Mostrar mensagens com a etiqueta Andrei Tarkovsky. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Andrei Tarkovsky. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ANDREI RUBLIOV (1966)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Андрей Рублёв / Andrey Rublyov
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Anatoli Solonitsyn, Ivan Lapikov, Nikolai Grinko, Nikolai Sergeyev, Irma Rauch, Nikolai Burlyayen, Yuri Nazarov

Crítica:

ENTRE O SAGRADO E O PROFANO:
A ARTE COMO EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

Qual é o tempo e o lugar da arte,
num mundo assim?

Andrei Rubliov é, até certo ponto, como que uma variação d'O Sétimo Selo, acrescente-se o sexo, a violência e a contemplação. É um épico medieval magistralmente bem filmado onde, tal como na obra-prima de Bergman, é vivida uma crise de fé pelo protagonista, enquanto o país (a Rússia, neste caso) vive um conturbado e turbulento período de invasões, de sangrentas batalhas e de repressão religiosa. Todavia, n'O Sétimo Selo, a redenção da Humanidade chega apenas na Morte e com ela se atingem todas as respostas capazes de saciar a angústia existencial. Em Andrei Rubliov, a misericórdia e o perdão de Deus são intensamente procurados na Vida e o apaziguamento é repetidamente procurado, tentem os Homens voar de balão ou edificar um sino.

Corre o século XV e o monge Rubliov é já um conhecido e afamado pintor de ícones, frescos e iluminuras. A narrativa é distribuída por um prólogo, sete episódios e por um epílogo. Porém, muita sabedoria, muita tristeza. Quem multiplica o saber, aumenta a sua angústia. Quanto mais cultiva o seu caminho de iluminação e de purificação, mais se apercebe dos problemas do mundo, do Mal que corrói o Homem e que o distancia de Deus e da palavra de Cristo. O Novo Testamento ecoa, aliás, por toda a obra e o reflexo medieval não lhe faz jus. Rubliov cessa a inspirada arte das pinturas para observar o mundo e para reflectir sobre o real sentido da fé... e o que encontra? Um povo ignorante e obscuro, seguindo às cegas a hipocrisia dos representantes de Deus, conformados com o estado da humanidade:

Tudo é vaidade e perecível! Todas as tolices e vilanias já foram concebidas. Agora, nada mais se faz do que repeti-las. Todo volteia e roda nos mesmos circuitos. Se Cristo voltasse à Terra, seria de novo crucificado!

Qual o sentido da religião quando não há esperança? Quando a fé se resume ao cumprimento escrupuloso de um sem fim de códigos e condutas, desprovidas de valor e de essência? Rubliov lembra a Paixão de Cristo e a Cruz do Homem, que se deveria repetir através dos tempos. Mas o que prevaleceu após o Tempo de Cristo? O Tempo Corrompido... Qual o sentido de proclamar o sagrado por oposição ao profano, quando as principais fundações da crença estão tão fortemente abaladas? Os ortodoxos condenam o paganismo, a nudez da feitiçaria e a noite das orgias... a leviandade, a indecência... o amor vergonhoso e bestial... mas, na verdade, todos os Homens se sentem atraídos pelo desejo... Até mesmo Rubliov, que não cede à carne, mas que ainda assim prova o beijo do pecado. Qual o sentido de proclamar a paz e a justiça entre os Homens quando a guerra se repercute e se intensifica nas duas margens do rio? Os tártaros massacram, violam, saqueiam, devastam... mas não será a mesma, a nossa fé? Não será a mesma, a nossa terra, o nosso sangue? Um tártaro sorria, gritando: mesmo sem nós, dareis cabo uns dos outros, como lobos. E o inimigo estava certo. A doença corre-nos e consome-nos no sangue. Para mal dos nossos pecados, o Mal ganha uma aparência humana. Quem atenta ao Mal, atenta à carne e ao osso humano.

Hipocrisia, ignorância, paganismo, terror: todos estes factores motivam a crise de fé e a desilusão no mundo. Perante o conflito, qual é o diálogo possível entre Deus e os Homens? As palavras, mesmo quando irrompem do silêncio, nascem já corrompidas. A religião revela-se igualmente corrompida, pedante. É por isso que, às tantas, Andrei Rubliov se penitencia com o silêncio. Sentiu-se tentado pela sedução dos corpos. Matou um homem, no calor da batalha. Que homem seria, se não se penitenciasse? Tão hipócrita e impuro como qualquer um dos outros à sua volta?

Perante este estado das coisas, resta a um artista perguntar-se: como encontrar a beleza num mundo assim? A resposta é simples: na arte, despida de palavras. Na pintura. O mestre Cirilo apercebe-se, no final, que as pinturas são como janelas para o céu. Mesmo quando representa acontecimentos terrenos, a pintura (nas igrejas, conventos e catedrais) é qualquer coisa de transcendente, um intermédio entre Deus e os Homens. O artista é, por isso mesmo, um ser privilegiado. E, por esta linha de leitura, Tarkovsky introduz na obra a sua Verdade: a arte, como experiência religiosa, tem um papel fundamental para tantos quantos percorram o caminho da iluminação. A religião, onde outrora se encontrava apaziguamento para as angústias da existência, não é mais suficiente para responder às necessidades dos Homens iluminados. A religião e o passado estão manchados de sangue. A arte é a nova religião, cujas potencialidades se confundem na eternidade. Tarkovsky tenta demonstrá-lo no final, quando a cor dá lugar ao preto e branco e ascende, poderosíssima, a música operática. Para o realizador, assistir a um filme como Andrei Rubliov, é como assistir a um fresco vivo - uma experiência igualmente transcendente.

Entre a luz e as trevas, dotado de excepcionais performances, cenários e banda sonora, eis pois um filme absolutamente magnífico.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O ESPELHO (1975)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Зеркало / Zerkalo
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Margarita Terekhova, Ignat Daniltsev, Larisa Tarkovskaya, Alla Demidova, Anatoli Solonitsyn, Tamara Ogorodnikova, Yuri Nazarov, Oleg Yankovsky, Filipp Yankovsky, Yuri Sventisov, Tamara Reshetnikova

Crítica:

ARTE E MEMÓRIA

Assombroso. Abismal. Deslumbrante. Uma experiência profundamente lírica, perturbante e enigmática. Uma complexa odisseia de sonhos e recordações, antes de um último suspiro. A confluência de uma existência passada e de uma existência presente, de sensibilidade e criatividade extremas, num reflexo genial. A nostalgia da infância perdida, a confluência dos tempos, a meditação. A História, a natureza, a vida. As personagens intimamente marcantes: a mãe, sobre todas as outras. A autobiografia iluminada e transcendente, na qual os agentes artísticos sublimam e eternizam a memória, plenos de espiritualidade. O Espelho não é, pois, senão uma obra-prima como poucas, hipnoticamente esculpida, extraordinariamente pensada e magistralmente filmada. Que autor sublime e divinal, Tarkovsky.

Um sonho perturba-me com uma persistência espantosa. Chama-me de volta à aldeia do meu avô. Àquela casa, onde eu nasci há quarenta anos, em cima da mesa de jantar. A visão é-me tão cara que até dói. Mas, quando quero entrar na sua casa, aparece qualquer coisa e impede-me. Tenho este sonho com frequência. Mas quando vejo as paredes de madeira e a escuridão, sei - mesmo a sonhar - que não passa de um sonho. E a minha imensa alegria perde-se na sombra da espera do despertar. Por vezes, porém, deixo de sonhar com a casa da minha infância. E tenho saudades. E espero impaciente o regresso deste sonho, onde voltarei a ver-me criança e a sentir-me feliz, porque tudo está ainda pela frente e tudo será ainda possível...

Bach, Pergolesi, Purcell e composições originais de Eduard Artemyev fluem na espectral perfeição das imagens, emanando um mistério incomensurável. As vozes, os tambores e o infinito. A direcção artística é de um primor e requinte notáveis. A mise-en-scène é incrivelmente preparada, resplandecendo imaculada tanto na cor como no preto e branco. Há imagens inesquecíveis, atmosferas construídas ao mais ínfimo pormenor. A câmera de Tarkovsky avança e recua pausadamente, lentamente. O olhar é lúgubre, tenebroso, outras vezes chega mesmo a ser assustador e arrepiante. Como numa dimensão onírica, o espaço e o tempo confundem-se, as personagens mudam de nome, de identidade, mas nunca de carga simbólica. Até os actores são os mesmos. Tenho a sensação de já ter vivido isto antes... Porém, estou aqui pela primeira vez. Há um toque, há um contacto entre mundos distintos, mas ciclica e geracionalmente repetidos. Excepcional elenco: Margarita Terekhova, Ignat Daniltsev... Depois, há declamação de poesia, versos do pai Arseni Tarkovsky, ditos pelo próprio, no culminar de cenas absolutamente magníficas. Fecundam as metáforas, vigora a filosofia:

Não acredito em pressentimentos, nem tenho medo dos maus ventos, nem fujo à calúnia nem ao veneno. A morte não existe neste mundo pleno. São todos imortais, é tudo imortal. Temer a morte aos quinze é um absurdo. Aos setenta é igual... Além da vida e da luz nada existe. Nem a escura noite, nem a morte; vivemos todos à beira-mar, a minha sina é apanhar as redes que trazem muito peixe. Sem inquilinos, a casa tem que se desmoronar. Portanto, para habitar qualquer dos séculos eu posso convocar. E é por isso que à minha mesa tenho os vossos filhos, mães, esposas, bisavós, netinhos. Pois construimos hoje o futuro. E quando eu levantar a mão, os seus cinco raios convosco ficarão. As clavículas serão o suporte de cada dia que se passou. Medi o tempo às braçadas, galguei-o, escolhi-o, como me mandavam as minhas alçadas. Nós cavalgámos para o sul e a poeira ficou para trás. Deitava fumo o capim, de súbito o grilo perspicaz, ao sentir as ferraduras do cavalo com as antenas, profetizou-me morte ruim. Prendi à sela, pois, o meu fado, e levantei-me nos estribos a contemplar o tempo em que vivo e o que me será dado. Alegra-me a sina, imortal, e que de século em século o meu sangue correrá, mas vou dar a minha vida insurrecta por um cantinho de calor seguro, conquanto a sua agulha voadora, qual uma linha, não me conduza pelo mundo fora.

A natureza transforma-se mesmo diante dos nossos olhos. O vento vai e vem e serve de elo entre todas as coisas. A perfeita harmonia entre a mística do redor e os segredos maiores da existência:

Caí e que vejo eu... raízes, arbustos... Nunca lhe pareceu que as plantas também sentem, pensam, raciocinam até? As árvores, a aveleira... (...) Estão calmos. Livres de correria, da azáfama. Também das banalidades. Tudo isto só a nós respeita. Porque não acreditamos na natureza que está em nós. Sempre desconfiados, agitados. Sempre sem tempo para pensar.

Alimenta-se o diálogo inter-artes. A música, a literatura, a pintura - Da Vinci. A beleza da criação artística. O cinema - o poster de Andrei Rubliov concretiza a mise en abyme, o espelho dentro do próprio espelho, por meio dos quais a arte se olha a si própria. Vinculam-se princípios:


Não se pode escrever por dinheiro. Escrever é um acto de coragem. A obrigação do poeta é causar emoções espirituais, não educar idólatras.

Revisita-se a História. A Europa, a Rússia, a Igreja, a guerra, os grandes acontecimentos que alteraram as fronteiras e as páginas do futuro, mas que repetiram, sem novidade, os erros da Humanidade. Tarkovsky recorre então a filmagens de arquivo, conferindo-lhes uma aura de reflexão e um lirismo inesperado. Apercebemo-nos da forma como a guerra influenciou e traumatizou a infância e o século, conferindo-lhes a ausência, a escassez e a solidão. Ainda assim, a vida seguiu o seu curso natural: o protagonista omnipresente casou, divorciou-se e ausentou-se do filho. Não havia mais a guerra, mas havia ainda o Homem. Tudo se repetiu e, ainda assim e apesar do trauma, a infância continuou a significar para ele um refúgio de pureza e de felicidade.
Enfim, que feito. O Espelho é puro cinema, pura poesia - arte na sua acepção máxima. Um filme nuclear no percurso cinematográfico do cineasta.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

STALKER (1979)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Сталкер / Stalker
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Aleksandr Kaidanovsky, Alisa Frejndlikh, Anatoli Solonitsyn, Nikolai Grinko, Natasha Abramova, Faime Jurno, Ye. Kostin, R. Rendi

Crítica:

O PURGATÓRIO DA EXISTÊNCIA

O milagre está fora do empírico.
Escritor

I

O que é e o que representa - enquanto objecto artístico - uma assustadora obra-prima como Stalker? Um mero devaneio poético e filosófico, ainda que inteiramente profundo e genial? Uma tremenda e inquietante distopia sobre a incomensurabilidade do ser? Uma intrigante alegoria política, crítica aos responsáveis pelo caos da realidade alucinada, o desenvolvimento industrial e o capitalismo selvagem? Um pesadelo, uma expiação de fantasmas de guerra, um advento apocalíptico? Uma incessante e hipnótica metáfora freudiana, para além das fronteiras do consciente, subconsciente e inconsciente? Um visionário e tenebroso labirinto de contemplação, reflexão e interrogação, ainda que às tantas assombrado pelo niilismo, acerca da natureza e da existência humana, acerca dos desejos, dos medos e da eterna busca de uma verdade absoluta e inatingível? Um ensaio sobre a fé, sobre a presença ou a ausência de Deus? A concretização da unidade aristotélica - uma só acção, um só espaço, um só tempo? Um tratado sobre a beleza intemporal das coisas?

II

Num lugar e num tempo indeterminados, a especulável queda de um meteorito condenou a existência humana à contaminação. As tropas e autoridades delimitaram e cercaram logo a região, denominando-a A Zona e interditando-a a qualquer indivíduo. Estima-se que A Zona detenha propriedades estranhas, misteriosas e sobrenaturais. Fala-se que n'Ela existe um Quarto onde todos os desejos se concretizam... e as enigmáticas possibilidades dessa lenda rapidamente fascinaram os sofridos da cidade mais próxima, que entre destroços e ruínas habitam.

A obra inicia-se, passados os créditos, num sépia de bronze, não só requintado como imaculado. A mise-en-scène é minuciosa, a iluminação acautelada ao pormenor e a fotografia (Aleksandr Knyazhinsky, Georgi Rerberg, Leonid Kalashnikov) brilha em todo o seu máximo esplendor. Iniciam-se os takes longos, lentos, envolventes. Para além da porta, o lar de uma família. Três: Stalker (Aleksandr Kajdanovsky), a sua mulher (Alisa Frejndlikh) e a sua filha. O drama: a mulher vive, constantemente, a solidão com uma filha deficiente e apática do mundo. A atmosfera é de desespero e corrói-lhe a alma. Stalker é um guia, a sua missão é secreta e consiste em desbravar o impossível para além da fronteira proibida. Os stalkers são os únicos conhecedores do caminho, capazes de sobreviver dentro d'A Zona.



III

Um dia, Stalker parte novamente, deixando a família para trás. O bar da cidade é o ponto de encontro com os seus clientes. Esperam-no, desta vez, um escritor famoso (Anatoli Solonitsyn) e um céptico cientista e professor (Nikolai Grinko). O caminho é difícil, árduo e arriscado. A existência é-lhes assombrada pelo desejo, pelo medo e pela dúvida:

É tudo mentira. Estou-me nas tintas para a inspiração. Como posso saber o nome daquilo que quero? Como posso saber que, no fundo, não quero o que quero? São coisas fugidias: basta dar-lhes um nome e perdem o sentido. Este derrama-se como uma alforreca ao sol. A minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo, mas o meu subconsciente morre por um bife suculento.
Escritor

Toda a Sua tecnologia, altos-fornos, rodas... e outras idiotices são para trabalhar menos e manducar mais. Tudo isso são muletas, próteses. No entanto, a Humanidade existe para criar obras de arte! O fim destas não é interesseiro, ao contrário de todas as outras acções. Que ilusões! Imagens de verdade absoluta!
Escritor

Voltarei d'O Quarto já como génio... para a nossa cidade, esquecida de Deus. Ora, o Homem escreve porque sofre, porque duvida de si. Tem que provar a Ele próprio e a quem o rodeia que tem algum valor. E se souber, de antemão, que sou um génio? Para que raio hei-de escrever? Qual o sentido?
Escritor

Ao entrarem no território d'A Zona, o filme ganha cor. A música electrónica e a indecifrável orquestração de sons conflui-se com o ambiente enevoado, com os subtis ruídos e, imagine-se, com o silêncio. A aparente confusão acústica resulta na perfeição, como se pronunciasse a aura do incógnito. O que é A Zona? - interrogam-se os três, cada vez mais, em viscerais interpretações.

A Zona é um complexo sistema de armadilhas, se querem... Todas são mortais. Não sei o que se passa aqui quando não está ninguém. Mas quando aparecem pessoas, tudo começa a mexer. As antigas armadilhas desaparecem, surgem novas. Os lugares seguros tornam-se intransitáveis. E o caminho ora é fácil, ora infinitamente emaranhado. É A Zona! Por vezes, parece até caprichosa. Mas é, em cada momento, como a fizermos com o nosso próprio espírito. Algumas pessoas tiveram de regressar a meio. Outras, morreram mesmo à entrada d'O Quarto. Tudo o que se passa aqui, dependerá apenas de nós, não d'A Zona! (...) Parece-me que deixa entrar quem já não tem esperança. Os infelizes, não os bons ou os maus. Mas até o mais infeliz dos infelizes morrerá, se não souber comportar-se.
Stalker

O que é A Zona? À semelhança da vida, quanto mais sabemos, menos compreendemos. Intensificam-se as perguntas e o seu teor. A Zona é o Grande Mistério, é o Nada, a metáfora da Vida. Ao atravessar a Vida, o Homem ou sobrevive ou se despedaça:

Quando uma pessoa nasce, é fraca e flexível; quando morre, é forte e dura. Quando uma árvore cresce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, morre. A dureza e a força são atributos da morte. A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, que endurece nunca vencerá.
Escritor

No final, tudo tem sentido. O seu sentido e a sua causa.
Stalker


IV

Mas dará a Vida a certeza suficiente para garantir tais verdades inalteráveis? Terá tudo sentido, efectivamente? O caos suscita o existencialismo. O existencialismo faz pensar o Nada. E, às tantas, o escritor e o professor seguem o curso natural da descrença. A incessante procura de respostas, que nunca chegam ou saciam, fá-los perder a esperança. Tornam-se, afinal, discípulos do Nada. Existirá A Zona, de facto? Será Ela tudo aquilo que se presume? Existirá, realmente, o Quarto dos desejos? O filme é uma viagem. Para o escritor e para o professor, uma viagem de desistência, de resignação à genialidade e ao Nobel. Para Stalker, uma angustiante viagem de confirmação: os Homens perdem, com a idade, o vigor, a fé e sucumbem a uma existência conformista e sem sentido.

O mundo perfeito é só e apenas uma ideologia. Jamais poderá ser um desejo, um desejo possível, concretizável. Sonha-se com uma coisa, recebe-se outra.

Grosso modo, não existem factos, muito menos aqui. Tudo isto é uma invenção idiota de não-sei-quem. (...) Você, claro, quer saber quem foi o inventor. Mas para quê? De que lhe valerão os conhecimentos? A quem doerá a inconsciência? A mim? Não tenho consciência, só os nervos...
Um canalha maldiz-me, uma ferida... Outro canalha elogia-me, outra ferida. Ofereço a alma e o coração, devoram-me a alma e o coração. Tiro uma vileza da minha alma, devoram a vileza. São todos muito sabichões! Todos com a fome de sensações. Todos se agitam à minha volta: jornalistas, redactores, críticos, mulheres sem conta... Todos exigem: mais, mais! Que raio de escritor sou eu, se odeio escrever? Se, para mim, é um martírio, um suplício, uma vergonha, como se estivesse a espremer furúnculos?
Dantes, pensava que os meus livros faziam alguém melhor. Mas ninguém precisa de mim! Quando esticar o pernil, passados dois dias, começam logo a devorar outro. Esperava refazê-los, mas refeito acabei por ser eu! À imagem e semelhança deles!
Dantes, o futuro era apenas a continuação do presente. Transformações vislumbravam-se muito longe, no horizonte. Agora, porém, o futuro e o presente fundiram-se. Estarão eles prontos para isto? Não querem saber de nada! Apenas devoram!
Escritor

Às tantas, escritor e cientista querem destruir a esperança. Não acreditam nela, por isso querem destruí-la. O escritor quer abdicar da viagem, deixou de querer ajudar pessoas com a sua escrita, e o cientista quer recorrer à bomba (por ele inventada e denominada de almómetro, o aparelho para medir as almas) para destruir O Quarto. O Quarto representa Deus. E questionar a veracidade d'O Quarto, é questionar a veracidade de Deus. Sem Deus, não há criador, nem cosmos. Perante a atitude derradeira dos Homens, que postura acabará por adoptar o tão dedicado guia? Afinal, Stalker guia os deprimidos para A Zona por que acredita na felicidade, na liberdade e na dignidade do local. Valerá a pena entregar-se aos outros, dar-se aos outros, ainda que totalmente só? Stalker não é senão a imagem de Cristo. É na personagem do stalker que reencontro a posição do próprio Tarkovsky, que um dia disse: O meu objectivo é fazer filmes que ajudem as pessoas a viver, mesmo que esses filmes causem, por vezes, infelicidade.

E dizem-se intelectuais, escritores, cientistas! (...) Não acreditam em nada! Têm atrofiado o órgão da crença. Não precisam dele! (...) Têm os olhos vazios! Só pensam em não pagar mais, em vender-se por mais dinheiro! Querem que todo o trabalho de espírito lhes seja pago. Sabem que não nasceram em vão, que são predestinados! Que só vivem uma vez! Claro que não acreditam seja no que for! (...) Ninguém acredita, não só esses dois. Ninguém! Quem hei-de eu seguir? Jesus! O pior é que ninguém precisa deste Quarto. Todos os meus esforços são inúteis! (...) Não levarei mais ninguém.
Stalker

Sendo Cristo, um stalker é um eterno condenado à morte e um eterno impulsionador do mundo. Um verdadeiro artista, como Tarkovsky, é um stalker e a sua arte é a sua religião. E, às vezes, um artista poderá questionar a sua utilidade e a utilidade da sua obra, mas o seu testamento inspirará o futuro, continuamente... contribuindo decisivamente para a real evolução do Homem. Não o caminho de ferro, não a locomotiva, o telefone ou a electricidade... Não a evolução tecnológica que, tão progressivamente, a paisagem transforma e consome. A evolução espiritual, essa sim, é a pedra filosofal da existência.

V

Stalker constitui, por tudo isto, uma equação fundamental na fórmula e no milagre. É um filme essencial. Uma das maiores concretizações artísticas de todos tempos. Perante a câmera de Tarkovsky, todas as coisas - mesmo as mais insignificantes - se tornam belas... A pureza dos sons e das imagens alia-se, mágica e magistralmente, na transcendência das palavras, nas abstractas dunas de símbolos, sombras e interpretações múltiplas... numa experiência metafísica verdadeiramente incomensurável. Stalker é tudo isto. Tudo isto e tanto mais. É um enigma maior, filmado com extrema sensibilidade. As suas fertilidade, densidade e ambiguidade apoderam-se, nos ecos e nos silêncios, dos nossos sentidos e... da nossa memória.

Nota especial para a cena final, tão magnífica, obscura e espectral como a totalidade...


segunda-feira, 21 de junho de 2010

A INFÂNCIA DE IVAN (1962)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Иваново детство / Ivanovo Detstvo
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Nikolai Burlyayev, Valentin Zubkov, Yevgeni Zharikov, Stepan, Krylov, Nikolai Grinko, Dmitri Milyutenko, Valentina Malayavina

Crítica:

AS RUÍNAS DA INOCÊNCIA

Imaculado. Puro. Belíssimo. Assim é o cinema de Andrei Tarkovsky e assim é A Infância de Ivan. Os toques poéticos do autor, extremamente sensíveis e virtuosos, reflectem-se em toda e cada uma das cenas e imagens da obra: nas árvores brancas e nos riachos cintilantes de uma natureza condenada pela guerra dos homens... nas chamas cadentes e na infância perdida de um tempo corrompido e cruel onde secou a esperança e onde só há espaço para a tragédia e para o desgosto... no sonho, refúgio de memórias, onde um sorriso abraça e reconforta o coração de uma criança inocente, escapando às agruras do real e aos horrores da loucura humana.

Emocionalmente arrebatadora e - eu diria mesmo - desoladora, a primeira longa-metragem do génio e visionário russo conta-nos a história de Ivan, um corajoso e destemido loirinho magricelas de pele e osso, um menino feito órfão pelas atrocidades da 2ª Guerra Mundial e apadrinhado pelo exército da União como espião, e que vive cada instante como se fosse um adulto, como se fosse um soldado da frente soviética e um elemento não só útil como preponderante na estratégia bélica. A morte da mãe e da família abandonou-o à mais completa solidão e é esse o factor que motiva a sua atitude beligerante e a sua tenacidade em resistir com empenho às dificuldades do momento. Ivan, de doze anos, parece ser o único a acreditar que todo aquele pesadelo de sangue e morte vai acabar. Veja-se a metáfora do velho do quadro, que afirma que nada vale a pena. Ivan continuará a sua missão até ao fim, sem cessar: só descansa em tempo de guerra quem não presta, riposta imediatamente, quando um dos soldados lhe diz que deveria descansar e estudar.

Ao mesmo tempo que reproduz com assaz e profundo realismo o drama e as penosas consequências do confronto (e em especial o impacto psicológico do poder destrutivo da guerra para uma criança), A Infância de Ivan aventura-se, com uma destreza e criatividade incríveis, pelo surrealismo, pelo maravilhoso e pelo fantástico do universo onírico. A transição entre as duas dimensões supera-se eximiamente e na façanha reside uma das qualidades mais admiráveis da obra: aquela cena em que o pequeno Ivan (atravessado o pântano, o frio, a fome e as balas) adormece sobre os cuidados do tenente Galtsev (Yevgeni Zharikov) e liricamente se ascende (tanto pelo som como pela arte de filmar) pelo poço de recordações ao reconforto de um passado precioso... é absolutamente extraordinária. Uma outra cena reside entre as mais memoráveis da obra: as trincheiras rasgam a terra e as oportunidades para encontrar o amor escasseiam. Aquele beijo inesperado em que o capitão Kholin (Valentin Zubkov) envolve a enfermeira Masha (Valentina Malyavina), deixando-a em suspenso sobre a valeta, é de uma beleza indiscritível e de uma carga simbólica notável.

O preto e branco de Vadim Yusov, no máximo da perfeição, eleva e sublima as potencialidades da fotografia, permitindo-nos a nós, espectadores, respirar a paisagem. A banda sonora de Vyacheslav Ovchinnikov enebria-nos com a sua emoção e subtileza, a montagem de Lyudmila Feiginova flui cuidada e irrepreensível. No seu todo, A Infância de Ivan apresenta-se como um todo brilhante, capaz de nos confrontar com as mais pertinentes reflexões filosóficas.

Um clássico obrigatório é dizer pouco: obra-prima absoluta!


<br>


CINEROAD ©2020 de Roberto Simões