas vezes é mais veemente que outras) conceberem arte a partir da História. E não História.

    Se os produtores recuperaram ou não o dinheiro investido, isso tem a ver com múltiplos factores.

    Quanto aos pontos fracos: não percebi se a fraca abordagem a Ptolomeu é um ponto fraco do filme em si, ou se essa tua opinião se deve ao conhecimento histórico dessa figura. Já agora, fala-nos um pouco melhor de Ptolomeu e a sua relação com Alexandre.

    Quanto às questões da bissexualidade nesta época, e dada a tua formação em História, importavas-te de nos falar um pouco mais do assunto?

    Também acho ALEXANDRE, O GRANDE, muito melhor que TRÓIA. Creio que Colin Farrell teve uma prestação magnífica, só aqui e ali ridicularizada pela caracterização e guarda-roupa.

    Gostei muito da tua intervenção. Volta mais vezes!

    Cumps.

    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

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  5. Roberto... vou ser chata e maçadora, mas aqui vai uma "tentativa" de responder ao teu desafio - aqui vai:

    Os Ptolomeus foram uma Dinastia. Oriundos da Macedónia, reinaram o Egipto durante o período helénico –desde 323 a.C. (ano da morte de Alexandre, O Grande) até 30 a.C. (quando o Egipto se torna uma província romana). A Dinastia foi fundada por Ptolomeu I – um dos generais mais importantes e influentes de Alexandre.
    Este Ptolomeu NÃO é o famoso cientista grego, autor da obra “Almagesto” e de "Geographia". O Ptolomeu que o filme aborda é o general, denominado de Ptolomeu I Sóter. Supõe-se que era alguns anos mais velho que Alexandre e que fosse seu amigo de infância, tendo, provavelmente, feito parte do grupo de nobres adolescentes macedónios discípulos de Aristóteles. É provável que tenha participado com Alexandre nas suas primeiras campanhas, tendo tido um papel importante nas últimas – Afeganistão e Índia. Ptolomeu foi um dos três oficiais que salvaram a vida de Alexandre na cidade de Oxidracas.
    Quanto à questão da sexualidade:
    Os homens das civilizações da época clássica em geral relacionavam-se com mulheres visando à procriação, e com homens no intuito de buscar prazer e o amor filosófico que ia além do corpo; possibilidade essa que a mulher não poderia oferecer ao homem grego. A excepção aplicava-se às chamadas hetairas (uma espécie de prostitutas) que tinham um grande número de atributos e habilidades, eram extremamente cultas e até participavam em conversas filosóficas.
    Por sua vez, o comportamento bissexual foi aceite e até encorajado em determinadas sociedades, sendo a Grega uma delas. A bissexualidade é um exemplo de coesão social. Alexandre Magno tinha amantes militares do sexo masculino e casou-se com uma mulher. A Esta “orientação e opção social” permitia aumentar a coesão entre famílias sem colocar em risco a sobrevivência da família em si. Essa proximidade poderia garantir uma espécie de “protecção extra” para os filhos e membros do casal.

    DESCULPA A SECA...
    Beijocas

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  6. Sofia,

    Qual seca! Longe disso.... Adorei. O filme diz que Alexandre casou depois com mais mulheres. É uma verdade histórica?

    Cumps.

    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

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  7. Olá Roberto.

    Sobre a relação de Alexandre com mulheres, conta-se que os seus pais, Filipe II da Macedónia e Olímpia, terão "encomendado" uma cortesã cara da Tessália, chamada Callixena - para despertar o interesse de Alexandre por mulheres.

    Quanto aos casamentos, as fontes históricas não são explícitas e existe a tese dos 2 e dos 3 casamentos.

    Segundo a teoria dos três casamentos, as mulheres de Alexandre foram: Roxana da Bactria, Stateira e Parysatis, filha Dario da Pérsia. Teve pelo menos um filho, Alexandre IV da Macedónia, filho de Roxana.
    Existe ainda a teoria de que Stateira poderia também estar grávida quando Alexandre morreu.

    A teoria dos 2 casamentos contempla: Roxana, filha de um nobre pouco importante, e a princesa persa Statira II, filha de Dario da Pérsia.

    Tudo isto é MUITO discutível e não é unânime.

    Obrigado
    beijinhos
    ;)

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  8. Sim de acordo. Até acho que lhe daria um pouco mais se fosse exclusivamente por contornos mais pessoais.

    Um filme que é tido como uma grande desilusão (em parte concordo), um enorme desperdício e uma vulgaridade que se sente. Cá por mim gostei. Apesar de o argumento, como dizes, não possuir uma estrutura muito coerente acho que minimamente cumpre. Mas sim se falha, é aqui indubitavelmente. Anthony Hopkins também me parece um pouco a mais.
    Depois, e aí sim, tem uma fotografia boa, cenografia de encher o olho, interpretações à altura de Farrell e Jolie (destaque), e acima de tudo uma banda sonora muito boa. Foi aqui que me rendi às qualidades do filme e por consequência passei a gostar mais, pois claro.

    Pessoalmente e gostando à partida do género e subgénero - batalhas épicas e histórias - e tendo cenas emocionais, bem feitas (nas batalhas...) e bem trabalhadas não tenho como não gostar. Apesar de ter as suas falhas, sendo principalmente essas no argumento. Ainda assim é um filme, confesso, a que recorro de vez em quando para rever algumas cenas. Essa da batalha de Gaugamela é uma, sem dúvida. Magnífica. E a banda sonora soa-me neste momento... :P

    abraço

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  9. É um filme que perde no seu conjunto para os primos Gladiator, Braveheart ou até Troy, na minha opinião.
    Mesmo assim gosto deste Alexander, em quantidades suficientes.

    abraço

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  10. JORGE: O filme é belíssimo, a sua arte de filmar é magistral e há cenas de puro génio. Refiro-me às batalhas, evidentemente. Tal como a epopeia em vida de Alexandre, estamos perante um filme colossal em muitos aspectos. Na banda sonora (na minha opinião uma das grandes bandas sonoras de Vangelis e do cinema), na fotografia... É pena, de facto, que os problemas estruturais do argumento ponham em causa uma obra com este potencial. É que só falta trabalhar aquele argumento. Ainda não vi o Director's Cut nem o ALEXANDER REVISITED, gostava muito de ver, pelo sim pelo não. Angelina Jolie está de facto formidável, assim como Val Kilmer, mas como sobretudo Colin Farrell; abismal desempenho. Grande épico, apesar de tudo. Muito, mas muito desvalorizado.
    TRÓIA é muito inferior, na minha opinião.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - Há 2 Anos na Estrada do Cinema «

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  11. Realmente, não existe melhor filme para um "prós e contras" como deve ser... :)

    Da minha parte, ALEXANDRE é um épico com várias nuances na sua qualidade mas muito à frente da tipologia de espectador que normalmente acompanha este género. Stone quis analisar o homem e não as suas façanhas; dissertou sobre uma cultura e não acerca das suas conquistas; e, de forma dissimulada, consegue fazer deste um filme político de uma ponta à outra.

    É para públicos exigentes? Sem dúvida. Talvez por isso a má fama que angariou.

    E em nota final, não é que Colin Farrell esteja mal, o erro está na composição escolhida para Alexandre: um imperador que não esconde ter lágrima fácil, naquela época, conseguiria arrastar até ao "fim do mundo" tantos soldados leais?

    Parabéns pelo debate, é um dos pontos altos desta iniciativa.

    Abraço.

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  12. Sim concordo e corrijo, acho este Alexandre melhor que Tróia.

    Grande crítica (mesmo grande :P), foi um prazer lê-la. E concordo com tudo o que dizes. Fico à espera de veres a última versão. Quero saber a tua opinião. Para mim melhorou e subia-lhe uma estrela, mesmo tendo ainda falhas, atinge momentos tão fortes e tão marcantes que não tenho como resistir.

    abraço

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  13. Não posso comentar sobre o filme porque não vi, mas pelo que li, em ambas as director's cut não se alterou a estrutura narrativa de forma tão significativa, como depreendi ser uma esperança pelos vossos comentários.

    Quanto à homossexualidade na antiguidade, e mais particularmente na Grécia antiga, é um assunto que já foi abordado recentemente de forma bem humorada aquando do filme 300. Se bem se lembram nesse filme (e digo já que o acho uma aberração. Leiam antes a graphic novel do Frank Miller), o rei Leónidas manda umas bocas depreciativas aos Atenienses quanto às suas práticas e orientações sexuais, quando é bem sabido que uma das razões para o sucesso e hegemonia militar de Esparta, para além da completa orientação marcial da sua sociedade, estava também o facto que os seus guerreiros em batalha lutavam em falange, uma formação em que o homem ao seu lado, para além de ser parcialmente responsável pela sua defesa, era muito provavelmente seu amante ou companheiro. Querem maior motivação em batalha que a defesa de um ente querido?

    De facto, é de admirar esta questão não ter sido ainda levantada pelas diversas associações de homossexuais e lésbicas na defesa dos mesmos nas forças armadas. Se calhar ainda veremos o dia em que a homossexualidade será obrigatória para quem quiser ser militar profissional. O pior é quando os pombinhos se zangam eheheh

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  14. SAM: A questão é que Alexandre não é caracterizado apenas como um homem de "lágrima fácil". Quantas não foram as vezes em que executou os traidores e conspiradores, quantas não foram as vezes em com que enfrentou com tremenda bravura os inimigos. Um império, um grande império como o que Alexandre concretizou, não só de espada se faz e se fez.

    JORGE: Obrigado ;) ALEXANDRE é claramente superior a TRÓIA. As comparações entre os dois são tantas vezes gratuitas e ridículas. Somente foram lançados em alturas próximas e ambos foram fracassos entre a crítica especializada.

    KING MOB: Espero ver brevemente a ALEXANDER REVISITED, depois acrescentarei uma nota de rodapé na crítica, a respeito. Concordo com aquilo que dizes, só o último parágrafo é que é um tanto ou quanto disparatado ;D

    Cumps.
    Roberto Simões
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  15. Bem, que grande (em tamanho) crítica para um filme que acabas por considerar apenas "bom". Diria que gostaste mais dele do que isso. De qualquer forma, gostei de ler, mas não me identifiquei. Não tenho muita vontade de ler.

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  16. DIOGO F: Pessoalmente gosto muito do filme, sim, mas não sou alheio aos seus defeitos. Tão-pouco sou alheio às suas qualidades, como tanta gente. São mais as qualidades do que os defeitos. A crítica é longa porque simbologia, mitologia e a própria figura de Alexandre me são muito queridas. Quantas vezes não gostamos mais de certos filmes do que aquilo que eles efetivamente valem? De qualquer forma, como disse, o filme tem muitas qualidades, como fiz questão de detalhar na crítica. É um filme que recomendo.

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    Roberto Simões
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  17. roberto,
    sempre achei este filme bom, a cair para o muito bom.. e nunca percebi a péssima recepção..
    Achei que é um bom filme histórico, tecnicamente competente, e com um elenco muito bom.
    Crítica muito bem escrita.
    3,5*
    Abraço

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  18. MIGUEL PINTO: Regozijo-me com tão positiva e coincidente opinião. No fim, fica-me só uma dúvida: ;) Porquê só 3,5*?
    Agradeço o elogio tecido.

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    Roberto Simões
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  19. Apenas por alguns momentos na minha opinião menos bem conseguidos, como a mãe a berrar de joelhos (Jolie), e o de Rosario Dawson a berrar, também de joelhos (momentos que são iguais, mas que me caíram bastante mal)..
    E como já disseste, a estrutura "esquisita" do argumento.
    Mas também, o que sei eu, afinal? Sou apenas um miúdo de 16 anos que gosta de cinema..

    Atenção, ainda não vi a Director's cut.

    Desilusão ainda pelo facto de sabermos que se fosse um Ridley Scott a realizar, ainda poderia ser melhor..
    Ainda assim, um belo biopic, com um grande elenco, e grandes cenas emocionais, e de acção..

    abraço

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  20. MIGUEL PINHO: A semelhança entre as curtas cenas de Jolie e Dawson a berrarem é deliberada. Ou seja, foi propositada. Deve-se à leitura simbólica da obra. Rosana é equiparada constantemente a Olimpia. Não é por acaso que o símbolo da serpente venenosa e rastejante serve às duas por igual. Também ainda não vi a Director's Cut, somente a Revisited e, pessoalmente, gostei mais da versão original. Mas a maioria pensa que a Revisited é melhor.
    Ridley Scott faria diferente, mas Stone tem muitas virtudes também. E há sequências neste ALEXANDRE de puro génio. Conheces, a propósito, o KINGDOM OF HEAVEN?

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    Roberto Simões
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  21. Eu percebi que foi deliberada (a sequência), mas mesmo assim não me agradou totalmente.
    Já vi, mas vi a versão de cinema, e achei que foi um desperdício de talentos. Achei fraco.
    Mas, por outro lado, ouvi falar muito bem da versão de realizador, por ti e pelo cinemajb.
    Vou confiar e mandar encomendar pela fnac...
    abraço

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  22. MIGUEL PINTO: Existem três versões do filme:
    - Versão de Cinema
    - Director's Cut
    - Revisited

    A versão que eu e o Rui do Cinemajb vimos foi a Revisited (para além da original, no meu caso, que prefiro).

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    Roberto Simões
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  23. Não entendo... Eu vi o reino dos céus que passou na TV.. o que é que é a Revisited?...

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  24. MIGUEL PINTO: Deu-se, então, um mal entendido na nossa discussão. As três versões que referi diziam respeito ao ALEXANDRE, O GRANDE. O REINO DOS CÉUS só tem duas versões, de facto: a dos cinemas e a do realizador.

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    Roberto Simões
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  25. ah..ok.. obrigado pelo esclarecimento.
    Pois.. eu do Alexandre ainda só vi a versão de cinema..
    Do reino dos céus, também vi a versão de cinema e desiludiu-me.. Vou adquirir a director's cut.
    abraço

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  26. MIGUEL PINTO: Vais gostar, certamente. É outro filme, completamente, a director's cut do REINO DOS CÉUS.

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    Roberto Simões
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