Mostrar mensagens com a etiqueta Darren Aronofsky. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Darren Aronofsky. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de fevereiro de 2018

MÃE! (2017)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Mother!
Realização: Darren Aronofsky
Principais Actores: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig, Stephen McHattie

Crítica:

DO PARAÍSO AO INFERNO:
O ETERNO CONTO DA HUMANIDADE 

I gave you everything. You gave it all away.

Mãe! é, provavelmente e por variadíssimas razões, o mais audacioso, bizarro e desconcertante filme a ser produzido - em anos - por um grande estúdio de Hollywood. Primeiro que tudo, o trailer: Mãe! é-nos vendido como um típico filme de terror: estão lá a casa isolada, o sangue e os sons arrepiantes, os estranhos e os aparentes acontecimentos sobrenaturais. Estão lá actores de primeira linha, a chamar o público. Mas está lá também, ou sobretudo, o nome de um artista genial, a assinar aquela que é, porventura, mais uma das suas controversas obras-primas: Darren Aronofsky - o mesmo do poético e transcendente The Fountain, o mesmo do fantástico e incompreendido Noé. Estes três títulos, todos cabalísticos, estabelecem entre si um estimulante diálogo, mas nenhum deles é tão brutal e radical como Mãe!. Percebamos porquê.

Mãe! é, como se diz, um filme que divide opiniões, polariza posições e não é para menos. Assistir ao filme é uma experiência a que ninguém fica indiferente. Desde que abre, confunde o espectador. A sua forma - aquela que o trailer anunciou - está em constante mutação, as regras do realismo e da narrativa alteram-se a cada cena, como se mergulhássemos no mais perfeito pesadelo, imune à lógica, absolutamente imprevisível e permutável ao absurdo. Eis, pois, o primeiro choque: as quaisquer expectativas que tenhamos criado previamente em relação ao filme são-nos rapidamente goradas e desconstruídas.

Não há música, apenas sons, excepcionalmente explorados e imersivos, intensificando o suspense. Seguimos a protagonista de perto - uma bondosa e vulnerável Jennifer Lawrence - e simpatizamos com ela de imediato. Aquilo a que assistimos é essencialmente o seu ponto de vista, deambulante pela casa, múltipla em repartições (o design de produção esmerou-se na concepção de um construção incrível, palco de todos os travellings). A câmera acompanha-a sempre (os close-ups chegam a ser intimidatórios, de tão próximos) e encerra-nos numa claustrofobia asfixiante, que só tende a crescer. A soturna fotografia de Matthew Libatique esbarra-nos numa existência solitária, sensível a cada movimento, a cada marcação. A mulher é inteiramente dedicada à casa e ao marido - esquece-se de si própria e entrega-se de alma e coração. Sente a pulsação da construção como se fosse a sua, basta fechar os olhos e sentir (e pelas visões sabemos: a casa está a morrer). Ela e a casa são uma só, um ser vivo que inspira o marido, o qual se alimenta da sua graça e amor para a sua poesia. I wanna make a Paradise, diz ela, com a virginal inocência com que lança o pincel e a tinta às paredes, sonhando um futuro risonho. O marido (o enigmático Javier Bardem) ora está como não está fisicamente em cena, por casa, mas a mulher sente sempre a sua presença. Estaremos agora perante um melodrama?, pensamos, intimista e sobre a relação do casal? Não obstante, quando batem à porta, um estranho entra e depois outros, chegam sem serem convidados, instalam-se e pernoitam sem o consentimento da jovem, contra a sua vontade. O marido como que acolhe e protege os estranhos indiferente à opinião da mulher. E os convidados - ou melhor, os intrusos -, tanto se mostram amistosos como provocadores e abusadores, quais serpentes sibilantes sempre prontas a morder ao mais simples virar de costas. O filme torna-se cada vez mais confuso e uma questão nuclear, sobre tantas outras, assola-nos a consciência: mas que raio de filme estamos afinal a assistir? Não, Aronofsky não está minimamente preocupado em responder a isso. Sempre que a torneira se fecha e a acção abranda, a acalmia reconforta-nos e apazigua-nos mas não tardará a vir uma enxurrada de caos, capaz de invadir e destruir a casa, violentando a mulher e reduzindo-a a cinzas. Quando menos dermos por isso, o filme transforma-se num desaire apocalíptico: alucinante e imparável, impiedoso e infernal. Aí percebemos que o filme só acabará quando mais nada sobrar intacto.

Interpretando o filme à letra - para todos aqueles incapazes de reconhecer os símbolos, de seguir as pistas e de descodificar os significados ocultos - julgo que Mãe! se revelará um frustrante e insignificante pedaço de cinema. Identificar o duplo sentido da uma história e segui-la à luz da alegoria é um sinal de inteligência e não é para todos. Muitos espectadores não estão habilitados ou simplesmente não querem ser intervenientes activos na interpretação de uma história. Procuram tudo explicado, tudo tem que ser lógico ou fazer sentido imediato. São os mesmos que, muitas vezes, são incapazes de adorar uma fantasia. Ou um musical. Muitos espectadores assistirão a Mãe!, pois, e no final, se não tiverem desistido pelo meio, detestá-lo-ão categoricamente. Pela ignorância é fácil apelidá-lo de idiota, presunçoso ou pedante. Mãe! não é esse filme superficial. Qual iceberg, é nas camadas invisíveis que esconde a sua essência hermética. E a sua dualidade torna-o um objecto rico e simultaneamente enriquecedor, pois outros espectadores, perplexos com a complexidade e incomodados com o seu mistério esmagador, assistirão o filme uma e outra vez, procurarão respostas e explicações pela internet. Aí, quando se depararem com as descobertas, com o quebrar dos enigmas, dificilmente não o adorarão. Mãe! é um poço fundo e inesgotável de entendimentos. Ninguém sairá do filme absolutamente iluminado, antes intrigado e motivado para seu o estudo e para o seu culto.

Eis, pois, o retrato da decadência da Humanidade, da alegoria bíblica à mais gritante e urgente metáfora ecológica. Lawrence é a Criação e Bardem o Criador, Deus, que olha a casa do alto das escadas como quem vislumbra a Terra das alturas. É ele o poeta, o autor do Génesis e de todo o Antigo Testamento, as sagradas escrituras que os homens adoram. Por isso o idolatram. A casa simboliza, inicialmente, o Jardim do Éden, o paraíso onde reina a paz e a perfeição. Ed Harris é Adão (note-se a ferida nas costas, pela qual terá sido extraída a costela) e Michelle Pfeiffer é Eva (que se perde na limonada como quem prova o fruto proibido). Ambas as personagens conferem, às tantas, uma nova tonalidade, como se o filme abraçasse a comédia negra. Têm dois filhos e os irmãos Gleeson representam-nos: Caim e Abel, que lutam entre ciúmes mortais. Com a primeira morte provocada, abre-se uma ferida na casa, semelhante a uma vagina menstruada, que jamais se fechará, como que manchando para sempre o destino dos Homens. Os mais variados pecados se cumulam em cena. Lawrence assiste ao desenrolar dos acontecimentos, impotente e esperançada. O sapo anuncia a praga que virá e a vinda dos demónios. O dilúvio pode acontecer à escala de uma inundação, caso rebente um cano ou dois. Um dia, Lawrence engravida e o bebé, que será comido pelos ávidos e fundamentalistas seguidores da fé, é Jesus. Quando a criança nasce e chora e tudo se silencia, lembramos o milagre do distópico e magistral Os Filhos do Homem, de Alfonso Cuarón, num cenário não muito diferente. É o nascimento que inspira o poeta a novas escrituras; alusão ao Novo Testamento, que por sua vez desencadeia uma nova e fanática invasão, ainda mais forte; alusão ao cristianismo. É a partir daí que Lawrence se transfigura, física e emocionalmente, levando a sua revolta imperiosa e implacável a todos os que a ignoraram e magoaram, inclusive contra Deus, que acusa de se ter aproveitado do seu amor incondicional. O cristal de poderes regeneradores, de acordo com tradição gnóstica, simboliza o amor, deixado pela amante ao demiurgo na esperança de que um dia também ele aprenda a amar. Pela alegoria bíblica, é a devoção religiosa, cega, descontrolada e extremista, a causadora da destruição. A devoção dos Homens, egoístas e obcecados, feitos à imagem de Deus.

Pela alegoria ecológica, a causadora do fim é a negligência - igualmente cega, descontrolada e extremista. O despertar da mulher no eterno recomeço chama a atenção do espectador: acorda! para a mensagem que se segue. A mulher e a casa representam o planeta terra, o nosso lar. Imaculada, a mãe natureza põe todos os recursos ao nosso dispor. Ocupamo-la, consumimo-la, poluimo-la e devastamo-la. No caminho, destruimo-nos uns aos outros. Destruimo-nos a nós próprios. Que falta de consideração, que vergonha. Vejamos cada personagem, tão egoísta. A falta de respeito conduz ao ódio e à guerra. A todo o instante histórico, temos a opção de escolha: de mudar, de fazer diferente, de inverter a destruição massiva, de nos purificarmos e, sob um efeito catártico, de salvarmos o mundo e a Humanidade. No entanto, não nos unimos para inverter a maré. O inferno vem de fora para dentro, mas o paraíso vem de dentro para fora! Cada um de nós tem em potência, no seu interior, a possibilidade de mudar o mundo, de torná-lo um lugar melhor para nós e para os nossos filhos. Não podemos ignorar a nossa Mãe, infligindo-lhe tamanha dor, sendo tão assustadoramente irresponsáveis. Esta mensagem faz especial sentido num tempo em que vivemos sob a ameaça do aquecimento global e da guerra nuclear. O poderosíssimo final, tão surreal e premonitório, assombra-se-nos como algo horrivelmente possível e próximo. Neste sentido, Mãe! formula-se como a mais desencantada e alarmante tragédia, que poderá facilmente saltar da tela para a nossa realidade.

Por tudo isto, Mãe! é um filme muito pessoal, muito peculiar. Arriscadíssimo, pois as possibilidades de retorno financeiro para um projecto tão divisivo dificilmente seriam estrondosas. Mãe! é tão ou mais obsessivo do que qualquer uma das outras obras de Aronofsky, à data, mas possui uma irreverência e uma pulsão joviais que por vezes só explodem em obras em início de carreira, antes da maturidade. O impacto é comparável ao de um Clube de Combate. Não deixa de ser, por isso, insólito e inesperado que do artista brote tamanha efervescência numa altura em que a sua carreira se cimenta e consolida no firmamento dos maiores cineastas da actualidade. Que Aronofsky teremos daqui para a frente?

Facilmente, o melhor filme de 2017, a par de Blade Runner 2049, de Denis Velleneuve.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

NOÉ (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★ 
Título Original: Noah
Realização: Darren Aronofsky
Principais Actores: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Douglas Booth, Logan Lerman, Emma Watson, Anthony Hopkins, Ray Winstone, Frank Langella, Nick Nolte, Leo McHugh Carroll, Mark Margolis, Kevin Durand, Marton Csokas

Crítica:

O GRANDE DILÚVIO

The waters of the heavens will meet the waters of the earth.
(...) We build an ark.

Está na hora de ser justo para com Noé, arrojada e visionária criação de Darren Aronofsky. É tempo de rever, reavaliar e, certamente, reconsiderar. Sejamos objectivos: Noé não é um filme bíblico, é um filme fantástico, por mais que a Bíblia possa ou não ser uma fantasia. O episódio das antigas escrituras é a fonte de inspiração - e é só. Noé desenvolve uma mitologia e imaginário próprios e bastante singulares. Ao arrumarmos Noé na prateleira e se o género for o critério, jamais se fará acompanhar d'Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille. Noé estará ao lado d'O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. E ter consciência deste facto é preponderante para que possamos assistir ao filme livres de um preconceito capaz de nos turvar a visão e de nos afundar por completo o prazer de experienciá-lo e o poder de, devidamente, apreciá-lo. Foi um erro crasso e tremendo, assisti-lo em permanente comparação com a história conhecida e procurando as eventuais correspondências com o texto original. Ocupei-me, portanto, com uma discussão desnecessária (que jamais me permitiu desfrutar do filme em si) e, sobretudo, perfeitamente inoportuna. Por isto, Noé faz parte de uma fileira de filmes que me desiludiram e aos quais voltei, maravilhando-me com a redescoberta.

Em 2014, Hollywood virou-se para a Bíblia. Ridley Scott com o seu épico gorado sobre a figura de Moisés Exodus - Deuses e Reis, protagonizado por Christian Bale, e Aronofsky com o controverso e incompreendido Noé, protagonizado por Russell Crowe. Ambos com sofisticadíssimos efeitos visuais, ambos visualmente deslumbrantes e ambos tão duramente criticados do ponto de vista narrativo. Foquemo-nos em Noé: o erro não foi tanto o de partir de material religioso, imediatamente polémico. O erro - comercialmente compreensível, dado o gigantesco orçamento - foi ser vendido como um filme bíblico, o que atrai muito público correndo o risco, quase obrigatório, de defraudar expectativas. Ora bem, Aronofsky é ateu. Estão a perceber bem onde quero chegar? É claro que Noé não colide crassamente com os versículos do Antigo Testamento, mas, no seu oceano de liberdades criativas, reinterpreta-os, arquitectando uma obra gnóstica e de entendimento universal - sobre todas as religiões e sobre nenhuma em particular. Funde, habil e inteligentemente, criacionismo com evolucionismo: Noé tem um dos mais audazes time-lapses da História, numa brilhante sequência que vai do Big Bang à divisão celular e à plausível evolução das espécies - provavelmente, mais plausível do que nunca - até que chega à criação do Homem e a obra se enche de símbolos e misticismo cabalístico, cuja interpretação resolve a mensagem encriptada. A narrativa tem prólogo, três actos e uma coda. Ao longo desta sua jornada, Noé é um filme fantástico, às vezes de inspiração surrealista, e um filme catástrofe, apocalíptico, com uma forte preocupação ecológica por trás (Noé e a família são vegetarianos). É um filme de acção e um drama familiar, com nuances de romance e de tragédia. Tem, portanto, uma natureza bastante abrangente e totalizante e jamais se perde na sua ambição. Camuflado entre a aparência de blockbuster, temos a marca inconfundível de um autor genial, intransigente e de pulso firme, que sabe o que quer, como quer e que não prescinde do seu conceito - como fez em The Fountain; embora, neste caso último, evidentemente, com menos dinheiro. Aqui, serve-se do milionário investimento de um grande estúdio para bancar hordas de animais digitais - primeiro as aves, depois os répteis e os insectos e por fim os mamíferos terrestres - que, de outra forma, não seriam possíveis.

A comparação com The Fountain não é, de todo, despropositada. Diria que os dois filmes fazem parte da mesma dimensão criativa dentro do universo de Aronofsky, dialogando entre si, partilhando inúmeras referências - e não só porque ambos têm personagens principais obsessivamente empenhadas na sua missão de salvação. Aronofsky é, aliás, dos cineastas que melhor explora a obsessão em toda a sua complexidade, desde as motivações às suas inevitáveis consequências. Veja-se o caso de Requiem for a Dream ou de Cisne Negro. Em Noé, Russell Crowe interpreta os sinais divinos, os sonhos e as profecias e, munido de uma fé indestrutível, avança com o plano de construção da arca. A magia germina a cada punhado de terra. A fé da família nele e no plano do Criador (que nunca é referido como Deus) é igualmente inabalável. Às tantas, todavia, Crowe começa a parecer-se cada vez mais com o seu arqui-rival Tubal-cain (aguerrida interpretação de Ray Winstone), na medida em que não olha a meios para atingir os seus fins. Sem jamais questionar os desígnios do Criador, barrando a entrada aos milhares que, lá fora e em pleno dilúvio, clamam por ajuda e salvação, Noé ver-se-á ainda confrontado com a necessidade de sacrifício da própria família, por forma a travar a descendência e a continuação do Homem. O plano é claro:

The Creator has judged us. Mankind must end. Shem and Ila, you will bury your mother and I. Ham, you will bury them. Japheth will lay you to rest. You, Japheth, you will be the last man. And in time you, too, will return to the dust. Creation will be left alone, safe and beautiful.

O fundamentalismo da sua fé levá-lo-á à loucura e poderá torná-lo um sanguinário, cada vez mais à imagem e semelhança do seu Criador. Ou cumpre a sua missão até ao fim ou será odiado por todos os que ama, até ao fim dos seus dias. É o que lhe diz a mulher Naameh (comovedor desempenho de Jennifer Connelly, que volta a formar casal com Crowe depois da sua química inegável em Uma Mente Brilhante). A transfiguração do actor é assustadora, conduzindo a sua dor e a narrativa a um inesperado e intenso terceiro acto. O elenco, completado com notáveis prestações de Emma Watson, Anthony Hopkins, Logan Lerman e Douglas Booth, edifica uma crescente carga dramática, que tenderá a emocionar-nos na sua complexidade. Frank Langella e Nick Nolte emprestam as suas sonantes vozes aos Vigilantes, os gigantes de pedra outrora Anjos Caídos, que ajudam na construção da megalómana arca e que lutarão contra os malditos que nem Ents às portas de Isengard.

Tornemos à comparação com The Fountain e às suas interligações: ambas as obras partem do Genesis para criar o seu imaginário, partilhando a imagem da árvore sagrada do Jardim do Éden, seja ela a Árvore da Vida ou a Árvore do Conhecimento. Uma é o ponto de chegada, a outra o ponto de partida. A árvore não é igual nos dois filmes, mas o poder da imagem e a estética assemelha-se. Assim como se assemelha a branca flor, que brota do solo por magia, símbolo do eterno recomeço. The end of everything. (...) The beginning of everything. O musgo é o alimento tanto do descendente de Adão como do Último Homem de Hugh Jackman, que viaja no espaço e numa dimensão metafísica. Noé partilha com The Fountain algum do seu esplendor visual, também, nos efeitos especiais relacionados com o cosmos e em planos em que as silhuetas das personagens - negras - se destacam dos seus fundos maravilhosos. No caso do filme de 2006 temos um plano em que Jackman se alonga e medita sobre um fundo de constelações e no caso de Noé temos marido e mulher sobre o crepúsculo. A beleza do frame é inebriante, entre outros tantos frames que nos esmagam com o seu poder visual. Matthew Libatique é o prodigioso artista por detrás da fotografia dos dois filmes, adaptando triunfalmente, nos dois casos, novelas gráficas e storyboards. Mas também a música desempenha um papel semelhante em ambas as criações - e também aqui não se mexeu na equipa. Clint Mansell é o compositor e, para além de a sonoridade de Noé invocar, muitas vezes, a memória dessa transcendente experiência que é The Fountain, também neste caso a repetição e a persistência da repetição das mesmas frases musicais ao longo das cenas espelha a obsessão do protagonista e da sua missão, marcando um ritmo pulsante e que gradualmente se intensifica. Noé é, por tudo isto, um arrebatador espetáculo de som e imagem, filmado e orquestrado por um realizador que se movimenta como um deus. Tal como em The Fountain, também aqui temos impressionantes planos verticais - god's eye view -, confrontos à chuva perante a presença da vegetação e uma ágil montagem (Andrew Weisblum) ao serviço das diferentes mas sempre económicas e empolgantes cadências narrativas.

Uma das mais controversas observações que tenho a apresentar prende-se com intencionais anacronismos colocados no filme e, assim sendo, com a eventual atemporalidade da acção. Depreender-se-ia, à partida, que Noé desenvolvesse a sua fantasia num passado histórico. Contudo, não só os amplos planos da primeira parte deixam antever uma civilização outrora industrializada como, a dado momento, um dos time-lapses mostra silhuetas de combatentes de diversas épocas, entre os quais guerreiros pré-históricos, gregos, egípcios, romanos, árabes, vikings, índios e europeus medievais, do tempo dos descobrimentos ou da Revolução Francesa, soldados das guerras mundiais... Todos os figurinos e armas são datáveis, do pau à espada e à espingarda. Um mero devaneio meta-ficcional, na tentativa de abranger a totalidade do tempo, do passado ao futuro? Ou a dupla possibilidade desta história apocalíptica tanto se passar lá atrás como amanhã ou num tempo sem tempo? Na minha opinião, tudo isso. Já desde The Fountain que sabemos que Aronofsky procura atingir, neste seu tipo de cinema, a plenitude. É essa sua obsessão. A dada entrevista* o cineasta avançou: I'm Godless. And so I've had to make my God, and my God is narrative filmmaking, which is ultimately what my God becomes, which is what my mantra becomes, is the theme. Basta assistirmos a um destes seus filmes para compreendermos a amplitude e o significado das suas palavras. Qual Noé, Aronofsky transporta a pele da serpente e, na sua carga esotérica, a herança de um cinema por demais iluminado.

__________________________________________
(*) Entrevista a Ruby Rich aqui.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

THE FOUNTAIN - O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fountain
Realização: Darren Aronofsky

Principais Actores: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee

Crítica:

A FONTE DA VIDA


Together we will live forever.

A demanda pela vida desafia o próprio tempo. No passado, no presente ou no futuro... viveremos sempre - a vida é a nossa certeza mais preciosa. Contudo, não é a única: a morte é igualmente certa. O nascimento principia, a morte termina e o ciclo fecha-se. A vida é uma passagem, mas na passagem reside todo o sentido, enquanto aguardamos pelo desconhecido - temendo por ele, tantas vezes. Receamos a despedida, a perda e o vazio. Nos três tempos que sempre determinarão a nossa existência, sonharemos com a vida eterna. Procuraremos, incessantemente, a Fonte da Juventude, a Árvore da Vida e a Cura. Indagaremos o mito na busca ancestral da Verdade, escutaremos o divino para a resolução do Mistério, faremos evoluir, pela técnica, o próprio conhecimento, na esperança da Salvação. Porém, o nosso destino escreve-se nas entrelinhas dos acasos e encerra na soberania da Natureza. Porque morremos?


O Passado e a Religião

Therefore, the Lord God banished Adam and Eve from the garden of Eden and placed a flaming sword to protect the tree of life.
Génesis 3:24

O Conquistador, 1500. Em prol da sua missão, um Homem arrisca a própria vida pela sua promessa, pela sua missão, pela Árvore da Vida:



Rainha Isabel: Will you deliver Spain from bondage?
Tomas: Upon my honor and my life.
Rainha Isabel: Then you shall take this ring to remind you of your promise. You shall wear it when you find Eden, and when you return, I shall be your Eve.


Ao proferi-lo, a rainha - então ameaçada pela Europa oprimida e pela Igreja inquisitória (Your queen seeks immortality on Earth - a false paradise. This is heresy) - passa ao cavaleiro ajoelhado um anel, como símbolo da Aliança e do Amor partilhados entre ambos. O salão onde se encontram, do negrume iluminado por centenas de candelabros suspensos, assemelha-se a um manto nocturno, no qual cintilam milhares de estrelas douradas. O arrojo e a minúcia da iluminação e da direcção artística são absolutamente notáveis. Destaque-se, também, a geométrica simbologia da obra, de uma riqueza assinalável.

A special tree grows hidden, the tree of life,
they say who ever drinks of its sap will live forever.

Alcançar a seiva bíblica significa atingir um poder incomensurável: por meio dela, o conquistador libertará a rainha e o reino da tirania católica e conquistará o coração da amada. Para além do mais, obterá a vida eterna, vencendo a morte através dos tempos.

Our bodies are prisons for our souls. Our skin and blood, the iron bars of confinement. But fear not. All flesh decays. Death turns all to ash. And thus, death frees every soul.

Tomas faz-se acompanhar pela armada de espanhóis cristãos, mas estes sucumbem à armadilha dos maias pagãos. There's no hope for us here, there is only death. Encurralado pelas circunstâncias, ascende só às alturas, degrau após degrau. Let us finish it. Escala a pirâmide, deixando a escuridão do abismo e aproximando-se do Senhor de Xibalba, no topo. O confronto é inevitável e dele depende o sucesso da incumbência real.

Death is the road to awe.

A espada do místico, em chamas, desfere o grito da aflição. Sustêm-se, o mistério e a respiração, na imensidão do universo. Reina o silêncio. Não estamos mais no passado.

I'm sorry father, for you there is only death. But our destiny is life!


O Presente e a Ciência

Death is a disease, it's like any other.
And there's a cure. A cure - and I will find it.



O Cientista, 2000. Reencontramos os mesmos corpos, a mesma demanda. Reincarnação? Quem sabe, se pela decomposição da matéria sobrevivem os átomos da alma. Izzi está doente. Tem um cancro, que lhe apressará a efémera passagem pelo plano terrestre - esta irreversível dimensão física na qual nos relacionamos e conhecemos. Tom ama-a, perdidamente. E o Amor dos dois é sentido mutuamente. Izzi perdeu, recentemente, a sensibilidade ao frio e ao calor. Sente que a morte está próxima. Perante tamanha e tão perturbadora consciência, dedica a sua solidão à descodificação do enigma. Lê, pesquisa e indaga os céus da noite na busca de paz:


It's actually a nebula wrapped around a dying star. That's what makes it look gold. (...) The Mayans called it Xibalba. It was their underworld. The place the dead souls go to be reborn.

Tom, por sua vez, não se conforma, não aceita, não se rende, afinal, às evidências da morte. Cientista de profissão, passa os dias no laboratório, testando e experimentando obcecadamente as mais variadas fórmulas e hipóteses para encontrar a Cura. Ele quer desesperadamente salvar a mulher que ama. Restos de uma antiga árvore da América Central parecem começar a sortir efeito no macaco Donavan, a cobaia, estancando o efeito avassalador do tumor. Mas os efeitos não serão perpétuos.

Tom: There's been progress at work...
Izzi: My conquistador! Always conquering...

The Fountain, floresce a mise en abyme, é o nome do livro ao qual Izzi entrega os seus últimos dias. Através dele, a personagem procura o significado existencial. A arte aparece-nos, pois, como fruto da necessidade de justificar e compreender a morte. A acção do livro de Izzi recua ao tempo dos conquistadores espanhóis e acção coincide com a acção do filme, decorrida anteriormente no passado. Quero acreditar que esse passado que inicialmente conhecemos, pela inspiração visionária de Aronofsky, é muito mais do que a representação da história de Izzi, tão-somente. A The Fountain falta-lhe o capítulo doze, o último capítulo... A missão derradeira é incubida nas mãos do amado:

It's all done except the last chapter.
I want you to help me. Finish it...


Aquando da visita ao museu, na qual Izzi acaba irremediavelmente por desmaiar, a jovem tenta tranquilizá-lo, convencendo-o de que nada há a temer na morte:

Look. It explains their creation myth. You see, that's First Father. He's the very first human. (...) He sacrificed himself to make the world. The Tree of Life's bursting out of his belly. Listen. His body became the tree's roots. They spread and formed the Earth. His soul became the branches, rising up, forming the sky. All that remained was First Father's head. His children hung it in the heavens, creating Xibalba. (...) Death as an act of creation.

Na cama da clínica, cada vez mais debilitada, distante e serena, Izzi desvenda o segredo:

Remember Moses Morales? (...) He told me about his father, who had died. Well Moses wouldn't believe it. (...) He said that if they dug his father's body up, it would be gone. They planted a seed over his grave. The seed became a tree. Moses said his father became a part of that tree. He grew into the wood, into the bloom. And when a sparrow ate the tree's fruit, his father flew with the birds. He said... death was his father's road to awe. That's what he called it. The road to awe. Now, I've been trying to write the last chapter and I haven't been able to get that out of my head! (...) I'm not afraid anymore, Tommy.
Pensar a morte não é um passatempo frequente entre os vivos. O medo impede-nos. Mas haverá razões para ter medo? Não faremos nós parte de um ritual da Natureza que se repete até ao fim dos tempos? Aceitá-la, creio que jamais o faremos.

És pó e em pó te tornarás.

Génesis 3:19

Mais importante do que pensarmos na morte, é pensarmos na vida, vivendo-a intensamente. O que Izzi sempre quis transmitir a Tom é que eles se hão-de encontrar para além da morte. Together we will live forever. Até lá e aceite que se vai partir, o mais importante é partilhar a existência - os últimos toques, beijos e suspiros - com quem mais amamos.


O Futuro e a Transcendência

O Último Homem, 2500. Uma bolha flutua para além do infinito, numa ascenção permanente. Os corpos celestes abrilhantam o cosmos, os astros cadentes completam a visão surreal e onírica. Percorre-se o caminho da Luz, da iluminação. Dentro do último reduto, a árvore, a morrer, a secar... um homem e as suas memórias, uma última missão por cumprir. Haverá sempre um capítulo inacabado nas nossas vidas ao qual só uma dimensão imaterial e transcendente porá fim. É como que uma incapacidade orgânica, inerente à nossa condição. Finish it.

All these years, all these memories, there was you.
You pull me through time.

O espaço é local de meditação e de reflexão. Contam-se os intervalos, tatuando a pele, como que no prolongamento da eterna Aliança - elemento mágico e simbólico, comum aos três tempos diegéticos. Imerge-se na metafísica. E o esplendor visual deste universo é não só impressionante como totalmente arrebatador. É de uma beleza extrema, lírica, quase indefinível. Há silêncios, murmúrios, ânsia pela plenitude, pelo apaziguamento final. Podemos dizer que a originalidade gráfica e conceptual dos efeitos especiais (Jeremy Dawson, Dan Schrecker, Mark G. Soper, Peter Parks) conseguiu uma relíquia autêntica e única, desbravando um lugar singular na História da Ficção-Científica. A obra de Aronofsky assume-se, pois, estilisticamente prodigiosa. A fotografia de Matthew Libatique, por sua vez, aproxima-se da perfeição.

Through that last dark cloud is a dying star. And soon enough, Xibalba will die. And when it explodes, it will be reborn. You will bloom... and I will live.

É precisamente neste terceiro tempo que eclode a arrepiante explosão orgásmica que marcou, decididamente, a maior experiência da minha vida numa sala de cinema. A genial e avassaladora composição musical de Clint Mansell cresce e intensifica-se numa poderosíssima apoteose dos sentidos. Aquele corpo humano levita, transfigura-se e consome-se pela Luz etérea. O círculo fecha-se. Fade-out, na imaculada brancura e vastidão do nada.


Tom: I've finished it.
Izzi: Is everything alright?
Tom: Yes... everything's alright!



Os desempenhos da dupla principal de actores, Hugh Jackman e Rachel Weisz, mas especialmente de Hugh Jackman, são de uma tremenda profundidade emocional. Ainda para mais, a versatilidade do actor é nitidamente posta à prova. A complexidade e as exigências do argumento são engenhosa e criativamente ultrapassadas por meio da repetição de motivos, conferindo à narrativa uma fluidez extraordinária. A realização de Aronofsky é sublime, em toda a sua arte de filmar. A montagem (decisivos, o talento e a competência de Jay Rabinowitz) revela-se igualmente imprescindível para o sucesso da narrativa.

Destaco três sequências onde os vários fios se unem com notável mestria:

- O movimento de chariot recua subtilmente de um monumento maia, após a transição de cena, e ouvem-se os sons da natureza. O momento parece-nos falso, à primeira vista, mas os sons e um pássaro amarelo, verdadeiro, que atravessa a imagem num vôo inesperado, reclamam e sugerem a autenticidade do ambiente. Porém, o súbito silenciamento dos sons, a mudança radical na iluminação e o afastamento da câmera para lá do enquadramento inicial mostram-nos um quadro na parede e concluimos a ilusão da qual fomos alvos. Tom surge finalmente no enquadramento, chama por Izzi e recolhe, num outro take, o pássaro amarelo que pousara sobre a mesa.

- No futuro, a mão de Tom passa pelo tronco da árvore e a montagem desvanece a imagem numa outra, já no tempo presente, sem se notar sequer a transição. A mesma mão termina o take passando suave e delicadamente pelo corpo da amada, que entre a espuma toma um banho quente, principiando uma das mais intimistas e tocantes cenas do filme.

- No presente, Tom desloca-se para a cidade, num automóvel acelerado e afligido. A câmera, sobre a estrada e inicialmente virada do avesso, dá meia-volta sobre si mesma e acompanha o veículo que rasga a rua de encontro ao destino. No passado, a câmera repete exactamente o mesmo movimento, nas mesmas circunstâncias. Troque-se a estrada pela clareira do campo, o automóvel pelo cavalo e o aspecto contemporâneo da cidade ocidental pela aparência de uma cidade dos finais do século XV.

Enfim, que experiência assombrosa, poética e deslumbrante. Uma espiritual e imortal ode à vida e à morte e sobretudo ao Amor, à Aliança entre dois seres que é não só intemporal como eterna. Sim, o verdadeiro Amor é eterno. Sobrevive a qualquer tempo e até à morte, pois repetir-se-á nos ciclos para além do renascimento. O Amor é o principal sentido da vida, é a Fonte. Acredito nisto, piamente. Veredicto? Obra-prima absoluta e um dos meus filmes de eleição. Para mim, um dos melhores de todos os tempos.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões