quinta-feira, 3 de abril de 2014

DIA DA INDEPENDÊNCIA (1996)

 PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Independence Day
Realização: Roland Emmerich
Principais Atores: Will Smith, Jeff Goldblum, Bill Pullman, Randy Quaid, Judd Hirsch, Vivica A. Fox, Margaret Colin, James Duval, Mary McDonnell, Robert Loggia, Adam Baldwin, Harvey Fierstein

Crítica:

O ATAQUE ALIENÍGENA

 That's what I call a close encounter.

O cinema também anuciou, em meados dos anos 90 do século XX e de forma tão marcante, a globalização ao mundo. Dia da Independência, mega blockbuster de Hollywood, é disso um caso inequívoco: a ação é global. A invasão extraterrestre revela-se uma ameaça massiva, destrutiva, capaz de exterminar da face da Terra toda a Humanidade, alheia a culturas ou a civilizações.

É, Dia da Independência, um triunfo? É. $817,400,891, worldwide. Triunfa o espetáculo imagético, inesquecível - a imponente, negra e flutuante nave sobre as cidades ou sobre a Casa Branca sobressai de entre as memórias do filme. Há, por isso, shots memoráveis. As criações da direção artística são assombrosas e a fotografia deslumbra a espaços - os efeitos especiais, qual som, potenciam a beleza e a alucinante experiência. A ação é explosiva, plena de adrenalina. Ecoa Spielberg, Lucas. Ecoa John Williams na enérgica banda sonora de David Arnold. O entretenimento está, pois, assegurado. Emmerich pega nas naves dos filmes de série B e eleva-as ao mais espetacular e mainstream dos filmes.

Peca pela duração excessiva ou pela leveza com que aborda a tragédia, faltando-lhe, às tantas, uma maior maturação dos episódios. Sucedem-se os lugares comuns. Não há personagens modeladas (a melhor, ainda assim, é a do presidente Whitmore, de Bill Pullman). Will Smith e Jeff Goldblum partilham um protagonismo superficial, alternando o bom humor com o elenco secundário (Randy Quaid, Judd Hirsch).

Quando nos apercebemos, contudo, que os americanos é que sabem e que os americanos é que descobrem os melhores meios e técnicas para destruir os invasores, apercebemo-nos de que o filme vende por demais a bandeira e a liderança americana a todo o planeta. Cai por terra aquele ideal de globalização que o filme parece abraçar inicialmente, sobrepondo-se o ego americano, irresistível a tanto do seu cinema comercial. Mas enfim, esta é uma questão secundária, de abordagem. O filme não é sobre a globalização, é sobre o ataque alienígena. Nesses termos, o filme faz-nos voar no imaginário, no nosso e no da visão de Emmerich, o que é meritório. Agradou exponencialmente a milhares e milhares de espetadores, marcou um tempo. Por isso, missão cumprida; apesar dos - para mim, detetáveis - desequilíbrios.

sábado, 8 de março de 2014

O ARTISTA (2011)

 PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: The Artist
Realização: Michel Hazanavicius
Principais Atores: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Malcolm McDowell, Basil Hoffman, Bill Fagerbakke, Nina Siemaszko

Crítica:

O CREPÚSCULO DO CINEMA MUDO

 If only he could talk.

O Artista é uma viagem no tempo: um caso de puro revivalismo, de homenagem, não tanto de nostalgia, como alguns críticos avançam. É certo que a saudade do cinema de outrora terá estado, seguramente, na sua origem, mas é muito bem humorado, dramático quando assim tem de ser, romântico porque é essa a sua natureza. É um filme mudo (a prodigiosa e espirituosa banda sonora de Ludovic Bource dá voz aos silêncios, com toda a graça e eloquência), a preto e branco, como se tivesse sido feito nos anos 20 do século XX, à parte uma ou outra sequência que (inteligentemente) brinca com as potencialidades do som - como naquele pesadelo mordaz em que o som e as gargalhadas assaltam e assombram o protagonista. O Artista resulta, por isso e como não podia deixar de ser, numa experiência curiosa e rara.

Inicia-se com o filme dentro do filme, num jogo de espelhos, em auto-observação. Assume-se: é, sobre todas as coisas, um filme artístico, sobre a própria arte cinematográfica. É, também, sobre as estrelas cadentes e o seu irremediável pathos, sobre os atores maiores do cinema mudo, plenos de uma expressividade física e teatral exagerada, que são ultrapassados ou caem no esquecimento pela novidade, chamariz e sucesso do cinema sonoro. É, pois, justo, porventura imediato, estabelecer um paralelismo entre George Valentin (carismaticamente interpretado por Jean Dujardin) e a extravagante Norman Desmond (memorável Gloria Swanson), do magistral de Billy Wilder O Crepúsculo dos Deuses. Apesar de terem personalidades completamente distintas, os protagonistas de ambos os filmes têm em comum o malfadado percurso no seio da velha Hollywood. Também o genial Serenata à Chuva foi claramente uma influência.

Ironia do destino, pois, que George se apaixone pelo brilho e encanto da jovem Peppy Miller (Bérénice Bejo), que se tornará - por mérito próprio -  nada mais nada menos do que a mais recente heroína do cinema americano - sonoro, claro está. Enquanto ele, inadaptado à modernidade, fica no desemprego, entregue ao álcool e à desesperante solidão após gastar a sua fortuna no comovente embora fracassado Tears of Love (do qual foi produtor, realizador e estrela, e no qual é literalmente sugado pelas areias movediças; o que adquire uma dimensão simbólica, metafórica), ela alimenta as bilheteiras como ninguém, bilheteiras que se estendem a perder de vista pelas ruas, enriquecendo a máquina capitalista dos Kinograph Studios, para contentamento do patrono Al Zimmer (John Goodman). Valha-lhe - a George - o cão (Uggie), fiel companheiro para todas as horas, também artista, mas sem qualquer ego ou vedetismo. Ou mesmo o serviente motorista Clifton (James Cromwell), que acaba por despedir por não ter mais rendimentos. E por fim valha-lhe mesmo a suposta rival Peppy Miller, pela qual o seu coração sangra, que tanto o admira sem ele saber... As fases da tragédia grega sucedem-se: catástrofe, anagnórise, catarse. Bem que desconfiamos do final feliz, com música e dança como num bom e antigo musical que se preze. No fim, a comédia vence a tragédia.

Michel Hazanavicius é virtuoso. Estudou bem os clássicos, nota-se, e O Artista reflete toda essa herança: a cada cena no movimento de câmera, na precisão com que insere os quadros de legendas, na montagem e na iluminação (a fotografia de Guillaume Schiffman é um autêntico portento), na esmerado guarda-roupa (Mark Bridges) ou na majestosa cenografia (Laurence Bennett e Robert Gould) que asseguram a verosímil reconstituição histórica. O filme é, todo ele, tecnicamente irrepreensível e o elenco é fabuloso - a dupla principal tem, efetivamente, a aura de outros tempos (o que não é senão o resultado do seu extraordinário trabalho de composição). A obra acaba por triunfar e conquistar o espetador, sobretudo pelo seu despretensiosismo e pela simplicidade da sua história.

Uma última ironia do destino? Passados tantos anos, O Artista arrebata prémios por todo o globo. O mudo encontra um novo auge em tempos do sonoro e do 3D. Que o apaixonado filme de Hazanavicius inspire à descoberta dos primórdios do cinema.

sexta-feira, 7 de março de 2014

RELATÓRIO KINSEY (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Kinsey
Realização: Bill Condon
 
Principais Atores: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O`Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Dylan Baker 

Crítica:
 
A NATUREZA 
DA SEXUALIDADE HUMANA 

The gap between what we assume people do
 and what they actually do... is enormous. 

A publicação dos estudos de Alfred Kinsey sobre a sexualidade de homens e mulheres foram, para a sociedade norte-americana dos finais dos anos 40 e inícios dos anos 50 do século XX, como uma bomba atómica. Eu diria, uma bomba atómica para o mundo. Atentando contra a sociedade conservadora, de costumes profundamente religiosos e puritanos, eis a verdade sobre a prática sexual humana, sem eufemismos: sexo oral, anal, posições sexuais, masturbação, preliminares, homossexualidade, bissexualidade, heterosexualidade, frequência de orgasmos, de relações sexuais, etc. Falar abertamente de sexo e de prazer, rompendo pudores, desmistificando tabus e esclarecendo toda uma população na ignorância até perceber que everybody's sin is nobody's sin, and everybody's crime is no crime at all

As barreiras quebradas por Kinsey permitiram a sociedade que hoje conhecemos, com maior abertura para o sexo e para a sexualidade. É preciso ter bem presente que até então a masturbação era entendida como um pecado maior, capaz de levar à loucura, à cegueira ou à epilepsia, ou mesmo até à morte; tal era o medo e a culpa impostos pela cultura da época. A solução recomendada para o alívio, como alternativa à masturbação, era - no caso dos homens - mergulhar os testículos em água fria, ler o Sermão da Montanha ou - imagine-se - pensar na própria mãe. Se Relatório Kinsey, o biopic dramático de Bill Condon sobre Kinsey, ainda chocar, provocar ou de alguma forma causar desconforto no espetador, é sinal que ainda muita coisa está para mudar no que toca à abertura e naturalidade das pessoas para falar da sexualidade - aspeto determinante na formação da personalidade de qualquer indivíduo.

O apaixonante - para ele, Kinsey (memorável desempenho de Liam Neeson, num dos grandes papéis da sua carreira) - estudo da vespa-dos-galhos, da qual colecionou milhares e milhares de espécimes, levou-o a concluir que não há dois seres iguais, que a diversidade é irredutível, mas que, apesar de todos diferentes, há variações entre os indivíduos. Criado por um pai protestante e por demais castrador (John Lithgow, o qual entrevistará mais tarde, apercebendo-se dos seus traumas de infância), a sua investigação da sexualidade será uma luta metafórica contra o próprio pai, o qual sempre amou mas do qual nunca sentiu reconhecimento e uma continuação dessa sede de conhecimento, de respostas, iniciada com a vespa-dos-galhos. Afinal, tinha que ter provas científicas para argumentar com os pacientes que acreditam que a gravidez pode ter origem no sexo oral. Naturalmente, zoologia e biologia não são a mesma coisa, lidam com forças de opinião distintas na sociedade e desconstruir o mito da sexualidade trouxe-lhe muitos dissabores. Sex is a risky game, because if you're not careful, it will cut you wide open. Mas compensou.

Começou por destronar a ineficácia das aulas de higiene na Indiana University com o seu próprio curso. Let's start with the six stages of the coital sequence. Stimulation... lubrication, erection... increased sensitivity... orgasm and nervous release. Both sexes experience all six stages equally. Através de questionários pessoais, anónimos e confidenciais, iniciou as suas estatísticas e a descoberta foi por demais reveladora. Kinsey apercebeu-se de que a maioria da população é bissexual, embora essa maioria esconda os seus comportamentos desviantes (desviantes, considerando a cultura dominante que a heterossexualidade é a normalidade) por vergonha. As pessoas traem a sua própria natureza para serem aceites, para integrarem os grupos sociais. Assim sendo, compreendemos melhor os costumes da antiguidade clássica, por exemplo, ou mesmo os contrastantes e atuais. Kinsey refere-se ao assunto: Homosexuality happens to be... out of fashion in society now. That doesn't mean it won't change someday. A prática e a orientação sexual surge-nos não só predeterminada pelas necessidades biológicas mas inequivocamente influenciada pelos contextos sociais, ao fim e ao cabo também como uma questão de moda. Kinsey estabeleceu uma escala de 1 a 6 para classificar os indivíduos, sendo 1 exclusivamente homossexual e 6 exclusivamente heterossexual. Assistiu a encontros sexuais, filmou muitos deles, experimentou outros tantos. O amor pela mulher Clara McMillen (estupendo desempenho de Laura Linney) viu-se às tantas abalado pelas experiências extraconjugais, até que Clara também experimenta o amante do marido, Clyde Martin (Peter Sarsgaard). Acabam por redefenir o amor de ambos e entender-se perfeitamente até à velhice, salientando a necessidade e a importância de certas convenções para que as pessoas não se magoem mutuamente. 

Clyde Martin: Just one more question. You've just told me your entire history: childhood, family, career, every person you've ever had sex with. But there hasn't been a single mention of love. 
Alfred Kinsey: That's because it's impossible to measure love. And, as you know, without measurements there can be no science. But I have been thinking a lot about the problem lately (...)
When it comes to love, we're all in the dark.

A dado momento, Kinsey diz: Love is the answer, isn't it? But, sex raises a lot of very interesting questions... Há depoimentos insólitos, perturbantes, outros especialmente tocantes, outros até repugnantes como casos de incesto, de violações ou de pedofilia, obviamente condenáveis. O testemunho final, excecionalmente interpretado por Lynn Redgrave, a respeito da sua homossexualidade, é derradeiramente comovente e acaba por simbolizar o reconhecimento e o agradecimento de todos quantos viram as suas vidas melhorar graças ao trabalho e à coragem de Kinsey:

We'd been married for years, with three marvelous children. And as soon as my youngest left to go to college... I took a job in an arts foundation. I met a woman there - secretary in the grants office. We became fast friends, and... before long, I fell in love with her. Hmm. This came as quite a shock, as you might imagine. The more I tried to ignore it... the more... powerful it became. You have no idea... what it's like to have your own thoughts... turn against you like that. I couldn't talk to anyone about my situation... so I found other ways to cope. Uh, I took up drinking. Eventually, my husband left me. Even my children fell away. I came very close to... ending it all (...) Things have gotten much better (...) After I read your book, I realized... how many other women were in the same situation. I mustered the courage to talk to my friend... and she told me, to my great surprise... that the feelings were mutual. We've been together for three happy years now. You saved my life, sir.

Relatório Kinsey não é, com toda a certeza, o melhor dos filmes (como a maioria dos biopics, aliás), assim como Bill Condon não é o melhor dos realizadores. No entanto, não sejamos injustos: apesar de aqui e ali inequivocamente formatado, tem grandes interpretações, valores seguros de produção (montagem, direção artística, fotografia ou banda sonora) e um interessantíssimo argumento, muito bem humurado, que acaba por enfatizar a sua natureza ensaística e didática. O argumento deste filme é essencial para o filme mas também para o conhecimento público, sobretudo para todos quantos desconhecem a figura histórica e o seu legado para as gerações futuras. Para todos esses, o filme terá passado despercebido, mas é de visualização obrigatória. Para todos os outros, poderá sempre conduzir a alguma descoberta, quando muito não seja sobre eles próprios.

PROCUREM ABRIGO (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★ 
Título Original: Take Shelter
Realização: Jeff Nichols
Principais Atores: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet

Crítica:

O PRESSÁGIO DO APOCALIPSE

 There's a storm coming like nothing you've ever seen,
 and not a one of you is prepared for it.

Procurem Abrigo evoca o melhor suspense de Hitchcock a Shyamalan: até os pássaros trazem o pior augúrio e a dualidade entre o real e o imaginário ou entre o natural e o sobrenatural renova, a cada instante e até ao final, a dúvida no espetador. O medo impera - o drama cede, não raras vezes, ao thriller psicológico e ao terror. Há como que uma sensação de ameaça omnipresente e iminente, lançada pelo negrume daquelas nuvens carregadas; as mesmas que instalam, logo desde a abertura, o mistério e o pânico interior no assustado Curtis de Michael Shannon - naquela que é, seguramente e até agora, a sua mais notável e intensa performance.

Assolado por terríveis sonhos que lhe angustiam a existência depois de acordar, Curtis vê-se involuntaria e obsessivamente obrigado a mudar as suas atitudes, o seu dia-a-dia. Sonha que uma tempestade apocalítica se aproxima e começa a ampliar o abrigo subterrâneo do quintal, qual Arca de Noé, para a proteção da família quando a intempérie chegar. Retira o cão de casa e constrói um cercado na rua, não vá o animal morder-lhe como no pesadelo. Precipitam-se visões e o ouvir de trovoada quando ela, na realidade, não existe. A mãe está há anos internada num lar psiquiátrico e Curtis teme que a genética comece a falar mais alto. Esse passado, aliás, assombra-o mormente. Estranhamente, esconde toda a situação da mulher e da filha surda-muda, que tanto ama e que tanto o amam incondicionalmente, numa paisagem rural tão desoladora que parece acentuar as suas perturbadoras circunstâncias. As premonições não param e Curtis afasta-se de tudo e todos, pondo em causa as suas relações pessoais e o emprego, cujo seguro pagará a operação da filha.

A ação torna-se inquietante, de suster a respiração. Quase que penetramos a conturbada dimensão interior do protagonista e sufocamos nela. Sem artifícios maiores, a humanidade das personagens vem ao de cima, graças à inteligente construção do argumento (Jeff Nichols escreve e realiza) e à verdade das emoções, extraída da direção de atores fora-de-série. Destacam-se, naturalmente, Shannon e a Jessica Chastain - a graciosa Srª O'Brien de A Árvore da Vida, obra-prima de Terrence Malick, que em 2011 ascendeu ao estrelato de Hollywood como uma das suas mais promissoras atrizes. A cena em que Curtis revela à mulher o que lhe está realmente a acontecer é seguramente a melhor do filme (o drama familiar atinge aí o seu auge); pelo menos até então, porque o falso final no abrigo e o efetivo final na praia são tremendos: na encenação, na banda sonora (por David Wingo, uma das principais responsáveis pelo desconforto da experiência), inclusivé na fotografia (Adam Stone)... O escape à claustrofobia imposta pelo abrigo é tão libertador para as personagens como para nós, espetadores.

Procurem Abrigo consegue, pois, surpreender, transcender-nos em emoções e superar-se enquanto objeto fílmico, ascendendo claramente a um patamar superior. Desta obra em diante, Jeff Nichols não é senão um nome a ter em conta. Procurem Abrigo arrebatou-me. Foi uma conquista inesperada e arrepiante, daquelas que justificam e alimentam a nossa paixão pelo cinema. Que excecional pedaço de cinema. Absolutamente imperdível.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Saving Private Ryan
Realização: Steven Spielberg
Principais Atores: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Matt Damon, Paul Giamatti, Adam Goldberg, Barry Pepper, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno, Leland Orser


Crítica: 

O HORROR DA GUERRA

 This time the mission is the man.

Sangrento, visceral, impiedoso, cru. O Resgate do Soldado Ryan é o mais violento e impressionante filme de guerra a que já assisti. Aquela já mítica cena do desembarque dos Aliados na praia de Omaha, na Normandia, tem como não ser uma das melhores cenas jamais filmadas? Golpe de génio de Spielberg, no cúmulo da sua seriedade: a ação é ultra-rápida, feroz e avassaladora, qual confronto real (a trémula câmera ao ombro assegura o hiper-realismo, o sangue e a terra salpicam a tela ou o ecrã), o tiroteio é incessante e ensurdecedor (detalhista e brilhante sonoplastia de Gary Rydstrom, Gary Summers, Andy Nelson, Ron Judkins) sobre a desesperada paisagem, transfigurada pelo inferno (a imagética é poderosíssima, deveras impressionante, mérito da magistral direção de fotografia de Janusz Kaminski; as lentes são engenhosamente manipuladas, o frame é granulado e desfocado se necessário, os tons esverdeados e cinzentos são dessaturados). As balas perfuram capacetes, as metralhadoras dilaceram corpos, o mar enche-se de sangue. A carnificina choca-nos o olhar, nauseia-nos o estômago, estremece-nos por inteiro (mérito inegável da equipa de caracterização: Lois Burwell, Conor O'Sullivan, Daniel C. Striepeke). Spielberg, imperdoável, não nos poupa a nada. Um soldado procura o resto do seu braço pelo areal. Outros tantos instigam a invasão e o contra-ataque em diante, plenos de adrenalina. Multiplicam-se as explosões, a brutalidade e a morte. Mais tarde, até o simples cair da chuva sobre as folhas das árvores e outras plantas nos soará a troada. 


 If God's on our side, who the hell could be on theirs?

Apesar de bélico por excelência e de tremendo na sua ação, furiosamente espetacular, O Resgate do Soldado Ryan desfere a sua filosofia a cada investida; não creio na violência pela violência. Há breves intervalos para o diálogo, para as conversas de circunstância, raramente algo de muito profundo - afinal, o homem ao nosso lado, com quem estreitamos a mínima afeição, é fuzilado no instante seguinte. Não há tempo nem espaço para a amizade, somente para o companheirismo, que se demonstra mormente no fulgor da refrega, no suor do imprevisível campo de batalha. Não há heróis; o heroísmo faz-se pela tenacidade do coletivo. O elenco de notáveis secundários, aliás, resplandece sobre essa pluralidade; passo a nomear: Tom Sizemore, Jeremy Davies, Edward Burns, Giovanni Ribisi, Vin Diesel, Paul Giamatti, Adam Goldberg. São todos homens iguais e comuns, organizados pelas hierarquias militares às quais juraram obediência ou serventia, mas todos com o mesmo propósito: lutar pela pátria. O Soldado Ryan é, pois, um filme de posições patrióticas, inequivocamente assumidas naquela bandeira hasteada ao vento e que nos aparece de forma circular, a abrir e a fechar a obra. A estrutura circular impõe-se também por força do prólogo e do epílogo, nos quais um velho homem (Harrison Young) se passeia entre os túmulos de militares idos; a música de John Williams confere solenidade e sentimento às cenas. Desconhecemos quem é aquele velho homem, claramente emocionado; certamente que abismado por memórias traumáticas. Faz-se acompanhar pela família, parece estar ali para homenagear alguém, depreendemos que provavelmente os companheiros que lutaram a seu lado, no passado. Quando os recorda e o flashback - em que consiste a maior parte do filme - nos faz viajar até ao fatídico 6 de Junho de 1944, instala-se a incógnita: será ele o Ryan do título, pelo qual se fará o resgate, ou o capitão John Miller (soberbo Tom Hanks), que a película a partir daí acompanha? A confusão é propositada e aliás potenciada por Spielberg, pela sugestão dos close-ups à cara de ambos. Só no fim a sublime montagem de Michael Kahn (determinante para o sucesso das sequências de ação e justamente de todas as outras) desvenda o mistério e dissipa as dúvidas que nos acompanharam durante toda a missão. 

Cenas memoráveis, para além da do desembarque? Mais que muitas. O resgate impulsivo de uma chorosa menina aos pais consumidos pela perda e pelo medo, a libertação de um alemão que mais tarde disparará sobre Miller, o humor escapista dos soldados, acalorados pela melodramática e sonante voz de Edith Piaf ao gramofone ou o intenso assalto dos tanques alemães à ponte armadilhada, no final, até à chegada dos P-51's - angels on our shoulders; outra das tão prodigiosas sequências de combate, maravilhosamente filmadas por Spielberg. É à medida que caminhamos para este final estrondoso, tão trágico como qualquer instante da guerra, que nos apercebemos da extraordinária recriação histórica, somente possível dada a excelsa dedicação da direção artística (Thomas E. Sanders, Lisa Dean) - veja-se o cenário de absoluta destruição, os edifícios em ruínas ou os montes de escombros.

A dado momento da conversa com Miller, o cabo Timothy E. Upham (inesquecível Jeremy Davies, como pacifista cobarde e alter-ego do espetador) cita Emerson, tentando convencer-se: War educates the senses, calls into action the will, perfects the physical constitution, brings men into such swift and close collision in critical moments that man measures man. Partilhando a temida, arriscada e perigosa experiência com aquele batalhão desde o desembarque, quase sobrevivendo dos disparos da mais variada artilharia tanto como eles, tal é a nossa imersão no universo do filme, sabemos que as palavras de Emerson são completamente desajustadas e que não fazem sentido algum. A guerra é um acontecimento desmesuradamente hediondo e vergonhoso e nada edificante; pelo contrário. Daí que o pensamento do bravo sargento Horbath (Tom Sizemore), por oposição, faça todo o sentido: Someday we might look back on this and decide that saving Private Ryan was the one decent thing we were able to pull out of this whole godawful, shitty mess. E que a dívida de gratidão do soldado Ryan (Matt Damon, acabado de atingir o sucesso em O Bom Rebelde) seja eterna.

Do que é que podem acusar esta inolvidável obra-prima? De sentimentalismo exacerbado no prólogo, interlúdio e epílogo? A sério? Não reconhecer a magnificência e o cânone posterior de O Resgate do Soldado Ryan (afinal, redefiniu a estética do género, às portas do novo milénio) deve ser frustrante. É, senão o melhor, seguramente um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Directed by... Steven Spielberg, versátil e eclético; sinais de maturidade e de sabedoria. Mais um exemplo de que, às vezes, uma realização sublime pode suplantar, a existir, qualquer fraqueza de um guião (Robert Rodart) e re-potenciar toda uma história.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A VIDA É BELA (1997)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: La Vita è Bella
Realização: Roberto Benigni
Principais Atores: Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Giustino Durano, Giorgio Cantarini, Marisa Paredes, Horst Buchholz, Lidia Alfonsi, Giuliana Lojodice, Amerigo Fontani, Pietro De Silva, Francesco Guzzo, Raffaella Lebboroni

Crítica:

UMA TRAGICOMÉDIA EM DOIS ACTOS

 Buongiorno, Principessa!

Vislumbramos a perfeição, às vezes, na genuína representação de humanidade... e isso não é fácil, na arte. Em A Vida é Bela encontramo-la - com aparente simplicidade - tanto na comédia como na tragédia e é isso que é comovente. Este encantatório filme de Roberto Benigni - que em 1997 polarizou as atenções do mundo, uma vez mais, para o cinema italiano - pode não ser um exercício do maior dos formalismos - tão-pouco almeja a irreverência do cinema independente - mas encontra na sua graciosidade, espontaneidade e despretensiosismo - diria mesmo, na sua pureza e desarmante infantilidade - a sua absoluta singularidade e a capacidade inequívoca de despertar no espetador as mais sentidas e verdadeiras emoções. Não é fácil, também e da mesma forma, por isso, encontrar alguém, com o mínimo de humanidade, que não goste de A Vida é Bela.

Guido Orefice (imortal e, em tantos aspetos, autobiográfico papel de Roberto Benigni) é um infantil, divertido e excêntrico homem comum; qual clown, exagerado nos trejeitos e na eloquência, larger than life itself. Apesar da sua existência enfática, é humilde, é um bom homem. E é judeu, como nos viremos a aperceber mais adiante, o que, na Itália fascista do final dos anos 30 do século XX, à beira da guerra, não lhe augurará um promissor destino, pelo contrário. Benigni começa pela comédia e pela sátira: de Chaplin a Fellini, a herança é clara. A espirituosa e aclamada composição musical de Nicola Piovani acompanha a ação desde o primeiro instante e potencia os cómicos de situação e de personagem. Guido atrai as situações mais caricatas, mas também manipula as circunstâncias por forma a alcançar o humor picaresco (por meio da hiper-lucidez, nomeadamente, tão característica dos humoristas). E é neste contexto que se inicia a história de amor. Numa viagem ao campo, Dora (Nicoletta Braschi, mulher de Benigni na vida real) salta de um pombal e cai-lhe nos braços, sobre a palha. Buongiorno, Principessa! Guido fantasia, cheio de graça, e, na sua inocência, encanta. Mais tarde, já na cidade e inesperadamente, cai da bicicleta em fuga para os braços de Dora... sinal do destino. Buongiorno, Principessa! Depois, os acasos acabam. Daí em diante, embora continue a fabricá-los aos olhos de Dora, o romântico encontrar-se-á com a professora, uma e outra vez, porque potencia esses encontros... e a magia acontece. Guido sequestra-a da ópera num automóvel que não tardará a ficar descapotável e pleno de chuva. Uma demorada passadeira vermelha desenrola-se escadaria abaixo para a sua bela princesa passar. Montado baile adentro num cavalo verde, salva-a do seu não-pretendido noivo e leva-a até casa do tio, onde poderão viver felizes para sempre. Ou poderiam, não fosse a elipse e a assombrada mudança de resgisto que se seguem. 

Cinco anos depois, saem para a rua, a câmera não se move. A fábula chegou ao fim (ou não) e a história tornou-se mais imprevisível do que nunca. Séria e profundamente trágica, apesar do humor, ou sobretudo pela sua resistência. Têm um filho, Josué (adorável Giorgio Cantarini, em todas as suas expressões faciais), que bate o pé para não tomar banho (ironicamente, tal atitude salvá-lo-á mais tarde das câmaras de gás). Os três passeiam pela cidade de bicicleta, são felizes. Têm a livraria com que Guido sempre sonhou. É dia de aniversário da criança, mas... por serem judeus, Guido, o tio e o filho são inesperadamente levados para o campo de concentração, pelos alemães. Dora convence os alemães a meterem-na no mesmo comboio, para o mesmo destino. O resto do filme, é a sobrevivência no campo de concentração. Para evitar que Josué descubra a cruel realidade para que foi levado, Guido fantasia que estão num jogo: quem atingir primeiro mil pontos ganha e recebe um tanque de guerra verdadeiro. Encobrir a verdade, embelezando-a, torna-se uma mentira necessária, determinante para salvar aquela inocente criança e livrá-la, tão cedo quanto possível, do inevitável e monstruoso trauma do holocausto nazi. Espera-os a fome, o trabalho forçado, o cheiro da morte. Alimentar a esperança a este nível é absolutamente desarmante, perante tão terríveis circunstâncias. Mas que pai, que coragem... 

A Vida é Bela é um filme de atores e que ascende a um patamar superior por força do seu arrojado argumento, contudo não há qualquer desmérito por parte da fotografia (Tonino Delli Colli), da montagem (Simona Paggi) ou da cenografia (Danilo Donati, Luigi Urbani); esta última, aliás, notável. Uma última nota para a personagem Dr. Lessing (Horst Buchholz), o médico que Guido servia no restaurante do tio ainda antes da guerra, com o qual ganhamos simpatia pelo seu amor às adivinhas e aparente bondade e que muitos afirmam ajudar Guido e o filho quando estes estão no campo de concentração. Se ajudar Guido e o filho é levá-los a jantar com o inimigo, não creio que tenha sido grande ajuda. No fim acaba por não ajudá-los em nada, ignora-os e dá prioridade às adivinhas: mostra-se egoísta, insensível e tão desprezível como todos os outros militares do hediondo lugar. Que podia ele fazer? Talvez nada, ou ainda se arriscava a ser fuzilado como traidor dos nazis, mas termina - quem sabe se por cobardia - por trair Guido. Quer é saber a resposta à adivinha. Torna-se, na minha opinião, a personagem mais detestável de todas, à altura do Mal quase invisível que dita a morte aos injustiçados.

A Vida é Bela chega-nos, pois, como um acontecimento assustadoramente revoltante e arrepiante, capaz de nos desfazer a nós, espetadores, em lágrimas. É um filme derradeiramente apaixonante e inesquecível, tal é a sua poderosa e arrebatadora lição de otimismo e, por meio dela, o seu inspirador hino à vida; o título não é em vão, não é apenas ironia. Há como acabarmos de assistir a um filme deste calibre e, indiferentes, não repensarmos, reavaliarmos ou relativizarmos toda a nossa existência? Há, naturalmente, mais realismo n'A Lista de Schindler ou n'O Pianista. São visões e conceitos artísticos distintos e complementam-se no entendimento deste período negro na História da Humanidade.

Um irresistível triunfo cinematográfico.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

OS INTOCÁVEIS (1987)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: The Untouchables
Realização: Brian De Palma
Principais Atores: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson

Crítica:

They pull a knife, you pull a gun.

O INIMIGO PÚBLICO

 He sends one of yours to the hospital, 
you send one of his to the morgue. That's the Chicago way!

Os Intocáveis afigura-se, pelo mérito da reconstituição histórica, como uma verosímil e fascinante viagem no tempo à corrupta Chicago dos anos 30 do século XX, quando - em plena Lei Seca - era despudoradamente manipulada e corrompida pelos mafiosos interesses de Al Capone; esse sim, aparentemente, o verdadeiro intocável, que fez fortuna por intermédio do tráfico ilegal de bebidas alcóolicas. 

Brian De Palma concretiza um glorioso e revigorante filme de gangsters e de luta contra o crime. A sua arte de filmar é notável e as cenas memoráveis multiplicam-se, assim como as personagens apaixonantes. O novato agente federal Eliot Ness (Kevin Costner), depois de humilhado pela imprensa após uma investida mal sucedida, reune pessoal de confiança para tentar caçar, de uma vez por todas, o mayor da cidade: um contabilista esperto e cómico q.b. (Charles Martin Smith), um velho e pragmático chui que há uma vida se conforma com as rondas de rua, Malone (memorável Sean Connery) e um polícia reservado, que dispara bem rápido embora descendente de italianos (Andy Garcia). Ficarão conhecidos como os intocáveis, por jamais cederam a chantagens e a subornos e por lutarem contra o sistema persistentemente. A ousada demanda terá, para muitos deles e como seria de esperar, um preço demasiado elevado, mas levará Capone a tribunal, finalmente. Capone é Robert De Niro, em mais uma daquelas suas extraordinárias performances. O argumento (por David Mamet, extremamente bem construído e doseado) permite-o brilhar, não bastasse o seu talento. Tem cenas e diálogos inesquecíveis: a abertura, enquanto é barbeado, o violento e compulsivo exercício do taco de beisebol, ou os excessos da palavra sempre que se exalta. Na verdade, De Niro tem grandes momentos sempre que aparece.

I want you to get this fuck where he breathes! I want you to find this nancy-boy Eliot Ness, I want him DEAD! I want his family DEAD! I want his house burned to the GROUND! I wanna go there in the middle of the night and I wanna PISS ON HIS ASHES!
Capone

Os cenários são essenciais para a recriação da atmosfera de outros tempos, engenhosamente enquadrados e fotografados (Stephen H. Burum). Muitos deles real locations, como a frente e o hall do hotel que hospedou o infame criminoso, os exteriores na cidade ou a escadaria da estação de comboios na qual assistimos - numa assumida homenagem à cena da escadaria de Odessa d'O Couraçado Potemkin, de Eisenstein - a uma das melhores cenas de todos os tempos: pela montagem (Gerald B. Greenberg, Bill Pankow), pelo slow motion, pela tragédia passível de se abismar, a qualquer instante, sobre aquele inocente bebé do carrinho (símbolo da pureza, no qual Ness revê o próprio filho) ou pela banda sonora, que colabora desde início com excecional encenação. A sonoridade de uma caixa de música, de corda, potencia a tensão necessária para o tiroteio incrível que se segue e que fecha a cena. As determinantes e sonantes composições musicais têm a assinatura de Ennio Morricone (que também musicou esse colossal filme de gangsters que é Era Uma Vez Na América, de Leone). Um dos temas deste magistral Os Intocáveis acaba por principiar aquele que será, no ano seguinte, o tema imortal de Cinema Paradiso. Perceberemos a semelhança, se estivermos minimamente com atenção. Outra das mais empolgantes cenas tem que ver com aquela câmera deambulante pelos corredores do apartamento de Malone, antes do seu sangrento assassinato. Simplesmente, brilhante. Grande momento de cinema. Ou a emboscada na ponte, no momento em que saímos do meio urbano e respiramos no campo, como num western, com direito a cavalgada e tudo. Nota final para o guarda-roupa (a cargo de Marilyn Vance, sendo que muitos dos modelos e figurinos foram desenhados por Giorgio Armani).

Os Intocáveis é ação pulsante, do início ao fim, que funciona como encantamento. Um portentoso clássico. Um triunfo de filme.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CAMINHO PARA PERDIÇÃO (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Road to Perdition
Realização: Sam Mendes
Principais Atores: Tom Hanks, Paul Newman, Tyler Hoechlin, Jude Law, Jennifer Jason Leigh, Stanley Tucci, Daniel Craig, Dylan Baker, Ciarán Hinds, Liam Aiken, Rob Maxey 

Crítica: 

A VINGANÇA DE UM GANGSTER

Natural law. 
Sons are put on this earth to trouble their fathers. 

Caminho Para Perdição - até à data, a primeira incursão de Sam Mendes (Beleza Americana) pelo filme de gangsters - é de um virtuosismo clássico absolutamente notável e arrebatador. Pairam sobre ele - o realizador chegou a assumir as influências, facilmente identificáveis - as sombras d'O Padrinho, de Francis Ford Coppola, de Bonnie e Clyde, de Arthur Penn, ou do mais ambicioso Era Uma Vez Na América, de Sergio Leone. O certo é que Caminho Para Perdição, a partir das novelas gráficas de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner, jamais fica na sombra dessa tradição. Pelo contrário, ao mesmo tempo que homenageia o passado e as suas referências, alcança um lugar próprio, inquestionavelmente maduro, digno e meritório.

É, primeiramente (e primeiramente porque nos vem imediatamente a memória), de uma beleza visual assombrosa e hipnótica, quase monumental; triunfo inequívoco desse lendário diretor de fotografia que foi Conrad L. Hall, que aqui assinou o seu último filme - filme que, aliás, lhe é justa e oportunamente dedicado. Há cenas e momentos de um esplendor e magnetismo puros e de uma técnica exímia. A atmosfera é fria como a neve, tensa como a chuva persistente, negra como num filme noir. A luz, ora branca ora em tons esverdeados, descobre e esconde o mistério, cativa-nos a atenção e imerge-nos nas voltas e reviravoltas da história.

Note-se, por exemplo, a cena em que Michael Sullivan Jr. descobre a sangrenta e tão-pouco heróica profissão do homónimo pai Michael Sullivan (Tom Hanks, tão íntegro e sério na sua personagem, até na colocação da voz): a câmera, qual curioso, está atrás da porta, em frente da porta as duas pernas do pai (de metrelhadora em punho, depreendemos pelo som e mais tarde pelas cápsulas que caem no chão) e ao fundo o interrogatório ao inoportuno Finn McGovern, que cairá em slow motion, depois de perfurado por incontáveis balas. A montagem de Jill Bilcock (Moulin Rouge!) serve os propósitos da narrativa, impondo uma precisão excecional e um ritmo assaz eficiente. 

Tendo descoberto o segredo, Michael significa agora um risco para toda a organização Rooney, essa máfia disfarçada de charme na América dos anos 30 do século XX. É por isso que o descendente e herdeiro Connor Rooney (Daniel Craig) se apressa a matá-lo, mas falha o seu impulso. Fica-se somente e frustrantemente pelo irmão mais novo e pela mãe. Quando descobrem que a tragédia se abateu sobre a sua família e sobre os seus destinos, os Michael Sullivan fogem. Não tardarão a ser ferozmente perseguidos. O velho John Rooney (intenso e memorável Paul Newman, num dos seus últimos papéis, a quem Conrad L. Hall já havia filmado no ligeiro e divertido Dois Homens e Um Destino, de 1969) representa para o Michael de Hanks um verdadeiro pai; não obstante, o plano do Sullivan está traçado. Só pela vingança e pelo crime poderá assegurar não só a sua honra como - e tão mais importante - a sobrevivência do filho. Curioso que a epígrafe com que me iniciei, proferida pelo Rooney de Paul Newman a dado momento no filme, acabe, ironicamente, por se ajustar tanto aos Sullivan como aos Rooney. É a chamada ironia trágica.

When people ask me if Michael Sullivan was a good man, or if there was just no good in him at all, I always give the same answer. I just tell them... he was my father.
Michael Sullivan Jr.  

As grandes cenas sucedem-se, como numa antologia. Há o take introdutório ao sádico e repugnante fotógrafo dos mortos Harlen Maguire (Jude Law, num brilhante desempenho, de assustadores dentes e nojentas unhas compridas), contratado pelos Rooney para perseguir Sullivan e o filho. Sob o efeito vertigo, o contraste entre a combinação do movimento da câmera para a frente e o zoom out resulta num plano tremendo.


Mais tarde, cai a chuva sobre a iluminação soturna de uma rua noturna e vazia, até que para ela saem seis homens de negro - deles só se vêem as silhuetas e os contornos dos chapéus, sobretudos e de alguns chapéus de chuva. Espera-os um automóvel do outro lado da rua. As chuva silencia-se e dá lugar à música de Thomas Newman, ao suspense dramático. O motorista está morto. Pausa. Vêem-se tiros, mas não os ouvimos. Escutamos apenas a contida música. Ao fundo, um clarão. A câmera roda e os homens caem lentamente, um atrás do outro, exceto um: resta o até então intocável ancião, patriarca da máfia. Nas suas costas, o justiceiro pela vingança avança na escuridão. Torna o som da chuva, Rooney vira-se e confirma: é Sullivan. I'm glad it's you. Não há como voltar atrás: o seu caminho está corrompido e perdido. Só há esperança, agora, para o filho; cabe-lhe a ele garantir a segurança essencial para que esse futuro seja possível. E, por isso, a vingança cumpre-se. Pelo assassinato do pai simbólico, a ação ganha uma dimensão profundamente trágica, quase edipiana. 


Não obstante, para mim, o plano mais arrojado, trágico e magistral é aquele derradeiro, perto do desfecho: a câmera, do exterior da casa, enquadra a janela. No reflexo do vidro, o espelho da felicidade: o areal e as águas do lago Michigan, Michael e o cão brincam pela praia, livremente. Ouve-se a calmaria das ondas, depois de toda uma viagem marcante e conturbada. Do outro lado do vidro, o pai Sullivan vislumbra a paisagem, qual miragem. Assola-nos um mau pressentimento e, num ímpeto, um tiro, dois tiros: o peito de Sullivan, já cambaleante, mancha-se de sangue. O vidro é salpicado pela a cor da morte. Hanks cai, fatalmente ferido, abismado. Descobre-se um espectro ao longe, no interior do quarto: o fotógrafo prepara o seu último retrato. Tudo num jogo de transparências, tudo num único plano. Que poderoso pedaço de cinema.

Veredito? Puro requinte, obra sublime. Um filme belíssimo e completamente imperdível. Caminho Para Perdição, dizia, alcança [nessa tradição] um lugar próprio, inquestionavelmente maduro, digno e meritório; e remato: entre os melhores filmes de gangsters até hoje filmados.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

GUERRA DOS MUNDOS (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: War of the Worlds
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, Justin Chatwin, Miranda Otto, Rick Gonzalez, David Alan Basche, Yul Vazquez, Ann Robinson, Gene Barry, Channing Tatum, Morgan Freeman 

Crítica: 

A INVASÃO ALIENÍGENA

This is not a war any more than there's a war 
between men and maggots... This is an extermination.

Admitamos que é arriscado conceber e estrear - mesmo para Steven Spielberg e em plena temporada de verão, na qual se sucedem os demais formatados blockbusters de Hollywood - um remake apocalítico sobre um ataque alienígena global, sem cair nos lugares comuns de um Michael Bay ou de um Roland Emmerich: refiro-me ao fogo-de-artifício pegado, regado a humor de algibeira, com desprimor para a narrativa e para as personagens, no qual se assistem comummente aos bastidores das investidas militares, plenos de ecrãs e de visões de satélite, ou a copiosos discursos de presidentes e líderes mundiais, ou nos quais damos a volta ao mundo, numa montagem de segundos, e nos apercebermos dos efeitos da catástrofe pelas variadíssimas culturas humanas. Esse cinema de consumo, de massas, tem o seu público, os seus lucros e raras as vezes alguns méritos artísticos dignos de nota, com exceção do som e dos efeitos digitais que são, por regra, tremendos. Guerra dos Mundos não cai nesses lugares comuns, não é um desses filmes, embora seja também sofisticadíssimo no que ao som e aos efeitos especiais diz respeito. Alguns preconceituosos, certamente, já haviam julgado a obra, mesmo antes de a terem vislumbrado. Outros tantos, ter-se-ão frustrado com as expectativas erradas que os acompanharam à sala de cinema e viram o que não queriam ver, ou seja, viram o que Guerra dos Mundos, efetivamente, é. Outros, sem expetativas, detestaram, outros com ou sem expetativas adoraram. Esta receção é comum a qualquer filme, mas esta introdução não é em vão: se há obra que dividiu opiniões foi este assombro de filme. Guerra dos Mundos é, ainda hoje e incompreensivelmente, uma das mais mal-amadas obras de Spielberg. 

Porquê? Creio porque Guerra dos Mundos se diferencia no seu foco, na sua perspetiva. Spielberg aposta em abordar o cosmos pelo microcosmos, todo a complexidade do evento pelos olhos de uma só família (um pai e dois filhos). Qual é o resultado? A parte pelo todo. Um filme intimista, sobre as relações familiares em conflito e sobre o conflito potenciado pelo extremismo das circunstâncias, sobre os efeitos do terror, do medo e do pânico nas relações humanas, abismadas pela destruição das suas referências, pela insegurança, pelo desconhecido, por essa necessidade de esperança e de fuga perante um destino aparentemente condenado. Ao acompanhar a família Ferrier, Spielberg espelha toda a humanidade. A ausência de explicações sobre os acontecimentos, intensificam o mistério, o suspense, o medo. O espetador, tal como aquela família, está desprovido da verdade. O consequente desalento é tão desconfortável que muitos espetadores criticam o filme exatamente por essa ausência de explicação. Criticam a lógica, as possibilidades científicas... quando não é isso que está em causa. Aliás, nem poderão chegar a conclusão nenhuma, minimamente representativa da verdade absoluta, já que o filme não se descortina em fundamentos. Temos a solene voz de Morgan Freeman, no prólogo e no epílogo, a apontar para uma interpretação codificada: as moléculas, quimicamente alteradas pelo tempo, como antivirús capazes de destruir as forças extraterrestres. E é só. Spielberg e os argumentistas (David Koepp e Josh Friedman, a partir dos escritos originais de H. G. Wells) servem-se desse fator a favor da narrativa, da ação. As barreiras invisíveis, contra as quais lutam as personagens, despoletam o desespero, a claustrofobia e todas as outras fobias a uma escala inimaginável.

From the moment the invaders arrived, breathed our air, ate and drank, they were doomed. They were undone, destroyed, after all of man's weapons and devices had failed, by the tiniest creatures that God in his wisdom put upon this earth. By the toll of a billion deaths, man had earned his immunity, his right to survive among this planet's infinite organisms. And that right is ours against all challenges. For neither do men live nor die in vain.  
Narrador

Guerra dos Mundos abre como o mais comum dos filmes, sem especiais cuidados cénicos ou de fotografia. Tom Cruise é Ray Ferrier - um homem como qualquer outro - trabalha nas docas, entre gruas e contentores. Quando chega a casa, apercebemo-nos das suas particularidades: é um pai imaturo, com dificuldades de relacionamento com o filho adolescente, Robbie (Justin Chatwin). Tem ainda uma filha de dez anos, Rachel (prodigiosa e arrepiante Dakota Fanning), com maior sentido de responsabilidade do que ele - What are you? Your mother or mine? -, mas que não passa, afinal de contas, de uma criança. É divorciado de Mary Ann, mãe dos filhos (Miranda Otto), que vem deixá-los para passarem o fim-de-semana consigo, no meio de uma casa desarrumada e sem um pacote de leite no frigorífico que seja. What are we supposed to eat?, pergunta-lhe a filha. You know, order!, responde-lhe o pai. Exusado será dizer que passar um fim-de-semana com o pai não é propriamente, para eles, um fim-de-semana de sonho. You're an asshole. I hate coming here, diz-lhe Robbie.

Algures pelo zapping da tv - tal é o tédio em casa do pai - antevemos que alguma coisa está a acontecer pelo mundo; os noticiários dão-nos conta de qualquer acontecimento trágico. Mas é quando o céu fica negro e uma chuva de incontáveis e estrondosos relâmpagos rebenta sobre eles que o filme começa. Os carros e quase todos os aparelhos elétricos deixam de funcionar, metade da multidão, apavorada, fica em casa, a outra metade sai à rua curiosa. Ray deixa os filhos em casa e vai averiguar o que se passou. Dezenas de raios cairam todos no mesmo lugar, perfuraram o solo e agora o chão abre-se e racha edifícios. Inicia-se a destruição. Do interior da terra ergue-se uma máquina gigante, como que despertada de um longo sono. Maybe it came down in the lightning storm. Tripods, chamam-lhe mais tarde. They come down in capsules, riding the lighting into the ground into the machines. Os tripods lançam raios que reduzem os humanos a pó, parecem ter um plano: aniquilar toda a humanidade. A ação é frenética, os efeitos digitais (Dennis Muren, Pablo Helman, Randy Dutra, Daniel Sudick) não parecem efeitos digitais. Tudo parece real. Ray escapa ao ataque, regressa a casa e arranja maneira de colocar os filhos numa viatura que funcione para fugir dali o quanto antes. Nova Jersey não tardará a ficar em escombros. Os Tripods revirarão a enorme ponte da cidade, os carros cairão como formigas. O espetáculo impôr-se-á tão vibrante quanto assustador. Is it the terrorists?, pergunta Rachel. É o trauma do 11 de Setembro a influenciar, claramente, esta renovada visão.

A partir daqui, Guerra dos Mundos - até então drama, ficção científica, filme de ação e suspense - torna-se também um imprevisível e inquietante road movie. Os gritos de Dakota Fanning espelharão o quão traumática está a ser a experiência para milhões de pessoas, por todo o globo. Ray ver-se-á obrigado a crescer e a assumir finalmente as suas responsabilidades como pai; veja-se o seu desespero e desorientação naquela fatia de pão atirada à janela, barrada a manteiga de amendoim. De episódio em episódio, Ray, Robbie e Rachel farão por estar unidos, por se protegerem, por sobreviverem, tentando pôr as suas diferenças de parte; diferenças que, ao fim e ao cabo, já não importam. São agora os laços de sangue que os unem, mais do que alguma vez imaginariam. Cenas memoráveis? Mais do que muitas: enquanto se escondem e refugiam na vivenda de Mary Ann, despenham-se aviões que tudo estremecem sobre a casa. Quando tornam ao experior, o cenário de devastação é impressionante e inacreditável. Mais tarde, quando param no meio do campo, parece que mais ninguém habita a região. Where is everybody?, questiona Rachel. I don't know, admite o pai. Running, hiding, hiding in their basements. De seguida, Rachel depara-se com dezenas de mortos a flutuar no rio, visão por demais chocante para uma criança. Há um comboio em chamas, que tudo silencia, instala-se o pânico e a confusão para ficar com um carro ou entrar num ferry. Chovem roupas na escuridão da noite (foram-se os corpos). Robbie separa-se da família e sobe a colina de encontro ao fogo, na inconsciência do seu ímpeto juvenil, julgando-se capaz de batalhar ao lado do exército. Mas não vemos mais Robbie até ao fim. Guerra dos Mundos não faz cedências e não há espaço para heroísmos. A Ray e Rachel resta-lhes somente tentar fugir, tentar sobreviver, tentar.

A cena que se segue, na cave e na companhia do perturbado e alucinado Harlan Ogilvy (inspiradíssimo Tim Robbins, a fazer lembrar o seu Dave Boyle de Mystic River) evoca, plena de tensão, a encenação de Jurassic Park, no assalto à cozinha. É um momento notável e nucluar na ação da última parte. Tom Cruise apercebe-se, então, que tem que cometer o mais impraticável e hediondo dos actos em nome da sua sanidade mental e para proteção da filha e dele próprio: matar. Apercebe-se que nem canções de embalar conhece para tranquilizar a filha. Acaba por cantar-lhe Little Deuce Coupe, dos Beach Boys, em lágrimas. Se sobreviverem, apercebe-se também, não mais será o mesmo pai: tão pouco presente e envolvido na vida dos filhos. Para além do mais, é nesta cave que nos confrontamos pela primeira vez, cara-a-cara, com os alienígenas. Lembramos Encontros Imediatos do 3º Grau, lembramos E.T. - O Extraterrestre, mas não sabemos o que esperar destes, agora inimigos e tão malévolos. E não ficamos desiludidos com o seu aspeto físico: o digital resulta magnificamente em todo o filme, impregnado de realismo a cada frame. Quando Ray e Rachel sobem à superfície, são apanhados pelo Tripod. A paisagem mudou. Raízes vermelho-sangue estendem-se pelos campos, por todo lado. O cenário, mais do que nunca, transpira a ficção científica. A iluminação e as cores do portentoso trabalho de fotografia de Janusz Kaminski transcendem-se, sempre com aquele grão na imagem que vem desde O Resgate do Soldado Ryan. A banda sonora de John Williams joga magistralmente com o medo, a agonia e as demais emoções do espetador, num misto de dissonância e estranheza. Perturba-nos e inquieta-nos. É absolutamente determinante para o exotismo da experiência.

Guerra dos Mundos não é Steven Spielberg longe do seu melhor, pelo contrário. É um filme intenso e sublime, que escreve na pedra: fazer um remake é um acto de imaginação e de pura recriação. Guerra dos Mundos convoca todos os nossos sentidos e é memorável para com todos eles.

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A INVENÇÃO DE HUGO (2011)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Hugo
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Grace Moretz, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer, Christopher Lee, Ray Winstone, Jude Law, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Richard Griffiths, Frances de la Tour, Angus Barnett, Kevin Eldon, Ben Addis, Emil Lager, Robert Gill

Crítica:

A MAGIA DO CINEMA

 If you've ever wondered where your dreams come from...
 you look around... this is where they're made.

A Invenção de Hugo tem a luz do entardecer, a mesma da fase crepuscular em que se encontra - o aqui mais genial do que nunca - Martin Scorsese. Custa-nos a crer que, num futuro não muito distante, não haverá mais o próximo do cineasta, a estrear nas salas. É por isso inequivocamente simbólico que, antes do seu derradeiro adeus, erga tamanha homenagem aos primórdios e aos pioneiros da sétima arte, que tanto o inspiraram - tributo maior ao inventivo poder criativo de Georges Méliès -, num fabuloso e sublime conto capaz de inspirar também e tão convictamente as presentes e futuras gerações, que darão continuidade ao seu legado. Hugo é, pois, a metáfora do seu contributo para perpetuar esta arte que é de todos. Um profundo trabalho de engenho e arte, de pura paixão, quase enciclopédico. Uma fascinante lição de cinema. Um filme extremamente prazeroso de se assistir, sobre o prazer de ver e degustar filmes, sobre o culto da cinefilia e a celebração do próprio cinema, como num jogo de espelhos; o melhor a fazê-lo, desde o saudoso Cinema Paraíso, de Tornatore. Não é infantil ou para crianças; sê-lo-á somente, porventura, na melhor das aceções: afinal, gostar de cinema é mantermos viva a criança que há em nós, não perdendo a capacidade de imaginar, de sonhar, de nos outrarmos e de, assim, partirmos à aventura. E é sobre a mágica e maravilhosa aventura do cinema, este Hugo

A nostálgica Paris dos anos 30, de Scorsese, tem o mesmo encanto romântico que teve em Moulin Rouge ou em Amélie, qual postal ilustrado, embora noutra época, noutro tempo. A cidade das luzes e da Torre Eiffel é excecionalmente recriada, digitalmente. A sua estação de comboios tem a monumentalidade de uma catedral, qual Notre Dame, a sua torre do relógio a de uma torre de sinos. Afinal, também as badaladas marcaram o tempo, outrora. Entre o azul e o dourado, perfeitamente iluminada, a fotografia de Robert Richardson transcende-nos em beleza e esplendor; a cada enquadramento, a cada frame. A sofisticação dos efeitos digitais (com o veterano Robert Legato no comando pleno do CGI) confunde-se facilmente com a magnificência dos cenários (mais uma vez, Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo). A profundidade de campo e a imersão do espetador na atmosfera e no mundo do filme são, graças à fenomenal - e pelas mãos de Scorsese absolutamente surpreendente - utilização do 3D, deveras impressionantes. Quase sentimos a neve, a poeira, os fumos e os cheiros. Os sons e os seus demais efeitos são igualmente tremendos.

Logo na abertura, a câmera segue e persegue o pequeno Hugo pelos labirintos da estação, abundante em mecanismos, em planos-sequência tremendamente eficazes, reveladores, não obstante truncados. Soa o acordeão parisiense, a vida tem um ritmo imparável já naqueles dias. Chegam e saem comboios, pessoas, a todo a hora, a todo o instante. O filme centra-se num escasso, porém rico, leque de personagens-residentes que ganham corpo e alma graças às portentosas interpretações do elenco. Temos o caricato inspetor Gustave Dasté (Sacha Baron Cohen), de sorriso raro e forçado e sem aparente coração, que coxeia a armação metálica da sua perna e a sua autoridade por toda a estação, sempre acompanhado pelo seu acutilante dobermann. Sempre que o aparelho encrava, o eco mais constrangedor. A música de Howard Shore reforça especialmente o seu carácter cómico. Só quando cai de amores pela simpática florista lá do sítio acaba por revelar alguma da sua humanidade escondida. Quem lhe escapa a maior parte das vezes é o nosso protagonista, com o qual desenvolvemos uma empatia imediata: Hugo (adorável e promissor Asa Butterfield, de incríveis e espantosos olhos azúis). É como um órfão (os contornos dickensianos da narrativa, aliás, são por demais evidentes): os flashbacks dão-nos conta dos tempos felizes partilhados com o pai falecido (Jude Law), relojoeiro, antes da adoção pelo bêbedo e ausente tio Claude (mais tarde encontrado morto no rio), que o trouxe para a estação e lhe ensinou tudo sobre os relógios tão mecanicamente complexos do local. 

You'll be my apprentice (...) I'll teach you how to take care of them clocks. You've finished with school! There'll be no time for that when you're in them walls (...) Time is everything. Everything. 
Tio Claude

Há um mistério por desvendar: Hugo herdou do pai um enigmático autómato por consertar, com forma humana, que acredita guardar uma mensagem do seu progenitor. Se conseguir o arranjo (nesta altura ainda ser consertavam coisas, hoje deitamos tudo fora) e as peças que lhe faltam, nomeadamente uma chave em forma de coração algures em parte incógnita, talvez consiga descodificá-lo. I thought if I could fix it... then I wouldn't be so alone. É aí que entra outra das personagens centrais da história: Georges (comovente Ben Kingsley), o velho dono da loja de brinquedos da estação, também ilusionista, a quem o miúdo ousa roubar peças e ferramentas para seu proveito. Todavia, é logo apanhado em flagrante. O velho confisca-lhe o bloco de notas, com esboços e instruções sobre o autómato e, ao vislumbrá-lo, abisma-se, claramente emocionado. Ghosts, afirma. Did you draw these pictures? Did you draw these pictures? Where did you steal this? Adensa-se o suspense. Hugo segue o comerciante até casa, visando recuperar o que é seu, mas sem sucesso. Contudo, conhece-lhe a jovem afilhada, de nome Isabelle (Chloë Grace Moretz), um pouco mais alta do que ele, que se tornará sua amiga e inseparável parceira de investigação.

Maybe that's why a broken machine always makes me a little sad, because it isn't able to do what it was meant to do... Maybe it's the same with people. If you lose your purpose... it's like you're broken.
Hugo Cabret

This might be an adventure, and I've never had one before - outside of books, at least. Curioso que Isabelle leia tantos livros e nunca tenha assistido a um filme (o Papá George nunca a deixou ousar, sequer) e que Hugo não os costume ler mas guarde as melhores recordações dessas visões passadas, incutidas pelo pai, anos atrás. Uma das primeiras aventuras dos dois amigos é entrar clandestinamente num cinema e assistir à empolgante escalada de Harold Loyd, prédio acima, no icónico O Homem Mosca, de 1923; o que se traduz numa deliciosa homenagem e piscadela de olho ao filme que inspirará, no último ato, a subida de Hugo à torre do relógio e a sua suspensão - de suster a respiração - no ponteiro do grande relógio. Estava destinado que Hugo encontrasse a chave do autómato, pendurada num fio ao pescoço de Isabelle, e que a máquina esboçasse, qual Sonny no filme de Proyas, um novo enigma: desta feita, um satélite a aterrar na lua, com a assinatura de George Méliès. Golpe de sorte e do destino, novamente: não é Méliès senão o padrinho de Isabelle, dono da loja de brinquedos. Uma gaveta cheia de desenhos e segredos esvoaçantes espera-os, ainda. Méliès foi, afinal, autor de mais de quinhentos filmes! Descobrirão como a chave em forma de coração pode dar vida e alma não só ao autómato, mas a alguém real e a precisar de conserto também há muito tempo.

I'd imagine the whole world was one big machine. Machines never come with any extra parts, you know. They always come with the exact amount they need. So I figured, if the entire world was one big machine, I couldn't be an extra part. I had to be here for some reason. And that means you have to be here for some reason, too.
Hugo Cabret

Há mais filmes dentro do filme, mise-en-abyme, não só o delírio visual e fantástico de Viagem à Lua (1902). Dimensiona-se a mitologia, em múltiplos posters afixados pelos sets ou na integração de breves trechos de alguns incontornáveis: Saída dos Operários da Fábrica Lumière (1895) e A Chegada do Comboio À Estação Ciotat (1896) dos irmãos Lumière, O Grande Assalto ao Comboio (1903) de Edwin S. Porter, Intolerância (1916) de D. W. Grifith ou O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Robert Wiene, entre muitos outros. O cameo de Scorsese faz-se à la A Caixa Mágica (1951), a chegada do comboio à estação faz-se à la A Fera Humana (1938) - o descarrilamento, no sonho dentro do sonho, é a evocação ao trágico acontecimento que a Montparnasse presenciou em 1985 -, a perseguição final pela espiral das escadas faz-se à la A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958). A Invenção de Hugo é um poço de inesgotáveis, inteligentes e honrosas referências.

Happy endings only happen in the movies, diz às tantas Méliès. Felizmente, estamos num filme, livres para ficcionar o melhor dos finais. Decifrar o segredo do autómato pode não lhe ter trazido, a Hugo, o pai de volta, mas trouxe-lhe uma nova família. Historicamente Méliès terá morrido pouco depois dos acontecimentos do filme, mas ainda assim uma família. A busca de Hugo pela verdade desencadeou a redescoberta de Méliès pelo crítico Tabard (Michael Stuhlbarg) - em certa medida alter-ego de Scorsese - e o seu reconhecimento em vida. Motivou a recuperação de mais de oitenta dos filmes do cineasta, um espólio considerável que se julgava perdido para sempre. Possibilitou o reconforto do coração de Méliès, o reencontro consigo próprio, certamente o achado mais valioso. Nem a esmerada dedicação da mulher Jeane (sentimental Helen McCrory), sua musa e atriz em tantos dos seus filmes, lhe conseguiu compensar, ao longo de tantos anos de retiro e anonimato, o desgosto de ter perdido a sua obra; Méliès chegou a destruir os seus cenários, a queimar as suas películas e outras tantas foram derretidas em químicos para a confeção de calçado, em tempos de guerra. 

John Logan (Gladiador, O Aviador ou Sweeney Todd) é o argumentista por detrás da excelente adaptação do livro de Brian Selznick. A narrativa prima pela fluidez, consistência e economia (não há um único momento a mais ou a menos). Acompanhada por uma das melhores bandas sonoras de que há memória, é deslumbrante, inesperada, excitante, enternecedora, ritmada... tudo nas doses certas, com a mesma eficácia e precisão com que um relógio nos dá as horas. Thelma Schoonmaker, sabemo-lo, é das mais brilhantes relojoeiras que o cinema já conheceu - é mestre da montagem como ninguém. Com uma produção destas e profissionais deste elevadíssimo nível - uma extraordinária equipa que colabora com o realizador há anos e anos - não admira que Martin Scorsese nos arrebate com um dos seus melhores filmes.

A Invenção de Hugo é, pois, uma imprescindível obra-prima.

CINEROAD ©2017 de Roberto Simões