Mostrar mensagens com a etiqueta Surrealismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Surrealismo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de janeiro de 2018

A FANTÁSTICA AVENTURA DO BARÃO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Adventures of Baron Munchausen
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: John Neville, Sarah Polley, Eric Idle, Jack Purvis, Charles McKeown, Winston Dennis, Jonathan Pryce, Uma Thurman, Oliver Reed, Robin Williams, Valentina Cortese, Bill Paterson, Alison Steadman, Peter Jeffrey, Jonathan Pryce

Crítica:

O CIRCO DO ABSURDO

 I always feel rejuvenated by a touch of adventure.

Tente imaginar a série de aventuras mais absurda e tresloucada, a fantasia mais fecunda e imaginativa e a comédia mais disparatada de que há ou poderá haver memória: tudo numa só obra. Sim, esse filme existe, é de 1988 e chama-se A Fantástica Aventura do Barão. Já existiam versões anteriores, mas esta é inteiramente original na abordagem... e não só. É como embarcar num autêntico quadro surrealista em movimento, pleno de personagens quixotescas, rico em plurais paisagens, decórs e artefactos, colorido nas mais delirantes propostas visuais. Seja agarrado a uma bala de canhão voadora ou rasgando os céus num navio de roupa-interior insuflada, seja mergulhando nas escaldantes profundezas do inferno ou nas mais inesperadas e exóticas maravilhas, eis uma autêntica e mágica viagem ao mundo em duas horas, ou pouco mais, e que vira o mundo ao contrário, se preciso for. Absolutamente descomprometida. Hilariante em todos os seus excessos. É, provavelmente, o melhor filme de Terry Gilliam e uma das melhores fantasias a que tive o prazer de assistir.

Não sei como filmes sólidos como rochedos e audazes como heróis podem algum dia cair no esquecimento. Talvez pelo desastre anunciado (que se veio a comprovar por entre guerras de produtores e temerárias convicções artísticas, gestão danosa e custos avultados que não raras as vezes passaram a perna ao génio criativo) e que se manteve qual fantasma após a estreia do filme. Essa aura negativa traduziu-se na falta de confiança dos investidores no seu produto e, por sua vez, num lançamento miserável, catastrófico e desonroso. O filme tornou-se pouco falado e reconhecido, apesar de cada dólar (mesmo os tantos milhões que superaram o orçamento inicial) se verem na tela, a todo o instante.

Apesar do pesadelo das filmagens e de todos os problemas de produção, A Fantástica Aventura do Barão chega-nos como um monumento de liberdade, coragem e de poder inventivo. Bizarro, grotesco e excêntrico, qual protagonista: o memorável Barão Munchausen (brilhante John Neville), sempre acompanhado da sua extraordinária trupe (o Berthold de Erci Idle, o homem mais veloz do mundo, o Albrecht de Winston Dennis, o homem mais forte do mundo, o Adolphus de Charles McKeown, o homem com a visão mais apurada do mundo e o Gustavus de Jack Purvis, o anão com o sopro mais potente do mundo), à qual se junta o incontornável motor de toda a trama: a pequena e ajuizada Sally Salt de Sarah Polley, sempre tão curiosa e destemida, despoletando com um simples sorriso ou com uma mera dúvida a imaginação e a loucura do velho aristocrata, que todos julgam não passar de um pomposo lunático ou de um reles mentiroso. Acontece que... as suas histórias são demasiado fabulosas e inverosímeis para merecerem o respeito das pessoas. Nunca poderão ter acontecido... A verdade é que a cidade está cercada pelos turcos. A guerra traz a fome, a miséria e a destruição ao dia-a-dia das pessoas. Essa é a verdade. Não é tempo de histórias... A fala do lógico e racional Sr. Jackson (Jonathan Pryce) é, por isso e às tantas, por demais simbólica e representativa:

There are rules in life! We cannot fly to the moon. We cannot defy death.
We must face facts, not folly. You don't live in the real world.

