quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (2001)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Artificial Intelligence: AI
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robards, William Hurt, Brandan Gleeson

Crítica:
ERA UMA VEZ...

Human beings have created a million explanations of the meaning of life - in art, in poetry, and mathematical formulas. Certainly human beings must be the key to the meaning of existence.

Se a arte é vida, A.I. - Inteligência Artificial toca a imortalidade. Não só é, na minha opinião, a obra mais íntima, negra e genial de Steven Spielberg - o projecto original arquitectava-se nos incomensuráveis confins criativos de Kubrick - como a mais incompreendida. Trata-se de uma criação visionária, para lá das fronteiras do sonho e do imaginário, numa dimensão sem tempo, visualmente fascinante e surpreendente a cada respirar.

Já em
2001: Odisseia no Espaço Stanley Kubrick abordara a questão da Inteligência Artificial, com o seu mítico robot Hal 9000. A partir do conto Supertoys Last All Summer Long, de Brian Aldiss, tanto Kubrick como Ian Watson e como, finalmente, Steven Spielberg desenvolveram a história do menino-robot que sonha e é capaz de amar eternamente.

Na verdade, to create an artificial being has been the dream of man since the birth of science. E a ciência não só nos ajuda a desvendar os mistérios do universo - dentro das lógicas que nós próprios construimos - como nos permite assumir um poder divino, o poder de criar.

Cientista: It occurs to me with all this animus existing against Mechas today it isn't just a question of creating a robot that can love. Isn't the real conundrum, can you get a human to love them back?
Professor Hobby: Ours will be a perfect child caught in a freezeframe. Always loving, never ill, never changing. With all the childless couples yearning in vain for a license our Mecha will not only open up a new market but fill a great human need.
Cientista: But you haven't answered my question. If a robot could genuinely love a person what responsibility does that person hold toward that Mecha in return? It's a moral question, isn't it?
Professor Hobby: The oldest one of all. But in the beginning, didn't God create Adam to love him?

As infinitas possibilidades da tecnologia e dos seus avanços desafiam, por isso, toda a nossa identidade, confrontando-nos com questões éticas, morais, filosóficas e derradeiramente ontológicas. O que é ser um humano? O que é ser uma máquina? Até onde uma máquina é só uma máquina? Quais as implicações de nos afeiçoarmos a uma máquina como se de um ser humano se tratasse? Poderá um robot substituir um ser humano? Poderá ele minimizar ou apaziguar a dor da perda, quando somos confrontados com a morte, o nosso pior medo? Até que horizontes emocionais se estabelecerão os vínculos de uma relação homem-máquina? Poderá um robot sentir com Verdade? Poderá uma máquina ter auto-consciência? Até que ponto
entenderemos um ser como artificial (meca) ou natural (orga)? Poderá um dia haver uma sociedade de máquinas, sem humanos? Poderão eles atingir a vida eterna e superar, desse modo, a morte? De qualquer das formas, qual será o sentido da vida para um robot?

A.I. - Inteligência Artificial é daquelas obras que se transcende a si própria enquanto género. É melodramática, sobrenatural, futurista, fantástica, profética... e sedutoramente enigmática. Que nem a assombrosa banda sonora de John Williams. Nos seus ambientes e atmosferas reencontramos Blade Runner - Perigo Iminente. Mas o que Spielberg nos proporciona é um mergulho vertigionoso e quase extra-sensorial, extremamente original e ambicioso, capaz de desafiar todos os limites do pensamento. É uma projecção aterrorizante, profunda como os segredos do oceano, onde flutuam questões e incertezas que nos perturbam a existência. Haley Joel Osment (o menino prodígio de O Sexto Sentido) tem uma performance assustadora. Frances O'Connor e Jude Law completam o elenco principal que irradia excelência. Spielberg é não só um exímio contador de histórias como também um grande director de actores - ambos os factos ficam, uma vez mais, claramente comprovados. A direcção artística é simplesmente extraordinária. Os efeitos especiais são de uma concepção incrível e Janusz Kaminski capta a essência do impossível com assaz perfeição. É inegável: A.I. - Inteligência Artificial é uma belíssima obra-prima.

No mínimo, e enquanto cinema,
A.I. será - sempre - uma aventura incrível, absolutamente absorvente e inesquecível. Viver aquele final - onde a poesia ganha forma na mais pura quimera - é como pisar, quiçá pela primeira vez, aquele inatingível lugar where dreams are born. Clássico absoluto.

25 comentários:

  1. Este filme toca-me tanto! Spielberg é mestre a fazer filmes "familiares":)*

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  2. É um filme magistral, de uma pureza inigualável. A pergunta é: será que Kubrick, que projectou esta fita durante tanto tempo, a faria melhor?

    Abraço!

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  3. Quando eu vi o filme pela primeira vez me apaixonei. E a cena final foi arrebatadora!

    Com certeza é um filme de grande destaque na década de 00'

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  4. Eu gostei imenso deste filme e a parte final, foi mt emocionante qt a mim.
    gostei mesmo e gostei da historia emocionante do menino robot, com sentimentos.
    Bjs

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  5. Houve muita gente na altura que estreou que criticou muito o final do filme. Eu simplesmente adorei, assim como o filme todo! De uma genialidade pura! Quando se acha que Spielberg já fez de tudo, surgem pérolas destas!
    MAGISTRAL

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  6. Ei, surpreendeu-me, a classificação.
    EXCELENTE? A melhor obra de Spielberg?

    Tenho mesmo de dar uma olhada :P

    Abraço

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  7. ADEK: É, também e inegavelmente, um filme tocante. E sobre "amor". Aquilo que nos une.

    FLÁVIO GONÇALVES: Jamais saberemos a resposta a essa pergunta. Sabemos apenas que seria diferente. Pessoalmente, gosto muito deste projecto.

    RAPHAEL RIBEIRO: Por acaso a primeira vez que o vi foi há muitos anos e achei-o bem complicado. Por ele só caí de amores desta vez ;)

    GEMA: Sim, o final é ma-ra-vi-lho-so! ;) Também gostei bastante.

    JOÃO BASTOS: Pois, para quem gosta mais de filmes com histórias verosímeis, deve ter detestado o final. Para mim, que vejo o cinema como arte, aquele final foi delirante ;) É, sem dúvida, uma pérola.

    JACKIE BROWN: Na verdade, não tive como não lhe dar o Excelente. Acho o filme extraordinário.
    Atenção que eu não disse que ache este A.I. o melhor filme de Spielberg. Acho-o, isso sim, o seu filme mais negro, íntimo e genial. E neste caso a genialidade não brotou só de Spielberg, não é verdade. E digo isto sem querer minimizar-lhe o mérito.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  8. Não me conseguiu tocar assim tanto, mas é uma obra muito comovente e familiar que a coloca muito mais perto do coração que da boca. :)

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  9. Bom texto! A.I. é, de facto, excelente... não sei como é tão devastado pela crítica, sinceramente...

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  10. Concordo quando dizes "imcompreendido". Aliás, não compreendo como esta obra genial só tem 6,9 no IMDB...

    Excelente crítica mais uma vez. Deu-me vontade de o rever!

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  11. TIAGO RAMOS: É tanto mais do que isso, a meu ver...

    FLÁVIO GONÇALVES: Obrigado ;) Nem tu, nem eu... Sabes, é daquelas obras que só crescem com o tempo. Havemos de estar cá para ver ;)

    RICARDO V.: Obrigadíssimo ;) Revê então! Para mim foi uma assombrosa re-descoberta!
    Na verdade, é tão incompreendido que chega a ser injustiçado. O tempo far-lhe-á justiça, eu acredito.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  12. É um belo filme!
    Com uma excelente vertente humana e uma pequena história do pinóquio, a meu ver.
    Embora seja excelente, considero A Guerra dos Mundos como a obra predilecta de Spielberg desta última década...

    Abraço
    http://nekascw.blogspot.com/

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  13. Adoro A.I! O melhor filme do Spielberg (mas não meu favorito, mas um dos top 5).

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  14. NEKAS: Sim, a história do Pinóquio é essencial e uma referência máxima neste A.I..
    Em breve publicarei uma nova crítica a GUERRA DOS MUNDOS. Também é das minhas obras favoritas de Spielberg neste século XXI.

    FELIPE GUIMARÃES: Também adoro. O melhor mas não o seu favorito? ;) Penso que compreendo!

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  15. Este filme é muito bom realmente e daquelas obras que nos consegue deixar por momentos abananado com o que se viu. Contudo, não é somente um filme de Spielberg...
    Aliás ele apenas levou a bom porto a realização do filme.

    Todo o AI foi uma obra com que Stanley Kubrik andou anos a tratar e a melhorar o argumento e ideias até perceber que não tinha ainda os meios técnicos para o fazer. Salvo erro, Spielber ficou ligado ao filme porque Kubrik lhe havia discutido e até a fazê-lo com efeitos especiais digitais. Pensou em tudo, e foi aumentando a história com melhores pormenores e dilemas... excepto a resolução final... porque morreu e deixou a obra/esboço por finalizar.

    Spielberg pegou em todo o material e para o honrar realizou o que Kubrik pensou, deixando a sua marca "Spielberguiana" com aquele final que criou com os ETs.
    Admito que para mim o final tem o seu quê de estranho ao filme (já se viu acontecer o mesmo com o Indiana Jones 4) mas que em AI até acabou por fazer sentido ao dar uma redenção ao amor que uma "máquina" sentia por um ser humano.
    É para mim um dos muito bons filmes da década.

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  16. ARM PAULO FERREIRA: Um projecto inicial de Kubrick, mas, para todos os efeitos, uma concretização de Spielberg. Devemos ter sempre em conta o factor Kubrick, estou de acordo, mas nunca subvalorizar o feito de Spielberg.
    O final é magistral! De acordo, um dos melhores da década 2000.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  17. ALAN RASPANTE e SAULO S: Completamente ;) Sem dúvida. Um filme extraordinário.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  18. Ugh, apesar do filme ser um dos meus favoritos, nunca consegui escrever um comentário como esse seu que fizesse jus a essa fusão sagrada entre Spielberg e Kubrick. Só de ver as imagens do post já me correm calafrios pelo corpo.

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  19. GUSTAVO: Obrigado pelo elogio ;) É de facto um filme assombroso e arrepiante. O final é tão tão sublime...

    Cumps.
    Roberto Simões
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  20. Um filme que já vi há imenso tempo e na sala de cinema. A quando da estreia portanto. Desde então nunca mais. Uma pena, pois deixaste-me com a crítica verdadeiramente e como que se costuma dizer "em pulgas". A ver se o (re)visito. É que de facto não me lembro bem do filme, nem tão pouco se gostei ou não. Tenho uma vaga noção de ter apreciado uma ou outra cena e de o final não ter sido totalmente ao meu gosto.

    Mas enfim desde então o meu cinema evoluiu tanto e já vi tantos filmes que necessito mesmo de ver este de novo. Ainda por cima um Spielberg.

    abraço

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  21. JORGE: Foi daqueles filmes que também o tinha visto quando foi lançado e sobre o qual mudei, desde então, radicalmente de ideias. Que obra genial.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  22. Já o (re)vi e me parece que tive uma experiência em tudo igual à tua. Quando o vi na estreia lembro-me de não ter gostado muito...agora deparei-me com uma obra fantástica. Magnífica. Genial sem dúvida, e um Spielberg algo diferente, mais negro, mais íntimo, como dizes. Gostei desta faceta, desta abordagem por parte do realizador, assim como da banda sonora, da interpretação de Haley Joel Osment (profunda, inquietante, poderosa), do argumento e claro do desenlace final.

    A poesia do final, foi das coisas mais belas e emocionantes que vi nos últimos tempos, muito bom. Enfim um dos únicos que me faltava rever (ou ver) de Spielberg, que simplesmente adorei. Um ensaio fascinante, para rever outra vez certamente.

    abraço

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões