quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Saving Private Ryan
Realização: Steven Spielberg
Principais Atores: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Matt Damon, Paul Giamatti, Adam Goldberg, Barry Pepper, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno, Leland Orser


Crítica: 

O HORROR DA GUERRA

 This time the mission is the man.

Sangrento, visceral, impiedoso, cru. O Resgate do Soldado Ryan é o mais violento e impressionante filme de guerra a que já assisti. Aquela já mítica cena do desembarque dos Aliados na praia de Omaha, na Normandia, tem como não ser uma das melhores cenas jamais filmadas? Golpe de génio de Spielberg, no cúmulo da sua seriedade: a ação é ultra-rápida, feroz e avassaladora, qual confronto real (a trémula câmera ao ombro assegura o hiper-realismo, o sangue e a terra salpicam a tela ou o ecrã), o tiroteio é incessante e ensurdecedor (detalhista e brilhante sonoplastia de Gary Rydstrom, Gary Summers, Andy Nelson, Ron Judkins) sobre a desesperada paisagem, transfigurada pelo inferno (a imagética é poderosíssima, deveras impressionante, mérito da magistral direção de fotografia de Janusz Kaminski; as lentes são engenhosamente manipuladas, o frame é granulado e desfocado se necessário, os tons esverdeados e cinzentos são dessaturados). As balas perfuram capacetes, as metralhadoras dilaceram corpos, o mar enche-se de sangue. A carnificina choca-nos o olhar, nauseia-nos o estômago, estremece-nos por inteiro (mérito inegável da equipa de caracterização: Lois Burwell, Conor O'Sullivan, Daniel C. Striepeke). Spielberg, imperdoável, não nos poupa a nada. Um soldado procura o resto do seu braço pelo areal. Outros tantos instigam a invasão e o contra-ataque em diante, plenos de adrenalina. Multiplicam-se as explosões, a brutalidade e a morte. Mais tarde, até o simples cair da chuva sobre as folhas das árvores e outras plantas nos soará a troada. 


 If God's on our side, who the hell could be on theirs?

Apesar de bélico por excelência e de tremendo na sua ação, furiosamente espetacular, O Resgate do Soldado Ryan desfere a sua filosofia a cada investida; não creio na violência pela violência. Há breves intervalos para o diálogo, para as conversas de circunstância, raramente algo de muito profundo - afinal, o homem ao nosso lado, com quem estreitamos a mínima afeição, é fuzilado no instante seguinte. Não há tempo nem espaço para a amizade, somente para o companheirismo, que se demonstra mormente no fulgor da refrega, no suor do imprevisível campo de batalha. Não há heróis; o heroísmo faz-se pela tenacidade do coletivo. O elenco de notáveis secundários, aliás, resplandece sobre essa pluralidade; passo a nomear: Tom Sizemore, Jeremy Davies, Edward Burns, Giovanni Ribisi, Vin Diesel, Paul Giamatti, Adam Goldberg. São todos homens iguais e comuns, organizados pelas hierarquias militares às quais juraram obediência ou serventia, mas todos com o mesmo propósito: lutar pela pátria. O Soldado Ryan é, pois, um filme de posições patrióticas, inequivocamente assumidas naquela bandeira hasteada ao vento e que nos aparece de forma circular, a abrir e a fechar a obra. A estrutura circular impõe-se também por força do prólogo e do epílogo, nos quais um velho homem (Harrison Young) se passeia entre os túmulos de militares idos; a música de John Williams confere solenidade e sentimento às cenas. Desconhecemos quem é aquele velho homem, claramente emocionado; certamente que abismado por memórias traumáticas. Faz-se acompanhar pela família, parece estar ali para homenagear alguém, depreendemos que provavelmente os companheiros que lutaram a seu lado, no passado. Quando os recorda e o flashback - em que consiste a maior parte do filme - nos faz viajar até ao fatídico 6 de Junho de 1944, instala-se a incógnita: será ele o Ryan do título, pelo qual se fará o resgate, ou o capitão John Miller (soberbo Tom Hanks), que a película a partir daí acompanha? A confusão é propositada e aliás potenciada por Spielberg, pela sugestão dos close-ups à cara de ambos. Só no fim a sublime montagem de Michael Kahn (determinante para o sucesso das sequências de ação e justamente de todas as outras) desvenda o mistério e dissipa as dúvidas que nos acompanharam durante toda a missão. 

Cenas memoráveis, para além da do desembarque? Mais que muitas. O resgate impulsivo de uma chorosa menina aos pais consumidos pela perda e pelo medo, a libertação de um alemão que mais tarde disparará sobre Miller, o humor escapista dos soldados, acalorados pela melodramática e sonante voz de Edith Piaf ao gramofone ou o intenso assalto dos tanques alemães à ponte armadilhada, no final, até à chegada dos P-51's - angels on our shoulders; outra das tão prodigiosas sequências de combate, maravilhosamente filmadas por Spielberg. É à medida que caminhamos para este final estrondoso, tão trágico como qualquer instante da guerra, que nos apercebemos da extraordinária recriação histórica, somente possível dada a excelsa dedicação da direção artística (Thomas E. Sanders, Lisa Dean) - veja-se o cenário de absoluta destruição, os edifícios em ruínas ou os montes de escombros.

A dado momento da conversa com Miller, o cabo Timothy E. Upham (inesquecível Jeremy Davies, como pacifista cobarde e alter-ego do espetador) cita Emerson, tentando convencer-se: War educates the senses, calls into action the will, perfects the physical constitution, brings men into such swift and close collision in critical moments that man measures man. Partilhando a temida, arriscada e perigosa experiência com aquele batalhão desde o desembarque, quase sobrevivendo dos disparos da mais variada artilharia tanto como eles, tal é a nossa imersão no universo do filme, sabemos que as palavras de Emerson são completamente desajustadas e que não fazem sentido algum. A guerra é um acontecimento desmesuradamente hediondo e vergonhoso e nada edificante; pelo contrário. Daí que o pensamento do bravo sargento Horbath (Tom Sizemore), por oposição, faça todo o sentido: Someday we might look back on this and decide that saving Private Ryan was the one decent thing we were able to pull out of this whole godawful, shitty mess. E que a dívida de gratidão do soldado Ryan (Matt Damon, acabado de atingir o sucesso em O Bom Rebelde) seja eterna.

Do que é que podem acusar esta inolvidável obra-prima? De sentimentalismo exacerbado no prólogo, interlúdio e epílogo? A sério? Não reconhecer a magnificência e o cânone posterior de O Resgate do Soldado Ryan (afinal, redefiniu a estética do género, às portas do novo milénio) deve ser frustrante. É, senão o melhor, seguramente um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Directed by... Steven Spielberg, versátil e eclético; sinais de maturidade e de sabedoria. Mais um exemplo de que, às vezes, uma realização sublime pode suplantar, a existir, qualquer fraqueza de um guião (Robert Rodart) e re-potenciar toda uma história.

11 comentários:

  1. Conheço muitos poucos filmes que tenham um argumento tão fraco, por isso, e independemente da mestria de Spielberg a filmar, nunca é um excelente filme. Bom seria adequado, excelente é uma nota exacerbada para a qualidade do filme. Mas isto é a minha humilde opinião.

    Abraços

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  2. ÁLVARO MARTINS: Eu conheço filmes magníficos como LAST DAYS - ÚLTIMOS DIAS ou GERRY que devem tão pouco ao argumento e que tanto tu como eu não temos dúvidas em sublinhar a sua sublimidade. Por vezes, uma imagem vale mais do que mil palavras, e um filme como este, com tanto mais do que imagens, fala por si...

    Cumps.
    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  3. Roberto,

    Não queiras comparar, Gerry e Last Days levantam questões filosóficas numa obra com um argumento simples, não fraco.
    Gerry aborda o comportamento humano face a situações complicadas e extremas como o desespero, a sobrevivência, a resignação... Last Days fala do suicídio, de problemas sociais como a droga, a inadaptação ao mundo, à realidade, a solidão....enquantop este Saving Private Ryan não tem um argumento simples e sim fraco, chega a ser patético, morrerem uma "carrada" de soldados para ir buscar um. Os únicos pontos positivos do filme são a maneira de Spielberg filmar e o tema guerra e suas consequências.

    Não compares que até te fica mal.

    Abraços

    PS Spielberg tem obras-primas mas este não é certamente uma delas.

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  4. ÁLVARO MARTINS: Comparo, pois, sem qualquer receio de ficar mal aos teus olhos. E discordo completamente do que tu afirmas tão convicto. O argumento de O RESGATE DO SOLDADO RYAN não é fraco. Aborda, isso sim, um assunto por demais sensível para que muitos compreendam a sua relevância.

    P.S. Fala-me das obras-primas de Spielberg.

    Cumps.
    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  5. Não concordo.
    Um bom filme, mas é mesmo só isso.

    A realização de Spielberg é fenomenal.

    Abraço

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  6. É um grande grande filme. Do melhor que Spielberg fez e dos meus preferidos dele. De um sentido de camaradagem e responsabilidade de enaltecer.

    Em tudo, argumento, montagem, trabalho de câmara e suas alternâncias, banda sonora e interpretações. Nada a dizer.
    Um marco e um dos melhores filmes de guerra jamais feitos.

    abraço

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  7. JACKIE BROWN: Estamos então em desacordo.

    JORGE: Totalmente de acordo ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  8. Volto aqui só para dizer o meu top do realizador. Steven Spielberg pois claro.

    1 - Saving Private Ryan
    2 - Jurassic Park
    3 - Minority Report
    4 - Empire of the Sun
    5 - Schindler's List
    6 - E.T.: The Extra-Terrestrial
    7 - Indiana Jones (toda a saga)
    8 - The Terminal
    9 - Munich
    10 - War of the Worlds
    11 - The Lost World: Jurassic Park

    Aqui está, sendo que falta títulos como Catch Me If You Can, Amistad, Jaws, The Color Purple, entre outros, que nunca vi. E o Artificial Intelligence que preciso de rever. Lista baseada, como qualquer uma pede, a nível estritamente pessoal.
    Já agora, e porque nunca resisto, está previsto mais algum filme do realizador para breve?

    abraço

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  9. JORGE: No meu top vigoram GUERRA DOS MUNDOS, A.I. - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, IMPÉRIO DO SOL, RESGATE DO SOLDADO RYAN e A LISTA DE SCHINDLER. Não sei com que ordem ;D

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  10. De fato, um filme influente e que deixa uma impressão forte em quem assiste. Mas o revi há 2 anos e as fragilidades do guião ofuscaram muito o brilho do espetáculo, em particular o framing device que me parece uma distração e o personagem Upham, que parece ser com o qual muitos se identificam.

    Apesar disso, é um filme de destaque na filmografia já brilhante de Spielberg.

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  11. MULHOLLANDCINELOG: Por acaso é um filme que, para mim, cresce a cada visualização e me faz render à sua qualidade. Não sou tão crítico assim em relação ao argumento. Obrigado pelo comentário!

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD.blogspot.pt

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões