terça-feira, 27 de julho de 2010

Condições Gerais


I. Publicações
1.1. As periodicidade das publicações (sejam elas críticas, rubricas ou qualquer outro tipo de artigos) é variável e não obedece a datas ou a horários pré-estabelecidos.
1.2. Todas as publicações, salvo excepções devidamente identificadas, são da total autoria do autor deste blogue. Os pontos de vista e opiniões nelas expressas são da inteira responsabilidade do mesmo.
1.3. Todas as críticas poderão incluir análises mais detalhadas das obras, assim como eventuais spoilers.
1.4. O plágio e/ou a reprodução não-autorizada das publicações (integral ou parcialmente) são expressamente proibidos e punidos por lei.
1.5. Mediante autorização, a reprodução dos mesmos deverá apresentar-se clara e explicitamente identificada com o nome do autor e com o nome deste blogue.
1.6. As críticas não são definitivas. Poderão sofrer alterações mediante as intenções do autor.
1.7. Os textos publicados a partir de Novembro de 2013 adotarão o novo Acordo Ortográfico.

II. Comentários
2.1. Todos os visitantes poderão participar no blogue, comentando as publicações.
2.2. Todos os comentários deverão apresentar-se devidamente assinados. Os comentários anónimos poderão não ser aceites.
2.3. Os pontos de vista e opiniões expressas nos comentários são da inteira responsabilidade dos seus autores.
2.3. Todos os comentários deverão estar relacionados com a publicação em questão. Os comentários que não estejam relacionados poderão não ser aceites.
2.4. Após o envio dos comentários, o autor do blogue procederá à sua moderação com a maior brevidade possível.
2.5. O autor do blogue tem a liberdade de eliminar os comentários injuriosos, ofensivos ou com linguagem imprópria.
2.6. Geralmente, os comentários publicados obtêm resposta do autor do blogue, pelo que o visitante deverá tornar à publicação comentada e conferir o estado do debate.

III. Passatempos
3.1. Todos os passatempos têm uma data e uma hora limite de participação, anunciados na publicação de lançamento.
3.2. Os dados que deverão ser enviados são: nome completo, e-mail e resposta correcta à pergunta apresentada na publicação de lançamento.
3.3. Cada participante pode apenas participar uma vez.
3.4. Os passatempos são válidos apenas para Portugal.
3.5. O e-mail para enviar as participações é: passatempos.cineroad@hotmail.com
3.6. O sorteio é feito aleatoriamente e o resultado é anunciado na Home Page do blogue no dia do encerramento do passatempo.
3.7. Após o sorteio, o vencedor será contactado via e-mail para a autenticação da identidade e para que o CINEROAD tome conhecimento dos dados essenciais ao envio do prémio por correio.
3.8. Caso não se faça a autenticação da identidade ou o contacto com o vencedor (por motivos alheios ao CINEROAD e por um prazo máximo de 3 dias úteis a partir da data do anúncio do vencedor), proceder-se-á a um novo sorteio aleatório, com anúncio público no blogue, sendo totalmente anulado o primeiro sorteio. Este processo poderá ser repetido sempre que necessário até que seja apurado um vencedor ao qual possamos enviar o prémio.

IV. Classificações
4.1. Todos os filmes criticados pelo autor deste blogue estão avaliados de acordo com as seguintes pontuações:

PÉSSIMO ()
FRACO ()
RAZOÁVEL ()
BOM ()
MUITO BOM ()
EXCELENTE ()

4.1. É atribuída a classificação negativa PÉSSIMO () aos filmes que, segundo o autor, são totalmente desprovidos de qualquer mérito narrativo, técnico ou artístico.
4.2. É atribuída a classificação negativa FRACO () aos filmes que, segundo o autor, falham as suas tentativas de coesão narrativa ou interna, entre os vários constituintes do filme.
4.3. É atribuída a classificação positiva RAZOÁVEL () aos filmes que, segundo o autor, não falhando propriamente na coesão narrativa, não se distinguem de tantos outros filmes no que a méritos narrativos, técnicos ou artísticos diz respeito.
4.4. É atribuída a classificação positiva BOM () aos filmes que, segundo o autor, se situam claramente acima da média, mas que, no entanto, não triunfam o suficiente a nível narrativo, técnico ou artístico para se afirmarem como uma obra verdadeiramente excepcional.
4.5. É atribuída a classificação positiva MUITO BOM () aos filmes que, segundo o autor, atingem a plenitude dos objectivos a que se propuseram, cumprindo com mestria a sublimidade narrativa, técnica ou artística.
4.6. É atribuída a classificação positiva EXCELENTE () aos filmes que, segundo o autor, superam a plenitude dos objectivos a que se propuseram, com genialidade, assaz audácia e ousadia, ou raríssima perfeição.
4.7. Estes critérios de avaliação são de aplicação genérica, podendo haver, excepcionalmente, outras razões que determinem as classificações.
4.8. As classificações nunca são definitivas, podendo sofrer alterações mediante as intenções do autor.

domingo, 25 de julho de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (10)

Flávio Gonçalves, autor do blogue O Sétimo Continente, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

Gus Van Sant
Andrei Tarkovsky
Michael Haneke
Lars Von Trier
Stanley Kubrick
Terrence Malick
Woody Allen
Alfred Hitchcock
Darren Aronofsky
Ingmar Bergman

Um muito obrigado, Flávio Gonçalves.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

DISPONÍVEL PARA AMAR (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Fa yeung nin wa
Realização: Wong Kar Wai
Principais Actores: Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Ping Lam Siu, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Man-Lei Chan, Zhi-gong Chen

Crítica:

Y así pasan los días...
Y yo desesperado...

UM AMOR EM SEGREDO

Y tú, tú, contestando
!
Quizás, quizás, quizás...


Hong Kong, 1962. Dois desconhecidos, o Sr. Chow e a Srª Chan, mudam-se para apartamentos vizinhos, onde o vício maior é jogar Mahjong; quis o destino que a mudança dos dois se fizesse no mesmo dia. Ambos estão casados, mas ambos vivem as suas existências tristes e solitárias, uma vez que os respectivos cônjuges estão quase sempre ausentes. Ele é jornalista e tenta escrever uma série sobre artes marciais. Ela trabalha durante longas horas num escritório e passa as noites no cinema... Muitas são as vezes em que se cruzarão nas ruas do bairro, a caminho do restaurante, emanando charme, elegância e sedução. Tanto um como o outro resistem em admitir que são traídos, até ao dia em que, após uma série de olhares e de encontros cada vez mais sensuais, decidem enfrentar as coincidências: os seus companheiros não são senão amantes.
Começam por ensaiar o dia em que confrontarão os infiéis, mas coincidência das coincidências: vêem-se inevitavelmente assolados pela atracção e pelo desejo, tentados a tornarem-se, também eles, amantes.

Wong Kai Wai alia, poética e magistralmente, imagem e música, concretizando cenas em que a sensualidade do movimento corporal (da belíssima e deslumbrante Maggie Cheung) nos extasiam e arrepiam. Yumeji's Theme, a título de exemplo, é ciclicamente motivado e continuamente retomado, sublimando as cadências da sedução. Nota especial para os temas interpretados por Nat 'King' Cole, não só absolutamente envolventes como em perfeita sintonia com a imagem. Kar Wai brilha também no slow motion e na virtuosidade e graciosidade do movimento da câmera. Aquela cena em que a Srª Chan passeia pela ruela e desce as escadinhas de encontro ao restaurante é, provavelmente, o melhor exemplo destes eloquentes fragmentos de excelência... completamente sublime. A montagem de William Chang deixa o filme fluir aos mais variados ritmos, ora paulatinamente, ora apressadamente. A sensibilidade artística denota-se a cada compasso.

Disponível Para Amar não conta com a exuberância visual que viria a ostentar a obra-prima 2046, mas ainda assim é de um candor visual deveras fascinante. Para isso muito contribuiu a extraordinária fotografia de Christopher Doyle, que uma vez mais se alia ao poeta, juntamente com os inegáveis talentos de Pung-Leung Kwan e de Pin Bing Lee. A mise-en-scène é assaz cuidada e requintada, há um permanente jogo de cores (o verde, o magenta, o amarelo, o vermelho, o azul e o púrpura), uma construção do fotograma que se complexifica com os espelhos, os reflexos e as transparências, com as luzes e as sombras. Há sempre qualquer coisa que encobre parcialmente os planos e, frequentemente, o desfocar do primeiro plano marca presença primeira na perspectiva, enquanto que a acção se desenrola num segundo plano. Destaque ainda para a excepcional prestação de Tony Leung e para o extraordinário guarda-roupa.

Dominados por valores da moral vigente nos anos 60, Chow Mo-wan e Su Li-zhen Chan resistem relutantemente à paixão, incapazes de ceder à força maior dos instintos.

Sr. Chow: Sozinhos, somos livres para fazer muitas coisas. Tudo muda quando casamos. Tem tudo que ser decidido em conjunto, certo? Às vezes penso no que seria se não tivesse casado. Alguma vez pensou nisso?
Srª Chan: Talvez fosse mais feliz.

Porque não unir os dois destinos, cedendo à paixão? Estão ambos disponíveis para amar, mas não são capazes. Nos dedos carregam a aliança e a prisão. Limitam-se, pois, ao mais puro platonismo, nunca concretizando o seu amor. Uma relação secreta que se quis proibida aos olhos dos outros. Mas a felicidade só depende deles próprios. Eles ainda não sabem, mas vir-se-ão a arrepender de todo o tempo perdido.

Estás perdiendo el tiempo!
Pensando, pensando!
Por lo que más tú quieras
Hasta cuando, hasta cuando...

Ainda que partam do presente em relação a um futuro desconhecido, não conseguirão apagar a memória e o sentimento: o destino uniu-os e há um segredo como prova da sua eterna união, ainda que jamais se tornem a encontrar.

Antigamente, se alguém tivesse algum segredo que não quisesse partilhar, sabes o que fazia? (...) Subia uma montanha, procurava uma árvore... abria um buraco nela... e sussurrava o segredo dentro do buraco. A seguir, cobria-o com lama. E lá deixava o segredo para sempre...

No final, o Sr. Chow segreda alguma coisa para o templo sagrado de Angkor Wat, no Camboja, e a Srª Chan aparece com um filho pequeno. O segredo não é desvendado, mas fica implícito o seu mistério. E, com ele, o amor transcende o próprio tempo; prenúncio de 2046. Por tudo isto, a obra emana, toda ela, nostalgia. E é não só profundamente romântica como derradeiramente trágica.

Enfim, um clássico absoluto e uma das mais belas histórias de amor que o cinema imortalizou. Prepare-se para ser seduzido!

Quizás, quizás, quizás...

domingo, 18 de julho de 2010

10 Breves Perguntas (19) - Final

O último questionário.
Eric Nascimento, autor do blogue Filmes - Sem Enrolação, aceitou o convite do CINEROAD para responder ao derradeiro final da iniciativa 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000: Good Bye Lenin!
2. A Banda-Sonora da Minha Vida: Across the Universe
3. Um Amor de Infância:
Back to the Future
4. Um Filme de Animação:
Wall-e
5. Uma Comédia: The Hangover
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
Drag Me To Hell
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Die Fetten Jahre sind Vorbei
8. Um elenco: Ocean's Eleven
9. A Melhor Fotografia que conheço: The Pianist

10. Já mudei de ideias sobre este filme: Man on the Moon

Um muito obrigado, Eric Nascimento.

Compare todas as edições da iniciativa: AQUI

sábado, 17 de julho de 2010

CORAÇÕES (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Coeurs
Realização: Alain Resnais
Principais Actores: Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier, Claude Rich, Lambert Wilson

Crítica:

UM NEVÃO DE SOLIDÕES

Um branco nevão cai sobre Paris, intensamente. Seis corações procuram o amor, mas o frio é, ainda que metaforicamente, um puro entrave às relações. O passado assombra-lhes a existência presente, a identidade do hoje, e incapacita-os para a autenticidade e para a naturalidade com que uma relação deve ser encarada e vivida.

O novelo: Thierry (André Dussollier) é um agente imobiliário de meia-idade, um tanto ou quanto deprimido e frustrado tanto profissionalmente como pessoalmente, que se convence de que a colega de trabalho, Charlotte (Sabine Azéma), uma devota da Bíblia, o seduz por meio de sessões de striptease, escondidas em gravações de programas religiosos que tão gentilmente lhe empresta. Mas o carácter de Charlotte é mesmo ambíguo. Após o trabalho, e entre rezas múltiplas, cuida de um idoso acamado e insuportável, que faz a vida negra a todas as senhoras que o filho contrata para cuidar dele. O filho, de nome Lionel (Pierre Arditi), serve ao balcão de um bar esteticamente moderno e é o ouvinte de um alcóolico diário: Dan (Lambert Wilson), acabado de arruinar um noivado com Nicole (Laura Morante) e perdido em mentiras para tentar conquistar Sophie (Isabelle Carré), filha de Thierry. Perdão, o nome da deslumbrante rapariga é Gaëlle. Afinal, também mente aqui e ali com vista a agradar num primeiro encontro.

Os corações das várias personagens cruzam-se, aproximam-se ou afastam-se, mas jamais se unem. A história revela, pois, pouca frescura, apesar de uma condução magistral da narrativa, dotada de uma sobriedade e maturidade invejáveis, de uma arte de filmar graciosa e de interpretações fabulosas e muito bem dirigidas. Tecnicamente, a direcção artística é arrojada, a fotografia de Eric Gautier é belíssima e com um cuidado cénico de pormenor, a composição musical de Mark Snow é magnífica e assim é, igualmente, a excepcional montagem de Hervé de Luze. Aprecio imenso o tom melancólico de toda a obra e os indícios de comédia que, aqui e ali, se harmonizam com o todo.

Concluindo: um filme irrepreensivelmente bem feito, de facto, mas desde logo condicionado pela previsibilidade do argumento e, porventura, pela sua falta de inspiração.

THE BROWN BUNNY (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Brown Bunny
Realização: Vincent Gallo
Principais Actores: Vincent Gallo, Chloë Sevigny, Cheryl Tiegs

Crítica:

A DOR E A VIAGEM
The Brown Bunny é um sensível, delicado e virtuosíssimo pedaço de cinema sobre o vazio, o silêncio e o sofrimento de um homem, acabado de presenciar um chocante e devastador acontecimento que lhe arruinou - para sempre - a memória de um grande amor e, por consequência, a vida.

O homem é Bud Clay. É corredor de motos, mas há corridas perdidas logo à partida. Daisy (Chloë Sevigny) abandonou-o e ninguém parece conhecer o seu paradeiro. As memórias de Bud recuperam-na, a todo o instante. Mas a sua dor existencial, perfeitamente transmitida tanto pela performance do actor como pela melancolia da arte de filmar (as perspectivas intensificam a solidão do protagonista para com o mundo, o focar e desfocar contrabalança o fluxo de mágoas e recordações, a proximidade física da câmera com o actor reflecte-lhe o estado de alma), leva-nos a crer que Bud não a quer encontrar. Bud é, portanto, um homem completamente dividido entre a vontade de encontrá-la e a vontade de nunca mais a encontrar. Entre o poder ou não aceitá-la novamente. Porque terá partido Daisy, afinal? Ninguém, excepto Bud, sabe ao certo. O mistério adensa-se, lentamente, ao longo de todo o filme, ao longo de toda a estrada, ao longo de toda a viagem. Bud procura-a noutras mulheres, mas nunca a encontra... Nunca encontra nada, nem sequer uma única esperança, nem sequer ele próprio. A paisagem é fria, nada acolhedora ou reconfortante. As cadências da montagem inebriam-nos, juntamente com as canções, o jogo de sons e com essa arte de filmar extremamente subtil. O final, fálica e sexualmente tão explícito, é absolutamente intenso, dilacerante e desolador... Deixou-me sem palavras.

Vincent Gallo é o actor, o realizador, o argumentista, o editor, o director de fotografia, o produtor... Vincent Gallo é o filme. É a prova de que tanto se pode fazer com tão pouco. Há quem mate um filme pelo preconceito... Quanto a mim, e sem sombra de qualquer dúvida, estamos perante um filme belíssimo e absolutamente magistral, pessoal e intimista, cujos principais recursos são o talento e a autenticidade.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (6)

3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| Frederico Fellini, Valsa com FelliniSaraband (2003), de Ingmar Bergman
Otets y Syn (2003), de Aleksandr Sokurov
Caché (2005), de Michael Haneke

| João Bastos, Revolta da PipocaBattlefield Earth: A Saga of the Year 3000 (2000), de Roger Christian
Frequency (2000), de Gregory Hoblit
Behind Enemy Lines (2001), de John Moore

| Daniel Silva, Cine ObservadorMunich (2005), de Steven Spielberg
Capote (2005), de Bennett Miller
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), de Andrew Dominik

quinta-feira, 15 de julho de 2010

STALKER (1979)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Сталкер / Stalker
Realização: Andrei Tarkovsky
Principais Actores: Aleksandr Kaidanovsky, Alisa Frejndlikh, Anatoli Solonitsyn, Nikolai Grinko, Natasha Abramova, Faime Jurno, Ye. Kostin, R. Rendi

Crítica:

O PURGATÓRIO DA EXISTÊNCIA

O milagre está fora do empírico.
Escritor

I

O que é e o que representa - enquanto objecto artístico - uma assustadora obra-prima como Stalker? Um mero devaneio poético e filosófico, ainda que inteiramente profundo e genial? Uma tremenda e inquietante distopia sobre a incomensurabilidade do ser? Uma intrigante alegoria política, crítica aos responsáveis pelo caos da realidade alucinada, o desenvolvimento industrial e o capitalismo selvagem? Um pesadelo, uma expiação de fantasmas de guerra, um advento apocalíptico? Uma incessante e hipnótica metáfora freudiana, para além das fronteiras do consciente, subconsciente e inconsciente? Um visionário e tenebroso labirinto de contemplação, reflexão e interrogação, ainda que às tantas assombrado pelo niilismo, acerca da natureza e da existência humana, acerca dos desejos, dos medos e da eterna busca de uma verdade absoluta e inatingível? Um ensaio sobre a fé, sobre a presença ou a ausência de Deus? A concretização da unidade aristotélica - uma só acção, um só espaço, um só tempo? Um tratado sobre a beleza intemporal das coisas?

II

Num lugar e num tempo indeterminados, a especulável queda de um meteorito condenou a existência humana à contaminação. As tropas e autoridades delimitaram e cercaram logo a região, denominando-a A Zona e interditando-a a qualquer indivíduo. Estima-se que A Zona detenha propriedades estranhas, misteriosas e sobrenaturais. Fala-se que n'Ela existe um Quarto onde todos os desejos se concretizam... e as enigmáticas possibilidades dessa lenda rapidamente fascinaram os sofridos da cidade mais próxima, que entre destroços e ruínas habitam.

A obra inicia-se, passados os créditos, num sépia de bronze, não só requintado como imaculado. A mise-en-scène é minuciosa, a iluminação acautelada ao pormenor e a fotografia (Aleksandr Knyazhinsky, Georgi Rerberg, Leonid Kalashnikov) brilha em todo o seu máximo esplendor. Iniciam-se os takes longos, lentos, envolventes. Para além da porta, o lar de uma família. Três: Stalker (Aleksandr Kajdanovsky), a sua mulher (Alisa Frejndlikh) e a sua filha. O drama: a mulher vive, constantemente, a solidão com uma filha deficiente e apática do mundo. A atmosfera é de desespero e corrói-lhe a alma. Stalker é um guia, a sua missão é secreta e consiste em desbravar o impossível para além da fronteira proibida. Os stalkers são os únicos conhecedores do caminho, capazes de sobreviver dentro d'A Zona.



III

Um dia, Stalker parte novamente, deixando a família para trás. O bar da cidade é o ponto de encontro com os seus clientes. Esperam-no, desta vez, um escritor famoso (Anatoli Solonitsyn) e um céptico cientista e professor (Nikolai Grinko). O caminho é difícil, árduo e arriscado. A existência é-lhes assombrada pelo desejo, pelo medo e pela dúvida:

É tudo mentira. Estou-me nas tintas para a inspiração. Como posso saber o nome daquilo que quero? Como posso saber que, no fundo, não quero o que quero? São coisas fugidias: basta dar-lhes um nome e perdem o sentido. Este derrama-se como uma alforreca ao sol. A minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo, mas o meu subconsciente morre por um bife suculento.
Escritor

Toda a Sua tecnologia, altos-fornos, rodas... e outras idiotices são para trabalhar menos e manducar mais. Tudo isso são muletas, próteses. No entanto, a Humanidade existe para criar obras de arte! O fim destas não é interesseiro, ao contrário de todas as outras acções. Que ilusões! Imagens de verdade absoluta!
Escritor

Voltarei d'O Quarto já como génio... para a nossa cidade, esquecida de Deus. Ora, o Homem escreve porque sofre, porque duvida de si. Tem que provar a Ele próprio e a quem o rodeia que tem algum valor. E se souber, de antemão, que sou um génio? Para que raio hei-de escrever? Qual o sentido?
Escritor

Ao entrarem no território d'A Zona, o filme ganha cor. A música electrónica e a indecifrável orquestração de sons conflui-se com o ambiente enevoado, com os subtis ruídos e, imagine-se, com o silêncio. A aparente confusão acústica resulta na perfeição, como se pronunciasse a aura do incógnito. O que é A Zona? - interrogam-se os três, cada vez mais, em viscerais interpretações.

A Zona é um complexo sistema de armadilhas, se querem... Todas são mortais. Não sei o que se passa aqui quando não está ninguém. Mas quando aparecem pessoas, tudo começa a mexer. As antigas armadilhas desaparecem, surgem novas. Os lugares seguros tornam-se intransitáveis. E o caminho ora é fácil, ora infinitamente emaranhado. É A Zona! Por vezes, parece até caprichosa. Mas é, em cada momento, como a fizermos com o nosso próprio espírito. Algumas pessoas tiveram de regressar a meio. Outras, morreram mesmo à entrada d'O Quarto. Tudo o que se passa aqui, dependerá apenas de nós, não d'A Zona! (...) Parece-me que deixa entrar quem já não tem esperança. Os infelizes, não os bons ou os maus. Mas até o mais infeliz dos infelizes morrerá, se não souber comportar-se.
Stalker

O que é A Zona? À semelhança da vida, quanto mais sabemos, menos compreendemos. Intensificam-se as perguntas e o seu teor. A Zona é o Grande Mistério, é o Nada, a metáfora da Vida. Ao atravessar a Vida, o Homem ou sobrevive ou se despedaça:

Quando uma pessoa nasce, é fraca e flexível; quando morre, é forte e dura. Quando uma árvore cresce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, morre. A dureza e a força são atributos da morte. A flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, que endurece nunca vencerá.
Escritor

No final, tudo tem sentido. O seu sentido e a sua causa.
Stalker


IV

Mas dará a Vida a certeza suficiente para garantir tais verdades inalteráveis? Terá tudo sentido, efectivamente? O caos suscita o existencialismo. O existencialismo faz pensar o Nada. E, às tantas, o escritor e o professor seguem o curso natural da descrença. A incessante procura de respostas, que nunca chegam ou saciam, fá-los perder a esperança. Tornam-se, afinal, discípulos do Nada. Existirá A Zona, de facto? Será Ela tudo aquilo que se presume? Existirá, realmente, o Quarto dos desejos? O filme é uma viagem. Para o escritor e para o professor, uma viagem de desistência, de resignação à genialidade e ao Nobel. Para Stalker, uma angustiante viagem de confirmação: os Homens perdem, com a idade, o vigor, a fé e sucumbem a uma existência conformista e sem sentido.

O mundo perfeito é só e apenas uma ideologia. Jamais poderá ser um desejo, um desejo possível, concretizável. Sonha-se com uma coisa, recebe-se outra.

Grosso modo, não existem factos, muito menos aqui. Tudo isto é uma invenção idiota de não-sei-quem. (...) Você, claro, quer saber quem foi o inventor. Mas para quê? De que lhe valerão os conhecimentos? A quem doerá a inconsciência? A mim? Não tenho consciência, só os nervos...
Um canalha maldiz-me, uma ferida... Outro canalha elogia-me, outra ferida. Ofereço a alma e o coração, devoram-me a alma e o coração. Tiro uma vileza da minha alma, devoram a vileza. São todos muito sabichões! Todos com a fome de sensações. Todos se agitam à minha volta: jornalistas, redactores, críticos, mulheres sem conta... Todos exigem: mais, mais! Que raio de escritor sou eu, se odeio escrever? Se, para mim, é um martírio, um suplício, uma vergonha, como se estivesse a espremer furúnculos?
Dantes, pensava que os meus livros faziam alguém melhor. Mas ninguém precisa de mim! Quando esticar o pernil, passados dois dias, começam logo a devorar outro. Esperava refazê-los, mas refeito acabei por ser eu! À imagem e semelhança deles!
Dantes, o futuro era apenas a continuação do presente. Transformações vislumbravam-se muito longe, no horizonte. Agora, porém, o futuro e o presente fundiram-se. Estarão eles prontos para isto? Não querem saber de nada! Apenas devoram!
Escritor

Às tantas, escritor e cientista querem destruir a esperança. Não acreditam nela, por isso querem destruí-la. O escritor quer abdicar da viagem, deixou de querer ajudar pessoas com a sua escrita, e o cientista quer recorrer à bomba (por ele inventada e denominada de almómetro, o aparelho para medir as almas) para destruir O Quarto. O Quarto representa Deus. E questionar a veracidade d'O Quarto, é questionar a veracidade de Deus. Sem Deus, não há criador, nem cosmos. Perante a atitude derradeira dos Homens, que postura acabará por adoptar o tão dedicado guia? Afinal, Stalker guia os deprimidos para A Zona por que acredita na felicidade, na liberdade e na dignidade do local. Valerá a pena entregar-se aos outros, dar-se aos outros, ainda que totalmente só? Stalker não é senão a imagem de Cristo. É na personagem do stalker que reencontro a posição do próprio Tarkovsky, que um dia disse: O meu objectivo é fazer filmes que ajudem as pessoas a viver, mesmo que esses filmes causem, por vezes, infelicidade.

E dizem-se intelectuais, escritores, cientistas! (...) Não acreditam em nada! Têm atrofiado o órgão da crença. Não precisam dele! (...) Têm os olhos vazios! Só pensam em não pagar mais, em vender-se por mais dinheiro! Querem que todo o trabalho de espírito lhes seja pago. Sabem que não nasceram em vão, que são predestinados! Que só vivem uma vez! Claro que não acreditam seja no que for! (...) Ninguém acredita, não só esses dois. Ninguém! Quem hei-de eu seguir? Jesus! O pior é que ninguém precisa deste Quarto. Todos os meus esforços são inúteis! (...) Não levarei mais ninguém.
Stalker

Sendo Cristo, um stalker é um eterno condenado à morte e um eterno impulsionador do mundo. Um verdadeiro artista, como Tarkovsky, é um stalker e a sua arte é a sua religião. E, às vezes, um artista poderá questionar a sua utilidade e a utilidade da sua obra, mas o seu testamento inspirará o futuro, continuamente... contribuindo decisivamente para a real evolução do Homem. Não o caminho de ferro, não a locomotiva, o telefone ou a electricidade... Não a evolução tecnológica que, tão progressivamente, a paisagem transforma e consome. A evolução espiritual, essa sim, é a pedra filosofal da existência.

V

Stalker constitui, por tudo isto, uma equação fundamental na fórmula e no milagre. É um filme essencial. Uma das maiores concretizações artísticas de todos tempos. Perante a câmera de Tarkovsky, todas as coisas - mesmo as mais insignificantes - se tornam belas... A pureza dos sons e das imagens alia-se, mágica e magistralmente, na transcendência das palavras, nas abstractas dunas de símbolos, sombras e interpretações múltiplas... numa experiência metafísica verdadeiramente incomensurável. Stalker é tudo isto. Tudo isto e tanto mais. É um enigma maior, filmado com extrema sensibilidade. As suas fertilidade, densidade e ambiguidade apoderam-se, nos ecos e nos silêncios, dos nossos sentidos e... da nossa memória.

Nota especial para a cena final, tão magnífica, obscura e espectral como a totalidade...


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (9)

Tiago Ramos, autor do blogue Split Screen, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

Sam Mendes
Pedro Almodóvar
Wong Kar-Wai
Stephen Frears
Michael Haneke
Christophe Honoré
Ang Lee
Lars Von Trier
Quentin Tarantino
Alejandro González Iñarritu

Um muito obrigado, Tiago Ramos.

sábado, 10 de julho de 2010

CARAMEL (2007)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Sukkar banat
Realização: Nadine Labaki
Principais Actores: Nadine Labaki, Yasmine Al Masri, Joanna Moukarzel, Gisèle Aouad, Adel Karam, Siham Haddad, Aziza Semaan, Fatme Safa, Dimitri Staneofski, Fadia Stella, Ismaïl Antar

Um melodrama virtuoso sobre o que significa ser mulher na realidade social da Beirute contemporânea e, por outro lado, uma comédia excepcionalmente bem concebida.
Grandes interpretações, fotografia e banda sonora.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

GANHE UM DVD «O BOM, O MAU E O VILÃO»


VENCEDOR:
RICARDO EMANUEL SOUSA FERNANDES

Resposta Correcta: Espanha

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Habilite-se a ganhar um DVD do filme O BOM, O MAU E O VILÃO!


Envie-nos um e-mail para: passatempos.cineroad@hotmail.com com (1) o seu nome completo, (2) o seu e-mail e (3) a resposta correcta à seguinte pergunta:

«Em que país decorreu a maior parte das filmagens de O BOM, O MAU E O VILÃO?»

Boa sorte!
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Condições de Participação:

- Válido até dia 15 de Agosto de 2010, pelas 17 horas.
- Cada concorrente pode participar apenas uma vez, para o e-mail passatempos.cineroad@hotmail.com
- O sorteio far-se-á aleatoriamente e o resultado será anunciado publicamente no blogue, dia 15 de Agosto de 2010, à noite.
- Após o sorteio, o vencedor será contactado via e-mail para a autenticação da sua identidade e para que tenhamos acesso aos dados necessários para o envio do prémio por correio.
- Caso não se faça a autenticação da identidade ou o contacto com o vencedor (por motivos alheios ao CINEROAD e por um prazo máximo de 3 dias úteis a partir da data do anúncio do vencedor), proceder-se-á a um novo sorteio aleatório, com anúncio público no blogue, sendo o primeiro sorteio totalmente anulado.
- Passatempo válido apenas para Portugal.

EMBRIAGADO DE AMOR (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Punch-Drunk Love
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán

Crítica:

AMOR PARA INADAPTADOS

É, provavelmente, um dos mais estranhos e alucinados filmes que já vi. Um pequeno grande filme. Adam Sandler é Barry Egan: um homem simples, modesto, humilde, sincero, justo, tremendamente tímido e fechado sobre si próprio, lunático e inadaptado, mas nunca estúpido, completamente. Veste um fato azul-luminoso. E é solitário, sobretudo solitário. I don't know if there is anything wrong because I don't know how other people are. Sometimes I cry a lot... for no reason. Tal como o Donnie Smith de Magnolia, Barry é uma personagem cheia de amor para dar.

O plano inicial é por demais revelador: Barry está a um canto da sala, só e em silêncio, inteiramente dedicado às promoções dos produtos Healthy Choice, os anúncios para ganhar passagens aéreas. E eis que sai do armazém, como que impelido misteriosamente, e se abeira à estrada: um carro capota e uma carrinha pára à sua frente, deixando-lhe um harmónio e arrancando de seguida. O harmónio é puro simbolismo: trar-lhe-á a verdadeira música, o amor. Acabar-se-ão as refeições só para um ou as chamadas para linhas eróticas. A história deste Embriagado de Amor é, pois, uma história simples, como a das demais comédias românticas. Só que estamos perante um filme do genial P. T. Anderson. E isso faz toda a diferença. Por isso, Embriagado de Amor tem uma história simples, mas contada da mais complexa das formas, repleta de pormenores deliciosos (como os coloridos e constantes reflexos luminosos), os longos takes, os enquadramentos meticulosos, uma mise-en-scène cuidada e fabulosa, uma montagem sincronizada com a banda sonora de Jon Brion que oscila entre o discreto e o massacrante consoante a pressão e o estado de nervos do protagonista, magnificamente desempanhado por Adam Sandler. Quando nervoso demais, Barry explode em ataques de fúria; o que lhe é constrangedor. Virá o dia em que usará essa violência para defender a sua namorada, enfrentando finalmente medos e obstáculos: I have a love in my life. It makes me stronger than anything you can imagine. Barry Egan apaixona-se e a sua vida nunca mais será a mesma. Ele mudará para sempre. Afinal, não nos muda o amor, a todos?

Não há melhor forma de concluir do que a forma com que me iniciei: é, provavelmente, um dos mais estranhos e alucinados filmes que já vi. Um pequeno grande filme. Uma autêntica lição de cinema.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (5)

3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| Flávio Gonçalves, O Sétimo ContinenteBranca de Neve (2000), de João César Monteiro
Gerry (2002), de Gus Van Sant
The New World (2005), de Terrence Malick

| Luis Mendonça, CINEdrioJohn Carpenter's Ghosts of Mars (2001), de John Carpenter
Lady in the Water (2006), de M. Night Shyamalan
The Pleasure of Being Robbed (2008), de Josh Safdie

| Manuela Coelho, La Doce VitaZui Hao de Shi Guang (2005), de Hou Hsiao Hsien
Alexandra (2007), de Aleksandr Sokurov
Cztery noce z Anna (2008), de Jerzy Skolimowski

AS IRMÃS DE MARIA MADALENA (2002)

Um drama sério e consistente, de teor interessantíssimo e revoltante.

PONTUAÇÃO: BOM

terça-feira, 6 de julho de 2010

DARK CITY - CIDADE MISTERIOSA (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dark City
Realização: Alex Proyas
Principais Actores: Rufus Sewell, Kiefer Sutherland, Jennifer Connelly, Richard O`Brien, Ian Richardson, Bruce Spence

Crítica:

O ENIGMA MORTAL

First there was darkness,
then came The Strangers.

Complexa, obscura, profundamente misteriosa e visionária. A sombra do génio recaiu sobre Dark City - Cidade Misteriosa, a concretização máxima de Alex Proyas, potenciando uma intriga absolutamente excitante e plena de suspense e uma experiência esteticamente requintada e avassaladora.

A obra fantasia um mundo falso e manipulado, encerrado numa cidade sem memórias. Os Estranhos, poderosos seres de outra galáxia, enfrentam a extinção e decidem assumir o controlo absoluto do nosso planeta, estudando a existência humana e a sua assombrosa e progressiva evolução. Por isso, à meia-noite em ponto, a cidade pára, os seres humanos caem em sono profundo e os Estranhos, de pálidas faces e fantasmagóricas silhuetas, sintonizam, a partir do submundo urbano, as formas dos prédios e o estado mental dos Homens: experiência após experiência, sem posicionamento crítico ou ético, por pura e imparável curiosidade... qual ciência-deus-ex-machina. À semelhança da sua miserável existência, condenam as cobaias à memória partilhada e por meio do estudo dessas memórias tentam compreender aquilo que faz delas seres únicos.

Inconscientemente, por isso, os seres humanos vivem uma ilusão. Cada vez que acordam podem ser um novo eu. I've been trying to remember things, CLEARLY remember things, from my past, but the more I try to think back, the more it all starts to unravel. None of it seems real. It's like I've just been dreaming this life, and when I finally wake up, I'll be somebody else. Somebody totally different! O controlo é tal que as possibilidades de livre arbítrio e de amar são praticamente nulas, a não ser por meros e fugazes instantes que jamais serão recordados. Todavia, o mistério da vida é imenso, assim como a inteligência dos Homens.

John Murdoch (Rufus Sewell) é um dos raros humanos que, misteriosamente, se revela resistente ao sono, dotado de poderes equiparáveis aos dos aliens e capaz de desafiar as maquiavélicas estratégias dos Estranhos. Desde logo, por isso, começa a ser perseguido. Um outro antes dele, apercebera-se da monstruosa conspiração e da prisão a que estava irremediavelmente condenado e refugiara-se, desde então, sob a máscara da esquizofrenia. John, por sua vez, está destemido a inverter a situação. As incoerências daquela realidade simulada rapidamente lhe suscitam as mais pertinentes questões:

Daylight. When was the last time you remember seeing it? And I'm not talking about some distant, half-forgotten childhood memory, I mean like yesterday. Last week. Can you come up with a single memory? You can't, can you? You know something, I don't think the sun even... exists... in this place. 'Cause I've been up for hours, and hours, and hours, and the night never ends here.

O Dr. Daniel Schreber (Kiefer Sutherland) é humano e trabalha para os desconhecidos. A sua missão é ajudá-los a compreender o grande mistério da vida, por meio dos mais hediondos actos. Porém, jamais deixará de considerar esse comportamento reprovável. Por isso, empreenderá um missão pessoal, secreta e mortal: trair esses malditos cadáveres vigilantes, procurando o tal humano e encorajando-o a lutar pela libertação de toda a espécie humana.

A importância de guardar as memórias reclama, desde logo, um papel fundamental para a definição da identidade individual e do sentido da existência. Imagine a life Alien to yours. In which you memories were not your own, but those shared by every other of you kind. Imagine the torment of such an existence....no experiences to call your own.
Contudo e por fim, o método científico revela-se limitado: I call them the Strangers - diz o Dr. Shreber. - They abducted us and brought us here. This city, everyone in it... is their experiment. They mix and match our memories as they see fit, trying to divine what makes us unique. One day, a man might be an inspector. The next, someone entirely different. When they want to study a murderer, for instance, they simply imprint one of their citizens with a new personality. Arrange a family for him, friends, an entire history... even a lost wallet. Then they observe the results. Will a man, given the history of a killer, continue in that vein? Or are we, in fact, more than the sum of our memories?

You know how I was supposed to feel - profere John. - That person isn't me... never was. You wanted to know what it was about us that made us human. Well, you're not going to find it... - aponta para a cabeça - ...in here. You were looking in the wrong place.

Das reminiscências de Fritz Lang ao imaginário futurista de Blade Runner - Perigo Iminente, Dark City refunde as mais variadas influências. O design de toda a produção (George Liddle, Patrick Tatopoulos, Richard Hobbs e Michelle McGahey) é verdadeiramente extraordinário, contribuindo de forma determinante, a par do excelente trabalho de iluminação e fotografia (Dariusz Wolski, brilhante no deep focus), para a atmosfera enigmática que se adensa sobre o filme, do início ao fim. Também a montagem de Dov Hoenig, rápida e acutilante, se mostra decisiva para o ritmo empolgante e para as cadências hipnotizantes da obra. Os efeitos especiais são notáveis e destaque-se igualmente a banda sonora. A nível do elenco, há que salientar William Hurt, Kiefer Sutherland, Richard O`Brien e Bruce Spence. Alex Proyas dirige toda esta orquestra artística com uma sobriedade invejável. Inspiradíssimo.

Apreciação final? Um filme absolutamente memorável, fascinante e magnetizante.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Per un pugno di dollari / A Fistful of Dollars
Realização: Sergio Leone
Principais Actores: Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Antonio Prieto, José Calvo, Margarita Lozano, Daniel Martín, Benito Stefanelli, Bruno Carotenuto, Joseph Egger, Mario Brega, Aldo Sambrell

Comentário: Foi com alguma desilusão que assisti ao primeiro filme da Trilogia dos Dólares. Não sei se foi a péssima qualidade da cópia ou o facto de não me conseguir abstrair, de todo, da dobragem em italiano sobre as falas do Clint Eastwood. Deixo o benefício da dúvida para uma segunda visualização. De resto e para já, fora um ou outro movimento de câmera virtuoso, os famosos compassos de espera, a autenticidade da direcção artística e a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone, o filme fica algures entre o disparo e o disparatado. O final é um grande final, mas o que ficou para trás deixou-me na dúvida.

sábado, 3 de julho de 2010

10 Breves Perguntas (18)

Penúltimo questionário.
Kamila Azevedo, autora do blogue Cinéfila por Natureza, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário da iniciativa 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000: Cidade de Deus
2. A Banda-Sonora da Minha Vida: The Hours
3. Um Amor de Infância:
Death Wish
4. Um Filme de Animação:
Beauty and the Beast
5. Uma Comédia: Austin Powers - The Spy Who Shagged Me
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
Titanic
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Meet Joe Black
8. Um elenco: The Hours
9. A Melhor Fotografia que conheço: The Thin Red Line

10. Já mudei de ideias sobre este filme: Michael Clayton

Um muito obrigado, Kamila Azevedo.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

quinta-feira, 1 de julho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (4)

3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| Filipe Ferraz Coutinho, Cinema is my LifeThe Weather Man (2005), de Gore Verbinski
Black Book (2006), de Paul Verhoven
Nine (2009), de Rob Marshall

| Gustavo H. Razera, Cine CápsulasUnbreakable (2000), de M. Night Shyamalan
Femme Fatale (2002), de Brian De Palma
Knowing (2009), de Alex Proyas

| Armindo Paulo Ferreira, Ecos ImprevistosDaredevil - Director's Cut (2003), de Mark Steven Johnson
Night Watch: Nochnoi Dozor (2004), de Timur Bekmambetov
Speed Racer (2008), dos irmãos Wachowski

CINEROAD ©2017 de Roberto Simões