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domingo, 2 de janeiro de 2011

CLUBE DE COMBATE (1999)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Fight Club
Realização: David Fincher
Principais Actores: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Richmond Arquette, David Andrews, George Maguire, Jared Leto

Crítica:


O GRITO DA REVOLUÇÃO

If you died right now,
how would you feel about your life?


Que se fodam, a primeira e a segunda regras do Clube de Combate. Há filmes que, apesar da sua natureza puramente artística, são capazes de mudar mentalidades, radicalmente. Abre-se a polémica e a vertigem, provenientes da mais assustadora consciência social... Profundamente electrizante e irreverente, desconcertante e provocadora, esta incendiária obra-prima de David Fincher não é senão o seu mais genial e original mind game. O escárnio da vergonha do ser humano, acomodado numa sociedade consumista, escravizado pelo lobby capitalista, perdido numa existência hipócrita, vazia e sem sentido... a verdade escarrapachada na cara do espectador - apetece-me dizer na fronha do espectador -, com a maior frontalidade, com a mais rasgada ironia. Poucos retratos sociais poderão soar mais autênticos. Se, ao assistir ao filme, sentir o mais revoltante arrepio na espinha a estremecer-lhe a pele, quem sabe se por mais de uma vez, talvez esteja na hora de fazer qualquer coisa pela sua vida. Qualquer coisa mais visceral do que estar sentado a assistir a um filme, por mais genial que seja.

People are always asking me if I know Tyler Durden. A ousadia da obra começa logo, aquando do genérico da abertura. Stealing Fat, The Dust Brothers. David Fincher revela-se mestre na execução dos vcm's, os travellings outrora impossíveis e desde há uns anos possíveis graças às infinitas potencialidades do digital. A câmera move-se que nem um eléctrodo da mente humana, por um atribulado circuito de moléculas e energias, até que a mesma transcende os tecidos cutâneos e, entre gotas de nervos e suores, desliza pelo cano negro de uma arma.

Three minutes. This is it - ground zero.
Would you like to say a few words to mark the occasion?
Tyler Durden

É noite. O protagonista/narrador está petrificado numa cadeira, no cimo de um prédio de iluminação soturna, com uma ameaçadora pistola enfiada na boca. A narrativa inicia-se pelo final. Por isso, tornaremos mais tarde a este momento. Até soar The Pixies, com o simbólico tema Where is My Mind, os avanços e recuos de um dos mais engenhosos argumentos de que há memória (excelente adaptação de Jim Uhls, a partir do romance homónimo de Chuck Palahniuk) suceder-se-ão. O humor negro e corrosivo inicia-se nas visitas aos grupos de auto-ajuda, onde absolutos frustrados como o protagonista sem nome - brilhantemente interpretado por Edward Norton - procuram um qualquer conforto, longe das suas angústias. A personagem vive sozinho num apartamento, trabalha numa influente companhia de seguros e sofre de insónias não só desesperantes como preocupantes. Não dorme há dias. Like so many others, ele tornou-se um escravo do Ikea nesting instinct.

I had it all. Even the glass dishes with tiny bubbles and imperfections, proof they were crafted by the honest, simple, hard-working indigenous peoples of... wherever.
Narrador

Ainda sobre a marca Ikea, um dinâmico e sugestivo catálogo chega a preencher um take da sequência. A crítica ao consumismo faz-se ainda pela nomeação de outras marcas sonantes e sedutoras, que com o tempo ritualizaram e uniformizaram os nossos costumes e os nossos desejos, aprisionando-nos numa repetição de vícios: Starbucks, Calvin Klein, DKNY, Ax, Good Year, Cadillac, etc.

Tyler Durden: We're consumers. We are by-products of a lifestyle obsession. Murder, crime, poverty, these things don't concern me. What concerns me are celebrity magazines, television with 500 channels, some guy's name on my underwear. Rogaine, Viagra, Olestra.
Narrador: Martha Stewart.
Tyler Durden: Fuck Martha Stewart. Martha's polishing the brass on the Titanic. It's all going down, man. So fuck off with your sofa units and Strinne green stripe patterns.

Tudo isto, para chegar a uma conclusão tremendamente lúcida: The things you own end up owning you. Contraditório e revelador é o que Tyler faz após proferir tamanha máxima: acende um cigarro e cede ao vício. Repito: revelador. Aquilo que o aparentemente fortuito encontro com Tyler Durden (uma das melhores personagens da História do Cinema, prodigiosa e inspiradamente interpretada por Brad Pitt) proporcionará à nossa personagem principal não será senão o caminho da iluminação, o murro no estômago - literal inclusivé - que o despertará para uma vida de prazer e de realização pessoal, alienada das castrantes organizações do sistema. Procurar a emoção, o choro e a catarse nos grupos de entre-ajuda, sejam eles de tuberculose, de doenças renais ou do cancro da pele, não poderá ser a solução, sobretudo quando não há qualquer resquício de doença física, a não ser as terríveis olheiras que reflectem as doenças da alma.

Every evening I died,
and every evening I was born again, resurrected.

Narrador

A terapia não pode passar pelo fingimento, claramente. É numa dessas cada vez mais comuns sessões, seguidas que nem seitas religiosas pelos angustiados, que o narrador conhece Marla Singer (assombroso, o underacting de Helena Bonham Carter), aquele cadáver pálido e magricela, chaminé ambulante, que devora cigarros uns atrás dos outros sem jamais os terminar e que encara de forma perfeitamente natural as suas recorrentes visitas ao grupo de cancro nos testículos.

This chick Marla Singer did not have testicular cancer. She was a liar. She had no diseases at all. I had seen her at Free and Clear, my blood parasite group Thursdays. Then at Hope, my bi-monthly sickle cell circle. And again at Seize the Day, my tuberculous Friday night. Marla... the big tourist. Her lie reflected my lie. Suddenly, I felt nothing. I couldn't cry, so once again I couldn't sleep.
Narrador

Sem qualquer réstea de esperança e completamente consumida pela neurose, Marla limita-se a aguardar pela morte; note-se a forma despreocupada e fantasmagórica com que atravessa a estrada, fazendo com que os carros travem e apitem, repetidamente.

Marla's philosophy of life is that she might die at any moment.
The tragedy, she said, was that she didn't.
Narrador

Desolado, as insónias intensificam-se. Nem o conforto das grandes mamas de Bob, companheiro de sessões, lhe trariam mais conforto. Desta feita e das poucas e fugazes vezes em que adormece, a personagem de Norton começa a sonhar com o colapso de um avião, que cederia ao infortúnio numa das muitas viagens profissionais que marcam a sua agenda. É precisamente num avião que encontra, pela primeira vez, o fashion e sorridente Tyler Durden (elegantes, os figurinos de Michael Kaplan) que, por coincidência ou não, tem uma mala igual à sua: Tyler, you are by far the most interesting single-serving friend I've ever met... see I have this thing: everything on a plane is single-serving...


I make and sell soap (...) the yardstick of civilization. (...) Did you know that if you mix equal parts of gasoline and frozen orange juice concentrate you can make napalm? (...) One could make all kinds of explosives, using simple household items. (...) Now a question of etiquette -anuncia, levantando-se - as I pass, do I give you the ass or the crotch...?
Tyler Durden

Respondendo à questão, diria que o rabo ou a braguilha varia consoante os nossos interesses, ou consoante as presenças. Note-se como Tyler vira o rabo ao parceiro de conversa e, logo de seguida, dá a braguilha à hospedeira de bordo. Não dispersando, foquemo-nos no importante: o sabão. Nunca lhe passaria pela cabeça, à personagem de Norton, que o sabão lhe rebentasse um dia com o apartamento, acabando definitivamente com a sua illusion of safety. E a explosão da fracção - How embarrassing... a house full of condiments and no food -, distinta e autenticamente recriada pelos efeitos digitais, em mais um notável travelling virtual, assume-se como um verdadeiro momento de viragem na percurso pessoal do narrador, sinédoque do homem comum. Sem nada possuir e sem nada mais que o possua, está pronto para recomeçar. A amizade com Tyler pode mesmo suscitar o recomeço que sempre quis; a não ser que, inesperadamente, o novo trilho faça um desvio alucinante. Quando se reencontra com Tyler, eterno terrorista da indústria alimentar, no mítico Lou's Tavern, e o confronta com a notícia do trágico incidente, a primeira coisa que ouve da sábia boca do fabricante de sabão é, descontraidamente: It could be worse. A woman could cut off your penis while you're sleeping and toss it out the window of a moving car. À saída do pub, dá-se a primeira luta e, depois dela, a vida do nosso protagonista nunca mais seria a mesma.

Warning: If you are reading this then this warning is for you. Every word you read of this useless fine print is another second off your life. Don't you have other things to do? Is your life so empty that you honestly can't think of a better way to spend these moments? Or are you so impressed with authority that you give respect and credence to all that claim it? Do you read everything you're supposed to read? Do you think every thing you're supposed to think? Buy what you're told to want? Get out of your apartment. Meet a member of the opposite sex. Stop the excessive shopping and masturbation. Quit your job. Start a fight. Prove you're alive. If you don't claim your humanity you will become a statistic. You have been warned.
Tyler Durden

Muito se tem especulado sobre a violência e sobre o seu significado num filme como Clube de Combate. E como a verdadeira essência da história, ao que parece, não foi descoberta por todos, a especulação terá continuidade. Será violência gratuita, a que a obra de Fincher promove? Incitará e inspirará o filme à desordem, à anarquia e ao caos? Longe de ser uma resposta politicamente correcta, é claro que Clube de Combate jamais o faria. A ironia impera e na misinterpretation residirá a problemática da influência, no que à incitação à violência diz respeito; num factor externo, portanto. Há arte e arte, mas a arte de Clube de Combate é a da sensibilização do espírito. É essa é a mudança de mentalidade que o filme sugere e encoraja.

Welcome to Fight Club. The first rule of Fight Club is: you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is: you DO NOT talk about Fight Club! Third rule of Fight Club: if someone yells "stop!", goes limp, or taps out, the fight is over. Fourth rule: only two guys to a fight. Fifth rule: one fight at a time, fellas. Sixth rule: the fights are bare knuckle. No shirt, no shoes, no weapons. Seventh rule: fights will go on as long as they have to. And the eighth and final rule: if this is your first time at Fight Club, you have to fight.
Tyler Durden

A violência em Clube de Combate é, claramente, um recurso de estilo. Uma metáfora da luta interior necessária para ser diferente e genuíno numa sociedade de padrões, de modelos standardizados. A luta para sermos nós próprios, com os nossos sonhos de futuro. O Clube de Combate é todo um processo de desintoxicação e de regresso às origens, ao essencial. Tyler Durden é a voz de uma consciência superior, que tenta despertar-nos da nossa inércia. Só de olhos abertos e bem conscientes poderemos ter hipóteses, um dia, de sermos realmente felizes.

You're not your job. You're not how much money you have in the bank. You're not the car you drive. You're not the contents of your wallet. You're not your fucking khakis. You're the all-singing, all-dancing crap of the world.
Tyler Durden

Nem Deus escapa à feroz crítica existencial do revolucionário:

Our fathers were our models for God. If our fathers bailed, what does that tell you about God? (...) Listen to me! You have to consider the possibility that God does not like you. He never wanted you. In all probability, he hates you. (...) We don't need him!
Tyler Durden

As lutas de ambos começam a atrair outros tantos malogrados e, rapidamente, o Clube é fundado. Até Bob chega a trocar os grupos de auto-ajuda pelas lutas do submundo. É como se pela violência se expiassem a agonia e o desespero do dia-a-dia; fenómeno, aliás, sobejamente estudado pela Sociologia. A violência atrai multidões, assim como as disputas masculinas por meio das quais se destilam hormonas reprimidas.

