sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A GRANDE ESPERANÇA (1939)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Young Mr. Lincoln
Realização: John Ford
Principais Actores: Henry Fonda, Alice Brady, Marjorie Weaver, Arleen Whelan, Eddie Collins, Pauline Moore, Richard Cromwell, Donald Meek, Judith Dickens, Eddie Quillan, Spencer Charters, Ward Bond

Crítica:

A RAZÃO E O CORAÇÃO

I may not know much of law (...),
but I know what's right and what's wrong.Abe Lincoln

Com o término dos festejos populares do 4 de Julho, a cidade de Springfield ferve em picardias políticas e amorosas, mas, sobretudo, em álcool e regozijo. Na clareira de um bosque e na sequência de uma desavença, dois irmãos brigam com um terceiro. Há uma arma. A aflição da disputa chama a mãe dos irmãos ao local e, perante o seu rosto consternado, ouve-se um disparo. A iluminação é escassa, o operador filma agora a cena num plano estático e distanciado. O fumo ascende às alturas, lentamente, brilhando a elegância da encenação. Os dois irmãos correm para os braços da mãe e um quarto indivíduo, de nome J. Palmer Cass (ou Jack Cass [leia-se Jack-ass], como haveria de ser parodiado no tribunal) aproxima-se da vítima, erguendo à claridade uma faca manchada de sangue.

Qual dos irmãos Clay foi o responsável, afinal, por tão repentina e precipitada morte? Tanto Matt como Adam recusam-se a avançar com um nome, dada a confusão da luta. Mas talvez a verdadeira razão resida na incapacidade moral e emocional de denunciar um irmão querido, condenando-o à mais assustadora das sentenças: o enforcamento. Testemunhas? O tal J. Palmer Cass, que assume ter assistido ao crime, mas que se mantém relutante na denúncia, e mãe dos irmãos: Alice Brady, numa intensa e memorável interpretação. Mas será o coração de uma mãe capaz de optar pela vida de um filho em detrimento da vida de um outro? Claro que não. O direito pode ser a voz da justiça, mas essa justiça (de/para uns) seria sempre uma tremenda injustiça para aquela mãe e para aquela família - para não falar, evidentemente, da crassa e possível injustiça que seria condenar aqueles dois irmãos que, à medida que as provas e argumentos se impuserem sobre a mesa, se poderão revelar inocentes perante a destreza da defesa. Aquilo que o argumento de Lamar Trotti - sempre muito fluído - desenvolve gradualmente, ao fim e ao cabo e iluminando o raciocínio, é a subordinação da lei à lei da família e de como o sistema per si pode cegar a verdadeira justiça. No filme, e como nas muitas obras de Ford, há um moralismo que se sobrepõe a qualquer livro, direito ou religião. Há uma verdade humana, algures entre a razão e o coração, essa sim, soberana. Estabelecer o equilíbrio entre ambas é que é difícil, mas o caminho da justiça dever-se-á sempre debater contra essa dificuldade, a fim de se concretizar a si mesma, plenamente.

A resolução e o desenlace do caso dão-se graças a Henry Fonda, num desempenho brilhante: enquanto advogado, Abe Lincoln representa e simboliza, simultaneamente, um modelo a seguir e uma crítica ao sistema judicial. O filme - sempre acompanhado por uma belíssima banda sonora - revisita a sua juventude, as suas paixões e os seus primeiros interesses políticos, até ao seu início de actividade na advocacia. A trama dos irmãos Clay acaba mesmo por ser o seu primeiro grande caso e serve de síntese para traçar a representação do seu carácter: um ser descontraído e bem humurado, de origens humildes e que se educou a si próprio. Foi como que um estudioso natural, desde cedo interessado no mundo e nas pessoas, que era capaz de passar horas de leitura sobre as árvores, no campo, de pernas para o ar, ou tardes de longos passeios à beira rio, que tanto adorava, repetindo frequentes visitas à campa da mãe, que sempre representou uma forte referência no seu crescimento pessoal. Sempre presente, a natureza. A natureza é a paisagem e o pano de fundo da juventude de Lincoln. Ford filma a natureza com um fascínio absoluto; dela, aliás, provém a maior parte do lirismo visual da obra.

Abe Lincoln é Abraham Lincoln, e o filme não faz senão ficcionalizar o início da idade adulta daquele daquele que se tornaria uma incontornável figura histórica: o décimo sexto presidente da América, a 4 de Março de 1861. Lincoln, o grande republicano, voz e mão de um grande humanismo, que lideraria o país atravessando uma gravíssima crise interna - a Guerra Civil Americana - e que poria fim a séculos de escravatura.

Efe Turner: Ain't you goin' back, Abe?
Abe Lincoln: No, I think I might go on a piece... maybe to the top of that hill.

O Battle Hymn of the Republic começa a soar, subtilmente, e cresce em máxima força. Surge o busto esculpido do presidente Abraham Lincoln e, dessa forma, encerra-se a homenagem, exacerbando o patriotismo. Entre a razão e o coração, por fim, concluindo... um grande homem. E um grande, grande filme.

8 comentários:

  1. Apesar da história ter algumas versões para o cinema, ainda não tive oportunidade de conferir.

    Pelo que leio, esta original de 1939 é a melhor.

    Abraço

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  2. Grande filme, grande Fonda e grande Ford ;)

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  3. HUGO: Recomendo vivamente, este A GRANDE ESPERANÇA ;)

    ÁLVARO MARTINS: Fiquemo-nos, pois, pelo "grande". Creio que basta.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  4. Também só disse grande. Não percebi a pertinência do teu comentário.

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  5. ÁLVARO MARTINS: LOL sim, não foi das coisas mais pertinentes que alguma vez escrevi, mas o que quis dizer com a minha frase tinha outro sentido, não me julgues mal. Quis dizer que basta dizer "grande" porque tudo no filme é, efectivamente, "grande".

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  6. Ah, assim já percebi ;) estamos em concordância absoluta.

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  7. Ainda não o vi, mas tenho-o do Público. Depois lerei a crítica.

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  8. DIOGO F: Não há spoilers na crítica, caso queiras lê-la ;) É um muito bom filme.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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