sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

DOGVILLE (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Dogville
Realização: Lars Von Trier
Principais Actores: Nicole Kidman, Stellan Skarsgård, Siobhan Fallon, Chloë Sevigny, Patricia Clarkson, Harriet Andersson, Jeremy Davies, Philip Baker Hall, Paul Bettany, Lauren Bacall, James Caan, Jean-Marc Barr, Katrin Cartlidge, Ben Gazzara, Udo Kier, John Hurt

Crítica:

NATUREZA ANIMAL

Algures entre o ensaio filosófico e as mais frágeis fronteiras do cinema, com a acção localizada numa aldeia norte-americana, numa outra qualquer aldeia ou em nenhuma aldeia em concreto, Dogville é uma experiência corajosamente original, que desafia muitos limites conceptuais e um outro, indubitavelmente: o da imaginação.

Os cenários do filme de Lars von Trier resumem-se ao mais puro minimalismo, assemelhando-se, às tantas, a um palco, iluminado consoante a fase do dia ou a importância da cena. Esta opção tem um efeito determinante: acaba por enfatizar o poder da encenação, da representação e, por sua vez, do teatro. Por sua vez, do texto, da literatura (o que é aliás aprofundado pela extraordinária narração de John Hurt). O certo é que a intenção do realizador era mesmo unir numa só obra de arte as três dimensões: cinema, teatro e literatura. O desfecho do aparente devaneio é brilhante. Dogville é um triunfo absoluto.

Excelentes desempenhos de Nicole Kidman, Paul Bettany, Patricia Clarkson, Ben Gazzara ou Stellan Skarsgärd, à frente de um elenco por demais talentoso. O retrato ao lado negro da humanidade (o oportunismo, o egoísmo, a exploração ou a vingança) é frio e cruel e tem um efeito redentor e inesperado perante os créditos finais - quando soa, desconcertante e carregada de simbolismo, a canção de David Bowie: Young Americans.

Eis, muito provavelmente e para além de todas as intenções estéticas, a mais simples e genuína essência do cinema.

The Big Man: Rapists and murders may be the victims according to you, but I, I call them dogs. And if they're lapping up their own vomit, the only way to stop them is with a lash.
Grace: But dogs only obey their own nature, so why shouldn't we forgive them?
The Big Man: Dogs can be taught many useful things, but not if we forgive them every time they obey their own nature.

19 comentários:

  1. Tenho-o juntamente com o Manderlay. Talvez a tua crítica me leve a vê-lo rapidamente. Ou não.

    Abraço

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  2. Acabei de revê-lo em DVD. Que isso! O filme é muito bom! O final então... sem comentários!
    =]

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  3. JACKSON: Ou muito me engano, ou a minha crítica ainda vai levar um tempinho para sair do forno. Não sei bem o que dizer do filme e que classificação lhe hei-de atribuir.

    ANDERSON SIQUEIRA: Não vou revelar ainda o meu veredicto... Mas concordarei contigo.

    CLEBER: Veja então! É filme essencial. =P

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

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  4. Lady on the Radiator12 de julho de 2009 às 01:21

    compreendo-te. nãoé um filme muito facil de criticar e de pontuar. não sei se já viste algum outro filme do Von Trier. senão, este não é o melhor para começar (era preferível um anterior ao dogma - Breaking the waves por exemplo) Eu, pessoalmente gostei do filme. Gostei mais do Dancer in the dark e, num outro registo, o idiotern. mas aguardo a tua crítica.

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  5. LADY ON THE RADIATOR: Eis, finalmente e tão atrasado, o meu veredicto. Já vi Dancer in the Dark, que a-do-rei. Podes consultar a crítica, clicando sobre o link. E este também adorei. Lars von Trier é único e um mestre.

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  6. Cara, esse filme me arrepia até hoje... Belíssimo...

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  7. Também tenho que ver ainda, se preceder a reputação de marco estético e temático dos anos 2000!

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  8. O CARA DA LOCADORA: É, como alguém disse, uma experiência irrepetível. Profundamente marcante.

    GUSTAVO H.R.: Aconselho vivamente. O filme é mesmo esse tipo de marco.

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

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  9. Mais um que não tive ainda a oportunidade de ver e que ainda tenho de colmatar essa lacuna, antes da estreia de Antichrist.

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  10. Isso aí é uma obra-prima, que vai ficar conhecida como divisora de águas em tepos breves.

    Abs!

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  11. TIAGO RAMOS: Recomendo vivamente. Não sei se já viste também DANCER IN THE DARK. São dois casos da filmografia de Lars von Trier mais recente e recomendadíssima.

    VUDU: Provavelmente. ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  12. Adorei-o no cinema quando saiu (foi lá que o vi).

    "Dogville" é um dos mais originais filmes e daqueles que sabe cruzar, com mestria, cinema e teatro, sob uma história que parece estar a ser contada de um livro (e aí o cruzamento também da literatura).
    É poderoso, até algo chocante e tocante totalmente.
    Tem uma das melhores prestações de Nicole Kidman (eu até nem simpatizo muito com ela) mas neste filme (e no "The Others") ela está irrepreensível.

    Já a sequela "Manderlay" fui assistindo pelo TVCine e não conseguiu me pegar tanto. Talvez estivesse num momento menos predisposto... e em casa os níveis de concentração para uma experiência destas são bem diferentes da sala de cinema.

    Cheguei a publicar umas linhas de pensamento no meu blog com uma dupla de filmes de Lars Von Trier.

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  13. ARM PAULO FERREIRA: Lars Von Trier é um dos maiores realizadores vivos, este é - incontornavelmente - um dos seus melhores filmes. Nicole Kidman tem um grande desempenho, sem dúvida.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  14. É, de facto, uma obra com interessante metáfora filosófica e não encontraremos aqui paralelismo com uma certa visão bíblica de Deus, encarnada na personagem de Nicole Kidman? Sofre, a princípio, um tormento físico semelhante ao de Cristo para, no fim, mostrar uma vingança digna do Velho Testamento.

    Trata-se de uma interpretação pessoal que nunca abandonei. Mas DOGVILLE permite explanarmos várias leituras.

    Um texto óptimo, como é habitual!

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  15. Mais um que vi recentemente. Gostei, não em proporções desmesuradas mas gostei. A história, a sua especificidade e formalidade são muito especiais, muito originais por isso se torna fácil a identificação para com o argumento. Focamo-nos mais nos acontecimentos e nas identidades e não tanto em artifícios cénicos e paisagísticos. Nesse sentido gostei bastante, a abordagem é única, desafiadora e arrojada pelo que me parece funcionar às mil maravilhas. A mensagem e as sub-mensagens são transmitidas na sua essência.

    Nicole Kidman arrebatou-me, como há muito não me fazia, isto claro consoante a minha estrada :)
    De resto Lars Von Trier revela-se um magnífico artesão e um homem extremamente provocador, e por isso algo visionário e único.

    abraço

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  16. SAM: Parece que partilhamos então do mesmo fascício pelo filme e pelas suas potencialidades.

    JORGE: Lars von Trier é um génio, às vezes custa-se a engrenar no seu jogo, mas uma vez engrenados é abismal, a experiência que nos espera. Cada filme seu é um filme a rever, por isso não te preocupes... certamente que o filme te conquistará completamente mais tarde. Se não o fizer, não o faz, mas creio que já lhe reconheceste méritos quanto baste ;)

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  17. Ao contrário do sentimento geral que este filme costuma despertar, no meu entedimento, penso que justiça e vingança não possuem afinidades em comum, e Lars von Trier não é uma pessoa das mais adequadas a dar preleções à humanidade.

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  18. ENALDO: De qualquer uma das formas, penso que também se confunde muito, presentemente, os disparates e as dementes confissões do Lars von Trier com a sua genialidade no domínio cinematográfico.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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