A fantasia é sempre ingrata quando a verdade é tão cruel e sangrenta. Mas por isso mesmo o escape que a fantasia proporciona não se iguala a nenhum outro! Ir à lua do sempre rei Robin Williams, onde giram cabeças, ou descer ao purgatório do telúrico Oliver Reed, correr ao harém do sultão, repleto de nudez, tesouros e eunucos e num salto dançar e flutuar com a Vénus de Botticelli, saída da concha, ao som da mais sonante valsa... Isso é que é viver, viver o sonho! É esse o poder da imaginação, das histórias, do cinema! Para Sally, descortinar o mistério e constatar os factos é fundamental e o percurso entre o real e o imaginário - como será para a Alexandria de Um Sonho Encantado - revelar-se-á uma enriquecedora e inesquecível experiência, que a fará certamente manter viva a criança que há dentro dela, por mais anos que passem. A Fantástica Aventura do Barão não é, seguramente, um filme para crianças - às vezes pela complexidade do texto e das cenas, outras pela ironia ou sátira das piadas, às vezes pela violência gráfica ou pelas irreverentes alusões sexuais ou até pelas muitas referências mitológicas ou políticas - mas é seguramente um filme para todos os espectadores que mantêm viva, dentro deles, a criança que um dia foram. Só assim se deslumbrarão com os cenários mais artificiosos (a direcção artística é dos hoje lendários Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo), se encantarão pelas situações menos verosímeis e se entregarão, de coração, ao ridículo, refastelando-se nele, deliciando-se nele. A Fantástica Aventura do Barão é como um festim, que nos despe e nos banqueteia. A cada volta e reviravolta, uma pândega, uma farra e um circo, faustoso e extravagante. Puro gáudio, puro génio artístico. Gilliam é senhor da câmera, visionário, sempre eclético, fluído e inspirado, à frente de uma equipa de excelência. A beleza da fotografia (Giuseppe Rotunno) equipara-se-lhe, transcendente, e a música de Michael Kamen espelha-a, claramente, ao mais alto nível.

A Fantástica Aventura do Barão é-me, pois, um filme perfeitamente incansável, até nas suas apaixonantes imperfeições. O elogio parece cair no exagero, temo, mas cada visualização vem não só confirmá-lo como reforçá-lo indelevelmente. Por mais vezes que o veja, divirto-me sempre a potes, com os mesmos júbilo e excitação com que assistia aos desenhos animados em criança. É tão alucinado, tão contagiante. Julgo que terá o condão de colocar qualquer pessoa bem-disposta, transformado-lhe o dia. É como que um cruzamento entre as mais delirantes viagens de Gulliver, ao Centro da Terra, ao Mundo em 80 dias e as 20 mil léguas de nonsense dos Monty Python. E, verdade seja dita, quanto mais idiota melhor. Um triunfo sem limites. Apetece bradar, com fôlego romântico: isto é que é uma história de verdade!  E já como vendia o trailer, nas imediações da estreia e cheio de graça, trata-se efectivamente de a true story - we've got the film to prove it.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O ANJO EXTERMINADOR (1962)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: El Ángel Exterminador
Realização: Luis Buñuel
Principais Actores: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo, Enrique García Álvarez, Ofelia Guilmáin

Crítica:

AS BESTAS HUMANAS

Há filmes do diabo. O Anjo Exterminador serve-se, eu diria, da mais disparatada epidemia apocalíptica para assinalar nas suas forma e narrativa a conversão do realismo para o surrealismo, passando de uma sátira corrosiva e hilariante para um trágico e degradante quadro de selvagaria. Buñuel filma a crónica de costumes daquela alta burguesia com uma elegância e sofisticação ímpares - qualidades que são, aliás, extensíveis à direcção artística e ao guarda-roupa. Espertos são os criados, que fogem, não por que pressintam o fim do mundo mas por que já saibam talvez o que a casa gasta.

E eis que desfilam os snobs, chegados da ópera, do brilho dos vestidos delas à ponta dos bigodes deles. Sobem a escadaria, como se fossem para um baile de máscaras, mal sabendo eles que as máscaras acabariam todas por cair. Aperaltados em aparências e com desejos reprimidos, lá jantam os hipócritas, os falsos tanto para os outros como para consigo próprios. Aprisionados em convenções, são tudo menos seres livres... e a alegoria ampliará precisamente esta prisão invisível à sala de estar, de onde por razões desconhecidas e também elas invisíveis se verão impedidos de sair, dias a fio. Se a hipocrisia se contagia entre aristocratas, é pela imitação que se proporciona a degradação. Veja-se, pois, como o argumento cai intencional e regularmente em imitações de situações já anteriormente acontecidas, como que denunciando as causas da decadência por meio desse ritual simbólico... Só por essa tomada de consciência encontrarão o caminho para a cura, a saída, mas haverá entre eles ainda alguma luz, discernimento ou inocência?

Até lá, passarão fome e sede, ficarão doentes e enlouquecidos, morrerão ou matar-se-ão. Perderão a racionalidade, toda a dignidade, perante a iminência da morte e da situação-limite. Aos olhos do espectador mais humilhados e gozados não poderiam ser. Poucos terão a coragem para enfrentar a situação. O sentimento de clausura será cada vez mais assustador e asfixiante.

Duas marchas em simultâneo: enquanto o surrealismo marcha pela liberdade do inconsciente, o marxismo marchará pela liberdade dos trabalhadores (talvez por isso também sejam os criados os mais livres e imunes à epidemia). Descodifique-se, à luz desta passagem, alguns dos episódios finais da película. A bandeira, seja ela artística ou política, eleva-se pela liberdade. O Anjo Exterminador levanta, inegavelmente, as duas, enquanto observa e analisa estes miseráveis ratos de laboratório.

A obra de Buñuel impõe-se, por tudo isto e do seu ponto de vista interpretativo, como um dos mais imprevisíveis, impenetráveis ou até mesmo inalcançáveis pedaços de cinema alguma vez criados. Ficar-me-ia, no entanto, por caracterizá-la como uma obra aberta, ambígua e inconclusiva; absolutamente livre, como o sonho... ou como a própria vida deveria ser vivida.

TIO BOONMEE QUE SE LEMBRA DAS SUAS VIDAS ANTERIORES, O (2010)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Lung Boonmee Raluek Chat
Realização: Apichatpong Weerasethakul
Principais Actores: Thanapat Saisaymar, Sakda Kaewbuadee, Matthieu Ly, Vien Pimdee, Jenjira Pongpas

Crítica:

A REENCARNAÇÃO E O DELÍRIO

  O céu não vale o que dizem. Não há lá nada. 
(...) Os fantasmas não estão ligados a sítios e sim a pessoas, aos vivos.

O cinema de Apichatpong Weerasethakul desafia muitos limites: os da compreensão, os da imaginação e, não raras as vezes, os da aceitação e os da paciência. Em boa verdade, o realismo mágico que o cineasta tão incessantemente explora (tão íntima e profundamente enraízado na crença budista da reencarnação) coloca em desconcertante e frontal coexistência - e inequívoco diálogo - o plano sobrenatural (os fantasmas e as criações fantásticas) e o real quotidiano das suas personagens. Como se tudo fosse realidade. 

As sequências são especialmente morosas e, na maior parte delas, não acontece nada. É como se o tailandês fizesse o seu filme com fragmentos de vazio, com os intervalos entre as cenas em que realmente se passou alguma coisa. Não obstante - e aí resíde o fascínio dos seus filmes - parece sentir-se uma omnipresença inexplicável, indefinível... com toda a certeza religiosa e espiritual. Muitos dos planos são afastados, pelos quais damos connosco como observadores, enquanto as personagens (por sua vez) observam e meditam a envolvência. A selva verdejante, a noite e o dia, os grilos e as cigarras... uma natureza gritante existe no vazio. Contradição. Enquanto Boonmee se perde em sucessivas alucinações, aproxima-se a morte. A doença e os fantasmas do passado chamam-no para a viagem. A doença apodera-se do filme - tropical malady - e, às tantas, tudo é delírio, tudo é exótico e estranho. Há quem lhe detecte alegorias - quão relevantes serão elas para justificar a sua orgânica? Não sei. A verdade do filme parece-me tão inatingível quanto o significado da existência.

Unânime, a sentença, de que o filme é uma experiência daquelas; embora nunca consigamos explicar ao certo que experiência é. Ficará algures entre o encantamento e o bocejo. Excitante, excitante só mesmo o orgasmo da princesa com um peixe entre as pernas. Essa sim, cena de mestre, para a qual vale a pena estar conscientemente acordado. E ainda dizem que não há originalidade no cinema.

PARNASSUS: O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR O DIABO (2009)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Andrew Garfield, Peter Stormare, Tom Waits

Crítica:

O FABULOSO MUNDO PARA LÁ DO ESPELHO

Can you put a price on your dreams?

Esta maravilhosa fantasia surrealista de Terry Gilliam supera habilmente os excessos de um barroco Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Não é porque seja menos infantil (esse não é um argumento válido, pois a qualidade dos filmes para crianças não corresponde à altura dos seus espectadores), nem é tão-somente por incluir menos cenas num universo artificialmente criado por computador (esse também nunca seria um argumento válido, afinal tudo é artifício e um julgamento depreciativo a respeito seria sempre uma questão de gosto). Ainda que não tenha um storytelling perfeito - longe disso, há passagens menos bem resolvidas e capazes de suscitar alguma confusão desnecessária no espectador - penso que é por aí, pelo storytelling, pela construção narrativa e pelo doseamento das emoções, que este Parnassus se sobrepõe. Quase a findar a comparação, que não é de todo o objectivo, creio que jamais os delírios criativos para lá do espelho abafam a essência narrativa, como no filme de Burton a determinada altura. É certo que há um ir e voltar constante e em Alice há uma viagem única, mas a dimensão onírica em Parnassus maravilha-nos, nunca nos cansa com um exibicionismo perpétuo. Obrigatoriamente inverosímil, aceitamos e deleitamo-nos com esse mundo de sonhos. O diálogo da influência estabelece-se, claramente, para com a tela de Dalí. Nessa relação irresistível, somente em Um Sonho Encantado terei encontrado, porventura, um arrojo e uma excelência maior. Sem esquecer, é claro, esse clássico mítico de Gilliam que é A Fantástica Aventura do Barão.

O que suporta e sustém - com notável solidez - este rico e triunfante (às vezes bizarro, mas sempre engraçado) universo visual é a qualidade das interpretações, notem-se os nomes do elenco: Christopher Plummer (sempre brilhante), Heath Ledger (no seu último papel, falecido a meio das filmagens), Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law (que substituiriam Ledger, completando o alter-ego do seu Tony em paragens fantásticas) e os promissores Lily Cole e Andrew Garfield. Depois, a esmerada direcção artística de Anastasia Masaro e Caroline Smith (note-se cada cenário, cada detalhe) e o faustoso guarda-roupa de Monique Prudhomme. O trabalho de todos estes departamentos conjugado aprimora a pintura de todo e cada frame, inspiradamente enquadrado por Nicola Pecorini. A fotografia é essencial para o deslumbramento.

Entre o real e o imaginário, fica uma fábula excêntrica e a espaços alucinada, mas absolutamente fascinante, bem-humurada e endiabrada. Pura aventura, consciente do espectáculo que nos pode proporcionar. Lamentável apenas que a história, prolífera em ideias, não tenha sido melhor polida e aproveitada (o tratamento da personagem de Ledger parece-me às tantas desnorteado, mal-desenvolvido no que conduz à revelação da sua verdadeira identidade - pudera; ainda assim Terry Gilliam desenvencilhou-se muito bem do infortúnio). Enfim, you can't stop a story being told. Finalmente, o filme é dedicado a Ledger, que atravessou o espelho e nunca mais voltou.

Não se tornará um clássico, muito provavelmente, mas está longe de ser um caso perdido.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

8 1/2 (1963)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: 8 1/2
Realização
: Federico Fellini

Principais Actores: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée

Crítica:


O REAL,
O RECORDADO E O INVENTADO

8 1/2 é, simplesmente, um dos filmes mais geniais alguma vez feitos.
Para Fellini, o cinema é liberdade. A objectiva de uma câmera não se limita à escravidão da realidade física. É possível, pois, subverter as noções do real, converter a ficção em muito mais do que mera representação. É possível confluir o sonho, o imaginário e o real num só espaço, num só tempo: na incomensurável dimensão artística. O conceito de 8 1/2 é, por isso, não só moderno como completamente revolucionário. Para uma arte com poucas décadas de existência, tantas vezes considerada em atraso relativamente às outras, este foi um passo triunfal e assaz significativo.

Há que entender, de uma vez por todas, que na arte as coisas não têm necessariamente que fazer sentido. É por isso que num filme como 8 1/2, o mais importante não é perceber, mas sim sentir. Ainda para mais numa obra (e, já agora, filmografia) na qual há tendência para enfatizar as imagens e não as ideias. Guido (Mastroianni, excepcional) acabou recentemente o seu último filme e caiu num profundo marasmo de inspiração. Para o realizador, a recordação e a fantasia são um autêntico escape às pressões da equipa e de todos quantos estão à sua volta, constantemente a bombardeá-lo com questões e dúvidas sobre o seu próximo projecto. É como se um mundo inteiro dependesse dele, opressivo e sufocante. A personagem da deslumbrante Claudia Cardinale é a única que lhe traz apaziguamento. Ao mesmo tempo, essa constante alternância entre verossimilhança e inverossimilhança, que percorre toda a obra, dá-nos conta da confusão interior da mente criativa do realizador (alegoria do próprio Fellini, denunciada aliás pelo título) e, claro, do seu fascínio infinito por mulheres.

8 1/2 é tecnicamente irrepreensível: conta com um trabalho de fotografia e iluminação absolutamente magnífico (Gianni Di Venanzo), uma brilhante cadência de montagem (excelência de Leo Cattozzo) e uma direcção artística que é de um arrojo e primor puros (Piero Gherardi, Vito Anzalone). Nino Rota assume-se, uma vez mais, à frente de uma composição sublime e original; isto quando não soa, imponente e magistral, a aura eterna de Wagner. A realização, essa, é tão multifacetada e perfeita que nos deixa abismados...

O veredicto é unânime: 8 1/2 é uma obra-prima ímpar e um dos melhores filmes de sempre. A prova concreta de que é na imaginação que se fazem os maiores e mais extraordinários pedaços de cinema.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM SONHO ENCANTADO (2006)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fall
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Robin Smith, Kim Uylenbroek, Aiden Lithgow, Sean Gilder, Ronald France, Andrew Roussouw, Michael Huff, Marcus Wesley, Ketut Rina

Crítica:

A QUEDA

Why are you making everyone die?
Because... everything dies.

A perfeição existe. Visualmente espectacular e delírio orgíaco de cores e sensações, Um Sonho Encantado é a obra-prima perfeita. E a perfeição está lá, no todo e em cada uma das partes, em cada frame: em cada palavra, em cada som e em cada imagem. Os planos são ousados, meticulosos, de uma beleza deslumbrante e invulgar, assombrosa e sedutora. A encenação é detalhada e polida. Um Sonho Encantado brilha em toda a sua magnificência, fascinante, ao ponto de a perfeição parecer a coisa mais simples de todas. Não há onde apontar o dedo; é irrepreensível. Tarsem é um génio, um génio maior, pois a sua arte é feita não só pelo seu profundo sentido estético e criativo como pelo maior agente de todos: o tempo. Um Sonho Encantado é mais do que um marco na história do cinema. É um marco na história da arte. Desde que há Homem. É Dalí em movimento; a influência é logo declarada pelo poster, Mae West. É um dos melhores filmes de sempre, no mais imperioso sentido da expressão, a constar obrigatoriamente nos tops mundiais dos melhores filmes de todos os tempos. Isto é a minha convicta profecia; perante uma obra destas ou nos rendemos ou...

O argumento condensa em si e na mistificada simbologia da imagem toda a História da Humanidade. Mascara-se de inocência, mas revela-se nos meandros, como acontece em todas as grandes obras. Na inocência encontramos o prazer único de contar uma história, o deleite infantil de a ouvirmos e de a imaginarmos com base na nossa memória e na nossa experiência. Nos meandros, fantásticos e profundamente poéticos, encontramos a verdade sobre nós próprios. Pois Um Sonho Encantado é, também, um filme alegórico. Muitas são as cenas-chave que abrem para outros campos de significação. Eis, em vislumbres oníricos, a mais bela viagem pelo mundo e pelo tempo. Eis, sublime, a Odisseia do Homem, a Evolução do Homem, a Evolução da Sua Sociedade, no caminho para a derradeira Queda, a que estamos todos sujeitos: a Morte. É a ordem natural das coisas (...) Todas as coisas têm que morrer, diz Roy, quando Darwin e Wallace falecem.

São as ideias de Darwin que libertam os homens do isolamento da ilha. Que metáfora encantadora. Otta Benga não é senão a sinédoque de toda a escravatura e símbolo da sua abolição e permanente luta pela liberdade. Mystic não é senão sinédoque das civilizações indígenas destruídas pelos descobridores (arda a árvore como símbolo dessa destruição, à chegada à nova terra) ou mapa que os aventurará para o Novo Mundo. O explosive expert, sinédoque da guerra. O governador Odious não terá esse nome por acaso. Nem por acaso os seus guardas ladrarão que nem cães e morrerão que nem bestas. Heróis e antagonistas são as sinédoques dos mais variados sentimentos humanos e seres humanos no tempo. É nesta leitura escondida e difícil que Um Sonho Encantado revela a sua essência genuína e perfumada.

Na cinematografia de Colin Watkinson é impossível encontrar um defeito. Seja no deserto das dunas-laranja, na cidade azul, nas infindáveis paisagens ou na exuberância arquitectónica que ornamenta o filme, a fotografia é de uma excelência que julgava inalcançável. Um autêntico oásis de pureza. O guarda-roupa, os cenários ou a decoração estão no mesmo patamar: o da sublimidade. A montagem é magnífica e a banda sonora o coração impulsionador de toda a emoção, tanto nas etéreas melodias de Krishna Levy como nas sonantes e omnipotentes composições de Beethoven. A pequena Catinca Untaru, com ou sem dentes, é das belezas maiores da obra, tão bem dirigida que foi pelo realizador. Lidera, com olhos de anjo, um elenco todo ele formidável. Lee Pace, talentoso, dá corpo e alma ao eterno duplo que conseguiu, desta vez por fim, ser protagonista. E a imaginativa viagem acaba numa das maiores homenagens ao cinema: o cinema como representação e como espelho de si próprio. Nos últimos instantes, a voz doce de Alexandria personifica o cinema e dirige-se, de entre múltiplas possibilidades, ao espectador: Muito, muito obrigada.

Até à última queda, havemos - sempre - de continuar a erguer-nos e a continuar com a nossa história. E durante esta nossa viagem, uma certeza: a perfeição existe.

It was the natural order of things...
all things must die.


________________________________________
Nota especial para a infeliz escolha do título português.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O HOMEM ELEFANTE (1980)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Elephant Man
Realização: David Lynch
Principais Actores: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones

Crítica:

OS MONSTROS

Never. Oh, never. Nothing will die.
The stream flows, the wind blows, the cloud fleets, the heart beats.
Nothing will die.


Londres do século XIX: a cidade noturna, os fumos e os ruídos. Uma civilização industrializada, iluminada pelas invenções e pelo progresso. Uma civilização cruel, ofuscada pela insensibilidade e pela desumanidade. No circo, lado a lado com os animais, os monstros: os anões, os gigantes e os deficientes, as aberrações da natureza. Apresentado a sua extraordinária atracção à multidão, Bytes (Freddie Jones) proclama:

Life!... is full of surprises. Consider the fate of this creature's poor mother, struck down in the fourth month of her maternal condition by an elephant, a wild elephant. Struck down!... on an uncharted African isle. The result is plain to see... Ladies and gentlemen... The terrible... Elephant... Man...

Já as imagens de abertura do filme - prodigiosamente montadas por Anne V. Coates e perfeitamente aliadas à inquietante composição de John Morris - davam conta desta bizarra e insólita historieta fabricada, num tom surreal e perturbador. Alimentar o show-off e o espectáculo, horrorizar a plateia, rentabilizar a atracção e potenciar o maior lucro possível... só o dinheiro move Bytes, aproveitando-se da ignorância e do preconceito da gente, amedrontada pela diferença. People are frightened by what they don't understand.

O que está encoberto atrás da cortina, na sombra? Lynch adia a resposta, aumentando o suspense, progressivamente. Só mais tarde, quando o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins, brilhante no underacting) resgata o freak para o hospital onde trabalha e lhe retira o pano, é que nos deparamos com o choque: a criatura é humana, de nome John Merrick (John Hurt) e ostenta um rosto de aspecto monstruoso e repulsivo, à primeira vista assustador, gravemente deformado e atrofiado por tumores subcutâneos. Uma doença rara, a Síndrome de Proteus (só em 1996 oficialmente diagnosticada e a partir de exames ao esqueleto do verdadeiro John Merrick) que condenou aquela inocente existência ao submundo, à humilhação e à degradação interior, à infinita dor de não ser nem aceite nem amado.

Dr. Fox: Have you ever mentioned his mental state?
Dr. Frederick Treves: Oh, he's an imbecile, probably from birth. Man's a complete idiot... Pray to God he's an idiot.

Não há imbecilidade, contudo, naquela pobre alma amaldiçoada. Apenas medo. John Merrick fala, tem consciência, tem moral, tem memória, sabe ler. Sabe de cor passagens inteiras dos evangelhos. É um homem civilizado, mas rejeitado. O storytelling desenvolve-se com aparente simplicidade narrativa, mas fá-lo de forma sólida e delicada, tocante e comovente. Aquilo que o Dr. Frederick lhe dá, a Merrick, é uma oportunidade para ser um homem - com dignidade. É uma possibilidade de se reencontrar a si próprio, de construir uma catedral interior de fé e confiança no mundo. Ou, pelo menos, em parte dele.

Apesar de tudo, as atracções jamais deixaram de estar centradas nele. Sem querer, Frederik tirou-lhe os holofotes do circo mas catapultou-o para os jornais. Am I a good man? Or a bad man? A emocionante história do Homem Elefante vira um fenómeno mediático e sobre ele recaem dezenas de olhares maldosos, sedentos de escárnio e maldizer. Quando John Merrick é raptado e novamente lançado para trás das grades do circo, a esperança esvai-se. A fotografia (Freddie Francis) cria uma atmosfera sinistra e asfixiante. Afinal, quem são os monstros?

I am not an elephant! I am not an animal!
I am a human being! I am a man!

Que revoltante.

David Lynch concretiza uma obra magistral, plena de humanismo. Um clássico absoluto e em tudo memorável.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

MULHOLLAND DRIVE (2001)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mulholland Dr.
Realização: David Lynch
Principais Actores: Naomi Watts, Laura Elena Harring, Ann Miller, Justin Theroux, Dan Hedaya, Robert Forster, Lee Grant, Chad Everett, Billy Ray Cyrus
Crítica:

NO HAY BANDA!


A cena do anfiteatro é por demais reveladora. Diane pode estar a sonhar e perceber aqui que está morta. Esta é a interpretação mais comummente aceite. Por mim também. Todavia, partilho uma outra: estamos perante uma obra puramente inorgânica (no sentido de Bürger*), um filme consciente de si próprio enquanto construção ficcional. Por isso, renega qualquer sentido. Nenhum filme é mais verdadeiro por fazer sentido; na verdade, todo o filme que faz sentido só o faz por convenção. Um filme nada mais é do que artifício, representação. É isto que se revela na cena central do anfiteatro: a chave entra no cubo - o sentido do filme é a sua falta de sentido. Na verdade, no hay banda! Nem tão-pouco a llorona que canta. O mundo do filme é o mundo da ficção. E, se por acaso emociona, é pela ilusão ou simulação de realidade.

Se a atitude da obra se reger pela auto-aceitação deste princípio, e não tiver que obedecer a toda uma lógica mimética e orgânica e à partida associável à realidade, estaremos então num mundo onde tudo é possível, onde nada se deve ao sentido... estamos, por isso, num mundo de sonhos. É esse o universo de Lynch. A confluência entre linhas diegéticas, com a coincidência de actores na representação dos seus protagonistas, resulta numa confusão onírica, que de realidade tem muito pouco. E, nessa dimensão de sonhos, a narrativa parece tomar um rumo livre, involuntário e libidinoso, desprendido de recalcamentos sexuais.

Naomi Watts e Laura Elena Harring lideram este pesadelo de contornos tão bizarros quanto estranhíssimos, mergulhadas em técnica brechtiana. No final, volta-se ao anfiteatro para se cantar... Silêncio... e o pesadelo está, enfim, terminado. Um filme brilhante.

[A crítica continua, brevemente]


______________________________________
*Bürger, A Teoria da Vanguarda
CINEROAD ©2019 de Roberto Simões