sexta-feira, 21 de abril de 2017

UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Un Long Dimanche de Fiançailles
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Albert Dupontel, Chantal Neuwirth, Dominique Pinon, Jean-Pierre Darroussin, Tchéky Karyo, Marion Cotillard, Jodie Foster, Urbain Cancelier, Jérôme Kircher

Crítica:

O ETERNO VÔO DO ALBATROZ

Manech aime Mathilde! Mathilde aime Manech!

Três anos depois do genial e exuberante O Fabuloso Destino de Amélie, Jean-Pierre Jeunet volta a convocar a graciosa Audrey Tautou para estrelar noutra das suas mais belas e românticas obras, concretizando um autêntico e surpreendente díptico: sobre Paris, sobre a esperança e sobre o amor.

No filme de 2001, a cidade, agora mais o campo, mas ainda assim os comboios transportam-nos por variadíssimas vezes à gloriosa capital de outras eras: passeamos pelas ruas, ladeadas pela imponente Ópera e pelas fachadas da época, tornamos à Gare d'Orsay, magicamente renascida. A recriação histórica é impressionante, assim como é o nível de entrega e detalhe da direcção artística (Aline Bonetto). Antes abundavam os verdes e as cores vivas, agora os tons esvaídos e amarelecidos, quase dourados pela luz do entardecer. Enquanto Amélie é um filme solar, Um Longo Domingo de Noivado é um filme crepuscular. Outrora o tom era alegre e optimista - o acordeão de Yann Tiersen tudo contagiava. Agora é sôfrego e pessimista - as cordas de Angelo Badalamenti prolongam a angústia da ausência, auspiciam o medo da perda e reflectem a profunda consternação e a assustadora desolação na Terra de Ninguém. A carnificina é impiedosa.

Amélie e Mathilde partilham a mesma actriz e a mesma fé no amor. Só que a primeira vive um tempo privilegiado - nos anos 90 do século XX, a França não enfrentava qualquer guerra. Era tempo e espaço de paz, propício a coisas boas. Ideal para viver o amor na mais plena felicidade. A segunda vive a trágica e desumana Primeira Guerra Mundial e as feridas do confronto abrem-se entre os amigos, os familiares e os amores - e muitas delas irreversivelmente, impossibilitando a cura ou a cicatrização. Quando Manech é alistado para as trincheiras, dá-se a inevitável separação do casal e quando o maçarico é dado como morto, a paixão de infância entre os dois assume-se condenada pelo destino. Mathilde recusa-se a fazer o luto e a acreditar que perdeu, para sempre, o seu amado e empreende uma obsessiva e incansável investigação em busca da verdade dos factos, por mais que os sinais (e as suas engraçadas superstições) apontem, repetidamente, para a mais cruel das evidências. E esta é a comovente e avassaladora história de Um Longo Domingo de Noivado: a luta e a obstinação de uma mulher, contra tudo e contra todos - até contra o destino, para reencontrar o seu precioso Manech ou, então, a prova irrefutável da sua morte. Só perante a certeza absoluta poderá sossegar o coração, chorar o que tiver a chorar e retomar, finalmente, a sua vida. A esperança é a última a morrer, porque o amor não pode morrer. Daí o símbolo recorrente do albatroz, que presenciou a consumação do amor dos dois naquela casinha à beira-mar. A ave que acompanha as embarcações nas suas mais demoradas viagens. O ser que, contra qualquer vento, persiste o seu vôo. O albatroz não é senão a metáfora de Mathilde. E Manech é o seu barco. Por isso as memórias de Mathilde se prendem tanto àquele belíssimo farol. Só da alta lanterna poderá perscrutar todo o mar e o esperado regresso. Irónico que o avião que dispara sobre Manech, enquanto este marcava MMM (Manech aime Mathilde) num tronco moribundo, se chame albatroz. Como se o próprio destino estivesse confuso no futuro a atribuir-lhes.

O argumento condensa em si próprio um universo de personagens e pormenores tão rico do qual só as grandes histórias são detentoras. Prima pela confluência perfeita de registos tão distintos como o romance, o drama, o humor... ecoando a fórmula de Amélie, com recorrentes flashbacks que contam o passado das personagens, assentes nas suas mais hilariantes ou curiosas particularidades. O cómico de situação pontua - e alivia - todo o filme. As reminiscências do realismo mágico, tão característico de Jeunet, piscam-nos o olho, aqui e ali. Grande parte do elenco secundário transita directamente do filme anterior: Dominique Pinon (habitué de Jeunet por excelência) e Urbain Cancelier à cabeça. São ainda introduzidos nomes como Marion Cotillard, Jodie Foster ou Albert Dupontel. O filme começa por apresentar-nos os cinco soldados da Bingo Crépuscule, entre os quais se encontra Manech, destinados ao regresso a casa antecipado... ou à morte antecipada, não tivessem todos eles ferido uma das mãos, intencionalmente. Cada um é minuciosamente apresentado, pois cada um será preponderante na demanda de Mathilde, que está por vir. Mas é claro, às tantas a investigação e o romance dão lugar ao filme de guerra. A sonoplastia e os efeitos especiais superam-se então com notável sofisticação técnica, a bem do espectáculo, da acção e do esplendor visual. A fotografia de Bruno Delbonnel é verdadeiramente assombrosa, engenhosa nos planos, na saturação cromática ou no jogo da paleta e em criativa sintonia com a montagem de Hervé Schneid. Dois profissionais de renome, aliás, responsáveis também pela obra-prima de 2001.

Nunca é demais lembrar o quão incontornável é Amélie, tendo-se tornado o filme francês mais popular das últimas décadas, em todo o mundo. Este maravilhoso Um Longo Domingo de Noivado nunca alcançou o mesmo sucesso, tendo inclusive caído em relativo esquecimento nos anos sequentes à sua estreia. Talvez possa não atingir o carisma e a eloquência de Amélie, mas é um filme igualmente deslumbrante, certamente mais denso e intenso e derradeiramente apaixonante. Os dois filmes dialogam entre si, são como irmãos. E enquanto cinéfilos, amantes de cinema, poderemos sempre ficar com os dois. Eis, magistral, o incomensurável poder da arte. E do amor...

16 comentários:

  1. Hmmm... Agora deixaste-me curiosa sobre o filme :)



    E Audrey Tautou é sempre Audrey Tautou ^^

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  2. Confesso que também fiquei?
    Onde o posso encontrar?

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  3. YIRIEN: É um filme fabuloso, e juntamente com AMÉLIE, fazem um díptico inesquecível.

    JACKSON: Se ficaste curioso, acabarás de ver o filme senão comovido como eu, pelo menos impressionado. Encontrá-lo-ás à venda nos sítios habituais.

    Cumps.
    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. Estou a morrer por ver esse filme. Tem mesmo de ser em breve :P

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  5. FlÁVIO GONÇALVES: Pelo pouco que conheço dos teus gostos, tenho-te a (arriscar) dizer que... VAIS ADORAR! :b

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    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

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  6. Não sou grande fã de filmes de guerra, mas uma vez por outra é interesse ouvir falar da Primeira Grande Guerra e não constantemente do Nazis. Está um enredo muito interessante e uma história bonita, com um grande trabalho de fotografia. Cómico e nostálgico ao mesmo tempo. É sempre interessante o cinema francês.

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  7. CLÁUDIA GAMEIRO: Mas O LONGO DOMINGO DE NOIVADO não é, propriamente, um filme de guerra... A guerra serve como pano de fundo ao drama e à comédia de Jeunet; à excepção de uma ou outra cena, evidentemente.
    É sempre interessante? Nem sempre... Jeunet é interessante, sem dúvida. E até muito mais do que isso. É genial.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  8. Não o notas um pouco repetitivo na fórmula que usa neste filme? Está um argumento muito giro, mas para quem viu a Amelie já não tem o mesmo impacto. Digo eu...
    Sim, não é propriamente de guerra, serve apenas de pano de fundo. Enfim, estou a tornar-me insensível a estas histórias, já vi que sim ;)

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  9. CLÁUDIA GAMEIRO: Noto. Por acaso sempre pensei nisso. Mas resulta tão tão bem! E, sinceramente, não me cansa. Gosto de ver AMÉLIE e UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO como obras gémeas. Ambas sobre Paris, França, ambas com a mesma musa, ambas com o mesmo modelo narrativo. O primeiro mais optimista. O segundo mais pessimista. No fim, um díptico perfeito ;)

    Não estás nada a tornar-te insensível - de longe! ;D

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  10. Grande filme. Que agradável surpresa e que prazer foi assistir a esta história, de uma simplicidade e de uma complexidade ao nível de pormenores e referências tão bem equilibradas.

    Tenho-te a dizer, foi desta que Jeunet me atingiu e me fez talvez perceber o seu cinema. Muito original.

    Depois tem-se uma Audrey Tautou em grande e um elenco restante a condizer. O ambiente é tão bem fotografado e conduzido através da banda sonora e da montagem que se transforma rapidamente numa experiência avassaladora.
    O argumento, esse é tão somente ousado, mas que se ultrapassa simplesmente. De um suspense e ritmo muito dosado e certeiro.

    Prefiro sinceramente este mais que Amélie, mas percebo quando dizes que formam um díptico imperdível. São notórias as suas semelhanças, contudo pessoalmente e como disse acho este melhor, prefiro este seu tom mais dramático ao seu mais humorístico...falo de Jeunet claro.

    Não percebo é como faz um filme como Alien: Resurrection...é anterior a estes dois bem sei, mas ainda assim este seu lado não me convence. O argumento não é nada demais, até incoerente e desinteressante...

    Ainda bem que anos mais tarde faria Un long dimanche de fiançailles!

    abraço

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  11. JORGE: Assististe? Fico contente que tenhas gostado! É completamente genial ou não é? Eu percebo que gostes mais deste do que do AMÉLIE, quando acabei de o ver não me saiu da cabeça durante dias! É lindo! Só mesmo vendo o filme para perceber toda a sua beleza, riquezas visual e narrativa... É fascinante, impressionante, incrível! Uma obra obrigatória, irrepreensível. Contudo, não consigo optar por um dos dois. Fico com ambos ;D Um sobre a busca do amor na Paris de hoje... quando só basta arriscar para amar... outro sobre a busca do amor na Paris de ontem... quando a guerra separava - cruelmente - os amantes...

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    Roberto Simões
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  12. É verdade assisti um pouco do nada, não estava à espera. De qualquer das formas tinha-o listado para ver, desde que li a tua crítica aqui há uns meses...das primeiras que li até!

    E que magnífica descoberta, de acordo. Vale a pena ver e a aconselhar, pois infelizmente não é muito conhecido.

    abraço

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  13. JORGE: A recomendar vivamente, sem dúvida.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  14. vi o filme e adorei, fez me perceber e sentir toda a dor e massacre que foi a 1ª guerra mundial como se estivesse la no terreno.mas o amor vence sempre e no final a recompensa. nunca desistir e acreditar em si próprio e não dar ouvidos aos que nos dizem "certezas" que se revelam incertas. contra todas as evidências segue o teu instinto.a esperança por vezes pode ser o único motivo para te manter vivo.

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    1. CARLOS: Bem-vindo ao CINEROAD! É sem dúvida um filme magnífico! Volte sempre!

      Roberto Simões
      CINEROAD

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  15. Nova crítica e obra re-avaliada a 22 de Abril de 2017.

    CINEROAD

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