quinta-feira, 9 de setembro de 2010

LAWRENCE DA ARÁBIA de David Lean, segundo Rato

Agradecimento Especial:
Rato, O Rato Cinéfilo

Se há filmes aos quais se associa a impossibilidade de serem feitos de novo hoje em dia, Lawrence da Arábia é certamente um dos melhores exemplos. O próprio Steven Spielberg que, como se sabe, tem o céu como limite, reconhece que, mesmo com toda a moderna tecnologia, seriam precisos mais de 250 milhões de dólares para produzir algo semelhante. E de qualquer modo não valeria a pena pois nunca teria a grandeza do original, que ele mesmo considera o melhor filme jamais realizado.

Classificado em 5º lugar na tabela do American Film Institute dos melhores 100 filmes de sempre, este épico incomparável é fruto da persistência e teimosia de David Lean, inglês nascido em Surrey no dia 25 de Março de 1908 (viria a falecer em Londres, a 16 de Abril de 1991), e que começou por trabalhar na montagem de filmes, durante toda a década de trinta. Depois, e a partir de 1942, realizou 16 longas metragens, destacando-se Brief Encounter / Breve Encontro (1946), Oliver Twist (1948), The Bridge on the River Kwai / A Ponte do Rio Kwai (1957), Doctor Zhivago / Doutor Jivago (1965), Ryan's Daughter / A Filha de Ryan (1970) e A Passage to India / Passagem Para a India (1984). Mas Lawrence of Arabia, que dirigiu aos 54 anos, permanecerá sem dúvida como a sua coroa de glória. Omar Sharif, um dos emblemáticos actores do filme, interroga-se ainda hoje como foi possível conseguir realizar-se tal empreendimento: «imagino-me no papel do produtor do filme e vir alguém dizer-me que queria investir uma data de dinheiro num projecto de cerca de quatro horas, sem estrelas, sem mulheres e nehuma história de amor, sem grande acção também e inteiramente passado no deserto, por entre árabes e camelos... Com certeza que levava uma corrida!». Mas felizmente tal não aconteceu com David Lean, por culpa talvez dos 7 Oscars que o seu último filme também recebera.

Lawrence da Arábia é um filme que, pelo menos uma vez, deveria ser visto no grande écran, numa sala escura. Só assim se poderá usufruir de toda a grandiosidade do filme. Hoje considero-me um felizardo por ter vivido esse momento único no início da década de 70, quando da reposição do filme em todo o mundo. Apesar de já então se encontrar amputado em cerca de meia hora. Mas mesmo assim, assistir ao vivo, no esplendor dos 70 mm de uma grande sala de cinema (hoje em dia uma impossibilidade estabelecida) foi sem dúvida uma excitante e inesquecível experiência. É que Lawrence da Arábia não é apenas um filme biográfico ou de aventuras, muito embora contenha esses elementos. Acima de tudo, é um filme que usa o deserto como palco de emoções, cativando os espectadores a ponto destes se entregarem totalmente ao puro prazer sensorial de ver e sentir o impacto do vento ou do sol abrasador nas dunas. E isto é algo que não se pode descrever por palavras, tal como não se pode explicar o amor que por vezes sentimos por uma pessoa em especial; porque neste caso é o deserto essa outra pessoa, o objecto da nossa paixão.

Acrescente-se agora a memorável música de Maurice Jarre e temos essa paixão elevada aos píncaros do sublime e do êxtase. É esta a razão pela qual as pessoas não se lembram do filme por elementos narrativos; recordam antes uma série de momentos visuais, cuja magia perdura na memória do filme: o apagar de um fósforo a originar o nascer do sol no deserto; a aproximação de uma silhueta no horizonte, como se de uma miragem se tratasse; a travessia do deserto de Nefud; o espectacular ataque a Akaba; o descarrilamento do comboio; a entrada de Lawrence no bar dos oficiais..., e a sequência mais bela - o resgate de Gasim por Lawrence - aqui tudo se conjuga na perfeição. Oberve-se a importância capital da música: começa titubeante, indecisa, a ilustrar a dúvida de Farraj sobre a veracidade da silhueta que mal se distingue ao longe (será ou não uma miragem mais?). Depois, e à medida que a dúvida se transforma em certeza, a música vai crescendo também, até acompanhar o galope desenfreado das duas montadas e os gritos de alegria dos dois homens na iminência do reencontro. É por cenas destas, sem qualquer diálogo, puramente cinemática, que se reconhece a genialidade dos grandes artistas. E David Lean foi sem dúvida um dos maiores.

Uma referência final a Peter O'Toole, que tem aqui um início fulgurante de carreira, com um papel à medida de toda uma vida. Este Irlandês nascido em County Galway (a 2 de Agosto de 1932) mas educado em Leeds, Inglaterra, teve na década de 60 os seus anos de glória no cinema, depois de doze anos passados nos palcos de teatros, nos quais se iniciou com apenas 17 anos; frequentou a Royal Academy of Dramatic Arts, onde teve por colegas Alan Bates, Richard Harris ou Albert Finney. Filmes como Becket (1964), Lord Jim (1965), What's New, Pussycat / Que há de Novo, Gatinha? (1965), How To Steel a Million / Como Roubar Um Milhão (1966), Night of the Generals / A Noite dos Generais (1969), The Lion in Winter / O Leão no Inverno (1969), Goodbye Mr. Chips / Adeus Mr. Chips (1969) ou ainda Man of La Mancha / O Homem da Mancha (1972), ficarão para sempre associados às magníficas interpretações de O'Toole, que conseguia estar à vontade em qualquer tipo de papel. Nomeado 7 vezes para o Oscar, nunca conseguiu levar para a casa a almejada estatueta, apesar de ser considerado um dos melhores actores da sua geração. Nos Globos de Ouro a sorte sorriu-lhe mais: ganhou aquele prémio por três vezes (nos filmes Becket, The Lion in Winter e Goodbye Mr. Chips), num total de oito nomeações. Na déada de 70 problemas de alcool quase que lhe arruinaram de vez a carreira e a própria vida. Conseguiu sobreviver, apesar dos múltiplos tratamentos a que foi submetido lhe terem acabado para sempre com a beleza da juventude, tão bem captada naqueles filmes.

6 comentários:

  1. Pois é, amigo Rato, depois de ler esta tua prosa dá mesmo vontade de ir a correr rever o filme. Senão na tal sala escura ideal, pelo menos num écran caseiro de dimensões dignas deste épico memorável.
    Merecia ter tido mais adesão dos votantes deste blogue, mas enfim... pelo menos temos o "BEN-HUR" como representante de toda uma época de ouro do cinema

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  2. Gostei muito do texto, bem recheado. E de facto concordo com tudo, mesmo tudo, inclusive a referência ao deserto como personagem. Eu senti isso e, tal como se diz, o que nos fica na memória é as imagens, as cores, a luz...o deserto. E partilho também da cena favorita, o resgate está fenomenal. Porventura das minhas cenas favoritas de sempre em épicos. Que triunfo é esta sequência, e destaco o plano de encontro com a câmara a filmar de longe a imensa paisagem, e as silhuetas a se encontrarem. A banda sonora aqui está sublime, magnífica.

    Contudo e como já disse muitas vezes, houve momentos cansativos, e pessoalmente gostaria que houvesse mais emoção, mais dramatismo nas personagens, e nas suas acções. Ainda assim, parece-me que necessitaria de melhores condições e de um estado de espírito próprio de uma segunda visualização para reconhecer o verdadeiro esplendor do filme.

    abraço

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  3. NOWHEREMAN: É, sim, um bom pedaço de escrita. Também fiquei com vontade de rever o filme, uma vez mais.
    Ah pois, é verdade. Para quem estava com tanto receio que O SENHOR DOS ANÉIS ganhasse o duelo final frente ao BEN-HUR, até que deves estar minimamente surpreendido, não? Eu bem que disse que ainda era muito cedo para ditar sentenças.

    JORGE: Também gostei muito do "parágrafo" (private joke). Eu revejo-me um pouco naquilo que dizes quando aludes à dramaticidade. Mas ainda assim não acho que seja defeito.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - Há 2 Anos na Estrada do Cinema «

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  4. "E David Lean foi sem dúvida um dos maiores." concordo completamente, principalmente a fazer este género, épicos.

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  5. Pois o parágrafo, o ambicioso parágrafo...
    Sim também não vejo claramente a falta de dramaticidade como um defeito, ainda assim não posso dizer que não me influencia, não me condiciona na apreciação ao filme, isto para efeitos extremos na distinção com outros.

    abraço

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