segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

BARRY LYNDON (1975)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Barry Lyndon
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick MaGee, Diana Koerner, Hardy Kruger, Leon Vitali

Crítica:

ASCENÇÃO E QUEDA
DE UM IRLANDÊS FIDALGO

Fate had determined that he should leave none of his race behind him,
and that he should finish his life poor, lonely and childless.

Barry Lyndon é um verdadeiro e magistral compêndio artístico: de literatura, pintura e música. Herdou dos romances do século XIX o típico narrador omnisciente, irónico e manipulador, capaz de destruir o suspense da diegese pela antecipação deliberada de informação crucial. As personagens, remetidas para um segundo plano de análise e para um estado passivo, são-nos apresentadas lentamente, ao ritmo sereno e pausado do storytelling. Mais parecem figuras genialmente desenhadas e pintadas, enquadradas em paisagens e ambientes belíssimos, vivas em frescos barrocos (algures entre Velázquez e Vermeer, Fragonard e Ruysdael, Gainsborough ou La Tour). Every frame is a fresco of sadness*. Assim sendo, o carácter activo da história reside não na diegese em si, mas nos processos e mecanismos narrativos através dos quais ela é contada: seja pela narração como pelo movimento da câmera - o nosso próprio olhar. É por isso que a falta de profundidade na maioria das performances dos actores não nos soa a defeito. O protagonismo é partilhado pelas classes sociais em exposição, qual galeria de arte. A técnica de zooming, por exemplo, arrebata-nos, exaustivamente, com quadros absolutamente maravilhosos; tantos deles iluminados a luz natural, graças às inovadoras lentes, especialmente concebidas para o efeito. Enalteça-se, a propósito, o prodigioso talento e a preciosa sensibilidade visual de John Alcott. A cuidada direcção artística e o notável trabalho de figurinos possibilitam-nos e garentem-nos, igualmente, uma autêntica e assaz verossímil viagem no tempo. A banda sonora, de extraordinárias assinaturas, intensifica-nos, por fim, a experiência: Bach, Mozart, Schubert, Vivaldi ou Handel.

Quanto à narrativa em si, o filme organiza-se em duas partes:

I. By What Means Redmond Barry Acquired the Style and Title of Barry Lyndon.
De irlandês burguês a jogador erótico, de orgulhoso e ciumento em fuga a caricato soldado, de mentiroso impostor a mulherengo preguiçoso, ou de falso parceiro da batota a aristocrata casado com a fortuna alheia, Redmond Barry não é senão um errante impulsivo e sem escrúpulos, que vagueia pela vida ao sabor da sorte e do desejo individual, mas sempre motivado pelo instinto trepador.

II. Containing an Account of the Misfortunes and Disasters Which Befell Barry Lyndon.
Abate-se sobre Barry a tragédia ou a justiça divina. Será confrontado com as suas origens. Das aparências, da vida luxuosa, fútil e fastidiosa e do ser libertino ao ser solitário, pobre e sem descendência será uma queda vertiginosa, cruel e sem salvação.

Acima de tudo, o clássico de Kubrick é um excelente, metódico e elegante exercício de forma, uma espécie de relato histórico ou crónica de pormenor microscópico, acerca dos costumes pastoris, militares e aristocráticos do quotidiano setecentista europeu. Ao mesmo tempo que trata essa época e vários lugares em concreto, a história de Barry Lyndon condensa em si todos os elementos das míticas tragédias gregas, nunca se aprisionando à realidade histórica invocada e declarando-se, pois, não só universal como intemporal. Também por isso esta magnífica obra não envelhece.

Um dos melhores filmes históricos de que há memória, do tão versátil quão visionário Stanley Kubrick.


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* Andrew Sarris, The Village Voice, 1976.

29 comentários:

  1. Vi este filme, "Barry Lyndon" já vai para duas décadas, e de lá até agora, não me lembro de ver outro filme que me despertasse tais emoções de serenidade e paz. Um deslumbramento contínuo.Gosto de cinema assim, um filme não necessita de acção aos rodos para nos despertar a atenção, apenas de uma boa história e de alguém que a saiba contar convenientemente. Stanley Kubrick, foi essa pessoa, e apaixonou-se pelo técnica ímpar, pelo passo ténue e perspicaz com que nos narrou esta história de desencanto e tragédia, e eu apaixonei-me com ele. Um grande filme, sem dúvida.

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  2. Não gosto do cinema de Kubrick. O acho supervalorizado. Não vi, porém, esse filme. Já vi alguns dizerem que é o melhor dele.

    Cinema para Desocupados

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  3. Ora aqui está um filme de que nunca, mas mesmo nunca, tinha ouvido falar...

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  4. A famosa cena das velas é genial. Só Kubrick poderia criar algo tão metódico e complexo

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  5. NEOMIRO: É, de facto, um filme que emana muita serenidade. Sublime.

    MATEUS, O INDOLENTE: O que é que conhece de Kubrick? Já agora, sobre que realizadores recaem os seus gostos cinematográficos predilectos?

    CLÁUDIA GAMEIRO: A sério? É muito citado. É um filme belíssimo e magistralmente bem feito, que não tenho como não recomendar vivamente.

    ÁLVARO MARTINS: Um nome nunca diz tudo, mas, em alguns casos, já revela muita coisa. É o caso, inequivocamente ;)

    JOÃO GONÇALVES: É, sem dúvida, muito metódico e complexo. Cenas das velas há umas quantas, magistralmente filmadas.

    GUSTAVO H.R.: Recomendo vivamente!

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  6. Algumas das vestimentas do filme eram peças originais que foram leiloadas, e a figurinista Milena Canonero os adquiriu.

    Não fazem mais filmes de época como antigamente. Este é único!

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  7. Considero-o por demais aborrecido e com uma narrativa basicamente irrelevante. Vale pela realização e pela minudência cénica, de resto, principalmente no argumento, é bastante sobrevalorizado.

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  8. Roberto, não vi a obra completa dele. Vi alguns dos mais conhecidos, como Laranja Mecânica, 2001, Nascido para Matar e o Iluminado, dos quais só realmente gostei do último, que considero um clássico do terror.

    Reconheço o valor e a competência de Kubrick, um diretor acima da média. Mas não entendo toda essa supervalorização do seu trabalho. Não o acho tudo isso.

    Quanto aos meus preferidos, gosto muito de Hitchcock, Woody Allen e Quentin Tarantino. Cineastas de estilos bem diferentes, mas de grande talento.

    Cinema para Desocupados

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  9. RODRIGO MENDES: Ai sim? Não sabia, por acaso. A ser verdade, aí está mais uma prova de autenticidade tremenda, reclamada pela obra a cada cena. De vez em quando lá surge um bom filme de época. Veio-me agora à mente o ORGULHO E PRECONCEITO, de Joe Wright.

    JACKSON: Sabes que a narrativa, cinematograficamente falando, é muito mais do que o argumento. Vale por tudo isso que disseste e por muito mais. É natural que alguns o considerem aborrecido. Eu não sou desses, delicio-me com cada zoom e com a lentidão da narrativa. Considero o filme sublime e mais um grande feito de Kubrick. Incrível como o filme é TÃO novo e refrescante, mesmo assistindo hoje!

    MATEUS, O INDOLENTE: Pois, estou incrédulo, para dizer a verdade. Há realizadores que dividem opiniões entre cinéfilos, mas nunca vi Kubrick nessa posição. Estou deveras surpreendido. Espero que um dia redescubras este genial criador! ;)

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    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  10. Em relação ao Kubrick, concordo com o Mateus, acho um bocado sobrevalorizado. Os filmes dele são bem feitos, não há como negar, mas não me agradam completamente. No caso do Barry Lyndon, mesmo não sendo um fã do Kubrick, gostei muito do filme.

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  11. JONAS: Também gosto muito do filme, mas não poderei partilhar a mesma opinião no que se relaciona com Kubrick. Ele é genial. Um dos maiores dos maiores.

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    Roberto Simões
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  12. O século XVIII como nenhuma pintura o conseguiu representar, um exemplo último de beleza estética. Mas também um tema caro a Kubrick: o poder, ascensão e queda. Ou o fascínio de o controlar. Uma viagem obrigatória e fascinante, que um dia destes irá ser recordada no blog do Rato: fi-la pela primeirissima vez no saudoso Estúdio Apolo 70, em Lisboa, onde o filme se estreou no dia 25 de Fevereiro de 1977.

    Para já, e por mera curiosidade transcrevo aqui o que alguma crítica internacional disse, quando da estreia do filme:

    - "Uma maravilha, o apogeu de um género, um acto de beleza... uma obra-prima" (L'Express)

    - "O mais belo filme do mundo" (L'Aurore)

    - "Planetário como 2001, subversivo como Laranja Mecânica... a mestria de Kubrick brilha no esplendor visual" (Le Point)

    - "Uma arte tão perfeita quase não se pode analisar" (France Soir)

    - "Um filme mágico. Nunca Kubrick atingiu tanta perfeição" (Corriere Della Sera)

    - "Kubrick tornou-se o cosmonauta do passado. Um muito grande filme" (Paris Match)

    - "Não é só uma obra-prima, é o filme mais perfeito jamais feito" (Tagblatt-Zurich)

    - "A Felicidade! A Euforia!" (Le Monde)


    O Rato Cinéfilo

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  13. RATO: Gosto especialmente da frase de Paris Match ;) É uma obra belíssima, de facto, na qual Kubrick detém o poder absoluto na arte de manipular. Magistral.

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    Roberto Simões
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  14. Tb gosto imenso deste filme. O destaque que dou a este filme vai inteiramente para a fotografia e para o guarda-roupa.

    Mais um filme em que Kubrick perdeu os Oscars, se bem que neste ano existe um filme ainda melhor que este!

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  15. NASP: O ESPELHO, do Tarkovsky? O VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS, do Milos Forman? A que pérola te referes?
    Este BARRY LYNDON é a fotografia, a iluminação e o guarda-roupa, claro, mas é o avanço tecnológico, a concepção do filme histórico ao mais ínfimo pormenor, a realização... É um clássico obrigatório!

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    Roberto Simões
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  16. É o filme do Milos Forman, esse filme de loucos é alvo da minha admiração.

    Já o Espelho do Tarkovsky, e os filmes do Tarkovsky são filmes que normalmente não estão no meu "campo visual". Raramente procuro ver esses filmes, mas acho que vou tentar faze-lo brevemente.

    E já agora é essse o filme de Tarkovsky que recomendas para ver primeiro ?

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  17. NASP: Dos que vi, O ESPELHO e o STALKER são os meus preferidos. Não sei... eu comecei pel'A INFÂNCIA DE IVAN, que é um belíssimo filme e menos complicadote, em termos de exercício mental.

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    Roberto Simões
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  18. Gosto de Stanley Kubrick e tem uma obra fenomenal mas o "Barry Lindon", não me é atraente. Tem tudo na perfeição (talvez até demais pois parecem quadros vivos ou pinturas com movimento). A produção é excelente e a fotografia e planos de Kubirk são de impor respeito. Mas mesmo assim há algo nele que não me engata...
    Sorry guys.

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  19. ARMINDO PAULO FERREIRA: Não te "engata" ;D Temos, pois, opiniões distintas. É bom demais para não me sentir atraído.

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    Roberto Simões
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  20. Epá... realmente é um termo infeliz e até leva a sugerir a necessidade das aspas. Na na na...

    Reconheço no filme toda a categoria que ele tem e exibe como superlativa. Mas há algo no filme e admito mesmo que é o factor da época que retrata que nunca me fez ser muito adepto. Portanto não é culpa do filme mas sim do facto desta época especifica não ser dos meus gostos.Já havia até escrito sobre isto num artigo (simplório) dedicado ao Stanley Kubrik lá no meu pasquim.

    Obs: Mas pensando bem gostei da abordagem mais pop que a Sofia Coppola deu...
    Não ligues e nem valorizes nada do que disse sobre "Barry Lindo(n)". Sim por vezes chamo-o assim pois é lindissimo em tudo e mesmo assim não me seduz (epá... na na nãa... não interpretes este termo também - já bastou a outra discussão daquela vez! e ainda ando perturbado pelas cenas iniciais do "Shortbus"... :-)

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  21. ARMINDO PAULO FERREIRA: Bem, não vamos falar das leviandades do SHORTBUS na ficha do BARRY LYNDON ;) Curioso o facto de teres gostado do MARIE ANTOINETTE. Talvez seja alguma falta de predisposição para filmes de época. O filma da Coppola como mete o pop, já tem outra natureza.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  22. Sim é isso mesmo isso realmente. Tenho pouca predisposição mas especificamente para esta época.

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  23. Sou um kubrickianomaníaco e por isso um fervoroso defensor de todo o seu cinema. Neste caso particular é realmente o esteticismo que contamina tudo e todos. O poder da beleza que emana de "Barry Lyndon" é tão sufocante que me consegue até atingir fisicamente. No final de cada visão deste filme sinto-me completamente derreado e sem forças, tal o "peso" de todas aqueles sons e imagens - e fico para ali aparvalhado, a olhar apaticamente para o genérico final que vai correndo, ao som uma vez mais da "Sarabande" de Handel.
    Todo o filme é fabuloso, mas quero aqui destacar 3 sequências ainda mais fabulosas. A do duelo final entre padrasto e enteado, que são dez minutos capazes de suster a respiração a qualquer um. Depois há aquela cena logo no início em que a sensualidade impera nos olhares, nos gestos e nas palavras dos dois primos. Mas o meu momento de profundo êxtase chega sempre naquele longo travelling que conduz Barry desde a mesa de jogo até ao varandim onde Lady Lyndon anseia pela sua chegada. Julgo que o trecho musical que se ouve em fundo é o Trio para Piano de Schubert, o qual vai pontuando lentamente todos os passos de Barry. Sempre que revejo o filme tenho de voltar atrás para saborear de novo essa sequência.
    Não catalogaria "Barry Lyndon" como filme histórico, uma vez que ele se serve apenas do século XVIII para enquadrar a narrativa, não existe nenhuma figura hostórica em destaque. O que aqui se sobrepõe a tudo é realmente a música e as imagens regidas pela batuta de um cineasta em contínuo estado de graça.

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  24. Já o vi, o último de Kubrick que me faltava ver. E surpreendeu-me, tinha conhecimento e expectativa quanto à fotografia, aos belíssimos quadros que povoam o filme, e mesmo assim esse facto (as pinturas) surpreenderam-me. Divinais, lindas!

    De facto, toda a película é um retrato de uma sociedade, da ascensão e queda de um individuo cegado pelas suas virtudes e defeitos. É ainda um grande trabalho de escrita (a opção pelo narrador se revela triunfal)e de realização que mais uma vez é magistral, nada a dizer.

    Contudo aqui e ali parece-me que poderia ter sido um tudo nada mais profundo, mais construtivo. Enfim, só um apontamento. Sendo que o filme não é para todos, possui um ritmo e uma cadência lentas e por demais cansativos se o estado de espírito não for o mais adequado. Mas nunca poderia ser de outra forma, a meu ver.

    abraço

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  25. Obrigado a todos pelos comentários! É sem dúvida um portento de filme, esteticamente audaz e requintado, narrativamente arrojado e com uma banda sonora que se cristalizou no tempo. Assim como este filme, creio.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  26. Adoro Barry Lyndon. Já buzinei o ouvido de muita gente boa para que não deixasse de vê-lo. A questão das lentes para captar luz de velas enchia minha imaginação. Qualquer pessoa que ama o que faz merece a nossa admiração. Kubrick fez muitíssimo pelo cinema.

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  27. ENALDO: E vão dois, também sou um especial amante deste Kubrick. É magistral na arte de filmar e de um perfeccionismo notável a todos os níveis de produção. Kubrick fez mliagres.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões