sábado, 13 de novembro de 2010

O HOMEM DA CÂMERA DE FILMAR (1929)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Человек с Киноаппаратом / Chelovek s kino-apparatom
Realização: Dziga Vertov
Principais Actores: Mikhail Kaufman

Crítica:

O REFLEXO NO ESPELHO:
UM OLHAR SOBRE A MODERNIDADE

O tic-tac do relógio. A cidade. O proletariado das fábricas dorme nas ruas, pobre. Desfilam os automóveis, atropelando as assimetrias sociais. O fumo, a máquina de costura industrial, o embalamento, a produção repetitiva e em série. A máquina de escrever e a imprensa, o telefone, os automatismos e a electricidade. A central e a barragem. O caminho de ferro, a locomotiva e o comboio, a alta velocidade. O grande navio. O eléctrico corre entre a multidão, em ruas de trânsito e de negócio. O capitalismo, as lojas e o comércio. O ascensor. A tecnologia e o ritmo imparável, sempre incessante. A avioneta: o homem voa, desbrava os céus e ultrapassa os seus limites. O soutien. O bâton. A emancipação da mulher, a igualdade de direitos. A beleza. A preocupação estética, o bom corpo. O desporto: a ginástica, a bicicleta, o salto em altura, o lançamento do dardo, dos pesos. O futebol, o basquetebol. A higiene: o banho, o lavar dos dentes. A diversão, o carrossel, o fazer praia. O lazer. As evoluções e as conquistas de um século, as transformações de toda uma sociedade.

Um dos maiores feitos do século XX, contudo, foi a capacidade de o Homem se encarar a si próprio, de se pensar a si próprio. Para isso muito contribuiu a fotografia e, posteriormente, o cinema, a captação de imagens em movimento. A câmera de filmar foi, por isso, uma invenção tremenda.

O Homem da Câmera de Filmar representa esse olhar do Homem sobre a modernidade e sobre si mesmo. Ao mesmo tempo, quebra o tradicional conceito de montagem invisível, tal qual Ford a baptizara, e aposta em elevar o conceito de cinema à plena autonomia de parentes próximos como a Literatura ou o Teatro: para Dziga Vertov, não é imprescindível a conexão literária ou a representação dramática por actores. A imagem, o fotograma, é por si só de uma riqueza incomensurável e a montagem é o motor de um filme, a sua marca estética por excelência. O cinema não deve esconder a câmera e ocultar a mimesis, deve assumir-se enquanto artifício. Pela junção dos múltiplos fragmentos captados, poder-se-á atingir, inclusivé, uma verdade que nos é imperceptível a olho-nu. As histórias são mais descritivas do que propriamente narrativas e, se quisermos, a câmera assume-se como o narrador da realidade e a história nasce com a montagem e das possibilidades que, por sua vez, com ela nascem. O Homem da Câmera de Filmar vive da filmagem documental do quotidiano (a Rússia citadina), não tem diálogos e se tem alguma personagem é tão-somente o próprio operador de câmera (Mikhail Kaufman, irmão do realizador), que se desloca pela cidade formulando a sinédoque do próprio Vertov e a mise en abyme. Eis, pois, as características essenciais para que se possa atingir o denominado Kino-Pravda, o cinema-verdade, o cinema em estado puro, com uma linguagem própria - a teoria, o movimento e a escola pelos quais Vertov se debateu durante toda a carreira.

Mais do que um filme encicplopédico no que a técnicas cinematográficas diz respeito, O Homem da Câmera de Filmar foi o pioneiro em muitas dessas técnicas: split screen, slow motion, dissolves e freeze frame. A sobreposição ou combinação de planos concretiza verdadeiras visões surrealistas, com um notável preenchimento do plano. Vários olhares se juntam para um olhar múltiplo e superior. O surrealismo resplandece, noutras vezes, pelo criativo jogo de perspectivas ou por assombrosos truques de montagem. A animação de objectos como cadeiras ou a câmera de filmar resulta, por exemplo, em cenas completamente inesquecíveis, lembrando o cinema como arte ilusionista. Há ainda a subtil alternância entre a focagem e a desfocagem, o rewind, o frozen take, extremos close-ups... Aliada aos ritmos da modernidade, a montagem é frenética, possibilitando, por vezes, quase que um efeito estroboscópico. O próprio filme O Homem da Câmera de Filmar é uma grande invenção do século, um grande avanço. E, acreditem, uma grande descoberta. Estamos perante um exercício experimental deveras impressionante, radical e original. O filme é mudo, mas a banda sonora que o acompanha é absoluta e igualmente grandiosa, apoteótica (refiro-me à datada de 1996, composta e interpretada por The Alloy Orchestra, a partir das instruções do próprio Vertov; uma das melhores que conheço). Em última análise, estamos perante um filme sobre si próprio - sobre o processo de filmar e de montar um objecto cinematográfico, e de o projectar às audiências.

Um aplauso para Dziga Vertov, para Yelizaveta Svilova (sua mulher e assistente de montagem) e um aplauso para uma das mais geniais e fundamentais obras-primas da História do Cinema.

17 comentários:

  1. Grande Obra... Quando vi foi com a banda sonora The Cinematic Orchestra... Fiquei sem Palavras

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  2. Penso que "fundamental" deve ser a palavra certa. Nunca vi, mas sem dúvida o teu texto fez com que o filme se tornasse prioridade. Depois digo o que achei :)

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  3. Sim, com a música da Cinematic Orchestra ainda fica mais monumental. Marco do início da evolução do cinema a par do Potemkin do Eisenstein (do qual gosto mais).

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  4. ANÓNIMO: Só faltou a sua assinatura ;) É, sem dúvida, uma grande obra. Prefiro a banda sonora de The Alloy Orchestra, de longe. Torna o filme ainda mais grandioso.

    FLÁVIO GONÇALVES: Sim, "fundamental" ou "essencial". Vais adorar, certamente; são 67 minutos imperdíveis na tua vida. Temos o DVD actualmente esgotado no mercado, mas podes contactar directamente a Costa do Castelo Filmes, que eles têm. Contudo, tens o filme disponível no Youtube, com a banda sonora que te aprouver.

    ÁLVARO MARTINS: Não concordo. Gosto muito, mas muito mais da música de The Alloy Orchestra, não sei se já viste o filme com este acompanhamento. Penso que se envolve com a imagem de uma forma que a da Cinematic Orchestra não faz. O filme torna-se ainda mais apoteótico, assombroso, magnífico.
    Ainda não vi a obra do Eisenstein.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  5. Bem... Estou a ver o filme no youtube com a banda sonora de The Alloy Orchestra, e acho que vou mudar de opinião relativamente a versão Cinematic... A versão Alloy enquadra-se muito bem no filme

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  6. ANÓNIMO: Partilhamos então da mesma opinião. É verdadeiramente extraordinária, e a sincronia entre som e imagem é ufff... something.
    Gostaria apenas que o caro anónimo se identificasse, seria possível?
    Obrigado.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  7. Já acompanho o fórum à algum tempo, mas nunca tinha tido vontade de comentar, mas a partir de hoje acho que isso vai mudar. (anónimo identificado =P )

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  8. Pois, ainda não vi com esse acompanhamento da The Alloy Orchestra. Vou ver e depois digo algo ;)

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  9. LUÍS SILVA: Nesse caso, agradeço o acompanhamento e a identidade revelada ;) Creio que seja aquela pessoa que me contactou há uns tempos por e-mail, falámos de The Spirit of the Beehive, que me foi recomendado. Enfim, fico contente pela participação. Bem-vindo e volte sempre!

    ÁLVARO MARTINS: Ok, creio que gostarás imenso.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  10. Exactamente. Fui eu mesmo que lhe recomendei esse filme. E espero que esteja na sua lista de filmes a assistir =P creio que não se vai arrepender

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  11. LUIS SILVA: Na verdade, já li muita coisa interessante sobre o filme. Acredite ou não, não faço downloads da internet e o filme não existe cá em DVD, só se o importar. Para já não está previsto, mas gostaria bastante de vê-lo. Uma vez mais obrigado pela recomendação e conto consigo na discussão sobre outros filmes! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  12. Hmm corroboro as palavras do Flávio. A tua descrição faz-me querer ver o filme, que diga-se não conhecia.

    Os anos 20, 30 e 40 são-me muito desconhecidos ainda. Mas vou tratar de corrigir isso já começando por este filme.


    Jorge Rodrigues
    http://dialpforpopcorn.blogspot.com

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  13. JORGE RODRIGUES: Ainda bem ;) É impossível não valorizar a genialidade desta obra. Certamente gostarás imenso.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  14. É um filme que tinha poucas ou nenhumas indicações.. até ler esta magnífica crítica. Vou já tratar de encontra-lo na net, pois duvido que haja à venda onde quer que seja.

    Cumprimentos

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  15. ANDRÉ SOUSA: Pode mesmo ser difícil de encontrá-lo, mas há poucos meses comprei-o directamente à distribuidora. Aqui está o site:
    http://www.costacastelo.pt/

    Boa sorte! Vale a pena ter o DVD desta obra-prima incomensurável.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  16. O filme é imprescindível. Concordo com o Roberto, vi com a banda sonora The Alloy Orchestra e fica monumental. Muito embora já tenha visto no youtube um excerto do filme com a música da Cinematic Orchestra e me tenha agradado também.

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  17. MANUELA COELHO: Sim, esse segundo acompanhamento musical é agradável.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões