quarta-feira, 21 de abril de 2010

HOMEM NA LUA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man on the Moon
Realização: Milos Forman

Principais Actores: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti

Crítica:

THE TRUEMAN SHOW

O argumento de Homem na Lua, escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski, e magistralmente levado à tela por Milos Forman e pelo talento explosivo de Jim Carrey, é, porventura, um dos mais arriscados que poderia imaginar e que esperava encontrar. Pensando para mim e comigo mesmo, indago-me se algum produtor aceitaria financiar um projecto tão frágil como este, caso não estivesse a ele aliado um nome tão prestigiado e consagrado como o de Forman. E não me refiro a sucesso comercial, porque se há coisa que Homem na Lua não foi, foi um sucesso retumbante. Refiro-me, evidentemente, à concretização plena de um filme brilhante, com uma dimensão trágica e dramática tão profunda e com Jim Carrey como actor principal. Fica a questão. Eu tenho as minhas dúvidas.

O que Milos Forman faz com o espectador é uma brincadeira muito ao género do próprio Andy Kaufman, o excêntrico e lunático comediante que em plenos anos 70 indignou a América com a sua forma muito peculiar de fazer piadas. Note-se a abertura da obra: Forman coloca-nos Kaufman à frente, a preto e branco e sobre um fundo negro, a manipular o seu próprio filme: a dizer que o filme já acabou (mesmo antes de ter começado) e a pôr os créditos finais a passar, ainda o lugar do espectador não aqueceu!

Hallo. I am Andy. Welcoom to my movie.
I hoped the story of my life would be nice...but it turned out terrible! It is all LIES! Tings are mixed up... real people I knew play different people. WHAT A MESS!
So I broke into Universal and cut out the junk. Now it's much shorter. In fact, this is the end of the movie. So tanks for comink!
Bye-bye!

Quando o episódio acaba, o ecrã fica totalmente a negro. Forman faz-nos esperar longos segundos. E só depois Kaufman reaparece, sorrateiramente e como que não quer a coisa, provocando os espectadores:

Okay! Just my friends are left. I wanted to get rid of those other people... they would have laughed in the wrong places.
I was only kidding about the movie... it's actually PRETTY GOOD! It shows everything... from me as a little boy until my death - Oops!! I wasn't supposed to talk about that! Oh. Eh, uh, we better just begin.

E eis que a diegese principal começa. Decididamente, Forman já marcou a sua posição: Homem na Lua não será um filme para todos, para o comum dos espectadores. De qualquer das formas, já os avisou. Se estão curiosos, pois que fiquem e desfrutem da história. O que se passa é que Andy Kaufman viveu a sua vida em constante representação. A sua verdadeira história não é senão uma ficção de si mesma. Por isso, tudo significa nada. E nada significa tudo. É uma história no fio da navalha de quem, ele próprio, viveu no fio da navalha. A sua vida foi um constante risco. E Andy servia-se do próprio risco para viver. Sonhava ser o maior artista de todos os tempos. E preparou o seu mito como cada uma das suas encenações. Note-se a cena do seu funeral... Ou a actuação de Tony Clifton, um ano após a sua morte... Para ele, a vida não era para ser levada a sério. Para ele, a vida era a maior comédia de todas.

Penso que não poderei ser mais justo ao dizer que Jim Carrey agarrou o papel com toda a sua força e talento, de corpo e alma. O papel de Andy Kaufman permitiu-lhe dar a conhecer um poderosíssimo concentrado de versatilidade e genialidade, do riso à lágrima. Provavelmente, o melhor papel da sua carreira. Absolutamente extraordinário, de pura e contínua transfiguração, inesquecivelmente ímpar. Danny DeVito (que conheceu o verdadeiro (?) Kaufman e assegurou a produção do filme) e Paul Giamatti são os destaques mais proeminentes do elenco secundário.

Com competentes montagem e direcção artística e filmado com a classe habitual do realizador de clássicos como Voando Sobre Um Ninho de Cucos ou Amadeus, Homem na Lua é um filme inteiramente excepcional. É um daqueles raros filmes que, na nossa memória e após o termos visto vezes sem conta, reclamará sempre uma nova visualização, que nunca decepcionará.

15 comentários:

  1. Vi o filme esta semana! É espectacular e, a par de Eternal Sunshine of the spotless mind, um dos melhores papéis na carreira de Carrey.
    Que grande homem que Andy Kaufman era!

    Abraço
    Cinema as my World

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  2. NEKAS: Pois, coincidência! Sim, a par da prestação do filme de Gondry, um dos melhores desempenhos de Jim Carrey, um actor que muito admiro.
    Não sei se Kaufman era um grande homem, mas um grande maluco era de certeza! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  3. É simplesmente a melhor interpretação da carreira de Jim Carrey.
    Antes de tudo mais e principalmente, é isso.

    Fica por perceber a não nomeação para o Óscar...

    Aqueles que acham que Carrey é apenas um palhaço deverão engolir em seco ao verem Homem na Lua.


    Gostei do trocadilho que dá título à análise ;)

    Abraço

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  4. JACKIE BROWN: Modéstia à parte, foi um excelente trocadilho, não foi? E que se apropria que nem uma luva ao filme em questão! ;D Jim Carrey é, ele próprio, um 'trueman show'.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  5. Concordo imenso com a crítica. E Andy Kaufman foi um homem que viveu a sua vida na propria representação!
    Concordamos em tudo! (Não é muito habitual :p)

    Abraço
    Cinema as my World

    O trocadilho foi inteligente...

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  6. NEKAS: A sério? Estamos então efectivamente de acordo. Mas, já agora, o que não é habitual? Concordarmos simplesmente ou concordarmos em tudo? ;) É que não me recordo de discordâncias maiores... Porventura existirão!

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  7. "Provavelmente, o melhor papel da sua carreira." Concordo plenamente. Mas a outra grande interpretação de Carrey (ao contrário do que li nestes comentários) não é a do Eternal mas sim a do The Truman Show - para mim é claro.

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  8. ÁLVARO MARTINS: A performance de Jim Carrey no filme de Peter Weir é também uma das melhores, indiscutivelmente! Mas Jim Carrey tem muitas prestações fabulosas. Goste-se ou não do filme, mas a sua performance em THE MASK é igualmente excepcional. Ele é um grande actor. Estes comentários seriam desnecessários caso não houvesse o preconceito absurdo que há em relação aos actores de comédia!

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  9. Concordo totalmente com o teu último comentário.
    Mas aproveito para dizer que não reconheço qualquer qualidade em A Máscara.
    Já discutimos isto, mas acho que Carrey é muito mal dirigido e perde-se num overacting irritante.

    Pelo contrário, em O Mentiroso Compulsivo, está magnífico. Para mim, a segunda melhor interpretação da sua carreira, logo atrás desta ;)

    Abraço

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  10. Gosto do Carrey quanto ele sai dos seus verdadeiros parâmetros.

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  11. Não concordo Roberto, não acho que haja assim tanto preconceito. Acho sim que a comédia actualmente caiu em desgraça por culpa própria, porque o facilistismo tomou conta da comédia, ou seja, a palhaçada é que faz rir e a comédia inteligente (o non-sense britânico e a comédia americana de Mel Brooks, Abrahams, Zucker,etc) é muito difícil para o público - num âmbito geral é claro.
    Quanto ao The Mask, discordo plenamente, esse é um perfeito exemplo de facilitismos (assim como Doidos à Solta, Melgas, Aces Venturas...).

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  12. JACKIE BROWN: Eu não reconheço excepcionais qualidades a THE MASK. O que disse é que mesmo num filme como THE MASK Jim Carrey tem uma boa interpretação. Mas pelos vistos estamos em desacordo quanto a esse ponto. Quanto a O MENTIROSO COMPULSIVO, estamos de acordo.

    BRENNO BEZERRA: Eu gosto dele mesmo quando ele não sai desses parâmetros! ;D Curiosamente ou não, encontra no drama alguns dos seus melhores desempenhos.

    ÁLVARO MARTINS: Não concordas, mas há. Aquilo que referes em relação ao estado da comédia, ou de alguma comédia é bem verdade (e ponhamos de parte o trabalho de alguns palhaços, que são inteligentes e não têm culpa da ampla acepção do termo) e estou de acordo com isso, mas não invalida o preconceito mais do que evidente. Podes não partilhar esse preconceito, mas que há, há. O drama é visto como o género nobre e a comédia como o género populista. É claro que há comédia de qualidade. Mas as coisas são assim.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  13. É mais um filme que mostra o talento de Jim Carrey também em papéis que fogem um pouco da comédia.

    Sua personificação de Kauffmann é brilhante.

    Eu conheci Kauffmann apenas por ter assistido algunes episódios da antiga série "Taxi" e ele realmente era estranho.

    Abraço

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  14. Sou fã do trabalho de Carrey, mas confesso que ele se torna mais denso nos filmes que explora mais sua dramaticidade. abs

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  15. HUGO: É de facto brilhante. Por acaso só descobri o verdadeiro Andy Kaufman após o filme, pelo Youtube. O homem era completamente maluco, não? xD

    CRISTIANO CONTREIRAS: Também eu sou fã de Carrey: ele é um talento nato para a representação, independentemente do género.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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CINEROAD ©2017 de Roberto Simões