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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

DUNKIRK (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dunkirk
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Harry Styles, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Tom Glynn-Carney, Barry Keoghan

Crítica:

A TENSÃO DO RESGATE

 Well done, lads. Well done.

Depois de explorar os limites do cosmos e da ficção científica com o fascinante e espectacular Interstellar, Christopher Nolan sentiu necessidade de reduzir a escala, de se centrar num episódio da história recente da sua pátria e de mergulhar no mais gritante realismo, como quem regressa a casa após a mais delirante das viagens, assentando os pés na terra e despindo-se de artifícios. Porém, a opção revelou-se-lhe tudo menos confortável, antes plenamente ambiciosa, absolutamente desafiante.

Como qualquer filme de Nolan, Dunkirk é sofisticado na fórmula que investe no espectador. Tripartindo o argumento e a acção, eis a evacuação de Dunquerque pela terra, pelo mar e pelo ar. Cada um dos três pontos de vista se entrelaça a um tempo diferente: respectivamente uma semana, um dia e uma hora. Na prática, a aparente complexidade desta decisão formal não resulta propriamente num quebra-cabeças, uma vez que cada linha diegética colide aqui e ali por meio de espaços, personagens ou meios de transporte (aviões ou barcos), dirimindo essa dificuldade e guiando o espectador por entre o labirinto. Recusando facilitismos do digital, Nolan exigiu uma produção à moda antiga, com uma épica coordenação de duplos, tiros e efeitos explosivos, potenciando a imersão do espectador pela imersão da equipa técnica nas águas. As dificuldades físicas para filmar as cenas foram as mais variadas. Nolan levou a cabo uma verosímil reconstituição dos reais acontecimentos no cenário real onde tudo aconteceu. Há poucas cenas de diálogos (às tantas mais parece que assistimos a um impiedoso filme mudo, embora repleto de poderosos e impactantes efeitos sonoros), o colectivo assume o papel protagonista (embora esteja por lá Tom Hardy, atrás da máscara, Kenneth Branagh e Mark Rylance) e Dunkirk revela-se essencialmente um filme de acção, deslumbrantemente coreografado e fotografado (belíssimo embora dificílimo trabalho de Hoyte Van Hoytema). É uma verdadeira lição de cinema, um brutal exercício de forma e de exibição técnica, quase na totalidade filmado com pesadas câmeras IMAX, a assegurar o mais espetacular enquadramento para o desaire e infortúnio de quatrocentos mil soldados, encostados pelo inimigo à mais inóspita praia da morte. E apesar da paisagem aberta, na maior parte dos casos, Nolan constrói um cada vez mais intenso e sufocante thriller de sobrevivência, assustadoramente claustrofóbico seja no interior de aviões que se afundam no canal, seja das embarcações que ascendem com a maré, seja no meio da multidão que se ajoelha e rebaixa do perigo em pleno pontão, sucumbindo à desolação e à tragédia. O contra-relógio da sobrevivência ouve-se a cada passo que se corre, a cada bater do coração, a cada bombardeamento: Hans Zimmer é exímio, fenomenal e implacável na escalada do suspense. A sua banda sonora é, em tudo, singular, e perfeitamente indissociável do ritmo da montagem (Lee Smith) e do próprio filme. Partilham, pois, o mesmo código genético e estão perfeitamente intrincados.

Dunkirk é uma experiência sensorial e profundamente cerebral - porventura, o mais cerebral de todos os filmes de Nolan, à data -, ainda que a emoção seja convocada pela frieza das circunstâncias e pelo gesto humano que, a jeito de milagre, resolve e decide, às tantas, o desenrolar da guerra e o destino do mundo. Ainda assim, Dunkirk gela-me o sangue. Nolan torna a surpreender, torna a afirmar-se. Ao mesmo tempo que desbrava novos caminhos, solidifica-se enquanto autor e cineasta. O que faz é indesmentivelmente estimulante e único. O cinema agradece e nós também.

domingo, 21 de janeiro de 2018

INVENCÍVEL (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unbroken
Realização: Angelina Jolie
Principais Actores: Jack O'Connell, Domhnall Gleeson, Finn Wittrock, Miyavi, Garrett Hedlund, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, Alex Russell, C.J. Valleroy

Crítica:

O PRISIONEIRO RESILIENTE

 If you can take it, you can make it.

Invencível foi um dos melhores filmes de 2014. Angelina Jolie entrega-nos um trabalho de realização absolutamente seguro e surpreendente, capaz de desfazer qualquer dúvida sobre o seu talento artístico. Não deve ser fácil ser mulher num mundo de homens (refiro-me à indústria cinematográfica mas podia estender-me, facilmente, a outros horizontes), filha do actor Jon Voight, ainda para mais sendo considerada uma das mulheres mais bonitas - e por isso mais invejadas - do planeta, então casada com a igualmente super-estrela Brad Pitt, relação que alimentava os tablóides do social, diariamente, por todo o globo. Mas Invencível não é sobre Angelina Jolie, a celebridade. É preciso abraçar o filme livre de preconceitos. Quando muito será sobre a sua visão da história e sobre a forma como decidiu abordá-la, na mesma medida em que qualquer filme reflete a alma do seu criador, do seu autor. Invencível está mais próximo de David Lean ou de Steven Spielberg do que qualquer filme meramente competente e sem assinatura, realizado pelo capricho de uma actriz ególatra ou bacoca. E isto é dizer muito a respeito da qualidade de Invencível.

O biopic abre nos céus, sob o olhar poético de Roger Deakins: o take é aberto e de uma beleza paradisíaca e redentora. Todavia, Jolie não tardará a condenar os seus rapazes e o espectador à claustrofobia do B-24, quando as alturas se encherem de estrondos, de balas e de morte. A brilhante sonoplastia conferir-lhe-á uma ferocidade por demais realista. Eis, então, o mote: uma geração de bravos homens é entregue ao inferno, tão longe da pátria que juraram defender. Ali, no fim do mundo, a luta pela sobrevivência faz-se de improviso, ao sabor dos acontecimentos, à medida do que é possível. Os limites - físicos, psíquicos, espirituais - são postos à prova e a superação acontece. Homens comuns tornam-se maiores, capazes das atitudes mais nobres e inspiradoras, e também menores, capazes das maiores e mais desprezíveis atrocidades. Louie Zamperini (fabuloso Jack O'Connell) poderia ter sido simplesmente mais um ser humano, em nada extraordinário, porventura até entregue ao álcool e aos caminhos menos virtuosos, como apresenta o argumento dos irmãos Coen (e companhia, a partir do livro de Laura Hillenbrand) na primeira analepse. Encorajado pelo irmão Pete, o jovem ganha auto-confiança, torna-se um atleta e a destreza levá-lo-á às Olimpíadas de Berlim de 1936 e ao reconhecimento internacional. Longe estaria de imaginar que o seu verdadeiro desafio ainda estaria por chegar: escapar a tiroteios, enfrentar a morte dos companheiros mais próximos, sobreviver à queda do bombardeiro em pleno oceano, resistir, à deriva, a semanas e semanas de insolações, fome e sede em pleno Pacífico e depois, como se tudo isso já não bastasse, a meses e meses de torturas e trabalhos pesados nos campos de prisioneiros japoneses. Não gosto do título Invencível porque sugere uma natureza poética para a história de superação de Louie. Esta história é tudo menos poética. É absolutamente cruel. A resiliência do sobrevivente, somente alimentada de esperança (de voltar para casa e para os seus ou inclusive de fazer justiça pelas próprias mãos, caso a oportunidade surgisse), não é heróica, é simplesmente humana e esmagadoramente desarmante, por isso. A moment of pain is worth a lifetime of glory. You remember that. O conselho é do irmão, na despedida para a guerra, e certamente que terá ecoado na mente de Louie durante as mais terríveis adversidades.

