quinta-feira, 18 de novembro de 2010

IRREVERSÍVEL (2002)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Irréversible
Realização: Gaspar Noé
Principais Actores: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Prestia, Philippe Nahon, Stéphane Drouot, Jean-Louis Costes, Michel Gondoin, Mourad Khima
Crítica:

O FIM E O COMEÇO

Le temps détruit tout.

Chocante e atordoante, incómodo e inconveniente, maculado e doentio, desiludido, sem esperança. Irreversível é assim: uma experiência ultra-sensorial que nos prende por inteiro e que nos transporta, sob uma cadência hipnótica, do mais inquietante dos pesadelos ao absoluto apaziguamento existencial.

Do fim para o princípio, a desconstrução da narrativa e das personagens não só surpreende como se revela um autêntico processo de reconstrução, por meio do qual nos apercebemos da forma implacável e aleatória de como o caos escreve os nossos destinos. Há duas sequências absolutamente brilhantes: a descida infernal, de atmosfera nevrótica, repugnante e violenta, ao antro da perversão homossexual (note-se o requinte intencional: a combinação perfeita de planos rodopiantes com a repetição obsessiva de sons baixos e graves, de frequência de 28 Hz, de modo a provocar o sentimento de náusea e tontura no próprio espectador) e a dolorosa, brutal e revoltante violação no túnel vermelho (plano estático, ângulo de irrepreensível enquadramento).

Inspiradamente iluminado, fotografado e montado e genialmente realizado (Gaspar Noé transforma uma simples história de vingança numa original, revigorante e marcante obra de arte, desconfortavelmente sublime), Irreversível conta ainda com fortíssimos desempenhos, imbuídos no poder soberano da narrativa: Vicent Cassel, Monica Bellucci e Albert Dupontel. O trio protagoniza, frontalmente e sem tabus, esta tão interessante quão curiosa abordagem sobre o amor e a sexualidade.

No final, perturbados pela crueldade do futuro e pela viagem que assumímos, somos levados para um salto no infinito, pela inspiração assumida de Kubrick e de Beethoven. A imagem cede ao turbilhão de emoções, desvanece no branco e perde-se na confluência de sons e de luzes estroboscópicas. A nossa consciência eleva-se, então, ao éter da arte. O tempo destrói tudo, inevitavelmente, irreversivelmente. Não valerá a pena, ainda assim, este nosso intervalo no curso eterno da transcendência?

16 comentários:

  1. Não considero "Irreversível" um filme excelente, mas o recurso utilizado para contar a forte história, de trás para frente, resulta em uma fita de grande impacto.

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  2. Estou também para ver, muito em breve! E sei que é uma experiência única! :)

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  3. Amigo
    O que irei postar aqui é apenas o enredo do dvd argentino do filme ... pera ai ...

    “Irreversivel.
    Porque o tempo destroi tudo.
    Porque alguns atos são irreparáveis.
    Porque o homem é um animal.
    Porque o desejo de vingança é um impulso natural.
    Porque a maioria dos crimes ficam sem castigo.
    Porque a perda do(a) amado(a) destroi como um raio.
    Porque o amor é a origem da vida.
    Porque toda a história que se escreve com esperma e sangue.
    Porque as premonições não modificam o curso dos acontecimentos.
    Porque o tempo nos revela … o melhor e o pior.”


    Abraços amigo

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  4. Quando assisti a esse filme, levei um choque: de maneira interamente crua, as cenas são mostradas, atirando o espectador em meio à violência não-idealizada. A câmera que gira no começo nos remete à mente do personagem, bastante confusa; depois, compeltamente estática, a câmera nos apresenta uma das cenas mais brutais do cinema. O filme também é tem uma excelente narrativa: conhecemos a conclusão antes de ver o desenvolvimento, logo primeiro vemos as consequências para depois conhecer as causas.

    Como você ainda não escreveu sobre o filme, não posso saber em quais pontos concordarei com e em quais discordareid e você, mas assim que estiver pronta, volto aqui apra opinar (de novo).

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  5. Irreversível podia ser chamado também de ESTOMAGO.

    Muito estomago, além de um aparelho de dvd e uma televisão é o que precisa pra assistir esse filme espetacular!

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  6. UAU. Ainda bem então que o viste!!! Depois falamos ;)

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  7. ALEX GONÇALVES: De acordo quanto ao impacto, em perfeito desacordo quanto ao valor desta obra. Genial.

    TIAGO RAMOS: Sabes? Mas já viste o filme antes? ;) É, indiscutivelmente, uma experiência única.

    DR JOHNNY STRANGELOVE: E o breve poema diz tudo ;)

    LUÍS: A crítica está aí, conto então com seu comentário. Concordo para já com você. IRREVERSÍVEL conta com duas das melhores cenas da década. E o processo de mostrar as causas depois das consequências revela-se um processo por demais interessante.

    LAÍS: Bem-vindo ao CINEROAD! Muito estômago, de facto! Estou totalmente de acordo com você.

    FLÁVIO GONÇALVES: Há muito tempo que não recebia uma recomendação com a qual vibrasse tanto. E esta foi feita por ti. Graaande descoberta ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  8. Roberto, posso dizer que eu concordo com tudo o que disse?
    Eu simplesmente não tenho argumentos a acrescentar ao que você escreveu, pois você resumiu com muita precisão aquilo que o filme representa: uma obra de arte.

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  9. LUIS ADRIANO: Muito obrigado! Eu esforcei-me para isso ;) Fico contente que tenha gostado. Estamos então de acordo em relação a este filmaço genial.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  10. FLÁVIO GONÇALVES: Muito obrigado ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  11. Muito, muito difícil de assistir. Reconheço que é um grande filme mas... não consigo recomenda-lo a a ninguém!

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  12. PEDRO PEREIRA: Porquê? É uma obra-prima! Vejam-no, é pura genialidade! Grande, grande, grande filme. É difícil? Dá um murro no estômago que se estendem por muuuuito tempo? Sim, sim. Mas é ufff... qualquer coisa de extraordinário.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  13. Esse filme é uma loucura, genial!
    Apenas concordo contigo, acho-o excelente!

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  14. ALAN RASPANTE: Nesse caso estamos em perfeito acordo ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  15. Gostei muito do texto.

    "Chocante e atordoante, incómodo e inconveniente, maculado e doentio, desiludido, sem esperança."

    Precisamente. Eu acho-o o mesmo aflitivo. É que somos confrontados com uma série de horrores e depois andamos numa irónica caminhada para trás, a ver a vida das personagens tornar-se melhor, sendo que sabemos que o percurso é o inverso, e que a sua vida só vai ficar é destruída. E nada podemos fazer. E o final é um final feliz. Só porque o início de tudo é feliz. Mas o início do filme, esse é o verdadeiro final e é devastador. E nós nada podemos fazer, porque já passou.

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões