quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Le Scaphandre et le Papillon
Realização: Julian Schnabel
Principais Actores: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Max von Sydow, Emma de Caunes

Crítica:

A ETERNA REPETIÇÃO

Quando o corpo aprisiona, só a imaginação liberta. As imagens do escafandro e da borboleta são, por isso, as metáforas perfeitas para a condição castradora em que Jean-Dominique Bauby se vê, inesperadamente. Muita da poesia da obra nasce dessas poderosíssimas imagens. Aparte a poesia, o filme confronta-nos com uma realidade assustadora, de forma íntima e profundamente tocante.

O filme começa com o despertar, o primeiro olhar, após semanas de coma. Da absoluta paralisia escapou um olho e a actividade cerebral, que lhe sustenta o organismo, a sofrida comunicação interior, a limitada comunicação exterior e, afinal, a vida. Se há dom que a obra tem é o de nos pôr no interior da mente do paciente e fazer com que sejamos os espectadores do filme e, noutra dimensão, os espectadores de um só olho, moribundos entre as visitas do hospital. Nós somos a câmera. Tudo aquilo que ela capta é não só o filme como a nossa realidade exterior, como se assumíssemos aquela personagem presa à cama.

A condenação de Jean-Dominique é evidente. Um derrame pode ter inúmeras causas identificáveis; o certo é que tantas vezes atinge as pessoas sem dar indícios claros e capazes de suscitar uma prevenção à altura. A intensidade das consequências varia de caso para caso. Jean-Dominique desenvolveu a síndrome do encarceramento, rara e psicologicamente torturante. A recuperação passaria por um milagre, apenas. E, à escala humana, estamos limitados às nossas possibilidades. Como enfrenta um homem a vida neste estado? Se é que se pode dizer enfrenta... Não admira que o ex-editor da Elle queira a morte... Aliás, o filme se tivesse cheiro seria certamente esse lúgubre odor que habita as alas do adeus. Jean-Baptiste sabe que jamais tocará os cabelos dos filhos, as pernas de uma mulher, a vida em toda a sua fascinante acepção. A sua existência resume-se agora à eterna repetição diária, enquanto espera pelo fim.

A montagem do filme (Juliette Welfling) é em tudo prodigiosa e constitui uma das maiores qualidades da obra. Julian Schnabel filma com assaz sensibilidade, mas creio que lhe falta alguma maturidade e sobriedade. De qualquer forma, era difícil escapar às limitações dramáticas do argumento de Ronald Harwood. Não por culpa do argumento, que é excelente, mas pela história em si... é comovedora, mas, em cinema como na Verdade, um tanto ou quanto maçuda. Não creio, como tantos, que estamos perante uma obra-prima. Mas perante um brilhante exercício, de méritos inegáveis, estamos com certeza.

8 comentários:

  1. Eu discordo a apreciação final. Para mim, O Escafandro e a Borboleta é uma obra-prima completa. Sem dúvidas!

    Abraço

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  2. Roberto, também eu quando o vi pela primeira vez, há coisa de um ano atrás, cri o mesmo que tu. Revi-o hoje, acabei mesmo há minutos atrás e digo-te que mudei de opinião. Quase atinge a perfeição, a classificação máxima. Mas formalismos à parte, relativos à nota: reconhecemos, evidentemente, que a realização, a montagem e a realização são um prodígio da maior autenticidade. E a ele se alia o argumento.

    Abraço!

    (também hoje revi o magnífico POCAHONTAS e mudei de opinião, para muito melhor melhor... hoje tem sido um óptimo dia para ver filmes :P)

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  3. JACKSON: Estamos, então, os dois convictos. Não do mesmo, mas ainda assim convictos. Em desacordo.

    FLÁVIO GONÇALVES: Uma segunda visualização é, no mínimo, sempre aconselhada, é certo. Mas a verdade é que não gostei assim tanto. Que não é obra-prima estou seguro.
    Quanto a POCAHONTAS só fico contente que lhe dês o devido valor. Esse sim, uma obra-prima! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. Epá... conforme sabes ainda não o vi, mas esperava um bocadinho mais. Vamos ver!!!

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  5. é um filme intrigante, com certeza, só assiste o filme pelo fato da situação do protagonista ser completamente curiosa. Um filme excelente, mas concordo que em seu resultado final faltou um "algo a mais".

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  6. TIAGO RAMOS: Recomendo. É um filme tremendamente interessante, bem realizado.

    ALAN RASPANTE: Se faltou um "algo a mais" não será com certeza excelente, mas entendo a ideia e identificamo-nos.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  7. Amalric, Seigner e Von Sidow por si só já me fazem querer ver este filme. Mais um para uma lista de muitos. Vou ter que vir aqui sempre e não há como não comentar ;)

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  8. ENALDO: É sem dúvida um bom filme! Marcante, diria mesmo. Veja, valerá certamente a pena. Volte sempre, isso não preciso repetir ;D

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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