sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

DUNKIRK (2017)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dunkirk
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Harry Styles, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Tom Glynn-Carney, Barry Keoghan

Crítica:

A TENSÃO DO RESGATE

 Well done, lads. Well done.

Depois de explorar os limites do cosmos e da ficção científica com o fascinante e espectacular Interstellar, Christopher Nolan sentiu necessidade de reduzir a escala, de se centrar num episódio da história recente da sua pátria e de mergulhar no mais gritante realismo, como quem regressa a casa após a mais delirante das viagens, assentando os pés na terra e despindo-se de artifícios. Porém, a opção revelou-se-lhe tudo menos confortável, antes plenamente ambiciosa, absolutamente desafiante.

Como qualquer filme de Nolan, Dunkirk é sofisticado na fórmula que investe no espectador. Tripartindo o argumento e a acção, eis a evacuação de Dunquerque pela terra, pelo mar e pelo ar. Cada um dos três pontos de vista se entrelaça a um tempo diferente: respectivamente uma semana, um dia e uma hora. Na prática, a aparente complexidade desta decisão formal não resulta propriamente num quebra-cabeças, uma vez que cada linha diegética colide aqui e ali por meio de espaços, personagens ou meios de transporte (aviões ou barcos), dirimindo essa dificuldade e guiando o espectador por entre o labirinto. Recusando facilitismos do digital, Nolan exigiu uma produção à moda antiga, com uma épica coordenação de duplos, tiros e efeitos explosivos, potenciando a imersão do espectador pela imersão da equipa técnica nas águas. As dificuldades físicas para filmar as cenas foram as mais variadas. Nolan levou a cabo uma verosímil reconstituição dos reais acontecimentos no cenário real onde tudo aconteceu. Há poucas cenas de diálogos (às tantas mais parece que assistimos a um impiedoso filme mudo, embora repleto de poderosos e impactantes efeitos sonoros), o colectivo assume o papel protagonista (embora esteja por lá Tom Hardy, atrás da máscara, Kenneth Branagh e Mark Rylance) e Dunkirk revela-se essencialmente um filme de acção, deslumbrantemente coreografado e fotografado (belíssimo embora dificílimo trabalho de Hoyte Van Hoytema). É uma verdadeira lição de cinema, um brutal exercício de forma e de exibição técnica, quase na totalidade filmado com pesadas câmeras IMAX, a assegurar o mais espetacular enquadramento para o desaire e infortúnio de quatrocentos mil soldados, encostados pelo inimigo à mais inóspita praia da morte. E apesar da paisagem aberta, na maior parte dos casos, Nolan constrói um cada vez mais intenso e sufocante thriller de sobrevivência, assustadoramente claustrofóbico seja no interior de aviões que se afundam no canal, seja das embarcações que ascendem com a maré, seja no meio da multidão que se ajoelha e rebaixa do perigo em pleno pontão, sucumbindo à desolação e à tragédia. O contra-relógio da sobrevivência ouve-se a cada passo que se corre, a cada bater do coração, a cada bombardeamento: Hans Zimmer é exímio, fenomenal e implacável na escalada do suspense. A sua banda sonora é, em tudo, singular, e perfeitamente indissociável do ritmo da montagem (Lee Smith) e do próprio filme. Partilham, pois, o mesmo código genético e estão perfeitamente intrincados.

Dunkirk é uma experiência sensorial e profundamente cerebral - porventura, o mais cerebral de todos os filmes de Nolan, à data -, ainda que a emoção seja convocada pela frieza das circunstâncias e pelo gesto humano que, a jeito de milagre, resolve e decide, às tantas, o desenrolar da guerra e o destino do mundo. Ainda assim, Dunkirk gela-me o sangue. Nolan torna a surpreender, torna a afirmar-se. Ao mesmo tempo que desbrava novos caminhos, solidifica-se enquanto autor e cineasta. O que faz é indesmentivelmente estimulante e único. O cinema agradece e nós também.

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