segunda-feira, 31 de maio de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (7)

Hugo Gomes, autor do blogue Cinematograficamente falando..., aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

Alfred Hitchcock
Stanley Kubrick
Clint Eastwood
Akira Kurosawa
Martin Scorsese
Quentin Tarantino
Wes Craven
Federico Fellini
David Fincher
Pedro Almodóvar

Um muito obrigado, Hugo Gomes!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A PRAIA (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Beach
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Guillaume Canet

Crítica:

O PARAÍSO PERDIDO

A imperfeição das sociedades humanas suscitou, ao longo da nossa existência, as mais variadas e aprofundadas reflexões e efabulações, sejam elas de ordem política, filosófica, religiosa, antropológica ou poética. Já a mitologia clássica alimentava o impossível retorno à Idade do Ouro e ao estado primordial das coisas. Constate-se, a título de exemplo, a poética de Ovídio, nas Metamorfoses, inspirada no conceito de Hesíodo. Mais tarde, as tradições islâmica e judaico-cristã profetizaram um Reino dos Céus, a eterna renovação e a plenitude da alma. Thomas More arquitectou a Utopia, cujas conotações modernas elevaram o conceito da sociedade pura e perfeita ao idealismo e à fantasia. Milton, em resposta às sagradas escrituras, anunciou o Paradise Lost. E esta introdução só para referir os nomes mais sonantes na edificação do mito e as suas mais conhecidas variantes que, ciclicamente, o revigoraram e revitalizaram.

A obra de Alex Garland, na qual John Hodge se baseia para a adaptação do argumento deste A Praia, não é de modo algum alheia a este fenómeno marcadamente literário (aceite que está a própria evolução do conceito do que é ou não literário, ao longo dos séculos). Assim sendo, A Praia não é senão mais uma variação do mito, desta vez impregnado nos meandros da pop culture.

Richard (Leonardo DiCaprio, a irradiar talento e carisma) é um jovem turista americano recém-chegado à Tailândia. Como todos os jovens, sonha com a evasão, com o mundo ideal e perfeito, com o escape ao cancro e aos vírus de uma sociedade consumista, capitalista e individualista.

My name is Richard. So what else do you need to know? Stuff about my family, or where I'm from? None of that matters. Not once you cross the ocean and cut yourself loose, looking for something more beautiful, something more exciting and yes, I admit, something more dangerous. So after eighteen hours in the back of an airplane, three dumb movies, two plastic meals, six beers and absolutely no sleep, I finally touch down; in Bangkok.

Beleza, excitação, perigo. O jovem procura, afinal, uma experiência marcante e irrepetível, totalmente nova. I just feel like everyone tries to do something different, but you always wind up doing the same damn thing.

Banguecoque funciona, pois, como sinédoque da vida moderna e Danny Boyle filma-a de forma electrificante e ultra-dinâmica, a um ritmo pulsante e vertiginoso e com uma banda sonora absolutamente contagiante. Até que, num hotel da cidade, Richard conhece Daffy, o maluco e drogado do quarto do lado, e toma conhecimento da praia: um local puro, belo, fascinante... um lugar escondido do mundo, absolutamente secreto, totalmente proibido. Quando Richard encontra o maníaco morto, no dia seguinte, depara-se com um mapa, que aponta o destino com precisão e que reclama autenticidade para a história que julgara apenas uma lenda ou uma alucinação.

Lança o convite a dois desconhecidos do mesmo corredor do hotel, um casal de namorados franceses cuja beleza da rapariga já o intrigara, e faz-se à aventura. You hope, and you dream. But you never believe that something's gonna happen for you. Not like it does in the movies. And when it actually does, you want it to feel different, more visceral, more real. E, a cada passo do paraíso, o sonho ganha contornos cada vez mais reais. A ideia da existência de um mundo perfeito é, simplesmente, magnetizante e não se medem os perigos do desconhecido. Por aí se vê também a ingenuidade e a imaturidade da juventude perante as fáceis e por demais atractivas e ilusórias propostas da vida:

Trust me, it's paradise. This is where the hungry come to feed. For mine is a generation that circles the globe and searches for something we haven't tried before. So never refuse an invitation, never resist the unfamiliar, never fail to be polite and never outstay the welcome. Just keep your mind open and suck in the experience. And if it hurts, you know what? It's probably worth it.

Quando chegam à ilha, nem querem acreditar: praia de areia branca, vegetação exuberante, água cristalina, cascata e céu estrelado, canabis para o resto da vida, restante natureza abastada e graciosa e um silêncio apaziguador e purificante. Mal sabiam os jovens que, no entanto, o paraíso e a perfeição existem, mas a um preço muito alto e por muito pouco tempo. Rapidamente serão confrontados com a impossibilidade do recomeço e com a verdade para lá da aparência: uma sociedade ameaçada por agricultores e traficantes de droga, hipócrita e fundamentalista, tão contaminada como qualquer outra à face da terra, capaz de sacrificar valores e vidas humanas em nome de um ideal e de uma visão do mundo. In the perfect beach resort, nothing is allowed to interrupt the pursuit of pleasure, not even dying. O sonho depressa se converterá no pior dos pesadelos... e no fim da inocência.

A fotografia de Darius Khondji é belíssima, o trabalho de montagem portentoso (Masahiro Hirakubo) e a banda sonora, ainda que bastante eclética, alia-se harmoniosamente na exaltação soberana das sensações. Destaque para o tema Porcelain, de Moby, para sempre associado ao filme. O elenco revela-se à altura do desafio, nomeadamente DiCaprio, Paterson Joseph e a rígida líder da aldeia, excepcionalmente interpretada por Tilda Swinton. Há cenas icónicas e inesquecíveis, como a assustadora apresentação de Daffy, a chegada à ilha, o salto na cascata, o confronto com o tubarão, o mágico e romântico mergulho por entre o plâncton resplandecente ou uma frenética sequência de loucura na selva, com influências de videogame. Cá para mim houve um certo desiquilíbrio dramatúrgico e formal neste acto - passámos do feel-good movie para o drama e para o thriller psicológico num ápice - mas nada que prejudique crassamente o todo. A Praia pode não ser o filme perfeito, mas concretiza um irresistível compêndio de fascínio e de inspiração.

I still believe in paradise. But now at least I know it's not some place you can look for, 'cause it's not where you go. It's how you feel for a moment in your life when you're a part of something, and if you find that moment... it lasts forever...

Game over.

Passatempo: Ganhe um DVD!


VENCEDORA:
Joana Filipa Lemos Duarte
Cinfães

Número de Participação: 105

Parabéns!


«Qual o nome da cantora que os soldados ouvem pelo gramofone?»
Resposta Correcta: Édith Piaf

Ganhou um DVD do filme O RESGATE DO SOLDADO RYAN
(Edição 2 Discos)!
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Condições de Participação:

- Em vigor até dia 30 de Maio, pelas 17 horas.
- A cada e-mail recebido com o nome do participante e com a resposta correcta à pergunta será atribuido um número. Cada concorrente validado receberá um e-mail com o seu número respectivo.
- O sorteio far-se-á aleatoriamente e o resultado será anunciado publicamente no blogue, dia 30 de Maio à noite.
- Cada concorrente pode participar apenas uma vez.
- Após o sorteio, o vencedor será contactado via e-mail para a autenticação da sua identidade e para que tenhamos acesso aos dados necessários para o envio do prémio por correio.
- Caso não se faça a autenticação da identidade ou o contacto com o vencedor, por motivos alheios ao CINEROAD e por um prazo máximo de 3 dias úteis a partir da data do anúncio do vencedor, proceder-se-á a um novo sorteio aleatório, com anúncio público no blogue, sendo o primeiro sorteio totalmente anulado.
- Passatempo válido apenas para Portugal.

terça-feira, 25 de maio de 2010

AS PRAIAS DE AGNÈS (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les plages d'Agnès
Realização: Agnès Varda
Principais Actores: Agnès Varda

Comentário: Que filme brilhante. Autobiografia, documentário, diálogo aberto inter-artes. Uma pérola de criatividade e de grande confluência estética.

Um jogo de espelhos, com reflexos do passado. Uma viagem de memórias e uma narração absolutamente autêntica, com um extraordinário trabalho de montagem (Baptiste Filloux e Jean-Baptiste Morin).

Enfim, um projecto pessoal, especial e único. É ver para crer. Uma experiência absolutamente ímpar no panorama artístico cinematográfico.

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (6)

Bruno Cunha, autor do blogue Cinema as my world, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

Quentin Tarantino
Christopher Nolan
Woody Allen
Clint Eastwood
David Fincher
Gus Van Sant
Todd Haynes
Tim Burton
Martin Scorsese
Stanley Kubrick

Um muito obrigado, Bruno Cunha!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A ESTAÇÃO (2003)

Um anão-fã-de-comboios (assombrado pelos seus estigmas), uma desastrada irremediável (ferida pela morte do filho) e um vendedor de cafe con leche, fala-barato e de fácil amizade, ainda que sem sucesso.
Três pessoas solitárias e que encontram na amizade a salvação e a razão para abraçar a vida.

Não é um verdadeiro portento artístico, mas constitui uma experiência absolutamente descomprometida, bastante naïf e que nos conquista com a sua simplicidade.

PONTUAÇÃO: BOM

PECADOS ÍNTIMOS (2006)

Comente o filme Pecados Íntimos, aqui!

KING KONG (2005)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: King Kong
Realização: Peter Jackson

Principais Actores: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler, Bill Johnson, Mark Hadlow, Geraldine Brophy, David Denis

Crítica: 

A BELA E O MONSTRO

And lo, the beast looked upon the face of beauty, and beauty stayed his 
hand... and from that day forward, he was as one dead.

King Kong é uma obra de grande amor. Afinal, a admiração de Peter Jackson pelo original de 1933 fê-lo apaixonar-se pela Sétima Arte e inspirou-o a realizar filmes. Por isso mesmo e antes de tudo mais,
este seu novo King Kong será sempre uma homenagem. Creio que isso é notório e notável, cena após cena. Mas este remake é muito mais do que isso. É uma aventura verdadeiramente espantosa e espectacular, onde os efeitos digitais fazem história e constituem um autêntico triunfo sob a nova égide de fazer cinema. É, em primeira ou última instância, na sua artificialidade, uma emocionante e intemporal lição de humanidade.

Carl Denham (Jack Black) é um fracassado realizador de cinema que,
de forma a conseguir financiar os seus projectos, ludibria os produtores dos estúdios com o maior dos despudores. I'm real good at crapping the crappers, assume. No encalço da polícia e na posse de um mapa enigmático, faz-se ao mar e à aventura antes que seja tarde de mais. I've come into possession of a map. The sole surviving record of an uncharted island... thought to exist only in myth! Until now... Na companhia da sua equipa técnica, do argumentista Jack Driscoll (Adrien Brody), da deslumbrante e recém-contratada actriz Ann Darrow (Naomi Watts), do galã Bruce Baxter (Kyle Chandler), do capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), de Jimmy, Hayes e Choy (Jamie Bell, Evan Parke e Lobo Chan, respectivamente) e de Lumpy, o cozinheiro (Andy Serkis) parte para as filmagens nos exteriores, sem prever, minimamente, a sucessão de perigos que viriam a enfrentar. Grande elenco, grandes escolhas de casting.

A viagem que acompanheremos é tremenda. De uma esplendorosa Nova Iorque de contrastes, em plena Grande Depressão e literalmente renascida das cinzas, à crepuscular viagem de navio pelo mistério dos oceanos, do mais conturbado desembarque na Ilha da Caveira às mais exuberantes e exóticas fauna e flora que possamos imaginar, absolutamente perdidas no tempo e onde o verde camufla desde insectos esfomeados a colossais dinossauros, desde civilizações condenadas ao mais só e fascinante dos seres: Kong, o gorila gigante, o rei do desconhecido, deus dos nativos e o último da sua espécie.

Peter Jackson filma sequências verdadeiramente geniais e prodigiosas, com uma acção de cortar a respiração. Aquele confronto entre Kong e o T-Rex é deveras impressionante. Kong pode ser a 8ª Maravilha do Mundo mas os efeitos es
peciais são mesmo as maravilhas maiores deste filme sensacional, tanto nas criações a grande escala como nos mais ínfimos pormenores (Joe Letteri, Brian Van't Hul, Christian Rivers e Richard Taylor). Mas há muitas outras cenas inesquecíveis: todo aquele suspense que antecede o primeiro vulto de Kong, nas Muralhas em Chamas, o malabarismo de Ann, a avalanche de carne réptil, o entardecer no cimo da montanha, o vale dos insectos, a captura de Kong e todo aquele acto final na cidade, do anfiteatro ao pandemónio nas ruas, da romântica pista de gelo ao desfecho trágico e aterrador no Empire State Building, rasgando os céus num poderosíssimo clímax emocional. Eis, empolgante e assaz excitante, entretenimento da melhor qualidade.King Kong é a humanização da besta, do gorila, que face aos irresistíveis encantos da jovem Ann cede ao amor - ao amor como força maior da natureza. É o amor que lhe ditará a tragédia. It wasn't the airplanes. It was Beauty killed the Beast. King Kong, que agora Fran Walsh, Philippa Boyens e o próprio realizador re-adaptam, é também uma sátira acesa à avareza do Homem, cujos interesses prevalecem sobre valores essenciais, desrespeitando e ameaçando a natureza.

O trabalho fotográfico de Andrew Lesnie, assim como a pintura digital do frame, revelam-se fundamentais e imprescindíveis para a aura de beleza que emana do filme - do princípio ao fim. Tanto a direcção artística (
Grant Major, Dan Hennah e Simon Bright) como a montagem (Jamie Selkirk) são inteiramente excepcionais e a banda sonora de James Newton Howard soa íntima e magnífica, de acordo com os propósitos dramatúrgicos; pessoalmente, no entanto, creio que o filme beneficiaria bastante com uma banda sonora mais sonante e melódica, com temas que mais facilmente entrassem no ouvido. O som e os efeitos sonoros (Mike Hopkins, Ethan Van der Ryn, Christopher Boyes, Michael Semanick, Michael Hedges e Hammond Peek) são todos eles estrondosos, à altura da sofisticação e da imponência do projecto.

Há aspectos, contudo, mais criticáveis. Não me refiro nem a eventuais excessos do digital, nem, tão-pouco, à abundante publicidade que compõe os planos filmados (desde referências à Pepsodent e à Nestlé a luminosos letreiros da Universal, da Coca-Cola e da Chevrolet). São todos, parecem-me, pontos mais ou menos discutíveis, mais ou menos aceitáveis. Agora o que me parece grave é que King Kong nos apresente pela primeira vez os olhinhos cintilantes do seu macaco raivoso ao fim de uma hora e sete minutos. Repito, uma hora e sete minutos. É suspense a mais, parece-me. A narrativa demora-se em sequências de puro exibicionismo, pouco relevantes para a diegese e depois o filme fica exageradamente longo. Aquela viagem de navio para a ilha, para além de repetitiva, é por demais maçadora. Aquela elipse que corta imediata
mente para a cidade, essa sim, foi uma grande decisão, bastante necessária para a desenvoltura narrativa. Não fosse essa lentidão narrativa e estou certo de que este King Kong, de Peter Jackson, se revelaria uma experiência completamente extraordinária - atribuir-lhe-ia, nesse caso e sem hesitar, as cinco estrelas.

Ainda assim é um belíssimo filme.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

10 Breves Perguntas (15)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Desta vez... Paulo Altmann, autor do blogue They Watch Us, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
Into the Wild

2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Across the Universe
3. Um Amor de Infância:
Adventures in Babysitting
4. Um Filme de Animação:
Peter Pan
5. Uma Comédia: Home Alone
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
The Blair Witch Project
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Gigli (2003)
8. Um elenco: Brokeback Mountain
9. A Melhor Fotografia que conheço:
Moulin Rouge!

10. Já mudei de ideias sobre este filme:
West Side Story

Um muito obrigado, Paulo Altmann.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

APOCALYPTO (2006)

Comente o filme Apocalypto, aqui!

MATRIX (1999)

Comente o filme Matrix, aqui!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O LADO SELVAGEM (2007)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Into the Wild
Realização: Sean Penn

Principais Actores: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian H. Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook, Jim Gallien, James O'Neill, Malinda McCollum, Paul Knauls, Zach Galifianakis


Crítica:

O HOMEM E A NATUREZA

No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild.
Alexander Supertramp
Maio, 1992

Nenhum documento revela a nossa identidade. Cortem-se, pois, os cartões. O dinheiro alimenta, acima de tudo, o estatuto, a aparência, o lado superficial das coisas. Queimem-se as notas. Careers are a 20th century invention e a sociedade é uma relação de convenções. Anti-naturais, cada vez mais. Sociedade, sociedade, sociedade: pais, hipócritas, políticos, cretinos, arrogantes... Onde está a liberdade autêntica, a verdade da nossa existência? É por partir em busca dessa verdade que Christopher McCandless abandona toda uma vida em sociedade. No phone, no pool, no pets, no cigarettes. Assume-se um extremista. An aesthetic voyager whose home is the road.

Empreender uma aventura como a de Christopher McCandless, com tão elevado grau de consciência e de convicção, demonstra excepcional cultura e profundo idealismo. The climactic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual pilgrimage. Mas possuir um saber não é possuir, necessariamente, sabedoria. Sabedoria e ser extremista são opostos absolutos. E a viagem solitária rumo à vivência primitiva, nos confins do mundo e da natureza, ensinar-lhe-á isso muito bem...

Happiness only real when shared.
Christopher Johnson McCandless
Agosto, 1992

A beleza de O Lado Selvagem transcende as paisagens que a fotografia de Eric Gautier tão sublimemente capta. Ela envolve-se nas palavras, nos sons, nos silêncios... e, de novo, na extraordinária banda sonora, nas canções de Eddie Vedder... Ela comove-nos no brio das interpretações, plenas de sinceridade: Emile Hirsch está soberbo e inteiro. Marcia Gay Harden, William Hurt e Hal Holbrook estão igualmente magníficos. Ela deslumbra-nos num genuíno e fascinante pedaço de arte, com pura inspiração arquitectado e pela confluência estética abonado (note-se a cadência perfeita entre slow motion, ângulos meticulosos e ousados, alternância entre focar e desfocar, split screen ou múltiplas divisões do ecrã, filmagem de videocamera, frames longos e paragem de movimento). Adaptando o livro de Jon Krakauer, O Lado Selvagem revela-se também exímio no storytelling (dois níveis narrativos, que se alternam entre si: um primeiro dá-nos a conhecer as aventuras de Chris entre 1990 e 1992. Encontra-se estruturado em 5 capítulos, de acordo com as etapas de crescimento pessoal (My Own Birth, Adolescence, Manhood, Family e Getting Of Wisdom), é narrado por Carine McCandless e é continuamente interrompido com analepses. Um segundo nível, correspondente à fase que antecede a tragédia final e que conta o passar das semanas no Autocarro Mágico, é como que narrado pelo próprio peregrino; nele, são-nos lidas as últimas passagens do diário).

If we admit that human life can be ruled by reason,
then all possibility of life is destroyed.

Por tudo isto, O Lado Selvagem poderia ser um bom filme. Mas não o é: supera-se, irrepreensivelmente. Poderia, pois, ser um filme muito bom. O facto é que é tão verdadeiro que não consegue ser nada mais nada menos do que... um filme excelente. Nem enquanto criação artística o filme trai a sua natureza: cada vez que, surpreendentemente, o Chris de Emlie Hirsch olha directamente para a câmera... é ultrapassada qualquer regra narrativa imprescindível para a verossimilhança e o filme dá-nos verdade, assumindo-se como obra de arte, mimesis.

I'm going to paraphrase Thoreau here... rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.

DONNIE DARKO (2001)

Comente o filme Donnie Darko, aqui!

REVOLUTIONARY ROAD (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Revolutionary Road
Realização: Sam Mendes
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon, David Harbour, Kathryn Hahn, Dylan Baker

Crítica
:

O DESESPERANTE VAZIO DA VIDA A DOIS

1º Acto | Sobre a expectativa e a felicidade

Quando solteiros, cada um de nós tem uma certa imagem de si próprio e, até certo ponto, uma imagem de si próprio projectada num futuro imaginado. Ao exercício, à efabulação, chamam-lhe: expectativas, expectativas de vida. Porém, o momento em que conhecemos a nossa cara-metade marcará um ponto de viragem no nosso percurso. A pessoa pela qual nos apaixonamos, a qual conheceremos, a qual amaremos e com a qual aceitaremos partilhar os nossos dias, é igualmente um indivíduo com a sua dose de expectativas. O ponto de viragem é o ponto em que as nossas individualidades cedem e se ajustam à construção de um projecto conjunto. E que não haja dúvida: uma relação é uma construção. Cada uma tem o seu tempo, a sua morosidade... Na verdade, e uma vez iniciada, a construção nunca acaba. Os ingredientes são sempre os mesmos e são todos tão necessários quanto possíveis; só variam as doses, de casal para casal: verdade, silêncio e diálogo, afecto, respeito, honestidade, fidelidade, compreensão e espaço próprio. Da reciprocidade e do equilíbrio da receita nascerá, entre os dois seres, um elo único, que se fortalecerá com o tempo e que se traduzirá em felicidade. Eis, pois, o segredo da felicidade.

2º Acto | Sobre a frustração e a infelicidade

O segundo e indesejado ponto de viragem na relação entre duas pessoas é quando cai o primeiro tijolo, antecipando a ruína e a destruição. Nem sempre as relações atingem este 2º acto; todavia, e como sabemos bem, a realidade das pessoas está repleta de relações mal-sucedidas que em vez de caminharem para a construção fazem o caminho inverso. Nesses casos, saem defraudadas do jogo de expectativas a dois, ficam frustradas, aborrecidas, cheias de dúvidas e caem na rotina e no vazio. Ofendem-se, traem-se, magoam-se e a relação acaba, na infelicidade. Ou mediram mal as doses ou nem usaram os ingredientes certos. Em si próprias encerram cacos da destruição.

April e Frank, brilhantes desempenhos de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, inscrevem-se neste 2º acto. Apesar de tanto tentarem o diálogo, a falta de verdade das suas palavras jamais fez juz àquilo que sentiam. Talvez o silêncio lhes tivesse sido a melhor forma de diálogo, porque ao menos o silêncio é verdadeiro.

Às tantas, o processo de destruição é irreversível a tal ponto que não há mais possibilidade para a catarse e a história dos dois precipita-se para a tragédia.

Último Acto

Revolutionary Road analiza esta complexidade do casamento e da vida a dois. Explora a fórmula do melodrama de forma intensa, visceral e perturbadora. The hopeless emptiness? Now, you've said it. Plenty of people are on to the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness...

Sam Mendes é magistral na arte de filmar, virtuoso na contenção e fluído na adaptação do romance de Richard Yates a partir do igualmente muito bem escrito argumento de Justin Haythe. Com um arrojado e minucioso trabalho de mise-en-scène, uma subtil banda sonora de Thomas Newman - que chega sempre no momento certo - e um absolutamente memorável trabalho de actores (notem-se também os secundários Michael Shannon e Kathy Bates), eis pois - e em suma - uma obra de elevada maturidade e inequívoca competência artística. Mais uma, sob o selo autoral do realizador.

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Nota especial para algumas das Cenas Cortadas, fenomenais, cuja exclusão era, a meu ver, perfeitamente prescindível.

IMPERDOÁVEL (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unforgiven
Realização: Clint Eastwood
Principais Actores: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson

Crítica:

O MITO
E A ORIGEM DO MITO

All right, I'm coming out. Any man I see out there, I'm gonna shoot him. Any sumbitch takes a shot at me, I'm not only gonna kill him, but I'm gonna kill his wife, all his friends, and burn his damn house down.
Bill Munny

Em Imperdoável há todo um passado que assombra o presente; o que ecoa e se dimensiona, essencialmente, a dois níveis. Primeiramente, a um nível diegético. Depois, a um nível conceptual, de género.

1. A nível diegético.

A personagem de Clint Eastwood, William Munny, recalca a essência do seu ser assassino na construção de uma vida campestre e pacata, em família e sem whisky. O seu fiel companheiro dos velhos tempos, Ned Logan (Morgan Freeman), também se encontra aposentado; sabendo que consegue acertar no olho de um pássaro em pleno vôo, hesita agora em acertar no alvo. I guess I'd rather be blind and ragged than dead. Little Bill, o cherife desempenhado por Gene Hackman, há muito que renunciou às armas e se reconfortou confiantemente no poder da Lei. Na sua vila, Big Whiskey, não permite qualquer tipo de confronto ou violência e de forma pacífica assume a figura do justiceiro. Serve-se de Bob English (Richard Harris), aliás, para ditar o exemplo. The Schofield Kid, interpretado por Jaimz Woolvett, é o jovem no meio de tantos senhores do western, que, sem noção do que é matar, vive do mito e sonha tornar-se um grande pistoleiro. Será um elemento essencial para o confronto geracional que se estabelecerá e se fortalecerá. Finalmente, o mito e a origem do mito encontram-se... a personagem de Saul Rubinek, o escritor, simboliza a entidade responsável pelo mito: o western virou história em livro e repercute-se em edições - mas num registo fantasioso, com bons e maus e onde a violência não tem consequências morais. Beauchamp vive, como muitos ficcionistas, mais da própria mitologia do que da dura e crua realidade do western. O mito e os demónios do passado persistem e perseguem as personagens até ao último fôlego.

I ain't like that no more. I ain't the same (...) Just 'cause we're goin' on this killing, that don't mean I'm gonna go back to bein' the way I was. I just need the money, get a new start for them youngsters.
Bill Munny

Clint Eastwood mostra-se irrepreensível na direcção de actores; é evidente a sublimidade atingida pelas performances.


2. A nível conceptual, de género.

O argumento de David Web Peoples, de uma qualidade dramatúrgica inegável, permite que o western se confronte a si mesmo, se questione, amadureça e se transforme. A figura do escritor, aliás, configura a mise-en-abyme, através da qual o género se espelha a si mesmo e se auto-critica. É com Imperdoável, pois, que se dá a reconversão da fórmula que definia o género e se emancipam notórias diferenças:

- não há mais romance; a figura da mulher de Munny, por exemplo, é assumidamente fundamental para o filme, embora ausente: note-se a pertinência do prólogo e do epílogo e a carga emotiva que a sua imagem acarreta no dia-a-dia do cowboy. A própria figura feminina, representada pelas prostitutas, desencadeia a trama e assume protagonismo, não sendo mais um mero acessório.
Just because we let them smelly fools ride us like horses don't mean we gotta let 'em brand us like horses. Maybe we ain't nothing but whores but we, by god, we ain't horses.
Strawberry Alice

- não há sentido de espectacularidade no gunplay. A acção desenfreada, as cavalgadas e a gritaria, outrora constantes, perdem o protagonismo para dar lugar à profundidade psicológica dos cowboys; não mais maniqueístas, mas agora vítimas de uma violência imperdoável, angustiados pela consciência que lhes corrompe a alma. A violência emana, mas não mais ao acaso; agora, com conflito moral. Não há mais o matar por matar.

Eis a introspecção e consciência crítica da essência do western. Daí o estatuto especial que o filme de Eastwood tem para a reconfiguração do género: lida com o remorso, faz a catarse e honra a memória como nenhum outro.

I've killed women and children. I've killed everything that walks or crawls at one time or another. And I'm here to kill you, Little Bill, for what you done to Ned.

It's a hell of a thing, killin' a man. Take away all he's got, and all he's ever gonna have.
Bill Munny

Magnificamente fotografado (Jack N. Green) e montado (Joel Cox), Imperdoável reclama autenticidade a cada cena, imerso numa atmosfera histórica de detalhe e bom gosto. Eis, pois, e desta feita assombrado pelo futuro, um clássico absoluto. Magistralmente bem feito.

QUEM QUER SER BILIONÁRIO? (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Slumdog Millionaire
Realização: Danny Boyle, Loveleen Tandan

Principais Actores: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Rajendranath Zutshi, Freida Pinto, Irrfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Rubiana Ali, Madhur Mittal, Sunil Kumar Agrawal

Crítica:

O DESTINO
DE UM MOSQUETEIRO

When somebody asks me a question,
I tell them the answer.

Slumdog Millionaire é um filme sensacional, de uma energia pujante, contagiante e mágica. É sobre a Índia em transformação. De entre os lamacentos bairros de lata erguem-se, hoje, imponentes prédios que arranham os ceús e acentuam os contrastes de um país multifacetado em todas as suas cores e culturas. Da miséria profunda à potência emergente, há todo um reflexo de um país que se espelha - claramente - no percurso pessoal de Jamal Malik. Afinal, quem diria que o menino que consegue o autógrafo de Amitabh Bachchan, imundo dos pés à cabeça, conseguiria vencer 20 milhões de rupias, tornar-se multi-milionário e cair nas bençãos da fama? D) It is written. O verdadeiro tema de Slumdog Millionaire - mais do que qualquer leitura sobre a Índia ou Bollywood - é, pois, o destino. A sorte.

Danny Boyle (com o apoio de Loveleen Tandan) filma aquilo que podemos chamar uma autêntica explosão de alegria e de energias positivas. A obra aborda temas sérios, é certo, mas fá-lo sempre com uma ligeireza muito particular, cheia de esperança e romantismo. Não é difícil, por isso, evadirmo-nos da nossa própria realidade e escaparmo-nos nesta aventura de sonho, onde nos sentimos confortáveis nas mãos do destino, antevendo um happy ending, bigger than life. Eis o que explica, em grande parte, o sucesso à escala global de um filme como Slumdog Millionaire e, da mesma forma, um concurso como Quem Quer Ser Milionário? - It's the chance to escape, isn't it? Walk into another life. Doesn't everyone want that? Na verdade, poder-se-á dizer que Slumdog Millionaire é tão sensacional quanto sensacionalista. E não há nenhum mal nisso. Fá-lo deliberadamente e é essa a sua voz de afirmação. Afinal, explora a mesma fórmula que os programas televisivos, na conquista pelas audiências... Envolve o espectador, possibilita-lhe infindáveis momentos de boa disposição e apela ao derradeiro poder das emoções. Não importa que a proposta do argumento seja absolutamente idílica. Porque não deixarmo-nos levar?

Aparte uma ou outra performance menos bem conseguida (refiro-me, inevitavelmente, a Freida Pinto, Rubina Ali ou Tanvi Ganesh Lonkar) ou, a meu ver, a ausência total de química na relação amorosa entre Jamal e Latika, é certo que estamos perante um filme irrepreensivelmente bem feito, aceite que está a sua natureza. O argumento desenvolve-se em três linhas narrativas (1. O interrogatório policial; 2. O programa de televisão; 3. Os flashbacks.) e constrói-se na alternância entre todas elas. A fotografia de Anthony Dod Mantle é visualmente arrebatadora, com enquadramentos radicalmente inesperados, a montagem de Chris Dickens é verdadeiramente prodigiosa e a banda sonora de A. R. Rahman extraordinariamente vibrante e extasiante. Que nem as suas várias canções. No elenco destacam-se Dev Patel, Anil Kapoor, Irrfan Khan ou o pequeno e encantador Ayush Mahesh Khedekar.

A cena dos créditos finais, que tantos repudiam e consideram ridícula, não é senão o espelho de todo o espírito do filme: descontraído, divertido e cheio de vida. Populista, à la Bollywood. Por tudo isto, Slumdog Millionaire tem o candor de nos fazer sonhar a vida como uma celebração. Basta deixarmo-nos levar. E como sabe bem, de vez em quando, não levarmos as coisas demasiado a sério.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

MILLION DOLLAR BABY - SONHOS VENCIDOS (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Million Dollar Baby
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Anthony Mackie, Margo Martindale, Brian F O`Byrne

Crítica:

TUDO POR UM SONHO

Em Million Dollar Baby, de Clint Eastwood, o boxe é a metáfora perfeita da vida: it's the magic of fighting battles beyond endurance, beyond cracked ribs, ruptured kidneys and detached retinas. It's the magic of risking everything for a dream that nobody sees but you. Negro, sombrio e tão íntimo, o esboço da condição humana faz-se, essencialmente, por meio da palavra e do sentimento.

O argumento, a cargo de Paul Haggis, flui sereno, inspirado e, no momento certo, assertivo, espelhando, de forma intensa, a tragédia das relações humanas e o poder inesperado e irreversível da fatalidade. As prestações do elenco, preciosamente escolhido, irradiam excelência. Frankie e Scrap, interpretados respectiva e brilhantemente por Eastwood e Freeman, há muito que se retiraram da luta. São uns vencidos da vida, mas cujas feridas do passado estão longe de sarar, definitivamente. O primeiro afunda a solidão na dificuldade do gaélico e na facilidade de, no dia-a-dia, não correr riscos. Não tem família, não tem Deus, não tem esperança. O amor paternal que desenvolverá por Maggie será a sua última oportunidade para a redenção. O segundo parece limpar o ginásio em permanente contemplação, como se na inércia de não comprar, por exemplo, umas meias novas ou na determinação de lavar o chão com uma boa lixívia apaziguasse a dor da memória. A verdade é que, quando intervém, irónico e de bom humor, as suas sentenças revelam-se genuinamente certeiras e memoráveis. Para não falar da sua narração que, omnisciente, concretiza as surpreendentes cadências do argumento. Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, num papel de transfiguração e entrega total) vive a sua pobreza em constante poupança para alimentar o sonho, para poder continuar a fazer aquilo que mais prazer lhe dá - o pugilismo - e para, quem sabe um dia, conseguir dar uma vida melhor à família e a si mesma. Nunca desiste e insiste em encontrar força nos momentos de maior fraqueza (que são tantos) para vencer. A luta é o seu destino: I was born two pounds, one-and-a-half ounces. Daddy used to tell me I'd fight my way into this world, and I'd fight my way out. A sua história é, no fim de contas, derradeiramente comovente e inspiradora.

Million Dollar Baby prova, ao mesmo tempo, a importância soberana de, em cinema, contar uma boa história, com boas performances dos actores. Clint Eastwood, realizador, fá-lo de forma magistral, com simplicidade e grande contenção: reduzida banda sonora, subtil trabalho de montagem e grande cuidado na iluminação. Fá-lo, afinal e acima de tudo, com palavra e sentimento.

Clássico absoluto.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O NOVO MUNDO (2005)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The New World
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin, Jamie Harris, Jonathan Pryce, Noah Taylor

Crítica:

OS ÚLTIMOS DIAS DO PARAÍSO

I will find joy in all I see.

Trata-se de um poema. Dos mais sensíveis. E também dos mais belos. Deslumbrante em cada imagem. Em cada som. Em cada silêncio... O Novo Mundo é espiritualmente magnífico e emocionalmente profundo. Visualisá-lo, constitui uma experiência transcendental e derradeiramente purificante, de grande fôlego romântico e reflexivo.

A invocação de um mundo há muito perdido, pelo choque de culturas
, e a viagem ao que há de mais genuíno em nós, humanos, denunciam-se pela perfeição e subtileza de um nome: Terrence Malick.

A fotografia, de Emmanuel Lubezki, faz jus à sublimidade intrínseca a toda a obra e canta a Natureza
acima de todas as coisas. A banda sonora de James Horner, a contraponto com as notas de Wagner e de Mozart, cria uma sinfonia maior e eleva o poema a um estatuto superior. Excelente recriação histórica, por parte dos cenários e decoração, e guarda-roupa.

O Novo Mundo é uma daquelas raras e inspiradíssimas obras que, sob a graça do génio, possuem uma aura especial e eternizante.
Que obra-prima.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CASABLANCA (1942)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz
Principais Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Paul Henreid, Peter Lorre

Crítica:

AMOR... 
AS TIME GOES BY

Em plena 2ª Guerra Mundial, o Inferno alastra-se a P
aris. Para milhares de pessoas, a fuga afigura-se como a melhor a solução e Casablanca como um ponto crucial na rota da Salvação. Todavia, não só de sorte se faz o destino e, perante o infortúnio, todos os refúgios do mundo se podem transformar numa prisão. É o caso do Rick's Café Américain; oásis de libertação e, simultaneamente, palco de uma trama fascinante, repleta de intriga, mistério e perigo.

Casablanca não tem nem assume nunca um género específico. É romance, é drama, é melodrama, é policial... e conflui magistralmente todos esses registos. Está repleto de frases e diálogos memoráveis e é rico em personagens maravilhosas. O argumento (da autoria dos irmãos Epstein e de Howard Koch), apesar de construído e concluído no decorrer das filmagens, constitui um grande exercício dramatúrgico, brilhante na subtileza e humor com que enaltece certas passagens. O capitão Renault é, porventura, o expoente máximo da ironia e da inteligência com que nos presentearam os argumentistas; a personagem de Claude Rains é, aliás, a minha favorita deste clássico de Michael Curtiz. Depois segue-se o icónico casal romântico Rick e Ilsa, claro. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman estão magníficos nos seus papéis. O primeiro cheio de charme e carisma, a segunda com um brilho nos olhos intenso e comovente.

Casablanca é considerado um dos filmes mais românticos de todos os tempos, mas é pertinente e interessante perceber como o próprio rompe com o cânone e arrisca um final tão pouco romântico. Afinal, o par não acaba junto e feliz para sempre. Há um amor maior, maduro e consciente das suas possibilidades, que escapa ao egoísmo e assume um papel determinante na escolha: é a decisão de Rick que proporciona aquele surpreendente e inesquecível twist final. Há valores que, para serem preservados, merecem sacrifícios; e aí reside a maior moral da obra. O próprio triângulo amoroso entre Rick, Ilsa e Victor é tudo menos desputado. Todos amam, mas todos têm o maior respeito entre si e pelo que cada um sente. Vêem-se vértices de um injuntiçado triângulo e tentam-se fazer as melhores opções para minimizar as consequências... Outrora, já Ilsa tomara uma opção difícil, tentando o melhor para Rick e para o marido. Victor sabe do amor entre a mulher e o proprietário do café, mas é incapaz de forçar o destino. E Rick, talvez mais do que todos os outros, demonstra a nobreza e a integridade do seu carácter. You have to think for both of us. For all of us.

Play it once, Sam. For old time's sake. A banda sonora de Max Steiner é fabulosa e o que o compositor faz com temas já existentes como As Time Goes By ou La Marseillaise é extraordinário. Aquela cena em que o hino francês da Lirbeté, Igualité et Fraternité abafa o regozijo alemão é simplesmente arrepiante. As próprias variações de certos temas ajustam-se na perfeição ao evoluir das cenas. A direcção artística acompanha a competência e excelência da produção; produção essa, diga-se, cheia de voltas e reviravoltas, que resultou triunfante por uma série de felizes acasos e por uma realização segura e arrojada.

Enfim... ontem, hoje e amanhã... Casablanca é universal. Uma grande lição de amor, verdadeiro amor, que, para sempre, inspirará gerações. Porque há valores eternos.

Louis, I think this is the beginning
of a beautiful friendship.

CINEROAD ©2017 de Roberto Simões