A narrativa flui progressivamente tensa, apesar dos avanços e recuos. Miyavi, com o seu Pássaro, tem uma estreia impressionante. O seu general, para lá de sádico e abusivo, é monstruoso. O underacting do actor, naquele seu tom suave e olhar doentio, causa calafrios e revolta. O seu confronto com Louie, no terceiro e último acto do filme, revitaliza o drama  humano e eleva-o a uma dimensão excepcional, assustadoramente trágica. Tememos o pior, a cada murro ou chibatada. A cada olhar. É mais uma das pérolas do notável casting, no qual se incluem o egrégio Domhnall Gleeson e o carismático Garrett Hedlund.

Por tudo isto, é de esperar o melhor de Angeline Jolie enquanto cineasta, doravante.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Un Long Dimanche de Fiançailles
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Albert Dupontel, Chantal Neuwirth, Dominique Pinon, Jean-Pierre Darroussin, Tchéky Karyo, Marion Cotillard, Jodie Foster, Urbain Cancelier, Jérôme Kircher

Crítica:

O ETERNO VÔO DO ALBATROZ

Manech aime Mathilde! Mathilde aime Manech!

Três anos depois do genial e exuberante O Fabuloso Destino de Amélie, Jean-Pierre Jeunet volta a convocar a graciosa Audrey Tautou para estrelar noutra das suas mais belas e românticas obras, concretizando um autêntico e surpreendente díptico: sobre Paris, sobre a esperança e sobre o amor.

No filme de 2001, a cidade, agora mais o campo, mas ainda assim os comboios transportam-nos por variadíssimas vezes à gloriosa capital de outras eras: passeamos pelas ruas, ladeadas pela imponente Ópera e pelas fachadas da época, tornamos à Gare d'Orsay, magicamente renascida. A recriação histórica é impressionante, assim como é o nível de entrega e detalhe da direcção artística (Aline Bonetto). Antes abundavam os verdes e as cores vivas, agora os tons esvaídos e amarelecidos, quase dourados pela luz do entardecer. Enquanto Amélie é um filme solar, Um Longo Domingo de Noivado é um filme crepuscular. Outrora o tom era alegre e optimista - o acordeão de Yann Tiersen tudo contagiava. Agora é sôfrego e pessimista - as cordas de Angelo Badalamenti prolongam a angústia da ausência, auspiciam o medo da perda e reflectem a profunda consternação e a assustadora desolação na Terra de Ninguém. A carnificina é impiedosa.

Amélie e Mathilde partilham a mesma actriz e a mesma fé no amor. Só que a primeira vive um tempo privilegiado - nos anos 90 do século XX, a França não enfrentava qualquer guerra. Era tempo e espaço de paz, propício a coisas boas. Ideal para viver o amor na mais plena felicidade. A segunda vive a trágica e desumana Primeira Guerra Mundial e as feridas do confronto abrem-se entre os amigos, os familiares e os amores - e muitas delas irreversivelmente, impossibilitando a cura ou a cicatrização. Quando Manech é alistado para as trincheiras, dá-se a inevitável separação do casal e quando o maçarico é dado como morto, a paixão de infância entre os dois assume-se condenada pelo destino. Mathilde recusa-se a fazer o luto e a acreditar que perdeu, para sempre, o seu amado e empreende uma obsessiva e incansável investigação em busca da verdade dos factos, por mais que os sinais (e as suas engraçadas superstições) apontem, repetidamente, para a mais cruel das evidências. E esta é a comovente e avassaladora história de Um Longo Domingo de Noivado: a luta e a obstinação de uma mulher, contra tudo e contra todos - até contra o destino, para reencontrar o seu precioso Manech ou, então, a prova irrefutável da sua morte. Só perante a certeza absoluta poderá sossegar o coração, chorar o que tiver a chorar e retomar, finalmente, a sua vida. A esperança é a última a morrer, porque o amor não pode morrer. Daí o símbolo recorrente do albatroz, que presenciou a consumação do amor dos dois naquela casinha à beira-mar. A ave que acompanha as embarcações nas suas mais demoradas viagens. O ser que, contra qualquer vento, persiste o seu vôo. O albatroz não é senão a metáfora de Mathilde. E Manech é o seu barco. Por isso as memórias de Mathilde se prendem tanto àquele belíssimo farol. Só da alta lanterna poderá perscrutar todo o mar e o esperado regresso. Irónico que o avião que dispara sobre Manech, enquanto este marcava MMM (Manech aime Mathilde) num tronco moribundo, se chame albatroz. Como se o próprio destino estivesse confuso no futuro a atribuir-lhes.

O argumento condensa em si próprio um universo de personagens e pormenores tão rico do qual só as grandes histórias são detentoras. Prima pela confluência perfeita de registos tão distintos como o romance, o drama, o humor... ecoando a fórmula de Amélie, com recorrentes flashbacks que contam o passado das personagens, assentes nas suas mais hilariantes ou curiosas particularidades. O cómico de situação pontua - e alivia - todo o filme. As reminiscências do realismo mágico, tão característico de Jeunet, piscam-nos o olho, aqui e ali. Grande parte do elenco secundário transita directamente do filme anterior: Dominique Pinon (habitué de Jeunet por excelência) e Urbain Cancelier à cabeça. São ainda introduzidos nomes como Marion Cotillard, Jodie Foster ou Albert Dupontel. O filme começa por apresentar-nos os cinco soldados da Bingo Crépuscule, entre os quais se encontra Manech, destinados ao regresso a casa antecipado... ou à morte antecipada, não tivessem todos eles ferido uma das mãos, intencionalmente. Cada um é minuciosamente apresentado, pois cada um será preponderante na demanda de Mathilde, que está por vir. Mas é claro, às tantas a investigação e o romance dão lugar ao filme de guerra. A sonoplastia e os efeitos especiais superam-se então com notável sofisticação técnica, a bem do espectáculo, da acção e do esplendor visual. A fotografia de Bruno Delbonnel é verdadeiramente assombrosa, engenhosa nos planos, na saturação cromática ou no jogo da paleta e em criativa sintonia com a montagem de Hervé Schneid. Dois profissionais de renome, aliás, responsáveis também pela obra-prima de 2001.

Nunca é demais lembrar o quão incontornável é Amélie, tendo-se tornado o filme francês mais popular das últimas décadas, em todo o mundo. Este maravilhoso Um Longo Domingo de Noivado nunca alcançou o mesmo sucesso, tendo inclusive caído em relativo esquecimento nos anos sequentes à sua estreia. Talvez possa não atingir o carisma e a eloquência de Amélie, mas é um filme igualmente deslumbrante, certamente mais denso e intenso e derradeiramente apaixonante. Os dois filmes dialogam entre si, são como irmãos. E enquanto cinéfilos, amantes de cinema, poderemos sempre ficar com os dois. Eis, magistral, o incomensurável poder da arte. E do amor...

quinta-feira, 2 de março de 2017

CAVALO DE GUERRA (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: War Horse
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, David Thewlis, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, Celine Buckens, Toby Kebbell, Patrick Kennedy, Leonhard Carow, David Kross, Matt Milne, Robert Emms, Eddie Marsan

Crítica:

O SOLDADO INQUEBRÁVEL 

 What a strange beast you've become.

A Terra de Ninguém não foi também, certamente, lugar para indefesos cavalos, tornados fiéis e inseparáveis companheiros de batalha, pela cruel e humana necessidade da guerra. Vítimas sem palavra, quantos não foram os milhões de animais em cujos golpes desferidos se revelaram fatais? Eram criados e seleccionados para se transformarem, quais tanques, em autênticas máquinas de guerra, capazes de ajudar o homem nas mais possantes e surpreendentes investidas que, na maior parte das vezes, eram decisivas e ditavam a vitória. O poder da cavalaria seria crescentemente substituído pela força aérea, mas em guerras como a Primeira, que o filme retrata, a marcha dos equídeos ainda tinha uma importância vital, tanto no ataque como na tracção de armamento, mercadoria ou carroças de socorro e auxílio médico.

Cavalo de Guerra, magistral triunfo de Steven Spielberg, toca vários géneros: começa pelo melodrama familiar - algures entre as mais belas e bucólicas paisagens de Devon, Inglaterra - não raras vezes pontuado pelo cómico e pelas virtuosas e bem-humoradas notas de John Williams. Aí conhecemos o jovem Albert Narracott (Jeremy Irvine), o seu pai alcoólatra (Peter Mulan), a sua combativa mãe (Emily Watson) e as dificuldades económicas da sua família. Certo dia, encorajado pela bebida, o pai chega-lhe a casa com Joey, o cavalo que vira nascer no campo vizinho e que desde logo o fascinara: um forte animal embora sem aparente utilidade agrícola. Sob a ameaça iminente de ficar sem ele, Albert dedicar-se-á a treiná-lo, incansavelmente, provando a todos que a besta é capaz de lavrar a terra e de safar a família do sufoco financeiro. Mas o destino estava escrito e Albert destinado a ficar sem o amigo. Pela força das circunstâncias, o pai vende-o na aldeia a militares de partida para o confronto e a separação é inevitável. Daí em diante, Joey tornar-se-á o cavalo do título, ora do lado das tropas aliadas ora do lado dos impérios centrais, ao sabor dos eventos, da acção, mudando a vida daqueles com os quais interage. Albert, depreende-se a dada cena, alistar-se-á no exército, sempre na esperança de reencontrar o cavalo. Cavalo de Guerra transita, pois, do drama para o filme de guerra. O filme sobre animais, que commumente vemos direccionados para o público mais jovem ou infantil, torna-se mais sério, assim como se torna mais séria a realidade histórica. O protagonista - o cavalo - abandona o núcleo familiar e percorre outros núcleos, sempre acompanhado de grandes actores: primeiramente Tom Hiddleston e Benedict Cumberbatch, passando pelo promissor David Kross e chegando a instalar-se no moinho e quinta de Niels Arestrup. Nós acompanhamos a sua demanda e a sua viagem emocional. E esperamos o reencontro com o dono original que, sabemos e tememos, é improvável.

Concretizando a história e o filme, se há coisa de que Spielberg jamais prescinde é do sentimentalismo da abordagem - sendo este o seu principal trunfo, é simultaneamente este o alvo maior das críticas negativas que o filme recebeu. A este respeito direi duas coisas: (1) acontece que Cavalo de Guerra é um filme de coração - um projecto que sublima, sobre todas as coisas, as emoções e os sentimentos. Cantá-los e suscitá-los no espectador nada tem de mal e nada tem de errado. Atacar um filme, tão-somente, por este apelar ao sentimento é tão ridículo e absurdo, parece-me, como rejeitar Laranja Mecânica ou Clube de Combate por serem niilistas. Há os bons e os mais filmes, sirvam-se eles de que formas, meios ou linguagens. É importante e bonito falar de emoções e ainda é mais importante e bonito senti-las. Por outro lado, há que dizer o seguinte: (2) podemos não gostar de todos os animais e ter especial afeição por esta ou aquela espécie, mas gostar de animais torna-nos seres com coração e mostra o coração que há em nós - torna-nos, definitivamente, seres humanos mais sensíveis e, por isso, melhores. Duvidarei sempre daquele que disser categoricamente não gostar de animais. Se gostarmos de animais - e sobretudo se tivermos ou já tivermos tido um animal como companheiro, nem que seja um gato ou cão - entenderemos a linguagem do filme, compreenderemos perfeitamente a dor de nos separarmos de um animal de estimação e o desnorte do animal cada vez que fica órfão ou muda de dono e, creio, entregar-nos-emos mais facilmente e de braços abertos ao sentimentalismo do qual a obra se serve. É que partilhar o dia-a-dia com um animal é partilhar um sem fim de sentimentos e energias - que não se vêem nem se traduzem por palavras -, tantas vezes pelo olhar, pela temperatura, pelo toque ou vibração. Spielberg resiste a humanizar o cavalo e tão-pouco roça a fábula; não obstante, Cavalo de Guerra tem o encanto de ambas as intenções. Os animais sentem, mas não falam. Por isso também se distinguem dos seres humanos, sendo mais puros. Eles sentem e é por meio dos sentimentos que comunicam connosco. Por isso mesmo julgo fazer todo o sentido que o cineasta recorra ao sentimentalismo como forma privilegiada para contar esta história e para extrair dela toda a sua beleza, potencial e nobreza. Apraz-nos lembrar Spielberg, a propósito, como um dos mais eficazes herdeiros da arte do cinema familiar e de conduzir o espectador à comoção. É uma arte, senhores, é uma arte. 

Aquela icónica cena em que Joey, assustado, galopa pelo confronto adentro, indiferente a frentes ou lados, caindo nas trincheiras artilhadas, erguendo-se e saltando barreiras como nunca e acabando por arrancar vedações de arame farpado que o ferem, prendem e, às tantas, imobilizam é... de partir o coração; tanto que possibilita a inter-ajuda e solidariedade de inimigos na sua própria salvação. Em tempos de guerra, a inesperada união... possibilitada por um cavalo. A cena lembra o cigarro da união de A Grande Parada (1925), de King Vidor ou a noite da consoada de Feliz Natal (2005), de Christian Carion, em que em prol de um bem comum se fizeram cedências à violência e um gesto de fraternidade foi possível. Uma cena memorável e decisiva para o final que se aproxima.

Se há filme em que a tela transborda de beleza a cada instante é este Cavalo de Guerra. Janusz Kaminski (lendário colaborador de Spielberg desde A Lista de Schindler) maravilha-nos com visões campestres, magnânimos céus e a luz do entardecer. A silhueta no horizonte alaranjado daquele final resulta belíssima, profundamente poética. Vêm-nos à memória, não raras as vezes, os planos e enquadramentos de John Ford e Kurosawa. A direcção artística é notável (Rick Carter, Lee Sandales). John Williams está quase omnipresente, ao serviço da sensibilidade dramatúrgica e o trabalho de sonoplastia mostra-se igualmente cooperante e preponderante para esses efeitos. No inferno da peleja, Spielberg opta por não mostrar o sangue e a visceralidade de O Resgate do Soldado Ryan - tratam-se de propostas distintas e singulares. Cavalo de Guerra destina-se claramente a um público mais transversal. No entanto, tomadas como aquela, à entrada da floresta e após uma salva de metralhadoras, em que nos é mostrado um plano de dezenas e dezenas da cavalos mortos entre soldados - num filme como este - acaba por ser bastante impactante à sua maneira. O filme tece-lhes, a essas corajosas vítimas de quatro patas, uma declarada e merecida homenagem.

Poucos serão os filmes sobre animais, à data, tão sérios quanto Cavalo de Guerra. Sem dúvida, um dos melhores filmes de 2011 - e com tudo para se tornar um clássico.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FÚRIA (2014)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Fury
Realização: David Ayer

Principais Actores: Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Brad William Henke, Kevin Vance, Xavier Samuel, Jason Isaacs 

Crítica: 

CAVALOS DE FERRO

Ideals are peaceful. History is violent.

Se há género que proliferou em Hollywood, nas últimas décadas, foi o filme de guerra, retratando e reflectindo, especialmente e na grande parte das vezes, a brutalidade, o horror e a desumanidade da 2ª Guerra Mundial, cuja sombra ainda esvanece, cujas feridas ainda saram, cuja memória ainda não esquece. Ainda há sobreviventes, marcas e arte. Fúria continua a tradição e esse cânone, na sombra da guerra e, claramente, na sombra d'O Resgate do Soldado Ryan. A angústia da influência, como lhe chamaria Harold Bloom, é por demais notória e a comparação, se não necessária, pelo menos irresistível. Édipo não mata o pai - Ayer não foi nem é um Spielberg - no entanto, diria que estamos perante um digno discípulo, um bom filme do género.

D'
O Resgate diria que herda, a olhos vistos, os tons. Os tons, mas não o grão. Falo de cores e da atmosfera que estas possibilitam. A fotografia de Roman Vasyanov é absolutamente deslumbrante e é capaz de pintar o mais atrativo dos quadros perante o pior dos cenários. O plano de abertura - cujo mérito é mais do diretor de fotografia do que realizador - é magnífico: uma luz centrada, gélida e bruxuleante ilumina a tela, azulando-a. Vem do horizonte longínquo e parece inebriar a terra com uma quase neblina: não se percebe se o que vemos são arvoredos ou campos, pois não temos noção das escalas ou proporções. À medida que a luz se vai e o ecrã escurece, dá lugar a um vulto cavalgante. Somos reposicionados. E só quando a câmera solenemente decide mover-se finda o mistério. São poucos mas não meros segundos. Belíssimos. Dá gosto saborear, que abertura.

Também pelos ouvidos ecoa o mestre; aquele, o de 1998. A experiência de um filme de guerra vive-se sobremaneira pelo espectáculo sonoro e, nesse aspecto, Fúria jamais poderia defraudar o espectador. É com a fúria do título com que tiros, ricochetes e explosões irrompem cena a cena, retumbantes, reclamando a atenção e uma qualidade fora de série. Tanto os efeitos como a sua montagem são de primeiríssima linha - a equipa responsável é vastíssima e mereceria, com toda a certeza, a nomeação individual. Fica a menção honrosa pela brilhante sonoplastia. A composição musical de Steven Price é, de forma geral, subtil e temperada, pontuando ou alavancando, de forma sábia, os momentos narrativos. Sempre com o volume certo, à hora certa.

Feitos os principais destaques, foquemo-nos no elenco - um colectivo com um potencial poderosíssimo; notem-se os principais nomes: Brad Pitt (mega-estrela, com um historial de personagens que fala por si), Logan Lerman (claramente em ascensão e a ter em conta) e o malogrado 
Shia LaBeouf (malogrado por sua própria conta e risco, porque de talento está muito bem servido - aqui num notável underacting). Temos em Fúria grandes interpretações, pelo menos à altura do argumento, que orienta um road dos tanques ao sabor dos ataques e das investidas do inimigo. Um road movie como o filme de Spielberg e tantos outros propõem, num tempo em que a verdadeira cavalaria ganha força nos ares mas que em terra não é assegurada senão pelos tanques blindados, essas claustrofóbicas e assustadoras máquinas de guerra, que tudo levam à frente, conduzindo a ambição - e a esperança - humanas de campo em aldeia e em cidade, esmagando pó, carne ou osso. Cavalo a cavalo, todos sucumbem ao fogo e à destruição. Temos até direito a um duelo, em que só a maior astúcia ou inteligência poderá ditar a vitória. Animais, monstros, todos se tornam monstros, todos se transformam. Até o cândido Norman de Lerman, pela força das circunstâncias, quando o impulso ganha domínio sobre qualquer reflexão. Na guerra, não há tempo para isso.

Tivesse David Ayer mais cuidado e inspiração na encenação e na construção das cenas e estaríamos, provavelmente, perante um filme superior, mas não procuro, de todo, cair na tantas vezes fácil lamentação e exigência cinéfilas. Estamos perante um filme tremendo. O momento mais tenso e melhor conseguido será, porventura, aquele central em que as personagens de Pitt e Lerman sobem ao apartamento das primas alemãs. As diferenças linguísticas impõem, desde logo, uma barreira que rapidamente se esbaterá no respeito ou desrespeito com que os soldados tratarão as duas mulheres. A contrabalançar as violentas e viscerais sequências de acção que se antecederam e que se sucederão, esta
 cena mais demorada ou este acto mais delicado; nunca menos brutal ou impactante, pois... o que dizer do emocionante final, em que a coragem é extremada e aqueles homens se superam na defesa do tanque como quem defende a sua própria casa, até ao último fôlego? Que chacina, que final.

Fúria é, por tudo isto, uma homenagem maior a todos esses heróis que manobraram os míticos veículos, armados até aos dentes, atemorizados até ao mais profundo e recôndito lugar das suas almas. Uma homenagem, um retrato embebido num realismo esfomeado, um convite à reflexão, mas um filme. O filme dos tanques. E um filme que vale seguramente a pena. Não leva as cinco estrelas por uma unha negra.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Saving Private Ryan
Realização: Steven Spielberg
Principais Atores: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Matt Damon, Paul Giamatti, Adam Goldberg, Barry Pepper, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno, Leland Orser


Crítica: 

O HORROR DA GUERRA

 This time the mission is the man.

Sangrento, visceral, impiedoso, cru. O Resgate do Soldado Ryan é o mais violento e impressionante filme de guerra a que já assisti. Aquela já mítica cena do desembarque dos Aliados na praia de Omaha, na Normandia, tem como não ser uma das melhores cenas jamais filmadas? Golpe de génio de Spielberg, no cúmulo da sua seriedade: a ação é ultra-rápida, feroz e avassaladora, qual confronto real (a trémula câmera ao ombro assegura o hiper-realismo, o sangue e a terra salpicam a tela ou o ecrã), o tiroteio é incessante e ensurdecedor (detalhista e brilhante sonoplastia de Gary Rydstrom, Gary Summers, Andy Nelson, Ron Judkins) sobre a desesperada paisagem, transfigurada pelo inferno (a imagética é poderosíssima, deveras impressionante, mérito da magistral direção de fotografia de Janusz Kaminski; as lentes são engenhosamente manipuladas, o frame é granulado e desfocado se necessário, os tons esverdeados e cinzentos são dessaturados). As balas perfuram capacetes, as metralhadoras dilaceram corpos, o mar enche-se de sangue. A carnificina choca-nos o olhar, nauseia-nos o estômago, estremece-nos por inteiro (mérito inegável da equipa de caracterização: Lois Burwell, Conor O'Sullivan, Daniel C. Striepeke). Spielberg, imperdoável, não nos poupa a nada. Um soldado procura o resto do seu braço pelo areal. Outros tantos instigam a invasão e o contra-ataque em diante, plenos de adrenalina. Multiplicam-se as explosões, a brutalidade e a morte. Mais tarde, até o simples cair da chuva sobre as folhas das árvores e outras plantas nos soará a troada. 


 If God's on our side, who the hell could be on theirs?

Apesar de bélico por excelência e de tremendo na sua ação, furiosamente espetacular, O Resgate do Soldado Ryan desfere a sua filosofia a cada investida; não creio na violência pela violência. Há breves intervalos para o diálogo, para as conversas de circunstância, raramente algo de muito profundo - afinal, o homem ao nosso lado, com quem estreitamos a mínima afeição, é fuzilado no instante seguinte. Não há tempo nem espaço para a amizade, somente para o companheirismo, que se demonstra mormente no fulgor da refrega, no suor do imprevisível campo de batalha. Não há heróis; o heroísmo faz-se pela tenacidade do coletivo. O elenco de notáveis secundários, aliás, resplandece sobre essa pluralidade; passo a nomear: Tom Sizemore, Jeremy Davies, Edward Burns, Giovanni Ribisi, Vin Diesel, Paul Giamatti, Adam Goldberg. São todos homens iguais e comuns, organizados pelas hierarquias militares às quais juraram obediência ou serventia, mas todos com o mesmo propósito: lutar pela pátria. O Soldado Ryan é, pois, um filme de posições patrióticas, inequivocamente assumidas naquela bandeira hasteada ao vento e que nos aparece de forma circular, a abrir e a fechar a obra. A estrutura circular impõe-se também por força do prólogo e do epílogo, nos quais um velho homem (Harrison Young) se passeia entre os túmulos de militares idos; a música de John Williams confere solenidade e sentimento às cenas. Desconhecemos quem é aquele velho homem, claramente emocionado; certamente que abismado por memórias traumáticas. Faz-se acompanhar pela família, parece estar ali para homenagear alguém, depreendemos que provavelmente os companheiros que lutaram a seu lado, no passado. Quando os recorda e o flashback - em que consiste a maior parte do filme - nos faz viajar até ao fatídico 6 de Junho de 1944, instala-se a incógnita: será ele o Ryan do título, pelo qual se fará o resgate, ou o capitão John Miller (soberbo Tom Hanks), que a película a partir daí acompanha? A confusão é propositada e aliás potenciada por Spielberg, pela sugestão dos close-ups à cara de ambos. Só no fim a sublime montagem de Michael Kahn (determinante para o sucesso das sequências de ação e justamente de todas as outras) desvenda o mistério e dissipa as dúvidas que nos acompanharam durante toda a missão. 

Cenas memoráveis, para além da do desembarque? Mais que muitas. O resgate impulsivo de uma chorosa menina aos pais consumidos pela perda e pelo medo, a libertação de um alemão que mais tarde disparará sobre Miller, o humor escapista dos soldados, acalorados pela melodramática e sonante voz de Edith Piaf ao gramofone ou o intenso assalto dos tanques alemães à ponte armadilhada, no final, até à chegada dos P-51's - angels on our shoulders; outra das tão prodigiosas sequências de combate, maravilhosamente filmadas por Spielberg. É à medida que caminhamos para este final estrondoso, tão trágico como qualquer instante da guerra, que nos apercebemos da extraordinária recriação histórica, somente possível dada a excelsa dedicação da direção artística (Thomas E. Sanders, Lisa Dean) - veja-se o cenário de absoluta destruição, os edifícios em ruínas ou os montes de escombros.

A dado momento da conversa com Miller, o cabo Timothy E. Upham (inesquecível Jeremy Davies, como pacifista cobarde e alter-ego do espetador) cita Emerson, tentando convencer-se: War educates the senses, calls into action the will, perfects the physical constitution, brings men into such swift and close collision in critical moments that man measures man. Partilhando a temida, arriscada e perigosa experiência com aquele batalhão desde o desembarque, quase sobrevivendo dos disparos da mais variada artilharia tanto como eles, tal é a nossa imersão no universo do filme, sabemos que as palavras de Emerson são completamente desajustadas e que não fazem sentido algum. A guerra é um acontecimento desmesuradamente hediondo e vergonhoso e nada edificante; pelo contrário. Daí que o pensamento do bravo sargento Horbath (Tom Sizemore), por oposição, faça todo o sentido: Someday we might look back on this and decide that saving Private Ryan was the one decent thing we were able to pull out of this whole godawful, shitty mess. E que a dívida de gratidão do soldado Ryan (Matt Damon, acabado de atingir o sucesso em O Bom Rebelde) seja eterna.

Do que é que podem acusar esta inolvidável obra-prima? De sentimentalismo exacerbado no prólogo, interlúdio e epílogo? A sério? Não reconhecer a magnificência e o cânone posterior de O Resgate do Soldado Ryan (afinal, redefiniu a estética do género, às portas do novo milénio) deve ser frustrante. É, senão o melhor, seguramente um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Directed by... Steven Spielberg, versátil e eclético; sinais de maturidade e de sabedoria. Mais um exemplo de que, às vezes, uma realização sublime pode suplantar, a existir, qualquer fraqueza de um guião (Robert Rodart) e re-potenciar toda uma história.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A VIDA É BELA (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: La Vita è Bella
Realização: Roberto Benigni
Principais Atores: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giustino Durano, Giorgio Cantarini, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo, Raffaella Lebboroni

Crítica:

UMA TRAGICOMÉDIA EM DOIS ACTOS

 Buongiorno, Principessa!

Vislumbramos a perfeição, às vezes, na genuína representação de humanidade... e isso não é fácil, na arte. Em A Vida é Bela encontramo-la - com aparente simplicidade - tanto na comédia como na tragédia e é isso que é comovente. Este encantatório filme de Roberto Benigni - que em 1997 polarizou as atenções do mundo, uma vez mais, para o cinema italiano - pode não ser um exercício do maior dos formalismos - tão-pouco almeja a irreverência do cinema independente - mas encontra na sua graciosidade, espontaneidade e despretensiosismo - diria mesmo, na sua pureza e desarmante infantilidade - a sua absoluta singularidade e a capacidade inequívoca de despertar no espetador as mais sentidas e verdadeiras emoções. Não é fácil, também e da mesma forma, por isso, encontrar alguém, com o mínimo de humanidade, que não goste de A Vida é Bela.

Guido Orefice (imortal e, em tantos aspetos, autobiográfico papel de Roberto Benigni) é um infantil, divertido e excêntrico homem comum; qual clown, exagerado nos trejeitos e na eloquência, larger than life itself. Apesar da sua existência enfática, é humilde, é um bom homem. E é judeu, como nos viremos a aperceber mais adiante, o que, na Itália fascista do final dos anos 30 do século XX, à beira da guerra, não lhe augurará um promissor destino, pelo contrário. Benigni começa pela comédia e pela sátira: de Chaplin a Fellini, a herança é clara. A espirituosa e aclamada composição musical de Nicola Piovani acompanha a ação desde o primeiro instante e potencia os cómicos de situação e de personagem. Guido atrai as situações mais caricatas, mas também manipula as circunstâncias por forma a alcançar o humor picaresco (por meio da hiper-lucidez, nomeadamente, tão característica dos humoristas). E é neste contexto que se inicia a história de amor. Numa viagem ao campo, Dora (Nicoletta Braschi, mulher de Benigni na vida real) salta de um pombal e cai-lhe nos braços, sobre a palha. Buongiorno, Principessa! Guido fantasia, cheio de graça, e, na sua inocência, encanta. Mais tarde, já na cidade e inesperadamente, cai da bicicleta em fuga para os braços de Dora... sinal do destino. Buongiorno, Principessa! Depois, os acasos acabam. Daí em diante, embora continue a fabricá-los aos olhos de Dora, o romântico encontrar-se-á com a professora, uma e outra vez, porque potencia esses encontros... e a magia acontece. Guido sequestra-a da ópera num automóvel que não tardará a ficar descapotável e pleno de chuva. Uma demorada passadeira vermelha desenrola-se escadaria abaixo para a sua bela princesa passar. Montado baile adentro num cavalo verde, salva-a do seu não-pretendido noivo e leva-a até casa do tio, onde poderão viver felizes para sempre. Ou poderiam, não fosse a elipse e a assombrada mudança de resgisto que se seguem. 

Cinco anos depois, saem para a rua, a câmera não se move. A fábula chegou ao fim (ou não) e a história tornou-se mais imprevisível do que nunca. Séria e profundamente trágica, apesar do humor, ou sobretudo pela sua resistência. Têm um filho, Josué (adorável Giorgio Cantarini, em todas as suas expressões faciais), que bate o pé para não tomar banho (ironicamente, tal atitude salvá-lo-á mais tarde das câmaras de gás). Os três passeiam pela cidade de bicicleta, são felizes. Têm a livraria com que Guido sempre sonhou. É dia de aniversário da criança, mas... por serem judeus, Guido, o tio e o filho são inesperadamente levados para o campo de concentração, pelos alemães. Dora convence os alemães a meterem-na no mesmo comboio, para o mesmo destino. O resto do filme, é a sobrevivência no campo de concentração. Para evitar que Josué descubra a cruel realidade para que foi levado, Guido fantasia que estão num jogo: quem atingir primeiro mil pontos ganha e recebe um tanque de guerra verdadeiro. Encobrir a verdade, embelezando-a, torna-se uma mentira necessária, determinante para salvar aquela inocente criança e livrá-la, tão cedo quanto possível, do inevitável e monstruoso trauma do holocausto nazi. Espera-os a fome, o trabalho forçado, o cheiro da morte. Alimentar a esperança a este nível é absolutamente desarmante, perante tão terríveis circunstâncias. Mas que pai, que coragem... 

A Vida é Bela é um filme de atores e que ascende a um patamar superior por força do seu arrojado argumento, contudo não há qualquer desmérito por parte da fotografia (Tonino Delli Colli), da montagem (Simona Paggi) ou da cenografia (Danilo Donati, Luigi Urbani); esta última, aliás, notável. Uma última nota para a personagem Dr. Lessing (Horst Buchholz), o médico que Guido servia no restaurante do tio ainda antes da guerra, com o qual ganhamos simpatia pelo seu amor às adivinhas e aparente bondade e que muitos afirmam ajudar Guido e o filho quando estes estão no campo de concentração. Se ajudar Guido e o filho é levá-los a jantar com o inimigo, não creio que tenha sido grande ajuda. No fim acaba por não ajudá-los em nada, ignora-os e dá prioridade às adivinhas: mostra-se egoísta, insensível e tão desprezível como todos os outros militares do hediondo lugar. Que podia ele fazer? Talvez nada, ou ainda se arriscava a ser fuzilado como traidor dos nazis, mas termina - quem sabe se por cobardia - por trair Guido. Quer é saber a resposta à adivinha. Torna-se, na minha opinião, a personagem mais detestável de todas, à altura do Mal quase invisível que dita a morte aos injustiçados.

A Vida é Bela chega-nos, pois, como um acontecimento assustadoramente revoltante e arrepiante, capaz de nos desfazer a nós, espetadores, em lágrimas. É um filme derradeiramente apaixonante e inesquecível, tal é a sua poderosa e arrebatadora lição de otimismo e, por meio dela, o seu inspirador hino à vida; o título não é em vão, não é apenas ironia. Há como acabarmos de assistir a um filme deste calibre e, indiferentes, não repensarmos, reavaliarmos ou relativizarmos toda a nossa existência? Há, naturalmente, mais realismo n'A Lista de Schindler ou n'O Pianista. São visões e conceitos artísticos distintos e complementam-se no entendimento deste período negro na História da Humanidade.

Um irresistível triunfo cinematográfico.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

RESCUE DAWN - ESPÍRITO INDOMÁVEL (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Rescue Dawn
Realização: Werner Herzog
Principais Actores: Christian Bale, Jeremy Davies, Steve Zahn, Zach Grenier, Craig Gellis, Marshall Bell, François Chau, Pat Healydlund

Crítica:

SOBREVIVÊNCIA NA SELVA

The jungle is the prison.

Werner Herzog filma magistralmente a selva, sabemo-lo desde Aguirre, O Aventureiro, de 72. Os primeiros minutos de Rescue Dawn - Espírito Indomável nem auguram um filme excecional, mas é preciso que o avião de Bale se despenhe nos confins do Laos para que o drama (com contornos de aventura realista) se inicie e o filme revele os seus méritos artísticos, que os tem e são absolutamente notáveis.

Há que mencionar, antes de mais, que Herzog filma uma história verídica, que já havia documentado anteriormente em Little Dieter Needs to Fly; uma clássica e inspiradora história de sobrevivência com as potencialidades d'O Náufrago, de Zemeckis. Feito prisioneiro pelos guerrilheiros locais, a primeira parte da obra é sobre a sua luta pela liberdade; face à dureza e à impossibilidade das circunstâncias, Dieter conserva um otimismo obstinado e bem-humorado, absolutamente inesperado mas intrínseco ao seu carácter, que motivará os seus companheiros - do campo de guerra para onde é levado e no qual será torturado - para a esperança e para a ação, acabando por liderá-los para o escape. Plausíveis, intensos e fabulosos, os desempenhos de Christian Bale (mais um papel física e psicologicamente bastante duro e exigente, que o ator supera com uma coragem e uma entrega fora de série; estamos lembrados desse extremo que se atingiu em O Maquinista), Steve Zahn (tão verdadeiro na sua aparente apatia, como se de um fantasma deambulante se tratasse, consumido pelo medo; um ator que até então me passara completamente despercebido) ou Jeremy Davies (para mim um eterno e inesquecível secundário desse colossal filme de guerra que será sempre O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg). Os desempenhos são comoventes.

Quando se concretiza a planeada fuga, a selva torna-se a prisão já anteriormente anunciada pelo Gene de Davies, uma personagem muito mais impiedosa do que qualquer um dos capangas mal-encarados do Pathet Lao, um lugar onde os limites que se julgavam até então ultrapassados exceder-se-ão radicalmente, para lá da força humana, para lá do que alguma vez imaginaram possível. A luta pela liberdade dá então lugar à luta pela sobrevivência; a experiência será terrífica e profundamente marcante. Às tantas, Dieter e o distante Duane de Zahn vêem-se a partilhar o protagonismo do segundo acto com a selva. A contracena é por demais desigual. É por isso que o otimismo de Dieter acaba por ceder e se esvai na lama, como que abalroado pelo desmoronamento que as chuvas torrenciais, a dado instante e literalmente, provocam.

A fotografia naturalista de Peter Zeitlinger e os sons da natureza reproduzidos captam toda a exuberância e a humidade daquela paisagem verdejante, desconhecida e quase impenetrável, que envolve o aldeamento de palhotas de bambu e que nos envolve também a nós, espetadores, magnetizando-nos. O espirituoso trabalho de câmera quase que nos coloca naquele hipnotizante e ameaçador ambiente selvagem, quais personagens. Quase sentimos os cheiros e as temperaturas. Quase. Esta é uma indelével proeza: a autenticidade atinge tal nível que nos permite fazer parte da viagem emocional das personagens. A fluída banda sonora de Klaus Badelt conduz-nos e induz-nos para essa viagem.

A admiração que tenho pelo filme é clara; o que não me impede de salientar, todavia, que tinha potencial para atingir maior desenvoltura, formal ou dramática, assim tivesse uma abertura e um desfecho melhor trabalhados, enquadrados e filmados. Ainda assim, é um bom filme, com muito para se apreciar prazerosamente.

domingo, 26 de janeiro de 2014

MÁQUINA ZERO (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Jarhead
Realização: Sam Mendes

Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Laz Alonso, Brian Geraghty, Jamie Foxx, Skyler Stone, Wade Williams, Katherine Randolph, Chris Cooper, Lucas Black, Dennis Haysbert

Crítica:

NASCIDOS PARA... MATAR?

Welcome to The Suck.

Depois da magistral passagem pelo filme de gangsters com o virtuoso Caminho Para Perdição, eis que Sam Mendes se estreia no género guerra, regressando à sátira que tão bem trabalhou no aclamado e premiado Beleza Americana. William Broyles Jr. (o mesmo de O Náufrago) adapta a autobiografia do fuzileiro Anthony Swofford, sobre a sua frustrante experiência na guerra do Golfo, e o humor negro, por demais corrosivo, assume desde logo a ação, ridicularizando e criticando os excessos e os vazios da operação americana pelo abrasador deserto da Arábia Saudita, no início da década de 90. Pela eloquente narração de Jake Gyllenhaal - genuinamente intenso no seu papel - conhecemos a desconcertante perspetiva e apercebemo-nos do seu desencanto. Eis a auto-reflexão e o exame de consciência, a masturbação metafórica, que permitirá, quem sabe, a catarse.

O filme abre na recruta e em absoluta homenagem à primeira parte de Nascido Para Matar, de Kubrick. Muito antes de oferecer o corpo às balas, na linha da frente das estratégias do sistema político, integrar o serviço militar significa submeter-se à obediência cega dos superiores e à humilhação de superiores ou iguais, sem qualquer questionamento. Alheio a ideologias prévias ou a sensibilidades maiores, o processo de converter um jovem cidadão numa brutal máquina de guerra resulta de um certo estímulo da idiotice. Haverá outra forma de classificar a oratória e a linguagem, a praxe, os catigos e as punições, a autoridade excessiva, a privação da liberdade, a extinção da individualidade, da privacidade, da sexualidade, das relações sociais no meio original de cada um, onde petencem a alguém ou a algum lado? Onde constroem afetos e onde, sem refletirem sobre isso porque é um dado adquirido, têm identidade própria? As forças militares, pela necessidade que têm em desumanizar de alguma forma os seus filhos/produtos por forma a prepará-los para a defesa de um país, para o confronto e para a temível morte, podem condená-los a uma experiência, senão derradeira, profundamente traumática. Ser tropa é submeter-se a uma preparação tal que podemos chamar-lhe, ao processo, lavagem cerebral.

Chamam-lhes Jarhead, Cabeças de Jarro, por causa do penteado e porque têm que ter, realmente, a mente vazia como um jarro para suportarem o desconhecido que, nos piores casos, os espera... Swofford encheu-se de areia, descobrimos num pesadelo. Pobres coitados, aqueles cuja memória ainda invoca o conforto de outros tempos, e que se lamentam ou que choram por medo, por arrependimento ou por saudades. Só mortos não sentirão qualquer dor, naturalmente. Terão a dor de ficar doentes ou feridos ou enlouquecidos ou... como será aqui o caso, desesperadamente à espera de nada - bem que anseiam por disparar, mas esperam e esperam, os dias tornam-se semanas e meses e nada. Bem que imaginaram a refrega a rebentar ao som de Wagner, com negros e furiosos helicópteros a rasgar os céus com balas e destruição, como no genial Apocalypse Now de Coppola a que assistem com uma excitação tão infantil quanto animal antes de partirem para o deserto. Enfim, como se a guerra fosse cenário para heróis. Estavam tão longe de imaginar que o Golfo seria para eles um exercício de perfeita desilusão e inutilidade, de tédio elevado ao cubo, a que se poderia também chamar perda de tempo e de existência. Swofford certamente que lhe chamaria... masturbação. Sorte a deles, ou acabariam, se não pior, como aquele veterano que lhes entra pelo autocarro do regresso a casa.

O argumento - da narração aos diálogos e à sua construção - é dotado de assaz inteligência, perspicácia e irreverência. É brilhante, pois claro. Funciona como um murro no estômago, tal é a exploração do absurdo que o real mais parece, na maior parte do tempo, surreal. Edifica-se assim um filme que é de guerra sem o ser realmente - o que poderá desafiar a sua catalogação (não que isso seja importante) e ter defraudado as expetativas de muitos espetadores (que também não será o muito importante; cada filme é o que é). Como em qualquer grande filme de guerra, o elenco secundário confere autenticidade ao retrato, como é o caso especial de Jamie Fox e Peter Sarsgaard. A banda sonora - da original de Thomas Newman às canções sempre tão cool - ajudam à crítica ou à paródia, neste caso último como que gozando constantemente com tudo e todos. Os movimentos de câmera são sublimes na captação de toda a reportagem, preponderantes para a criação da tensão até ao limbo dos poços em chamas, e os enquadramentos da portentosa fotografia de Roger Deakins (assim como cada jogo de luzes e cores) atribuem à obra uma beleza e um esplendor para lá de arrebatadores. Raramente os quadros de um filme de guerra (ou passado no deserto) terão sido visualmente tão deslumbrantes e cheios de estilo como em Máquina Zero.

Um projeto arriscado, mas que por mérito artístico se consagra absolutamente vitorioso.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O PIANISTA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: The Pianist
Realização: Roman Polanski

Principais Actores: Adrien Brody, Thomas Kretchmann, Frank Finlay, Maureen Lipman, Emilia Fox, Ed Stoppard, Julia Rayner

Crítica:

If you prick us, do we not bleed?
If you tickle us, do we not laugh?

UMA HISTÓRIA DE SOBREVIVÊNCIA



If you poison us, do we not die?
And if you wrong us, shall we not revenge?

As frases com que me inicio são de Shakespeare, The Merchant of Venice (acto III, cena I). Sabe, quem conhece a comédia, que a eloquente passagem se refere às angústias do agiota judeu, a propósito da discriminação que sobre o seu povo recai, há séculos, injusta e desumanamente:

I am a Jew. Hath not a Jew eyes? Hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions; fed with the same food, hurt with the same weapons, subject to the same diseases, healed by the same means, warmed and cooled by the same winter and summer as a Christian is?

Quem diria que o anti-semitismo viria ainda a contribuir para um dos mais negros capítulos da História da Humanidade.

As frases com que me iniciei são proferidas por Henryk (Ed Stoppard), num momento que antecede a dolorosa separação da família, quando Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) o interroga sobre o que está a ler. Estamos no ano de 1942. Terminada a declamação, Wladyslaw remata: very appropriate. Estão rodeados por uma multidão de judeus: sedentos, famintos, pálidos, de pele e osso, sujos, doentes e em tremendo estado de choque. Recentemente retirados dos ghettos que os humilharam e desumanizaram por completo, são agora supervisionados pelos soldados da Gestapo: anseiam por paz, mas espera-os o horror dos campos de concentração.

Wladyslaw Szpilman era, até meados de 1939, um reputado pianista. Tocava para a Rádio de Varsóvia e o seu talento era unanimamente reconhecido. You musicians don't make good conspirators. You're too... too musical. Mas as imposições nazis, que a partir de então se fizeram sentir, anularam por completo qualquer reputação, qualquer integridade. Os judeus foram proibidos de entrar em restaurantes, de frequentar os parques, de andar nos passeios... Foram obrigados a ostentar a Estrela de David no braço, foram caluniados, esbofeteados, espancados, roubados, escravizados... o cerco apertou-se até serem reduzidos à mais miserável condição, à mais miserável existência. Em Outubro de 1940, tiveram que abandonar as suas casas e partilhar as divisões do distrito judeu com centenas e centenas de famílias condenadas. Venderam todos os seus bens, esconderam cada nota e, ainda assim, alimentaram-se do ar, tal era a escassez de alimento.

I blame the Americans. (...) American Jews, and there's lots of them, what have they done for us? What do they think they're doing? People here are dying, haven't got a bite to eat. The Jewish bankers over there should be persuading America to declare war on Germany!

... diz o pai do pianista.

Os judeus, impotentes, limitaram-se à extrema situação. A revolta, por mais organizada que fosse, revelar-se-ia sempre ineficaz. A única eficácia talvez fosse apenas a morte com dignidade.

Germans never go into Jewish toilets. They're too clean for them.
Majorek

Roman Polanski, que também em criança testemunhou - na pele e na alma - os horrores do holocausto e das perseguições nazis na Polónia, filma este impressionante drama com uma frieza implacável, com uma tenacidade e com uma mestria incríveis. Há cenas verdadeiramente chocantes, tocantes e derradeiramente excepcionais: a morte do menino pelo buraco do muro, a dança do gozo e humilhação, o comer directamente do chão, o homicídio do paralítico a partir do terceiro andar, a partilha de um só caramelo de 20 zlotes entre todos, as sádicas chacinas em fila, etc. O filme vive muito dos planos estáticos e do poder da encenação, vive do poder destroçante das imagens. A mise en scène é cuidada e minuciosa, perfeitamente iluminada e fotografada (Pawel Edelman). Os valores artísticos por detrás da reconstituição histórica são elevadíssimos (Allan Starski, Nenad Pecur, Wieslawa Chojkowska e Gabriele Wolff). O notável guarda-roupa é da consagrada Anna Sheppard (estilista responsável, entre outros grandes trabalhos, pelo figurino do extraordinário parente A Lista de Schindler). O filme vive também dos silêncios ou das erudição das peças musicais: Beethoven, Bach, entre outros, mas sobretudo Chopin. A banda sonora original é de Wojciech Kilar. Aquele clarinete a solo é tão solitário e desolador quanto a aterradora experiência de Szpilman. A obra vive ainda e sobretudo dos desempenhos dos actores, em especial da assombrosa e transfiguradora performance de Adrien Brody.

Quando o conhecido e influente Yitzchak impede que Szpilman parta com a família no comboio, inicia-se um percurso a sós; que se revelará, porventura, as etapa mais difícil e agoniante de todas. Primeiramente, Szpilman ainda se sujeita ao trabalho na construção civil, sob as ríspidas e repressivas ordens dos soldados alemães.

Know why we beat you? Know why we beat you?
(...) To celebrate New Year's Eve!

... exclama um dos monstros, alcoolizado.

Mas a esperança de escapar nunca se esvaiu, nos momentos de maior lucidez. I want to get out of here, afirma um dia ao colega Majorek, que reencontra na empreitada. It's easy to get out - responde-lhe o recluso - it's how you survive on the other side that's hard. Num outro dia, por sorte, proporciona-se a fuga. Valem-lhe amigos antigos que, ainda que polacos e ameaçados pela propaganda de Hitler, se recusam a ignorá-lo, sem o ajudar. Dão-lhe tecto, alguma comida, algumas condições... esconderijos mais ou menos seguros onde deverá aguardar, no mais profundo isolamento, pelo fim do conflito. Tendo um piano em frente e sem poder tocá-lo, com medo de ser denunciado, imagina a concretização máxima da partitura, imagina Chopin, inspiradamente interpretado. Falta-lhe a música, falta-lhe o alento, falta-lhe a família, falta-lhe praticamente tudo. Passa tanto tempo sem falar que quando as explosões se fazem ouvir nos arredores, cada vez mais perto, apenas consegue balbuciar, assolado pelo pânico.

1944. Quando os tanques lhe invadem a rua, foge uma vez mais, ensurdecido pelas explosões. Aquele plano sobre a avenida em ruínas, depois do muro, é tão... silenciadora... Até ao final da obra, sucedem-se as elipses e os episódios. Szpilman não parece mais o mesmo: em trapos que nem um mendigo, cresceram-lhe o cabelo, a barba e o sentimento de perda. Encontra uma lata de conserva, mas não tem força nem física nem psíquica para pensar numa forma de abri-la. Inesperadamente, vê-se frente a frente com um Capitão do exército alemão (Thomas Krestschmann, portentoso no underacting). O momento é, verdadeiramente, de cortar a respiração.

Play.

Szpilman ainda hesita ao pedido, mas não resiste à possibilidade de finalmente voltar a tocar piano. E o piano ali está ao lado, no meio da sala abandonada, iluminado por um frio feixe de luz. O militar apoia-se no piano e observa-o. E Szpilman toca. Toca com toda a alma e coração, na concretização plena de um momento catártico. Condoídos pelos terríveis acontecimentos que o pianista viveu, e que tão sofregamente presenciámos, somos incapazes de interromper aquela música profundamente sentida... Não há espaço para maniqueísmos - o alemão ajuda-o: dá-lhe comida, um casaco, um abre-latas. Dá-lhe uma última e derradeira esperança. Talvez sobreviva a tempo da chegada dos russos, talvez sobreviva a tempo da libertação. Talvez sobreviva, afinal, para contar a história. Enfim, cenas memoráveis, no culminar de um clássico absoluto e obrigatório.

Grande, grande pedaço de cinema.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OS CAVALEIROS (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Horse Soldiers
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, William Holden, Constance Towers, Judson Pratt, Hoot Gibson, Ken Curtis, Willis Bouchey, Bing Russell, O.Z. Whitehead, Hank Worden, Chuck Hayward

Crítica:

A MISSÃO DOS AUDAZES

War isn't exactly a civilized business.

Guerra Civil Americana, 1863. As duas frentes inimigas estão prestes a colidir, uma vez mais. Os Cavaleiros acompanha a liderança do rígido coronel Benjamin H. Grierson (John Wayne) sobre as suas tropas. No terreno, a guerra é um universo de homens: duros, bravos e com bastante sangue frio. Na incessante luta pelo ideal nacional, não há lugar para fraqueza ou desistência e só um comando forte pode conduzir à vitória.

Ninguém lhe faz frente, a Grierson, até à chegada do major Henry Kendall (William Holden), médico e cirurgião, que lhe desobedecerá várias vezes em prol da saúde e das vidas de soldados e vítimas colaterais dos confrontos. O filme assentará essencialmente no conflito entre ambos, encontrando o seu clímax num acalorado duelo, sendo que ao mesmo tempo cresce - e aí é que reside a particularidade desta relação - uma amizade sólida entre os dois militares. Outra relação contraditória, na qual assenta a narrativa do filme, é aquela que se estabelece entre ambos e a deslumbrante e destemida Miss Hannah (que deixa perceber o machismo daquela cultura). Apesar do humor e da acção espectacular, temos no cerne deste western de guerra as relações humanas. Nada de novo, portanto, num western de John Ford.

Poderemos dizer que Os Cavaleiros é mais um western de John Ford e, ao dizê-lo, sabemos de antemão que só poderemos estar perante mais um grande filme. Impecável a nível técnico, sobretudo na fotografia de William H. Clothier.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

BRISA DE MUDANÇA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Wind That Shakes the Barley
Realização: Ken Loach
Principais Actores: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Gerard Kearney, William Ruane

Crítica:


INDEPENDÊNCIA INGLÓRIA



I tried not to get into this war, and did,
now I try to get out, and can't.

Quão vergonhosa pode uma guerra civil ser. Quão revoltante pode a natureza humana ser. Matamo-nos a nós próprios, sem piedade, apesar da dor. Aquela relação de irmãos - entre Damien (Cillian Murphy) e Teddy (Padraic Delaney) - sinedoquiza, passe o necessário neologismo, toda a história da Irlanda que Loach tão tensa e intensamente abraça representar. Até que ponto a defesa de um ideal nos separa, traindo o coração e o nosso próprio sangue.

Strange creatures we are, even to ourselves...

Brisa de Mudança
grita o socialismo e a liberdade patriótica, entre a natureza
verdejante (sublimemente fotografada por Barry Ackroyd) e o intimismo familiar. O argumento (Paul Laverty), associado de raiz ao retrato histórico e à leitura política, encontra a sua força na autenticidade da tragédia, longe do melodrama ou da romantização. Há aqui um realismo austero, que intensifica os sacrifícios dos homens, e para o qual contribui decisivamente a direcção artística e o guarda-roupa. O jovem elenco está ao nível das exigências dramáticas, sobretudo a dupla acima referida, que protagoniza a trama.


Horror, medo, esperança. Brisa de Mudança é um filme de todos estes sentimentos, sobre a génese da rebelião. Grande filme.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões