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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MEMÓRIAS DE MARNIE (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Omoide no Mânî
Realização: Hiromasa Yonebayashi
Vozes: Sara Takatsuki, Kasumi Arimura, Nanako Matsushima, Susumu Terajima, Toshie Negishi, Hana Sugisaki, Hitomi Kuroki, Ken Yasuda, Yûko Kaida, Shigeyuki Totsugi, Kazuko Yoshiyuki, Ryôko Moriyama

Crítica:

A CASA DO PÂNTANO 

Falou-se, por altura da estreia, que Memórias de Marnie arrastava consigo o saudosismo dos Estúdios Ghibli, por se tratar do adeus definitivo da marca. Até poderia ser, no entanto julgo o comentário bastante facilitista e redutor, como que a tentar apagar a inspirada e fértil natureza artística de Hiromasa Yonebayashi e da demais equipa na concretização de tão fabuloso e meritório projecto, a partir do romance de Joan G. Robinson. O anúncio do fim dos Ghibli faz sempre lembrar o fundador, o lendário e genial cineasta Miyazaki, que, a cada obra que lança, também anuncia sempre a sua retirada, a sua despedida. Que proveitoso passe de marketing, por mais verdadeira que seja a sua intenção. Não, não, Memórias de Marnie não se esvazia num mero exercício de estilo, numa bela mas infecunda aguarela, sem conteúdo, alma ou coração. Pelo contrário. No fim de contas, este não foi o último filme Ghibli e mesmo que um dia haja um último, filmes como este conquistarão a eternidade e o esplendor dos estúdios jamais se extinguirá.

Memórias de Marnie começa e atravessa-nos um repentino sopro melancólico, que nos esfria e gela, como o vento que surge e nos anuncia o fim do verão. Uma brisa que nos chama, em profundo sofrimento, como que gritando por socorro. Desde a primeira imagem, Anna, o mundo e o espelho da mais desoladora solidão. A jovem vive numa abismal existência interior, comunicando muito pouco, exteriorizando-se tão pouco. Não tem amigos, acha-se feia, detestável e irremediavelmente inadaptada. Sabe que é adoptada e é, sem querer, tão injusta para com a mãe adoptiva, a quem chama simplesmente tia. Desconhece o seu passado e sente-se mal-amada, abandonada pelos pais originais. Por isso, não os perdoa. E enquanto não os perdoar, jamais poderá sair do assustador estado depressivo em que se encontra mergulhada - sobretudo assustador se pensarmos que se trata de uma quase menina, de doze anos apenas e tão ciente da sua dor.

Eis, pois, um conto, de um belíssimo conto, narrativamente tão poderoso e enternecedor. E tão pouco infantil. Yonebayashi é contido no movimento de câmera e deixa a narrativa fluir ao sabor dos misteriosos acontecimentos e das apaixonantes personagens, numa cadência pausada, plena de silêncios, mas também de música. E, musicalmente, Memórias é uma obra tão emocional e sentimental. Takatsugu Muramatsu e o seu prodigioso piano guiam-nos da cidade ao campo (sempre verdejante e cheio de vida) e daquela praia de suaves marés à Casa do Pântano, tão perfeitamente integrada na paisagem, no quadro e nos mais recônditos lugares da memória. A sensibilidade de cada nota e melodia envolvem-nos e abraçam-nos, como naquela dança ao luar entre Marnie e Anna.

O filme balança-nos entre o real e um universo invisível, que não percebemos se é imaginário ou sobrenatural, e jamais cessa de nos maravilhar. Atrai-nos, seduz-nos, confunde-nos. Às tantas, já não queremos saber. Entregamo-nos, qual Anna, à verdade das sensações e à magia dos acontecimentos. No final, porém, a narrativa equilibra-se e equilibra-nos, sobre o fio da lógica: o inverosímil torna-se verosímil, o invisível torna-se visível. E quão espantoso pode ser tudo isso.

Memórias propõe, na sua dimensão encantatória, onírica e quase fantasmagórica, a viagem catártica, transformadora e, por fim, reveladora. Um caminho de auto-descoberta, de auto-aceitação, de confrontação de medos, angústias e do passado mal resolvido, cujos resquícios assombram a protagonista, sem saber, povoando a sua imaginação. A amizade surge como substituta real desses demónios a exorcizar. Marnie é tudo o que Anna não é e sonha ser: linda, risonha, de cabelos compridos e sempre com vestidos, destemida e... com uma família. É em Marnie que Anna encontrará ou descobrirá, finalmente, o amor. Curioso que, com o convívio, Anna absorva todas as características da amiga, esvaziando-lhe os encantos. Trata-se de um processo expiatório e curativo, capaz de absolvê-la de culpas que não tem e de livrá-la de um eventual suicídio... A  relação das entre Anna e Marnie não é senão um ritual de crescimento e amadurecimento e Marnie uma ponte para o futuro: um futuro de desejados bem-estar e felicidade.

É impossível terminar de assistir ao filme e não sentir um rombo no coração. É provável, inclusive, que a lágrima escorra. Afinal, as últimas revelações são absolutamente arrebatadoras e estamos perante uma obra que se alicerça em sentimentos genuínos, que se nos abre de coração cheio e que nos convoca um equiparável nível de entrega. Memórias de Marnie é, por tudo isto, magistral pedaço de cinema, com os traços e a aura Ghibli mas com identidade própria. Uma pérola visualmente deslumbrante, desenhada e pintada com excelência, cujas cores vívidas e marcantes dificilmente se apagarão da memória do espectador.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PORCO ROSSO - O PORQUINHO VOADOR (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Kurenai no buta
Realização: Hayao Miyazaki
Vozes: Shûichirô Moriyama, Tokiko Katô, Bunshi Katsura Vi, Tsunehiko Kamijô, Akemi Okamura, Akio Ôtsuka, Hiroko Seki, Reizô Nomoto, Osamu Saka, Yu Shimaka

Crítica:

OS PIRATAS DOS CÉUS 

Porco Rosso é tanto mais do que um prodígio visual da tradicional animação de Miyazaki e dos estúdios Ghibli.

É uma divertidíssima comédia, onde se multiplicam as situações mais caricatas e onde brotam as personagens mais espontâneas e inesperadas (recordo, por exemplo, as quinze pequenas meninas raptadas pelos piratas dos céus, logo na abertura, de coragem e inocência desarmantes). É um filme de acção, no qual se superam as perseguições da maquinaria e as manobras mais alucinantes, rasgando as nuvens e as alturas. É uma história de aventuras, com bons e maus a partilharem acontecimentos extraordinários e que fazem tréguas somente no bar da Gina, para beber uns copos, fumar uns cigarros e desfrutar dos prazeres da vida. É um romance adiado, entre a famosa cantora da ilha e o aviador enfeitiçado: há uma eternidade que a charmosa mulher o espera nos seus jardins, mas o porco tem vergonha da sua aparência e não se acha digno dos seus encantos e atenções. Surge também Fio, a jovem engenheira, que depressa se torna o motor da história, capaz de alavancar as mais resistentes engrenagens. Porco Rosso assume-se, não raras as vezes, aliás, como uma ode ao feminino, desempenhando as mulheres os papéis mais maduros e destemidos, face às agruras das circunstâncias e à infantilidade dos homens, que se entretêm entre competições e lutas absurdas. A possibilidade do amor é inebriada pela sombra da tragédia - o passado tem um peso decisivo no desenrolar dos acontecimentos presentes e, por isso, os flashbacks revelam-se essenciais para o aprofundamento da história e das personagens. Num desses flashbacks, absolutamente fantástico e belo, transgridem-se as fronteiras da metafísica e a obra abre portas a um entendimento mais filosófico.

A história original de Miyazaki, ao passar-se num espaço e tempo específicos - o Mediterrâneo dos anos 30, no intervalo entre guerras - inscreve-se ainda no retrato histórico.  Porco sabe-se um desertor desonrado, sente-se um mercenário hediondo e não o bravo herói que todos reconhecem nele. O outrora Marco sabe perfeitamente: a guerra transforma os homens em porcos. E a sua aparência mágica não é senão a materialização de um castigo superior. A aparência original e, com ela, a redenção, julga-as de todo impossíveis. As boas acções podem quebrar o feitiço. E o amor genuíno e o beijo, qual Princesa e o Sapo. A inspiração da fábula está lá, mas Porco Rosso não chega a sê-lo propriamente. O filme enche-se de liberdades artísticas, típicas da animação, porém jamais se distancia por aí além do real. Da fábula tem apenas apontamentos e, por fim, a solução.

- Qual é a diferença entre lutar numa guerra e ser um mercenário?
- Só os desonestos ganham dinheiro com uma guerra. Mas só os idiotas não ganham dinheiro como mercenários.

A cada género ou sub-género que o filme sobrevoa, destila-se uma paixão fervorosa pela aviação, que a eclética banda sonora de Joe Hisaishi acompanha com todo o carinho e entrega. Aliás, as proporções tanto dramáticas quanto oníricas que Porco Rosso atinge devem-se essencialmente à mágica relação das pinturas em movimento, sempre deslumbrantes, com as envolventes músicas do compositor. As notas do seu piano são um autêntico milagre.

Porco Rosso tanto é um adorável filme para crianças como salta para um doloroso filme de adultos, cheio de conotações, leituras e lições históricas, políticas e sociais. É sobretudo, diria, um filme profundamente humano. E, talvez por isso, um dos meus preferidos do mestre Miyazaki.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★  
Título Original: Hotaru no haka
Realização: Isao Takahata

Filme de Animação

Crítica:

O REFLEXO DA GUERRA

 Porque é que os pirilampos morrem tão cedo?

As consequências da guerra são profundamente trágicas e desoladoras - afirmá-lo chega a ser constrangedor para alguém que - como eu - só sabe da guerra o que viu no cinema, do que dela ouviu falar aqui e ali. Quem nunca a sentiu na pele e na alma é, certamente, alguém mais feliz, que deverá dar valor ao tempo e às circunstâncias privilegiadas em que vive. Pergunto-me, em consciência, quantos filmes terão o poder de nos desarmar e de nos confrontar com a dura e cruel realidade da guerra com a eficácia e a carga dramática deste comovente O Túmulo dos Pirilampos, de Isao Takahata. Não deixa de ser curioso que seja uma animação, quase servida de um neo-realismo improvável, a consegui-lo tão veementemente. 

Talvez por ser uma animação, precisamente, O Túmulo dos Pirilampos apele mais à inocência e à criança que houve em nós e nos convoque a memória e a nostalgia dos anos passados. Lembramos - até por mérito da banda sonora de Michio Mamiya, sempre tão sonante e envolvente - os tempos passados com a nossa irmã ou com o nosso irmão, mais novo ou mais velho. Recordamos aquele sentimento de proteção ou de responsabilidade para com ela ou ele, as horas em que brincámos juntos, que corremos livremente pela praia, um atrás do outro. Por isso, identificamo-nos plenamente com os protagonistas: Seita (um pré-adolescente obrigado a crescer pela força dos acontecimentos) e Setsuko (a pequena desprotegida).

Os bombardeamentos aéreos dos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, enchem o céu de chamas e impõem, em terra, um cenário de miséria e destruição. O pai de ambos está ausente na Marinha (não chegando a responder-lhes às cartas nem por uma vez) e a mãe é brutalmente ferida durante um ataque. Quando acaba por falecer, não resistindo aos ferimentos, os dois irmãos, quais órfãos, são recolhidos por uma tia que os despreza, que lhes vende os bens da mãe e que lhes fica com uma considerável parte do arroz, negando-lhes mais tarde a refeição (uma vez que não trabalham e que, sendo assim, não colaboram para o pagamento das despesas). O egoísmo e a maldade da tia são de tal modo hediondos que chegará a contar à pequena Setsuko - como viremos a descobrir mais tarde - que a mãe morreu, apesar de ter garantido a Seita que a pouparia, para já, ao desgosto. Certo dia, para proteção de ambos e para felicidade da tia, Seita decide-se a partir com a irmã, sem destino determinado, sem sítio para pernoitarem. Acabam por arranjar um abrigo e, a história que se segue, é uma história de dificílima sobrevivência. Do esforço do irmão para divertir a pequenina (já que a seriedade dos acontecimentos lhe retirou o direito de brincar, ao menos que não o retire à irmã), de comprar e de mais tarde roubar escassos alimentos para alimentá-la (a fome e a desidratação acabarão por adoecê-la). A irmã é sempre a prioridade, a coisa mais importante da sua vida e do seu coração. Tudo aquilo que Seita faz por ela, fá-lo porque a ama mais do que a todas as coisas e porque sente que é essa a sua obrigação, de zelar por ela, para que os pais, estejam onde estiveram, fiquem orgulhosos e radiantes com o seu desempenho. De um dia para o outro, Seita torna-se um pai e o desafio é extremo e demasiado para um miúdo da sua idade. Bem que tem esperança durante todo o filme, mas é vencido pela desgraça. Inocentes crianças, que não mereciam tal infortúnio. A situação agrava-se, só se têm a eles e ninguém os ajudará, até porque em tempo de guerra todos precisam de ajuda. A perda e o sofrimento dos inocentes é infame. O desfecho, depreendemos pela abertura, será o mais trágico - muito mais do que fazer o enterro a pirilampos não mais luminosos.

Em termos de virtuosismo da animação, Isao Takahata não chega à qualidade artística e poética do mestre Hayao Myiazaki, é certo. Veja-se que, no mesmo ano, Myiazaki deslumbrava o mundo com o seu maravilhoso e infantil O Meu Vizinho Totoro. Contudo, aquilo que Takahata atinge neste assombroso filme foi coisa que nenhum filme de Myiazaki jamais tentou alcançar, porque são artistas diferentes e a visão deste O Túmulo dos Pirilampos é  singular. Aqui, a animação não é mais a mágica, fantástica e enternecedora animação para crianças, lírica muitas vezes, como é característica dos estúdios Ghibli. É, com uma clarividência notável e assustadora, uma representação da guerra (e das suas consequências) muito mais real e humana do que a de muitas obras cinematográficas até então filmadas em live action. Há sangue, morte e dor em O Túmulo dos Pirilampos, pela experiência e olhar de duas crianças... é, verdadeiramente, a representação plena do fim da inocência. E é tão lúgubre, naturalmente, sem qualquer possibilidade de um final feliz.

Compreende-se, pois, porque O Túmulo dos Pirilampos marcou a história da animação e o coração de muitos espetadores. A sua narrativa, a partir do romance de Akiyuki Nosaka, é a força e a verdade do filme, tanto mais do que os seus méritos visuais. A quem é que, às tantas, o simples acto de chamar pelo irmão, repetidamente - Seita! Seita! Seita! -, não parte o coração? Filme tremendo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

HERÓI (2002)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Ying Xiong
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Jet Li, Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Chen Daoming, Donnie Yen, Daoming Chen, Zheng Tia Yong, Yan Qin, Chang Xiao Yang, Ma Wen Hua, Wang Shou Xin, Jin Ming, Xu Kuang Hua

Crítica:

A LENDA DO HERÓI SEM NOME
OU O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO


O maior feito de todos é conseguido 
pela ausência da espada tanto na mão como no coração.

São poucas as obras de arte, desde que há cinema, capazes de rivalizar com a pureza e a beleza poética deste Herói, esmagadora obra-prima visual de Zhang Yimou. É, com toda a certeza, um dos mais belos filmes de sempre. Depois do virtuoso O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, ter aberto as portas do cinema oriental ao mundo, como há muito não acontecia, eis que, pelas mãos dos mesmos produtores, os épicos de artes marciais - os wuxia, daqueles que desafiam a gravidade e a imaginação - atingem o seu máximo esplendor. As lendas do nascimento da China e da edificação da Grande Muralha inspiram um argumento arrojado: qual Rashômon - Às Portas do Inferno, de Kurosawa, Herói esculpe o seu diamante jogando com as sucessivas perspetivas das personagens sobre os mesmos acontecimentos, o que resulta numa desafiante odisseia interpretativa para o espetador, aliada a um deslumbrante e arrebatador festim de cores e emoções.

Há dois mil anos (...) a China estava dividida em sete reinos. Durante anos bateram-se pela supremacia enquanto os seus povos sofriam. O mais temível no desejo de conquistar terras e de tudo unificar debaixo dos céus era o rei Qin. Era visto pelos outros seis reinos como um inimigo comum. Os anais da história chinesa abundam de narrativas sobre assassinos enviados para matar o grande rei. Eis uma dessas lendas...

O protagonista Sem Nome, interpretado por um frio Jet Li - o anonimato não deixa de possuir uma forte carga simbólica - tem a honra de ser recebido pelo rei Qin (Daoming Chen), a uns escassos dez passos, para a entrega das espadas de Céu (Donnie Yen), Neve Esvoaçante (Maggie Cheung) e Espada Partida (Tony Leung Chiu Wai), os três assassinos mais procurados e com a cabeça a prémio, até então jamais apanhados, desde uma tentativa passada e falhada de regicídio. A oferta das espadas significa que Sem Nome os derrotou, apesar da sua fama de invencíveis. O rei anseia agora tomar conhecimento da sua versão dos acontecimentos. Mas a história que o herói lhe conta é tão inverosímil que o rei jamais acreditaria no seu conto. Eis que sua majestade o confronta, com uma possível versão mais plausível. E como não há duas sem três, Sem Nome acaba por contar uma terceira versão, menos fantástica e muito mais fiel à realidade. O filme consiste na audiência real e na contraposição/esgrima de argumentos e perspetivas. A palavra como arma. É fascinante acompanhar a retórica de cada um e o desvendar do mistério. No final, até a chama das velas aponta para a verdade. A identidade do herói é afinal outra e não passou tudo de um plano para tentar assassinar Qin de uma vez por todas. Curioso que o significado do caracter, a vigésima forma de escrever espada, apele à diplomacia para a resolução do conflito, à paz pela palavra e que por ela se reja a honra dos heróis e dos grandes Homens. É a demanda de Sem Nome que acaba por desencadear o nascimento do império e a sua filosofia.

O genial trabalho de cinematografia de Christopher Doyle, em constante harmonia com a paisagem ou a cenografia (Tingxiao Huo, Zhenzhou Yi), transcende-nos em absoluto. Vermelho, azul, branco, verde... o jogo de tonalidades resulta magistralmente na diferenciação das várias linhas diegéticas. Também no guarda-roupa o arrojo é notável e cooperante com esta estética colorida e maravilhosa. A banda sonora de Tan Dun, profundamente espirituosa, perpetua o encantamento e os efeitos especiais (quase impercetíveis de tão sofisticados) aliam-se à criatividade mágica da obra. Confluem-se, subtilmente, com a estética das lutas e das fabulosas sequências de acção. Os comoventes desempenhos de Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai ou Daoming Chen sobressaem e dão vida e alma à lenda. Cenas memoráveis? Inúmeras e já antológicas: a luta entre Sem Nome e Céu, entre os pingos da chuva. O ataque do exército real à escola de caligrafia. O confronto enraivecido entre Lua (Zhang Ziyi) e Neve Esvoaçante; ambas de vermelho, qual bailado, entre as folhas caídas e douradas. O duelo entre o herói e Espada Partida sobre o lago. A cada golpe de espada não há violência, apenas lirismo. Cada plano, cada enquadramento, ousa tocar o divino. É como pintura em movimento. Que mais poderíamos pedir de uma obra de arte?

Zhang Yimou, apaixonado e inspiradíssimo, filma com o maior sentido de espetacularidade e extravagância. Herói impõe-se, pois, como um colossal exemplo de perfecionismo e megalomania. Mas Yimou jamais se perde nos excessos: Herói é, afinal, um filme profundamente intimista e um exercício de extrema sensibilidade na forma como jamais descura a dimensão e as relações das suas personagens. É ainda meditativo e contemplativo quanto baste. Enfim, uma obra-prima delirante e incontornável. Dá a sensação que a perfeição existe, a cada instante imperdível.

domingo, 18 de agosto de 2013

DOLLS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dolls
Realização: Takeshi Kitano
Principais Actores: Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Tatsuya Mihashi, Chieko Matsubara, Kyôko Fukada, Tsutomu Takeshige, Nao Omori, Hawking Aoyama, Yuuko Daike, Ren Osugi, Kayoko Kishimoto

Crítica:

O INVERNO DO AMOR

Dolls é um filme profundamente cruel, tanto para as suas personagens como para o espectador. Kitano filma o amor em tons de tragédia, conduzindo as suas personagens para o abismo, qual manipulador de marionetas do Bunkaru. O teatro tradicional japonês e as suas desgraçadas histórias são o ponto de partida, a assumida fonte de inspiração para o mosaico que, engenhosamente, se comporá. No Bunkaru, aliás, é filmado o prólogo, mais a jeito de epígrafe, com que o filme abre; o que não deixa de ser insólito. É desmascarada, de forma mais do que evidente, a artificialidade da representação, inaugurando linhas de sentido que serão sustentadas ao longo de toda a obra. As personagens são a concretização plena da mimesis. Os actores personificam o momento em que os bonecos ganham vida. O cineasta está escondido, mas decidirá sempre o destino das suas marionetas.

Dolls é, provavelmente, o filme mais belo de Kitano. Refiro-me ao lirismo visual almejado e por demais alcançado, à poética construção da imagem que se impõe. Essencial, para o efeito, o jogo simbólico de cores fortes, em especial do vermelho. O vermelho que é amor e sangue, no cordão que liga os dois vagabundos e no vestido da eterna espera. Há vários aspectos notáveis e intensamente significantes: a fotografia de Katsumi Yanagijima (multiplicam-se as imagens memoráveis, de encantos vários), a montagem (a cargo do próprio realizador, com sobreposições poderosíssimas) e a banda-sonora (do lendário Joe Hisaishi, que amplifica a dimensão humana e intimista de todo o retrato). São muitas, as cenas que nos conquistam pela sua simplicidade (seja somente pelo enquadramento ou pela expressividade ou inexpressividade dos elementos cénicos), mas todas elas nos imbuem na essência sentimental e entristecedora da obra. O casal Sawako e Matsumoto, pela sua singularidade e simbolismo, merecerão com certeza um lugar de destaque entre os mais icónicos pares românticos da História do Cinema.

O amor resiste ao tempo? Um sopro de melancolia estremece cada amante e percorre cada história. Os fios enleiam-se, mas a borboleta está partida, o coração despedaçado, o destino irreversível e irremediável. Desolador em todos os silêncios, no vazio e na impossibilidade das uniões, Dolls atinge-nos como uma experiência desarmante e contemplativa, plena de romantismo. A câmera, graciosa no movimento, conduz-nos o olhar para a cegueira, para a solidão a que se entregam aquelas almas. O amor de Kitano atravessa as quatro estações, mas é no Inverno, sempre mais rigoroso, que é conhecido o fim. É paradoxal, que a esperança mova aqueles fantasmas, quando não têm futuro. É neste paradoxo que reside a tragédia.

Grande filme.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ADEUS, MINHA CONCUBINA (1993)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Ba Wang Bie Ji
Realização: Kaige Chen
Principais Actores: Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Li Gong, Qi Lu, Da Ying, You Ge, Chun Li, Han Lei, Di Tong

Crítica:

A ÓPERA DE PEQUIM

Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. 
Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?
Mestre Yuan

Assisti ao magistral Adeus, Minha Concubina. Poucos filmes terão aguardado tanto tempo, na minha prateleira, por serem vistos e descobertos. A razão por que me decidi a vê-lo foi a mesma que justificou a sua espera: nenhuma em particular. Vislumbrado o filme, o que dizer? Quando uma obra de arte se transcende e nos transcende, revela-se extremamente difícil escapar à poesia ou à crítica impressionista... O perfume ficou, as memórias estão intoxicadas pelo seu mistério e sedução.

Adeus, Minha Concubina será, justamente, uma das pérolas maiores do cinema chinês. Imortaliza a beleza, o candor e o profundo dramatismo da tradicional e popular Ópera de Pequim; por meio dessa representação faz-se a homenagem, tanto dessa espirituosa forma de teatro como da arte em geral. A exuberância visual - da caracterização ao guarda-roupa e aos cenários - pinta uma tela viva de cores quentes e de exotismo. É verdadeiramente assombrosa, pois, a fotografia de Changwei Gu. Nos seus contornos épicos, a obra concretiza também uma viagem no tempo durante mais de cinquenta anos, desde a China do Generalissimo, ainda nos anos 20, à ocupação japonesa durante a 2ª Guerra Mundial, à chegada do comunismo e à Revolução Cultural dos anos 60, que imporia transformações especialmente devastadoras na vida das personagens principais, actores da Ópera, outrora adorados e agora humilhados pelos tumultos da modernidade. Adeus, Minha Concubina é tudo isto. Mas não é tudo isto senão o pano de fundo para o essencial, que é o romance impossível, o percurso extraordinário e a tragédia íntima, pessoal e profissional de Cheng Dieyi (visceral e inesquecível desempenho de Leslie Cheung) e o triângulo amoroso que se edifica em torno dele, do amigo e colega de infância Duan Xiaolou (Fengyi Zhang) e de uma filha d'A Casa das Flores, Juxian (Li Gong). 

Filho de uma prostituta - por isso, desde cedo estigmatizado - Dieyi é entregue ainda criança à rígida, violenta e revoltante formação da Ópera de Pequim. Perde-se um dedo e qualquer outra possibilidade de destino. Dieyi apresenta o perfil ideal - pela sua fisionomia e sensibilidade - para vir um dia a desempenhar o papel principal de concubina, na peça que dá nome ao filme. É forçado a assumir-se como uma rapariga, numa espécie de ritual fundamental para personificar o papel. O certo é que todos estes factores se reflectirão mais tarde no desenvolvimento das suas personalidade e sexualidade (notar-se-á o fanatismo e o perfeccionismo estético ou a paixão incondicional por Xiaolou). Com o tempo e naturalmente, Deiyi acabará por assumir o papel de concubina também na vida real, em toda a sua intensidade e complexidade, unificando as duas dimensões (a real e a teatral) e entregando-se, desse modo, à traição e à fatalidade às quais a sua personagem está inevitavelmente condenada. O argumento (Pik Wah Li, Bik-Wa Lei e Wei Lu) é, em toda a sua construção, um empreendimento de notável inteligência, ostentando the lushness of Bertolucci - referência ao excelso e, em certos aspectos, equiparável O Último Imperador - and the sweeping narrative confidence of an old Hollywood epic*. Eis, provavelmente, uma das razões que justificam o êxito e o reconhecimento crítico do filme no ocidente. Na China, a honestidade e a ousadia do testemunho motivou a acção da censura, antes ainda de qualquer leitura artística; o que é compreensível, ou não tivesse o filme de Chen tamanho significado e impacto político. A Revolução Cultural traiu a própria China, a sua própria identidade e encarar o espelho nem sempre é fácil. 

Longe de terminar a reflexão, voltam-me à ideia a estranheza e o eco daquele canto, a graciosidade dos movimentos em palco, o encanto de tão estilizada e ao mesmo tempo de tão humana obra, o fulgor de tão genuína paixão. É isso que importa. Não se orquestram as palavras para exprimir o filme, mas não faltam as sensações, não se extinguem ou enfraquecem as memórias da experiência. Todos os filmes têm essa dimensão num espectador, todos eles são tanto mais do que palavras. Adeus, Minha Concubina é sublime. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man cheng jin dai huang jin jia
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Li Gong, Yun-Fat Chow, Jay Chou, Ye Liu, Dahong Ni, Junjie Qin, Man Li, Jin Chen

Crítica:

A TRAGÉDIA IMPERIAL

Aquilo que eu não concedo,
não deves tirar à força.
Imperador Ping

Festival de exuberância, banquete de cores e emoções. A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, vive sobremaneira da ostentação visual, barroca em todos os seus obssessivos excessos e detalhes, megalómana em toda a sua escala, como se no máximo requinte da direcção artística (Tingxiao Huo) e do guarda-roupa (Chung Man Yee) atingisse a transcendência. O feito e o efeito alcançado são, aos olhos de qualquer espectador, absolutamente impressionantes. A deslumbrante fotografia de Xiaoding Zhao cristaliza, se ainda alguma dúvida bastasse, esse glorificado ideal da beleza; marca tão proeminente na filmografia de Yimou (veja-se, a título de exemplo, os magistrais Herói e O Segredo dos Punhais Voadores).

Não obstante, A Maldição da Flor Dourada também alcança a sua epicidade característica na sinédoque da tragédia familiar, protagonizada pela figura central da Imperatriz (Li Gong, numa interpretação brilhante e assombrosa), pelo Imperador (Yun-Fat Chow) e pelos três príncipes descendentes (papéis de Jay Chou, Ye Liu e Junjie Qin). O restante elenco de luxo concretiza esta trama de segredos e de relações incestuosas, de poder e de submissão, de conspiração e de intriga palaciana. Uma história de família e uma batalha interior, encerrada nos confins da Cidade Proibida, mas simultaneamente o reflexo da cultura e de uma sociedade no tempo - o povo chinês durante a dinastia Tang, século X. Depreende-se facilmente a mise-en-abyme. Afinal, qualquer golpe familiar no seio daqueles corredores arco-íris constituirá sempre um derradeiro golpe de estado, tendo consequências imediatas no destino da nação. No final, ressalve-se a moral... Seguir o caminho certo, desafiando a razão e abraçando a coragem, mesmo que traindo a instituição que se representa e da qual se faz parte. Mesmo que conhecendo, de antemão, a impossibilidade da nossa missão.

A Maldição da Flor Dourada não é, de todo, o melhor filme de Zhang Yimou; falta-lhe a subtileza e o virtuosismo com que aprimorou outros pedaços de arte, no passado. Contudo, jamais se lhe poderemos negar as qualidades, que são tantas e tão evidentes - a nível da banda musical (Shogeru Umebayashi) e sonora (Jing Tao e Roger Savage), nomeadamente. Pela sua aura, candor e exotismo, ser-me-á sempre um filme irresistível.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

OS CONTOS DA LUA VAGA (1953)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Ugetsu monogatari
Realização: Kenji Mizoguchi
Principais Actores: Masayuki Mori, Machiko Kyô, Kinuyo Tanaka, Eitarô Ozawa, Ikio Sawamura

Crítica:

O PREÇO DA AMBIÇÃO

Quem tudo quer, tudo perde, já diz o ditado, e a Os Contos da Lua Vaga, aclamado filme de Mizoguchi, poucas máximas lhe poderiam assentar tão perfeitamente. Pese o acentuado travo de moral e tragédia que, em crescendo, configura o retrato, eis a perdição do Homem que, sem valorizar os seus pilares fundamentais - já adquiridos - condena-se a si próprio à destruição. Menosprezando a família, irresponsavelmente, desprezando-a até e abandonando-a à sorte na cega esperança de um dia cumprir os seus desígnios, avançam os tolos para o precipício. Numa perspectiva cristã, pisariam o Paraíso sedentos da posse de glória e atravessariam o Purgatório, pleno de espectros sedutores e amaldiçoados, rumo ao Inferno irreversível.

Genjûro (Masayuki Mori) e Tobei (Eitarô Ozawa) são vizinhos, manuseiam a arte e a terra. O primeiro sonha ser rico, o segundo sonha ser guerreiro samurai, ambos de fama e reputação considerável. Insatisfeitos com o baixo reconhecimento da sua condição social, acabam por deixar a família, a casa e a terra, abraçando a ilusão. A guerra civil bate-lhes à porta, sem piedade, anunciando o infortúnio.

Quem só procura a glória,
faz sofrer os que o rodeiam.

Do estilo de Mizoguchi denota-se um imenso e apurado sentido visual (deslumbrante e encantatória, a fotografia de Kazuo Miyagawa, tão escura quanto cintilante em todas as nuances da iluminação. Há quadros belíssimos, por entre a fluidez dos planos-sequência). A montagem e a extraordinária orquestração de música (Fumio Hayasaka, Tamekichi Mochizuki, Ichirô Saitô) e sons conferem à obra uma dimensão fantasmagórica e espiritual, bem antes da natureza sobrenatural ou mística de algumas das personagens. O argumento, misto das ideias de vários criadores, desenvolve a trama com um doseamento equilibrado do mistério e da revelação.

Às tantas, a aparente ascendência do percurso obsessivo sai da sombra e a queda mostra-se profundamente cruel e sentensiosa. Separados pelo destino, cada marido e cada mulher acolhe a desgraça. As almas de outrora, penadas, cantam o adeus e a memória. O final de Tobei e da mulher Ohama acaba por confrontá-los com a dureza das circunstâncias e com a inevitabilidade da vida - profundamente irónico, o reencontro no bordel -, mas sobretudo o poético e transcendente desfecho de Genjûro e da esposa Miyagi, entre as ruínas de Kutsuki e o filho adormecido, vem alertar para as derradeiras consequências do egoísmo e do orgulho, da traição, da inveja e da vaidade: a dor da solidão e o vazio existencial. O verdadeiro ouro esteve sempre ali... e foi posto em causa por tão levianos devaneios.

Certamente, um clássico absoluto e intemporal.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

FELIZES JUNTOS (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Chun gwong cha sit
Realização: Wong Kar Wai
Principais Actores: Leslie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Chen Chang, Gregory Dayton, Shirley Kwan

Crítica:

COMEÇAR DE NOVO

Acontece que as pessoas solitárias...
...são todas iguais.

O fluir do tempo, a cadência dos corpos, a fragilidade da relação amorosa. O tango, Piazzola. As Cataratas de Iguaçú, Caetano Veloso e o seu Cucurrucucu Paloma. Imponente, o esplendor da imagem e a força das águas cadentes, naquela saturação azulada. Numa explosão de cores, a paixão cega e tórrida, o tempestuoso envolvimento de Yiu-Fai e Po-Wing. Num reluzente preto e branco, um postal de Buenos Aires. Magistral e eclético, o trabalho de fotografia de Christopher Doyle.

Não há dinheiro, há desejo e loucura, tanta esperança quanto insensatez. Há uma dependência quase inexplicável, uma cedência perpétua à ilusão, um repetido começar de novo, como se a cada tentativa vingasse a possibilidade. Há solidão, sobre todas as coisas, na fuga à incompreensão da família e à sociedade inquisitória. A cada take, a sensibilidade lírica do amor. Funde-se um frágil, muito embora requitado, formalismo visual com as linhas de um argumento que se escreve no momento, de acordo com a fugacidade dos sentimentos. Memorável, o desempenho de Tony Leung. Arrepiante, o desabafo para o gravador. Catártico, o alongado plano final...

Hajam poetas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O SEGREDO DOS PUNHAIS VOADORES (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shi mian mai fu
Realização: Zhang Yimou 
Principais Actores: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Ziyi Zhang, Dandan Song

Crítica:

A DANÇA DO VENTO

Uma pérola de cores e encantos, sedutoramente belo. Um puro regalo para os sentidos, visualmente arrebatador, cristalino nos sons e nas melodias. De um sublime romantismo, O Segredo dos Punhais Voadores continua o percurso de excelência do cineasta Zhang Yimou.

A magnificência da obra estende-se, magistralmente, a todos os departamentos: tecnicamente, note-se a deslumbrante e mágica fotografia de Xiaoding Zhao, a exímia montagem de Long Cheng ou o sumptuoso guarda-roupa de Emi Wada. A paisagem e o primor estético da direcção artística (Tingxiao Huo, Zhong Han e Bin Zhao) perpetuam a arte do belo. No notável virtuosismo da arte de filmar, o slow motion e a graciosidade dos movimentos, que ecoam na excepcionalidade das coreografias. Extrema sensibilidade na perfeição dos enquadramentos, que absorve o espectador numa espiritualidade que o extasia e pacifica, continuamente. Subtil e extremamente eficaz, o recurso aos artifícios digitais.

No argumento, fluído como o vento, há poesia nas palavras. Ziyi Zhang e Takeshi Kaneshiro - quão talentosos se assumem os jovens actores - protagonizam a paixão central, inesperada e irresistível, tão intensa quanto proibida, ameaçada e condenada ao mais trágico dos destinos. Andy Lau compõe o terceiro vértice, no jogo de estratégias e aparências, máscaras e farsas partilhadas entre os guerreiros do governo e os rebeldes do clã - às tantas, sacrificando o seu próprio segredo, o seu próprio coração.

A cegueira da qual Mei padece é, ela própria, um elemento fundamental na construção da ilusão, tanto a um nível diegético como a um nível metadiegético, na percepção e compreensão que o espectador tem ou vai tendo, surpreendentemente, da história. As cenas memoráveis são incontáveis, os destaques vão para as fabulosas sequências de acção, com lutas de cortar a respiração, para as cavalgadas e perseguições nas florestas, ou para aquela dança inicial dos tambores.

Magnífica execução. Um clássico instantâneo e absolutamente apaixonante.

sexta-feira, 18 de março de 2011

KIKI, A APRENDIZ DE FEITICEIRA (1989)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Majo no takkyûbin
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Crítica: Uma jovem e insegura bruxinha, sempre acompanhada da sua vassoura voadora e do seu gato preto, cujo talento é ajudar os outros. No mais apurado e colorido requinte visual, Miyazaki conta-nos mais uma das suas adoráveis fábulas sobre bondade e inocência, plenas de esperança na humanidade. Do campo vs. cidade ao eterno fascínio do homem pelo vôo, a descoberta da amizade e a afirmação da essência individual. Lindo filme.

domingo, 13 de março de 2011

NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kaze no tani no Naushika
Realização: Hayao Miyazaki


Filme de Animação

Ainda que sem o prodígio técnico das mais recentes obras do cineasta, um épico belíssimo e muito bem construído, com personagens sólidas e com um argumento poderosíssimo, da maior consciência ecológica.
[Crítica em espera]

sábado, 22 de janeiro de 2011

O MEU VIZINHO TOTORO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tonari no Totoro
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A MAGIA DE SER CRIANÇA


Se há obra sobre a infância e durante a qual me vejo a regressar nostalgicamente ao passado, essa obra é O Meu Vizinho Totoro, realizada por Hayao Miyazaki. Creio, francamente, que o aclamado mestre da animação japonesa concebeu, ao longo da sua carreira, obras tecnicamente superiores a esta; veja-se, por exemplo, O Castelo no Céu, Princesa Mononoke ou A Viagem de Chihiro; cada título mais belo do que o outro. No entanto, acredito que a virtude maior de Totoro é o seu âmago narrativo, deveras especial, pelo qual se distingue dos demais. Aqui não há vilões, não há maldade, não há intriga ou trama propriamente dita ou uma história com princípio, meio e fim, no sentido convencional da expressão. A aquarela, de um esplendor visual arrebatador e absolutamente fascinante, floresce, a um ritmo tão calmo, a partir das situações do dia-a-dia, da espontaneidade das circunstâncias, até que ganha riqueza e complexidade semântica e interpretativa com a fertilidade do imaginário infantil.

A história de
O Meu Vizinho Totoro inicia-se com a mudança da família Kusakabe para o campo, entre prados verdejantes, águas cristalinas e uma floresta misteriosa, por causa da recente hospitalização da mãe na proximidade. As irmãs Mei (a mais nova) e Satsuki (a mais velha) viajam com o pai, muito animadas, até que chegam a uma casa aparentemente assombrada e a sua criativa imaginação desperta. Fantasmas, acreditam. A exploração da casa e dos arredores torna-se facilmente uma aventura, onde a magia despontará até das bolinhas pretas da fuligem: espíritos da floresta, místicos rituais, um gato-autocarro, e um trio de animais tão fofinhos quanto monstruosos, que facilmente poderia comparar a bonecas russas, caso estas mudassem de forma. Entre eles, o gigante e caricato Totoro. Só as crianças podem ver estas incríveis maravilhas - as crianças são, afinal, seres privilegiados. A possível morte da mãe e necessidade de assumir responsabilidades (inerentes ao crescimento) são os únicos factores que põem à prova a alegria e a união da família; a família que, ela própria, nos é apresentada como um elemento fundamental na vida e no equilíbrio dos homens. Notável, aquela simples cena em que pai e filhas tomam banho nus com a maior naturalidade do mundo. Quem se lembraria de inventar uma cena destas para um filme tão marcadamente infantil? Lá está, que pureza. E que delicadeza, aquela que Miyazaki aplica no manejar das emoções entre as personagens. Que sensibilidade.

O deslumbramento do espectador faz-se frame a frame e cada frame é, com o devido primor e requinte, pintado à mão. A banda sonora de Joe Hisaishi é qualquer coisa de extraordinário: há melodias divertidas, outras emocionantes e envolventes, umas emanam saudade... todas emanam vitalidade. Magistrais composições.

No seu todo, O Meu Vizinho Totoro não é senão o regresso à pureza original, onde há bondade e segurança ao virar das esquina, e à verdadeira idade da inocência, onde abunda a felicidade plena. Um milagre de filme. Fabuloso.

domingo, 5 de dezembro de 2010

2046 (2004)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: 2046
Realização: Wong Kar Wai
Principais Actores: Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Faye Wong, Gong Li, Takuya Kimura, Carina Lau, Chang Chen

Crítica:

O SEGREDO

Todas as recordações são rastos de lágrimas.

O título 2046 parece invocar o futuro, mas - antes de tudo - significa uma viagem ao passado. Lembremo-nos que 2046 era, em Disponível Para Amar, o número do apartamento para o qual Chow Mo-wan se mudara, em 1962, precisamente ao lado do de Su Li-zhen; mulher pela qual se apaixonaria para sempre. A relação deles era proibida, estavam ambos casados, e resumiu-se ao platonismo, ainda que o filho que aparece no final do filme sugira um fruto do amor de ambos. Desde o dia em que se despediram, sem que praticamente se tocassem, nunca mais se voltaram a encontrar. Arrepender-se-iam, pois estavam destinados um ao outro.

O amor é apenas uma questão de oportunidade.
De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da altura certa.
Se vivesse noutra época ou local, a minha história poderia ter tido um desfecho muito diferente.

Chow é o narrador. A sua narrativa não obedece a leis cronológicas, saltita por vários tempos, por diversas linhas diegéticas, dando conta dos seus sentimentos, das suas angústias e da forma como toda a sua existência influencia a sua criatividade e o seu universo de escrita. 2046 é, igualmente, o nome do romance que está a conceber; é como que uma ingressão futurista sobre a infindável busca do amor, muito à semelhança da sua vida.

Todos os que vão para 2046 têm a mesma intenção: querem resgatar memórias perdidas. Porque em 2046... nada muda. Mas ninguém sabe ao certo se isso é verdade ou não. Porque nunca ninguém de lá regressou. Excepto eu. Porque eu preciso de mudar.


Viajar ao futuro, no seu romance - e note-se a audácia da ideia -, não corresponde senão a um escape por meio do qual ele próprio regressa ao passado, às suas memórias. Só revivendo as memórias poderá reviver aquele grande amor.

Os anos passaram e ele está diferente. Arrepende-se todos os dias de não ter vivido o hoje no ontem... e, quiçá em busca do tempo perdido, procura o amor em todas as mulheres pelas quais se interessa minimamente. Torna-se um mulherengo, um bon vivant.

Primeiro, conhecemos Lulu - a cantora do clube nocturno de Singapura com a qual Chow se envolvera e que o jornalista reencontra no hotel, a ocupar o quarto 2046. Lulu não se recorda do nosso protagonista, que opta por ocupar o 2047, mas o reencontro proporciona-lhe, a ele, um nostálgico regresso ao passado. Depois, são-nos apresentadas as duas filhas do Sr. Wang, proprietário do hotel. Jing-wen, a mais velha, está perdidamente apaixonada por um japonês, o que motiva intensas discussões com o pai, ao som de uma ópera magnífica, ainda que ensurdecedora para os moradores. A mais nova é uma miúda precoce e irresponsável, com sede de experiências sexuais, que cedo foge e deixa a família. Em seguida, é-nos introduzida a nova ocupante do 2046: Bai Ling. Os dois virão a envolver-se ardentemente, mas Chow limitar-se-á a usar essa irrersistível mulher, pagando-lhe os préstimos sexuais. Prostituta. Bai Ling, contudo, deixar-se-á envolver demasiado e apaixonar-se-á verdadeiramente... Ah Ping, o editor e amigo do jornalista, bem que a alerta que ele não é de confiança: Chow tem em Bai Ling uma oportunidade para se sentir realmente amado. Não obstante, jamais conseguirá substituir Su Li-zhen no seu coração. As memórias do passado não se extinguem.

Encontremo-nos novamente. Se continuares a achar que não devemos estar juntos, diz-mo sinceramente. Naquele dia, há seis anos, formou-se um arco-íris no meu coração. Ainda lá está. Arde como uma chama dentro de mim. Mas qual é a verdadeira natureza dos teus sentimentos por mim? São como um arco-íris, que se forma depois de uma chuvada? Ou será que... esse arco-íris se desvaneceu há muito? Espero uma resposta tua.

Quando Jing-wen regressa ao hotel, o seu amor proibido com o japonês continua... Chow revê-se naquela relação adiada... e torna-se amigo da jovem. Primeiro, passa a receber as cartas do enamorado nipónico, evitando as habituais discussões entre o senhorio e a filha. Depois, tornam-se amigos... Têm mais coisas em comum, Jing-wen também escreve e os dois inter-ajudam-se. Há uma altura em que Chow parece confundir as coisas, mas depressa percebe que isso não seria verdadeiro, antes ajudar aqueles dois amantes a unirem-se para sempre e a encontrarem a felicidade. Inspirado nesta história de paixão, Chow escreve 2047, um lúgubre conto entre o herói do seu romance e uma deslumbrante e ternurenta andróide, assistente do comboio (interpretada pela mesma Jing-wen).

Antigamente, se alguém tivesse algum segredo que não quisesse partilhar, subia uma montanha, procurava uma árvore... abria um buraco nela... e sussurrava o segredo dentro do buraco. A seguir, cobria-o com lama. E lá deixava o segredo para sempre...

Eles amam-se, ele deposita-lhe o seu segredo, mas ela hesita em partir com ele e os dois separam-se. Ela espera por ele 10 anos. 100 anos. 1000 anos. E o conto acaba com uma espera interminável, sem esperanças de um reencontro.


Na vida real, todavia, Jing-wen e o namorado acabam juntos. O amor é possível. O pai dela acaba por aceitar a relação e por dizer que o que quer, acima de tudo, é a felicidade da filha. Chow fica surpreendido com o sucesso da relação, com aquela felicidade que pensou inimaginável. Afinal, por 10, 100, ou 1000 anos, valerá sempre a pena esperar pelo verdadeiro amor. Jing-wen lê 2047, identifica-se bastante com a história, mas pede-lhe que altere aquele trágico e triste final. Face a este caso de sucesso, Chow lamenta - uma vez mais - as oportunidades perdidas no passado para amar a Srª Chan e percebe que quando não aceitamos uma resposta negativa, há sempre a possibilidade de conseguirmos o que queremos.

Por fim, em Singapura, aparece-lhe a Aranha Negra. Mais uma mulher, misteriosa e com uma mão enluvada. Coincidência? Chama-se Su Li-zhen. É fisicamente muito semelhante à sua amada de 62. Não é a mesma pessoa, ele sabe disso e esforça-se por convencer-se disso. Mais do que nunca, poderia tentar substituir aquela mulher que o marcou, mas seria mais um erro. No dia que se despediram, ela dise-lhe: abrace-me. Podem passar-se anos antes de nos voltarmos a ver. A invocação daquela fatídica despedida de 62 vem-nos novamente à memória. Desta vez, ele não resiste a convenções, não perde tempo, não quer repetir o passado: beija-a intensamente, demoradamente. Talvez um dia escape ao seu passado. Se isso acontecer, procure-me.

Um dia cruza-se ainda com Bai Ling. Ela ainda o ama. Mas Chow segue a sua viagem:

Ele não se virou para trás. Foi como se tivesse embarcado num comboio muito longo, rumo a um futuro incerto... atravessando a noite insondável.

Visualmente perfeita, filmada com elegância, sedução e intensa paixão artística, eis, pois, uma obra esteticamente irretocável, a começar no trabalho fotográfico de Christopher Doyle e a terminar nas qualidades multifacetadas de William Chang (direcção artística, figurinos e montagem). Os actores, meticulosamente enquadrados, emanam desejo e pura infelicidade na expressividade dos seus semblantes... como que num derradeiro requiem ao amor. Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Faye Wong, Gong Li, Carina Lau... que elenco impressionante. A banda sonora (Shigeru Umebayashi, entre outros) é absolutamente extraordinária, majestosa, inesquecível.

Eis, pois, uma obra-prima incontornável. Um dos mais belos e mais puros pedaços de cinema a que tive o prazer de assistir...

domingo, 28 de novembro de 2010

O TIGRE E O DRAGÃO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Wo hu cang long
Realização: Ang Lee

Principais Actores: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Zhang ZiYi, Chang Chen, Pei-Pei Cheng, Sihung Lung, Fa Zeng Li, De Ming Wang, Yan Hai, Xian Gao


Crítica:

A DANÇA DAS ESPADAS VOADORAS

Uma espada, por si própria, não governa nada.
Só ganha vida em mãos hábeis.


O milénio terminou auspiciosamente: O Tigre e o Dragão é o grande bailado da espada e do espírito. Mergulhado no mais puro romantismo e genuinamente arquitectado pela inspiração do mestre, serve-se da subtileza e da mais refinada elegância para filmar um irretocável misto de beleza, poesia e fascínio.

O deslumbre e a sedução do espetador são crescentes, de episódio em episódio, sobretudo pelo triunfo da narrativa - a viagem revela-se tão alucinante quanto magnetizante - e pelos memoráveis desempenhos do elenco, mas também pelo uníssono quase espiritual estabelecido com todos os departamentos artísticos. Oiça-se a imaculada banda sonora de Tan Dun (que culmina com uma canção belíssima) ou vislumbremos a magnífica fotografia de Peter Pau, sempre aliada aos cuidados da cenografia. Os quase indetetáveis efeitos especiais ou as coreografias de Woo-ping Yuen, ambiciosa e surpreendentemente ritmadas, içam a destreza dos guerreiros pelos ares: as sequências de lutas e vôos sobre telhados, lagos ou árvores atingem um nível nem sempre brutal e violento, todavia transcendente e apaziguador, tal é a sua leveza mágica e mística. O argumento fomenta o espetáculo de emoções, refletindo com assaz sensibilidade o papel da mulher numa sociedade de tradições seculares e toda uma panóplia de valores tais como amor-paixão e amor-platónico, vingança e traição, justiça e igualdade, tragédia e liberdade. O ardente e intenso enamoramento de Jen Yu e de Luo Xiao Hu é, certamente, das analepses mais apaixonantes alguma vez filmadas. E o final de Li Mu Bai, por exemplo, dá-se com uma passagem tão tocante quanto inesquecível: Virei para perto de ti todos os dias como fantasma, só para estar contigo. Mesmo que fosse banido para o lugar mais escuro, o meu amor... impedir-me-ia de ser um espírito solitário. A propósito, grandes atuações de Chow Yun-Fat, Zhang Ziyi, Michelle Yeoh ou Pei-Pei Cheng.

O Tigre e o Dragão não é senão Ang Lee em toda a sua melhor forma e a prova inequívoca de que é um brilhante cineasta em qualquer género. Ambicionava conceber o melhor filme de artes marciais de sempre e não esteve longe disso, com toda a certeza. O Tigre e o Dragão é uma daquelas raras, desafiantes e arrebatadoras obras onde a magia não só é possível como acontece. Com a maior credibilidade. Filme magistral, cujo sucesso abriu, ao mundo, as portas do cinema chinês e, por consequência, do cinema oriental em geral. Um bom augúrio, sendo o ano 2000 para os chineses o ano do Dragão.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O CASTELO NO CÉU (1986)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Tenkû no shiro Rapyuta
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A CIDADE FLUTUANTE


O mundo antigo, o paraíso perdido, o sonho e a fantasia de voar. A lenda, o mito e a mais bela história de encantar, de quando os Homens abandonaram os céus e povoaram a terra. A cidade e o campo, a indústria e a natureza, o choque e os perigos da evolução civilizacional. A importância de estabelecer um equilíbrio, onde o progresso seja guardião da essência natural das coisas. A importância do amor, dos sentimentos e dos valores, numa realidade de ódio, rancor e intolerância. A necessidade de escape e de evasão dos problemas mundanos para um universo fantástico. A experiência e a descoberta da vida, num ritual fundamental de crescimento e amadurecimento. A busca da identidade e a humanização do espírito.

Máquinas voadoras, hélices, rodas e engrenagens, barulho e fumos e, por outro lado, extensos prados verdejantes e floridos, águas cintilantes e cristalinas, ventos mansos e silêncios. Tudo isto povoa o imaginário de O Castelo no Céu. Pazu é um menino feito homem: órfão, vive da ajuda dos amigos e do trabalho árduo nas minas. Não é um escravo do trabalho. É, antes, um engenhoso rapaz que
cedo provou as dificuldades da vida e da miséria e que conhece perfeitamente o peso e a recompensa das responsabilidades. Um dia, cai-lhe do céu uma menina flutuante, iluminada por poderoso e iluminado cristal azulado. A menina dorme, aparentemente em paz, mas o prólogo que antecedeu os créditos iniciais bem que nos deu conta do contexto conflituoso que lhe provocou a queda.

A pequena, de seu nome Sheeta,
é - sem saber - a princesa Lusheeta Toel Ul Laputa, herdeira do fabuloso rochedo. Detém uma raríssima Pedra da Levitação, preciosidade de um mineral ancestral chamado Etério, que a avó lhe dera antes de abandonar o mundo dos vivos e que é a única pista para descobrir o paradeiro da misteriosa ilha, suspensa na imensidão dos céus (a intertextualidade com a obra de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver é obvia. Outras fontes de inspiração são assumidas, como Júlio Verne ou a Bíblia). Por isso é perseguida pelos piratas de Dola e pelos oficiais de Muska, que a todo o custo querem saquear os tesouros da fortaleza errante. Pazu, por sua vez, carrega os sonhos do pai, aviador, que afirmara ter avistado um dia Laputa, sem que ninguém tivesse acreditado nele.

A emocionante e envolvente música de Joe Hisaishi seduz-nos e inebria-nos numa viagem sem igual, numa mágica e extraordinária aventura. Sem limites. A exuberância visual da animação tradicional de Miyazaki deslumbra-nos
. A história faz de nós, espectadores, verdadeiros reféns, vibrando ao sabor da acção desenfreada ou rindo, genuinamente, com as hilariantes personagens que compõem a riqueza plural da narrativa. No final, toda a ambição do Homem conduz à destruição. Robots e gigantes objectos voadores engolem os seus destinos. Quando as ruínas de uma imponente e esplendorosa arquitectura vacilam, a árvore persiste e resiste. A imagem detém uma carga simbólica imensa, que fala por si só.

O Castelo no Céu não é, pois, senão um dos mais maravilhosos e imprescindíveis filmes de Hayao Miyazaki. De um candor etéreo e puro e de uma beleza desarmante, que - certamente - fascinará miúdos e graúdos, gerações após gerações. A mim, conquistou-me por completo e atrevo-me a dizer que é um dos melhores filmes de animação de todos os tempos.

_________________________________________
Louvável, a recente Colecção Estúdio Ghibli que a LNK empreendeu.
Lamentável, no entanto, que a legendagem se faça a partir da dobragem em inglês, que nem sempre coincide com o idioma original japonês que vigora no DVD. Ou seja, são frequentes as legendas que aparecem magicamente no ecrã, sem correspondência sonora.

PRINCESA MONONOKE (1997)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mononoke-hime
Realização: Hayao Miyazaki

Filme de Animação


Crítica:

A NATUREZA, O HOMEM E A MÍSTICA HARMONIA


Sítios mágicos, criaturas falantes, espíritos inquietos, histórias incríveis. Princesa Mononoke não é senão uma dessas extraordinárias criações do mestre Hayao Miyazaki, concebida com assaz sensibilidade e passada nesse rico e fascinante universo de fantasia. Visualmente deslumbrante e encantatória, a história da rapariga que vive entre os lobos e que defende a floresta da destrutiva ambição dos humanos da Cidade do Ferro é também uma aventura épica, de contornos violentos e manchados de sangue. Uma narrativa complexa, metafórica e imersa em símbolos que vem provar que a animação é muito mais do que mero entretenimento para crianças. É a arte do belo, ao nível das mais conceituadas expressões cinematográficas.

Quando o jovem Ashitaka, defendendo o seu povo, é amaldiçoado de morte por um demónio estrangeiro, vê-se no dever de seguir os desígnios da vidente da aldeia e abandonar os Emishi para sempre, procurando a cura nos confins do desconhecido, num Japão onde confluem mitos e referências medievais. Os destinos do rapaz conduzem-no até Tataraba, a Cidade do Ferro, governada por Eboshi - uma mulher tão aplicada na defesa dos seus protegidos (leprosos e refugiadas de bordéis, nomeadamente) como na exploração dos recursos da floresta, para impulsionar a indústria da cidade. Uma mulher, aliás, como qualquer uma das personagens da obra: de natureza ambígua, de natureza humana, longe de maniqueísmos redutores. Ninguém é, portanto, totalmente bom ou totalmente mau. Quando Ashitaka conhece San, a princesa Mononoke, desenvolve para com ela uma enorme cumplicidade: afinal, ela representa a coexistência ideal entre o Homem e a Natureza. Sem nunca tomar uma das posições contrárias, antes lutando pelas duas naquilo que elas têm de melhor, Ashitaka ver-se-á no meio de uma guerra de interesses entre as gentes de Tataraba, os samurais do imperador e os deuses do bosque (sejam eles javalis, lobos ou espíritos mágicos).

A mensagem ecológica subjacente é importantíssima. A alegoria traça o esboço de uma espécie capaz de dizimar os seus recursos naturais, os habitats de inúmeras espécies (vegetais e animais) e que acabará por sofrer a derradeira vingança da Natureza. Desse prisma, Princesa Mononoke é uma viagem espiritual. Um profundo e emocionante reencontro com os nossos valores primordiais, de paz e respeito para com o ambiente circundante - pulmão e coração da Terra e essência da nossa vida.

Detentora de banda sonora magnífica (Joe Hisaishi), de uma fotografia sublime (Atsushi Okui) e de uma montagem notável (Hayao Miyazaki e Takeshi Seyama), Princesa Mononoke irradia esplendor na perfeição do seu desenho e no detalhe da sua pintura. Um clássico instantâneo, magistralmente filmado, emocionalmente poderoso.

CINEROAD ©2019 de Roberto Simões