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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PORCO ROSSO - O PORQUINHO VOADOR (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Kurenai no buta
Realização: Hayao Miyazaki
Vozes: Shûichirô Moriyama, Tokiko Katô, Bunshi Katsura Vi, Tsunehiko Kamijô, Akemi Okamura, Akio Ôtsuka, Hiroko Seki, Reizô Nomoto, Osamu Saka, Yu Shimaka

Crítica:

OS PIRATAS DOS CÉUS 

Porco Rosso é tanto mais do que um prodígio visual da tradicional animação de Miyazaki e dos estúdios Ghibli.

É uma divertidíssima comédia, onde se multiplicam as situações mais caricatas e onde brotam as personagens mais espontâneas e inesperadas (recordo, por exemplo, as quinze pequenas meninas raptadas pelos piratas dos céus, logo na abertura, de coragem e inocência desarmantes). É um filme de acção, no qual se superam as perseguições da maquinaria e as manobras mais alucinantes, rasgando as nuvens e as alturas. É uma história de aventuras, com bons e maus a partilharem acontecimentos extraordinários e que fazem tréguas somente no bar da Gina, para beber uns copos, fumar uns cigarros e desfrutar dos prazeres da vida. É um romance adiado, entre a famosa cantora da ilha e o aviador enfeitiçado: há uma eternidade que a charmosa mulher o espera nos seus jardins, mas o porco tem vergonha da sua aparência e não se acha digno dos seus encantos e atenções. Surge também Fio, a jovem engenheira, que depressa se torna o motor da história, capaz de alavancar as mais resistentes engrenagens. Porco Rosso assume-se, não raras as vezes, aliás, como uma ode ao feminino, desempenhando as mulheres os papéis mais maduros e destemidos, face às agruras das circunstâncias e à infantilidade dos homens, que se entretêm entre competições e lutas absurdas. A possibilidade do amor é inebriada pela sombra da tragédia - o passado tem um peso decisivo no desenrolar dos acontecimentos presentes e, por isso, os flashbacks revelam-se essenciais para o aprofundamento da história e das personagens. Num desses flashbacks, absolutamente fantástico e belo, transgridem-se as fronteiras da metafísica e a obra abre portas a um entendimento mais filosófico.

A história original de Miyazaki, ao passar-se num espaço e tempo específicos - o Mediterrâneo dos anos 30, no intervalo entre guerras - inscreve-se ainda no retrato histórico.  Porco sabe-se um desertor desonrado, sente-se um mercenário hediondo e não o bravo herói que todos reconhecem nele. O outrora Marco sabe perfeitamente: a guerra transforma os homens em porcos. E a sua aparência mágica não é senão a materialização de um castigo superior. A aparência original e, com ela, a redenção, julga-as de todo impossíveis. As boas acções podem quebrar o feitiço. E o amor genuíno e o beijo, qual Princesa e o Sapo. A inspiração da fábula está lá, mas Porco Rosso não chega a sê-lo propriamente. O filme enche-se de liberdades artísticas, típicas da animação, porém jamais se distancia por aí além do real. Da fábula tem apenas apontamentos e, por fim, a solução.

- Qual é a diferença entre lutar numa guerra e ser um mercenário?
- Só os desonestos ganham dinheiro com uma guerra. Mas só os idiotas não ganham dinheiro como mercenários.

A cada género ou sub-género que o filme sobrevoa, destila-se uma paixão fervorosa pela aviação, que a eclética banda sonora de Joe Hisaishi acompanha com todo o carinho e entrega. Aliás, as proporções tanto dramáticas quanto oníricas que Porco Rosso atinge devem-se essencialmente à mágica relação das pinturas em movimento, sempre deslumbrantes, com as envolventes músicas do compositor. As notas do seu piano são um autêntico milagre.

Porco Rosso tanto é um adorável filme para crianças como salta para um doloroso filme de adultos, cheio de conotações, leituras e lições históricas, políticas e sociais. É sobretudo, diria, um filme profundamente humano. E, talvez por isso, um dos meus preferidos do mestre Miyazaki.

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

sábado, 22 de janeiro de 2011

O MEU VIZINHO TOTORO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tonari no Totoro
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MAGIA DE SER CRIANÇA


Se há obra sobre a infância e durante a qual me vejo a regressar nostalgicamente ao passado, essa obra é O Meu Vizinho Totoro, realizada por Hayao Miyazaki. Creio, francamente, que o aclamado mestre da animação japonesa concebeu, ao longo da sua carreira, obras tecnicamente superiores a esta; veja-se, por exemplo, O Castelo no Céu, Princesa Mononoke ou A Viagem de Chihiro; cada título mais belo do que o outro. No entanto, acredito que a virtude maior de Totoro é o seu âmago narrativo, deveras especial, pelo qual se distingue dos demais. Aqui não há vilões, não há maldade, não há intriga ou trama propriamente dita ou uma história com princípio, meio e fim, no sentido convencional da expressão. A aquarela, de um esplendor visual arrebatador e absolutamente fascinante, floresce, a um ritmo tão calmo, a partir das situações do dia-a-dia, da espontaneidade das circunstâncias, até que ganha riqueza e complexidade semântica e interpretativa com a fertilidade do imaginário infantil.

A história de
O Meu Vizinho Totoro inicia-se com a mudança da família Kusakabe para o campo, entre prados verdejantes, águas cristalinas e uma floresta misteriosa, por causa da recente hospitalização da mãe na proximidade. As irmãs Mei (a mais nova) e Satsuki (a mais velha) viajam com o pai, muito animadas, até que chegam a uma casa aparentemente assombrada e a sua criativa imaginação desperta. Fantasmas, acreditam. A exploração da casa e dos arredores torna-se facilmente uma aventura, onde a magia despontará até das bolinhas pretas da fuligem: espíritos da floresta, místicos rituais, um gato-autocarro, e um trio de animais tão fofinhos quanto monstruosos, que facilmente poderia comparar a bonecas russas, caso estas mudassem de forma. Entre eles, o gigante e caricato Totoro. Só as crianças podem ver estas incríveis maravilhas - as crianças são, afinal, seres privilegiados. A possível morte da mãe e necessidade de assumir responsabilidades (inerentes ao crescimento) são os únicos factores que põem à prova a alegria e a união da família; a família que, ela própria, nos é apresentada como um elemento fundamental na vida e no equilíbrio dos homens. Notável, aquela simples cena em que pai e filhas tomam banho nus com a maior naturalidade do mundo. Quem se lembraria de inventar uma cena destas para um filme tão marcadamente infantil? Lá está, que pureza. E que delicadeza, aquela que Miyazaki aplica no manejar das emoções entre as personagens. Que sensibilidade.

O deslumbramento do espectador faz-se frame a frame e cada frame é, com o devido primor e requinte, pintado à mão. A banda sonora de Joe Hisaishi é qualquer coisa de extraordinário: há melodias divertidas, outras emocionantes e envolventes, umas emanam saudade... todas emanam vitalidade. Magistrais composições.

No seu todo, O Meu Vizinho Totoro não é senão o regresso à pureza original, onde há bondade e segurança ao virar das esquina, e à verdadeira idade da inocência, onde abunda a felicidade plena. Um milagre de filme. Fabuloso.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O CASTELO NO CÉU (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tenkû no shiro Rapyuta
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A CIDADE FLUTUANTE


O mundo antigo, o paraíso perdido, o sonho e a fantasia de voar. A lenda, o mito e a mais bela história de encantar, de quando os Homens abandonaram os céus e povoaram a terra. A cidade e o campo, a indústria e a natureza, o choque e os perigos da evolução civilizacional. A importância de estabelecer um equilíbrio, onde o progresso seja guardião da essência natural das coisas. A importância do amor, dos sentimentos e dos valores, numa realidade de ódio, rancor e intolerância. A necessidade de escape e de evasão dos problemas mundanos para um universo fantástico. A experiência e a descoberta da vida, num ritual fundamental de crescimento e amadurecimento. A busca da identidade e a humanização do espírito.

Máquinas voadoras, hélices, rodas e engrenagens, barulho e fumos e, por outro lado, extensos prados verdejantes e floridos, águas cintilantes e cristalinas, ventos mansos e silêncios. Tudo isto povoa o imaginário de O Castelo no Céu. Pazu é um menino feito homem: órfão, vive da ajuda dos amigos e do trabalho árduo nas minas. Não é um escravo do trabalho. É, antes, um engenhoso rapaz que
cedo provou as dificuldades da vida e da miséria e que conhece perfeitamente o peso e a recompensa das responsabilidades. Um dia, cai-lhe do céu uma menina flutuante, iluminada por poderoso e iluminado cristal azulado. A menina dorme, aparentemente em paz, mas o prólogo que antecedeu os créditos iniciais bem que nos deu conta do contexto conflituoso que lhe provocou a queda.

A pequena, de seu nome Sheeta,
é - sem saber - a princesa Lusheeta Toel Ul Laputa, herdeira do fabuloso rochedo. Detém uma raríssima Pedra da Levitação, preciosidade de um mineral ancestral chamado Etério, que a avó lhe dera antes de abandonar o mundo dos vivos e que é a única pista para descobrir o paradeiro da misteriosa ilha, suspensa na imensidão dos céus (a intertextualidade com a obra de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver é obvia. Outras fontes de inspiração são assumidas, como Júlio Verne ou a Bíblia). Por isso é perseguida pelos piratas de Dola e pelos oficiais de Muska, que a todo o custo querem saquear os tesouros da fortaleza errante. Pazu, por sua vez, carrega os sonhos do pai, aviador, que afirmara ter avistado um dia Laputa, sem que ninguém tivesse acreditado nele.

A emocionante e envolvente música de Joe Hisaishi seduz-nos e inebria-nos numa viagem sem igual, numa mágica e extraordinária aventura. Sem limites. A exuberância visual da animação tradicional de Miyazaki deslumbra-nos
. A história faz de nós, espectadores, verdadeiros reféns, vibrando ao sabor da acção desenfreada ou rindo, genuinamente, com as hilariantes personagens que compõem a riqueza plural da narrativa. No final, toda a ambição do Homem conduz à destruição. Robots e gigantes objectos voadores engolem os seus destinos. Quando as ruínas de uma imponente e esplendorosa arquitectura vacilam, a árvore persiste e resiste. A imagem detém uma carga simbólica imensa, que fala por si só.

O Castelo no Céu não é, pois, senão um dos mais maravilhosos e imprescindíveis filmes de Hayao Miyazaki. De um candor etéreo e puro e de uma beleza desarmante, que - certamente - fascinará miúdos e graúdos, gerações após gerações. A mim, conquistou-me por completo e atrevo-me a dizer que é um dos melhores filmes de animação de todos os tempos.

_________________________________________
Louvável, a recente Colecção Estúdio Ghibli que a LNK empreendeu.
Lamentável, no entanto, que a legendagem se faça a partir da dobragem em inglês, que nem sempre coincide com o idioma original japonês que vigora no DVD. Ou seja, são frequentes as legendas que aparecem magicamente no ecrã, sem correspondência sonora.

PRINCESA MONONOKE (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mononoke-hime
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A NATUREZA, O HOMEM E A MÍSTICA HARMONIA


Sítios mágicos, criaturas falantes, espíritos inquietos, histórias incríveis. Princesa Mononoke não é senão uma dessas extraordinárias criações do mestre Hayao Miyazaki, concebida com assaz sensibilidade e passada nesse rico e fascinante universo de fantasia. Visualmente deslumbrante e encantatória, a história da rapariga que vive entre os lobos e que defende a floresta da destrutiva ambição dos humanos da Cidade do Ferro é também uma aventura épica, de contornos violentos e manchados de sangue. Uma narrativa complexa, metafórica e imersa em símbolos que vem provar que a animação é muito mais do que mero entretenimento para crianças. É a arte do belo, ao nível das mais conceituadas expressões cinematográficas.

Quando o jovem Ashitaka, defendendo o seu povo, é amaldiçoado de morte por um demónio estrangeiro, vê-se no dever de seguir os desígnios da vidente da aldeia e abandonar os Emishi para sempre, procurando a cura nos confins do desconhecido, num Japão onde confluem mitos e referências medievais. Os destinos do rapaz conduzem-no até Tataraba, a Cidade do Ferro, governada por Eboshi - uma mulher tão aplicada na defesa dos seus protegidos (leprosos e refugiadas de bordéis, nomeadamente) como na exploração dos recursos da floresta, para impulsionar a indústria da cidade. Uma mulher, aliás, como qualquer uma das personagens da obra: de natureza ambígua, de natureza humana, longe de maniqueísmos redutores. Ninguém é, portanto, totalmente bom ou totalmente mau. Quando Ashitaka conhece San, a princesa Mononoke, desenvolve para com ela uma enorme cumplicidade: afinal, ela representa a coexistência ideal entre o Homem e a Natureza. Sem nunca tomar uma das posições contrárias, antes lutando pelas duas naquilo que elas têm de melhor, Ashitaka ver-se-á no meio de uma guerra de interesses entre as gentes de Tataraba, os samurais do imperador e os deuses do bosque (sejam eles javalis, lobos ou espíritos mágicos).

A mensagem ecológica subjacente é importantíssima. A alegoria traça o esboço de uma espécie capaz de dizimar os seus recursos naturais, os habitats de inúmeras espécies (vegetais e animais) e que acabará por sofrer a derradeira vingança da Natureza. Desse prisma, Princesa Mononoke é uma viagem espiritual. Um profundo e emocionante reencontro com os nossos valores primordiais, de paz e respeito para com o ambiente circundante - pulmão e coração da Terra e essência da nossa vida.

Detentora de banda sonora magnífica (Joe Hisaishi), de uma fotografia sublime (Atsushi Okui) e de uma montagem notável (Hayao Miyazaki e Takeshi Seyama), Princesa Mononoke irradia esplendor na perfeição do seu desenho e no detalhe da sua pintura. Um clássico instantâneo, magistralmente filmado, emocionalmente poderoso.

PONYO À BEIRA-MAR (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Gake no ue no Ponyo
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MENINA DO MAR

A vida é misteriosa e maravilhosa
- diz Lisa, a mãe de Sosuke - e assim é a animação de Hayao Miyazaki.
Ponyo à Beira-Mar é um autêntico delírio visual - mais um, cheio de cores e magia, misturando com extraordinária imaginação e criatividade universos tão distintos como o real e o imaginário. Num tom mais infantil, o japonês revisita valores clássicos como a beleza, a pureza, a inocência, a bondade e o amor num filme absolutamente refrescante na sua filmografia.

A obra abre, ainda antes dos créditos iniciais, com uma sequência de slumbrante e quase inebriante nas profundezas do oceano. Depois, até ao final, somos envolvidos num mundo fabuloso e irresistível, imerso em mitologias e superstições, à deriva em sonhos, mas a salvo em humanidade. Não devemos julgar os outros pelo aspecto. A minha cena favorita é aquela em que o Sosuke e a mãe comunicam com o pai em alto mar, por meio da luz cintilante. É tão bonita, tão tocante... E é claro, outras tantas inesquecíveis como aquela em que a jovem se transforma em humana e corre as águas e os peixes, ou aqueloutra em que a Deusa do Mar aparece entre o luar e brilhos dourados, na surreal agitação das ondas.

A narrativa é linear e mais simples do que noutros títulos do autor, é certo, mas n ão é por isso que abandona, por completo, o carácter metafórico e ambíguo que é habitual. O filme conta com uma grande componente auto-biográfica (Sosuke representa, por exemplo, o filho do próprio realizador e a velha rezingona Toki a sua mãe), com alegorias e significados muito pessoais, e ainda com a crítica à poluição dos mares e à caça abusiva: por outras palavras, os excessos do Homem e as suas destrutivas consequências para a Natureza - Os seres humanos são nojentos! - tópico aliás recorrente, note-se a obra Princesa Mononoke. Implícita está ainda a capacidade de a Natureza, ela própria, se vingar pelas catástrofes e procurar, desse modo, o equilíbrio primordial.

Quando as cheias devastam a cidade portuária e Sosuke e Ponyo partem à proc ura da mãe do rapaz naquele barco enfeitiçado, há um confronto com a morte, atenuado pela poesia da animação. Aquela bolha no fundo do mar, que acolheu a gente do lar de idosos, não é senão uma metáfora do Paraíso. Quando, fugindo à maldição de Fujimoto, Sosuke cai nos braços da velhota da cadeira de rodas, dá-se o encontro simbólico entre o filho e a mãe de Miyazaki, entre o ser-se velho e ser-se criança: o estado priveligiado do próprio Miyazaki, capaz de abraçar a morte, na poesia do adeus, e de atingir, pela arte, a imortalidade.

Naquela bolha marítima, há milagres e magia e tudo é possível... É possivel transcender a morte, ultrapassar os desígnios naturais que uma intempérie daquelas causaria. É possível regressar à superfície, onde o amor triunfará. Na arte tudo é possível. Não há limites. E assim é o cinema de Miyazaki. Enquanto crianças, poderemos ficar-nos sempre pela simplicidade de uma primeira leitura. E, da mesma forma, perder-nos-emos na fantasia... e na infinitude dos sonhos.

Irrepreensível no desenho e na pintura e dotado ainda de uma magnífica e cristalina banda sonora (Joe Hisaishi), eis, pois, um filme totalmente delicioso.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A VIAGEM DE CHIHIRO (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Sen to Chihiro no kamikakushi
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

CHIHIRO
NO PAÍS DAS MARAVILHAS

A Viagem de Chihiro consiste numa extraordinária viagem ao desconhecido e ao mundo dos s
onhos. É uma metáfora sobre a descoberta, a (in)adaptação a um mundo novo e a problemática de manter nele a totalidade de nós próprios: as nossas origens, a nossa identidade e o nosso nome.

Visualmente fascinante e mágico, a cidade das termas que vive no interior daquele edifício enorme não é senão um rico e incrível universo de criaturas estranhíssimas, personagens marcantes e cenários de uma beleza arrebatadora. As bruxas gémeas Yubaba e Zeniba, o escravo Kamajî (de seis braços, entre caldeiras e fuligem), o mestre Haku (menino, rio e dragão protector), o Cara-de-Sapo, o Sem-Face, o bebé gigante, os monstros dos corredores, os deuses fedorentos... É pura fantasia, é a arte do belo na sua concretização superior e um mergulho vertiginoso no génio poético de Myiazaki. Confluem-se lendas e mitos, símbolos e valores ancestrais. Superando uma série de perigos e peripécias, Chihiro descobrirá o amor e a coragem que a definem. Atravessar aquele túnel, ao mesmo tempo que marca a transição entre o real e o imaginário, simboliza o início e o fim de uma importante experiência de crescimento e enriquecimento pessoal.

A concepção do desenho e o tratamento da pintura é magistral e a banda sonora de Joe Hisaishi é tão emocionante e inspiradora como o próprio fi
lme. Mais do que provada fica a excepcional arte de filmar e de fazer animação de Hayao Myiazaki. Uma obra-prima absoluta.

domingo, 7 de setembro de 2008

O CASTELO ANDANTE (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: Hauru no ugoku shiro
Realização: Hayao Miyazaki
Vozes: Chieko Baisho, Daijiro Harada, Akio Ôtsuka, Yo Oizumi, Mitsunori Isaki, Ryunosuke Kamiki, Tatsuya Gashuin, Akihiro Miwa, Takuya Kimura, Haruko Kato, Ken Yasuda, Shigeyuki Totsugi

Crítica:

O FEITIÇO DO AMOR 

 O coração é um fardo pesado.

Prepare-se para ser enfeitiçado. Desengane-se se pensa que O Castelo Andante é um filme para crianças. É, absolutamente, para as crianças que já fomos e para os adultos que, mais ou menos envelhecidos, ainda somos e ainda seremos enquanto os nossos olhos conseguirem enxergar a beleza. As aparências iludem e o filme não é o que parece. Parte numa direcção e revela-se noutra. É todo ele sobre as aparências - nele tudo se disfarça, tudo se transfigura, tudo se transforma. Daí o risco de assistir a'O Castelo Andante munido de preconceitos ou expectativas. É que o que o mestre Hayao Myiazaki desta vez propõe é bem mais complexo e menos evidente do que seria de esperar, mesmo até para quem se maravilhou com os meandros surreais e fantásticos de A Viagem de Chihiro.

Desde o primeiro momento, a orquestração musical de Joe Hisaishi e Yumi Kimura, na sua sonante excelência, envolve-nos, abraça-nos e emociona-nos. O esplendor visual de O Castelo Andante inebria-nos a cada instante: o seu desenho, pintura e expressão em movimento atingem uma sublimidade inquestionável, naquele que é, provavelmente, o expoente máximo do requinte imagético na filmografia do cineasta. A música, aliada à imagem, têm um poder imenso num filme como este. Nada que não esperássemos já de um filme de Myiazaki - só que se por um lado O Castelo Andante nos atrai e maravilha os sentidos, num golpe de asa, por outro estimula-nos o intelecto como nenhum outro filme seu até então.

Sophie trabalha numa chapelaria e transforma o aspecto das pessoas. Quando é enfeitiçada pela Bruxa do Nada, ganha a aparência de uma velha curvada e rugosa. Howl, o feiticeiro sem coração, é refém da aparência - o aspecto para ele é tudo e ornamenta-se com imensos acessórios. Os seus aposentos revelarão o quão obcecado e maníaco é por jóias e objectos e bens materiais. Markl, a criança do castelo que praticamente metaforiza a essência infantil (ainda existente) de Howl, mascara-se de anão barbudo para receber os seus clientes. Calcifer, hilariante demónio de fogo, tem uma natureza secreta que só mais tarde descobriremos. O espantalho cabeça-de-nabo é muito mais do que um guia saltitão e inexpressivo. Até a Bruxa do Nada é muito mais do que uma malvada egoísta - a magia tornou-a um monstro e, assim que fica sem poderes, a sua exuberância derrete e revela a sua verdade. A Bruxa do Nada representa tudo aquilo em que Howl se poderá tornar se se deixar consumir completamente pela magia. Até o castelo, essa parafernália e amálgama de ferro, madeira, casas e fumos, com pernas de galinha e língua e olhos à semelhança dos Homens, é um agente em constante mutação, espelhando o estado do seu senhor. Calcifer é o coração daquela edificação ambulante e simultaneamente - literalmente - o coração de Howl. A magia é antiga e resultou numa maldição. Howl refugia-se do mundo num castelo andante capaz de desaparecer nas nuvens e na distância. Reza o mito que o feiticeiro anda de terra em terra a conquistar os corações de jovens raparigas, mas Howl foge é de si mesmo. Cada vez que se arranja, escapa. Não podemos julgá-lo por se refugiar no superficial - afinal, na essência, não tem coração.

Beleza vs. feiura, juventude vs. velhice... Note-se como Sophie - quando dorme, sonha, se mostra apaixonada ou genuinamente se aceita como é - quebra parcialmente o feitiço, tornando à beleza da juventude, como se também ela fosse uma bruxa e tivesse poderes (na verdade, no livro de Diana Wynne Jones no qual Myiazaki se baseia, a protagonista é efectivamente uma feiticeira). Não obstante - e também aí reside muito da beleza da proposta - as personagens cedem ao amor e apaixonam-se verdadeiramente por aquilo que são, não por aquilo que aparentam. Sobre qualquer magia ou maldição, o amor... essa misteriosa força capaz vencer qualquer batalha, qualquer guerra. Sophie personifica o amor e é pelo amor que consegue falar ao coração de Howl, Calcifer, e interferir tão eficaz e surpreendentemente na trajectória do gigante castelo e no rumo da história.

Ao seu terceiro castelo (Cagliostro era uma fortaleza medieval, bem enraizada na terra, e Laputa um lendário paraíso flutuante - cf. O Castelo no Céu), Myiazaki encontra o equilíbrio entre os prados verdejantes e os céus e também, mais do que nunca, maior liberdade narrativa. Este seu castelo tem, entre muitas outras, uma porta mágica que abre para locais diferentes. Até para um tempo diferente. É possível, pois, num simples abrir de porta, mudar o espaço e o tempo. Alterando, com tão aparente facilidade, as coordenadas essenciais para a compreensão da acção, não admira que, numa primeira visualização, O Castelo Andante pareça um filme por demais difícil, confuso e intrincado, ou até mesmo narrativamente mal gerido e desconexo. A respeito, escrevi num comentário de 2008: no fim, um argumento um tanto ou quanto mais complexo do que à partida se esperava; o que nos deixa com a sensação de que ou não percebemos a história ou a história em si mesma não se percebeu. Mas O Castelo Andante não é, seguramente, um filme para se assistir uma só vez e, garanto-vos, não se esgotará tão simplesmente numa segunda investida. A cada visualização, é como se abríssemos também nós uma porta para um novo lugar, para uma nova descoberta, para um novo entendimento. A narrativa escapa à linearidade como se de um sonho se tratasse e é fácil perdermo-nos, se não nos guiarmos pelos tantos símbolos e subtilezas. Por isso resulta tão bizarro e cativante.

E como é bom sonhar acordado...

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões