quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

UMBERTO D. (1952)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Umberto D.
Realização: Vittorio de Sica

Principais Actores: Carlo Battisti, Maria-Pia Casilio, Lina Gennari, Ileana Simova, Elena Rea, Memmo Carotenuto

Crítica:

O VELHO E O CÃO

Os tempos da velhice podem ser cruéis, sobretudo quando a conjuntura sócio-económica do país não é a mais favorável. Ao fim de uma vida de trabalho e de impostos, Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti) vê-se ameaçado de despejo pela sua padrona di case, a insensível, arrogante e desumana Antónia, cantora lírica de vocação. Umberto aluga-lhe um quarto modesto que não mais consegue pagar, numa casa onde se acendem fósforos na parede e as formigas resistem ao fogo. Ao todo, o sexagenário deve 15 mil liras e tem até ao dia 30 do mês para liquidar o total da dívida acumulada.

Sem família, sem poupanças e com uma reforma miserável, vê-se na rua a lutar pela dignidade. Bens materiais, já quase não os tem. Vendeu-os, subentende-se. Desfaz-se agora, a custo, de um relógio de estimação. Quem o compra é o pedinte da esquina, por 3 mil liras; entre os pobres, talvez aquele com a fonte de rendimento mais fiável. Uma esmola, por caridade! Os livros, que durante toda a vida coleccionou - dotes do ofício, subentende-se uma vez mais - são vendidos como novos, por uma bagatela. Na verdade, Umberto não se encontra mais em posição de negociar. O dinheiro faz-lhe falta e por mais dinheiro que arranje, dificilmente conseguirá somar a considerável quantia em falta.

A manifestação com que abre o filme insere-nos directamente no contexto de crise e de contestação que o país atravessa. O protesto, que as autoridades se encarregam de dispersar e silenciar, deixa-nos antever que a culpa não é de Umberto. Ele é uma vítima do sistema, criteriosamente retratado pelas mãos de Vittorio de Sica, um dos expontes máximos do neo-realismo italiano que se insurgiu com o final da 2ª Grande Guerra. O pessimismo com que Sica se debruça sobre o Homem é por demais evidente. Em Umberto D., intensificam-se as dificuldades do velho, sem fim à vista, impossibilitando-se a sobrevivência na iminência da tragédia. Não há mais dinheiro para comer nem para curar a febre que o assola. Umberto está irremediavelmente só - o único alento que tem é o sorriso e a simpatia da empregada da casa, grávida de pai incógnito, a quem um dia dirá adeus, e o latir de Flike, companheiro de uma vida madrasta.

A banda sonora (Alessandro Cicognini), de cariz um tanto sentimentalista, entra em cena, no compasso certo da narrativa, reforçando a dramatização. A rodagem faz-se geralmente in loco e aquilo que a câmera capta é, como na arte do documentário, a exacta atmosfera em que histórias semelhantes à de Umberto têm lugar. A fotografia de G. R. Aldo pactua com as nuances e sensibilidades do movimento de câmera. Há um plano em especial que, defendo, faz o perfeito enquadramento do velho no contexto diegético que protagoniza: regressado a casa, depois de um internamento de dias no hospital (onde uma interesseira relação com as freiras se pode revelar vantajoso) e após a visita ao canil, onde se dá o aflitivo resgate de Flike, Umberto reencontra o quarto em obras. Um buraco enorme liga agora o seu quarto e a sala. A câmera avança da sala para o quarto, num chariot subtil. Umberto e Flike surgem-nos sobre a cama, emoldurados pelo enorme buraco. Penso que imagem mais expressiva e simultaneamente tão simbólica seria difícil de arquitectar. Ali jaz, emudecido pelo desespero, um velho sem mais vontade de viver. Não admira, pois, que pense no suicídio, que tente o suicídio. Do alto da janela ou no meio da linha férrea. Que triste, a noção de que a realidade não tem esperança. Perante a possibilidade da morte voluntária, por fim, a quem deixar o cão pelo qual nutre um sentimento tão forte e legítimo? E onde se arranja coragem para dizer adeus à única criatura que, durante anos, lhe fez companhia e partilhou consigo os momentos de um tremendo vazio humano? Grande cena, a da iniciação à mendigagem, no limiar da vergonha e da humilhação. Até Flike, sempre tão bem ensinado, tem nela uma participação especial.

O final é de partir o coração - o mais incrível de tudo é como Sica consegue a maior lição do filme a partir da relação entre o velho e... o cão. O cão, até aqui tomado como elemento essencial mas não central, assume-se como uma das personagens mais importantes de todo o filme, ao lado de Umberto, com personalidade própria. Se não com personalidade, pelo menos com motivação, habituação ou o que os demais pavlovianos quiserem chamar-lhe. A ternura e o coração das personagens resumidos à relação mais substimada e, ao mesmo tempo, mais importante. Magnífico filme.

4 comentários:

  1. É um dos ícones do neo-realismo e com o Ladri di Biciclette são os grandes filmes do De Sica. Aposto que gostaste ;)

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  2. PAULO SOARES: Completamente. 5 estrelas bem dadas.

    ÁLVARO MARTINS: São, de momento, os únicos dois que conheço do realizador, mas faço tenção de ver mais. Aposta ganha, gostei imenso.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  3. Já comentei este filme na toca do Rato
    4 estrelas em 5

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