quarta-feira, 24 de novembro de 2010

BOOGIE NIGHTS - JOGOS DE PRAZER (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Boogie Nights
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, John C. Reilly, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, Luis Guzmán, Philip Seymour Hoffman, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Baker Hall, Robert Ridgely

Crítica:

SEXO, DROGAS E ROCK'N ROLL

I'm gonna be a great big bright, shining star.

You don't know what I can do! You don't know what I can do, what I'm gonna do, or what I'm gonna be! I'm good! I have good things and you don't know about! I'm gonna be something! I am! And don't fucking tell me I'm not!

É desta forma, impulsiva e revoltada, que o jovem Eddie Adams (Mark Wahlberg) se dirige à mãe, no culminar de uma discussão intensa e descontrolada. Eddie deixou os estudos, curte com uma miúda de má fama e trabalha num clube nocturno, do qual regressa cada vez mais tarde, dia após dia. No clube brilham letreiros luminosos, a música alta faz-se soar numa explosão de cores e de ritmos. Desfila um exuberante figurino, uma moda completamente excêntrica. Enfim, resquícios dos (também eles) loucos Anos 70. Mais concretamente 1977. Eddie é um mero lava-pratos-fã-de-karaté, mas por cinco dólares apenas mostra a sua giant cock a quem se dispuser a pagar. Um dia, cruza-se no seu caminho o famosíssimo Jack Horner (Burt Reynolds), realizador de filmes pornográficos, e a sua vida muda para sempre.

I got a feeling that behind those jeans is something wonderful just waiting to get out.

Abandonando a casa dos pais e destemido a vencer na vida, Eddie torna-se Dirk Diggler, um garanhão possante à frente das câmeras, capaz de distrair qualquer técnico da equipa de produção com a sua performance e com o seu... enorme talento.

O elenco, todo ele com excelentes interpretações, é absolutamente monumental: Julianne Moore é Amber Waves, uma mãe marcada pela perda da custódia do filho, e que, no meio daquela indústria, espalha o seu amor maternal pelos mais jovens. Philip Seymour Hoffman é Scotty J., um assistente homossexual frustradíssimo, que desde cedo se rende aos encantos do atraente Dick Diggler. Heather Graham é a rollergirl, a eterna patinadora, uma estudante fracassada que também se torna uma estrela porno. Don Cheadle é Buck Swope, também actor de acção mas cujo sonho é abrir uma loja para a comercialização de Hi-Fi. William H. Macy é Little Bill, um marido igualmente frustrado, que passa os dias a cruzar-se com a mulher a fornicar pelos quartos, pelos ruas... em todo o lado, com qualquer um. John C. Reilly rapidamente se torna o melhor amigo de Dick, é também actor e com ele formará uma dupla de sucesso, mas os seus hobbies passam inevitavelmente pelo ilusionismo. Robert Ridgely é o Coronel James, o produtor dos milhões, mas não passa de um pedófilo pervertido. Philip Baker Hall é Floyd Gondolli, um investidor ambicioso, ansioso por lucrar com as videotapes - as mais recentes novidades tecnológicas do meio cinematográfico. Mas Jack Horner, o realizador, é mais conservador:

You come into my house, my party, to tell me about the future? That the future is tape, videotape, and not film? That it's amateurs and not professionals? I'm a filmmaker, which is why I will never make a movie on tape.

Todas as personagens são distintas, mas todas elas têm muito em comum. É por isso que a passagem de ano de 79 para 80 marca muito mais do que a passagem de ano ou do que a viragem de década. Marca a reviravolta na acção de todas essas vidas. Little Bill cansa-se do despudor da mulher e mata-a. Em seguida, dispara sobre si mesmo e põe fim à vida. E aquela que era, até agora, uma imparável ascenção para o estrelato sem limites, torna-se numa assustadora e vertiginosa viagem de decadência e de perdição. Dick Digler, à semelhança de todos os seus colegas de profissão, torna-se um viciado em drogas, a impotência sexual manifesta-se, a arrogância sobe-lhe à cabeça e é despedido. Por mais que, no exterior daquela elite, as pessoas consumam pornografia, o preconceito e a hipocrisia denigre a actividade. Quando Dick sai à rua, é brutalmente espancado. A Buck Swope, é-lhe negado um empréstimo, pelo mesmo motivo. Com a agravante do consumo de drogas, o tribunal jamais permitirá que o filho de Amber cresça perto da mãe. E a patinadora, por fim, é amplamente humilhada pelos fantasmas do passado, que jamais lhe dignificarão o corpo ou a alma.

Boogie Nights começa a brilhar de imediato, quando Paul Thomas Anderson rompe com a tão-pouco estimulante música dos créditos iniciais e marca o contraste com um tema completamente enérgico, ao melhor estilo dos 70's. A discoteca, a dança, os travellings... inicia-se uma arte de filmar sobejamente audaz, magistral, incrivelmente sublime. P. T. Anderson aborda o argumento como um Altman, concebe a encenação como um Tarantino, filma inspirada, metódica ou freneticamente que nem um Scorsese de Tudo Bons Rapazes ou de Touro Enraivecido (a cena final do espelho é uma clara homenagem). Ainda assim e apesar de tão notórias e prestigiadas influências, P. T. Anderson emana autenticidade, rasgos de uma genialidade muito própria e única. Afinal, ninguém filma as personagens como ele, com tamanha noção de colectivo, com tamanho respeito por cada uma das individualidades que, no todo e no final, formam um painel tão multifacetado e tão rico. Em Boogie Nights (como mais tarde em Magnolia) todas as personagens partilham momentos de protagonismo, todos têm uma existência e personalidade própria. São tremendamente bem modeladas, inclusivé as mais secundárias. Podem ser tanto heróis como desgraçados. Há um não-sei-quê de trágico e de profundamente humano nos seus trajectos, que é progressivamente potenciado e elevado a um poderoso clímax, como se de uma ópera se tratasse, como se de um épico se tratasse, tanto pela câmera, como pela extasiante combinação de canções, como pela montagem (Dylan Tichenor, incrivelmente excepcional). Na escrita, na direcção de actores ou na realização... isto é Paul Thomas Anderson: complexo, sagaz e provocador.

Boogie Nights? Clássico absoluto, pelo incomensurável talento de um dos melhores e mais estimulantes cineastas da actualidade.

11 comentários:

  1. Este, o Magnolia e o There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson no seu melhor. Este sim é realizador, agora o Nolan!

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  2. Este filme é fantástico, um dos melhores dos anos 90, e muito pela realização do Paul Thomas Anderson. É o meu realizador americano preferido da actualidade.

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  3. ÁLVARO MARTINS: São todos filmes enormíssimos. Assim como EMBRIAGADO DE AMOR.

    JOÃO GONÇALVES: Também é um dos meus realizadores de eleição. Incontornavelmente. Grande filme, este BOGGIE NIGHTS, que só agora descobri.

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    Roberto Simões
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  4. A primeira obra-prima de muitas de Paul Thomas Anderson, um diretor incrível.

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  5. WALLY: Não sei se será uma obra-prima, mas lá que é um filme assombrado pelo génio, isso é! ;) De acordo, P. T. Anderson é um realizador fenomenal.

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    Roberto Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

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  6. O filme tem uma fluidez orgânica. I absolutely love it. É, provavelmente, a minha obra preferida daquele que, também provavelmente, é o melhor realizador da actualidade :P

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  7. NUNO: Tem essa fluidez, sem dúvida. Um dos filmes maiores dos anos 90. Contudo, sendo que P.T. Anderson tem filmes como MAGNOLIA e HAVERÁ SANGUE no currículo, não poderei dizer que este é o meu favorito dele. Mas é, concordo, um dos maiores cineastas contemporâneos. Ao nível dele, não muitos.

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    Roberto Simões
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  8. A primeira das três obras-primas de PTA. E que venham mais!

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  9. Filme fantástico, como são todos os seus filmes.

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  10. WALLY: Não considero, este filme, uma obra-prima, mas lá que é muito bom, lá isso é! ;)

    DIOGO F: "Fantástico". Muito bem feito.

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    Roberto Simões
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  11. Um belíssimo filme, talvez mesmo o primeiro do PT Anderson que me dá imenso prazer a assistir, ainda que depois não deslumbre em nenhum departamento. Exceptuando provavelmente na realização que é fenomenal, inventiva e fluída. Espantosa mesmo. De resto o argumento é interessante, bem desenvolvido assim como as personagens, a banda sonora e a montagem final.

    Posto esta visualização fiquei com vontade de redescobrir Magnolia (que já gosto) e There Will Be Blood (que não aprecio como a generalidade aprecia).

    abraço

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