sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Brokeback Mountain
Realização: Ang Lee
Principais Actores: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardellini, Roberta Maxwell, Anna Faris, Kate Mara, Peter McRobbie, Scott Michael Campbell


Crítica:
 

A FORÇA DO AMOR

I wish I knew how to quit you...

O Segredo de Brokeback Mountain é uma obra organica e estruturalmente simples e linear, baseada no conto de Annie Proulx, mas que atinge - pela virtuosíssima realização de Ang Lee e pelas extraordinárias performances dos atores - uma dimensão profundamente bela e trágica. Abre ao som das sonantes mas aparentemente descomprometidas cordas de Santaolalla, com a mesma naturalidade com que a neblina se desvanece com o raiar do dia. Inicia-se como uma pintura naturalista ou uma elegia bucólica, entre a abundância das árvores e da verdura e as íngremes escarpas, plenas de rebanhos. O céu é azul luminoso - irretocável Rodrigo Prieto -, as nuvens vagueiam a espaços. O cenário é puro e natural... e, assim como o amor é uma força da natureza, conhecerá o despertar e o poder do genuíno amor. 


Wyoming, verão de 1963. Depois de uma longa viagem desde o Texas, Jack Twist (brilhante Jake Gyllenhaal) chega para uma temporada a guardar rebanhos na Brokeback. Prefere ganhar a vida nos rodeos ou a trabalhar longe do que a sujeitar-se ao suor do rancho, sob a autoridade do pai com o qual - deixa antever - não se relaciona maravilhosamente. Junto à cabine do empregador Joe Aguirre (arrogante Randy Quaid), espera já - em silêncio e muito reservado - um outro cowboy: Ennis Del Mar (um surpreendente, intenso e telúrico Heath Ledger). Jack, mais irreverente e falador, e Ennis, claramente mais introvertido, ambos bastante hábeis e viris, partem a cavalo montanha acima, prontos a disparar contra qualquer coiote que ouse ameaçar as ovelhas do criador. Há pouca conversa, pouca interação, parecem dispostos a que o tempo passe sem desenvolverem especial amizade um pelo outro. Chegará o dia em que a tranquilidade da paisagem contrastará veementemente com a convulsão interior dos protagonistas. Sucede-se o sol, a lua e o dia-a-dia até que, numa noite de frio mais aguerrido, Ennis procura alento na tenda do companheiro. E, mesmo sem se conhecerem especialmente, desperta entre eles uma atração espontânea e mais forte do que qualquer razão. Beijam-se, envolvem-se, abraçam-se... e adormecem. Quando clareia a madrugada e por mais que tentem, não poderão mais ignorar-se: o amor é uma força da natureza - repita-se a tagline do filme, porque, afinal, ela diz tudo. 

Ennis Del Mar: This is a one-shot thing we got goin' on here. 
Jack Twist: It's nobody's business but ours. 
Ennis Del Mar: You know I ain't queer. 
Jack Twist: Me neither.

O romance evolui, mas está inevitavelmente condenado pelo tempo e pelo espaço em que acontece, pelas circunstâncias, pela sociedade e pelos seus valores, modelos e preconceitos. Ainda para mais no contexto rural, do interior, amplamente machista e profundamente conservador. Se Ennis e Jack decidissem continuar a encontrar-se, que futuro teriam? O medo, a humilhação, a vergonha, todos esses sentimentos os assombram. Às tantas, Ennis relembra o que presenciou em criança, quando se descobriu que dois homens locais se envolviam. Entra o flashback. Compreendemos perfeitamente o que eles sentem - deve ser angustiante, quem sabe se asfixiante, gostar-se até às entranhas e ser obrigado a escondê-lo de tudo e todos, até deles próprios, como se o que sentissem fosse anti-natura. 

 You ever get the feelin'... I don't know, er... when you're in town and someone looks at you all suspicious, like he knows? And then you go out on the pavement and everyone looks like they know too? 
Ennis Del Mar

Quando o trabalho acaba e dão conta da separação, os efeitos são devastadores. Note-se como Ennis se retira para um beco sombrio e cai de joelhos, em lágrimas, como se caísse no abismo do vazio, sem o seu Jack. O Segredo de Brokeback Mountain parte para o segundo acto tentando convencê-los - e convencer-nos a nós, espetadores - que a vida continua e que o que se passou na montanha pode ser apagado da memória e do coração. Mas não pode. A ação do tempo, daí em diante, será reveladora quanto baste... porém também implacável e fatal. Não admira, pois, que o filme se afigure como uma experiência tão penosa e desoladora para o espetador. As cordas de Santaolalla há muito que nos deixaram de soar descomprometidas... entretanto envolveram-nos. Agora arrebatam-nos e ecoam-nos na alma. Quando Ennis e Jack se reencontram, apercebemo-nos da inevitabilidade daquele amor proibido, capaz de superar a distância. Sentimos a dor e o desnorte de Alma (comovente Michelle Williams), a entretanto esposa de Ennis, quando descobre aquele fogoso e apaixonado beijo no vão das escadas. Não há meras pescarias de amigos, afinal, naqueles fins-de-semana fora, de volta ao sítio onde tudo começou... É interessantíssimo, a propósito, perceber como evolui o retrato e o significado da montanha na relação de ambos. Primeiramente, Brokeback é o lugar imaculado onde tudo acontece e onde tudo é possível. Depois, surge-nos apenas como paisagem, que assiste, impotente, ao desmoronamento da relação pelas demais pressões, preconceitos e novas responsabilidades, mas sobretudo pela distância que acaba por fazer sentir-se. Por fim, aparece-nos apenas num postal ilustrado, arrumado num armário como a mais inesquecível das memórias, juntamente com a camisa manchada de sangue.

Tell you what, we coulda had a good life together! (...) Had us a place of our own. But you didn't want it, Ennis! So what we got now is Brokeback Mountain! Everything's built on that! That's all we got, boy, fuckin' all. So I hope you know that, even if you don't never know the rest! You count the damn few times we have been together in nearly twenty years and you measure the short fucking leash you keep me on (...) You have no idea how bad it gets! I'm not you... I can't make it on a coupla high-altitude fucks once or twice a year! You are too much for me Ennis, you sonofawhoreson bitch! I wish I knew how to quit you...
Jack Twist
 
Heath Ledger entrega-se a um trabalho de composição e contenção extremamente complexo: o seu cowboy jamais cai no caricato, é um ser humano amplamente real, dimensionado pela sua interioridade, que se revela nos silêncios e, apesar de tudo, na sua fisicalidade. É uma personagem completamente notável, que nos parte o coração não só pelo seu sentimentalismo, mas sobretudo pela sua sinceridade. O instante em que abraça a camisa do amado, numa sentida e condolente visita aos pais de Jack, é, simplesmente, de ir às lágrimas. 

O Segredo de Brokeback Mountain é como um diamante em bruto - na fluente e graciosa evolução dramática, na subtileza e na sensibilidade de cada cena, no sentimento que emana de cada olhar e de cada gesto (afinal, os estados mais primitivos da palavra e da linguagem). Está tanto no implícito. Ang Lee expõe-nos, assim, o seu filme mais intimista, que se perpetua na sonoridade única da banda sonora.

Um clássico instantâneo e absoluto.

12 comentários:

  1. É assim o que tenho a dizer a este filme é que tenho uma relação amor ódio.
    Por um nado a parte visual do filme esta exuberante, com com paisagens do local que parecem vindas de um sonho, tal como toda a parte visual do filme.
    Agora a historia em si... já deixa muito a desejar, pois parece que toda a genialidade foi usada para a parte visual. O romance dos dois cowboys parece que nasceu as três pancadas tal como a cena horrível de sexo que demorou 5 segundos, foi de péssimo gosto. Coisa que depois melhorou a medida que o filme avançou foi a historia envolvente entre que se passa depois do sucedido na montanha,a meu ver realmente terna.
    Por fim acho que os contras falam mais alto, e o filme perde-se por entre algo como uma historia de amor secundaria num filme sobre uma montanha...

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  2. Não entendo como só deste 'Bom'. Pessoalmente, significou tanto. Não como dois cowboys gays mas como duas pessoas que por circunstâncias do tempo e espaço onde se situavam, não poderiam cultivar o amor que sentiam por ambos. Ennis encarava-o como um crime que ardia em desejo e Jack deixava-se levar pelo entusiasmo e facilmente contagiava-se por um atmosfera que de romântica nada tinha. O argumento é poderosíssimo, o ambiente pesado, tenso e frio.
    Um dos melhores.

    Cumprimentos

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  3. A pontuação atribuida a este filme foi sujeita a uma reapreciação, a 02.08.2009.

    Filipe Assis
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. Brokeback Mountain é um filme poderoso, com uma excelente realização e fotografia e dois actores em excelente forma. O argumento é magnífico e é retratado por Lee duma forma esplêndida. E o final é bastante forte.
    Um verdadeiro clássico moderno.

    Cumprimentos.

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  5. Um belo novo clássico, este filme foi definitivo!

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  6. THE MOVIE MAN e CRISTIANO CONTREIRAS: Totalmente de acordo ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  7. Concordo bastante com a tua decisão. É um filme bastante forte, profundo, introspectivo, uma história de amor para sempre, com excelentes interpretações, com uma enorme realização e argumento e com detalhes, desde a fotografia, banda sonora, direcção artística, entre outros, que me encantam.

    Uma verdadeira obra-prima.

    Abraço,

    Jorge Rodrigues
    http://dialpforpopcorn.blogspot.com

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  8. JORGE RODRIGUES: Não o considero uma obra-prima, mas é um filme absolutamente magistral! Estamos de acordo: grande, grande filme. Irrepreensível!

    Cumps.
    Roberto Simões
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  9. O leitor Jorge Rodrigues deixou-nos, num comentário ao filme COLISÃO, o link de um artigo do LA Times, sobre a derrota de O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN perante este COLISÃO de Paul Haggis.

    Faço questão de o colocar aqui, para os interessados e para potenciar, quiçá, um novo debate:

    «Sometimes you win by losing, and nothing has proved what a powerful, taboo-breaking, necessary film "Brokeback Mountain" was more than its loss Sunday night to "Crash" in the Oscar best picture category.

    Despite all the magazine covers it graced, despite all the red-state theaters it made good money in, despite (or maybe because of) all the jokes late-night talk show hosts made about it, you could not take the pulse of the industry without realizing that this film made a number of people distinctly uncomfortable.

    More than any other of the nominated films, "Brokeback Mountain" was the one people told me they really didn't feel like seeing, didn't really get, didn't understand the fuss over. Did I really like it, they wanted to know. Yes, I really did.

    In the privacy of the voting booth, as many political candidates who've led in polls only to lose elections have found out, people are free to act out the unspoken fears and unconscious prejudices that they would never breathe to another soul, or, likely, acknowledge to themselves. And at least this year, that acting out doomed "Brokeback Mountain."

    For Hollywood, as a whole laundry list of people announced from the podium Sunday night and a lengthy montage of clips tried to emphasize, is a liberal place, a place that prides itself on its progressive agenda. If this were a year when voters had no other palatable options, they might have taken a deep breath and voted for "Brokeback." This year, however, "Crash" was poised to be the spoiler.

    Continua...

    Cumps.
    Roberto Simões
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  10. Continuação...

    I do not for one minute question the sincerity and integrity of the people who made "Crash," and I do not question their commitment to wanting a more equal society. But I do question the film they've made. It may be true, as producer Cathy Schulman said in accepting the Oscar for best picture, that this was "one of the most breathtaking and stunning maverick years in American history," but "Crash" is not an example of that.

    I don't care how much trouble "Crash" had getting financing or getting people on board, the reality of this film, the reason it won the best picture Oscar, is that it is, at its core, a standard Hollywood movie, as manipulative and unrealistic as the day is long. And something more.

    For "Crash's" biggest asset is its ability to give people a carload of those standard Hollywood satisfactions but make them think they are seeing something groundbreaking and daring. It is, in some ways, a feel-good film about racism, a film you could see and feel like a better person, a film that could make you believe that you had done your moral duty and examined your soul when in fact you were just getting your buttons pushed and your preconceptions reconfirmed.

    So for people who were discomfited by "Brokeback Mountain" but wanted to be able to look themselves in the mirror and feel like they were good, productive liberals, "Crash" provided the perfect safe harbor. They could vote for it in good conscience, vote for it and feel they had made a progressive move, vote for it and not feel that there was any stain on their liberal credentials for shunning what "Brokeback" had to offer. And that's exactly what they did.

    "Brokeback," it is worth noting, was in some ways the tamest of the discomforting films available to Oscar voters in various categories. Steven Spielberg's "Munich"; the Palestinian Territories' "Paradise Now," one of the best foreign language nominees; and the documentary nominee "Darwin's Nightmare" offered scenarios that truly shook up people's normal ways of seeing the world. None of them won a thing.

    Hollywood, of course, is under no obligation to be a progressive force in the world. It is in the business of entertainment, in the business of making the most dollars it can. Yes, on Oscar night, it likes to pat itself on the back for the good it does in the world, but as Sunday night's ceremony proved, it is easier to congratulate yourself for a job well done in the past than actually do that job in the present».

    By Kenneth Turan, Times Staff Writer
    March 5, 2006 - THE ENVELOPE, LA Times

    Link: http://theenvelope.latimes.com/awards/oscars/env-turan5mar05,0,5359042.story

    Cumps.
    Roberto Simões
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  11. É um belo filme que demonstra a capacidade de Ang Lee enquanto maestro na realização. Gostei bastante do ritmo, dos planos, da banda sonora, do argumento linear, profundo e sincero e da fotografia. Especialmente as cenas na montanha são de uma qualidade (e tranquilidade) enaltecedoras.

    Talvez não o considere tão bom (ao ponto de lhe dar hipoteticamente cinco estrelas) mas lá que é um bom filme e merecia ter destronado Crash na cerimónia dos Óscares lá isso é de certeza. E será mais um que irei rever (ou quero) daqui a uns tempos.

    abraço

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  12. JORGE: Sem dúvida. É um filme de fortes emoções, realizado com extrema sensibilidade e subtileza e visualmente deslumbrante. A cada vez que o revejo, encontro pormenores novos.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões