terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: About Schmidt
Realização: Alexander Payne
Principais Actores: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb 

Crítica:

 A ÚLTIMA ESTRADA


Remember that, young man: 
you've got to appreciate what you have, while you still have it.

As Confissões de Schmidt, de Alexander Payner, resulta numa comovente e reflexiva tragicomédia sobre a chamada terceira idade. Sem quase dar por isso, a vida voou e Warren Schmidt conta os segundos para se despedir, definitivamente, do escritório e da empresa aos quais dedicou a vida. Reformado e sem nada para fazer, resta-lhe o dia-a-dia doméstico com a mulher que conhece de trás para a frente, a tal que tem sempre razão e que o convenceu a urinar sentado, que tira a chave da mala muito antes de chegar a casa e da qual já não suporta o cheiro ou a forma como se senta. Até que... a mulher morre, subitamente. E, de um dia para outro, não só está reformado como viúvo, verdadeiramente só. A filha que tanto estima na memória vive longe, está prestes a casar-se com um futuro genro que detesta, um vendedor de colchões de água com uma barba e um penteado tão hippie como as ideias levianas da sua mãe Roberta (desconcertante Kathy Bates). Abismado pela profunda falta da esposa, incapaz de chorar ou de assumir a sua dor, Schmidt acaba por valorizar a sua querida Helen, com quem partilhou um longo casamento, mas... Ao desfiar recordações, dá com cartas de amor antigas, endereçadas à mulher... pelo seu melhor amigo... Reformado, viúvo e... traído. Não é de espantar, pois, que o pobre Schmidt se deixe ir abaixo num desmazelo depressivo, deixando-se arrastar pela casa, de pijama, dias a fio - desponta a barba - sem lavar um prato ou ir ao lixo, enquanto a sua existência não voltar a ter um sentido.

Relatively soon, I will die. Maybe in 20 years, maybe tomorrow, it doesn't matter. Once I am dead and everyone who knew me dies too, it will be as though I never existed. What difference has my life made to anyone. None that I can think of. None at all.

Para quem nunca desabafa sobre si mesmo, a catarse - e a narração - desperta no sofá, em frente ao televisor, enquanto assiste a um anúncio sobre solidariedade e ajuda internacional a crianças desprotegidas em África, por apenas vinte e dois dólares por mês. Conquistado pela retórica publicitária, abraça humana e despretensiosamente a missão, que lhe trará algum significado à vida ou conforto ao coração, por saber que pode ser útil e ajudar uma de muitas pobres crianças em dificuldades. Começa a escrever cartas a um tal Ndugo e para nós, espetadores, é como se no-las lesse. É a sua voz interior, a que finalmente ouvimos e a que ele, creio, finalmente ouve também. Certa madrugada decide-se, agarra nas malas e faz-se à estrada na sua novíssima e luxuosa Winniebago de dez metros (mais um dos caprichos da mulher, que não teve tempo de nela partilhar com o marido as viagens dos seus sonhos). A viagem pela auto-descoberta nesta nova e provavelmente última etapa de vida começa. Há que reconhecer que está na hora de deixar a filha seguir o seu próprio caminho, há que aprender a reinterpretar toda a sua existência e o seu papel no mundo.

 I know we're all pretty small in the big scheme of things, and I suppose the most you can hope for is to make some kind of difference, but what kind of difference have I made? What in the world is better because of me?

Que outro ator senão Jack Nicholson poderia interpretar este sexagenário de forma tão avassaladoramente profunda, sentida e real? A sua carga emocional é tremenda e a sua performance assaz brilhante, cativante e memorável. É por reconhecermos Nicholson mais jovem e de icónicos papéis mais excêntricos e arrogantes - entra imediatamente em jogo a nossa memória como espetadores de cinema - que sentimos ainda mais intensamente a sua dor, tão parca em palavras. Schmidt é um ser, às tantas, totalmente devastado e desencantado pelas circunstâncias que, sabemos, nos esperam a todos - é também por essa identificação, por sabermos o que nos espera também a nós, que o lado satírico e filosófico resulta tão eficazmente. O argumento da dupla Payne e Jim Taylor, a partir do romance de Louis Begley, é, neste aspeto, particularmente incisivo e inteligente. No último acto, a
fluída montagem de Kevin Tent desenboca nalgum sentimentalismo exagerado, ao qual se apressa a dar a mão a banda sonora de Rolfe Kent, mas o tom narrativo inicial torna ainda antes do fim e da carta de Ndugu, escrita por uma freira local.

As Confissões de Schmidt ganhará certamente com o envelhecimento do próprio espetador, à medida que se estreitarem as afinidades com o protagonista. Jack Nicholson tem aqui um dos seus desempenhos mais surpreendentes e intensos.

8 comentários:

  1. Estive com ele na mão há pouco:O Faz parte da minha DVDteca, mas ainda não o vi. Aguardo ansiosamente a crítica:)*

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  2. Está aqui para ver e não passa desta semana. Logo te direi a minha opinião :D Que venha o texto!

    P.S.: "O Quarto do Filho" na FNAC está a três euros e tal, também.

    Abraços!

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  3. ADEK: Aí está a crítica ;) Da minha DVDteca também faz parte, mas na verdade não foi grande aquisição.

    FLÁVIO GONÇALVES: Não será por acaso que tanta gente tem o DVD e ainda não o viu ;D Deve ser o feeling.
    Quanto ao teu P.S., verificarei quando for à FNAC. Se o encontrar, comprá-lo-ei.

    ÁLVARO MARTINS: Aposto que não vais gostar.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. Transpira a indie por todos os lados, mas o problema é a indecisão do realizador. Não sabe o que quer, e a meio da película o argumento não sabe os seus intentos. Mas não deixa de ser uma excelente aposta, com um excelente actor, e um excelente final!

    Abraço

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  5. Vou vê-lo hoje, curiosamente. Sempre me despertou muito interesse, e esperava uma nota maior.

    Depois logo vês se concordo contigo ou não ;)

    Abraço

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  6. Bem, já vi o filme, e acabo por ir ao encontro da tua opinião.

    É pena o argumento, porque a realização é boa e Nicholson está excelente.

    Abraço

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  7. Classificação re-atribuída a 11-02-2014.

    CINEROAD.blogspot.pt

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