segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O CARTEIRISTA (1959)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Pickpocket
Realização: Robert Bresson
Principais Actores: Martin LaSalle, Marika Green, Jean Pélégri, Dolly Scal, Pierre Leymarie, Kassagi, Pierre Étaix, César Gattegno

Crítica:

A COREOGRAFIA DO CRIME

O prazer de roubar e a total ausência da culpa, que denuncia o vazio e a amoralidade de todas as acções, de toda a existência.

Bresson é frio e preciso nos planos - a mise-en-scène é minimalista - e frio e preciso é o seu protagonista. Michel (Martin LaSalle) é lúcido e inteligente, sabe que pode procurar um emprego; no entanto, é conscientemente responsável pela sua opção. Só a aperfeiçoável arte do roubo, de uma retórica e ilusionismo sui generis, lhe traz a realização, a satisfação. Só o roubo o faz sentir vivo, a sós ou na forma de crime organizado, mais tarde. Assustadora, a alienação do indivíduo que pode levar ao caos.

Michel não ama: nem Jeanne (apaixonada Marika Green, talvez mais expressiva do que seria teoricamente desejado), nem sequer a mãe, que lhe retira a queixa no posto e que Michel admite amar, em confissão nada credível ao amigo Jacques. E a anunciada redenção, no final do filme, tem para mim a mesma falta de credibilidade. Não há emoção que a autentifique. A frieza, essa sim, vem autentificar a estética do autor - a auto-consciência do objecto artístico, que se enfrenta e se assume a si mesmo, frontalmente, como uma significante (e, por sinal, excepcional) montagem de imagens e sons:

Ce film n’est pas du style policier. L’auteur s’efforce d’exprimer, par des images et des sons, le cauchemar d’un jeune homme poussé par sa faiblesse dans un aventure de vol à la tire pour laquelle il n’était pas fait.Seulement cette aventure, par des chemins étranges, réunira deux âmes qui, sans elle, ne se seraient peut-être jamais connues.

Essencial.

3 comentários:

  1. Excelente filme, importante do ponto de vista histórico, pois trata-se de uma obra ainda "agarrada" ao realismo do Cinema Francês dos anos 50 ao mesmo tempo que antevê a Nouvelle Vague antes mesmo de esta nascer.

    Título a rever muito em breve.
    Abraço!

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  2. "Nunca, talvez, como nesta obra, Bresson tenha ido tão longe na defesa da sua ideia de que «o cinematógrafo é a arte de não mostrar nada». E esta afirmação só pode parecer paradoxal a quem não tenha sido capaz de ver o que é esse nada que Pickpocket mostra."
    Bénard da Costa

    Sábias palavras.

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  3. SAM: E do ponto de vista artístico, que é o que mais me interessa aqui, é também importante e extremamente interessante de analisar.

    ÁLVARO MARTINS: Já conhecia essas afirmações de Bénard, havia-as lido no teu blogue e são aqui complementares; agradeço a citação. Ainda que não me identifique com a visão estética de Bresson - certamente identificar-te-ás muito mais do que eu - creio que Bresson cumpriu metodicamente a sua visão do que é o cinema; pelo menos no que toca a este filme que foi o primeiro Bresson que descobri.

    Cumps.
    Roberto Simões
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