terça-feira, 27 de abril de 2010

A ESQUIVA (2003)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: L'Esquive
Realização: Abdel Kechiche
Principais Actores: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazani, Nanou Benhamou, Aurélie Ganito, Carole Franck, Hafet Ben-Ahmed

Crítica:

CONVERSAS DE ADOLESCENTES

Abdel Kechiche transporta a steadicam para o interior dos subúrbios parisienses e concretiza, com assaz realismo e autenticidade, o retrato de uma adolescência irascível e conflituosa.

Se, enquanto espectadores adolescentes, nos deixarmos levar pela história, facilmente identificaremos aquelas personagens com algumas outras do nosso próprio núcleo de amigos. Sentiremos a história tão próxima de nós e da nossa realidade quotidiana. Assim sendo, A Esquiva contará a história de Krimo - um jovem de quinze anos, tímido e apaixonado, que integrará a peça de teatro da turma de forma a aproximar-se de Lydia, a loirinha autoritária.

Se, por outro lado, formos espectadores adultos, facilmente reconheceremos a teatralidade de toda a adolescência: uma encenação exagerada do ego, violenta e revoltada, extremamente sensível, temperamental e efervescente. Não nos identificaremos propriamente com as reacções e os sentimentos daquelas personagens, mas identificá-los-emos certamente na nossa experiência passada, quando tínhamos quinze anos e caminhávamos, com as emoções à flôr da pele, pelo centro do mundo.

Contudo, o retrato estende-se ainda a outras leituras. As longas cenas do filme revelam também, por exemplo, uma realidade periférica e multi-cultural, de língua rude e imediatamente substimada pela autoridade. Estará esta geração condenada ao seu meio original? Marivaux argumentava que sim.

Os resultados da encenação são francamente admiráveis e os desempenhos são genuínos. Destaque para a interpretação de Sara Forestier, um desempenho excepcional e surpreendente. O primor estético não é, propriamente, uma das virtudes da obra (creio mesmo que a forma se esgota em si mesma), mas o argumento apresenta uma reflexão pensada sobre a adolescência, interessante e pertinente, e isso é digno de mérito.

domingo, 25 de abril de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (4)

Continua a nossa iniciativa.
Desta vez, eu próprio me desafiei a partilhar convosco o meu leque de realizadores preferidos.
Ei-los:

Darren Aronofsky
Gus Van Sant
Jean-Pierre Jeunet
Martin Scorsese
M. Night Shyamalan
Paul Thomas Anderson
Sergio Leone
Stanley Kubrick
Terrence Malick
Todd Haynes

sábado, 24 de abril de 2010

24 HOUR PARTY PEOPLE (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: 24 Hour Party People
Realização: Michael Winterbottom


Principais Actores: Steve Coogan, Paddy Considine, Keith Allen, Rob Brydon, Enzo Cilenti, Ron Cook, Lennie James, Andy Serkis, Kevin Baker

Crítica:

SEX, DRUGS & ROCK 'N' ROLL

And tonight something equally epoch-making is taking place. See? They're applauding the DJ. Not the music, not the musician, not the creator, but the medium. This is it. The birth of rave culture. The beatification of the beat. The dance age. This is the moment when even the white man starts dancing. Welcome to Manchester.

Quando Dédalo concebeu as asas de cera, bem que avisou o filho para que não se aproximasse demasiado do sol ou as asas derreteriam e a queda seria fatal. A cena de abertura de 24 Hour Party People joga, afinal, com esse mito: Is it a bird? Is it a plane? No... Tony Wilson traça a metáfora com o falhado vôo de asa-delta, rematando: You're going to see a lot more of that sort of thing in the picture. I don't want to say too much, don't want to spoil it. I'll just say one word: 'Icarus'. If you get it, great. If you don't, that's fine too. But you should probably read more. Os créditos avançam e assim começa uma vibrante e alucinada viagem à cena de Manchester, entre os finais dos anos 70 e os inícios dos anos 90, quando bandas como Sex Pistols, Joy Division, New Order ou Happy Mondays fizeram furor e ascenderam da garagem ao estrelado e à idolatria de milhares de fãs. Contudo, tal como as asas de Ícaro, a música é um universo bastante susceptível e volátil. Tão depressa se está no auge como no abismo. A filosofia do mendigo denota assaz sabedoria:

It's my belief that history is a wheel. 'Inconsistency is my very essence' - says the wheel - 'Rise up on my spokes if you like, but don't complain when you are cast back down into the depths. Good times pass away, but then so do the bad. Mutability is our tragedy, but it is also our hope. The worst of times, like the best, are always passing away'.

Tony Wilson (fantástico Steve Coogan) assume o protagonismo e a narração. E é enquanto narrador que se revela mais interessante, pois interrompe a acção para falar directamente ao espectador, para antecipar informação (He will go on tosleep with my wife (...) Later on he will try to kill me) ou para simplesmente mentir e efabular sobre os factos históricos que o filme se esmera por reconstituir: I agree with John Ford: when you have to choose between the truth and the legend, print the legend.

O argumento (Frank Cottrell Boyce) confere ao filme uma energia e vitalidade fundamental para fazer com que o espectador reviva as emoções do rock, sentidas à flor da pele naquela musical explosão de ruptura e provocação, sexo e drogas. O filme é baseado na aparente espontaneidade e liberdade de regras, tal e qual a música que nascia sob tão jovial pulsão. A música é, também ela, um agente essencial para a energia e vitalidade da obra. Afinal, 24 Hour Party People é um filme sobre música mas um filme que é, também ele próprio, música. E aos grupos acima anunciados juntam-se temas dos The Clash, dos The Buzzcocks e um remix do tema que dá nome ao filme, por Jon Carter, numa delirante banda sonora.

Para os fãs deste estilo de música, a virtuosa obra de Michael Winterbottom será um puro deleite, certamente. Para os fãs de cinema, fica um irreverente achado de irreverente confluência estética, que se constrói na fusão da comédia com o drama e do biopic com o documentário, num brainstroming musical ímpar. Excepcionalmente montado e dirigido, com momentos de surpreendente criatividade (a cena dos pombos, a título de exemplo), 24 Hour Party People impõe-se como um alien da pop culture, mas ostenta as qualidades necessárias para alimentar um merecido fenómeno de culto.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

IRMÃO, ONDE ESTÁS? (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: O Brother, Where Art Thou?
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, John Goodman, Holly Hunter, Charles Durning, Stephen Root

Crítica:

UMA ODISSEIA AMERICANA

Irmão, Onde Estás?, dos irmãos Coen, é uma comédia absolutamente excêntrica e insólita, tecnicamente sofisticada, visualmente estonteante e dotada de uma dramaturgia refinada e muito bem-humorada. É, em poucas palavras, uma obra brilhante e sublime, com um iluminado rasgo de profundo génio.

Tendo a Odisseia de Homero como inspiração, o devaneio criativo dos Coen propõe uma versão alucinada da história de Ulisses, passada no interior americano, durante os anos da Grande Depressão. Confluem-se, com assaz mestria, referências da mitologia clássica com elementos do próprio folclore americano, convocando-se costumes, figuras e personagens do imaginário colectivo daquela cultura ocidental.

Primeiro que tudo, a invocação:

O muse!
Sing in me, and through me tell the story
Of that man skilled in all the ways of contending...
A wanderer, harried for years on end...

Depois, os cânticos. Que nem marinheiros fustigados pelo suor dos remos, os condenados de uma prisão do Mississipi são forçados a partir pedra, empunhando ao sol as picaretas. George Clooney é Everett Ulysses McGill, um desses desgraçados, condenados à Circe da justiça: que nem o herói homérico, sonha voltar a casa, para junto da sua amada Penélope, mas o derradeiro regresso far-se-á somente após uma série de aventuras e desventuras, de acasos e infortúnios. Ao Ulisses dos Coen não falta a eloquência do discurso. A eloquência do discurso e as latas de brilhantina (afinal, uma das principais preocupações de Everett é o estado imaculado do seu penteado). Contudo, falta-lhe o engenho e o plano ardiloso para escapar ao malfadado destino. É certo que tem a graça de conseguir manipular os seus comparsas do crime, a ele acorrentados, como forma de conseguir fugir primeiramente aos guardas. Porém, o plano de fuga resume-se à evasão. O que acontecerá depois nem eles sabem nem adivinham: um cego profeta dos carris que nem Tirésias, o sábio antigo, um burlão gigante e de um só olho que nem Polifemo, o ciclope devorador de homens, um grupo de esbeltas e sedutoras lavadeiras cantadeiras que nem as matreiras e encantatórias sereias dos mares revoltos. E mais: um negro pactuante com o Diabo num cruzamento da meia-noite que nem o lendário Robert Johnson, um ladrão completamente insano que nem o Nelson Babyface, religiosos protestantes, políticos promíscuos, cruzes em chamas e encontros secretos do Ku Klux Klan, sapos saltitantes, telhados com vacas, inundações inesperadas e caixões que servem de bóias. Um universo mirabolante, que faz de Irmão, Onde Estás? uma comédia deveras excepcional.

Para além disto, estamos perante uma obra com uma vertente musical muito vincada. Do gospel à country, passando pela aclamação da banda dos Rabos Molhados e pelas constantes personagens cantantes, temos uma natureza melódica e quase erudita que se impõe na sublimação do poema. Por outro lado, chega até nós um elenco de interpretações sólidas (Clooney, Turturro, Goodman) e um trabalho de fotografia de uma excelência digna das maiores referências, a cargo de Roger Deakins: pela primeira vez na História do Cinema se procedeu à manipulação integral da imagem de um filme, neste caso por saturação cromática através de um processo designado impressão digital de resposta - uma técnica ambiciosa e inovadora, que abriria as portas do Cinema a todo um novo horizonte de possibilidades. O feito de Deakins contribuiu, de forma determinante e inequívoca, para a beleza e para o estatuto superiores de Irmão, Onde Estás? enquanto objecto de sobrevalorização estética.

Enfim, um filme, sob todos os primas, memorável. Divertidíssimo. Extremamente bem filmado. Um clássico instantâneo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O ACONTECIMENTO (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Happening
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley, Frank Collison, Robert Lenzi, Spencer Breslin , Jeremy Strong

Crítica:

A AMEAÇA INVISÍVEL

Science will come up with some reason to put in the books, but in the end it'll be just a theory. I mean, we will fail to acknowledge that there are forces at work beyond our understanding. To be a scientist, you must have a respectful awe for the laws of nature.

M. Night Shyamalan concebe o engenhoso argumento d' O Acontecimento tendo por base dois dos maiores medos das civilizações actuais: o terrorismo levado a cabo por fundamentalistas radicais (os fantasmas do 11 de Setembro vieram despertar o mundo para uma assustadora realidade, traumatizando, em especial, a América) e a destruição implacável e imprevisível da Natureza (as consequências do aquecimento global traçam um novo perfil do Homem - o destruidor - e os alarmes dos especialistas tendem a consciencializar, ainda que lenta ou tardiamente, a opinião pública e a opinião de cada um de nós).

A primeira vez que vi O Acontecimento fiquei com a impressão de que nem sempre uma boa ideia era suficiente para fazer uma boa história. Agora que revi o filme, não tenho como negar a minha anterior afirmação; porém, asseguro que essa lógica não se apropria aqui. O Acontecimento tem, sim, uma boa história. Não é uma história com a beleza e profundidade da de um O Sexto Sentido, de um O Protegido ou de um A Vila, evidentemente, mas parte de uma excelente premissa, explora-a com assaz inteligência e subtileza dramatúrgica e constrói um mistério que se intensifica continuamente, ganhando uma essência cada vez mais sinistra e emocionalmente poderosa. Dos créditos iniciais ao desfecho nada apaziguador, entramos numa atmosfera de puro suspense, numa luta pela sobrevivência capaz de atormentar a psique até ao limite.

Elliot Moore é professor de ciências. Lecciona uma aula sobre o desaparecimento das abelhas, relembrando What are the rules for scientific investigation? Identify variables, design the experiment... careful observation and measurement... interpretation of pattern enquanto de Nova Iorque chegam as notícias de uma série de enigmáticas mortes. Já assistímos a algumas delas. Sabemos que são suicídios involuntários. Sim, suicídios involuntários. Causa? Não a conhecemos.

Central Park was just hit by what seems to be a terrorist attack. They're not clear on the scale yet. It's some kind of airborne chemical toxin that's been released in and around the park. They said to watch for warning signs. The first stage is confused speech. The second stage is physical disorientation, loss of direction. The third stage... is fatal.

Uma das piores e mais assustadoras ameaças das quais podemos ser alvos, enquanto seres humanos, é o invisível, ainda para mais quando desconhecido e impossível de interpretar. Shyamalan propõe-nos uma dessas ameaças e experienciamo-la com especial intensidade. Afinal, o perigo alastrar-se-á ao sabor do vento. A possibilidade ficcional de tamanha ideia poderia soar absolutamente ridícula, mas a construção do argumento é tão notável que a faz totalmente credível. A realização do mestre, contida e excepcional, concretiza as possibilidades do argumento.

Ficam lançados, uma vez mais, os avisos... aqui na forma de uma importante mensagem ecológica, de reconciliação com a Natureza, essecial para o equilíbrio da vida no planeta.
E ninguém conta uma história de suspense como Shyamalan, um dos mais brilhantes e incompreendidos autores da actualidade.


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Shyamalan simplesmente não faz maus filmes. O Acontecimento é, por isso, uma obra com qualidades e que vale a pena. No entanto, tal facto não invalida que lhe aponte aspectos menos positivos, porque os tem e são evidentes: o filme beneficiaria de um maior teor artístico caso o trabalho fotográfico de Tak Fujimoto fosse habilitado de uma maior sensibilidade estética, caso a banda sonora de James Newton Howard fosse mais envolvente. Ambos os contributos são competentes, mas nunca extraordinários. Apesar de tudo, se há erro crasso, é um erro de casting. Não me refiro nem a Zooey Deschanel, nem a John Leguizamo, nem sequer à pequena Ashlyn Sanchez. Nem sequer a Frank Collison ou a Betty Buckley, a brilhante Mrs. Jones. Estão todos formidáveis. Refiro-me ao protagonista, Mark Wahlberg, cujo desempenho se revela, na maior parte das vezes, superficial e lamentável.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

10 Breves Perguntas (13)

João Bastos, autor do blogue Revolta da Pipoca, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
The Lord of the Rings - The Return of the King (2003)
2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Pulp Fiction (1994)
Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain (2001)
3. Um Amor de Infância:
My Girl (1991)
4. Um Filme de Animação:
The Lion King (1994)
5. Uma Comédia: American Pie (1999)
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
The Matrix (1999)
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Star Wars III - Revenge of the Sith (2005)
8. Um elenco: Reservoir Dogs (1992)
9. A Melhor Fotografia que conheço:

Titanic (1997)
10. Já mudei de ideias sobre este filme:
Pulp Fiction (1994)


Um muito obrigado, João Bastos.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

HOMEM NA LUA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man on the Moon
Realização: Milos Forman

Principais Actores: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti

Crítica:

THE TRUEMAN SHOW

O argumento de Homem na Lua, escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski, e magistralmente levado à tela por Milos Forman e pelo talento explosivo de Jim Carrey, é, porventura, um dos mais arriscados que poderia imaginar e que esperava encontrar. Pensando para mim e comigo mesmo, indago-me se algum produtor aceitaria financiar um projecto tão frágil como este, caso não estivesse a ele aliado um nome tão prestigiado e consagrado como o de Forman. E não me refiro a sucesso comercial, porque se há coisa que Homem na Lua não foi, foi um sucesso retumbante. Refiro-me, evidentemente, à concretização plena de um filme brilhante, com uma dimensão trágica e dramática tão profunda e com Jim Carrey como actor principal. Fica a questão. Eu tenho as minhas dúvidas.

O que Milos Forman faz com o espectador é uma brincadeira muito ao género do próprio Andy Kaufman, o excêntrico e lunático comediante que em plenos anos 70 indignou a América com a sua forma muito peculiar de fazer piadas. Note-se a abertura da obra: Forman coloca-nos Kaufman à frente, a preto e branco e sobre um fundo negro, a manipular o seu próprio filme: a dizer que o filme já acabou (mesmo antes de ter começado) e a pôr os créditos finais a passar, ainda o lugar do espectador não aqueceu!

Hallo. I am Andy. Welcoom to my movie.
I hoped the story of my life would be nice...but it turned out terrible! It is all LIES! Tings are mixed up... real people I knew play different people. WHAT A MESS!
So I broke into Universal and cut out the junk. Now it's much shorter. In fact, this is the end of the movie. So tanks for comink!
Bye-bye!

Quando o episódio acaba, o ecrã fica totalmente a negro. Forman faz-nos esperar longos segundos. E só depois Kaufman reaparece, sorrateiramente e como que não quer a coisa, provocando os espectadores:

Okay! Just my friends are left. I wanted to get rid of those other people... they would have laughed in the wrong places.
I was only kidding about the movie... it's actually PRETTY GOOD! It shows everything... from me as a little boy until my death - Oops!! I wasn't supposed to talk about that! Oh. Eh, uh, we better just begin.

E eis que a diegese principal começa. Decididamente, Forman já marcou a sua posição: Homem na Lua não será um filme para todos, para o comum dos espectadores. De qualquer das formas, já os avisou. Se estão curiosos, pois que fiquem e desfrutem da história. O que se passa é que Andy Kaufman viveu a sua vida em constante representação. A sua verdadeira história não é senão uma ficção de si mesma. Por isso, tudo significa nada. E nada significa tudo. É uma história no fio da navalha de quem, ele próprio, viveu no fio da navalha. A sua vida foi um constante risco. E Andy servia-se do próprio risco para viver. Sonhava ser o maior artista de todos os tempos. E preparou o seu mito como cada uma das suas encenações. Note-se a cena do seu funeral... Ou a actuação de Tony Clifton, um ano após a sua morte... Para ele, a vida não era para ser levada a sério. Para ele, a vida era a maior comédia de todas.

Penso que não poderei ser mais justo ao dizer que Jim Carrey agarrou o papel com toda a sua força e talento, de corpo e alma. O papel de Andy Kaufman permitiu-lhe dar a conhecer um poderosíssimo concentrado de versatilidade e genialidade, do riso à lágrima. Provavelmente, o melhor papel da sua carreira. Absolutamente extraordinário, de pura e contínua transfiguração, inesquecivelmente ímpar. Danny DeVito (que conheceu o verdadeiro (?) Kaufman e assegurou a produção do filme) e Paul Giamatti são os destaques mais proeminentes do elenco secundário.

Com competentes montagem e direcção artística e filmado com a classe habitual do realizador de clássicos como Voando Sobre Um Ninho de Cucos ou Amadeus, Homem na Lua é um filme inteiramente excepcional. É um daqueles raros filmes que, na nossa memória e após o termos visto vezes sem conta, reclamará sempre uma nova visualização, que nunca decepcionará.

terça-feira, 20 de abril de 2010

AS CANÇÕES DE AMOR (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Les Chansons d'Amour
Realização: Christophe Honoré
Principais Actores: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Chiara Mastroianni, Clotilde Hesme, Grégoire Leprince-Ringuet, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling, Alice Butaud, Yannick Renier

Crítica:
Aime moi moins,
mais aime moi longtemps.

Um sopro de melancolia percorre as ruas de Paris, ao som d'As sentimentais Canções de Amor, de Christophe Honoré.

Ismael e Julie, Alice: há tristeza perante o esvaziamento de uma relação, perante a impossibilidade do triângulo... haverá profunda dor perante a morte inadvertida de um vértice essencial, cuja sentida ausência possibilitará um novo recomeço: Erwann. O filme fala e canta este estado de espírito, por vezes com um lirismo notável e envolvente... Desabafa com o espectador um reflexo dele próprio, porventura. Por entre prazeres voluptuosos, é representada a naturalidade de toda uma nova geração em sentir, mais do que nunca, o amor com liberdade. Uma geração que estuda, trabalha e lê, a prova de que o futuro é diferente, mais aberto e sexualmente sincero e verdadeiro, mas que não está perdido.

Em poucas palavras, As Canções de Amor não é senão um filme de uma qualidade assinalável - bem escrito, bem realizado e bem interpretado (com especial destaque para Louis Garrel, claro). Podia ser mais interessante e ambicioso, artisticamente falando, mas é romântico e apaixonante quanto baste.

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (3)

Marcelo Pereira, autor do blogue » seeSAWseen «, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

Woody Allen
Pedro Almodóvar
Alfred Hitchcock
Gus Van Sant
Stanley Kubrick
Nani Moretti
Sofia Coppola
David Fincher
Tim Burton
Sam Mendes

Menção Honrosa:
Walt Disney
(que embora tenha sido maioritariamente produtor, teve sempre uma forte influência na direcção dos primeiros clássicos da companhia).

Um muito obrigado, Marcelo Pereira!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TUDO BONS RAPAZES (1990)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Goodfellas
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Frank Sivero, Tony Darrow, Mike Starr

Crítica:

A RECOMPENSA DO CRIME

As far back as I can remember,
I always wanted to be a gangster.

Tudo Bons Rapazes é mais uma dessas magistrais concretizações scorsesianas, onde a arte atinge um estado sublime e irrepreensível. A viagem é ao mundo do crime, à máfia nova-iorquina dos anos 50, 60 e 70, ao fascínio e à decadência atroz desse boémio, brutal e imoral universo. Tal como nesse cru, violento e imprevisível meio, a narrativa avança, pára e retrocede sem regras pré-estabelecidas. A sua forma varia consoante a melopeia encantatória ou a alucinação frenética da cocaína.

Baseado em factos verídicos e a partir do seu próprio romance, Nicholas Pileggi desfere o argumento com uma frontalidade e virtuosidade ímpares. Num entretenimento sempre cativante, pouco sentimental, violento e com um fio de humor sarcástico e provocador, temos um elenco de luxo (Robert De Niro, Ray Liotta e um fenomenal Joe Pesci) em papéis memoráveis. Ray Liotta é Henry Hill: desde pequeno que sonha ingressar na elite dos anéis de ouro e da vida fácil. Com os amigos certos, entra num caminho sem retorno onde vale tudo para fazer dinheiro. A amizade existe, mas à base de interesses. A traição é um prato indispensável, que se serve frio. Outras vezes, serve-se por impulso, outras por compulsão. A narração é feita a duas vozes, mas na sua maior parte surge na voz do protagonista, que se auto-analisa por meio dela, num non-sense inovador. O argumento dá também voz à mulher de Henry e por meio dela temos acesso ao ponto de vista feminino. Apercebemo-nos da violência do casamento e da pertinência do seu valor. Valor que, como tantos outros, tendem a tornar-se normais, ainda que eticamente reprováveis. No fim de contas, porém, compensará o crime? O filme dá resposta. Seja de faca em punho, de arma em riste ou com fatal ironia.

A assegurar a rítmica e fluída linguagem que todo o filme propõe temos - absolutamente indissociável - o nome de Thelma Schoonmaker. O seu talento para - filme após filme - cortar e montar, se renovar e superar impõe-se como um extraordinário exemplo de criatividade. As canções têm também um papel determinante. Afinal, são à volta de 40 canções, as que suportam a narrativa, com diferentes sonoridades. Tudo Bons Rapazes é, por isso também, uma obra tão marcadamente musical. A câmera, por sua vez, filma inspiradíssima, com uma precisão e visão estética notáveis. Em última instância, uma obra como Tudo Bons Rapazes revelar-se-á - sempre - como um corajoso e magnetizante exercício de cinema.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (2)

Filipe Coutinho, autor do blogue » Cinema is my Life «, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos. O Filipe aproveitou para justificar as suas escolhas:

Akira Kurosawa, porque me mostrou o poder da visão oriental.
Alfred Hitchcock, porque me mostrou o poder de um realizador, um multifacetado artesão atrás das câmaras.
Billy Wilder, porque foi a grande ponte entre mim e os grandes clássicos que tanto estimo.
Clint Eastwood, porque ninguém conta uma história como ele.
David Fincher, porque despoletou a minha visão do cinema como algo mais do que mero entretenimento.
Frank Capra, porque representa o mais simbólico caso de sucesso do American Dream e o seu verdadeiro significado.
George Cukor, porque ninguém me faz rir como ele.
Howard Hawks, porque me fez sublimar as suas personagens.
Quentin Tarantino, porque, bem, é um génio da pop culture.
Woody Allen, porque mostrou a grande comédia que é a nossa existência.

Distinção de honra:
Stanley Donen, porque dissecou mundos maravilhosos e porque dirigiu Audrey Hepburn como ninguém.

Um muito obrigado, Filipe Coutinho!

CLIMAS (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Iklimler
Realização: Nuri Bilge Ceylan
Principais Actores: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kirilmis, Mehmet Eryilmaz, Arif Asçi, Can Ozbatur

Crítica: Um exercício de enquadramentos excepcionais sobre a tristeza e a incomunicabilidade que, face ao desgaste, invade os pares de um relacionamento amoroso.

Ceylan mostra-se neutro na abordagem, ainda que haja uma angústia existencial constante nas personagens que tão convictamente filma, angústia essa que as impossibilita da serenidade e da paz de espírito que o meio circundante reclama, nomeadamente através dos sons apaziguadores. O argumento centra-se essencialmente nos momentos mortos da acção, nos quais Isa e Bahar se vêem a sós consigo próprios, em momentos de pura introspecção. Não há muitos diálogos. O ambiente é soturno e o subtexto chega até nós, espectadores, na transcendência dos silêncios humanos. A fotografia de Gökhan Tiryaki capacita o filme de uma beleza inesperada. A mise-en-scène é de uma minúcia fundamental. O segundo plano é maioritariamente desfocado, contribuindo para a densidade narrativa e para uma certa tendência claustrofóbica na arte de filmar o espaço. Há poucos cortes, são privilegiados os longos takes.

O filme revela-se - eu não diria melancólico, diria antes - deprimente. Um projecto de grande contenção, muito íntimo e pessoal do realizador. Afinal, é ele próprio, Nuri Bilge Ceylan, e a mulher, Ebru Ceylan, que protagonizam a obra, plenos de autenticidade.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

10 Breves Perguntas (12)

João Bizarro, autor do blogue Cantinho das Artes, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
There Will Be Blood (2007)
2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Velvet Goldmine (1998)
3. Um Amor de Infância:
The Island at the Top of the World (1974)
4. Um Filme de Animação:
Princess Mononoke (1997)
5. Uma Comédia: Life of Brian (1989)
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
Titanic (1997)
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Public Enemies (2009)
8. Um elenco: L.A. Confidential (1997)
9. A Melhor Fotografia que conheço:

There Will Be Blood (2007)
10. Já mudei de ideias sobre este filme:
Once Upon a Time in the West (1968)


Um muito obrigado, João Bizarro.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI
CINEROAD ©2017 de Roberto Simões