You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You're the same decaying organic matter as everything else.
Tyler Durden

Quando o narrador vai viver para a mansão abandonada, juntamente com Tyler, aprenderá o que é viver longe - bem longe - do conforto. A arrojada direcção artística (Alex McDowell, Chris Gorak e Jay Hart), aliás, tem um papel fundamental na concepção daquele cenário decadente, sujo e podre. E, se ainda dúvidas houvesse, o trabalho de iluminação mostra-se determinante na criação daquela atmosfera tensa, misteriosa e imprevisível. A fotografia de Jeff Cronenweth assume-se verdadeiramente espantosa e versátil, enfantizando toda a linguagem visual da mise-en-scène. Quando Marla entra de novo em cena e se cruza no destino de Tyler, tomara ao nosso protagonista que a casa se abafasse em surdina. A gritaria insuportável da fornicação selvagem estremecerá todas as paredes e tectos. A cena de sexo, que tão distorcidamente povoa o imaginário onírico do narrador, chega-nos de forma erótica e surreal, embelezada pelas cadências da montagem (extraordinários, a destreza e o talento de James Haygood).

Às tantas, a organização do Clube de Combate sofre significativas modificações. A ideologia ganha novos e perturbadores contornos e a vertigem adensa-se:

Man, I see in fight club the strongest and smartest men who've ever lived. I see all this potential, and I see squandering. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.
Tyler Durden

O sorriso de Tyler dá lugar a um riso doentio. Os membros do Clube levam homework: a nova missão é recrutar novos membros. Tyler pensa formar um exército. O Clube de Combate dará lugar ao Projecto-Destruição. Como? Start a fight. Norton chega-se a espancar a si próprio em frente ao patrão, numa cena memorável. A metáfora da violência conhece, pois, um volte-face: o perigo de uma ideologia levada ao extremo, quando a manipulação e a lavagem cerebral transcendem as liberdades individuais e põem em causa a ordem; quaisquer analogias histórico-políticas não serão, certamente, meras coincidências. Lembro, a propósito, a explosão da loja de informática, o vandalismo dos automóveis da via pública ou o incêndio daquele enorme prédio, com aquele esverdeado smile como assinatura, e a que a televisão reporta. Ou, por exemplo, o assalto à loja de conveniência, propriedade do jovem de olhos em bico, o qual Tyler ameaça matar se não se tornar, em seis semanas, o veterinário que sempre sonhou ser e do qual se despede, com a maior graça: run, Forrest, run! Assim nascem os monstros. A violência surge-nos então associada ao crime e o crime surge-nos como responsabilidade da própria sociedade.

Quando o carro em que viajam Tyler, o narrador e outros dois membros do Clube se despista - e que na traseira ostenta um autocolante dizendo recycle your animals, quem sabe se por abastecimento insuficiente das gorduras das habituais clínicas de cirurgia estética - o nosso protagonista finalmente - e após tanto tempo - dorme e descansa. E, quando acorda, Tyler desapareceu. Desapareceu sem deixar rasto. Está tudo muito confuso na mente do narrador e as peças do puzzle não encaixam. Corre mundo, em busca de respostas, mas o cenário mostra-se ambíguo e inconclusivo. Deja vu - all over again. As dúvidas assumem a acção: Tyler parece nunca ter existido. Terá executado a fuga perfeita, nas vésperas de pôr em prática o Projecto-Destruição, que acabará com todo o sistema de cartões de crédito, extinguindo a dívida e propiciando o começo de um novo sistema social? Ou terá sido uma alucinação, provocada pela acumulação de insónias? Sofrerá, talvez, do síndrome de personalidade múltipla? Ou terá simplesmente enlouquecido, tendo nós, espectadores, sido manipulados pela sua exímia retórica?

It's called a changeover.
The movie goes on, and nobody in the audience has any idea.
Narrador

O narrador telefona imediatamente a Marla, perguntando-lhe se alguma vez fizeram sexo:

You fuck me, then snub me. You love me, you hate me. You show me your sensitive side, then you turn into a total asshole! Is that a pretty accurate description of our relationship, Tyler?

Eis a resposta. Marla sabe demasiado. Por isso, Tyler pretende exterminá-la, mas o nosso alucinado protagonista fará de tudo para salvá-la, a ela e a todos quantos puder, impedindo o sucesso do projecto secreto, já em marcha. O tempo urge; contudo, não passará a única salvação pelo próprio suicídio do protagonista? O final eleva a complexidade do argumento ao rubro, pisando mais do que nunca os domínios da metaficção (afinal, é pouco verosímil que o narrador não faleça perante o disparo da bala. Trate-se, o narrador, de uma criação ficcional consciente da sua ficcionalidade). Clube de Combate assume-se, pois, como a expressão máxima do chamado mindfuck movie e o confronto final acaba por acontecer nas nossas cabeças. Assistir a Tyler - Tyler? - e Marla, de mãos dadas, no cimo daquele prédio de iluminação soturna, enquanto as explosões se sucedem lá fora, é qualquer coisa de arrebatador.

You met me at a very strange time in my life.

Um final esperançoso naquele que é, definitivamente, um filme incontornável na História do Cinema.

...Where is your mind?

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No final dos finais, como se já não bastasse de irreverência e de provocação, aparece-nos uma daquelas imagens-flash que muitos poderão ignorar, mas que está efectivamente lá. Surge-nos, como que entre-cortado por acaso e durante fracções de segundo... um volumoso... pénis. A nice big cock... É o cúmulo do atrevimento, não? :D

domingo, 14 de novembro de 2010

O WRESTLER (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Wrestler
Realização
: Darren Aronofsky
Principais Actores: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Ernest Miller, Gregg Bello, Todd Barry

Crítica:

A PAIXÃO DE RANDY

Em O Wrestler, Aronofsky desce do intocável éter da genialidade e filma com excepcional mestria as feridas da alma de um homem solitário, que viu no Wrestling o escape ideal para a sua dificuldade extrema em manter relações. The world don't give a shit about me. É um registo que se confunde com as técnicas do documentário, longe das experiências alucinantes de um A Vida Não É Um Sonho ou de um The Fountain - O Último Capítulo. Se, por um lado, provém de uma natureza menos ambiciosa, jamais se poderá dizer que constitui, de todo, uma experiência decepcionante. Revela, isso sim, outra maturidade e, porventura, a procura de experiências menos arriscadas, dentro de moldes mais convencionais e realistas.

É triste, profundamente triste, sair de um hospital, depois de ter estado às portas da morte, e não ter ninguém. É esse o desespero de Randy. Apesar de habituado aos murros, ao sangue e a toda a brutalidade do espectáculo, são as mágoas e os erros do passado que lhe corroem o espírito e o angustiam com pesar. Impõem-se as questões: haverá possibilidade para reatar a relação com a filha? Para encontrar o amor? Para a tão esperada redenção, pondo fim à agonia e ao sufoco da solidão? Ou haverá caminhos que, a partir de certo ponto, são de todo irreversíveis?

When you live hard and you play hard and burn the candle at both ends... in this life, you can lose everything you love, everything that loves you. Alot of people told me that I'd never wrestle again, they said "he's washed up", "he's finished" , "he's a loser", "he's all through". You know what? The only ones gonna tell me when I'm through doing my thing, is you people here. You people here... you people here. You're my family.

O Wrestler é, sobretudo, um filme muito bem filmado. Aronofsky segue as suas personagens e nós, espectadores, assumimos mais do que nunca o seu ponto de vista. A montagem é não só brilhante como um dos mais prodigiosos trabalhos de toda a obra; responsabilidade de Andrew Weisblum. Mas claro, aquilo que mais nos arrebata é a visceral interpretação de Mickey Rourke. Grande, grande performance. Tanto física como emocionalmente. Marisa Tomei, mas especialmente Evan Rachel Wood completam o elenco de absoluto e inquestionável talento. É magistral, a direcção de actores. Depois, há todo um conjunto de idealizações que resulta na perfeição: as cenas de cariz mais violento e de difícil digestão, as analepses e os jogos temporais que brincam com a evolução linear da narrativa ou a entrada no supermercado com aquela notável montagem de som, estabelecendo um paralelo imediato com os tempos áureos dos ringues. Enfim, articulações estéticas que se demarcam como alguns dos mais saborosos atributos da obra.

Apesar de não contar com o Aronofsky que prefiro e que reconheço como um dos mais geniais realizadores da actualidade, estamos perante um filme irrepreensivelmente bem feito. De um realismo incrível.

domingo, 8 de agosto de 2010

TOURO ENRAIVECIDO (1980)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Raging Bull
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, Mario Gallo, Frank Adonis, Joseph Bono, Frank Topham, Lori Anne Flax, Charles Scorsese, Don Dunphy, Bill Hanrahan, Rita Bennett

Crítica:

O RINGUE DA VIDA

If you win, you win. If you lose, you still win.

Touro Enraivecido terá, porventura, a melhor cena de abertura de todos os tempos. Um ringue enche o ecrã; nele, um só homem: Jake LaMotta, saltando e socando o vazio em slow motion. Que nem um bailado, o tema Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, eleva o momento à perfeição. A beleza é tal que nos transcende, em absoluto... e enraíza-se na memória.

O argumento da obra de Scorsese desenvolve-se, depois, dentro e fora dos ringues. Dentro, nos sucessivos combates que marcam a carreira do pugilista de pesos-médios; combates, aliás, constantemente identificados e datados; datando, por sua vez, também a acção. Fora, na vida pessoal de Jake LaMotta, num primeiro e num segundo casamento, nas relações amorosas e familiares. Ambas as realidades se regem pela testosterona; e nesse retrato Scorsese é bem claro: dos italianos, LaMotta não herdou apenas o sangue. Herdou toda uma tradição cultural que minimiza e inferioriza o papel da mulher, reduzindo a femme fatale a objecto sexual e a responsável pelas lides domésticas. É um culto machista, de glorificação do homem sobre todas as coisas, alimentado pela honra e pelo orgulho. Não admira, pois, que as mulheres sejam tratadas com violência - violência que o lutador não consegue canalizar estritamente para os combates profissionais; os quais, aliás, põe acima de qualquer relação. LaMotta é, como adianta o título, como um touro enraivecido. É perseguido pelos nervos e perseguidor dos cornos - que nunca existirão. O ciúme doentio e o devaneio da traição enlouquecê-lo-ão, destruindo os seus pilares fundamentais: o casamento, a relação com o irmão e o boxe. Convertido em playboy desrespeitoso, mal amanhado e sozinho, Jake LaMotta há-de confrontar-se a si próprio; e, nesse momento, há-de ver, há-de ver-se como nunca, que nem a parábola bíblica do cego.

Misto de violência, sensualidade e erotismo, Touro Enraivecido é a arte de filmar no seu esplendor máximo. A cada cena, a cadência única e inspirada de Scorsese, a magnífica cinematografia de Michael Chapman ou o extraordinário trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker elevam-se em uníssono harmonioso na concepção de arte pura. A mise-en-scène é assaz cuidada e relevante tanto para o enquadramento social como para fins artísticos. A salientar, ainda, determinadas opções estéticas como a original manipulação do som em algumas cenas de combate ou a alternância entre filmagem e fotografia, entre a cor e o preto-e-branco para acelerar e sintetizar o tempo diegético... Por fim, as prestações do elenco: grandes desempenhos de Cathy Moriarty e de Joe Pescy. Robert DeNiro, na sombra do génio, é a tour de force de todo o filme; transfigura-se a si próprio, genuíno, intenso e inesquecível. Que performance magnífica.

Da primeira à última cena, eis, pois, um triunfo sem precedentes. Um dos melhores filmes do mestre, capaz de deixar qualquer um completamente... K.O.!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

MILLION DOLLAR BABY - SONHOS VENCIDOS (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Million Dollar Baby
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Anthony Mackie, Margo Martindale, Brian F O`Byrne

Crítica:

TUDO POR UM SONHO

Em Million Dollar Baby, de Clint Eastwood, o boxe é a metáfora perfeita da vida: it's the magic of fighting battles beyond endurance, beyond cracked ribs, ruptured kidneys and detached retinas. It's the magic of risking everything for a dream that nobody sees but you. Negro, sombrio e tão íntimo, o esboço da condição humana faz-se, essencialmente, por meio da palavra e do sentimento.

O argumento, a cargo de Paul Haggis, flui sereno, inspirado e, no momento certo, assertivo, espelhando, de forma intensa, a tragédia das relações humanas e o poder inesperado e irreversível da fatalidade. As prestações do elenco, preciosamente escolhido, irradiam excelência. Frankie e Scrap, interpretados respectiva e brilhantemente por Eastwood e Freeman, há muito que se retiraram da luta. São uns vencidos da vida, mas cujas feridas do passado estão longe de sarar, definitivamente. O primeiro afunda a solidão na dificuldade do gaélico e na facilidade de, no dia-a-dia, não correr riscos. Não tem família, não tem Deus, não tem esperança. O amor paternal que desenvolverá por Maggie será a sua última oportunidade para a redenção. O segundo parece limpar o ginásio em permanente contemplação, como se na inércia de não comprar, por exemplo, umas meias novas ou na determinação de lavar o chão com uma boa lixívia apaziguasse a dor da memória. A verdade é que, quando intervém, irónico e de bom humor, as suas sentenças revelam-se genuinamente certeiras e memoráveis. Para não falar da sua narração que, omnisciente, concretiza as surpreendentes cadências do argumento. Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, num papel de transfiguração e entrega total) vive a sua pobreza em constante poupança para alimentar o sonho, para poder continuar a fazer aquilo que mais prazer lhe dá - o pugilismo - e para, quem sabe um dia, conseguir dar uma vida melhor à família e a si mesma. Nunca desiste e insiste em encontrar força nos momentos de maior fraqueza (que são tantos) para vencer. A luta é o seu destino: I was born two pounds, one-and-a-half ounces. Daddy used to tell me I'd fight my way into this world, and I'd fight my way out. A sua história é, no fim de contas, derradeiramente comovente e inspiradora.

Million Dollar Baby prova, ao mesmo tempo, a importância soberana de, em cinema, contar uma boa história, com boas performances dos actores. Clint Eastwood, realizador, fá-lo de forma magistral, com simplicidade e grande contenção: reduzida banda sonora, subtil trabalho de montagem e grande cuidado na iluminação. Fá-lo, afinal e acima de tudo, com palavra e sentimento.

Clássico absoluto.

domingo, 7 de setembro de 2008

CINDERELLA MAN (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Cinderella Man
Realização: Ron Howard

Principais Actores: Russell Crowe, Renée Zellweger, Connor Price, Paddy Considine, Paul Giamatti, Craig Bierko, Bruce McGill

Crítica: Tocante e emocionante. E de uma estética subtil e arrojada... falo tanto da realização de Ron Howard como da delicada e perspicaz montagem da dupla Daniel P. Hanley e Mike Hill. O filme resulta num crescendo a todos os níveis, para o qual a imprescindível banda sonora de Thomas Newman tem um papel determinante. Nas interpretações temos um Russell Crowe com uma construção de personagem notável, num underacting de se lhe tirar o chapéu. Faz a dupla perfeita com a brilhante e versátil Renée Zellweger. Paul Giamatti está igualmente formidável. Excelentes escolhas de casting. Cinderella Man é, por tudo isto, um filme que prova que não é preciso ser megalómano seja no que for para se conseguir um obra de alto nível e de muito bom gosto.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões