domingo, 2 de janeiro de 2011

AS VINHAS DA IRA (1940)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Grapes of Wrath
Realização: John Ford
Principais Actores: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, O.Z. Whitehead, John Qualen, Eddie Quillan, Zeffie Tilbury, Frank Sully, Frank Darien, Darryl Hickman, Shirley Mills

Crítica:

A TERRA PROMETIDA

All that lives is holy.


As Vinhas da Ira, monumental obra de John Ford, é universalmente aclamada como uma das expressões máximas do cinema enquanto arte. Partilho, com entusiasmo, dessa opinião: a arte de filmar é absolutamente magistral, a fotografia de Gregg Toland atinge um lirismo visual esplendoroso e irretocável, o argumento (de Nunnally Johnson, a partir do romance de John Steinbeck) desenvolve-se num storytelling envolvente, consistente e muito bem escrito, a montagem (Robert L. Simpson) toma as rédeas da narrativa com exímia destreza e as performances dos actores são irrepreensíveis - Henry Fonda e Jane Darwell agarram os seus papéis como se apertassem a própria terra.

Oklahoma, década de 30 do século XX. Decorre a Grande Depressão, trazendo consequências não só nefastas como profundamente trágicas para milhares de famílias. Os ventos anunciam tempestade e abre-se um fosso social gigantesco entre os grandes latifundiários e senhores do capital e os mais desfavorecidos economicamente. A expropriação avança sobre os miseráveis, condenados, na forma de tractores e imponentes máquinas que, na vanguarda do progresso, destroem os lares de famílias inteiras, sem dó nem piedade ou qualquer pingo de humanidade.

There ain't nobody gonna push me of my land! My grandpa took up this land 70 years ago, my pa was born here, we were all born on it. And some of of us was killed on it! ...and some of us died on it. That's what make it our'n, bein' born on it,...and workin' on it,...and and dying' on it! And not no piece of paper with the writin' on it!
Muley Graves

Quatro anos passados após um homicídio involuntário, Tom Joad (Fonda, num fortíssimo desempenho) sai da cadeia em liberdade condicional e torna a casa. O choque é tremendo, quando se apercebe que já lá não vive ninguém, que a família tudo abandonou por obrigação. Quando finalmente reencontra os seus, temporariamente instalados em casa do tio John, a quilómetros dali, é confrontado com a dura, inacreditável e inaceitável realidade: a sua família perdeu tudo - tudo menos o ferveroso amor à terra que, durante décadas, os alimentou e prosperou. Inconsoláveis, engolindo a revolta e temendo pelo seu futuro, partem rumo à Califórnia, na sucata ambulante que a poupança permitiu, acreditando nos empregos que os jornais, cartazes e folhetins anunciam, na esperança de uma vida melhor. Mas a estrada, a viagem, será para eles uma implacável luta pela sobrevivência e revelar-se-á como um verdadeiro teste à sua dignidade e união.

They ain't human. Human being wouldn't live the way they do.
Human being couldn't stand to be so miserable.
Empregado da Gasolineira

On the road e rumo ao oeste, o realismo que provém das filmagens no exterior fala por si. Entre o céu (em Ford o céu, sempre o céu) e a terra, o homem: sublimemente enquadrado na natureza, na paisagem. O cuidado da mise-en-scène é notável e raramente descuidado. As grandes cenas de um filme como As Vinhas da Ira sucedem-se e são inúmeras as que, ao logo do percurso, fortalecem o retrato às condições constrangedoras que as personagens ultrapassam. Recordo, a título de exemplo, a paragem naquela espécie de pub, em que a mera compra de um pão para matar a fome, a 10 cêntimos e num local onde só se vendem sandes a 15, se torna uma missão humilhante. Por fim, no rematar da cena, os dois doces que os netinhos comem com os olhos e que o avô compra, não suportando a si próprio a vergonha de ver os seus queridos a passarem por privações tão simples. Mas o filme é, todo ele, sumo. Repleto de diálogos brilhantes, um triunfante exercício narrativo, que vê espelhado nos olhos dos actores a sua poderosa carga dramática.

If there was a law, they was workin' with maybe we could take it, but it ain't the law. They're workin' away our spirits, tryin' to make us cringe and crawl, takin' away our decency.
Tom Joad

A chegada ao destino, falecidos com pesar alguns dos familiares, não é senão uma desilusão. Exaustos e famintos, vêem-se enganados pela propaganda, tratados como desterrados vadios e crimonosos e obrigados a aceitar os escassos trabalhos mais mal pagos que poderiam alguma vez imaginar. Migrando de terra em terra e de acampamento em acampamento, sem qualquer sentimento de pertença, ei-los completamente entregues à sorte, sustentados pelas relações familiares que, cada vez mais ardua e melancolicamente, resistem à degradação. A família surge-nos, pois, como o suporte mais importante, o bem mais precioso e sagrado.

Maybe I can do somethin'... maybe I can just find out somethin', just scrounge around and maybe find out what it is that's wrong and see if they ain't somethin' that can be done about it.
Tom Joad

Desolado pelas dificuldades e iluminado pelas ideias do companheiro Casy (I can't ever be a preacher again. Preachers gotta know. I don't know. I gotta ask), Tom reflecte sobre a necessidade da rebelião, da luta e da união entre todos os sem-terra contra o capitalismo sem escrúpulos. O sonho e a promessa de terem trabalho, casa, família e de recuperarem a vida de outrora tem que ser uma bandeira. É no final que o filme deixa transparecer a esperança da sua mensagem, apelando a toda uma consciencialização social fundamental para a coesão e para o triunfo dos valores humanistas. No desfecho, Tom despede-se da mãe (a importância da relação mãe-filho ganha uma importância nuclear ao longo de todo o texto fílmico) numa cena comovedora.

I'll be all around in the dark - I'll be everywhere. Wherever you can look - wherever there's a fight, so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad. I'll be in the way kids laugh when they're hungry and they know supper's ready, and when the people are eatin' the stuff they raise and livin' in the houses they build - I'll be there, too.
Tom Joad

Com as últimas linhas do argumento, os nossos heróis familiares ganham uma dimensão simbólica que transcende, claramente, os seus contornos originais. Tom parece assumir um discurso batalhador e a mãe dá voz à índole comunista; aspectos mais preponderantes no romance, mas que aparecem aqui estilizados, ampliando as potencialidades semânticas da obra, sem que, no entanto e no meu entender, assinem propriamente um manifesto ideológico.

Rich fellas come up an' they die, an' their kids ain't no good an' they die out. But we keep a'comin'. We're the people that live. They can't wipe us out; they can't lick us. We'll go on forever, Pa, 'cause we're the people.
Ma Joad

Destaques finais para o brio da encenação, para a excelente banda sonora e para o restante aprumo técnico e artístico que, nos mais variados aspectos, surge aos olhos do espectador perfeitamente orquestrado.

Marcante e arrebatador, fica-me a certeza de que há poucos filmes como este. Mais do que um clássico absoluto do cinema americano, uma obra-prima intemporal e obrigatória. Absolutamente inesquecível.

7 comentários:

  1. É um dos meus filmes preferidos e foi o primeiro John Ford que vi.

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  2. grande filme de john ford... excelente!

    http://filme-do-dia.blogspot.com/

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  3. FLÁVIO GONÇALVES: Começar o ano com um filme desta categoria foi magnífico ;) Que pedaço de cinema.

    KAHLIL AFFONSO: Absolutamente ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD – A Estrada do Cinema «

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  4. Por este (e por outros) é que Ford foi para mim o maior dos maiores do cinema americano. Fico contente que estejas a descobrir Ford :)

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  5. ÁLVARO MARTINS: E está a ser uma descoberta viciante. Esperam-se, por aqui, mais obras de Ford nos próximos tempos...

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  6. Este filme quando o comprei, foi comprado sem saber o que ali estava, a minha mãe aconselhou-me visto saber que adoro cinema.
    Só sei que fiquei chocada, porque não estava á espera da obra prima que ali estava.
    É um filme muito forte a nivel emocional, muito marcante mesmo e adorei.
    Um filme excelente em todos os sentidos.

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  7. Não estou cem por cento de acordo contigo. Não o considero tamanha obra-prima. Ainda assim gostei muito, sobretudo da capacidade de Ford em nos ir mostrando os acontecimentos, os dramas e as emoções de forma tão verdadeira. Também me salta à vista o enorme talento do realizador nos planos, nas profundidades e ângulos escolhidos. Que magnífica realização.

    Como único defeito aponto-lhe o escasso desenvolvimento das personagens. Parece-me que a construção das mesmas é feita única e exclusivamente nos actos e práticas que executam. Para além disso não há grande evolução, pelo que a identificação para com os protagonistas se torna mais difícil. Porventura se dará por causa dos excelentes desempenhos.

    Mas enfim apenas um apontamento pessoal, que bem poderei mudar após mais visualizações. E acima de tudo assiste-se a cenas memoráveis e a uma consciencialização importante.

    abraço

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