★★★★
Título Original: Le Scaphandre et le PapillonRealização: Julian Schnabel
Principais Actores: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Max von Sydow, Emma de Caunes
Crítica:
A ETERNA REPETIÇÃO
Quando o corpo aprisiona, só a imaginação liberta. As imagens do escafandro e da borboleta são, por isso, as metáforas perfeitas para a condição castradora em que Jean-Dominique Bauby se vê, inesperadamente. Muita da poesia da obra nasce dessas poderosíssimas imagens. Aparte a poesia, o filme confronta-nos com uma realidade assustadora, de forma íntima e profundamente tocante.
O filme começa com o despertar, o primeiro olhar, após semanas de coma. Da absoluta paralisia escapou um olho e a actividade cerebral, que lhe sustenta o organismo, a sofrida comunicação interior, a limitada comunicação exterior e, afinal, a vida. Se há dom que a obra tem é o de nos pôr no interior da mente do paciente e fazer com que sejamos os espectadores do filme e, noutra dimensão, os espectadores de um só olho, moribundos entre as visitas do hospital. Nós somos a câmera. Tudo aquilo que ela capta é não só o filme como a nossa realidade exterior, como se assumíssemos aquela personagem presa à cama.
A condenação de Jean-Dominique é evidente. Um derrame pode ter inúmeras causas identificáveis; o certo é que tantas vezes atinge as pessoas sem dar indícios claros e capazes de suscitar uma prevenção à altura. A intensidade das consequências varia de caso para caso. Jean-Dominique desenvolveu a síndrome do encarceramento, rara e psicologicamente torturante. A recuperação passaria por um milagre, apenas. E, à escala humana, estamos limitados às nossas possibilidades. Como enfrenta um homem a vida neste estado? Se é que se pode dizer enfrenta... Não admira que o ex-editor da Elle queira a morte... Aliás, o filme se tivesse cheiro seria certamente esse lúgubre odor que habita as alas do adeus. Jean-Baptiste sabe que jamais tocará os cabelos dos filhos, as pernas de uma mulher, a vida em toda a sua fascinante acepção. A sua existência resume-se agora à eterna repetição diária, enquanto espera pelo fim.
A montagem do filme (Juliette Welfling) é em tudo prodigiosa e constitui uma das maiores qualidades da obra. Julian Schnabel filma com assaz sensibilidade, mas creio que lhe falta alguma maturidade e sobriedade. De qualquer forma, era difícil escapar às limitações dramáticas do argumento de Ronald Harwood. Não por culpa do argumento, que é excelente, mas pela história em si... é comovedora, mas, em cinema como na Verdade, um tanto ou quanto maçuda. Não creio, como tantos, que estamos perante uma obra-prima. Mas perante um brilhante exercício, de méritos inegáveis, estamos com certeza.
O filme começa com o despertar, o primeiro olhar, após semanas de coma. Da absoluta paralisia escapou um olho e a actividade cerebral, que lhe sustenta o organismo, a sofrida comunicação interior, a limitada comunicação exterior e, afinal, a vida. Se há dom que a obra tem é o de nos pôr no interior da mente do paciente e fazer com que sejamos os espectadores do filme e, noutra dimensão, os espectadores de um só olho, moribundos entre as visitas do hospital. Nós somos a câmera. Tudo aquilo que ela capta é não só o filme como a nossa realidade exterior, como se assumíssemos aquela personagem presa à cama.
A condenação de Jean-Dominique é evidente. Um derrame pode ter inúmeras causas identificáveis; o certo é que tantas vezes atinge as pessoas sem dar indícios claros e capazes de suscitar uma prevenção à altura. A intensidade das consequências varia de caso para caso. Jean-Dominique desenvolveu a síndrome do encarceramento, rara e psicologicamente torturante. A recuperação passaria por um milagre, apenas. E, à escala humana, estamos limitados às nossas possibilidades. Como enfrenta um homem a vida neste estado? Se é que se pode dizer enfrenta... Não admira que o ex-editor da Elle queira a morte... Aliás, o filme se tivesse cheiro seria certamente esse lúgubre odor que habita as alas do adeus. Jean-Baptiste sabe que jamais tocará os cabelos dos filhos, as pernas de uma mulher, a vida em toda a sua fascinante acepção. A sua existência resume-se agora à eterna repetição diária, enquanto espera pelo fim.
A montagem do filme (Juliette Welfling) é em tudo prodigiosa e constitui uma das maiores qualidades da obra. Julian Schnabel filma com assaz sensibilidade, mas creio que lhe falta alguma maturidade e sobriedade. De qualquer forma, era difícil escapar às limitações dramáticas do argumento de Ronald Harwood. Não por culpa do argumento, que é excelente, mas pela história em si... é comovedora, mas, em cinema como na Verdade, um tanto ou quanto maçuda. Não creio, como tantos, que estamos perante uma obra-prima. Mas perante um brilhante exercício, de méritos inegáveis, estamos com certeza.
